Artigos

Publicado em Maio-Junho de 2009 (pp. 12-19)

Tendências religiosas do mundo contemporâneo

Por Pe. J. B. Libanio, sj

O cenário atual refrata em muitas cores a intensa luminosidade religiosa. A pluralidade de expressões desafia-nos a análise e deixa as pessoas perplexas no exercício da escolha. Comparam-na com um supermercado que oferece abundante diversidade de produtos.

 

1. Anúncio da morte da religião

Tudo começa com o declínio rápido da prática religiosa em dois setores importantes da sociedade: os intelectuais e os trabalhadores urbanos. Com tristeza, Pio XI (1922-1939) olhou para o mundo e disse: “A Igreja perdeu a classe operária”. Intelectuais de peso da modernidade, a partir sobretudo do século XVIII, com Holbach e os Enciclopedistas, com maior vigor no século XIX, com L. Feuerbach, K. Marx e F. Nietzsche e, em crescendo, no século XX, com S. Freud e os existencialistas ateus, até o atual novo ateísmo de D. Hawkins, S. Harris, F. S. Collins, C. Hitchens, A. Comte-Sponville, L. Ferry e M. Onfray, decretaram a morte definitiva de Deus, vendo a religião como delírio, ilusão, absolutamente inútil, engodo, instrumento inescrupuloso de dominação de religiosos, compensação, projeção.

Como se não bastasse, nos próprios arraiais das religiões institucionais, a secularização devastava a piedade, as práticas religiosas, o culto, a frequência às igrejas, a fim de definir uma fé pura, arreligiosa, secular, puramente humanista. Sem renunciar à fé em Jesus Cristo, proclamava-se um “cristianismo ateu”. Enfim, o panorama religioso se reduzia a rincões rurais, a camadas sociais apenas tocadas pela modernidade.

 

 

2. O quadro religioso plural

2.1. Em geral

P. Berger já vislumbrava na avalanche antirreligiosa o mover-se de anjos.[1] Em pouco tempo, parecia uma banda de heavy metal a ferir os tímpanos da cultura ocidental secularizada e ateia.

Na década de 1990 para a frente, começa a agitar-se a barulhenta mobilização religiosa que cresce até nossos dias, em que pese a arrogância de ateus e a onda consumista materialista.

A modernidade destruidora dos valores religiosos e a pós-modernidade desregrada no campo moral estão a produzir a reação fundamentalista nas diversas religiões. No meio católico, movimentos neoconservadores respingam-se de borrifos fundamentalistas. Atêm-se à rigidez da lei, à literalidade do texto religioso ou canônico, à submissão inconteste às autoridades, com culto aos líderes.[2] A insegurança provocada pela perda de referências básicas de vida, de valores, por obra da modernidade e da pós-modernidade, aninha-se bem em posições fundamentalistas. Em relação ao fundamentalismo islâmico, some-se a ele a conjuntura política que o açula. A modernidade secularista carrega-se, para ele, de cores agressivas à totalidade do universo: religioso, cultural, racial, político. E, do lado ocidental, escondem-se interesses econômicos e bélicos inconfessáveis sob o mesmo manto fundamentalista.

O complicador econômico, político, étnico e cultural torna o fundamentalismo muçulmano, palestino, judeu extremamente explosivo. A lucidez analítica percebe os ingredientes não religiosos. Mas as camadas populares assumem-no como um todo indivisível. Por isso H. Küng tem batalhado pela tese: “Não haverá paz no mundo sem paz entre as religiões”.[3]

O pentecostalismo surge como imenso continente. Entramos no coração do fenômeno religioso. H. Cox celebrara, no final da década de 1960, a cidade secular[4] e reconhece agora, na virada do milênio, que a espiritualidade pentecostal se arvora em fato de relevância única para a compreensão da cultura atual.[5] Afirma que ela está a reconfigurar a religião. Analisemo-la.

