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Publicado em Julho-Agosto de 2005 (pp. 13-16)

Linhas mestras do Concílio Ecumênico Vaticano II

Por D. Aloísio Lorscheider - Arcebispo emérito de Aparecida (SP)

1. A preocupação do Concílio

Seguindo as orientações de João XXIII e de Paulo VI, devemos dizer que o Vaticano II foi um Concílio pastoral-eclesiológico.

João XXIII não desejava que o Concílio fosse uma repetição dos Concílios Ecumênicos anteriores. Ele queria, para os dias de hoje, uma releitura da doutrina já definida no passado. O Vaticano II teria de se preocupar fundamentalmente com o caminho necessário para o mundo de hoje abrir-se ao Evangelho: Como evangelizar o mundo de hoje? Como anunciar o Evangelho para o mundo de hoje e como vivê-lo neste nosso mundo?

Paulo VI, que orientou o Concílio após a morte de João XXIII, acrescentou o elemento eclesiológico: Igreja, o que dizes de ti mesma? Como a Igreja é chamada a dialogar com o mundo de hoje? (Cf. Discurso 29/9/1963 e a Encíclica Ecclesiam Suam de 6/8/1964.)

 

2. Duas palavras-chave para compreender a pastoral

 e a eclesiologia do Vaticano II

1) Aggiornamento — com os seus quase sinônimos: atualização, renovação, rejuvenescimento — da Igreja; diaconia e serviço.

2) Diálogo da Igreja consigo mesma, com as outras Igrejas e mesmo com as outras religiões e o mundo dos não crentes. Sinônimo do diálogo: comunhão, participação, corresponsabilidade.

 

Aggiornamento e diálogo se completam. Essas palavras-chave devem ser entendidas teologicamente. As duas grandes Constituições eclesiológicas, Lumen Gentium e Gaudium et Spes, correspondem a essas ideias-chave.

 

3. Aggiornamento o que é?

Não é sujeição, nivelamento, pacto ou compromisso com o mundo de hoje. Nada de acomodação do cristianismo ao mundo moderno, nem absorção do mundo moderno pela Igreja-instituição — uma espécie de “eclesiastização” do mundo, uma nova cristandade. O mundo em si não poderá ser o nosso esquema (cf. Rm 12,2).

Sim, aggiornamento é escutar, ir ao encontro, abrir-se às justas (legítimas) exigências do mundo de hoje, em suas profundas mudanças de estruturas, de modos de ser (culturas), inserindo-se nele para ajudá-lo, sempre no respeito à sua autonomia relativa (secularização), num espírito de doação, de caridade total, de diaconia, a serviço dos anawim, os pobres de Javé. Considerar a maneira de pensar do ser humano de hoje, a sua linguagem, o seu modo de ser, para apresentar o Evangelho como única mensagem capaz de salvar (a boa notícia da salus, da saúde do corpo e da alma).

Aggiornamento exprime o aspecto encarnacionista do mistério da Igreja, a sua historicidade, acentuando a necessidade de atenção aos sinais dos tempos. Trata-se de uma abertura crítica ao mundo de hoje (o critério é o Evangelho).

 

4. Diálogo o que é?

Não é polêmica, controvérsia, discussão; é, sim, dar ao outro o testemunho de uma convicção íntima que se tem, oferecendo-lhe, ao mesmo tempo, a oportunidade de, por sua vez, dar o testemunho de sua convicção íntima. É, concretamente, sentar juntos e dizer como se entende o Evangelho para os dias de hoje. Que Evangelho anunciar ao mundo de hoje? E em que Igreja?

A revelação é, em sua essência, um diálogo entre Deus e o ser humano: por seu Verbo eterno, que se encarna, Deus vem falar conosco. O Pai, pelo Filho, no Espírito Santo, inicia um diálogo conosco. Trata-se, no diálogo, de descobrir o que Deus realmente nos disse por seu Filho no Espírito Santo.

