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Publicado em Julho-Agosto de 2008 (pp. 32-39)

A missionariedade dos presbíteros à luz do documento de Aparecida

Por Pe. Paulo Suess

(Comissão Nacional de Presbíteros — 53) — 1ª Parte

Introdução

Faz mais de quarenta anos que o Concílio Vaticano II (1962-1965) lembrou: “Toda a Igreja é missionária e a obra de evangelização é o dever fundamental do povo de Deus” (AG 35). Todos os fiéis participam da missão da Igreja, e também a vida dos presbíteros foi consagrada para o serviço missionário (cf. AG 39). É a longa e sofrida caminhada de um êxodo da cristandade. O Documento de Aparecida (DA) procura, num novo contexto — não propriamente no contexto da “terra prometida” —, repropor as inspirações do Vaticano II e da caminhada latino-americana. Aparecida é síntese, ponto de convergência e ponto de partida. E “missão”, no DA, é síntese num duplo sentido: primeiro, porque assume a caminhada da Igreja universal, desde o concílio e das quatro conferências latino-americanas anteriores que deram ênfase à Igreja local (fundação do Celam, Rio de Janeiro, 1955), à “opção pelos pobres” e à “libertação” (Medellín, 1968), à “comunhão e participação” (Puebla, 1979) e à “inculturação” (Santo Domingo, 1992); segundo, porque a palavra “missão” sintetiza as múltiplas inspirações e propostas do próprio DA.

 

1. Ponto de fuga: o paradigma-síntese

A herança missiológica do Vaticano II pode ser resumida em duas palavras: universalidade do horizonte e essencialidade do agir missionário. A universalidade da criação e do destino dos bens dessa criação (cf. DA 125), assim como a da graça redentora, faz parte do destino universal dos bens. Aparecida fala de uma “cidadania universal na qual não haja distinção de pessoas” (DA 414). Essa universalidade tem suas raízes na essencialidade do ser missionário da Igreja. Sempre estamos a caminho na assunção histórica dessa natureza missionária, que não é biológica nem cultural; sempre há pedras no caminho.

 

1.1. A caminho

O documento abre a sua Terceira Parte, sobre o agir pastoral, com uma citação fundamental do Vaticano II: “‘A Igreja peregrina é missionária por natureza, porque tem sua origem na missão do Filho e do Espírito Santo, segundo o desígnio do Pai’ (AG 2). Por isso, o impulso missionário é fruto necessário à vida que a Trindade comunica aos discípulos” (DA 347). A missão não é um favor prestado ad gentes, aos que vivem numa suposta exterioridade salvífica, mas uma necessidade da coerência evangélica. A missão é o pulmão do corpo eclesial, é o que garante sua oxigenação.

Universalidade salvífica de Deus e essencialidade missionária tiveram um impacto sobre a prática missionária da Igreja e sobre sua visão corporativista da salvação. Depois do Vaticano II, já não é possível responder à pergunta dos neófitos sobre o destino dos antepassados como Francisco Xavier respondeu aos japoneses, José de Anchieta aos índios e Antônio Vieira aos escravos africanos. O lugar das almas daqueles que não foram batizados não é o inferno.[1] Juntamente com muitas outras denominações evangélicas, a Igreja católica não aboliu o espírito da exclusividade salvífica. Mas ela modificou a compreensão dessa exclusividade: hoje afirma que a graça que lhe foi concedida por Jesus Cristo pode salvar também pessoas de outras religiões ou mesmo pessoas sem religião. Também a Declaração Dominus Iesus não fechou o que o concílio abriu. Em certa tensão, procurou “manter unidas estas duas verdades: a real possibilidade de salvação em Cristo para todos os homens e a necessidade da Igreja para essa salvação” (n. 20).

A herança conciliar aponta:

a) para a salvação universal de Deus, que pode, “por caminhos por Ele conhecidos”, levar à salvação as pessoas “que sem culpa própria ignoram o evangelho” (AG 7);

b) para a necessidade da missão, não primeiramente como um bem para o outro, mas como a autorrealização da Igreja;

c) para a passagem dessa missão, até então compreendida territorialmente, a uma missão essencial.

Já não se trata de ter territórios de missão e da atuação de especialistas neles, mas de ser discípulo-missionário em todas as atividades eclesiais. Esse ser missionário, essa natureza missionária, faz parte da identidade e da responsabilidade de todos os batizados em qualquer lugar em que se encontrem, desde as comunidades eclesiais de base e as comunidades e setores que compõem cada paróquia até os confins do mundo. Com a globalização e a migração em grande escala, os confins do mundo ganharam outra conotação. Passam na frente de nossas portas e atravessam cada paróquia e diocese.