 

2.2. Cenário religioso brasileiro

No cenário brasileiro, a evidência do crescimento das Igrejas pentecostais e neopentecostais impõe-se à mínima observação. Basta andar com olhos abertos por bairros das periferias e ir observando, nas esquinas e ruas, o brotar crescente de novas Igrejas. O Censo 2000 do IBGE aponta para diversificação e fragmentação no campo religioso. A porcentagem de católicos diminuiu, entre 1991 e 2000, de 83,3% para 73,9%, enquanto os evangélicos cresceram de 9% para 15,6%, numa dispersão incalculável de denominações.[6]

O panorama pentecostal e neopentecostal revela enorme pujança na Igreja Universal do Reino de Deus e na Igreja Internacional da Graça de Deus. Na análise do especialista R. Mariano, a IURD cresce na base de um templo por dia. Possui rádios, canal de TV. Já dispõe de milhares de templos além das fronteiras do Brasil. Aponta-lhe as seguintes qualidades de êxito: inserção na mídia e na política partidária, competência administrativa, capacidade de mobilizar milhares de fiéis.[7] Outro estudioso chama a atenção para a relevância do demônio nos discursos e cultos da IURD. O bispo Macedo é visto como quem “conhece todas as artimanhas demoníacas. Seu frequente contato com praticantes do espiritismo, nas suas mais diversas ramificações, faz com que seja conhecedor da matéria”.[8] A exploração do demônio ancora-se em substratos profundos da cultura brasileira. Daí seu êxito. Guimarães Rosa manifesta perspicácia ao trabalhar a presença mítica do demônio na religiosidade popular em tensão com a razão. “O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver”. E as denominações pentecostais e neopentecostais exploram ao extremo esse traço religioso popular.

No Brasil, a onda religiosa liberalizante permitiu a manifestação autônoma das religiões afro-brasileiras, umbanda e candomblé. Até então existiam com frequência em amálgama sincrético com o catolicismo. A estrutura refletia o pensar religioso africano, e os termos religiosos eram hauridos do dicionário católico. Cresce o vigor desses cultos afro-brasileiros.

Acrescente-se a entrada de religiões de corte oriental. Embora estatisticamente não avulte, mostra a sede de expressões religiosas diferentes. Multiplicam-se cursos livres sobre meditação transcendental, ioga, zen-budismo. Organizam-se viagens turísticas de alto nível cultural-religioso em que os participantes, antes de visitarem a Índia ou outras regiões orientais, seguem ciclos de palestras e vão com guia de nível universitário. Durante a viagem, os turistas não só visitam lugares sagrados importantes, mas também se adentram em seus rituais, orientados por mestres. Faz-se questão de mostrar a diferença dessa experiência para o turismo puramente de curiosidade, sem comprometimento religioso. Cresce a procura por peregrinações a santuários e lugares sagrados.

Com maior consistência e presença na Europa, desenvolvem-se formas religiosas neopagãs. Os sentimentos motores de tal busca manifestam certa ambivalência. Revelam cansaço com as formas cristãs de viver a religião, considerando-as por demais restritivas em relação aos prazeres da vida presente. Creditam ao cristianismo a espiritualização do corpo e das realidades terrestres com laivos de desprezo gnóstico da matéria. Os neopagãos pretendem reencontrar a “inocência” primeira do culto aos deuses e deusas anterior à dominação do cristianismo. Associam-se também interesses ideológicos, racistas e neoconservadores, ao acusar o cristianismo de igualitarismo, de culto à pobreza e até mesmo de estar na origem da Declaração dos Direitos Humanos, de toque social e socializante. Mais uma vez, a religião se imiscui em fatores políticos e ideológicos de corte direitista.

Há um campo cinzento em que a tintura religiosa se mistura com práticas pararreligiosas de teosofia, antroposofia, rosacrucianismo, maçonaria, magia, ocultismo, gnosticismo, astrologia, adivinhação, esoterismo. E, em outros momentos, recorre-se a práticas corporais em que as posições do corpo, o controle da respiração e da postura se articulam com exercícios mentais e espirituais. Mistura-se ginástica com espiritualidade. Une-se a febre de academias com o interesse de atitudes anímicas superiores.