A revelação e a situação concreta são as duas realidades com que o Vaticano II trabalha. Daí a sua linha mestra fundamental: a Igreja peregrina na história sob a ação do Espírito Santo e a guia dos seus legítimos pastores: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor nenhum outro peso além destas coisas necessárias” (At 15,28). Portanto, não uma revelação estática, mas dinâmica. A revelação vai se concretizando no decurso da história, de tal sorte que os acontecimentos da história não são alheios à revelação, mas entram a fazer parte da história da salvação. É o aspecto profético da revelação. É a partir dos acontecimentos históricos que fazemos a leitura da revelação, ou, dito de outra forma, a caminhada da revelação acontece dentro dos acontecimentos históricos. É aí que se esclarece o que o Vaticano II quis dizer com a expressão “Igreja peregrina”. A Igreja é o sacramento universal da salvação, sacramento que se faz a cada momento presente na caminhada das pessoas e do mundo. Quem age no mais íntimo desse peregrinar eclesial é o Espírito Santo: “Ele conduz-nos à verdade total” (Jo 16,13); Ele ensinar-nos-á tudo e nos recordará o que Jesus nos disse (cf. Jo 14,25-26); “Ele anunciará as coisas que virão” (Jo 16,13). O Espírito Santo age por meio do Evangelho, da Eucaristia e dos legítimos pastores, bem como por meio de toda a congregação (comunidade) dos fiéis cristãos (o sentido de fé dos cristãos).

O Vaticano II introduziu um novo modo de fazer e pensar teologia. Na teologia anterior, que era a Escolástica e a neoescolástica, o modo de fazer e pensar teologia era mais o raciocínio, figurando a revelação sempre como premissa maior da qual, por meio de silogismos, iam se deduzindo novos aspectos da revelação. Era assim que se via a evolução homogênea dos dogmas. Com o Vaticano II, a revelação passou a ser a fonte dinamizadora e esclarecedora dos acontecimentos mundiais. O termo “situação” ou “realidade”, ligado à “revelação”, dá-nos outra perspectiva. Faz com que a Igreja seja vista na história como presença sempre viva e atuante de Nosso Senhor pelo Espírito Santo. Era já antes do Vaticano II a ideia da Theologie Nouvelle de Daniélou, De Lubac, Ives Congar, Chenu, Bruno de Solages — uma teologia mais em contato com as fontes; uma teologia mais aberta ao pensamento contemporâneo, em que pontificam três grandes categorias: a comunidade, a historicidade e a subjetividade; uma teologia com respostas às situações humanas concretas do aqui e do agora (teologia engajada), teologia luz das ações do ser humano.

No aggiornamento e diálogo temos, por parte do Vaticano II, nova concepção teológica da salvação, com base em novo conceito de revelação. A salvação não é colocada antes ou depois do mundo, mas dentro do mundo. A salvação começa a se construir neste mundo, onde temos as sementes do Verbo, embora não se esgote com a realidade e na realidade deste mundo. É a teologia do Reino de Deus já presente e atuante no mundo por meio da Igreja, que é o sinal, o germe, o princípio, o instrumento do Reino de Deus (cf. Lumen Gentium 5). Há aí nova postura em relação ao mundo: não fuga, mas presença da Igreja — e, por isso, da salvação — no mundo. A Igreja é o fermento evangélico inserido no coração do mundo e da humanidade.

Nasce aí um questionamento: como agir hoje para que, de fato, a Igreja seja para todos uma presença salvífica divina constante e consiga exercer o seu ministério de sacramento universal de salvação num mundo em constante transição?

 

5. O novo do Vaticano II

O novo eclesiológico significa a acentuação de alguns aspectos que, no decurso dos tempos, ou ficaram esquecidos, ou perderam o seu vigor na prática e na reflexão pastoral-eclesiológica.

O aggiornamento e o diálogo chamam a nossa atenção para tais aspectos de Igreja, a seguir destacados.