Por que demorou tanto a redescoberta dessa natureza missionária e da não exclusividade salvífica da Igreja? Com a expansão e a colonização europeia, com a amarração do labor missionário às estruturas do padroado eclesiástico, os territórios ganhos na conquista espiritual tornaram-se expressão de poder e sucesso medido pelo número de neófitos incorporados à cristandade. A proximidade da Igreja ao poder impediu o desabrochamento de sua natureza missionária. Missão se tornou submissão.

Agora podemos responder à pergunta: “Por que demorou tanto a redescoberta dessa natureza missionária?” A aproximação aos pobres no processo pós-conciliar — a Igreja de Aparecida se autodenomina duas vezes “casa dos pobres” (DA 8; 524) e “advogada da justiça e defensora dos pobres” (DA 395; cf. 533) — foi, para a Igreja, como a cura do cego de Jericó. Ela começou a ver novamente os destinatários e sujeitos preferenciais da missão, os pobres, e subir com eles até Jerusalém, até os lugares do martírio. “Recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho” (Mc 10,52). Uma das promessas mais bonitas de Aparecida é o compromisso dos bispos de “trabalhar para que a nossa Igreja latino-americana e caribenha continue sendo, com maior afinco, companheira de caminho de nossos irmãos mais pobres, inclusive até o martírio” (DA 396).

O processo de descolonização — e nele a possibilidade de refletir a missionariedade, o ser adulto na Igreja local e continental — começou já antes do concílio, com a fundação da CNBB e do Celam. Aparecida assumiu, através da caminhada pós-conciliar, a coerência de atitudes políticas pós-coloniais embutidas no evangelho. Estas são pressupostos da vivência da natureza missionária, que tem seu fundamento em nossa visão de Deus uno e trino. Não confundimos a aliança com esse Deus com as pequenas parcerias que os poderes políticos e os ídolos oferecem. Do Vaticano II herdamos a visão de um Deus que faz aliança com os pequenos, “com os seres humanos e com toda a criação” (DA 125) e uniu numa nova aliança o “novo povo de Deus”, que “tem por condição a dignidade e a liberdade dos filhos de Deus (…). Sua lei é o mandamento novo (…). Sua meta é o Reino” (LG 9b). Eis o núcleo missionário do nosso querigma e da nossa diaconia: o amor gratuito de Deus Pai, que envia e salva (cf. DA 143) e conferiu à Igreja, desde a sua origem, na festa de Pentecostes, uma natureza missionária que respeita e colabora para o aprofundamento da diversidade das línguas e nações (cf. DA 347).

Como sabemos dessa natureza missionária da Igreja e da missão dos batizados? De onde e como a recebemos? Jesus de Nazaré nos revelou o mistério da comunhão trinitária de Deus como origem da missão. Por meio da natureza missionária da Igreja e dos fiéis, essa missão continua presente na história. Pelo “dom do batismo” que nos tem feito “povo de Deus peregrino” (DA 127), pertencemos ao “sacerdócio comum do povo de Deus” e “somos chamados a viver e a transmitir a comunhão com a Trindade” (DA 157; Discurso Inaugural do papa, 5). “O Concílio Vaticano II estabelece o sacerdócio ministerial a serviço do sacerdócio comum dos fiéis, e cada um, ainda que de maneira qualitativamente diferente, participa do único sacerdócio de Cristo” (DA 193). O povo de Deus, “em virtude do batismo” (DA 10; 160; 186; 505), é chamado a “ser discípulo e missionário de Jesus Cristo” (DA 153). Todo fiel renascido pelo batismo é assimilado a Cristo, cuja existência integral é missão. “Pela unção do Espírito e por sua especial união com Cristo”, a missão do presbítero é “um dom” para a comunidade (DA 193). Pela realidade batismal, a missão do presbítero faz parte da missão do povo de Deus e está a serviço dele.

 

1.2. Pedras e propostas

Novamente podemos perguntar: esclarecidos pelo Vaticano II e pela caminhada latino-americana sobre a natureza missionária da Igreja, por que até hoje, mais de quarenta anos depois do concílio, essa natureza missionária do povo de Deus e a missionariedade dos presbíteros a serviço desse povo não se tornaram óbvias numa realidade concreta? Para facilitar a resposta, Aparecida menciona alguns desafios e silencia outros, facilmente identificáveis.

Aparecida observa “que o crescimento percentual da Igreja não segue o mesmo ritmo que o crescimento populacional. Na média, o aumento do clero, e sobretudo das religiosas, distancia-se cada vez mais do crescimento populacional em nossa região” (DA 100a; cf. 315). Segundo o Annuarium Statisticum Ecclesiae, que o DA cita, no período de 1974 a 2004, a população latino-americana cresceu quase 80%, enquanto o número de sacerdotes cresceu apenas 44,1% e o de religiosas só 8%.[2] Resumidamente, pode-se dizer que o trabalho pastoral, em relação ao número de fiéis e ao território, dobrou nos últimos 30 anos, apesar da diminuição do número de católicos, em média, em um ponto percentual anual. O processo de urbanização, a volatilidade religiosa pós-moderna e a estrutura ministerial inadequada à realidade pastoral, associados a muitos outros fatores, produziram uma redução dos católicos e presbíteros em números absolutos em nosso continente.

