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Publicado em Maio-Junho de 2004 (pp. 9-14)

A mensagem da Lumen Gentium (Capítulos 1 e 2)

Por Pe. José Comblin

A Constituição Lumen Gentium sobre a Igreja é o resultado do conflito entre duas eclesiologias. Esse conflito constituiu a estrutura de fundo de todos os debates conciliares, o que se refletiu nos documentos produzidos. Lumen Gentium é bem representativa do Vaticano II. Aí aparecem, de forma clara, duas eclesiologias.

Por que o conflito?

Porque a maioria conciliar teve atitude oposta à da maioria no Concílio Vaticano I. No Vaticano I, os bispos defensores da colegialidade episcopal e dos direitos dos bispos eram minoria. Essa minoria foi esmagada, apesar da sua importância numérica. Não se lhe fez nenhuma concessão. Por isso a minoria abandonou o Concílio, protestando contra a arrogância da maioria que queria a proclamação da infalibilidade e da primazia do papa sem nenhuma restrição nem compensação que favorecesse o episcopado. O Vaticano I fez com que os bispos fossem transformados em simples funcionários da Igreja romana, encarregados de governar as Igrejas locais em nome do papa. Era o que a maioria queria.

No Vaticano II, a minoria do Vaticano I havia se tornado maioria. No entanto, a nova maioria não quis tratar a minoria do modo como havia sido tratada no passado. A maioria abriu espaço para a minoria e integrou nos textos muitas reivindicações da minoria. Dessa maneira, foram publicados textos dotados de evidente ambiguidade: textos representantes da eclesiologia majoritária em convívio com textos totalmente diferentes, que representavam a voz da minoria. O preço dessa atitude “democrática” da maioria foi o enfraquecimento do texto final, suscetível de interpretações contraditórias.

Na realidade, a consequência dessa atitude de tolerância foi que os textos puderam ser invocados pelas duas eclesiologias. A história do Concílio mostra claramente que o que houve de novo, o que aparecia como novidade — mas era o sentido da Bíblia e da Tradição de mais de mil anos — representava o pensa­mento da grande maioria. Não há como conferir o mesmo peso às duas categorias de textos. Uma série de textos expressa o pensamento da maioria e outros representam apenas concessão feita à minoria.

Como explicar tanta tolerância para com uma minoria bastante turbulenta, mas pouco representativa?

A minoria, defensora da antiga eclesiologia, era dirigida pela Cúria. Desde o início a Cúria procurou impedir a realização do Concílio. A maioria dos membros da Cúria era hostil ao papa João XXIII e não escondia essa hostilidade. A Cúria conseguiu dirigir toda a fase pré-conciliar e preparar esquemas representativos da eclesiologia romana tradicional.

Na véspera do Concílio, entre os defensores da nova eclesiologia, o ambiente era bastante pessimista. Muitos achavam que a Cúria iria controlar a assembleia e conseguiria anular o projeto do papa. Por sua vez, os partidários da eclesiologia romana estavam otimistas. Achavam que poderiam fazer do Concílio pura celebração festiva, que votaria os documentos preparados pelas comissões dirigidas por eles. Achavam que o Concílio não iria durar mais do que algumas semanas. Todo esse plano foi desmontado por alguns cardeais que se puseram firmes e receberam o apoio da grande maioria. Também o papa usou toda a sua autoridade para estimular e orientar o Concílio no sentido desejado por ele. O papa queria realmente que o Concílio se inspirasse nas suas orientações — particularmente expressas no discurso inaugural.

Mas a Cúria não desistiu e, durante todo o Concílio, procurou obstaculizar a orientação dada pela maioria. Nem João XXIII nem Paulo VI quiseram desautorizar oficialmente os líderes conservadores da Cúria. Esta, longe de aceitar as orientações dos papas, nunca deixou de conspirar. Com a sensibilidade de funcionários eclesiásticos, entreviam que, caso se aplicasse o princípio de colegialidade, o papa não iria perder sua importância, mas a Cúria teria o seu papel muito reduzido. Membros da administração defendiam supostos direitos adquiridos, e a rejeição da teologia que justificava a concentração de poderes na Cúria romana vinha a enfraquecer essa argumentação. Rejeitada aquela teologia, as repartições da Cúria perderiam muitas atribuições.

