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Publicado em Julho-Agosto de 2006 (pp. 15-20)

Visão histórico-teológico-pastoral de Santo Domingo

Por Aloísio Cardeal Lorscheider (Arcebispo Emérito de Aparecida-SP)

1. Santo Domingo, diferentemente de Medellín e Puebla, foi uma conferência que não impactou muito. A sua preparação foi séria. A sua realização, porém, deixou a desejar. Em certo momento, teve-se a impressão de que se desejasse torpedear essa assembleia. Não houve esforço para dar melhor acabamento ao texto do documento. A própria conferência terminou mais cedo do que estava prefixado. Quem lê o documento hoje se sente, à primeira vista, um tanto perdido. Apesar disso, porém, há no documento boa análise da conjuntura socioeconômico-político-religiosa do Caribe e da América Latina, bem como boas pistas de ação pastoral. Vale a pena aprofundar o documento e perceber os avanços em relação a Medellín e a Puebla.

 

2. O temário da conferência foi o assinalado pelo Papa João Paulo II: “Nova evangelização, promoção humana e cultura cristã”.

 

3. Foi o próprio Papa que, em Porto Príncipe, no Haiti, aos 9 de março de 1983, falando ao plenário do Celam, disse: “A comemoração do meio milênio de evangelização terá pleno significado se for um compromisso vosso, como bispos, junto com vosso presbitério e fiéis, compromisso não de reevangelização, mas, sim, de uma nova evangelização. Nova em seu ardor, nova em seu método, nova em sua expressão”. Em discursos posteriores, feitos um pouco por toda a parte, também fora da América Latina, o Papa voltou a esse tema, que se tornou como que uma característica do seu pontificado.

 

4. Nova em que sentido? No do que a evangelização do passado não é mais suficiente para evangelizar o presente. Além de novo ardor, novos métodos e novas expressões, requer-se nova impostação segundo os novos modos de pensar e agir das pessoas. Essa Nova Evangelização, na América Latina, está muito ligada à promoção humana e à inculturação da fé. Estão em jogo as massas sobrantes. São os mais pobres dos pobres, os excluídos da sociedade — muitas vezes também excluídos de nossa pastoral. No problema da inculturação, vem à tona a cultura dos índios, a cultura da raça negra e a nova cultura, que se convencionou chamar de modernidade ou cultura emergente (Celam). Estávamos diante dos 500 anos de evangelização da América Latina. Foi a ocasião para a conferência se reunir a partir de 12 de outubro de 1992. Entra aqui um exame muito sério sobre o nosso passado: o que fizemos nestes 500 anos para que Jesus fosse mais conhecido e mais amado, para que a criatura humana, sobretudo os mais pobres, tivesse recebido o devido respeito? O povo simples e humilde é cada vez mais excluído da convivência social. Aumentam as massas sobrantes. Terá sido esse o resultado real, concreto, de 500 anos de evangelização? Que evangelização foi essa? Foram os corações duros que se fecharam ou a nossa evangelização é que foi insuficiente? Onde está a falha?

 

5. Constatamos, na América Latina, a não equitativa distribuição dos bens da terra; a desigualdade no exercício da cidadania, a discriminação; a corrupção nos serviços públicos; a busca não do bem comum, mas dos interesses particulares; a violação constante dos direitos humanos fundamentais; o crescendo da violência no desemprego, nos sequestros, nos roubos, nos assassinatos. Será que faltou o anúncio do evangelho? O que deveria ter sido feito e não se fez? Olhando, mais de perto, a evangelização nestes 500 anos de América Latina, fica a impressão de que predominou mais uma atitude devocional do que uma atitude de compromisso de fé. Parece não se ter conseguido verdadeira conversão, com o consequente compromisso e transformação, marcando o evangelho mais presença como elemento cultural religioso do que como fermento de mudança.