Aparecida não aponta para nenhuma mudança estrutural da situação ministerial. Lembra, porém, a urgência da situação pastoral e relaciona uma série de propostas a respeito da formação. A primeira proposta é um conjunto de imperativos: acelerem um pouco seus passos, priorizem melhor entre as múltiplas tarefas e descubram a mão de obra ociosa dos leigos. A missão da Igreja se realiza com urgência histórica e escatológica. Em muitos lugares o DA aponta para essa urgência. Tudo no campo pastoral (DA 368; 389; 437j; 456; 518; 548) e social (DA 148; 384; 550) parece urgente. “A caridade de Cristo nos compele” (2Cor 5,14) a destruir as estruturas da morte, interromper a lógica dos sistemas e questionar a lentidão das burocracias.

Mas quem deveria fazer tudo isso? O DA se pronuncia pouco sobre essa questão. A descoberta da natureza missionária da Igreja povo de Deus aumentou as responsabilidades, não o número dos agentes de pastoral. Aí é o lugar da segunda proposta, que é substancial: vamos redescobrir a “natureza missionária” de todos os batizados! A grande tarefa pastoral, desde as origens da cristandade, sempre foi transformar os cristãos culturais e tradicionais em discípulos missionários; transformar o Brasil dos batizados num Brasil missionário.

O realismo pastoral nos lembra, contudo, nunca ter havido na história da Igreja um conjunto de batizados que se tornasse sujeito de uma “religiosidade virtuosa” como modelo da vida cotidiana. Esse modelo radical comprometeria o indivíduo batizado e sua comunidade com uma “ética virtuosa” na qual a transformação do mundo seria uma exigência e uma extensão de sua atividade religiosa, 24 horas por dia. O realismo da ortodoxia institucional e da prática pastoral nunca fora tão longe.[3] Apesar dos muitos apelos enfáticos do documento ao heroísmo e à santidade dos discípulos missionários, a ortodoxia institucional viveu sempre em tensão com a “religiosidade virtuosa”, instalando, ao lado das estátuas de grandes santos, confessionários para o povo cansado e o mundo pecador. Para transformar o discurso da “natureza missionária”, da justiça e da solidariedade em ajuda competente, não basta apenas agitar a bandeira da doutrina social[4] e das cobranças das políticas públicas.[5] Uma Igreja toda missionária, mística e militante, teria de trabalhar, sobretudo, as mediações históricas. Precisamos novamente descer ao chão do povo pobre e ferido para formar lideranças em seu meio e em suas lutas. Os delegados de Aparecida apontam mais de 90 vezes para essa formação integral de missionários místicos e militantes. É preciso definir etapas e metas, meios e estruturas.

Por enquanto, a transformação de agentes de pastoral em carismáticos ascetas, profetas ou pastores incansáveis de tempo integral e com religiosidade e ética virtuosas é pouco provável. Diante de um clero muito reduzido e, muitas vezes, sobrecarregado pelo dever sacramental, Aparecida aposta no serviço generoso de leigos voluntários. Mas, no mundo urbano, esses leigos e leigas estão trabalhando de sol a sol para sustentar suas famílias. Não se trata apenas de abrir os olhos dos batizados para a realidade do continente e do mundo (DA 33) e chamá-los à sua responsabilidade (DA 14; 33). A situação laboral, sobretudo na grande cidade, encolheu o tempo de gratuidade e livre disposição.

 

2. Ponto de partida: quatro eixos

Levando em conta a) a precariedade da relação estatística entre fiéis leigos e sacerdotes; b) a remota possibilidade de transformar todos os batizados em discípulos missionários ou agentes missionários das nossas paróquias; c) a situação contracultural do evangelho diante do mundo pós-moderno globalizado e atravessado por uma ruptura social; e d) a impossibilidade de, aqui e agora, mudar as estruturas ministeriais da Igreja; o que nos resta fazer para a causa do Reino que dá sentido à nossa vida e, às vezes, parece aniquilar-nos por sua amplitude e urgência, interpelando nossa lealdade eclesial (cf. DA 185)? Como fazer as escolhas certas entre o discípulo freelancer, que trabalha por sua conta, e aquele que se submete facilmente (por quaisquer motivos) a cobranças institucionais indevidas?