Bem mais cedo do que se podia esperar, o partido da Cúria recuperou-se e procurou limitar a aplicação do Concílio. Uma administração pode paralisar inteiramente a vontade do governante. A Cúria não quis ceder nada dos seus poderes e lutou durante 40 anos contra todas as novidades conciliares, particularmente contra as conferências episcopais — as quais conseguiu anular ou reduzir a um papel puramente decorativo — e as teologias locais que tendiam a aumentar a responsabilidade das Igrejas locais. A teologia do povo de Deus acabou sendo eliminada no Sínodo de 1985, que supostamente se reuniu para atualizar o Concílio, mas, na realidade, tirou dele muito do que havia de novidade. A Cúria continua sendo inspirada pela teologia romana de séculos passados. Conseguiu apagar a teologia conciliar, tornando-a suspeita.

Desde o início do atual pontificado, buscou-se purificar a Igreja de todo o fermento transformador do Vaticano II, voltando à teologia anterior. Para isso, reforçou-se o partido anticonciliar na Cúria e mudou-se completamente o rosto do episcopado, nomeando sistematicamente bispos inteiramente submissos, que aceitam com gratidão o papel de funcionários da Cúria romana. A cada cinco anos os bispos devem visitar a Cúria romana, que lhes impõe a sua estratégia. Os bispos são considerados inferiores aos prelados da Cúria e devem contentar-se com alguns gestos amáveis do papa como “prêmio de consolação”. O discurso oficial de fidelidade ao Concílio Vaticano II está longe de traduzir-se em prática cotidiana.

 

1. Eclesiologia pré-Vaticano II

Voltemos aos tempos do Concílio Vaticano II e ao debate eclesiológico.

A teologia romana formou-se durante mil anos, a partir das lutas entre os papas e os imperadores. Ela cresceu e se fortaleceu. Saiu muito reforçada do Concílio de Trento. Com efeito, a chamada reforma da Igreja — que era mais uma contrarreforma do que uma reforma — foi entregue ao papa e, desta maneira, os bispos perderam o seu direito de iniciativa. Em nome da reforma, a Igreja romana concentrou todos os poderes e centralizou toda a administração. Daí em diante definiu e uniformizou a liturgia, o catecismo, o direito canônico e o governo habitual das Igrejas — com a publicação do Código de direito canônico, em 1917, conquistou o direito de nomear todos os bispos.

Os pontos básicos dessa doutrina são os seguintes:

1. A Igreja é uma sociedade organizada, uma instituição fundada por Jesus que se impõe à humanidade sem que esta possa mudá-la em nada. Supõe-se que Jesus fundou a instituição com todas as suas estruturas. Tudo o que constitui a instituição viria de Jesus ou dos delegados escolhidos por ele. Os cristãos dependem totalmente da instituição e, diante dela, são receptores passivos. Belarmino comparava a Igreja com o reino da França ou a república de Veneza. A Igreja é considerada semelhante ao Estado. Como o Estado, ela é uma instituição e uma realidade abstrata, feita de leis e relações de dependência. A Igreja se mantém por meio de leis atribuídas ao próprio Deus. Nessa instituição, o elemento ativo é o clero — contingente auxiliar do papa. Os leigos são elementos passivos que devem obedecer ao clero — e constituem o contingente deste em vista da salvação, da defesa e do progresso da Igreja. Notemos que até hoje a imensa maioria do clero e dos leigos, quando ouve a palavra “Igreja”, pensa “clero”. A Igreja católica é identificada com a hierarquia. Quando alguém pergunta: “O que diz a Igreja?”, quer saber o que dizem os bispos ou o papa. “A Igreja ensina que…” quer dizer: “Os bispos ou o papa ensinam que…”. Nesse sentido, embora tenham passado 40 anos do Concílio, a mentalidade do povo cristão em geral não mudou. As reformas conciliares ficaram muito superficiais, porque a administração eclesiástica impediu que penetrassem na massa dos leigos. Para o povo, a Igreja ainda é identificada com o papa e os bispos, juntamente com o clero e os religiosos. Os leigos não sentem a Igreja como própria. Não sentem que a Igreja somos “nós”. No Concílio esperava-se poder mudar essa mentalidade.

