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Publicado em Julho-Agosto de 2008 (pp. 25-31)

Formação dos discípulos missionários

Por Pe. J. B. Libanio, sj

De Aparecida veio vigoroso incentivo: acordar os católicos para imenso mutirão evangelizador. Dois fatos influenciaram tal grito de alerta: a perda de católicos e o embate da modernidade. A Igreja católica vem perdendo terreno na América Latina. A cada pesquisa, os números baixam.

 

1. A queda numérica de católicos

Até os anos 70 do século XX, o Brasil tinha praticamente a fisionomia de um país de imensa maioria católica, muito mais de 90%, que monopolizava as crenças e as atitudes religiosas. O golpe de 1964 se fez viável, porque os militares souberam jogar com o traço católico do povo contra o perigo — naturalmente fictício, sabemos hoje — do comunismo, apresentando-o como ateu e inimigo da fé.

Os primeiros sinais estatísticos de diminuição de católicos aparecem por volta dos anos 1980, quando o percentual cai para um pouco menos de 90%. Já no ano 2000, o censo do IBGE apontou 73% de católicos — queda de mais de 20% em três décadas. E a sangria continua. Como detê-la? Ou mesmo revertê-la?

A Igreja católica necessita deixar de pensar unicamente nos próprios fiéis, que estão a ir-se, para sair de seus rincões e iniciar verdadeiro trabalho missionário — em primeiro lugar, junto aos ex-católicos, que têm naturalmente a base católica ainda viva, talvez encoberta com cinzas de outras promessas. E como estas, em muitos, têm sido defraudadas, fica a esperança de acender o fogo primeiro.

 

2. O embate com a modernidade

O outro adversário, ainda maior, chama-se cultura moderna e pós-moderna. Os sumos pontífices vêm formulando frases de efeito que refletem o distanciamento do mundo moderno em face da fé cristã. Os trágicos pontificados de Pio IX e Pio X enfrentaram a intelectualidade crítica que já não frequentava, fazia tempo, o mundo católico. Os famosos mestres da suspeita — K. Marx, F. Nietzsche e S. Freud — bombardearam com vigoroso ateísmo a intelligentsia moderna. Lá em L. Feuerbach já se encontravam as sementes do humanismo ateu. Tratava-se de um ateísmo agressivo que não combatia a Deus diretamente, mas se propunha salvar o ser humano ameaçado pela religião com posições anti-humanistas, alienadas e sobrenaturalistas, segundo a crítica desses autores.

Pio XI percebeu que o ateísmo descia da camada intelectualizada, numericamente menor, embora ideologicamente poderosa, para a massa operária. E anunciava com tristeza que a Igreja perdera a classe operária. Pio XII avançou o diagnóstico e afirmou que o “pecado do século atual [século XX] é ter perdido o senso de pecado”. E Paulo VI, na Evangelii Nuntiandi, escreveu que “a ruptura entre o evangelho e a cultura é sem dúvida o drama de nossa época, como o foi também de outras épocas”.

Nesse ínterim, houve o breve momento luminoso de esperança do Concílio Vaticano II. A Igreja voltou-se com coragem para enfrentar o mundo moderno. Promulgou a maravilhosa Constituição Pastoral Gaudium et Spes, despertando a esperança de um reencontro crítico, apostólico e missionário da Igreja com a modernidade. No entanto, anos depois, Paulo VI mostrou-se desiludido, fazendo afirmações pesadas. Ao falar da Igreja no final do seu pontificado, dizia que “por alguma fresta entrou a fumaça de satanás no templo de Deus”[1]. “Também na Igreja reina este estado de incerteza. Acreditava-se que depois do Concílio viria um dia de sol para a história da Igreja. Veio, ao invés, um dia de nuvens, de tempestade, de escuridão, de procura, de incerteza. Pregamos o ecumenismo e nos afastamos sempre mais dos outros. Procuramos cavar abismos em vez de fechá-los”[2].

