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Publicado em Novembro-Dezembro de 2007 (pp. 15-19)

Conferência de Aparecida: e agora?

Por Pe. Pedro F. Bassini

1. Situando

Ao receberem a notícia da programação da 5ª Conferência-Geral do Episcopado da Igreja da América Latina e do Caribe, muitos setores eclesiais experimentaram apreensão. Por um lado, havia a esperança de reflexões que pudessem ajudar no alento da caminhada do povo deste continente em seu jeito próprio de ser Igreja; por outro, a preocupação de que não se avançasse na compreensão deste momento social e não se respondesse aos apelos do povo que busca, na voz das autoridades eclesiais, maior incentivo para progredir na conquista de espaços onde a vida do evangelho possa constituir reflexo da mensagem do reino.

Como envolver todos os segmentos da Igreja nesse acontecimento? Essa era uma das questões que perpassavam pelas reuniões no tempo da preparação da conferência. E, quando se definiu a data e o local — Brasil, Santuário Nacional de Aparecida —, a responsabilidade da comissão articuladora e da Igreja no Brasil tornou-se maior, pois, sediando a 5ª Conferência, precisaríamos estar bem preparados. Muitas reuniões se sucederam, muitas ideias e propostas se perderam no transcurso do processo, mas em cada passo dado se concretizavam objetivos e, assim, o caminho foi sendo percorrido.

Quando o documento de participação, elaborado pela Comissão Central do Celam, encarregada de articular a conferência, chegou às bases eclesiais — comunidades, movimentos, institutos e outros grupos organizados —, restava em nós a expectativa de saber como as dificuldades seriam superadas. Como se preencheriam as lacunas? Que reações seriam emitidas? Que sugestões apareceriam? Que críticas receberiam os roteiros organizados para ajudar no estudo? E tantas outras interrogações e inquietações.

Das rodas de conversas informais vinham as maiores preocupações e inquietações. Esse ambiente favorecia a comunhão de ideias e a busca de encaminhamentos práticos, sustentando os objetivos explícitos da convocação para o evento: “Ter maior clareza sobre a identidade Católica, para fazer de todos os membros da Igreja na América Latina e Caribe seguidores fiéis de Jesus Cristo. A celebração da 5ª Conferência quer ser um momento privilegiado de discernimento e orientação aos Pastores; com uma ampla preparação envolvendo as bases e com um plano de continuidade na Missão”[1].

O tema “Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida” ofereceu maior segurança para os encaminhamentos.

Que pessoas poderiam ajudar? Que especialistas colaborariam na iluminação dos processos? E muitas outras luzes nasceram de semelhantes inquietações. O verbo “resgatar” provavelmente foi o mais citado quando se buscava o preenchimento de lacunas para satisfazer desejos de muitos segmentos eclesiais. Outra pergunta que perpassou por toda a preparação foi: o que não pode faltar em Aparecida? Cada organismo eclesial via, do seu ponto de vista, os conteúdos próprios para a sua realidade. E todos desejavam que a 5ª Conferência trouxesse novo ardor, novo impulso e muita luz para a caminhada da evangelização.

No tempo de recolher as contribuições provenientes do estudo do documento de participação, constatamos o grande empenho que o povo católico, em seus múltiplos segmentos, teve para compreender o acontecimento da conferência e colaborar com ele. A Igreja no Brasil acreditou no projeto e as bases se articularam muito bem, tendo clareza do que queriam neste momento histórico para a Igreja na América Latina e no Caribe. Das muitas páginas com variadas contribuições, a comissão encarregada de elaborar a síntese nacional compilou um documento que muito ajudou os representantes da Igreja no Brasil na Conferência de Aparecida. Foi um tempo de trabalho árduo de toda a comissão, que reviu as opiniões, buscou clarear os dados, investigou melhor a contribuição e organizou o conteúdo para que fosse clara a sua leitura, sendo ao mesmo tempo fiel à ideia original dos proponentes.

O passo seguinte foi enviar essa síntese a todos os bispos brasileiros para que estudassem o assunto, uma vez que se tratava de subsídio para o tema central da 45ª Assembleia Geral do Episcopado Brasileiro, “Rumo à Conferência de Aparecida”. Assim, todos os nossos pastores tomaram conhecimento do pensamento das bases e do que a Igreja no Brasil levava para a conferência.

