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Publicado em Novembro-Dezembro de 1985 (pp. 2-10)

Vaticano II ontem e hoje

Por Pe. José Comblin

Alguns acham que o Concílio Vaticano II foi um acontecimento acidental e pouco feliz: não lhe reconhecem nenhum efeito positivo e atribuem-lhe muitos efeitos negativos. Sou dos que acham que o Concílio Vaticano II foi o maior acontecimento do século para a Igreja católica: tudo o que se fez na Igreja, pelo menos depois de 1918, recebeu o seu significado histórico do Vaticano II, e, depois do Vaticano II, tudo ficou diferente e nunca mais nada voltará ao anterior. Além disso, acho que o Vaticano II abre um período histórico novo, assim como no passado o fizeram Calcedônia, Latrão IV, ou Trento.

Para dizê-lo desde o início: um Concílio é mais do que os documentos literários que produz. É um encontro, de bispos, de pessoas vivas, responsáveis pela Igreja, e o que resulta de um encontro de pessoas é muito mais do que as declarações escritas que simbolizam parcialmente os seus acordos. Um Concílio ecumênico cria um novo consenso, um novo relacionamento, um novo modo de ser na Igreja. Os textos não o manifestam explicitamente. Depois de um Concílio respira-se um ar novo, e os textos não contêm esse ar novo. O ar novo comunica-se pela palavra viva e pelos comportamentos: a Tradição viva da Igreja deu um novo passo que os textos não conseguem exprimir suficientemente. Isto vale sobretudo para o Vaticano II. Menos do que nos casos anteriores, os textos do Vaticano II exprimem tudo o que foi o encontro eclesial.

Como evocar essa novidade do Vaticano II? Procuraremos simbolizá-la por meio de dez palavras características. Depois, diremos em que o Vaticano II foi diferente de todos os Concílios anteriores. Por fim, como pura sugestão, procuraremos dizer alguma coisa sobre os resultados do Vaticano II.

 

I. DEZ PALAVRAS SIMBÓLICAS

Se quiséssemos condensar todo o Vaticano II em dez palavras, quais seriam essas palavras? Acho que seriam as seguintes: “aggiornamento”, pastoral, diálogo, história, mundo, homem, povo de Deus, colegialidade, serviço, liberdade. Por si só essas dez palavras evocam um clima muito específico. Aliás, representam uma linguagem radicalmente distinta da linguagem dos Concílios anteriores. Examinemos rapidamente cada uma dessas dez palavras.

 

1. “Aggiornamento”

A palavra “aggiornamento” ficou em italiano, ninguém procurou traduzi-la. A melhor explicação dessa palavra foi dada por Paulo VI na sua encíclica Ecclesiam suam, tão estreitamente ligada ao destino do Concílio: “Sempre teremos presente como verdadeira pauta programática aquela palavra, já famosa, do nosso venerado antecessor João XXIII, de feliz memória: ‘aggiornamento’. Já a confiamos como critério diretivo do Concílio ecumênico, e continuaremos recordando-o assim, como se fosse um estímulo contínuo para a crescente vitalidade da Igreja, para a sua capacidade sempre desperta de escutar os sinais dos tempos, e para a sua agilidade juvenil de ‘provar tudo e ficar com o que é bom’ (cf. 1Ts 5,21)”[1].

 

2. Pastoral

A palavra “pastoral” foi atribuída ao Concílio por João XXIII que quis um Concílio “pastoral”. Ficou consagrada pelo título de “Constituição pastoral” dado ao documento sobre a Igreja no mundo de hoje. Esse título era novo. Nos debates anteriores à redação do texto definitivo, houve muita resistência contra esse título. Muitos bispos e teólogos achavam, no início, que o título “pastoral” não era digno de um documento conciliar. Não havia tradição para justificar esse uso. Todavia, prevaleceu a palavra “pastoral” precisamente para exprimir o que o Vaticano II queria ser como novidade.