Os conflitos com a modernidade continuaram. Na pós-modernidade se agravaram. A economia caminha pelas vias do neoliberalismo, sem o mínimo respeito aos valores cristãos — antes os corrói radicalmente com o tripé da centralidade absoluta do mercado em busca do lucro sem peias, do Estado enfraquecido na defesa dos direitos dos mais fracos e do desmonte de todo aspecto social que antes o neocapitalismo tinha incorporado. Reina o puro capital sem outra atenção que aos interesses de seus detentores. Na política, mesmo enfraquecido, o Estado se torna independente da Igreja, prescinde dela totalmente nas questões que realmente lhe interessam e faz alianças quando convém tirar proveito dela. E, no mundo cultural, a distância cresceu ainda mais.

Primeira, básica e evidente constatação do Documento de Aparecida aponta para a “realidade marcada por grandes mudanças que afetam profundamente” (n. 33) a vida dos povos da América Latina. Novidades de alcance mundial. Para Aparecida, o fenômeno da globalização constitui o desafio maior para a evangelização no nível cultural. Cabe discernir a dupla valência: positiva e negativa. Aproveitar-se das oportunidades que a globalização oferece e contrapor-se criticamente aos malefícios que causa. O sistema financeiro, as ciências, as tecnologias, especialmente as da informática, alimentam-se da globalização e a alimentam. Ela desafia-nos, ao fragmentar os sentidos, ao romper a unidade da visão religiosa, ao erodir a religiosidade popular, ao debilitar a família, ao semear descrença em Deus, ao desintegrar a concepção de ser humano, ao coisificar os valores e, finalmente, ao gerar aguçada subjetivização e galopante consumismo. Essa avalancha mina o alicerce da fé cristã. Por outro lado, a globalização possibilita a valorização da pessoa humana, a democratização da cultura, a responsabilidade social, a consciência da diversidade cultural dos povos da América Latina. Fica no horizonte a criação de uma globalização diferente, regida pela solidariedade, pela justiça e pelo respeito aos direitos humanos. Aí estão os rostos dos latino-americanos em sua pobreza e situação marginalizada a nos questionar. As páginas sobre os rostos das nossas gentes figuram entre as mais belas do documento. Que o leitor as consulte e leia, deixando-se tocar pela força profética do texto (n. 65; 402). Esse desfile trágico de rostos sofridos interpela a Igreja na sua prática evangelizadora.

Nem faltou, em Aparecida, um momento de autocrítica da própria Igreja, ao reconhecer suas deficiências no campo do discipulado e da evangelização. Uma primeira constatação refere-se à desproporção entre o crescimento demográfico populacional do continente e o número do clero e das religiosas, alargando assim a distância quantitativa. Reconhece surtos eclesiológicos e espirituais ou interpretações reducionistas que falseiam a renovação do Concílio Vaticano II. E segue-se uma ladainha de deficiências: clericalismo, falta de autocrítica, falha na obediência de um lado e no exercício evangélico da autoridade de outro, moralismos, infidelidades à doutrina, à moral e à comunhão, fraqueza da vivência da opção pelos pobres, recaídas secularistas da vida consagrada, deficiência evangélica na concepção do ser humano, enfraquecimento da vida cristã no conjunto da sociedade e da própria pertença à Igreja, falha na evangelização, espiritualidade individualista, mentalidade relativista, linguagem da evangelização e da catequese inadaptada às experiências das pessoas, milhares de comunidades sem poder celebrar a eucaristia por falta de ministro e outros muitos aspectos (n. 100).

 

3. O apelo aos católicos: o encontro com Jesus Cristo e processo de formação

Diante desse quadro social, religioso e eclesial, os bispos tomam uma decisão fundamental: apelar aos católicos para fazerem uma experiência profunda de encontro com Cristo, de modo que se tornem discípulos missionários e se entreguem a sério processo de formação. E o documento orienta como realizá-lo. É o que agora nos ocupa a reflexão.

