Artigos

Publicado em Novembro-Dezembro de 2007 (pp. 20-26)

Conferência de Aparecida

Por Pe. J. B. Libanio

1. Introdução

A Igreja na América Latina realizou em Aparecida, de 13 a 31 de maio de 2007, a 5ª Conferência Geral do Episcopado. Reunião original do continente, diferente de concílios ou sínodos regionais, porque versa sobre pastoral, diverge também do sínodo continental, criado por João Paulo II, porque os bispos publicam, eles mesmos, o texto e não confiam ao papa a redação.

A conferência procurou responder à pergunta: como ser Igreja na atual situação da América Latina? Para tanto, analisou a realidade social, econômica, política, cultural, religiosa e eclesial do continente. Confrontou-a com a perspectiva teológica escolhida, a saber, como ser discípulo e missionário em tal contexto histórico. E terminou com propostas de ação pastoral. Assumiu-se, por conseguinte, o método ver-julgar-agir.

 

2. Peripécia da convocação da Conferência de Aparecida

A Conferência de Santo Domingo parecia ter sido a última, porque depois dela João Paulo II convocou o Sínodo das Américas e publicou em seguida a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Ecclesia in América.[1] Surgia, então, nova estrutura continental que substituiria com vantagem a conferência, ampliando-a para as três Américas, além de realizar-se em Roma com a presença próxima do papa e dos dicastérios, sem perigo de tensões.

Inteligentes diligências do presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano conseguiram mostrar a João Paulo II a importância de continuar a tradição das conferências episcopais, seja por conta da eventualidade do 50º aniversário da fundação do Celam, seja em razão do desejo quase unânime das conferências nacionais de bispos da América Latina e de bom número de cardeais latino-americanos. O papa aceitou tais razões e programou a próxima conferência episcopal para Roma, em fevereiro de 2007. Com a morte de João Paulo II, Bento XVI reconfirmou-a, já não para Roma, mas para Aparecida. Portanto, pelo simples fato de ter sido convocada, já significou passo positivo relevante.

Estavam em cogitação outros lugares para a conferência — Equador, Chile e Argentina. A escolha do Brasil causou surpresa, e o papa não apresentou razões. Surgiram especulações. Aparecida, por ser santuário mariano de renome mundial, dava à 5ª Conferência um cunho internacional para além do fato de se realizar em terras brasileiras. Num momento de firmar a identidade católica, um santuário mariano vinha a propósito. Havia também o reconhecimento do tamanho e da significação pastoral da Igreja no Brasil. O período foi fixado entre os dias 13 e 31 de maio de 2007, 52 anos depois da fundação do Celam (1955). O papa prometera fazer a abertura. A figura da assembleia foi bem variada: cardeais da Cúria, bispos do continente, convidados de outros países, observadores de outras confissões, assessores, representantes dos novos movimentos eclesiais etc.

 

3. Antecedentes da conferência

A 5ª Conferência desencadeou no continente enorme processo de preparação. O primeiro passo consistiu em determinar o tema. O Celam escolheu-o e apresentou-o ao papa, que retocou a formulação, reforçando-lhe o caráter cristológico: “Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida — ‘Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida’ (Jo 14,6)”. Em setembro de 2005, editou o documento de participação, como convite à discussão, ao solicitar às conferências episcopais e a outras instituições de Igreja contribuições e sugestões. Com base nelas, que somaram o montante de 2.400 páginas, redigiu-se o documento de síntese.

O fato mais importante que antecedeu a conferência foi a visita de Bento XVI ao Brasil. Além de dois textos importantes que o papa tinha promulgado — a Encíclica Deus Caritas Est e a Exortação Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis —, os discursos que ele fez na visita a São Paulo e na inauguração da conferência marcaram de tal modo o documento final, que este o citou várias dezenas de vezes.

O papa, durante o voo de Roma a São Paulo, deu uma entrevista em que não poupou críticas à teologia da libertação por ela ter-se associado a fáceis milenarismos, prometedores de revoluções e rápidas mudanças para conseguir vida justa. Achacou-lhe generalismos, lugares-comuns e mistura errada entre Igreja e política e fé e política. Criou-se então a expectativa de que ele a condenaria nos discursos programáticos. No entanto, silenciou-se, como também o fez o documento final.