A palavra “pastoral” queria exprimir exatamente a intenção de João XXIII quando convocou o Concílio. Não se tratava de repetir fórmulas dogmáticas já definidas, nem de aumentar a lista dos dogmas com algumas unidades a mais. Num estudo publicado pouco tempo depois do Concílio, Dom Marcos McGrath, que foi um dos articuladores do chamado Esquema XIII, explicava muito bem o significado do termo pastoral. Explicava o seguinte: insistindo na finalidade do Concílio, João XXIII fixou a palavra pastoral. Para ele, no Concílio, não se tratava de definir verdades. João XXIII percebia muito bem que o problema da Igreja de hoje não está na indefinição da doutrina: o problema está na recepção da doutrina. O problema é que o mundo se tornou indiferente à doutrina da Igreja, e segue o seu caminho sem dar-lhe a atenção que lhe dava outrora. Para a Igreja o problema é a adaptação da sua doutrina ao mundo de hoje. A tarefa da Igreja consiste em refazer uma linguagem nova para poder ser ouvida e entendida por um mundo indiferente. A adaptação da Igreja às condições do mundo de hoje é um problema “pastoral”. João XXIII percebia claramente que a Igreja não podia criar essa linguagem nova por dedução a partir de proposições dogmáticas. Precisava de um novo método.

Gaudium et Spes” significou em primeiro lugar menos um texto ou uma doutrina do que um método. Pois, Gaudium et Spes não procede por dedução a partir de verdades definidas. Gaudium et Spes parte da situação dos homens, de uma situação particular, histórica, transitória. Quis partir da linguagem dos homens de hoje para encontrar uma entrada para a palavra de Deus. A Constituição pastoral propunha antes de mais nada uma nova metodologia eclesial. Era isso que o Papa queria e que os bispos pouco a pouco descobriram. No fim todas as resistências foram vencidas e a assembleia entendeu que com Gaudium et Spes alcançava o termo de um processo que, passando pelos esquemas sobre a liturgia e a revelação divina, chegava finalmente ao homem de hoje.

Gaudium et Spes não partia de declarações do magistério, mas do sentido da fé (sensus fidei) do povo de Deus, e os bispos colocavam-se a serviço do sentido da fé do povo para exprimir e sintetizar o que o povo pensava sobre a maneira de evangelizar o mundo de hoje.

A palavra “pastoral” significa um novo modo de agir da Igreja e do seu magistério. Significa que agora a Igreja escuta em primeiro lugar o mundo e as suas necessidades, e, em segundo lugar, o povo de Deus. Este elabora as respostas ao mundo. O magistério orienta, conduz, reúne o agir do povo de Deus, mas não se antecipa, nem substitui a ação desse povo[2].

 

3. Diálogo

O impacto criado pelo tema conciliar de diálogo foi tão forte que repercutiu na sociedade inteira. Hoje em dia todo mundo fala em diálogo, sem saber que esse tema procede do Vaticano II. Na sua primeira encíclica, Ecclesiam suam, Paulo VI deu-lhe uma ênfase particular.

O Vaticano II não somente falou sobre o diálogo, mas iniciou um diálogo com o mundo, com as outras confissões cristãs e com as religiões não cristãs. Levou à fundação de organismos novos a nível universal, nacional, diocesano, paroquial em vista do diálogo com todos os homens. Depois de vinte anos, os católicos já não podem compreender uma prática eclesial que não esteja baseada num diálogo. Indignam-se quando certos membros da Igreja não aceitam o diálogo: essa reação espontânea mostra o alcance da nova mentalidade conciliar.

 

4. História

A palavra história estava ausente dos Concílios anteriores, e o próprio conceito ocupava um lugar muito apagado, quando existia. Com o Vaticano II a historicidade do ser humano penetra na Igreja católica e na sua consciência. Embora as formulações explícitas sejam ainda muito aproximativas, todavia a atenção dada à história constitui um passo imenso: é a atenção dada à modernidade.

A expressão mais completa do conceito conciliar de história acha-se no capítulo III da primeira parte de Gaudium et Spes: a atividade do homem no mundo. Dom Filipe Garrone, que foi relator do Esquema XIII, dizia na assembleia conciliar: “Na fase atual da humanidade, devemos dar a máxima importância ao capítulo III (da Constituição Gaudium et Spes). Aí são abordados, com efeito, problemas que tocam no mais vivo dos nossos dias e angustiam a consciência humana: Que pensar das realidades terrestres? Que valor lhes reconhece a Igreja? Qual é a autonomia das realidades terrestres? Admite a Igreja, sim ou não, que elas tenham uma consistência própria? Que pensar da evolução progressiva das coisas, das vitórias de que o mundo moderno pensa poder com direito gloriar-se? Em tudo isso, vê a Igreja algo de importante e sério? Finalmente, que relação têm elas com as promessas celestes e com o Reino?

Aí estão questões muito sérias, que atingem profundamente o espírito de nossos contemporâneos e que, ao mesmo tempo, põem em causa pontos muito difíceis e muito pouco explorados da Revelação cristã”[3].