A formação do discípulo missionário começa com a necessidade de profunda experiência do Deus trino na realidade latino-americana, como frisa a já consolidada experiência da Igreja da libertação, em parte assumida pelo documento. Inserido nessa realidade — analisada com a ocular das mediações socioanalíticas na sua terrível conflituosidade e injustiça social —, o discípulo recebe o impacto da pessoa de Jesus.

Jesus viveu, no seu tempo, inserido no coração da realidade dos pobres e pecadores e dessa perspectiva interpretou a experiência que ele mesmo fazia do Pai no Espírito Santo. E, do meio dessa experiência, anunciou o reino de Deus como boa nova para os pobres: “Felizes vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus” (Lc 6,20).

 

4. A experiência de Deus inserida na realidade

A experiência de Deus nos pobres se dá no encontro com Jesus no Espírito. O “sólido fundamento da Trindade-Amor” sustenta a autêntica proposta do encontro com Jesus Cristo. O documento acentua a força da experiência de um Deus uno e trino, unidade e comunhão inseparáveis, para “superar o egoísmo (e) para nos encontrarmos plenamente no serviço para com o outro” (n. 240). E esse outro, naturalmente, na América Latina, chama-se pobre.

Portanto, duas realidades básicas: inserção na realidade e experiência teologal de Deus. Vale acrescentar que experiência de Deus não se identifica com qualquer experiência religiosa. Esta tange mais a parte emocional, sensível, pela força do Sagrado que atrai, seduz, mas também atemoriza. Vemos, nas narrações do evangelho, como o povo, mesmo sem ainda ter penetrado o mistério de Jesus, se sentia tocado pela sua presença — experiência de atração e de medo. Mas ela não levava necessariamente ao seguimento de Jesus. Produziu, em alguns casos, o contrário. Haja vista o exemplo dos gerasenos: depois que viram o possesso vestido e em perfeito juízo e ouviram o relato dos cuidadores de porcos sobre a história da legião de demônios que entraram nos animais e os precipitaram no lago, pediram, transidos de medo, que Jesus fosse embora. Jesus entrou no barco e voltou (Lc 8,26-39).

A experiência de Deus toca a pessoa no seu cerne como sentido radical, transcendente, último da vida. Provoca a conversão e o compromisso. Ora, Aparecida compreende o seguimento de Jesus na perspectiva de tal encontro radical com ele, como sentido último da vida. E o próprio Jesus explicita que tal atração vem do Pai no Espírito: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair” (Jo 6,44). Noutro momento afirma o contrário, que ninguém vai ao Pai a não ser por ele (Jo 14,6). Essa experiência está na origem do encontro do fiel com Cristo. E tudo se faz no Espírito. Trata-se de experiência estritamente trinitária.

O encontro com Cristo produz o efeito primeiro de encher o cristão de imensa alegria, entusiasmo e gratidão, com o consequente desejo de segui-lo. Do seguimento decorre a vontade de comunicar aos outros a beleza de tal experiência. Nasce a vocação missionária: seguidor missionário.

 

5. A necessidade da formação

A experiência humana tem-nos ensinado a dificuldade da perseverança e da constância no seguimento do Senhor. Muitos aquecem o coração quase até a fusão e depois lentamente se esfriam. O lado emocional funciona muito no primeiro encontro. Em décadas passadas, a Igreja no Brasil conheceu, no mundo dos adultos e dos jovens, o movimento de cursilho de cristandade e semelhantes. Entusiasmaram milhares de adultos e jovens, que se sentiam convertidos nos encontros diante de palestras ardorosas. Eram momentos de forte carga afetiva. Lá estava um exército de padres dispostos a acolher os convertidos, que se confessavam e comungavam. Saíam como os apóstolos do cenáculo. No entanto, passados os anos, pouco sobrou desse fervor primaveril.