O DA pode ser comparado a uma sacola de pérolas, umas preciosas, outras de vidro, todas amarradas por um arame, como um rosário, com seus mistérios gloriosos, gozosos e dolorosos. Entre as pérolas preciosas e os mistérios gozosos encontram-se muitos elementos para a animação missionária dos presbíteros. A menção da “alegria” em 39 itens do DA pode ter um caráter compensatório e contrasta com a escassa presença da “cruz”.[6] É um indicador da presença de movimentos pentecostais católicos em Aparecida (cf. DA 214). Contudo, não vamos abrir mão da alegria inerente à missionariedade da nossa vocação presbiteral nem da nossa capacidade de “dar razão da nossa esperança” (cf. 1Pd 3,15).

A seguir procuro, em meio à selva das palavras, abrir as seguintes clareiras que nos permitem, com serenidade e sem fugir da realidade, ver a causa do Reino acima dos casos institucionais. Eis as quatro clareiras e alegrias da nossa missionariedade, as quais têm como pano de fundo a nossa confiança em Deus: a alegria pela recuperação da vista que podemos chamar “discernimento”, a alegria da celebração eucarística como “agradecimento”, a alegria do “despojamento” e a alegria do apóstolo no “seguimento” testemunhal.

 

 

2.1. A missão do discernimento

O método “ver-julgar-agir”, que Aparecida assumiu novamente, “nos permite articular, de modo sistemático, a perspectiva cristã de ver a realidade; a assunção de critérios que provêm da fé e da razão para seu discernimento e valorização com sentido crítico; e, em consequência, a projeção do agir como discípulos missionários de Jesus Cristo” (DA 19). Discernimento significa leitura da realidade e busca de sentido, significa liberdade e opção. Ajuda-nos a esclarecer nossa identidade e mensagem missionárias como presbíteros, sempre histórica e contextualmente situadas. “Um olhar ao nosso momento atual nos mostra situações que afetam e desafiam a vida e o ministério de nossos presbíteros. Entre outras coisas, a identidade teológica do ministério presbiteral, sua inserção na cultura atual e situações que incidem sobre a existência deles” (DA 192).

Quem somos nós? Novamente Aparecida recorre ao Vaticano II, que “estabelece o sacerdócio ministerial a serviço do sacerdócio comum dos fiéis, e cada um, ainda que de maneira qualitativamente diferente, participa do único sacerdócio de Cristo” (DA 193; cf. LG 10). O discernimento nos dá a orientação sobre as escolhas a fazer e o foco de interpretação dos sinais dos tempos, “à luz do Espírito Santo, para nos colocar a serviço do Reino” (DA 33; cf. GS 4). O sacerdote, diz o DA, não é “mero delegado ou apenas representante da comunidade, mas sim um dom para ela, pela unção do Espírito e por sua especial união com Cristo” (DA 193).

Onde está nosso lugar neste mundo dividido por pobres e ricos, devotos e secularizados? Parece que vivemos num rodízio sem fim: do mundo tribal fomos integrados ao sistema colonial; sobre as bases do Brasil colonial construímos o Estado nacional; o Estado nacional está se inserindo, com perda de autonomia política e econômica, no mundo global. O mundo global nos coloniza novamente pelos mercados e meios de comunicação. E no mundo pós-moderno, sobretudo entre os jovens, há indícios de que já passamos da globalização para um neotribalismo sem causa comum. O mundo pós-moderno está se configurando como um mundo pós-secular. Vivemos um momento espetacular e transcultural do retorno do religioso — muitas vezes sem Deus ou numa vertente politeísta, com deuses concorrentes, marcados por horizontes de violência, de fundamentalismo e fanatismo —, de práticas esotéricas, de banalização e infantilização. Onde está Deus nesse retorno universal do religioso? Religião está na moda, sobretudo uma religião sem Deus, sem o Crucificado e sem os crucificados.

A missionariedade do presbítero está inserida nessa cultura. Somos chamados “a conhecê-la para semear nela a semente do evangelho, ou seja, para que a mensagem de Jesus chegue a ser uma interpelação válida, compreensível, cheia de esperança e relevante para a vida do homem e da mulher de hoje, especialmente para os jovens” (DA 194).

Qual é a nossa mensagem nas favelas e nos areópagos, num mundo onde o problema não é o ateísmo, mas a idolatria do mercado? Cada rede industrial, de supermercados e bancos se orgulha hoje de sua “mensagem” que anuncia “qualidade total”, solidariedade universal (“Dedicação total a você” — Casas Bahia) ou disposição permanente, uma espécie de vigília pascal (“The Citi never sleeps” — Citibank).