 

5. Mundo

Mundo é a palavra que designa o interlocutor do diálogo da Igreja, o sujeito da história, o objeto da pastoral. Essa palavra foi privilegiada pelo Concílio e é muito significativa. No seu discurso de encerramento do Concílio, Paulo VI destacava a importância do mundo no programa conciliar: “Não podemos esquecer algo que é de suma importância na hora de medir a força religiosa deste Concílio: como se interessou sumamente em esquadrinhar o mundo de nosso tempo. Talvez nunca como durante este Concílio a Igreja sentira-se impelida a conhecer a humanidade que a rodeia, a aproximar-se dela, a valorizá-la com justeza, a deter-se nela, a servi-la e pôr nas suas mãos a mensagem evangélica, e até a amá-la nas suas próprias rápidas transformações. Nascia essa atitude do fato de que a Igreja, anteriormente, durante o século passado e neste século também, tinha ficado ausente e se tinha sentido alheia à cultura profana; é uma nova atitude que em nada prejudica o sentido salvador primordial da Igreja, e que foi se perfilando prudente e eficazmente durante o Concílio”[4].

Paulo VI exprime muito bem o sentido da palavra “mundo” no Concílio. O mundo é toda a sociedade humana, toda essa parte de história da qual a Igreja tinha ficado ausente durante várias gerações, e da qual se aproxima agora com atitude pastoral.

 

6. Homem

Homem é a outra palavra que foi escolhida preferentemente pelo Concílio para designar o seu interlocutor. A atenção explícita ao homem foi uma característica do Concílio Vaticano II. De novo, podemos recorrer a Paulo VI para destacar esse fato. Citemos o seu discurso de encerramento do Concílio, a 7 de dezembro de 1965: “Na realidade a Igreja reunida em Concílio dirigiu o seu interesse — além de si própria e das relações que a unem com Deus — para o homem também, e para o homem tal como se manifesta em nossos dias. O homem que vive, o homem que pensa em seu próprio benefício, o homem que não só se julga digno de que todos os estudos desemboquem nele próprio como no seu centro, mas também não hesita em afirmar que ele é o princípio e a explicação de todas as coisas… O humanismo laico e profano manifestou-se por fim em toda a sua amplitude e quase desafiou o Concílio… E o que sucedeu? Uma disputa, uma luta, uma condenação? Qualquer uma dessas coisas podia ter acontecido, mas não foi assim… Com efeito, um imenso amor para com os homens dominou por completo o Concílio. Os problemas já conhecidos e de novo estudados, problemas humanos que se tornam tanto mais agudos quanto mais cresce o filho desta terra, ocuparam toda a atenção do nosso Sínodo… O Concílio deu uma grande contribuição ao estudo e à admiração pelo homem da nossa época… E assim o Concílio pôde fornecer em lugar de diagnósticos desalentadores, remédios cheios de consolo; pôde também fazer chegar aos homens, não obscuros presságios, mas mensagens de confiança e de esperança. Com efeito, tudo o que é autêntico valor humano, não só o aceitou, mas também o honrou; e apoiou os esforços e as iniciativas com toda a amplitude, dando-lhe uma preciosa unidade”[5].

 

7. Povo de Deus

Poderíamos ter escolhido a palavra “leigo”. Mas a mesma inspiração conciliar se exprime pela expressão “povo de Deus” que foi destacada sobretudo como símbolo da mentalidade e da nova atitude conciliar. Todos lembram os debates que houve sobre a constituição relativa à Igreja. Lumen Gentium foi o resultado de um longo processo e o conceito de povo de Deus esteve no centro desse processo. A adoção do conceito de povo de Deus desde a discussão da Lumen Gentium repercutiu em todos os documentos conciliares. O papel ativo assim reconhecido aos leigos na Igreja obrigou a reformular todos os esquemas e documentos. Nos Concílios anteriores os leigos eram vistos como objetos da hierarquia, ou como agentes executivos subordinados à hierarquia. A sua iniciativa nunca aparecia. A partir do Vaticano II, o povo de Deus toma a iniciativa e a hierarquia intervém para orientá-lo e regulá-lo, mas nunca para substituí-lo no seu papel ativo[6]. Na realidade, a valorização do mundo levou a uma valorização do leigo, já que o leigo é de certo modo o contato entre a Igreja e o mundo, ou, melhor dito, a presença da Igreja no mundo e do mundo na Igreja. O diálogo é o leigo.