No discurso social, o papa incentivou a promoção do respeito pela vida, desde a concepção até o natural declínio, e pela pessoa humana como o eixo da solidariedade, especialmente com os pobres e desamparados. Referiu-se à liberdade do ensino religioso nas escolas públicas e ao dever do Estado de garantir, com subsídios, as obras educativas e de assistência social da Igreja. Insistiu na formação de cidadãos, nos valores morais, no fortalecimento da família, no cuidado especial para com os povos indígenas.

Aos jovens, apresentou Jesus como o único capaz de fazê-los felizes e garantir-lhes a vida eterna. “Estar aberto à bondade significa acolher a Deus.”[2]Exortou-os a não desperdiçar a juventude e assumir a “grande missão de evangelizar os jovens e as jovens, que andam por este mundo errantes, como ovelhas sem pastor. Sede apóstolos dos jovens!”[3]

Incentivou o fiel piedoso, que o acolheu com calor, à prática dos sacramentos da reconciliação e da eucaristia, à caridade com os pobres e enfermos, à devoção a Maria, à vida pura e à santidade.

Em tom diferente, grave e de corresponsabilidade pastoral, dirigiu aos bispos da CNBB, reunidos na Catedral da Sé de São Paulo, minucioso e preceptivo discurso num tríplice olhar. Para dentro da Igreja, exortou-os a incansável zelo pela ortodoxia, como mestres de fé e de doutrina, numa responsabilidade condividida com clero e leigos. Ao olhar a cultura moderna, insistiu no papel da Igreja de propiciar aos fiéis o encontro com Cristo, de reafirmar os valores morais da família e do matrimônio. Ao voltar-se para a sociedade política, depois de reconhecer o déficit histórico de desenvolvimento social, a indigência, a desigualdade de renda, as injustiças, incentivou a Igreja, atenta aos valores transcendentes, a contribuir para resolver os problemas sociais e políticos com soluções novas e cheias de espírito cristão e para formar os políticos e classe empresarial na veracidade e honestidade, na maximização do bem comum, recorrendo à doutrina social da Igreja. Parte da imprensa interpretou esse discurso como repreensão do papa aos bispos do Brasil pelo êxodo dos católicos para as Igrejas pentecostais e neopentecostais.

O discurso mais importante foi proferido na inauguração da 5ª Conferência. Deixou a impressão geral de sereno, positivo, sem, contudo, trazer nenhuma novidade especial. O papa retomou as ideias que vinha tratando em documentos e discursos anteriores. Deixou de fora as questões polêmicas e as condenações. Enunciou um discurso doutrinal, universal e ideal, que partiu da transcendência para ser depois aplicado pelos bispos à realidade da América Latina. Leu o momento presente à luz do horizonte europeu da crise atual da cultura moderna.

 

4. Entorno da conferência

Ponto original e positivo da Conferência de Aparecida foi a importância e a benfazeja influência que o entorno físico e humano teve sobre os bispos, diferentemente das outras, em que eles viveram isolados. Participavam da celebração eucarística diária na basílica com os fiéis peregrinos, percebendo-lhes assim a piedade simples e fervorosa. A religiosidade popular deixou de ser tema teórico para tornar-se experiência dos bispos, especialmente a piedade mariana.

Em Aparecida, as pastorais sociais, as CEBs, os organismos eclesiásticos criaram um fórum para eventos. Prepararam romarias, cartazes, círculos bíblicos etc. Construíram para isso a “Tenda dos Mártires”: simples, pobre, de terreno de chão batido, armada de lona branca, como os circos, com cartazes, faixas e símbolos que recordavam o compromisso de luta da Igreja dos pobres. Tornou-se espaço de celebrações, de momentos de mística, de debates e reflexão, de grupo de oração, de acolhida, em espírito de comunhão com a 5ª Conferência. Bispos lá estiveram e celebraram, e muitas pessoas lá iam todos os dias para rezar.

Em articulação com as iniciativas da Tenda, organizou-se no dia 19 de maio, da meia-noite até as 8 horas da manhã, uma romaria de fiéis, saindo de Roseiras, a 10 km de Aparecida, até o santuário. Com vela acesa, fizeram cinco paradas e refletiram sobre cada uma das cinco conferências. Encerrou-se com a missa no santuário, fazendo a lembrança dos mártires da América Latina, entre os quais D. Oscar Romero.