Somos povo messiânico, que renasceu no Espírito Santo e tem por cabeça Jesus Cristo (LG 9), convocado na Igreja para uma conversão radical, mas também para curar os doentes, expulsar os demônios, denunciar os ídolos, anunciar a Boa-Nova aos pobres. “Se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, então o reino de Deus já chegou a vós” (Lc 11,20). Esse Deus ultrapassa a imaginação do zelo piedoso e nos permite desconstruir a imaginação do bom senso, abrir portas, derrubar fronteiras — ao mesmo tempo em que nos obriga a isso. Entre nós seja tudo diferente: “Aquele que quiser tornar-se grande entre vós seja aquele que serve, e o que quiser ser o primeiro dentre vós seja o vosso servo. (…) O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20,26ss).

Com essa premissa de que tudo pode ser diferente, interpretamos os “sinais do tempo”. Jesus, “enquanto andava pelos caminhos de sua terra, (…) convidava seus discípulos a reconhecer a mensagem escondida nas coisas” (DA 470; cf. Lc 12,24-27; Jo 4,35). O discernimento é um processo diário e comunitário, um juízo crítico e dialógico sobre a realidade e a cultura (cf. DA 280c; 275) que “unifica a preocupação pela dimensão transcendente do ser humano e por todas as suas necessidades concretas” (DA 176; cf. Discurso Inaugural do papa, 3; pp. 272s do DA). Só essa missão abrangente pode cumprir a tarefa “de fazer novas todas as coisas” (DA 131). Ante a opacidade da realidade e dos nossos acessos analógicos à verdade, o discernimento nos encaminha para a confiança sofrida de Jó: “O Senhor deu, o Senhor tirou, o nome do Senhor seja louvado” (Jó 1,21).

 

2.2. A missão a partir da ação de graças eucarística

Louvado é o Senhor, sobretudo, na ação de graças da eucaristia, “o lugar privilegiado do encontro do discípulo com Jesus Cristo” (DA 251). Ao celebrar e viver o mistério pascal, “a existência cristã adquira verdadeiramente forma eucarística. (…) A eucaristia, fonte inesgotável da vocação cristã, é, ao mesmo tempo, fonte inextinguível do impulso missionário. Aí, o Espírito Santo fortalece a identidade do discípulo e desperta nele a decidida vontade de anunciar com audácia aos demais o que tem escutado e vivido” (DA 251)[7]. A Constituição sobre a Igreja Lumen Gentium, 17, dá-nos uma das dimensões eucarísticas da missão quando lembra que o sacerdote, na celebração do mistério eucarístico, cumpre a palavra de Deus, que falou pelo profeta: “Do nascer do sol até o ocaso, é grande meu nome entre as nações, e em todo lugar se sacrifica e oferece ao meu nome uma oblação pura” (Ml 1,11)[8].

Talvez tenhamos sido nos últimos anos, aqui e acolá, e sempre com as melhores intenções, vítimas da “cultura da visibilidade”. Transformamos o altar em palco, a missa dominical em comício e o sermão em aula, sem propriamente tocar a vida das pessoas. No centro da eucaristia está o mistério da fé, e não a propagação da fé; misterium fidei, e não propagatio fidei. A eucaristia é a celebração dos iniciados na fé, celebração da Igreja povo de Deus, e não um rito de iniciação ad gentes. Na novela A missa do ateu, Balzac descreve um cirurgião ateu que, uma vez por ano, vai à missa em memória de uma pessoa querida. O ateu não procura uma catequese de neófitos na Igreja de St. Sulpice, mas o silêncio que permite ouvir a voz de Deus. É um desses que se dizem “ateus, graças a Deus”, e cujas dúvidas sobre a fé herdada lhes permitem suportar seus desesperos com os humanos.

Na eucaristia olhamos para Deus, celebramos o Deus conosco, sua encarnação e nossa assunção na comunidade trinitária. Celebramos a real presença desse Deus conosco na eucaristia, memória do mistério pascal, mistério da cruz e ressurreição, mistério da redenção e reconciliação que inicia a nova aliança (cf. Rm 3,24ss). A criatividade litúrgica deve ser sempre avaliada pela teologia da cruz, o núcleo central da teologia eucarística. “É Deus Pai quem nos atrai por meio da entrega eucarística de seu Filho (cf. Jo 6,44), dom de amor com o qual saiu ao encontro de seus filhos, para que, renovados pela força do Espírito, possamos chamá-lo de Pai” (DA 241). Da ação de graças, da doação gratuita do Cordeiro de Deus, liturgicamente comemorado, emerge a energia missionária da eucaristia e a consistência da missionariedade do presbítero. O mistério da eucaristia é a ponte para o ministério apostólico. Jesus Cristo “morreu por todos a fim de que aqueles que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que morreu e ressuscitou por eles. (…) Sendo assim, em nome de Cristo exercemos a função de embaixadores” (2Cor 5,15ss). Somos embaixadores de justiça e esperança, anunciadores do mistério pascal e multiplicadores do pão da vida, do pão para todos, que será o resultado de partilha e de uma luta longa e dura. Os presbíteros foram consagrados, por meio da comunhão com Cristo na eucaristia, para viver sua catolicidade na convocação à plenitude do corpo de Cristo.[9] Com base nesse centro, “os presbíteros no trabalho pastoral excitarão e conservarão entre os fiéis o zelo pela evangelização do mundo” (AG 39b).