 

2.3. Concílio Vaticano II: divisor de águas

No mundo católico, o quadro religioso reproduz, a seu modo, a pluralidade de formas religiosas. O grande divisor de águas foi o Concílio Vaticano II. Após ele, na Igreja católica desenharam-se várias figuras católicas. Um grupo minoritário, que está a ganhar força, reagiu às suas inovações e se ateve fundamentalmente ao imaginário religioso tridentino, reforçado pelo Vaticano I. A figura de monsenhor Lefebvre tornou-se emblemática. E, no Brasil, tivemos seguidores na Diocese de Campos.

Um grupo, no início hegemônico, desencadeou profunda reforma na Igreja em várias direções. O movimento teológico trouxe a fé e a teologia de volta às fontes bíblicas e patrísticas; o movimento litúrgico valorizou a participação, a experiência existencial, a dimensão comunitária, a perspectiva pascal da liturgia; o movimento eclesial superou a eclesiologia da sociedade perfeita e do Corpo Místico, de cunho corporativo, em prol da eclesiologia do povo de Deus; o movimento dos leigos hauriu da Ação Católica especializada a convicção de seu protagonismo; o movimento ecumênico e o do diálogo inter-religioso e com os não crentes abriram a Igreja católica para as diferentes posições cristãs, religiosas e humanistas, com destaque para a liberdade religiosa; o movimento de teologia moral se livrou do formalismo e dialogou com os problemas da modernidade; o movimento missionário incentivou a inculturação, o respeito às culturas; o movimento social pôs a Igreja em diálogo com o mundo moderno e até com o socialismo. Numa palavra, o Concílio Vaticano II significou, sob certo aspecto, uma reconciliação com o mundo moderno.

 

2.4. Nas pegadas de Medellín

Na América Latina, firma-se outra figura propugnada por Medellín e seguidores. O quadro religioso articula-se com a problemática social de modo intenso e íntimo. Faz-se a opção pela libertação dos pobres, ao reconhecê-los como sujeitos evangelizadores da Igreja e transformadores da sociedade. Cria-se imaginário coletivo de compromisso libertador com os pobres. Acentua-se a dimensão profético-crítica em face da realidade social na perspectiva do pobre (luta em defesa dos índios, dos sem-terra e posseiros, do direito de greve dos operários). Sofrem-se perseguições por parte dos regimes militares autocráticos, até o martírio de muitos membros, sendo o monsenhor Oscar Romero símbolo vivo desse compromisso e testemunho. Assiste-se ao surgimento de comunidades eclesiais de base (CEBs), onde se pratica a leitura popular e militante da Escritura, em círculos bíblicos, com base no método desenvolvido por Carlos Mesters. Criam-se novos ministérios leigos, sobretudo nas CEBs. Na vida religiosa institucional, muitos deixam as grandes obras e inserem-se no meio dos pobres. Elabora-se consistente teologia da libertação originária do continente, e não mero reflexo da europeia. As celebrações litúrgicas assumem expressões de compromisso social: “romarias da terra”, “celebrações em defesa dos direitos humanos” etc. Igrejas particulares escrevem documentos de alto teor crítico sobre temas sociais. Desencadeia-se, na pastoral, amplo movimento de conscientização política e de educação popular libertadora, à base da pedagogia de Paulo Freire e do uso, na pastoral, do método indutivo do ver analítico, do julgar teológico e do agir pastoral. Em resumo, a partir de Medellín, a Igreja da América Latina firma algumas opções que a caracterizam não estatisticamente, mas simbolicamente. A tendência libertadora afeta o conjunto da teologia, da liturgia, da catequese e da prática pastoral.