 

6. A Nova Evangelização, de modo bem concreto, vem a ser aquela que brota do Vaticano II, a do aggiornamento: evangelização encarnada na realidade, a do diálogo, da comunhão, da corresponsabilidade, evangelização que se expressa “num rosto de Igreja autenticamente pobre, missionária, pascal, desligada de todo poder temporal e corajosamente comprometida na libertação do homem todo e de todos os homens… uma Igreja em que se viva a Autoridade com caráter de serviço, isento de autoritarismo” (cf. Medellín, doc. “Juventude”, 15). Uma Igreja servidora, prolongamento dentro da história do Cristo, servo de Javé, uma Igreja sacramento de comunhão, de fraternidade, uma Igreja profético-libertadora, toda ministerial. O centro da Nova Evangelização, englobando a promoção humana e a cultura cristã, é a figura e missão de Jesus Cristo, único salvador, evangelho vivo do Pai: “Jesus Cristo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8).

Aonde se quer chegar? A uma fé lúcida, comprometida, madura, profundamente comunitária, que refaça o tecido cristão da sociedade, por meio das comunidades eclesiais de base. Trata-se de dar uma fisionomia cristã autêntica a uma sociedade com alma pagã. Muitos cristãos se beneficiam de uma luta fratricida. Fazem uso do nome de Deus para massacrar os pobres e trazê-los dependentes, desrespeitando, dessa forma, o santo nome do Senhor. Outros cristãos mantêm-se indiferentes à situação de sofrimento dos irmãos. Ora, indiferença é também cumplicidade (cf. “Nordeste: desafio à missão da Igreja no Brasil”, Documento 31 — CNBB, n. 99).

Evangelizar, pois, é tomar parte consciente e ativa no processo histórico que tem como origem o desígnio de Deus Pai e se realiza, a partir da eternidade, no tempo, por meio das missões do Filho de Deus e do Espírito Santo e também da nossa missão, objetivando a construção do Reino de Deus (Deus tudo em todos — comunhão plena de todos em Deus). Evangelizar é continuar, na história, a ação, a prática, a história salvífica de Jesus de Nazaré, Filho de Deus. Trata-se de viver uma vida em que a morte do homem velho e a ressurreição do homem novo, na dinâmica do mistério pascal, se alternem dialeticamente.

 

7. Os protagonistas da Nova Evangelização devem ser todos os que formam o povo de Deus: bispos, padres, religiosos, leigos, com uma acentuação do protagonismo dos leigos e, entre eles, dos jovens, segundo as linhas prioritárias da IV Conferência-Geral (nº 302).

 

8. Para se tornarem bons evangelizadores, todos necessitam de sadia consciência social, de sentido evangélico crítico em face da realidade, de profundo sentido de justiça, de solidariedade, de pobreza evangélica, de amor evangélico, sem ódio nem rejeição de qualquer setor social, embora privilegiando os pobres, sem julgar e condenar nem apelar para a violência, vivendo todos mais plena e radicalmente possível o seu batismo: conversão total ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, mergulhados (“batizar significa mergulhar!”) no seio trinitário, na vida íntima divina: “Se alguém me ama, guardará minha palavra e meu Pai o amará e a ele viremos e nele estabeleceremos morada” (Jo 14,23). “A nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo” (1Jo 1,3) e, por meio de Jesus, com o Espírito Santo.

É esse “homem novo”, impulsionado pelo Espírito Santo, que fará novas todas as coisas (cf. Ap 21,5), pois, “se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas e eis que se fez uma realidade nova” (2Cor 5,17).