Vieram os calores do verão e tostaram as flores tenras de conversões apressadas. Ou, se invertermos a metáfora, os frutos outonais não suportaram as primeiras rajadas do inverno. Baixou sobre a Igreja o inverno institucional, substituindo o fervor daqueles idos pelo neoconservadorismo eclesial.

De novo, agitam os ares da Igreja novos movimentos eclesiais. Irradiam fervor e entusiasmo. Os bispos, já escaldados pela experiência de décadas anteriores, embora tenham olhares de simpatia para tais movimentos, insistem na formação prolongada do discípulo missionário. E descem a pormenores no esboço do programa.

Como a leva de movimentos da década de 1970 não garantiu por muito tempo o frescor anunciado, assim também se teme que o surto de novos movimentos eclesiais termine, ao cabo de alguns anos, no silêncio de tanto fervor. Pertence à natureza humana a dinâmica segundo a qual os carismas vingam quando conseguem encontrar canais de estabilização, de rotinização, de institucionalização. Mas, se se exagera a parte institucional, terminam minguando por falta de vitalidade.

 

6. Entre o carisma e os roteiros

Aqui estamos. Aparecida põe-se na esteira dos novos movimentos eclesiais. Antes da conferência, reuniram-se em Bogotá, em março de 2006, os novos movimentos eclesiais da América Latina com a presença de representantes de outros continentes. Eram uns 180 delegados de 45 movimentos e comunidades e de 32 bispos, entre os quais havia também representações oficiais do Celam e do Conselho Pontifício de Roma. Aí se tomou a temperatura dos movimentos. Estava alta. Em Aparecida tiveram presença significativa e deixaram marcas indeléveis no documento. Entre os pontos positivos da Igreja do continente, assinala-se “o crescimento dos movimentos eclesiais e novas comunidades que difundem sua riqueza carismática, educativa e evangelizadora” (nn. 99e; 128). De um lado, os bispos perceberam que alguns deles não se integram adequadamente na pastoral paroquial e diocesana, mas, de outro, que “algumas estruturas eclesiais não são suficientemente abertas para acolhê-los” (n. 100e).

O documento vê tanto a riqueza que os movimentos trazem como os riscos de entrarem em choque com as estruturas eclesiais. Recorda que é função dos bispos reger a orquestra diocesana com a qual eles devem afinar como um instrumento (n. 169).

Aparecida bate então nas duas teclas. Reforçar o vigoroso elã carismático dos movimentos e propor uma disciplina pastoral e formativa para que não escapem do controle da hierarquia. Nesse contexto, aparece a importância do roteiro e do plano de formação, que valem também para todo católico. O propósito dos bispos consiste em despertar na consciência de cada fiel o desejo de ser discípulo missionário a partir do encontro com Cristo e então propor-lhe o programa formativo traçado por eles.

 

7. Processo formativo

Parte-se do encontro com Cristo. A figura de Cristo permite muitas interpretações. No Novo Testamento e por meio dos escritos dos Santos Padres e teólogos, firmaram-se duas grandes leituras de Jesus, consagradas, por sua vez, pelas escolas de Alexandria e Antioquia. Alexandria teve como principais corifeus Clemente, Orígenes e Cirilo, enquanto Antioquia se deixou representar por Teodoro de Mopsuéstia, Teodoreto de Ciro e por Nestório, a quem consideraram mais herege que de fato foi. A escola de Alexandria acentuava a divindade de Jesus Cristo com preferência pelo Evangelho de João, enquanto Antioquia, nas pegadas dos sinóticos, insistia na verdadeira humanidade de Jesus.