 

2.5. Renovação Carismática Católica

Mais recentemente, desenha-se o perfil carismático. Nasce da revivescência espiritual do Vaticano II. Não segue a pujança renovadora no espírito crítico de diálogo com a modernidade, nem a linha libertária em face da situação de opressão dos pobres, nem mesmo resiste às mudanças no espírito do tradicionalismo tridentino. Constitui nova figura de presença da Igreja católica no momento atual. A Renovação Carismática Católica (RCC) oferece a expressão mais acabada do “carismatismo”.[9]

 

2.5.1. Experiências de oração e o batismo no Espírito

Estrutura-se com base em “experiências de oração no Espírito”. Portanto, duas coordenadas fundamentais orientam tal caminhada: oração e Espírito Santo. A vida comum é envolvida, pouco a pouco, por um clima de oração que lhe dá sentido, explicação, ânimo. E tal oração se manifesta na repetição de pequenas invocações que prendem a mente e criam clima espiritual. Os termos “aleluia”, “amém”, “graças” e semelhantes polvilham as orações. E como pano de fundo está a convicção de que o Espírito Santo perpassa todas as coisas e atividades.

A referência à ação do Espírito, de modo especial na oração de louvor, oferece sentido para as horas tristes e felizes. Desvia o olhar da realidade, na sua crueza analítica, para o horizonte consolador do Espírito, louvando a Deus. O real perde importância, na sua dureza, para valer mais a interpretação espiritual. O louvor tem a força de transfigurar positivamente todas as realidades. Essa atitude permanente de louvor desencadeia enorme energia de vida. Nada abala o caminhante, porque vive, na prática, o retrato da vida no Espírito traçado por são Paulo na epístola aos Romanos (Rm 8,1-39).

No centro está o batismo no Espírito, por meio do qual se inaugura vida nova. Conjuga o antigo e o novo, dando novo sentido a toda a vida por verdadeira conversão, ao transformar todas as trevas em luz. A figura do Espírito santifica e embeleza todas as realidades ao permeá-las.

O batismo no Espírito se concretiza na vida do peregrino carismático, por meio de sinais visíveis dos carismas, dos dons, da irradiação pessoal que possui. Azeita a engrenagem da existência. A vida flui com leveza interior, mesmo que o exterior pese. Atribui-se à força do Espírito a diluição da virulência dos embates externos.

A atração de tal caminho espiritual cresce pela via do contraste. Não foi em vão que uma de suas últimas fontes de animação viesse do confronto entre a vida no Espírito e a droga. Grupos carismáticos nasceram na universidade norte-americana como resposta cristã à loucura da droga. Com certa ironia, alguém escrevia: o Espírito, a última droga. Deixando de lado o aspecto grotesco da afirmação, há nela profunda verdade sobre a escolha de tal trajetória.

A droga pretende arrancar o jovem da dureza da vida, tanto dos problemas interiores — depressões, falta de sentido, vazio existencial — quanto da violência competitiva do mundo profissional. Aliena-o totalmente no transe químico, no fugir da realidade para viajar pelas paisagens alucinantes. Por sua vez, o Espírito experimentado nos grupos de oração e reforçado no batismo no Espírito possibilita ao jovem a experiência sadia de encontrar sentido e enfrentar os mesmos desafios sem a alienação da droga. O jovem adquire coragem e ânimo na experiência espiritual.

 

2.5.2. Difusão social da RCC

A RCC, a princípio, tocou as classes médias, mas atualmente se difunde também no meio popular, sobretudo depois que ampliou a presença nos meios de comunicação social: imprensa, rádio e TV. Ela oscila entre polos. Ora se atém estritamente ao aspecto institucional católico, ao demonstrar inconteste fidelidade ao magistério pontifício, ora extravasa em formas litúrgicas e de oração fora dos moldes oficiais. Apoia-se no respaldo romano e choca-se com normas pastorais de determinada diocese ou paróquia. Protesta comunhão com Roma, mas prescinde de diretivas locais. Ora a pertença à RCC revela fluidez, escolha em múltiplas expressões, ora se insiste no caráter de identidade católica irrenunciável. Ora imerge na diluição indefinida, ora se atém a certezas no meio de tantas ofertas e do caos pós-moderno de valores e sentido.