 

9. É desse novo que o mundo atual necessita. É da verdade de Cristo, realizada no amor e vivida na fraternidade, que o mundo precisa. A consciência de ser portador da verdade que salva é fator essencial do dinamismo missionário da comunidade eclesial inteira. É indispensável e urgente uma sistemática, aprofundada e capilar catequese de adultos, que torne os cristãos conscientes do riquíssimo patrimônio da verdade de que são portadores e da necessidade de darem sempre fiel testemunho da própria identidade cristã. Verdade, porém, anunciada e vivida, ligada ao amor. É só no testemunho do amor que a verdade encontra a sua credibilidade. Daí advém a importância das comunidades cristãs, chamadas a ser lugares em que o amor de Deus para com os homens pode ser, de algum modo, experimentado e quase tocado com a mão. Essas comunidades, disse João Paulo II, parecem ser a via principal para reconduzir o nosso povo à pertença plena da Igreja e à missão integral, à verdade da fé (cf. Discurso de Loreto, 11/4/1985).

Em resumo, a Nova Evangelização quer ser um grito profético dirigido a Deus, que salva e, por Jesus Cristo no Espírito Santo, faz vir ao mundo a verdadeira vida. Por isso, a Nova Evangelização é também uma denúncia profética da cultura de morte presente no mundo de hoje. A Nova Evangelização quer ser novo Pentecostes, nova arrancada renovadora do mundo, formando pessoas livres, conscientes de sua dignidade, maduras na fé, capazes de forjar uma história verdadeiramente humana, na qual, sob a luz de Jesus Cristo, se dê uma resposta à nova situação cultural do mundo contemporâneo.

Não se trata, pois, de propor novo evangelho, diferente daquele anunciado no passado. Há um só e único evangelho, do qual se podem tirar luzes para os problemas novos.

Valores como reconciliação, solidariedade, justiça, integração, comunhão, participação e vida devem marcar as atitudes de todos os que formam o continente latino-americano em nossos dias.

 

10. Os instrumentos da Nova Evangelização: a boa pregação, a boa catequese — sobretudo de adultos —, a difusão da Bíblia, a correta celebração litúrgica, a oração, o resgate do domingo, a direção espiritual, a boa teologia, a correta ação social, a família — santuário de vida, Igreja doméstica. Em síntese, a palavra, o sacramento, a ação bem orientados segundo uma fé sólida, caridade pastoral intensa, fidelidade a toda prova, animados por uma mística ou espiritualidade que suscita incontido entusiasmo na tarefa do anúncio do evangelho de Jesus Cristo.

A “parresia” — valentia-afirmação corajosa —, que inflama o coração do apóstolo (cf. Atos 5,28-29); Redemptoris Missio 5) e se mostra livre diante de qualquer poder deste mundo.

Somos arautos da verdade. Nada nos pode fazer calar! Somos nós e o Espírito Santo que testemunhamos (cf. At 5,32).

Importante é o contato individual e profundo com as pessoas, a participação máxima de todos, o querigma sempre e em todos os instantes (pensar no valor do acolhimento, das visitas, do aconselhamento, da organização de grupos, do uso de imagens, música, dança, canto, teatro, dramatização, informação, dos gestos concretos de fraternidade e justiça).

É preciso também estar atento ao uso da linguagem e de formas acessíveis ao homem latino-americano, como a linguagem audiovisual. Urge aprender a falar segundo a mentalidade e as culturas dos ouvintes, segundo suas formas de comunicação e os meios em uso. Linguagem que questiona e, ao mesmo tempo, desperta esperança. Expressões e símbolos do nosso povo.

 

11. Os sujeitos da evangelização (quem deve evangelizar?)

Todos (toda a comunidade eclesial), de modo especial os cristãos leigos e os jovens, sempre na evangélica ou profética opção preferencial e solidária pelos pobres.

 

12. Os destinatários da Nova Evangelização (a quem evangelizar?)

Todos, mas de modo especial os batizados alheios ao próprio batismo e à Igreja; os grupos, as populações, os ambientes de vida e trabalho mais marcados pela ciência e pela técnica e pelos modernos meios de comunicação social. Santo Domingo insiste muito nos ambientes da universidade, da educação e da comunicação.