A teologia da libertação da América Latina aproximou-se mais da escola de Antioquia, valorizando a humanidade de Jesus. A frase lapidar de L. Boff resume bem essa postura teológica: “Humano assim só pode ser Deus mesmo”. Jesus revelou a sua face divina pelo extremo de humanidade. Na outra ponta, a linha de São João, de Alexandria, partia do Verbo divino que se fez homem. E Jesus nos trouxe a vida divina. Ao escolher a noção do Evangelho de João “Jesus caminho, verdade e vida” como referência importante, Aparecida acercou-se da interpretação joanina e alexandrina.

O cristão encontra-se com o Cristo, que trouxe a vida divina, para imbuir-se dela e comunicá-la aos outros. A riqueza dessa visão mostra-se na força divina de Jesus. O limite vem da diminuição do peso do Jesus histórico, que, metido na vida do povo, foi, de dentro dela, tecendo seu ministério. Essa compreensão favorece pensar um Jesus que já tinha, desde o início, todo o projeto do Pai que veio realizar: comunicar a vida divina. A leitura da teologia da libertação, ao contrário, prefere seguir a Jesus no duro caminhar histórico de quem vai discernindo nos acontecimentos a vontade do Pai. São acentos diferentes. Ambas são teologias de longa tradição eclesial.

Nas Igrejas particulares, temos a liberdade de trabalhar mais a linha cristológica que corresponda melhor à situação dos fiéis. Na América Latina em geral, a experiência tem mostrado que o acento sobre a humanidade de Jesus, sobre sua vida junto ao povo, aos pobres e aos doentes, tem maior força de atração e de conversão. Com base nessa linha se forma o discípulo missionário.

 

8. Dimensão eclesial

A formação traçada pelo documento realiza-se, naturalmente, na Igreja. Há dois sentidos: geográfico e teologal. O lugar físico da formação não se reduz ao prédio da igreja. Pelo contrário, a vitalidade eclesial permite que se multipliquem os lugares onde o discípulo se forme. Aliás, o próprio texto se inicia apontando a família como berço primeiro de formação. As paróquias e comunidades de base têm sido o espaço privilegiado para a catequese de iniciação aos sacramentos e de perseverança. Além disso, oferecem cursos de formação permanente tanto em nível de conhecimento como de experiências. A pedagogia moderna valoriza a formação na ação. Nesse campo, Igrejas particulares, congregações religiosas, novos movimentos eclesiais e outras instituições organizam amplíssima gama de cursos, missões, práticas e oficinas de formação. E abre-se, no momento, o novo veio da formação a distância por meio dos recursos da informática. Qualquer católico que realmente queira crescer espiritual e missionariamente dispõe de muitas possibilidades.

A Igreja constitui também o lugar teologal. Aqui reside a sua força. Significa que o fiel se forma no espírito comunitário, ao superar o individualismo, a atitude de franco-atirador, para pensar-se como parte de um corpo apostólico, missionário.

 

9. Tripé da formação

A estrutura básica de toda formação eclesial apoia-se no tripé: palavra de Deus, vida sacramental e prática da caridade. Conhecemos já de longa data o vigor do movimento bíblico. E no Brasil temos o Cebi, que cumpre papel excepcional de formação de agentes de pastoral bíblica, além de produzir excelente material para uso em qualquer outra comunidade eclesial. Dá alma à formação bíblica a metodologia desenvolvida por frei Carlos Mesters. Nunca se repete demais a importância do triângulo hermenêutico: texto, pré-texto e contexto, tanto para entender a passagem bíblica na sua origem como nos dias de hoje. O texto jaz na forma que temos e ele suporta muitos tipos de análises. Configura o pré-texto a situação social em que o texto foi escrito e em que hoje é lido. O contexto traduz a comunidade de fé geradora e interpretadora da perícope em questão. Esse método tão simples, usado sobretudo nos círculos bíblicos, tem formado cristãos imbuídos da palavra de Deus. Além disso, a leitura da Escritura feita de forma pessoal, em família e em grupos de oração enriquece ainda mais tal formação.