 

8. Colegialidade

Com o povo de Deus, a colegialidade constitui o núcleo da eclesiologia do Vaticano II, a grande novidade histórica depois de mil anos de verticalismo. A Igreja é colegialidade. Pois, a colegialidade tem que funcionar em todos os níveis. Não se trata apenas da colegialidade episcopal. Esta é uma aplicação particular de um princípio geral. A Igreja é colegialidade sempre e em tudo[7]. Naturalmente a insistência na colegialidade foi uma novidade tão grande que somente foi aceita depois de um longo processo. Mesmo hoje, muitos católicos não se acostumam a ela e ainda pensam na Igreja em termos de puro verticalismo e autoritarismo. A Igreja é comunhão ou multilateralidade, comunidade, antes de ser relação bilateral entre um indivíduo que manda e outro que obedece. Sem negar as formas de autoridade que tinham sido definidas com tanta clareza nos concílios anteriores, o Vaticano II quis restabelecer o equilíbrio e mostrar na Igreja todas as relações de tipo horizontal e multilateral, ressuscitando assim a visão bíblica e patrística, e toda a tradição dos primeiros mil anos de cristianismo.

 

9. Serviço

Paulo VI dizia: “A Igreja confessou-se de certo modo serva do gênero humano, e é precisamente neste sentido que tanto o seu governo como o seu magistério eclesiástico adquirem nova luz e nova força, graças às celebrações conciliares; mais ainda: a ideia de serviço ocupou lugar preponderante”[8].

A ideia de serviço prevaleceu com tanta força que certos símbolos de poder que tinham a sua origem em instituições profanas da sociedade civil, tiveram que ser abandonados imediatamente. O Papa deixou a sua tiara e a sua sede gestatória. Os bispos simplificaram os seus hábitos, abandonaram os seus palácios em grande número, renunciaram aos seus títulos de nobreza: as pompas aristocráticas contradiziam de tal modo a nova mentalidade do Concílio, que as suas formas mais gritantes tiveram que ser suprimidas imediatamente. Os sinais de dominação já não tinham vez na Igreja. O conceito de serviço estava impregnando agora todo o agir eclesial.

 

10. Liberdade

De todo o anterior decorre que a liberdade esteve no coração de Vaticano II. Não foi sem razão que o documento sobre a liberdade religiosa foi o que encontrou mais oposição. No final a imensa maioria chegou a convencer-se. Mas o conceito de liberdade religiosa era a inversão de uma história de 15 séculos desde Teodósio e Justiniano. Uma vez reconhecida a liberdade em matéria religiosa, todas as demais expressões da liberdade adquiriram todo o seu relevo: a justa autonomia do temporal, a liberdade como constitutiva do sujeito humano e centro da antropologia cristã, a justa liberdade dos leigos na Igreja, a justa liberdade das Igrejas particulares[9]. No passado a Igreja tinha visto na liberdade antes de mais nada uma ameaça à autoridade. Agora toma-se em conta que liberdade e autoridade não se excluem, mas se reforçam e se complementam.

 

Essas dez palavras compõem uma atmosfera. O mais notável do Concílio foi a harmonia profunda entre a assembleia na sua imensa maioria e os dois Papas que a presidiram. João XXIII e Paulo VI estavam profundamente identificados com a linha conciliar, e esta soube reproduzir exatamente o que os Papas esperavam do Concílio. Isso tem que ser dito, apesar de alguns incidentes que resultaram de algumas glosas que a minoria obrigou o Papa Paulo VI a acrescentar aos textos.

 

II. UM CONCÍLIO DIFERENTE

Queremos somente salientar três notas características que distinguem o Vaticano II de todos os outros Concílios.

 

1. O Vaticano II foi uma festa

Os Concílios orientais reuniram-se no meio de tensões doutrinais e políticas muito fortes. Vários deles tiveram por consequências cismas profundos e definitivos. Esses Concílios reuniam-se num ambiente de pré-cisma. Algumas vezes houve até violência dentro do recinto conciliar.

Os Concílios medievais eram as assembleias políticas e religiosas supremas da cristandade. Incumbia-lhes a tarefa de propor soluções a todos os conflitos internos e externos da cristandade: tomavam partido no meio das guerras, das lutas sociais internas, das lutas entre reinos cristãos, das lutas entre o poder civil e o poder eclesiástico, das lutas entre a religião oficial e as heresias que eram ao mesmo tempo os movimentos sociais de contestação da sociedade cristã. Os assuntos eram: a cruzada, o imperador, os reis rebeldes, a paz, a reforma da Igreja as ameaças dos movimentos populares “heréticos” etc.