 

13. Os maiores desafios para a Nova Evangelização

— A crescente secularização, terminando no secularismo, no materialismo, no hedonismo, no consumismo, no ateísmo, na indiferença religiosa, no relativismo moral;

— o avanço das seitas e o pluralismo religioso junto com a ignorância religiosa, com um conhecimento superficial da fé, incapaz de transformar a vida das pessoas e dos seus ambientes;

— a defesa da vida diante da presença destruidora de uma cultura de morte;

— a inculturação do evangelho;

— Em meio a esse quadro, a urbanização, a pobreza e a marginalização.

 

13.1. O crescente secularismo e a cultura de morte

Trata-se, em última análise, da negação prática do transcendente e da afirmação prática e exclusiva, absoluta, do imanente. Com isso, os valores religiosos e morais se enfraquecem. Negando-se a dependência do Criador, o secularismo conduz as pessoas à idolatria do ter, do poder e do prazer. Faz que percam o sentido da vida, reduzindo o ser humano a mero valor material. Nos ambientes urbanos desenvolve-se uma modalidade cultural que confia só na ciência e no progresso técnico. É a cultura nova que se vem tornando predominante. Cultura presente nos meios de comunicação social, na mentalidade urbano-industrial, caracterizada como modernidade. É um espírito técnico-científico, perpassado de uma mentalidade científico-matemática, cujo argumento último parece ser o estatístico. É um espírito calculista, explorador dos recursos da natureza e que, ligado à funcionalidade característica das pessoas no atual mundo urbano, desumaniza e despersonaliza o ser humano, tornando-o verdadeiro robô. Esse espírito cria a cultura de morte no mundo atual. Esse espírito técnico-científico e estatístico se apresenta como hostil à fé. É novamente a relação entre fé e ciência, só que a fé é vista em seu aspecto moral. A fé, em virtude de suas exigências morais, é vista como inimiga da ciência. Basta pensar nos casos concretos do controle da natalidade, da esterilização, no sentido da sexualidade e, mais recentemente, nas células-tronco embrionárias. Os modelos de vida que estão sendo transmitidos põem-se mais e mais em contraste com os valores do evangelho. A Igreja é vista como quem impede o progresso da humanidade e a fé, como ameaça à liberdade e à autonomia do ser humano. O aborto justifica-se pelo direito da mulher sobre o próprio corpo — esquecendo-se de que, no aborto, não está em jogo o corpo da mulher, mas o corpo do ser vivo carregado por ela, a quem Deus, na sua infinita sabedoria e bondade, quis como berço de cada novo ser humano.

Há toda uma deformação da consciência ética e se torna presente um alarmante relativismo moral. Dilui-se a fronteira entre o bem e o mal.

Com a deformação da consciência, cresce a corrupção. O conceito do bem comum se obscureceu. A corrupção generalizou-se em todos os níveis — na esfera privada e pública, na vida social, política, econômica e militar. O afã desordenado da riqueza fácil e ilícita (narcotráfico, suborno, dilapidação do erário público em benefício pessoal) estendeu-se por toda a parte. Corrompidas estão as consciências, corrompidos os costumes, corrompidas as estruturas. Usam-se mal os recursos econômicos e os bens do Estado, as leis são elaboradas e aplicadas sob o influxo de poderosos interesses econômicos, recorre-se à demagogia, ao populismo, ao fisiologismo, à mentira nas promessas eleitorais e no exercício do poder. Corrompe-se o verdadeiro sentido da democracia. A própria justiça, no seu conceito e na sua aplicação, está deteriorada. Generaliza-se a impunidade e a comunidade sente-se impotente, desprotegida, sem defesa, diante do crime. O Estado perde o controle; aumentam os abusos da justiça pelas próprias mãos.

Cinco séculos de evangelização no continente latino-americano não conseguiram uma equitativa distribuição dos bens da terra. Por que a América Latina, continente cristão-católico, é aquele onde existe a maior desigualdade social? Por que tantas discriminações sociais, étnicas e culturais entre nós?