Em termos teológicos, o Conselho Nacional do Laicato do Brasil promoveu, nos dias 18, 19 e 20 de maio, na cidade vizinha de Pindamonhangaba (SP), o Seminário Latino-Americano de Teologia, com o tema: “América Latina, cristianismo e Igreja no século XXI”. O objetivo era refletir sobre os desafios da realidade latino-americana na perspectiva da Igreja. Constatou-se presença significativa de participantes no seminário, em sintonia com a assembleia e com conferencistas ligados à teologia da libertação. Nesse mesmo espírito, organizou-se uma assessoria permanente de teólogos da libertação que moravam em uma casa religiosa e aos quais membros da conferência recorriam com liberdade. Diferentemente das duas últimas conferências, houve excelente relacionamento deles com o Celam.

 

5. Desenrolar da 5ª Conferência

Tudo começou com a celebração da eucaristia presidida pelo papa: símbolo expressivo de colegialidade, que se praticou dentro dos limites da atual estrutura hierárquica da Igreja católica.

Logo de início, tomaram-se decisões que determinaram a natureza da conferência. Seguindo tradições anteriores, resolveram trabalhar tendo em vista a publicação de dois textos: um menor, a mensagem final, cuja redação foi entregue a um pequeno grupo, e o documento final, a ser elaborado com a colaboração de todos, divididos, primeiro, em grupos aleatórios e depois em comissões temáticas e subtemáticas.

Após as apresentações dos presidentes de conferências nacionais de bispos e de dicastérios romanos, os bispos entregaram-se à elaboração do documento de conclusões. O primeiro passo consistiu no detalhamento do tema central escolhido em torno de dois eixos principais: a realidade do continente e a vocação de discípulo-missionário do evangelho da vida para os povos latino-americanos e caribenhos.

A mensagem apresentou um resumo das intuições centrais do documento final, terminando com belíssimo perfil da Igreja desejada e com o incentivo de que todos a construam: viva, fiel, crível, alegre, convicta, animada no zelo missionário, em espírito de comunhão, de modo que este continente da esperança seja também o continente do amor, da vida e da paz!

 

6. Documento final

Muito mais amplo, o documento final se estruturou em torno de três eixos centrais, seguindo o método ver-julgar-agir. Num primeiro, os bispos olharam, já na perspectiva da fé em Jesus Cristo, para a realidade sociocultural, econômica, política e eclesial. Salientaram, no plano cultural, a globalização em sua dupla face: positiva, de congraçamento dos povos, e negativa, de absolutização do mercado, privilegiando o lucro, de concorrência, com as consequências iníquas da concentração do poder e das riquezas nas mãos de poucos, e de ampliação da pobreza. No campo político, o texto oscila entre o elogio do processo de democratização do continente e o temor de neopopulismo autoritário. Finalmente, faz um balanço das luzes e sombras da Igreja. Junto com o lado luminoso da pujança da vida interna e do serviço que a Igreja presta, há deficiências na evangelização e na clareza doutrinal e existencial dos católicos.

O juízo teológico, correspondente ao segundo eixo, consistiu na elaboração de uma cristologia e de uma eclesiologia. A primeira insistiu no encontro pessoal do católico com Jesus, na consciência do chamado e do envio para ser missionário do evangelho da vida. E a Igreja foi apresentada como aquela que oferece os centros de comunhão para o fiel viver a fé e um itinerário formativo, inspirado no caminho neocatecumenal, apontando os principais lugares para a realização de tal formação.

A terceira parte orientou-se para o agir pastoral. A missão da Igreja e particularmente do cristão consiste em anunciar a nossos povos a vida nova em Cristo. Jesus se pusera a serviço da vida e se oferecera como vida para os que creem nele e o seguem. Vida em todas as dimensões e para todos contra a exclusão, que contradiz o projeto de Deus. Daí resulta a tarefa de comunicar essa vida, o que implica conversão pessoal, renovação missionária e abertura para a missão fora dos nossos países — ad gentes.

A conclusão do documento retomou incisivamente a ideia central de “despertar a Igreja na América Latina e Caribe para um grande impulso missionário”. No horizonte está “uma grande Missão Continental”, cujo projeto e desejo o texto mencionou em vários lugares. Ao falar das CEBs, reconheceu-as como “ponto válido de partida” para ela. E agora, na conclusão, o documento acena para o “despertar missionário em forma de uma Grande Missão Continental”. As linhas de tal missão já foram discutidas na conferência, mas ela será considerada concretamente na próxima Assembleia Plenária do Celam em Havana, Cuba.