O entusiasmo e apoio refletem tal ambivalência. Roma, parte do episcopado e dos fiéis oferecem respaldo. E outra parte mantém restrições. Os analistas divergem na percepção prospectiva da RCC. Uns detectam sinais de declínio, enquanto outros a veem ainda florescente. Os movimentos de natureza carismática carregam dentro de si a característica de serem exuberantes nos inícios, arrefecerem aos poucos, mas, de repente, produzirem novo surto de vitalidade.

 

2.5.3. A RCC e a pós-modernidade

A RCC responde a várias características da pós-modernidade. Conjuga, ao mesmo tempo, um espaço de liberdade, de autonomia, de experiências existenciais subjetivas, de primazia da emoção, em busca de sentido para a vida, com formas tradicionais religiosas — terço, oração, missa — de submissão ao reinado de Deus, além do uso de recursos tecnológicos da modernidade avançada. Insere-se bem no contexto de extrema valorização do sujeito, de suas escolhas no meio de mudanças, do dinamismo e da pluralidade religiosa caleidoscópica, como proposta nova, viva, criativa e pessoal. Oferece aconchego comunitário numa sociedade duramente flagelada pelo anonimato, pelo isolamento e pelo individualismo. Ajuda as pessoas a superar a solidão e a tristeza, ao proporcionar encontros calorosos afetivamente.

Pós-modernos na afetividade, antimodernos na entrega ao poder transcendente sem problemas. Estabelece-se um jogo entre rastros pré-modernos de submissão e de acatamento do Transcendente e a experiência afetiva consoladora da pós-modernidade. O clima de liberdade e obediência, de proximidade de Deus e transformação interior, associa-se com um dos traços mais importantes do louvor a Deus. Este lubrifica todas as engrenagens da vida. “Não nos devemos preocupar com coisa alguma que não seja LOUVAR O SENHOR (o que nos dá abertura para a ação do divino Espírito Santo)”; “Senhor, eu vos louvo e agradeço porque vós me amais e eu vos amo”; “Agora, sim, encontrei Deus e descobri que o grande sentido da vida humana é o louvor do Senhor”.[10] Vemos, por breves testemunhos de carismáticos, a distância de tal experiência de uma modernidade conquistadora, transformadora, na direção da pós-modernidade fruitiva. Só que a fruição aqui se concentra na experiência e presença de Deus e não nos prazeres dos cinco sentidos.

 

2.5.4. O tema da libertação

O tema da libertação aparece, mas desloca-se o acento para o interior das pessoas: “Jesus me libertou de uma tristeza crônica que havia muito tempo me dominava. Libertou-me de um problema moral que estava me destruindo”; “Eu tinha muito medo do escuro, mas Jesus Cristo me libertou desse mal”; “Fui curado psiquicamente: fobias, complexos, escrúpulos e liberto do pecado (força maior para vencer)”; “Eu era escravizado pelo jogo de baralho. Eu sentia vontade e necessidade de abandonar e não tinha jeito. Fui liberto graças a Deus”; “Eu era muito tímido, me julgava inferior a todos, não tinha coragem de me abrir com ninguém, tinha muito trauma de infância, mas, depois que fui liberto pela cura interior, me senti outro, pude sentir que sou útil para Deus e insubstituível para ele”. A libertação interior atinge desde pequenas fobias de escuridão até pecados pesados do passado.