No fim da Idade Média procurou-se por meio de Concílios ecumênicos resolver os grandes cismas da cristandade, o cisma do Oriente e o cisma do Ocidente. Depois veio Trento, tendo que dar resposta à ruptura que somava, de certo modo, todos os problemas medievais ao mesmo tempo. O Vaticano I realizou-se no momento de maior tensão entre a Igreja e a modernidade: a invasão de Roma por uma Itália liberal foi o seu símbolo.

No momento da reunião do Vaticano II não havia perigo de heresias novas, não havia conflitos internos na Igreja, não havia grandes guerras, nem ameaças de guerras. Não se falava mais em cruzadas. A Igreja estava em paz como nunca no passado.

Mas havia grande movimento de renovação em marcha desde o começo do século. Havia consciência cada vez mais viva da urgência de nova missão, e o sentimento de antagonismo entre as estruturas da Igreja e as necessidades da sua missão no mundo de hoje. Não se sabia de que modo esse movimento chegaria um dia a poder desembocar na Igreja. João XXIII abriu-lhe a porta.

O Vaticano II foi vivido como novo começo, o início de nova missão, como novo Concílio de Jerusalém, libertando a Igreja de estruturas antiquadas e de ataduras que lhe impediam a comunicação com o mundo do século XX. Realmente foi vivido como novo Pentecostes, e, naquela época, essa palavra Pentecostes era a que sempre aparecia. Daí a atmosfera de festa, alegria, esperança.

 

2. Um Concílio de descobertas

O Vaticano II foi para todos os seus participantes um processo de descobrimento e de estudo. Ao chegar, os bispos não faziam a menor ideia daquilo que no fim iam proclamar. Aprenderam-no durante os quatro anos do Concílio. Este foi para eles uma escola. Fizeram novo curso de teologia e de pastoral. O que disseram, foi o que eles próprios aprenderam. Aprenderam uns dos outros. A colegialidade vivida revelou-se como processo pedagógico e didático. Aprenderam estudando juntos.

Por isso mesmo, houve durante o Concílio uma evolução. Por isso também importa tanto a data de publicação dos documentos e as fases da sua redação. O próprio Concílio foi um processo de aprendizagem; uma caminhada exemplar que a Igreja inteira seria chamada a seguir: desde uma Igreja autoritária, verticalista, fechada em si própria, preocupada com as formulações dogmáticas, movida exclusivamente pelo clero, para uma Igreja colegial e comunitária, de diálogo, aberta ao mundo, pastoral, movida por todo o povo de Deus, na qual a hierarquia exerce o seu papel definido pela Bíblia e pela Tradição verdadeira, mas não de modo exclusivo.

Nessa caminhada da assembleia conciliar houve alguns passos decisivos. O primeiro foi o discurso inaugural de João XXIII, discurso que contém algumas passagens inesquecíveis, porque mudaram radicalmente os rumos da história. Assim, por exemplo, esta frase famosa: “Em nosso tempo, a Esposa de Cristo prefere usar a medicina da misericórdia antes do que da severidade”[10].Ou também estas palavras: “Se a tarefa principal do Concílio fosse discutir um ou outro artigo da doutrina fundamental da Igreja, repetindo com maior difusão o ensinamento dos Padres e dos teólogos antigos e modernos, que supomos que conheceis e tendes presente no vosso espírito, para isso não era necessário um Concílio… O espírito cristão, católico e apostólico de todos espera que se dê um passo adiante para uma penetração doutrinal e uma formação das consciências que esteja numa correspondência mais perfeita com a fidelidade à autêntica doutrina, estudando esta e pondo-a em conformidade com os métodos da investigação e com a expressão literária que exigem os métodos atuais. Uma coisa é o depósito da fé, e outra é a maneira como se exprime; isto deve tomar-se em grande conta, com paciência, se for necessário, atendo-se às normas e exigências de um magistério prevalentemente pastoral”[11].

O segundo passo decisivo foi a rejeição das comissões preparadas pela cúria romana no primeiro dia de reunião do Concílio, e mais tarde a rejeição dos esquemas preparados pela comissão pré-conciliar, sobretudo a rejeição do esquema sobre a Igreja e do esquema sobre a Revelação, o que trouxe consigo a retirada de quase todo o material preparado antes do Concílio. Este quis partir do ponto zero: assim foi inaugurada a nova metodologia eclesial baseada na pastoral, no diálogo, na consulta feita à realidade histórica.