Assistimos ainda em nossos dias à deterioração da dignidade humana: às diversas formas de violência e agressão, com atentados à própria vida humana. Uma ética permissiva e a desarmonia entre fé e ciência, entre fé e vida, desencadeiam uma cultura de morte.

 

13.2. O avanço das seitas sem abertura para o diálogo inter-religioso e movimentos religiosos novos (Seicho-no-iê, Bahai, seita de Moon, Hare Krishna, Luz Divina, Amanda Marga…) minam a identidade cristã. Católicos sem adequada formação religiosa ficam à mercê de campanhas do proselitismo sectário muito ativo. Está muito difundida a ideia de que todas as religiões são boas e tudo o que diz respeito à esfera religiosa depende do gosto e do interesse de cada um. Escolhe-se a religião que bem aprouver. Há toda uma busca de solução dos problemas de saúde (as religiões de cura), dos problemas de emprego, de casa, de colégio para o filho e a filha… As pessoas apegam-se a quem lhes parece oferecer ajuda e ter a solução nas mãos. Um dos grandes desafios são os espaços vazios, espaços onde a Igreja não marca ou tem pouca presença.

 

13.3. A inculturação do evangelho

A evangelização das culturas representa a forma mais profunda e global de evangelizar uma sociedade. Por meio dela, a mensagem de Cristo penetra na consciência das pessoas e se projeta no ethos de um povo, nas suas atitudes vitais, nas suas instituições e em todas as estruturas.

Parte nova na IV Conferência-Geral foi a atenção especial dada às diferenças culturais presentes no Caribe e na América Latina: culturas indígenas, afro-americanas, espanhola, portuguesa, indonésia, chinesa, hindu, alemã, italiana, polonesa, suíça, árabe, sueca, judia, japonesa, coreana, vietnamita e a cultura da modernidade, chamada pelo Celam de cultura adveniente.

Um dos maiores desafios para a Igreja em nossos dias é como dar um rosto cristão à cultura indígena e às demais culturas.

A finalidade da inculturação do evangelho é chegar a todos os níveis da vida humana para torná-la mais digna conforme ao projeto salvífico divino.

 

13.4. Três mistérios da nossa fé iluminam a inculturação do evangelho:

encarnação: o evangelizador partilha a vida com o evangelizado;

páscoa: por meio do sofrimento e da purificação do “pecaminoso”, chega-se à vida nova, à verdadeira vida;

pentecostes: o fogo do Espírito Santo que possibilitaa todos entender na própria língua as maravilhas de Deus.

A tarefa da inculturação da fé pertence à Igreja particular sob a guia dos seus pastores e com a participação de todo o povo de Deus.

 

14. Resposta da Igreja sobre os desafios

14.1. Do secularismo

À tendência secularista de nossos dias impõe-se mais do que nunca o anúncio de Jesus de Nazaré, Filho de Deus. Em Jesus Cristo, a imanência e a transcendência se abraçam. Jesus é o único a lançar luz sobre o sentido da vida do ser humano: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). Jesus Cristo rompe o horizonte estreito em que o secularismo encerra a criatura humana, devolve-lhe a verdade e a dignidade de filho de Deus e não permite que alguma realidade temporal, algum Estado, a economia ou a técnica se tornem para as criaturas humanas a realidade última à qual se devem submeter. Só Jesus Cristo é a garantia da vida plena contra uma cultura de morte: “Vim para que tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

 