A palavra de Deus, na lídima tradição teológica, vincula-se profundamente com os sacramentos. K. Rahner atualizou a teologia do sacramento, apresentando-o como a forma mais densa e profunda da Palavra. E a liturgia eucarística visibiliza tal relação ao articular, numa mesma celebração, o momento da palavra e o do memorial da morte e ressurreição de Cristo. A eucaristia ocupa o centro e o ápice da vida do discípulo. Os sacramentos da iniciação — batismo e confirmação — orientam-se para introduzir o fiel no mistério eucarístico.

Tal processo não se efetiva sem profunda conversão e reconciliação. Dois movimentos que se unem. Há um itinerário pessoal, do coração. A palavra grega para conversão — metanoia — traduz bem essa mudança de mente, enquanto maneira de pensar, viver e agir. Aqui se retoma o que se viu no início. Não se trata de uma conversão em perspectiva unicamente individual, no sentido do mero livrar-se dos pecados passados. Isso, sim; porém há mais. Os pecados pessoais se envolvem com as estruturas de pecado da sociedade. Aqui se exige o mais grave: conversão que repercuta nas estruturas sociais. A vida sacramental, assim como a leitura e a meditação da Palavra, conduz, portanto, à prática.

Nesse ponto se manifesta mais claramente a verdade do discípulo de Jesus. O seu encontro com Jesus Cristo pede aprofundamento pelo conhecimento e meditação da Palavra e pela vida sacramental, a fim de desabrochar na prática missionária. Esta se faz ao anunciar aos outros sua experiência de Jesus, por quem foi seduzido. Com a convicção de tal vivência, ele tem energia para comunicá-la a outros. Contudo, isso não basta. São Tiago nos recorda: “Meus irmãos, que adianta alguém dizer que tem fé quando não a põe em prática? A fé seria então capaz de salvá-lo? A fé, se não se traduz em obras, por si só está morta” (Tg 2,14.17).

Aí está o último desafio do discípulo missionário: uma práxis cristã que transforme a realidade de injustiça em justiça, de ódio em amor, de segregação em comunhão, de discriminação em acolhida, de morte em vida. E a vida de Cristo que ele anuncia abraça toda a realidade humana até a comunhão com Deus trino.

 

10. Ajudas para a formação

Palavra de Deus, vida sacramental e práxis da justiça e da caridade sustentam o discípulo por dentro. Ele vive em uma Igreja concreta, histórica. Esta lhe oferece muitas ajudas. A conferência dos bispos realizou-se num dos maiores santuários marianos de peregrinação do mundo. E os bispos puderam vivenciar, todos os dias, a beleza e a pureza da religiosidade popular. Perceberam que ela oferece excelente alimento para a formação do discípulo. No momento presente, esse fator formativo carece de discernimento. Vivemos um movimento paradoxal. Sob certo aspecto, a secularização da modernidade avança. Não destrói as formas religiosas, mas relega-as para o estrito mundo individual, sem alcance político-social. No entanto, pululam manifestações espirituais e a religião invade campos importantes e influentes da sociedade, sobretudo a mídia. Multiplicam-se as TVs confessionais ou com programas religiosos. O discípulo missionário necessita discernir em que medida tal religiosidade lhe alimenta a vida pessoal e lhe oferece ânimo e coragem para enfrentar criticamente a sociedade secularista, hedonista e materialista. Nisso a religião tem papel relevante a cumprir: salvaguardar valores religiosos e enfrentar corajosamente uma sociedade sem alma e sem amor.

No contexto dessa religiosidade, os bispos recordam-nos a relevância de Maria e dos santos na formação. Eles viram, de perto, no santuário mariano, a importância de Maria na vida do povo. A teologia da libertação trabalhou, desde o início, a figura de Maria, particularmente com base no canto do Magnificat e da sua vida simples, pobre e humilde. Ao lado dos pobres, vê o desmoronar dos poderosos. Dom Hélder, em uma de suas orações bem típicas, rezava: “Miriam, ensina-me o jeito de realizar o teu canto a um Deus que ‘derrubou os poderosos de seus tronos e os humildes exaltou’”. Essa é Maria, estrela da libertação que anima a Igreja do continente.