O terceiro passo foi o discurso pelo qual Paulo VI inaugurou a segunda sessão conciliar, a primeira realizada sob a sua orientação. Paulo VI recapitulou todos os avanços feitos durante o primeiro ano. Nesse momento, o Concílio já tinha caminhado bastante. Paulo VI quis caracterizar um passo histórico: assim fazia entrar a história no Concílio. Paulo VI dava ao Concílio quatro objetivos:

a) explicitar melhor a natureza da Igreja;

b) organizar a renovação da Igreja;

c) favorecer a reunião com os cristãos separados;

d) favorecer o diálogo com o mundo inteiro[12].

Esses foram os objetivos dados por Paulo VI ao Concílio.

 

Ora, se comparamos esse discurso que, de certo modo, foi o discurso inaugural de Paulo VI, com o seu discurso de encerramento do Concílio, não podemos deixar de constatar uma notável evolução. No último discurso o diálogo com o mundo e o homem ocupa claramente o primeiro lugar: a ele é que se dá a maior ênfase. Essa evolução de Paulo VI foi significativa do movimento do Concílio inteiro. Esta foi uma dinâmica de descobrimento e de evolução do pensamento dos bispos.

 

3. Novo modo de pensar a fé

O Vaticano II usou um novo modo de pensar a fé cristã. Os Concílios anteriores tinham todos um modo de pensar abstrato, conceitual, e manipulavam uma metodologia filosófica inspirada na filosofia grega. O que os preocupava era a precisão dos conceitos. Queriam definições claras. Queriam uma expressão lógica. No Vaticano II muitos teólogos e bispos ficaram desnorteados no início porque o Concílio operava de acordo com outro modo de pensar. Voltou a um pensamento de tipo simbólico semelhante ao modo de pensar da Bíblia e dos Santos Padres. Procurou desenvolver uma linguagem simbólica.

Por exemplo, foi a partir da discussão sobre a liturgia que os Padres conciliares descobriram o símbolo de povo de Deus. Este preocupou os canonistas e muitos teólogos pela sua falta de rigor conceitual. Mas ele tem valor simbólico tão grande que a sua adoção repercutiu em todos os documentos ulteriores. Na definição do papel da hierarquia, dos sacerdotes, dos leigos, sempre voltava o símbolo do povo de Deus como símbolo condutor do pensamento.

O pensamento simbólico não explica, mas inspira. Foi assim que o Concílio quis pensar. Antes do que definir e explicar, quis despertar um movimento de reflexão, descobrimento e experimentação.

Depois do Concílio, este novo modo de pensar provocou às vezes certo pânico entre os teólogos tradicionais. Contudo mostrou a sua fecundidade, sobretudo nas Igrejas jovens do Terceiro Mundo.[13]

 

III. OS RESULTADOS DO VATICANO II

Na atualidade há uma grande controvérsia sobre os resultados do Concílio Vaticano II. Há um partido pessimista muito forte que não acha nada de bom nos resultados do Vaticano II. Tal apreciação é muito perigosa. Pois julga-se a árvore pelos frutos. Se o Concílio deu resultados maus, não podia ser bom. A conclusão seria que os Papas e os bispos do Vaticano II erraram, e deram à Igreja má orientação numa hora crucial da sua história. A hierarquia ter-se-ia mostrado incapaz. Tal conclusão levaria normalmente a grande desconfiança para com essa hierarquia. Seria prova concreta de que o sistema da hierarquia não tem capacidade para dirigir a Igreja. Se não foi capaz há vinte anos, quem nos garante que é mais capaz agora ou que será mais capaz no futuro? Conclusão muito perigosa.

Pessoalmente acho que as orientações do Concílio foram providenciais e eram urgentes. Se o Vaticano II se tivesse realizado cinquenta anos antes, teria sido muito melhor e a Igreja teria sido mais preparada para enfrentar a modernidade. Já não se podia esperar mais. Examinemos agora alguns aspectos dos resultados conciliares.

 

1. Renovação

A renovação anunciada e esperada não se produziu tão rapidamente como alguns talvez imaginavam. Mas ao convocar o Concílio, João XXIII não esperava renovação imediata. Sabia que os problemas da Igreja vinham de séculos de história. A obra de séculos precisa de mais séculos para ser corrigida. João XXIII viu que uma Igreja fechada em si própria, assim como era a Igreja de Pio XII, nunca poderia dar resposta adequada ao impacto da modernidade. Não pensou que algumas medidas de urgência pudessem imediatamente resolver problemas pendentes pelo menos desde o século XVIII. Pois, o problema era todo o mundo moderno do qual a Igreja se afastara progressivamente num movimento que parecia irreversível.