14.2. Da cultura da morte

Jesus Cristo é a lei da moralidade, sua vida humana é o padrão pelo qual se deve medir toda vida humana. Ele é a medida de nossa conduta moral. É à luz da vida e da pregação de Jesus Cristo que se deve orientar a vida humana em todas as suas manifestações. O referencial absoluto de toda ética é Jesus Cristo. Em Cristo Jesus, Deus Pai depositou todos os tesouros da sabedoria e da ciência (cf. Cl 2,3) e as riquezas inesgotáveis (cf. Ef 3,8). Os valores éticos (morais) não são questão de escolha pessoal, de utilidade ou funcionalidade. Jesus Cristo é a norma absoluta e definitiva do humanum. É nossa “lei”, nossa “norma”. É o humano em sua total transcendência. Todas as linhas pastorais da promoção humana, nas conclusões de Santo Domingo, estão impregnadas da doutrina social da Igreja e definem para cada tema (direitos humanos, ecologia, terra, empobrecimento e solidariedade, trabalho, mobilidade humana, integração latino-americana, família) os aspectos éticos requeridos, para que nenhuma pessoa humana seja discriminada ou diminuída em sua dignidade. Também no que se refere à cultura ou às culturas, estão sempre presentes os aspectos éticos, para que a pessoa seja integralmente respeitada no seu ser e no seu agir cultural.

 

14.3. Quanto às seitas e aos novos movimentos religiosos

Santo Domingo oferece pistas valiosas:

— uma presença maior da ação evangelizadora da Igreja nos setores mais vulneráveis;

— uma Igreja mais participativa e comunitária, promovendo a ministerialidade: uma Igreja toda ministerial e toda missionária;

— formar católicos comprometidos pessoalmente com Jesus Cristo e com a Igreja;

— uma catequese que explique devidamente ao povo o ministério da Igreja, a mediação da Virgem Maria, dos santos e a missão da hierarquia;

— cultivar aspectos característicos da Igreja católica:

• a devoção ao mistério eucarístico;

• a devoção a Nossa Senhora;

• a devoção à palavra de Deus lida na Igreja;

• a comunhão com o Papa, com o próprio bispo e a obediência a eles;

— dar prioridade à dimensão contemplativa e à santidade na Igreja;

— é urgente que os batizados aprendam a orar, imitando o exemplo de Jesus Cristo (cf. Lc 11,1), de modo que a oração esteja sempre integrada com a missão apostólica na comunidade cristã e no mundo;

— instruir amplamente, com objetividade e serenidade, o povo sobre as características e diferenças das seitas e dos movimentos religiosos novos, bem como sobre as respostas às injustas acusações contra a Igreja;

— promover as visitas domiciliares com leigos bem preparados e organizar a pastoral do acolhimento;

— combater o indiferentismo religioso. Ele é uma ameaça à vivência da fé uma vez que suprime radicalmente a relação da criatura com o Criador, negando todo interesse pela religião e, com isso, todo compromisso de fé, porque reduz a pessoa de Cristo a simples mestre de moral ou a simples fundador de religião entre outros, recusando-lhe o caráter de salvador único, universal e definitivo do ser humano.

 

O indiferentismo religioso, da mesma forma que o secularismo, mina a moral, deixando o comportamento humano sem fundamento no que diz respeito a seu valor ético. Daí facilmente vem o relativismo e o permissivismo que caracterizam a atual sociedade.

 

14.4. Quanto à inculturação do evangelho

Santo Domingo dá indicações especiais sobre as culturas indígenas e afro-americanas. Considera também a cultura moderna e a cultura da cidade, pondo em foco a ação educativa e a ação da comunicação em relação à formação cultural hodierna.

A ação educativa se faz tanto mais urgente quanto mais rapidamente se transforma o mundo. Não podemos perder de vista o grande número de analfabetos no Caribe e na América Latina. Em meio a todo o desenvolvimento técnico-científico, é preciso pensar uma educação com marca cristã que procure canalizá-lo para a dignificação da criatura humana. É preciso que em todas as instâncias de ensino se chegue a ensinar a autêntica sabedoria cristã, de acordo com a qual o modelo do trabalhador, ligado com o da mulher e do homem sábios, culmina em Jesus Cristo.

Os maiores desafios no campo educativo são a formação cristã sobre a vida, o amor, a sexualidade, a formação para a liberdade e para o trabalho.

A ação para a comunicação é enfatizada pelo Papa João Paulo II em sua Alocução de abertura da IV Conferência-Geral. Dizia o Papa ser preciso “intensificar a presença da Igreja no mundo da comunicação. Ela deve ser certamente uma das vossas prioridades”.