Celebramos a eucaristia num altar que também é uma mesa, como no Sinai, uma assembleia aos pés do Senhor, que se faz presente na sua palavra, no seu corpo e sangue. Eucaristia é nova aliança que pressupõe reconciliação, unidade na diversidade, solidariedade até as últimas consequências. São Paulo, em sua Epístola aos Filipenses, reflete em linguagem eucarística a sua situação de prisioneiro, a qual o pode levar ao martírio. Anima os filipenses “como astros no mundo, mensageiros da palavra de vida”: “Se meu sangue for derramado em libação, em sacrifício e serviço da vossa fé, alegro-me e me regozijo com todos vós” (Fl 2,15ss). A morte testemunhal do apóstolo tem caráter litúrgico e configura a unificação com a doação de Jesus Cristo num mesmo ato de amor, que, como tal, é a verdadeira adoração de Deus.[10] O testemunho qualificado do apóstolo participa do mistério da cruz. A liturgia eucarística vivida produz aquela alegria que vem da transfiguração do divino na existência humana, da memória de uma esperança profunda e da celebração da entrega por uma causa. Da ação de graças eucarística emerge a ação missionária gratuita. A nossa esperança, que não tem preço, é a grande recusa da lógica do custo-benefício.

 

2.3. A missão do despojamento

O despojamento é expressão concreta da nossa missão eucarística: é o início de nossa transfiguração, que faz brilhar a luz de Deus em nossos rostos, é conformação com Cristo e sua kénosis de encarnação e redenção, é o dom que gera proximidade com o Cristo morador de rua, migrante, violentado e abandonado. No despojamento está nossa visibilidade, que faz parte da do anúncio da Boa-Nova aos pobres. “Quando, em suas parábolas, Jesus fala do pastor que vai atrás da ovelha desgarrada, da mulher que procura a dracma, do pai que sai ao encontro de seu filho pródigo e o abraça, não se trata só de meras palavras, mas da explicação de seu próprio ser e agir” (Deus Caritas Est, 12). “Essa pr­­ova definitiva de amor tem o caráter de um esvaziamento radical (kénosis), porque Cristo ‘se humilhou a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte e morte de cruz’ (Fl 2,8)” (DA 242).

No despojamento — kénosis e gratuidade ao mesmo tempo — revela-se a dimensão cristológica e pneumatológica da nossa missionariedade. O Espírito Santo é o protagonista da missão (RM 21b) e o “Pai dos pobres” (cf. “Sequência de Pentecostes”); é dom e doador de dons (dator munerum).[11] O Espírito Santo é um dom do Pai; é Deus no gesto do dom.[12] “Deus enviou o Espírito de seu Filho a nossos corações, e o Espírito clama: Abbá! Pai! (Gl 4,4-5)” (DA 241). O dom de Deus é a nova criação das criaturas, convocadas da dispersão à comunhão e unidade (cf. DA 155). “A unidade é, antes de tudo, um dom do Espírito Santo” (DA 230; cf. 231), unidade no Espírito Santo, unidade como diversidade articulada. A partir de Pentecostes, a Igreja experimenta a irrupção do Espírito, “que se expressa em diversos dons e carismas (cf. 1Cor 12,1-11) e variados ofícios (…). O Espírito na Igreja forja missionários (…), indica os lugares que devem ser evangelizados e escolhe aqueles que devem fazê-lo (cf. At 13,2)” (DA 150). O que nos define como cristãos é “acima de tudo o amor recebido do Pai graças a Jesus Cristo pela unção do Espírito Santo. Essa prioridade fundamental é a que tem presidido todos os nossos trabalhos (…). Não temos outra felicidade nem outra prioridade senão a de sermos instrumentos do Espírito de Deus na Igreja, para que Jesus Cristo seja encontrado, seguido, amado, adorado, anunciado e comunicado a todos” (DA 14). “O poder do Espírito e da Palavra contagia as pessoas e as leva a escutar Jesus” (DA 279). Na Igreja, ele forja missionários (DA 150; cf. 284), desperta ministros e testemunhas da palavra de Deus (DA 172), escrita por sua inspiração (DA 247). “A vida no Espírito nos torna pessoas generosas e criativas, felizes no anúncio e no serviço missionário” (DA 285).