 

2. A Igreja e o mundo são duas entidades distintas, que existem separadamente, embora haja relações entre si. A Igreja não pertence ao mundo, não tem nada que ver com os pecados do mundo, não tem nenhuma responsabilidade. O mundo é pecador e a Igreja é santa. Alguns membros da Igreja podem cometer erros e até pecados, mas ela não está em nada comprometida com isso, pois esses membros agiram em sentido contrário ao dela. A Igreja não tem nenhuma responsabilidade nos pecados de alguns dos seus membros. A relação entre ela e o mundo é semelhante à relação entre o bom samaritano e o homem ferido na estrada. A Igreja, cheia de compaixão, cuida do ferido e o salva. É assim que a ela se entende. A Igreja ensina ao mundo, mostra o caminho, revela a verdade. Denuncia o pecado do mundo, exorta para a conversão, sempre como quem está na parte de fora: fala aos outros, mas não a si mesma. Acha que, infelizmente, o mundo não quer escutar, não quer seguir o caminho mostrado por ela, e, por isso, mergulha no pecado. A Igreja fez o que devia e não se responsabiliza mais pelo que acontece. Essa tese é correlativa à primeira. A relação entre Igreja e mundo é radicalmente desigual: a Igreja age sobre o mundo, mas o mundo não age sobre a Igreja. Esta é ativa e aquele é, ou deve ser, passivo.

 

Essa ainda é a mentalidade do clero em geral e da hierarquia em particular. Para boa parte do clero, o pecado é dos outros, e a Igreja é pura e santa. Esses padres têm uma consciência inocente. Não se sentem culpados em nada daquilo que acontece no mundo. O problema é que, fora da Igreja, não se acredita nisso; pelo contrário, muitos mostram todas as responsabilidades da Igreja — da hierarquia e do clero — em relevantes pecados sociais e políticos.

Essa teologia, dominante desde o final da Idade Média, foi codificada no Concílio de Trento e alcançou o ponto culminante depois do Vaticano I com os papas Pios. No entanto, desde o século XI alguns teólogos não conformistas começaram a descobrir a contradição entre essa teologia e as fontes do cristianismo. No século XX, os movimentos bíblico e patrístico, à medida que biblistas e historiadores se emancipavam da teologia sistemática dominante, descobriram a evidência: a eclesiologia da Bíblia e da patrística era diferente da que estava em vigor. O problema passou a ser este: como convencer a hierarquia da Igreja de que a sua concepção teológica não conjugava a verdadeira Tradição, mas era o resultado de circunstâncias históricas? No pontificado de Pio XII, eram poucos os que esperavam que a Igreja católica tivesse a possibilidade de voltar ao evangelho — uma vez que estava encerrada no sistema religioso criado no decorrer do segundo milênio e consolidado depois de Trento. A Igreja era prisioneira de certa escolástica que se construíra para si mesma e a tornava prisioneira. Evidenciou-se a enorme defasagem da teologia que orientava a administração eclesiástica. Os teólogos escolásticos não se importavam com o trabalho dos exegetas. Eles repetiam os textos que recitavam desde o século XVI, sem levar em conta o trabalho paciente dos biblistas. Estes viviam em semiclandestinidade, perseverando num trabalho que não tinha nenhum efeito no ensino e na marcha da Igreja.

Com a chegada de João XXIII ocorreu o que não era previsível. João XXIII não era teólogo nem biblista. Mas, pela sua formação e pela sua carreira, era muito sensível aos movimentos sociais católicos e à situação do mundo dos trabalhadores. Nessa época houve uma aliança entre, por um lado, a teologia bíblica e patrística e, por outro, os movimentos sociais — nos quais, os católicos comprometidos faziam a experiência diária da falsidade da eclesiologia oficial. Eles não eram membros passivos da Igreja. Eram ativos. Não estavam separados do mundo, mas viviam mergulhados no mundo, participando dos seus dramas. Não podiam aceitar uma Igreja distante do mundo e não comprometida. Durante quase cem anos houve comunicação entre a nova eclesiologia e os leigos socialmente comprometidos. Tudo isso desembocou no Concílio. O Vaticano II foi o principal lugar de encontro entre o laicato comprometido no mundo e a nova eclesiologia bíblica e patrística.

 

2. Nova eclesiologia

A nova eclesiologia, a única realmente tradicional, pode ser condensada em duas teses.