 

5.1. Igreja “povo de Deus”: comunhão e participação

A Igreja aberta à comunidade como forma de viver a vida cristã e estar presente no mundo. Nada de individualismo — de individualismo rastejante, na expressão de João Paulo II (cf. Laborem Exercens 21). Existir em comunidade é exigência da vida cristã: “Aprouve, contudo, a Deus santificar e salvar os homens não isoladamente, sem nenhuma conexão de uns com os outros, mas constituí-los em um povo, que O conhecesse na verdade e O servisse santamente” (cf. Lumen Gentium 9).

O essencial do mistério da Igreja é que seja uma comunhão com o Pai por Jesus Cristo no Espírito Santo, e que viva em comunhão fraterna. A Igreja é salvação e graça, é missão e testemunho em comunhão com outros. É aqui que se coloca a reflexão e a consequência prática da corresponsabilidade, colegialidade, subsidiariedade, participação. A pastoral eclesiológica do Vaticano II não é uma pastoral de segregação, mas de coparticipação profunda da condição humana na qual estão inseridos todos os membros da Igreja.

 

5.2. Igreja servidora e solidária

A inserção no mundo não é para dominá-lo, mas para servi-lo numa verdadeira diaconia de servos de Javé. O que nos aproxima do mundo não é a busca de privilégios ou de poder, mas o zelo apostólico, que deseja ver a todos saudáveis no corpo e na alma. Trata-se de esquecer a si mesmo para tomar felizes os outros. Como Igreja servidora, esforçamo-nos por descobrir a que instâncias concretas devemos responder em nossa diaconia de evangelização, santificação e restauração evangélica da sociedade. A Gaudium et Spes diz muito bem que a Igreja “caminha juntamente com toda a humanidade, participa da mesma sorte terrena do mundo, é como que o fermento e a alma da sociedade humana, a qual deve ser renovada em Cristo e transformada em família de Deus” (n. 40). É todo um estilo novo de Igreja: o estilo do diálogo, da valorização e do respeito pelo ser humano, da cooperação com todos para o bem da verdade, da liberdade e da justiça, para o progresso e a paz. O Vaticano II abriu-se à dimensão das realidades temporais, da política, do social, do progresso, da cultura, da paz e contra a guerra, da economia, da promoção do homem e do desenvolvimento dos povos e de sua libertação integral.

 

5.3. Igreja dialogante

Este aspecto decorre dos anteriores: Igreja comunhão e participação, Igreja servidora e solidária. É Igreja que dialoga: dentro de si própria, com outras Igrejas cristãs, com outras religiões, com o mundo. A Constituição do diálogo com o mundo — proveniente do Vaticano II — é a Gaudium et Spes. Dialoga com o mundo marxista, com o mundo técnico-científico, com o mundo em desenvolvimento. Não há realidade alguma, verdadeiramente humana, que não encontre eco no seu coração (cf. Gaudium et Spes 1). A própria Gaudium et Spes diz, a respeito desse aspecto dialogante: “Tudo quanto dissemos acerca da dignidade da pessoa humana, da comunidade dos homens, do significado profundo da atividade humana, constitui o fundamento das relações entre a Igreja e o mundo e a base do seu diálogo recíproco” (n. 40). E tudo o que a Igreja diz de si na Lumen Gentium e no Decreto Unitatis Redintegratio constitui a base do diálogo com ela em si mesma e com as outras Igrejas cristãs; tudo o que diz na Declaração Nostra Aetate e na Declaração Dignitatis Humanae sobre a liberdade religiosa constitui a base para o diálogo com as outras religiões; e tudo o que diz na Constituição Pastoral Gaudium et Spes constitui a base para o diálogo com os que não creem, mas são animados de boa vontade.

 

6. O ponto de partida do aggiornamento e do diálogo

O ponto de partida é Cristo. Espelhando-se em Cristo, a Igreja procurará atualizar-se, renovar-se, rejuvenescer: ao Cristo vivo deve corresponder uma Igreja viva (cf. Paulo VI, Discurso de abertura da 2ª sessão conciliar, 29 de setembro de 1963). Os princípios vitais da Igreja são a fé e a caridade: a fé sempre desabrochando na caridade (cf. Gl 5,6).