Muitas questões pertinentes dessa síntese nacional foram contempladas no documento de síntese organizado pela Comissão Central do Celam. Tal texto, que não foi um instrumento de trabalho, constituiu uma luz para que as comissões de trabalho da 5ª Conferência pudessem clarear conceitos, completar lacunas, sugerir temáticas e construir um documento final que contemplasse as expectativas.

 

2. Linhas do documento final

Acompanhando o desenrolar da 5ª Conferência, os participantes pareciam fazer eco às expectativas externas e, felizmente, algumas tensões ocorridas no tempo preparatório foram-se desfazendo. Tanto o ambiente externo à conferência como o ambiente interno focaram o mesmo objetivo. Os temores dissiparam-se: temor de uma reação popular com manifestações de exigências e pressões e temor de um “fechamento doutrinário” sem contemplar a pessoa neste contexto cultural atual da evolução social.

O contingente da Igreja que ficou fora da conferência não cessava de fazer orações; enquanto isso, os participantes dialogavam tendo presentes a diversidade de mentalidades, o exíguo tempo para o trabalho e a preocupação de oferecer um documento proativo, dispensando o pessimismo e as lamentações pelo que já passou.

Um documento completo? Não, ele se completará pela interpretação nas diversas mentalidades teológicas, que podem parecer até contraditórias, porém, no conjunto, respondem à diversidade dos contextos culturais e garantem objetivos comuns a ser alcançados com a evangelização.

O discurso do papa Bento XVI, na abertura da 5ª Conferência, foi norteador. Garantiu maior unidade de objetivos, considerando a variedade de mentalidades. Esse fato favoreceu o espírito de colegialidade episcopal tão claro na Lumen Gentium 22 e 23. Acolher o documento aberto à ação do Espírito que nele falou durante sua elaboração e ao que ele quer dizer a cada realidade a ser evangelizada é a missão intrínseca da Igreja — dom recebido e tarefa a cumprir cujo modelo é a Trindade: respeitar e acolher o diferente na diversidade em que se encontra, unir as forças enraizadas no bem que cada pessoa é, conforme a imagem do Criador, comunicando um testemunho de comunhão, para que o mundo creia.

Com esse espírito, o documento faz os diversos resgates, prosseguindo na linha de Medellín, Puebla e Santo Domingo. Resgata para avançar, atualizando, neste momento histórico, as linguagens para se fazer entender no mundo globalizado. Começa por resgatar o método ver-julgar-agir, tão próprio dos povos da América Latina e do Caribe. Resgata a opção pelos pobres, preferidos de Deus não por acepção de pessoas, mas por lhes faltar quem os defenda ante as injustiças de um poder que exclui. Entre outras coisas, são excluídos do saber tecnológico e “desplugados” das rodas sociais que a propaganda consumista apresenta como valor supremo deste momento. Resgata o jeito de ser Igreja nas bases (CEBs), comunidades pequenas em quantidade de pessoas, mas grandes na consciência de pertença ao povo de Deus, Igreja toda ministerial, bem como contempla hoje outras experiências comunitárias (novas comunidades). Reaviva a força da Palavra, tão preciosa às comunidades, e a centralidade da eucaristia, como alimento dos que caminham no seguimento de Jesus.

O documento recorda ainda as realidades pastorais com seus diversos desafios: família, jovens, crianças, idosos. Alerta para o atendimento aos necessitados: doentes, presos, desempregados, migrantes e imigrantes, todos os rostos marcados pela exclusão e pelas injustiças. Menciona as estruturas de poder que escravizam o povo, explorando-o em proveito do lucro, negando-lhe o direito à dignidade de viver.

Muitos desafios são mencionados, porém o mais realçado foi a renovação das estruturas eclesiais, sobretudo da paróquia. Chega-se a dizer que a Igreja, “em vista da Missão, deve abandonar as estruturas caducas que não favorecem a transmissão da fé”. O mundo urbano exige nova configuração de paróquia. É preciso discernir os sinais dos tempos (expressão que ficou esquecida nas últimas décadas) para aplicar os projetos que sejam respostas evangélicas ao moderno jeito de viver. Embora o documento não mencione as causas históricas dos desafios, eles são inseridos na pauta do momento para que cada conferência episcopal e cada Igreja particular tenham em vista as causas e apliquem as formas concretas para serem sinais de esperança à sua gente.