 

7. Breve e provisório balanço

Trata-se de avaliação global inicial, algo impressionista, que se irá ampliando. Na vida da Igreja se manifestará o real valor da 5ª Conferência, ao fazerem as comunidades a verdadeira recepção. As vozes oficiais e letradas representam um fator no processo, mas não são o mais importante. A teologia fundamental conhece bem a categoria do sensus fidelium, o sentir de fé dos fiéis, que faz passar pelo seu crivo triturador a massa enorme de textos eclesiásticos, colhendo-lhes o suco. Apresento, então, umas primeiras considerações para serem submetidas ao processo vital das comunidades, especialmente das CEBs.

O fato da realização da conferência merece, por si só, registro positivo. Exprime, em momento de surto neoconservador e centralizador, gesto colegial e de autonomia do episcopado da América Latina e do Caribe. Houve limites na colegialidade em virtude das intervenções diretas e estatutárias de Roma: convocação, indicação do tema, nomeação da presidência, aprovação dos membros, discurso norteador e aprovação final. Mesmo assim, os bispos se reuniram, discutiram, ouviram uns aos outros, sentiram o pulso do continente. A conferência, em termos de colegialidade, vai além do sínodo, que só tem aspecto consultivo e deixa ao papa a redação da exortação apostólica pós-sinodal. Aqui existe um documento da lavra dos participantes da assembleia, como fruto da sua experiência pastoral e teológica.

Já nos referimos ao aspecto positivo do entorno de Aparecida. O texto reflete a enorme influência do ambiente mariano, ao reconhecer o “valor incomparável do traço mariano da religiosidade popular, que, sob distintas intercessões, foi capaz de fundir as histórias latino-americanas diversas em uma história partilhada”[4].

É difícil medir a influência positiva, na redação dos textos, de eventos simultâneos, como o Seminário Latino-Americano de Teologia, a presença próxima, amiga e de serviço do grupo Ameríndia, a Tenda dos Mártires, com os diferentes eventos, e o envio de textos, cartas, documentos, sugestões e demandas, além de contatos verbais com pessoas que, embora fora da conferência, se interessavam em participar.

Outra dúvida de um leitor de fora consiste em ponderar até que ponto pesou a influência dos novos movimentos eclesiais em detrimento das pastorais sociais e das CEBs.

O texto se apoia sobre a viga mestra da consciência das exigências da fé cristã confrontada com os desafios da realidade atual. Da percepção desse confronto surge dupla constatação: uma triste e dolorosa, outra, esperançosa e programática. A dor vem da evidente perda de relevância, consistência e presença da Igreja católica no continente latino-americano. Muitos fatores são mencionados, desde os impactos da globalização até a falta de raiz e de convicção da imensa massa de católicos. A esperança nasce da aposta de que é possível sacudir os católicos para verdadeira conversão, não no sentido moralista de distanciamento do pecado, mas de tomada de consciência da grandeza da vocação cristã e da tríplice consequência: fazer-se discípulo de Cristo, viver tal realidade na Igreja e ser impelido para tornar-se missionário do evangelho da vida. Esse é o estribilho que o documento repete à saciedade.

Em termos práticos, a conferência pretende desencadear a grande missão continental. Em linguagem futebolística, a Igreja pensa numa evangelização “corpo a corpo”, abordando diretamente, em primeiro lugar, aqueles fiéis que abandonaram a prática religiosa, especialmente a missa dominical. Mas não num espírito de proselitismo, e sim de amor ao irmão. Imagina-se que, depois de momento forte, a grande missão se torne algo permanente.

A unanimidade na aprovação do texto reflete dupla face. Revela, positivamente, hercúleo esforço de diálogo, de compreensão, de busca de comunhão, de esforço de superação de arestas e conflitos. Mas também paga custo não desprezível. A linguística ajuda-nos a entendê-lo. O consenso se faz a preço de adversativas, de adjetivações que enfraquecem as afirmações na rudeza da expressão. Um exemplo: digamos que um bispo quisesse, sem mais, fazer passar a ideia de que a Igreja dos pobres é a verdadeira Igreja de Cristo. Há três posições possíveis: rejeita-se a afirmação — e, nesse caso, a comunhão parece lesada; aceita-se sem mais, supõe-se que seja o pensar de todos, mas na realidade não é. Então, o consenso veste essa ideia com palavras que conservem algo do original, mas a façam palatável a quem não a aceitava. Aparece então uma formulação em termos mais ou menos como estes: a Igreja tem uma preferência pelos pobres e eles ocupam lugar de especial atenção na Igreja. Essa frase consegue o consenso geral, mas já não traduz a força profética da proposta. O consenso se fez à custa do profetismo.