1. A instituição existe dentro da Igreja como serviço, mas ela não é a Igreja. A Igreja não é entidade abstrata. Ela é feita de seres humanos concretos, homens e mulheres que vivem neste mundo. Também os membros ordenados da hierarquia e do clero são seres humanos, e a ordenação não os separa dos outros. Para expressar essa realidade concreta, a Bíblia escolheu o tema de povo de Deus. O povo não é uma instituição. Ele existe antes de qualquer instituição, e as instituições somente se justificam quando estão a serviço do povo. Deus fundou o seu povo antes de todos os elementos institucionais. Todos são ativos e recebem o Espírito Santo, todos participam do magistério, dos sacramentos e do governo desse povo. O povo de Deus existia antes dos apóstolos — postos por Jesus para serem testemunhas de tudo o que tinham visto e ouvido. O povo é anterior à hierarquia. A eclesiologia tridentina dizia que a hierarquia gerava a Igreja porque gerava os seus membros como depositária dos sacramentos, do magistério e do governo. Mas esses são sinais da operação do Espírito Santo. Quem gera a Igreja é o Espírito Santo, embora se possam usar sinais exteriores e serviços de servidores especializados nesses sinais. Porém a graça de Deus não é dada pela hierarquia. Os sinais são ministrados por ela, mas a graça somente pode vir de Deus. O Espírito Santo gera a Igreja, cria ministérios e também pode gerar e escolher muitos membros do povo de Deus que nunca receberam esses sinais.

 

2. O povo de Deus é parte da humanidade, consiste nos mesmos homens e mulheres que estão inseridos na sucessão das gerações, implicados no mesmo tecido social e nas mesmas tarefas de toda a humanidade. Eles são uma porção da humanidade com uma missão específica: de ser testemunhas de Jesus Cristo, continuando a missão de Jesus no meio dos irmãos. Eles não têm nenhuma autoridade sobre os irmãos que procuram atrair e convencer. Devem entrar em colaboração com estes nas mesmas tarefas para libertar a humanidade dos seus pecados. Com certeza, a libertação inclui também a luta contra as forças adversas, contra a resistência do mundo material e contra todos os obstáculos naturais à sobrevivência do gênero humano. No entanto, em primeiro lugar, existe a luta contra os males dos quais os próprios homens são os autores, e esses são os que chamamos de pecados. O pecado é o mal provocado pelo ser humano, individual ou coletivo. O povo de Deus sofre permanentemente a influência da humanidade inteira e dos seus companheiros na vida diária. Os membros desse povo são tentados a cometer os mesmos pecados. Devem converter-se todos os dias e não se considerar seres já convertidos — que doravante estariam acima da humanidade comum.

 

3. Eclesiologias em discussão

Essas foram as duas eclesiologias que entraram em confronto durante todo o Concílio, mas sobretudo na discussão do documento conciliar sobre a Igreja (Lumen Gentium). A comissão preparatória, dominada quase totalmente pela Cúria e os seus teólogos, tinha preparado um texto sobre a Igreja que o cardeal Ottaviani apresentou à assembleia como tão perfeito que podia ser adotado tal qual. Ele aceitava algumas emendas, mas puramente secundárias. A doutrina do documento lhe parecia perfeita, e de fato ela representava perfeitamente a eclesiologia da Cúria romana.

O documento preparado pela comissão foi apresentado no dia 1º de dezembro de 1962, na 31ª congregação geral. A discussão ocupou desde a 31ª até a 36ª congregação, ou seja, seis dias. Foi o momento decisivo do Concílio, pois se definiram aí os seus rumos. A partir desse momento se soube qual era o verdadeiro debate — o que orientou as três sessões seguintes do Concílio.

Na discussão, vários cardeais e bispos tomaram a palavra para defender o texto proposto pela comissão. Mas outros manifestaram-se para mostrar as deficiências do texto. Os argumentos destes convenceram. No dia 1º de dezembro houve uma intervenção de D. Emílio De Smedt, bispo de Bruges, na Bélgica, denunciando o triunfalismo, o clericalismo e o juridicismo do esquema proposto. Tocou nos pontos mais sensíveis, expressando as acusações que se faziam sem cessar à Igreja no mundo contemporâneo. Além do texto, ele questionava toda a eclesiologia que tinha predominado desde o século XIV. Essa intervenção abalou profundamente o partido conservador e fortaleceu a decisão do partido conciliar.