O Concílio não podia dar remédio imediato à secularização da sociedade moderna. O que se esperava dele era que criasse condições de liberdade e de abertura para que os católicos pudessem pouco a pouco iniciar um longo processo de diálogo, de intercâmbio e de evangelização. A evangelização da modernidade, todavia, não pode ser imaginada nem em vinte anos, nem no decorrer de uma só geração.

O que está claro, isto sim, é que desde o Vaticano II os católicos deixaram de fechar os olhos, enfrentaram essa modernidade, aprenderam a conhecê-la melhor, e estão experimentando movimentos, expressões e práticas que são resposta cristã válida. Ao mesmo tempo os católicos começaram a colaborar com os cristãos separados para procurar em conjunto as respostas cristãs ao desafio da modernidade. Os objetivos do Vaticano II valem mais do que nunca, manifestam cada vez mais a sua urgência e a Igreja trabalha ativamente para alcançá-los.

 

 

2. Que pensar das “crises”?

Alguns estiveram e ainda estão assustados pelas “crises” que se produziram depois do Concílio. Trata-se em primeiro lugar, da famosa crise sacerdotal. Alguns acham que a crise foi provocada pelo Vaticano II e a sua abertura ao mundo. A solução aos problemas da Igreja seria a solução a essas crises: estas seriam o grande desafio da Igreja na atualidade. A solução consistiria em pôr entre parênteses o Vaticano II, voltar à disciplina anterior. Fechar as portas ao mundo, e conter de novo a Igreja dentro de si própria.

A meu ver, isso é confundir o sintoma com a causa. O problema da Igreja ao qual o Vaticano II quis responder é a modernidade. Esta ainda existe. Se os católicos não querem considerá-la, esta atitude não mudará em nada a situação: a modernidade não deixará de estar aí pelo fato de se fechar os olhos a ela. O problema da modernidade não deixará de desafiar a Igreja porque esta se nega a reconhecê-lo. O que a Igreja faria, ao fechar as portas, seria adiar o problema com o risco de que se torne muito mais grave daqui a cinquenta anos.

O que as crises em geral, e a crise sacerdotal em particular, mostraram, é que a Igreja e o clero não estavam preparados para estar em contacto com o mundo moderno, muito menos para evangelizá-lo. Na realidade o clero não tinha condições nem sequer para iniciar um processo de evangelização do mundo. A única coisa que podia fazer era fugir, e procurar refúgio nos últimos grupos sociais ainda não alcançados pela modernidade. Ora, o remédio a essa situação não consiste em formar de novo um clero segundo os métodos antigos: este será igualmente incapaz de evangelizar o mundo e passará por uma crise semelhante daqui a vinte anos. Temo muito que os sacerdotes formados nos seminários que atualmente voltaram aos métodos antigos, tenham que passar daqui a vinte anos por uma crise ainda bem mais grave do que a dos anos pós-conciliares. As mesmas causas produzem os mesmos efeitos.

Por sinal, a modernidade progrediu muito. Na Europa ocidental, deixou de existir a antiga classe pré-moderna (camponeses, artesãos, pequenos comerciantes e outros independentes) na qual a Igreja encontrava tanto o seu povo fiel, como o seu clero. Voltar ao passado é voltar a uma sociedade que já não existe. Não foi o Concílio que provocou a crise. Foi a evolução da sociedade ocidental. O Concílio constatou os fatos e abriu as portas e as janelas em vista de uma nova resposta. Pensar que as respostas antigas darão soluções aos problemas novos, seria uma política de avestruz.

Acontece que na atualidade um neoconservadorismo eclesiástico recebe apoio do neoconservadorismo da sociedade ocidental desenvolvida; isso lhe confere um peso histórico que não merece e que não teria em outros tempos, revelando-se assim muito perigoso. O mundo de ontem deixou de existir, e o clero preparado para ele, experimentará a grande desilusão de sentir-se preparado para um mundo que não existe (ou apenas subsiste em minorias insignificantes).

 

3. Surgimento da Igreja no Terceiro Mundo

O resultado mais surpreendente do Vaticano II foi o despertar das Igrejas do Terceiro Mundo. Este resultado não tinha sido previsto, ainda que olhando para trás retrospectivamente pudéssemos pensar que podia ter sido previsto. Até o Vaticano II as Igrejas do Terceiro Mundo eram cópias materiais das Igrejas do Primeiro Mundo. Não tomavam iniciativas. O próprio Vaticano II foi uma surpresa total para o Terceiro Mundo: estas não o prepararam e tiveram pouca atuação nele.