Aparecida conserva as aberturas da tradição de Medellín, mas modifica a maneira de compreendê-las. Há uma convicção prévia que decide. Pela fé em Cristo, vivida na Igreja, temos toda a verdade, toda a abertura, toda a libertação, os valores fundamentais do ser humano. Imbuídos dela, transformaremos a nós e ofereceremos a fonte de transformação para as outras pessoas e para a realidade. Em abstrato, a afirmação é absolutamente correta. Contudo, a questão se põe não no nível da realidade de Cristo, e sim daquilo que pensamos ser a fé em Cristo. O pressuposto é de que sabemos com clareza o que seja e disso não duvidamos; portanto, o processo consiste em tirar desse nosso conhecimento as consequências práticas e pastorais.

Os pontos fortes da tradição de Medellín sofreram, já em Puebla, uma matização que persistiu nas conferências seguintes. O termo libertação recebe, nas afirmações do documento final, adjetivações como: cristã, autêntica, integral, de humanização, de reconciliação e de inserção social. Há apenas uma exceção, quando se refere à libertação dos povos, porque aí não havia perigo de entendê-la no sentido que a teologia da libertação o fazia em relação às estruturas econômicas, políticas, culturais, religiosas e eclesiais. Os adjetivos possibilitam a cada um entender a seu modo e assim se obtém um consenso — não sobre um significado concreto, mas simplesmente sobre um significante a ser preenchido com significados diferentes.

No caso da teologia da libertação, porém, o consenso se traduziu em silêncio. Não deixa de ser estranho que o episcopado de um continente no qual se conseguiu, em dado momento, produzir uma teologia original — teologia fonte e não reflexo, na linguagem de H. Vaz — a silencie totalmente.

Aparecida desloca o acento do testemunho. Em Medellín, a Igreja institucional, a vida consagrada, as obras da Igreja perceberam que não era possível, num continente pobre, dar testemunho do alto de estruturas e vida com aparência rica. Consagrou-se um parágrafo à “Pobreza da Igreja” com propósitos de uma Igreja simples e despojada. Em Aparecida, o acento se modificou. Insiste-se na “alegria” do encontro com Jesus, de que se dá testemunho. Será já algum toque pós-moderno, carismático? Ou indica que o ímpeto militante da década pós-Medellín se tornara pesado, sisudo e duro? Estamos em tempos de sublinhar a alegria, o gozo, o prazer de ser cristão.

Depois de Medellín, incentivada pela Confederação Latino-Americana de Religiosos e Religiosas (Clar) e por diversas conferências nacionais de religiosos, a vida consagrada encontrou formas de inserção nos meios populares rurais e urbanos. Aparecida desloca a inserção simplesmente para dentro da Igreja particular em comunhão com o bispo, e a pobreza aparece sob a forma de liberdade diante do mercado e das riquezas. A inserção no meio dos pobres desaparece.

A tradição de Medellín se nutrira, no campo educacional, da pedagogia libertadora de Paulo Freire. Houve profundas reformulações de muitas obras educacionais de instituições religiosas. Aparecida matiza a questão em outra ótica, não oposta, mas diferente. O fundamental é a identidade católica. De dentro dela, a educação se abre ao social, ao pobre, à formação integral do educando.      Da tradição latino-americana, o documento reteve a articulação entre evangelização e promoção, que Paulo VI consagrou na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, fruto de um sínodo em que a América Latina teve excelente presença com D. Helder, Cardeal Arns, Cardeal Aloísio, D. Ivo e outros. Já é patrimônio oficial da Igreja. Mas foi bom repisar para evitar certo espiritualismo invasor.

A temática da sexualidade é demasiado difícil e delicada para ser discutida e verbalizada. Por isso, praticamente o texto a silencia. Refere-se a ela quase sempre negativamente. O positivo consiste unicamente no incentivo a sã educação sexual. Os adjetivos, de novo, servem para atenuar qualquer discrepância interpretativa no interior da conferência.