Na fidelidade ao Espírito Santo, os discípulos missionários percebem “a necessidade de uma renovação eclesial que implica reformas espirituais, pastorais e também institucionais” (DA 367). “Esperamos um novo Pentecostes que nos livre do cansaço, da desilusão, da acomodação ao ambiente; esperamos uma vinda do Espírito que renove nossa alegria e nossa esperança” (DA 362). Com um ar melancólico e um apelo à Providência divina termina o DA: “Levemos nossos navios mar adentro, com o poderoso sopro do Espírito Santo, sem medo das tormentas, seguros de que a Providência de Deus nos proporcionará grandes surpresas” (DA 551).

O despojamento está estreitamente vinculado à questão da ortodoxia. Pecado significa indiferença em face da exploração dos pobres. Neles, a Igreja reconhece “a imagem de seu Fundador pobre e sofredor” (LG 8c). No cristianismo, essa pobreza do próprio Deus tem muitos nomes: encarnação, cruz e eucaristia. “A pobreza — disse certa vez o atual papa — é a verdadeira aparição divina da verdade”[13], a pobreza reconhecida em “novos rostos de pobres” e “novos excluídos” (DA 402; 207).

A verdade se realiza na geração da vida: na prática do novo mandamento (Jo 13,34) e da justiça maior em favor dos pobres. Na raiz da pobreza-miséria está a ação do “pai da mentira”, que perturba a ordem social. O Espírito Santo é o paráclito, o “consolador”, o “advogado” dos pobres. Em pobres sinais ele é experimentado: na água do batismo e no fogo da sarça ardente, no óleo da unção messiânica e na luz de uma consciência nova, no imaginário da pomba palpável e da nuvem distante. A opção dos discípulos missionários pelos pobres está enraizada na cristologia e na pneumatologia.

 

2.4. A missão do seguimento

A missão do seguimento é a missão testemunhal. Os delegados de Aparecida consideram “o testemunho como componente-chave na vivência da fé” (DA 55). Sem mencionar explicitamente, o DA lembra a Evangelii Nuntiandi, de 1975, que resumiu essa questão com simplicidade: “O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres” (EN 41). Os discípulos missionários de Jesus Cristo têm “a tarefa prioritária de dar testemunho do amor a Deus e ao próximo com obras concretas” (DA 386). Anúncio e testemunho dos evangelizadores levam à conversão e à mudança de vida (cf. DA 226a). Missão significa “compartilhar a experiência (…) do encontro com Cristo, testemunhá-lo e anunciá-lo” (DA 145). Esta é a missão dos discípulos: anunciar o evangelho do Reino e testemunhar o amor maior de Deus. Como Jesus “é testemunha do mistério do Pai, assim os discípulos são testemunhas da morte e ressurreição do Senhor” (DA 144). “Dos que vivem em Cristo se espera um testemunho muito crível de santidade e compromisso” (DA 352).

Aparecida vincula esse testemunho — que se desdobra nas lutas pelas causas do Reino, que são as causas dos pobres e dos outros — à presença de Jesus. Jesus “está naqueles que dão testemunho de luta pela justiça, pela paz e pelo bem comum” (DA 256). Jesus está “de modo especial nos pobres, aflitos e enfermos (cf. Mt 25,37-40), que exigem nosso compromisso e nos dão testemunho de fé, paciência no sofrimento e constante luta para continuar vivendo” (DA 257). “Onde eu estiver, aí estará também o meu servo (Jo 12,26)” (DA 140). Podemos inverter essa ordem: onde estiver o servo, aí estará Jesus. Os pobres que “nos dão testemunho” são também os pobres que nos evangelizam, porque são “sujeitos da evangelização” (DA 398).

A Igreja povo de Deus “tem dado testemunho de Cristo, anunciando seu evangelho”. Concomitantemente tem “oferecido seu serviço de caridade principalmente aos mais pobres” (DA 98). O testemunho tem sempre estes dois lados: o anúncio e a prática da caridade, a curto prazo, e a justiça, tendo em vista mudanças estruturais que levam mais tempo (cf. DA 385). A justiça é sempre justiça da ressurreição. Deus rasgou a sentença da morte de seu Filho e o ressuscitou. No testemunho cristão, que se reverte em trabalho incansável “na defesa da dignidade da pessoa humana, especialmente dos pobres e marginalizados, (…) resplandece a dignidade do ser humano” (DA 105). Aparecida confessa: “Estimula-nos o testemunho de tantos missionários e mártires de ontem e de hoje em nossos povos que têm chegado a compartilhar a cruz de Cristo até a entrega da própria vida” (DA 140). Em todos eles repercutiu a ordem do Senhor: “Sejam minhas testemunhas até os extremos da terra (At 1,8)” (DA 236).