Contudo, para elas, o Vaticano II significou a porta aberta para o descobrimento da sua originalidade e da sua vocação específica. O Vaticano II permitiu e provocou o descobrimento da pluralidade das Igrejas particulares. Foi um chamado para a liberdade e a criatividade.

A América Latina reagiu em primeiro lugar. Aconteceu Medellín, e, em Medellín, aplicaram-se para a América Latina as conclusões do Vaticano II. Mas foi muito mais do que isso. Foi como a carta de fundação de uma Igreja latino-americana, unida às demais, mas consciente da sua particularidade, dos seus desafios próprios, e da liberdade que tinha para dar ela própria a resposta adequada aos seus desafios.

Sem o Vaticano II, Medellín teria sido impossível. Naturalmente, Medellín não criou a nova pastoral latino-americana, mas deu-lhe um reconhecimento oficial na Igreja, fez com que fosse adotada oficialmente pelo conjunto das Igrejas. Desse modo permitiu-lhe que se desenvolvesse e crescesse legitimamente. O Vaticano II chegou na hora certa para a América Latina, exatamente na hora em que o continente começava a despertar.

Também para as Igrejas da África e da Ásia, o Vaticano II produziu efeitos semelhantes. A África e a Ásia despertaram mais tarde do que a América Latina, mas já se puseram em movimento. Já estão descobrindo a sua vocação original.

Os efeitos do Vaticano II no Terceiro Mundo fo­ram os mais imprevistos. Contudo, pode ser que sejam exatamente os que melhor respondem às intenções do Concílio. Pode acontecer que o Vaticano II se aplique precisamente de maneira principal no Terceiro Mundo. Tratava-se de permitir que o povo de Deus inventasse caminhos pastorais novos. É justamente o que está acontecendo no Terceiro Mundo. Nisto o Vaticano II foi profético: anunciou um futuro que se torna real.

Já agora, os católicos do Terceiro Mundo são mais da metade dos católicos do mundo. Daqui a cem anos, eles serão a quase totalidade. Daí podemos inferir que o que importa são os resultados do Vaticano II no Terceiro Mundo. Ora, esses são evidentemente benéficos, e eram imprescindíveis. Que resposta poderia dar a Igreja na América Latina sem Medellín e sem Puebla? Não poderia resistir nem à modernidade que a invade pela esquerda, nem às seitas e aos novos movimentos religiosos que a assaltam pela direita.

No Vaticano II quase tudo foi imprevisto. Não quer isso dizer que tudo foi conduzido pelo Espírito Santo? Os homens não sabiam o que faziam, mas fizeram-no bem. Acertaram não graças à sua ciência ou à sua capacidade, mas graças à sua disponibilidade a serviço do Espírito. Esta nos parece ser a melhor interpretação.



[1] Cf. José Luis Martins Descalzo. El Concílio de Juan y Pablo. Documentos pontificios sobre la preparación, desarrollo e interpretación del Vaticano II. BAC, Madrid, 1967, p. 699.

[2] Cf. Marcos McGrath. “O lugar da Constituição na obra conciliar”. Bernard Lambert. A nova imagem da Igreja. São Paulo: Herder, 1969, pp. 401-406.

[3] Cf. P. Haubtmann. “A atividade humana no universo”, em Bernard Lambert, op. cit., p. 417.

[4] Cf. J. L. Martins Descalzo. El Concilio de Juan y Pablo. Documentos…, p. 898.

[5] Cf. J. L. Martins Descalzo. El Concílio de Juan y Paulo. Documentos…, pp. 899-900.

[6] Cf. P. E. Fransen. “A Igreja como povo de Deus”, em Ber­nard Lambert, op. cit., pp. 79-99.

[7] Cf. J. Ratzinger. “Implicaciones pastorales de la doctrina sobre la colegialidad de los obispos”, em El nuevo pueblo de Dios. Barcelona: Herder, 1972, pp. 225-250.

[8] Cf. J. L. Martins Descalzo. El Concílio de Juan y Pablo. Documentos…, p. 901.

[9] Cf. o número 2 da revista Conciliam (1966).

[10] Cf. J. L. Martins Descalzo. El Concílio de Juan y Pablo. Documentos…, p. 516.

[11] Cf. J. L. Martins Descalzo, El Concílio de Juan y Pablo. Documentos…, p. 516.

[12] Ibidem.

[13] Cf. P. E. Fransen. “A Igreja como povo de Deus”, em Ber­nard Lambert, op. cit., pp. 92-94.

Pe. José Comblin