O grave problema do ministério presbiteral, reservado unicamente a homens celibatários, não teve clima para ser tratado, embora seja um dos maiores empecilhos para a evangelização no continente latino-americano e a CNBB tenha feito sugestões ousadas sobre tal assunto. Ele se tornará tanto mais sério quanto mais as Igrejas evangélicas preencherem, com a avalancha de pastores, o vazio ministerial deixado pela Igreja católica.

Em relação a Santo Domingo, o parágrafo sobre a dignidade e a participação das mulheres trouxe avanço. Além dos conhecidos ditos de rejeição de todo machismo e da exploração da mulher sob muitas formas, o documento propõe “garantir a efetiva presença da mulher nos ministérios que na Igreja são confiados aos leigos, assim como também nas instâncias de planificação e decisão pastorais, valorizando sua contribuição”[5].

A temática do ecumenismo e do diálogo inter-religioso sofre no momento, no interior da Igreja católica, certa ambivalência. João Paulo II teve gestos simbólicos de largo alcance. No entanto, não se avançou em pontos centrais, como a intercomunhão e outros. O texto da 5ª Conferência não possui nenhum estro profético nem impulsiona realmente a algum progresso. Repete afirmações do Concílio e dos dois últimos papas, mas não acrescenta nem sugere realmente nada de novo e criativo. Manifesta o desejo da intercomunhão, sem apontar algum passo em direção a ela, a não ser a valorização do batismo. O problema não vem daí, mas da concepção de eucaristia como realidade intrinsecamente ligada ao ministério ordenado e existente somente nas Igrejas católicas e ortodoxas, segundo a visão tradicional católica.

Conservou-se verbalmente a expressão “opção preferencial pelos pobres”, quase sempre usada sob tal forma, embora algumas vezes se tenha omitido o adjetivo “preferencial” e noutra se tenha aposto o termo “evangélica”. O fato revela que ela já faz parte dos lugares-comuns da nossa vida eclesial. No entanto, essa opção preferencial pelos pobres careceu de pistas concretas para a pastoral. Perdura o receio de que deslize para o campo político e ideológico. Esquece-se, porém, que o silêncio e a vaguidade também são ideológicos. E como, na prática, a Igreja se identifica com o clero e com os religiosos(as), a opção pelos pobres dificilmente se traduz nalguma luta dentro de movimentos sociais de reivindicação e de libertação, em que tomaria carne. Vale, porém, salientar o reconhecimento do sujeito indígena e dos afrodescendentes no cenário da Igreja e da sociedade.

Surpreende o fato de o documento ter sido generoso em tratar da globalização e ter omitido reflexão sobre o neoliberalismo. Talvez esse procedimento se entenda pela opção de privilegiar o cultural em detrimento do econômico-estrutural. A globalização, embora o capital financeiro navegue nela, influencia especialmente a cultura. E esse viés principalmente preocupou os bispos com os famosos “ismos”: hedonismo, individualismo, narcisismo, pragmatismo, subjetivismo e o famigerado relativismo. Todos traços culturais — mas, sem dúvida, muito devedores do sistema capitalista neoliberal.

 

8. Conclusão

Terminou a primeira etapa. Entramos no momento da interpretação e da recepção criativa. Por ser um documento amplo, consensual, permite que tendências diferentes e até mesmo opostas se nutram dele. A vida eclesial, sobretudo na base, decidirá, em última análise, para onde caminhará a Igreja do continente no ritmo do documento ou ainda para além dele.

 



[1] João Paulo II. Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in América: sobre o encontro com Jesus Cristo vivo, caminho para a conversão, a comunhão e a solidariedade na América. São Paulo: Loyola, 1999.

[2] Bento XVI. “Discurso aos jovens no Estádio do Pacaembu”, in: Palavras do Papa Bento XVI no Brasil. São Paulo: Paulinas, nº 4, 2007, p. 20.

[3] Bento XVI, op. cit., nº 5, pp. 22ss.

[4] Conferencia General del Episcopado Latino-Americano Y del Caribe, 5. Documento conclusivo: versão não oficial, nº 43.

[5] V Conferencia, op. cit., nº 477.

Pe. J. B. Libanio