A 33ª congregação, reunida no dia 4 de dezembro, foi decisiva, e a assembleia definiu claramente a orientação que queria dar ao Concílio. O cardeal Frings, falando em nome de todos os bispos de língua alemã, rejeitou o esquema da comissão e pediu nova redação. Depois dele houve o discurso do cardeal Suenens, propondo a rejeição do esquema e a formulação de um novo. Apelava para a intenção do papa, mostrando que o problema principal da Igreja era o diálogo como mundo e que se tratava de mudar a Igreja em função desse objetivo. Contrariamente ao regulamento, o discurso de Suenens foi ovacionado de forma demorada. Nisso se manifestava claramente o desejo da assembleia no seu conjunto. Depois desse discurso, todos entenderam que a causa estava definida. No dia seguinte o cardeal Montini exigiu também uma revisão completa do esquema apresentado, dando apoio à tese de Suenens, e a sua maneira de falar não permitia duvidar de que expressava o pensamento do papa.

É importante lembrar esses acontecimentos porque mostram qual era a posição da grande maioria dos bispos e do papa, a posição de resistência da Cúria e a existência de uma minoria de bispos ignorantes da teologia contemporânea, apegados a fórmulas do passado, completamente separados do mundo atual. Não haviam compreendido as preocupações do papa ao reunir o Concílio. Nesse momento, todos no Concílio estavam muito conscientes de que se tratava de um debate entre duas eclesiologias e que a grande maioria, com o apoio do papa, tinha feito opção clara por uma dessas eclesiologias, sabendo muito bem o que queria. A partir desse momento os termos do debate estavam muito claros.

O resto foi consequência dessa opção. O papa nomeou nova comissão teológica, cujos membros eram representativos da maioria da assembleia. Os exegetas e teólogos que haviam sido condenados sob Pio XII foram os que orientaram os trabalhos dessa nova comissão.

Os bispos e teólogos prepararam novo esquema. Na realidade houve três propostas: uma apresentada pela Alemanha, outra pela França e a terceira pelo Chile. O novo texto foi preparado com base nesses textos — principalmente os primeiros dois. Houve muitas emendas, com a introdução de temas antigos da escolástica. Alguns capítulos representaram mais a posição antiga. Mas, de qualquer maneira, para a interpretação dos textos, que foram finalmente aprovados, não se pode dar igual valor a todas as proposições enunciadas. Algumas queriam expressar explicitamente a opção da maioria e outras foram introduzidas para não desagradar à minoria.

 

4. Sequência dos capítulos e conteúdo

Vale a pena chamar a atenção para alguns itens particularmente significativos da Lumen Gentium. Os autores puseram como primeiro capítulo o mistério da Igreja, isto é, a relação da Igreja com as Pessoas divinas. Em lugar de começar por uma exposição jurídica, como na teologia escolástica, acharam necessário destacar a relação com as Pessoas divinas, isto é, o aspecto invisível da Igreja.

Para esse fim, quiseram relacionar a Igreja com as três Pessoas divinas e não com “Deus” — a natureza divina que, no linguajar da Igreja latina, substitui tantas vezes as Pessoas divinas e não é compreendida pelos orientais. Falar em “Deus” pode dar a entender que existe uma quarta Pessoa divina chamada Deus. Ora, não há um sujeito divino, mas uma natureza divina e três sujeitos que são as três Pessoas divinas. Dessa maneira os padres conciliares queriam voltar ao modo de expressão da Bíblia e da Igreja antiga, particularmente da tradição oriental conservada até os nossos dias.

Os padres conciliares evitaram o linguajar escolástico e resistiram à tentação de dar uma “definição” de Igreja. Quiseram voltar à maneira da Bíblia, que usa muitas comparações e metáforas para falar do mistério da Igreja, não ficando numa noção abstrata. Os padres quiseram sobretudo evitar que prevalecesse uma definição jurídica de Igreja.

O segundo ponto fundamental foi a opção pela ordem dos capítulos. Isso foi longamente debatido. O esquema da Cúria queria falar primeiro da natureza divina da Igreja na sua relação com Deus, em seguida da hierarquia e depois dos leigos. A nova comissão propôs e defendeu a ordem inversa: primeiro o povo de Deus; depois, a hierarquia. Essa sequência, longe de ser pormenor acidental, era um fato altamente simbólico: manifestava a intenção profunda da imensa maioria dos membros do Concílio. A presença do texto sobre o povo de Deus, no capítulo 2, antes texto sobre a hierarquia, no capítulo 3, é o símbolo de todo o projeto do Concílio. O povo de Deus era a Igreja de todos os fiéis no meio dos povos da terra.