 

2.5.5. Aspecto comunitário e presença do líder

A pós-modernidade religiosa articula, com certa inteligência, o lado individual, existencial, com o calor comunitário. A RCC se tornou mestra nessa proposta existencial. Volta-se, em primeiro lugar, para experiências pessoais, individuais, como vimos acima: de oração e batismo no Espírito, de gestos de louvor, de amor, de avivamento interior, de libertação etc. Para alimentar e aprofundar tais vivências, vêm ao encontro os grupos de oração, as pequenas comunidades de vida. Em muitos deles, existe um líder que oferece maior segurança num caminho por si mesmo extremamente pessoal e subjetivo. A objetividade do orientador e coordenador da comunidade facilita a caminhada, tanto estabelecendo regras, orientações diretas, quanto partilhando uma experiência antiga e trabalhada. Ele oferece também apoio e credibilidade legitimadora para os sequazes do mesmo caminho. A ligação interna se faz menos pela proposta intelectual do que pelos laços afetivos de confiança mútua criados entre todos e, de modo especial, com o guru.

A beleza e a atração do itinerário carismático conjugam duas expectativas e buscas da pós-modernidade. De um lado, a individualização levada ao extremo. Que ninguém se meta no caminho escolhido com injunções autoritativas. Mas, de outro lado, a solidão da liberdade individual pesa muito. O caminho carismático facilmente se encontra com comunidades lá onde e enquanto se vivem a liberdade, a espontaneidade, a realização dos desejos espirituais e a possibilidade de partilhar a originalidade da própria experiência espiritual em contexto de afinidade e partilha pessoal, onde a partilha da experiência de um serve de conformação e legitimação para a experiência dos outros.

 

2.5.6. Surto espiritual numa sociedade pós-cristã

Chama a atenção que aconteça tal mobilização espiritual numa sociedade que se proclama secular, laica e até anticristã.

Precisamente neste momento, a onda carismática católica mostra vigor. Ela canaliza aspirações difusas presentes na sociedade, ao agrupar seguidores em comunidades. O clima carismático vai além da simples Renovação Carismática Católica. Mobiliza e ativa seguidores em outros movimentos de natureza similar. Ele baliza-lhes a trajetória, sem com isso trazê-los necessariamente a alguma instituição eclesial oficial.

Embora a via carismática se apresente, em termos religiosos, estatisticamente significativa, de fato, no âmbito social, não possui relevância. A cultura secularista prossegue avançando no campo político, econômico e cultural. E, se a proposta carismática alcança a mídia, isso ocorre pelo lado da notícia, do folclore, da exoticidade cultural, e menos por causa de proposta séria a ser seguida e vivida. A exacerbação carismática afetiva contrabalança a fraqueza social e a minguada repercussão intelectual na conformação da cultura. Os peregrinos de tal via defendem-se da desagregação e fragmentação pós-moderna com a afirmação da própria escolha. Não lhes interessa tanto a credibilidade cultural externa, mas, antes, a intensidade emocional do caminho tomado.

 

2.5.7. Caráter peregrino e liberdade em face do institucional

D. Hervieu-Léger, ao estudar a religiosidade atual, chamava a atenção para o caráter peregrino do trânsito de uma forma religiosa a outra na busca de “tempos fortes” e “lugares altos” para sentir-se bem. A RCC trabalha nessa perspectiva.

A trajetória carismática privilegia o bem-estar dos indivíduos. A vida comunitária serve como apoio. Desde o momento em que uma comunidade já não responde aos anseios dos membros, com muita facilidade a deixam, seja para migrar para outra, seja para prosseguir o caminho por conta própria. Com certa ironia, alguém dizia que algumas comunidades carismáticas parecem ônibus circular: sempre cheio, mas não com as mesmas pessoas. Frequenta-as quem e enquanto delas necessita e tira proveito. Faz parte dos estados altamente afetivos e de desejos livres intensos não gozar da estabilidade que a razão e o compromisso atestam. O segredo consiste em manter tal clima emocional entre os membros. A instabilidade das comunidades ameaça o prosseguimento do caminhar de muitos pela via carismática.[11]