A telemática e a informática são novos desafios para a integração da Igreja no mundo da comunicação.

 

Conclusão

15. Comparando Medellín e Puebla com Santo Domingo, notamos uma continuidade na análise da conjuntura do continente latino-americano. As críticas de Medellín e Puebla são também as críticas de Santo Domingo. Só notamos diferença no método usado. Se Medellín e Puebla procedem segundo o esquema ver-julgar-agir e, se for o caso, celebrar, Santo Domingo parte dos princípios, arrola os desafios pastorais e termina dando as linhas pastorais. Essa mudança de método não agradou a todos em Santo Domingo, mas as forças contrárias prevaleceram.

 

16. Santo Domingo encontrou-se, diversamente de Medellín e Puebla, diante de um fato histórico: os 500 anos de evangelização do Caribe e da América Latina. Na abertura da conferência, aos 12 de outubro de 1992, o episcopado teve diante de si importante questionamento — o que celebrar: uma “invasão”, um descobrimento, uma “ocupação” ou uma evangelização?

Da resposta dependia o caráter da celebração: uma celebração “penitencial” ou uma celebração “eucarística”? Optou-se, de fato, pelos dois aspectos.

 

17. Santo Domingo, em relação às duas conferências anteriores, significou um novo passo. O temário previsto era Nova evangelização e a cultura cristã. O Papa acrescentou: promoção humana. Acentuar a promoção humana foi uma ideia muito feliz, já que é fundamental, no Caribe e na América Latina, as pessoas se sentirem “gente”. A vivência da “cidadania” é requisito para efetiva comunhão e participação libertadora. E, para autêntica promoção humana, é preciso ter em conta as diferentes culturas presentes entre nós.

 

18. Em Santo Domingo, a profética ou evangélica opção preferencial e solidária pelos pobres recebe nova conotação, a da inculturação. Na preparação da conferência, a visão do Celam ia na linha de uma desintegração da identidade latino-americana provocada pela nova cultura que se apresentava no horizonte do continente — a cultura urbano-industrial —, além do espírito secularista e do avanço das seitas. A identidade latino-americana era vista na unidade espiritual do continente, no seu substrato católico, na sua religiosidade popular, na sua realidade mestiça.

A solução apontada pelo Celam vai na direção da integração, mediante um crescimento harmônico da identidade latino-americana na nova cultura. Isso só pode ser conseguido com uma Igreja forte, combativa, unida sob Pedro e os bispos.

Chama, por isso, a atenção o fato de João Paulo II ter preferido, no tema de Santo Domingo, acentuar especialmente a promoção humana. Isso parece significar que o Papa via a Nova Evangelização para o Caribe e para a América Latina numa continuidade com Medellín e Puebla.

 

19. Querendo indicar a característica de cada Conferência-Geral do Episcopado Latino-americano, temos em Medellín, como palavra-chave, o termo libertação — que significa compromisso com a justiça, sobretudo com a justiça social, e se expressa na profética ou evangélica opção preferencial e solidária pelos pobres. É uma encarnação efetiva na vida do povo; em Puebla, as palavras-chave são participação e comunhão, para chegarmos à libertação; em Santo Domingo, a palavra-chave é inculturação — em ordem à participação e comunhão, buscando a libertação. Santo Domingo sublinha, de modo particular, o chamamento de todos à santidade e estabelece como a maior prioridade pastoral a pastoral vocacional, com especial protagonismo dos LEIGOS e, entre eles, dos JOVENS.

 

20. A Conferência de Santo Domingo deveria ser retomada, estudada e rezada, já que, apesar dos obstáculos havidos, é uma conferência que não se situa à margem da Igreja no Caribe e na América Latina. Ela está em perfeita continuidade com Medellín e Puebla.

Aloísio Cardeal Lorscheider (Arcebispo Emérito de Aparecida-SP)