Com essa mudança na ordem dos textos, o Concílio queria ensinar que na raiz os cristãos são iguais, sendo todos membros do povo de Deus, com a responsabilidade de caminhar seguindo o evangelho. No seio do povo há serviços especiais. Mas os membros da hierarquia ou do clero não têm um destino diferente em virtude da ordenação. Não se salvam pela ordenação, mas pelo seguimento de Jesus, como todos os batizados. O que é comum a todos os cristãos é muito mais fundamental do que o que os distingue.

Em segundo lugar, o Concílio quis expressar dessa maneira que a Igreja está entre a humanidade, participa do destino da humanidade. A hierarquia está a serviço do povo — dos seres humanos —, e não o contrário. A Igreja está a serviço da humanidade e não tem outro significado. A lei é feita para os homens, e não os homens para a lei. Havia muitas outras considerações que justificavam a inserção do capítulo sobre o povo de Deus antes do capítulo sobre a hierarquia, mas os dois pontos acima indicados expressam as motivações principais. Naturalmente a opção conciliar estava fundamentada no Novo Testamento.

Outro parágrafo relevante é o n. 12, que fala do Espírito Santo. Foi importante dizer que o Espírito Santo não santifica e conduz a Igreja somente pelos sacramentos e pelos ministérios, mas por todos os carismas espalhados no seio do povo de Deus — o que desmonta a teoria tradicional segundo a qual a hierarquia é que gera e conduz a Igreja. A hierarquia desempenha a sua parte, mas todos os cristãos podem também ter a sua participação ativa na condução do povo de Deus. Para quem conhece a Bíblia, não há nisso nenhuma novidade, mas a teologia ignorou essa realidade durante sete séculos e o Magistério agiu baseado nessa teologia, como se Deus fizesse tudo por meio da hierarquia.

O papa havia também manifestado claramente que o ecumenismo seria uma das prioridades da Igreja. Ora, a teologia escolástica dominante não deixava muito espaço para as Igrejas separadas, e a prática do ecumenismo era algo muito arriscado porque podia atrair condenações a qualquer momento.

O tema entrou a propósito do primeiro capítulo, n. 8, b. Uma vez definido o mistério da Igreja e a unidade entre os aspectos invisível e visível, era o momento de explicitar quem era membro desse povo de Deus. Segundo a doutrina escolástica, essa Igreja, esse povo de Deus, visível e invisível, era a Igreja católica. A teologia empregada queria mostrar a identidade entre o povo de Deus e a instituição chamada Igreja católica. Com isso, qualquer ecumenismo seria impossível. Houve discussões e, finalmente, quiseram contornar a questão e deixar espaços livres. Disseram: “Esta Igreja… subsiste na Igreja católica”, o que não exclui que possa subsistir, de alguma maneira, nas outras denominações cristãs. De fato mais adiante havia algumas explicações sobre as diversas formas de participação no povo de Deus.

 

5. A Lumen Gentium no contexto conciliar

O texto da Lumen Gentium deve ser interpretado no contexto global do Concílio. Sem dúvida, o documento que deu a tonalidade final e definitiva ao Vaticano II foi a Gaudium et Spes. É o que se manifesta claramente no discurso de Paulo VI no encerramento do Concílio. Para resumir a obra conciliar, Paulo VI destaca que nele a Igreja se definiu como servidora da humanidade. A Igreja quer estar a serviço do ser humano. Isso é o amor ensinado por Jesus e não é nenhuma concessão feita ao mundo contemporâneo. A Constituição sobre a Igreja foi publicada em 1964. No entanto, ela toma o seu sentido definitivo no final do Concílio, no dia 8 de dezembro de 1965. Por conseguinte, o que se deve salientar é tudo aquilo que mostra a Igreja como servidora da humanidade, presença ativa no mundo, participante das alegrias e esperanças do mundo. Por outro lado, os textos que lembram o triunfalismo de uma Igreja-fortaleza unida contra o mundo devem ser relativizados.

O discurso de encerramento de Paulo VI mostra claramente que o Papa estava bem consciente das objeções que se fariam ao Concílio — já em andamento por parte da Cúria.

Hoje, 40 anos depois da promulgação da Constituição Lumen Gentium sobre a Igreja, a única saída viável consiste em retomar os princípios enunciados naquele tempo e que não foram promovidos de modo suficiente.

Nesse sentido, é importante salientar a atualidade da Constituição Lumen Gentium. Nos seus pontos decisivos, ela ainda não foi aplicada — a não ser de modo muito parcial e localizado. Ainda é um desafio a ser assumido pelas novas gerações.

Pe. José Comblin