 

3. O que esperar do documento? O que encaminhar?

O núcleo temático da 5ª Conferência: “Discípulos e missionários em favor da vida” é alentador e impulsiona atividades concretas. Todo o documento é perpassado por esse binômio que deverá iluminar o agir pastoral dos próximos tempos.

Como ser missionário sem antes ser discípulo? E onde se formar para o discipulado? O exemplo das comunidades primitivas deve ser retomado: “Eles tinham tudo em comum… e não havia necessitados entre eles” (At 2,42-46). Com base no testemunho de vida em comunidade, nessa experiência com o jeito de Jesus viver, é que os discípulos saíam em missão (cf. At 13,1-3).

O documento aponta para uma reformulação das estruturas paroquiais com a comunhão e participação de todos na ministerialidade do sacerdócio comum. Portanto, a dinâmica da Igreja “povo de Deus” toda ministerial seria propícia para a formação do discípulo, que nunca é formado individualmente, mas sempre na comunidade, escola de comunhão. A participação torna-se educativa da fé se a comunidade acolhe e respeita quem chega a ela, oferecendo espaços de inclusão. O crescimento no sentido de pertença evolui e, cada vez mais, o participante toma consciência de ser discípulo.

A comunidade em que os ministérios são respeitados torna-se autoeducativa da fé, e o ministério ordenado tem também o seu lugar distinto, não como aquele que concentra poder, mas como o que coordena, articula, favorece e promove a formação de todos os outros ministérios. Um poder compartilhado, poder-serviço, que favorece o “empoderamento” de cada participante como sujeito e agente da evangelização, e não como mero espectador subserviente dos ditames de quem se arroga o poder. O ministro ordenado é também um discípulo na escola do Mestre que ensina na comunidade.

Em todo o continente da América Latina e do Caribe, principalmente no Brasil, convivemos com o fenômeno da mobilidade humana, forçada pelo sistema neoliberal. O desmantelamento das organizações sociais, como a família e outras, provoca o desenraizamento da pessoa do contexto onde sua personalidade foi formada. Como consequência, ela perde valores e crenças, perde horizontes, objetivos e perspectiva de vida, tornando-se presa fácil de manobras políticas, da propaganda consumista, do tráfico de drogas e da teologia da prosperidade apregoada pelo neopentecostalismo. O grande desafio neste continente é evangelizar nas periferias das cidades, nas fronteiras agrícolas e nos condomínios.

Se a estrutura paroquial for organizada em função das experiências comunitárias, constituindo a paróquia uma rede de comunidades, toda a Igreja será sinal de esperança para quem chega e oferecerá maior segurança para quem nela está. Se a Igreja se faz presente por meio de CEBs que se abrem para acolher todas as realidades existentes em seu pequeno território, essas comunidades constituirão verdadeiras células de transformação social. O comprometimento afetivo se tornará efetivo e, na entreajuda de profissionais que se doam no serviço comunitário, toda aquela pequena porção do povo de Deus ficará beneficiada. A seiva do evangelho correrá livremente entre as pessoas sem a distinção de sua condição de vida. O discípulo assim formado estará apto a “mostrar as razões de sua fé” (1Pd 3,15) perante qualquer situação que a modernidade lhe apresente.

Uma comunidade bem estruturada, em que os ministérios são assumidos por seus membros, logo se torna missionária. Isso se dá em dois sentidos: por um lado, os fiéis vivem a missão dentro da comunidade sendo “sal e luz”, o que faz toda a comunidade ser missionária, colaborando com a formação de outras na redondeza geográfica. Assim há todo um investimento para formar pessoas que assumam os ministérios na comunidade de origem e no lugar de destino do missionário, organizando mais uma porção do povo de Deus para ser comunidade. Por outro lado, quem experimenta a liberdade de ser missionário descobre que o caminho é longo, mas se faz disponível para ir ao encontro das regiões onde a Igreja precisa ser sinal de esperança.