Esse caminho carismático prescinde, em grande parte, das estruturas eclesiásticas, dos lugares institucionais administrados pelas Igrejas, para participar de “uma nebulosa de pequenos grupos e redes conectadas, de maneira flexível, a estruturas organizadas: movimentos espirituais, comunidades novas, ‘novas paróquias’ coordenando iniciativas largamente autogeridas, ONGs cristãs, centros de devoção ligados a lugares de peregrinação etc.”, observa D. Hervieu-Léger, ao falar da França.[12] Vale, em parte, em nossa realidade para os que caminham pela via carismática. A rotina das práticas religiosas que as religiões institucionais prescrevem se vê substituída por momentos intensos de celebrações, de vivências religiosas, em dias e festas inventadas pela criatividade dos fiéis ou de líderes. Estes rompem o ritmo da vida ordinária, tanto a secular como a rotina religiosa institucional. Faz lembrar aquele jovem, ao ser abordado por uma jornalista que lhe perguntava que faria dali a dez anos: “Mulher, eu nem sei o que vou fazer no fim de semana e você me pergunta daqui a dez anos?”.

A mobilidade atual ocorre por dois fatores que se somam. As conjunturas sociais e econômicas, de trabalho e de estudo impõem-se de fora. Mas acrescenta-se a elas a liberdade reivindicada pelas pessoas de escolher aqueles “tempos quentes” e “espaços altos” de seu agrado. Aqui funciona a lógica da afinidade pessoal no tempo e no espaço, e não mais a institucional, que os regulamenta.[13]

 

2.6. A Nova Era

Permeia esse quadro a Nova Era. A New Age ou Nova Era exprime um surto de espiritualidade das mais diferentes modalidades. Lança suas raízes bem longe. O termo inglês já está a dizer-nos que sua origem são os Estados Unidos.

O musical americano Hair, com a famosa canção “Aquarius”, anunciava essa “nova era”, espelhando-se nos astros e vendo reinar a paz e o amor. Tempo de Aquário. Talvez naquele momento não tenhamos percebido que estava surgindo novo movimento espiritual. Aquário é o signo zodiacal que se segue a Peixes. Como peixe é símbolo de Jesus Cristo, com essa “nova era” se quer anunciar a superação do Jesus Cristo do evangelho em proveito de novo clima espiritual mais difuso e vago. Aí a pessoa de Jesus assume outra função, como aparece nas peças de teatro Jesus Cristo Superstar e Godspell e na canção “Jesus Cristo” de Roberto Carlos. Essa onda mistura os elementos mais diversos: cristianismo, religiões orientais, animismo, magia, ocultismo, terapia espiritual, visão holística ou de totalidade da realidade, reencarnação, traços naturistas de corte ecológico etc.

A Nova Era exprime, pois, esse sentimento e desejo religioso vago de pessoas sequiosas de realidades espirituais, transcendentes, por sentirem-se sob o peso do materialismo, do consumismo e do cientificismo da cultura atual.

O elemento de alívio psicológico assume importância. Muitos entram nesse movimento atrás de ajuda psicológica, de solução para seus problemas humanos interiores, desde a falta de sentido para a vida até a dependência de drogas. Há uma procura da “cura” de doenças psicológicas que muitas vezes têm repercussões no corpo. E, à medida que as pessoas se vão sentido melhor, mais elas se adentram nessa onda. A Nova Era tem dado sentido espiritual à vida que até então era vista unicamente de modo materialista. Atua no nível psicológico, ao curar as pessoas de seus problemas psíquicos ou, pelo menos, trazendo-lhes alívio. Oferece-lhes uma visão de totalidade num mundo extremamente fragmentado e promete-lhes uma ampliação da mente para além do mundo sensorial comum. Não raro, sugere teorias reencarnacionistas, ao criar a ilusão da volta a esta terra como alívio diante do medo da morte e do peso da culpa. Serve de consolo pela perda de entes queridos, sobretudo quando de maneira precoce. Vem em ajuda de pessoas que sofrem de carência afetiva, de problemas pessoais, de solidão, para suavizar-lhes as cargas afetivas. Trata-se de proposta espiritualista vaga.