Quanto aos santos, o documento, depois de falar dos apóstolos, reconhece “o testemunho cristão de tantos homens e mulheres que espelharam em nossa geografia as sementes do evangelho, vivendo valentemente sua fé, inclusive derramando seu sangue como mártires” (n. 275). Essa alusão aos mártires da América Latina quebra um tabu importante. Muitos não os aceitavam por julgarem terem sido mortos por razões ideológicas, e não “em ódio da fé”. Aparecida, porém, reconhece neles e nelas pessoas que deram o sangue pelo evangelho. Seja recordado aqui, como símbolo importante, a figura de dom Oscar Romero, que ainda esteve em Puebla e pouco depois morreu assassinado em consequência da postura profética que assumira.

 

11. Lado pedagógico

A formação respeita os itinerários pessoais e comunitários. Aqui se abre espaço para grande diversificação. Os traços gerais indicados no texto encontrarão a maneira concreta nas diferentes realidades. Quem se forma é toda a pessoa. Portanto, formação integral. O católico, discípulo e missionário, anuncia o evangelho. Logo, carece conhecê-lo e vivenciar-lhe o núcleo: formação querigmática. Nunca ninguém está definitivamente formado: formação permanente. Há desconfiança com respeito ao autodidatismo. As pessoas não se formam sozinhas, por conseguinte: formação acompanhada. Hoje se torna muito relevante a figura do mestre, do guru que segue o discípulo pelas trilhas da verdade e do bem. E a formação visa à missão. E a missão se alimenta do espírito. Então, uma formação na espiritualidade missionária.

 

12. Lugares da formação

Cada um se pergunte: Onde estou? Que estado de vida escolhi? Em que fase da vida me situo? Ao responder a tais perguntas, descobriremos os lugares importantes para aquele momento. Aos pais jovens, fica o apelo para tornarem a família a primeira escola da fé. Conheci, em Goiânia, um casal que reservou todas as noites de segundas-feiras para um encontro entre eles e os filhos em verdadeiro momento de catequese. O exemplo, a palavra, a prática dos pais impregnam, em profundidade, os filhos na fé e na vivência. Todo fiel já crescido tem o direito de exigir que a paróquia ou a comunidade eclesial de base sejam verdadeiros lugares de formação, particularmente nas diversas catequeses, cursos, movimentos pastorais e ainda mais especialmente nas celebrações. Estas são o lugar por excelência da formação do discípulo missionário. O momento atual possibilita a pessoas desejosas de vida comunitária intensa participar de movimentos eclesiais e comunidades de diversos carismas. Seminaristas e religiosos têm instâncias próprias nos seminários e nas casas de formação. Enfim, a Igreja possui uma rede de escolas e universidades com excelente potencial de formação de futuros discípulos missionários.

 

13. Conclusão

Realidade desafiante: sangria de católicos e cultura contemporânea hostil aos valores cristãos. Tudo começa com a experiência profunda de encontro pessoal com Jesus Cristo, fonte da verdadeira vida. Daí brota o seguimento, alimentado pela Palavra, pela vida sacramental e pela prática da caridade. Em seguida, nasce o desejo de ser missionário, de partilhar toda essa riqueza descoberta com outros. E, para tal tarefa, a formação se faz necessária, observando etapas e cumprindo requisitos básicos. Eis as coordenadas apontadas pelo Documento de Aparecida.



[1] L’Osservatore Romano, 29/6/1972.

[2] A. Melloni. “O que foi o Vaticano II? Breve guia para os juízos sobre o concílio”. Concilium, Petrópolis, v. 4, nº 312, 2005, p. 44.

Pe. J. B. Libanio, sj