Quantas comunidades deveriam ser organizadas nas periferias das cidades, grandes ou pequenas! Os encontros de massa são bons, porém nunca atingem todos os moradores de uma região, e depois a emoção daquele momento passa logo. O pároco, às vezes, fica impressionado e iludido por uma “miragem eclesial”, vendo a matriz cheia para a celebração da missa; com efeito, se viessem todos os católicos moradores de sua circunscrição paroquial, caberiam no templo? Ademais, ouvimos muitas reclamações a respeito das celebrações, que nem sempre são atrativas. Sem a compreensão do valor do mistério pascal, o evento fica cansativo. No ambiente comunitário, todos se sentem mais envolvidos, próximos, e assim vão entendendo o mistério pascal cada vez que se fazem presentes, sem contar que a comunidade está próxima à sua residência. Muitas CEBs, cheias, encheriam quantas matrizes?

Quanto às pessoas residentes em edifícios em grandes centros urbanos: se levamos em conta que a vida em condomínios já envolve muitos princípios comunitários e, ainda, que aproximadamente 70% dos moradores são católicos, o que falta para transformar um edifício em comunidade?[2]

As fronteiras agrícolas apresentam desafios próprios com uma cultura rural mesclada de modernidade em alguns aspectos e distante dela em outros. O principal meio de ligação entre as pessoas do mundo rural são as estradas, essenciais a esse lugar de vida, mas ainda precárias. As distâncias aumentam entre os moradores de grandes regiões geográficas com poucos habitantes. Se a presença da Igreja se faz em comunidades, facilitando as distâncias, lá também o povo comparecerá para celebrar e viver o mistério pascal.

Portanto, o desafio da missão não deve se centrar na busca dos afastados da Igreja, mas na forma de ser Igreja para atrair de volta aqueles que um dia se afastaram. Se tiveram motivos para se afastar, encontrarão motivos agora para retornar.

Não há uma receita para evangelizar. A evangelização será consequência do modo de viver em comunidade. Não há uma ideologia para transformação da sociedade. As ideologias transformam as pessoas pelo condicionamento, mudam um comportamento, e nem sempre transmitem valores; as mudanças que provocam ocorrem sempre em proveito do poder dominante. Quem vive em comunidade não se deixa condicionar nem se torna massa de manobra, a fim de satisfazer a propaganda consumista. Ao contrário, posta-se no mundo testemunhando verdades e valores que defendem a existência digna para todos os viventes, na ética e na justiça. Dessa forma, colabora para construir uma sociedade justa e fraterna que seja sinal do reino.

 

4. Concluindo com as esperanças…

O Documento de Aparecida poderá marcar a nossa história se seu recebimento e aplicação promoverem a renovação das estruturas paroquiais, acentuando a pastoralidade na organização paroquial.

Bispos e párocos serão os agentes primordiais para patrocinar tal renovação. É preciso inventar maneiras novas: abandonar estruturas caducas, sair de uma pastoral de conservação, romper com o continuísmo. O Espírito é sempre novo e renova a face da terra. Contribuir com ele exige imaginação, criatividade, novas atitudes pastorais, novos serviços, novos ministérios, para desinstalar-se e promover um agir transformador.

O Continente da Esperança precisa apresentar sua identidade de Igreja com jeito próprio de ser, oferecendo experiências que possam atrair as atenções do mundo para o evangelho no anúncio do reino e no anúncio de Cristo. “Este Jesus, que vocês mataram, Deus o ressuscitou e nós somos testemunhas” (At 3,14-15). O querigma de antes deve ser o de sempre. Testemunhar em meio às diversas circunstâncias “para que nele nossos povos tenham vida”.

Anunciar a esperança de vida em meio às situações de morte: “Vocês mataram” com o desmantelamento das estruturas sociais, com a escravização do poder, com doutrinas rígidas, moralismos, impunidade, injustiça, guerras, tráficos, consumismo, ideologias de morte, que têm causado todo tipo de exclusão e desvalorização da pessoa humana como imagem do Criador. Mataram tolhendo a dignidade, tratando seres humanos como objeto de prazer e de consumo, tendo em vista o acúmulo de riquezas.

Contra essas situações o Documento de Aparecida deve ser esperança universal de vida, fundamentando-se no evangelho como eixo integrador das forças e promovendo justiça e dignidade para todos os viventes.



[1] Carta a los presidentes y miembros de las Conferencias Episcopales de América Latina y del Caribe, 5 nov. 2004.

[2] Hugo C. Rocha. “Pastoral dos condomínios”. Apostila.

Pe. Pedro F. Bassini