 

3. Conclusão

O quadro religioso facilmente nos induz a equívocos. Cabe desfazê-los. O processo de secularização não estancou. Continua. Ele mostra nova face. Benedetti, com base na lembrança de Huizinga sobre o declínio da Idade Média, compara-o ao momento atual como seu avesso. Lá, no ambiente religioso, conviveram glutonarias, bebedeiras, sexo embalado pelas melodias da tradição mais sagrada da música cristã, como o “Tantum ergo”. Tratava-se de paródia blasfema que punha lado a lado o lamento de amantes infelizes e hinos à Virgem. Tão religioso era o ambiente, que se passava às perversidades morais com moldura sagrada. Mais tarde, no Renascimento, a sagrada Cúria romana conheceu bacanais num continuum. Hoje se dá o inverso. No todo do secular, do mundano, do consumismo midiático, o religioso entra qual ingrediente a mais, sem autonomia e real consistência. Não se sabe se temos um carnaval religioso ou uma religião carnavalesca. O desfibramento religioso parece acontecer.[14]

Pastoral lúcida não embarca facilmente na ilusão da volta do sagrado, mas antes percebe sua metamorfose ambígua. Mais que dar resposta, cabe ao cristão ler a realidade religiosa atual à luz da fé como obediência à palavra de Deus e seguimento do Jesus histórico. O último critério não vem da experiência do Espírito, a qual não raro nos ilude, mas do seguimento do Jesus histórico, comprometido com o Reino de Deus, anunciado primeiramente aos pobres. A tradição da libertação, mesmo sem a exposição midiática de décadas anteriores, continua a apontar corretamente o caminho de discernimento das tendências religiosas atuais na dura linguagem paulina: “Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1Cor 2,2); “Nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios” (1Cor 1,23); “quem ousar pregar outro Cristo: seja anátema” (Gl 1,8s).



[1] P. Berger. Um rumor de anjos. Petrópolis: Vozes, 1973.

[2] G. Urquhart. A armada do papa: os segredos e o poder das novas seitas da Igreja católica. Rio de Janeiro: Record, 2002.

[3] H. Küng. Projeto de ética mundial: uma moral ecumênica em vista da sobrevivência humana. São Paulo: Paulinas, 1992, pp. 108ss.

[4] H. Cox. A cidade do homem: a secularização e a urbanização na perspectiva teológica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968.

[5] H. Cox. Fire from heaven: the Pentecostal spirituality and the reshaping of religion in the twenty-first century. New York: Addison-Wesley, 1995.

[6] A. Antoniazzi. Por que o panorama religioso no Brasil mudou tanto? São Paulo: Paulus, 2004, p. 9.

[7] R. Mariano. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1999, pp. 51 e 53ss.

[8] J. Cabral. “Apresentação”, in: Macedo, bispo. Orixás, caboclos e guias: deuses ou demônios? Citado por: A. dos Santos Oliva. A história do diabo no Brasil. São Paulo: Fonte, 2007, p. 194.

[9] B. Carranza. Renovação Carismática Católica: origens, mudanças e tendências. Aparecida: Santuário, 2000.

[10] P. A. Ribeiro de Oliveira et al. Renovação Carismática Católica: uma análise sociológica, interpretações teológicas. Petrópolis: Vozes: INP: Ceris, 1978.

[11] D. Hervieu-Léger. Vers un nouveau christianisme?: introduction à la sociologie du christianisme occidental. Paris: Du Cerf, 1986, pp. 343-354.

[12] D. Hervieu-Léger. Catholicisme, la fin d’un monde. Paris: Bayard, 2003, p. 276.

[13] D. Hervieu-Léger. Catholicisme… p. 284.

[14] L. R. Benedetti. “Apresentação”, in: B. Carranza. Renovação Carismática Católica: origens, mudanças e tendências. Aparecida: Santuário, 2000, pp. 12ss.

Pe. J. B. Libanio, sj