Cristo se nos apresenta na revelação sob tríplice aspecto, como

Profeta (Mestre);

Sacerdote;

Rei (Pastor, Apóstolo, Servo).

 

Esse tríplice aspecto exprime-se muito bem na ordem missionária de Jesus no final de Mt 28,18-20: “Mas Jesus lhes falou: ‘Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, pois, fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-lhes a observar tudo o que vos mandei. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo’”.

Por conseguinte, o aggiornamento e o diálogo processar-se-ão sob este tríplice aspecto, isto é, sob o aspecto

da Palavra,

do culto,

do governo.

 

Sob o aspecto da Palavra temos a Constituição Dogmática Dei Verbum; sob o aspecto do culto temos a Constituição Sacrosanctum Concilium; sob o aspecto do governo temos o Decreto Christus Dominus.

A Palavra que é Lei, revelação, promessa, profecia; o culto que é sacrifício e sacramentos; o governo que é serviço, coordenação, diálogo, comunhão.

O princípio espiritual que — no exercício da Palavra, do culto e do governo — deve animar e inspirar a todos encontra-se claramente em algumas passagens bíblicas.

 

7. Alguns textos bíblicos ilustradores

do aggiornamento e diálogo do Vaticano II

 

7.1. A parábola do bom pastor, do servo de Javé (Jo 10; Lc 15; Is 53);

7.2. A parábola do bom samaritano (cf. Lc 10);

7.3. A parábola do fariseu e do publicano (cf. Lc 18);

7.4. A parábola do Pai misericordioso (cf. Lc 15);

7.5. O Filho do homem não veio para condenar, mas para salvar (cf. Jo 3,17);

7.6. “Não vim para ser servido, mas para servir e dar a minha vida em resgate da multidão” (Mc 10,45);

7.7. “Embora sendo Deus e sabendo que o seu ser igual a Deus não era um roubo, esvaziou-se a si mesmo, assumiu a condição de servo… humilhou-se e se fez obediente até a morte e morte de cruz!” (cf. Fl 2,6-8);

7.8. “Quem entre vós quiser ser o maior, faça-se o menor, e aquele que comanda como aquele que serve” (Lc 22,26);

7.9. Tanto Deus amou o mundo que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna (cf. Jo 3,16);

 

É a pastoral do amor compreensivo, humilde, serviçal, que vai até a doação da própria vida. O Concílio Vaticano II não veio para definir ou para condenar, mas para salvar!

 

8. Conclusão

O Concílio Ecumênico Vaticano II foi um Concílio pastoral-eclesiológico. Duas são as palavras-chave para entendê-lo bem: aggiornamento (atualização, renovação, rejuvenescimento, diaconia, serviço) e diálogo (comunhão, corresponsabilidade, participação).

Foi um Concílio que não veio para definir ou condenar, mas para servir e salvar.

Toda a sua postura não foi fuga do mundo, mas presença viva e atuante em favor do mundo e da humanidade. Quis ser um fermento evangélico inserido no coração do mundo e da humanidade, a fim de tornar o mundo o mais saudável possível, saudável no corpo e na alma.

O seu ponto referencial foi Jesus Cristo, Profeta, Sacerdote, Pastor. Quis injetar em toda a ação pastoral e evangelizadora um amor compreensivo, humilde, serviçal, que fosse até a doação total de si mesmo. Quis o Evangelho vivido na pobreza, no desapego dos poderes terrestres, dos privilégios, numa atitude de peregrino, totalmente disponível. Paulo VI, numa visita, durante o Concílio, a ciganos acampados em Pomezia, perto de Roma, resumiu tudo nestas palavras: “Vós vos encontrais no coração da Igreja. Não tendes pátria, não tendes morada, sois os mais pobres dos pobres, imagem da Igreja do Vaticano: peregrinos perpétuos com os olhos fixos na Pátria Eterna!”.

D. Aloísio Lorscheider - Arcebispo emérito de Aparecida (SP)