O testemunho não constitui uma opção do cristão, mas um imperativo do Senhor. Por isso, o DA cobra esse testemunho de todos os setores eclesiais, sempre com alguma especificidade. O mundo dos eclesiásticos não é outro diverso em comparação com o “mundo dos leigos”, mas tem outros significados, campos e objetivos de atuação. O bispo, como bom pastor, diz o DA, deve ser “testemunha de esperança” (DA 189) e da proximidade de Jesus (DA 187). O mesmo vale para os presbíteros (DA 195; 315; 378), os diáconos (DA 207; 208) e os formadores dos seminaristas (DA 317; cf. 281). Para a formação, o “encontro vivo e persuasivo com Cristo, anunciado por autênticas testemunhas” (DA 290), é indispensável. “Esse encontro deve renovar-se constantemente pelo testemunho pessoal, pelo anúncio do querigma e pela ação missionária da comunidade” (DA 278a). A vida contemplativa “testemunha que somente Deus basta para preencher a vida de sentido e de alegria” (DA 221).

O testemunho tem uma dimensão ecumênica — como “testemunho de unidade” (DA 362) “entre os que foram regenerados pelo batismo e (…) de fraternidade” (DA 228) — e macroecumênica. O diálogo inter-religioso “abre caminhos inéditos de testemunho cristão, promove a liberdade (…), estimula a colaboração para o bem comum, supera a violência motivada por atitudes religiosas fundamentalistas, educa para a paz” (DA 239; cf. 233; 237). No “testemunho de pessoas e comunidades que anunciam Jesus Cristo”, descobrimos “a presença do Espírito Santo em terras de missão” (DA 374d). “Invocamos o Espírito Santo para podermos dar o testemunho de proximidade” (DA 363), de solidariedade, de compaixão “na unidade do Espírito Santo”.

 

(A 2ª Parte deste artigo será publicada na próxima edição da revista Vida Pastoral — nº 262, set.-out., 2008, pp. 33-36).



[1] Cf. São Francisco Xavier. Obras completas. São Paulo: Loyola, 2006, p. 547 (Doc. 94,8; 96,48); Antônio Vieira. “Sermão décimo quarto (1633)”, in: ______. Obras completas. Porto: Lello & Irmão, 1951, v. 4, t. 11, nº 6, p. 301.

[2] Cf. rodapé n. 41 do Documento de Aparecida.

[3] Cf. M. Weber. Economia e sociedade. São Paulo: Imprensa Oficial, 1999/2004, 2 v; aqui vol. 1, parte 2, cap. 5: “Os caminhos de salvação e sua influência sobre a conduta da vida”. A religiosidade virtuosa ou heróica, segundo M. Weber, é a religiosidade de místicos, ascetas e santos. Ela se diferencia da religiosidade oficial dos quadros da ortodoxia institucional e da religiosidade popular.

[4] Cf. DA 69; 99f; 100c; 239; 342; 372; 395; 400; 403; 446e; 505.

[5] Cf. 75s; 78; 458d; 463e; 474d; 537.

[6] No Índice Analítico do Documento de Aparecida não aparece o verbete “cruz”. No documento aparece 11 vezes.

[7] Ao mesmo tempo em que o Documento de Aparecida enfatiza a grande importância do preceito eucarístico dominical (“Sem uma participação ativa na celebração eucarística dominical e nas festas de preceito, não existirá um discípulo missionário maduro” — DA 252), expressa seu “profundo afeto pastoral” às “milhares de comunidades com seus milhões de membros, que não têm a oportunidade de participar da eucaristia dominical. (…) Também elas podem e devem viver ‘segundo o domingo’ (…) participando da ‘celebração dominical da Palavra’” (DA 253).

[8] Cf. Marie-Joseph Le Guillou. “A vocação missionária da Igreja”, in: Guilherme Braúna (org.). A Igreja do Vaticano II. Petrópolis: Vozes, 1965, pp. 713-728; aqui, p. 719.

[9] Para a missionariedade da vida consagrada, cf. AG 40 e Vita Consecrata, 72.

[10] Inspiro-me, nesta parte, na palestra de Joseph Ratzinger sobre “eucaristia e missão”. Joseph Ratzinger. “Eucharistie und Mission”, in: ______. Weggemeinschaft des Glaubens: Kirche als Communio. Augsburg: Sankt Ulrich Verlag, 2002, pp. 79-106; aqui, p. 98.

[11] A “Sequência de Pentecostes” fala dos sete dons (sacrum septenarium), que são sete fontes da graça e dons da vida, como os sacramentos, lembrando a tradição messiânica de Isaías: sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, ciência, piedade, temor de Deus (cf. Is 11,2).

[12] Cf. Agostinho. A Trindade, liv. XV, p. 29.

[13] J. Ratzinger. “Der Dialog der Religionen und das judisch-christliche Verhältnis”, in: ______. Die Vielfalt der Religionen und der Eine Bund. 3ª ed. Bad Tölz: Urfeld, 2003, pp. 93-121; aqui, p. 116.

Pe. Paulo Suess