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Publicado em Julho-Agosto de 1983

A Eclesiologia das CEBs

Por Hermilo E. Pretto

As Comunidades Eclesiais de Base devem ser compreendidas no contexto mais amplo dos Movimentos Populares. Elas representam uma nova maneira de ser-Igreja em estreita ligação com as aspirações da maioria empobrecida. Em razão disso, por se situarem no quadro dos conflitos de classe, elas são portadoras de um potencial de conflito frente à Organização Institucional e testemunham em favor de uma Igreja em estado crônico de mobilidade.

1. O despertar da solidariedade

Para compreender a situação atual dos movimentos populares e sua dinâmica interna, talvez seja necessário que nos reportemos ao processo de industrialização que as descobertas científicas do século passado desencadearam na Europa. O declínio progressivo da nobreza foi acompanhado pelo surgimento de uma nova classe dirigente: os magnatas da indústria. Este processo, que se acelera e se aprimora com o passar do tempo, provoca uma ampliação considerável do proletariado e uma demanda cada vez maior de mão de obra. A satisfação desta demanda torna-se possível graças à ênfase que se dá ao próprio processo em curso. A industrialização torna-se a menina dos olhos dos governos, mobilizando praticamente a rede de investimentos. A agricultura, que até então sustentava em larga escala a economia dos países, é relegada a um segundo plano e, pelo menos em alguns casos, a uma situação de semiabandono. A vida no campo, privada de investimentos, torna-se insuportável, pondo em risco até mesmo a sobrevivência dos agricultores e suas famílias. A resposta foi um deslocamento em grande escala do campo para a cidade, atendendo à satisfação da exigência crescente de mão de obra.

Mas o que para nós interessa, na abordagem que estamos empreendendo, é o crescimento do proletariado gerando uma situação nova, que trazia em seu bojo os germes de uma confrontação de classes, permitindo entrever uma realidade essencialmente conflitiva. E se o conflito levou algum tempo para eclodir isso se deve, pelo menos em parte, ao fato de que a oferta de mão de obra pela indústria representou uma tábua de salvação para quem começava a experimentar a miséria no campo. Além do mais, os novos operários, provindos do meio rural, eram portadores de uma experiência ligada à pequena propriedade rural e à ausência quase total de um espírito solidário em perspectiva global. Havia gestos concretos de solidariedade, mas faltava a consciência de classe pela impossibilidade ou incapacidade de perceber os mecanismos profundos de uma situação radicalmente injusta. O fato em si é normal porque o surgimento da consciência está ligado estreitamente às práticas concretas. Por outro lado, sem consciência, pelo menos em escala reduzida, é impossível um compromisso concreto pois a perspectiva e a profundidade das práticas vão depender do tipo e do nível de consciência. O que ocorreu foi que em pouco tempo os conflitos, presentes em nível de realidade e emergentes em nível de consciência, desencadearam gestos de solidariedade e levaram à progressiva organização da classe trabalhadora. A estrutura sindical e a conquista da greve como instrumento de luta, tendo em vista sanar os desequilíbrios entre o capital e o trabalho, são frutos marcantes deste despertar da solidariedade. Houve confrontações que marcaram época e que permitiram ao proletariado fazer passos qualitativos.

Mas é preciso que se diga, a bem da verdade, que o fortalecimento do proletariado europeu foi possível graças à abertura das indústrias para o mercado internacional, nos países do Terceiro Mundo, ampliando os lucros graças aos baixos salários pagos aos trabalhadores destes países. Esta é a situação que estamos vivendo no atual momento histórico. O fato novo dos países pobres é a progressiva tomada de consciência dos mecanismos geradores de injustiça e da interdependência e conflitividade entre o mundo da riqueza e o mundo da pobreza. O povo está reencontrando sua força e começa a organizar-se em práticas políticas. Hoje está crescendo em amplidão e profundidade a consciência de que somente um trabalho solidário será capaz de viabilizar uma nova sociedade.

2. Os cristãos engajados e a religiosidade paralela

Um outro fato novo que, em seus inícios, apesar de tímido e insignificante, chegou a causar estranheza, foi a presença de cristãos comprometidos com práticas políticas numa linha de transformação. A estranheza se deve ao fato de que tradicionalmente os cristãos estiveram comprometidos com a defesa do modelo social vigente, que inclusive se reproduzia na realidade interna da Igreja, considerado como expressão da Lei Natural. Daí seu caráter de imutabilidade. O número dos que iniciaram a experimentar uma crescente insatisfação frente ao modelo de sociedade no qual sempre viveram foi aumentando com o passar do tempo e com o aprofundamento das próprias práticas. Percebeu-se que algo estava começando a mudar no posicionamento dos cristãos frente às práticas políticas. Isso mostra como a atitude primeira do homem frente à realidade não é a de alguém que procura compreender, mas a de alguém que está interessado em transformar, num amplo contexto de relações sociais.

A este respeito, é interessante observar como esse primeiro grupo de cristãos, que assumiram um posicionamento crítico frente à ordem social existente, exigindo mudanças cada vez mais profundas, manteve, por um certo tempo, uma fidelidade acrítica às práticas tradicionais da fé. Neste primeiro momento não se conseguia perceber a tensão, com um potencial muito grande de conflito, entre o modelo da sociedade civil em cuja transformação cresciam e se aprofundavam as práticas políticas, e o modelo da sociedade eclesial com suas práticas sacramentais, com suas alianças históricas e com sua teologia que ofereciam sustentação ideológica e legitimidade prática à sociedade injusta. Estamos aqui diante de uma religiosidade como dimensão paralela às práticas políticas. Em outras palavras, práticas políticas avançadas coexistiam com práticas religiosas tradicionais. Na base desta atitude temos a formação cristã tradicional que apresentava a sociedade eclesial como de origem divina, não devendo passar pelos critérios de uma efetiva participação de todos em todos os níveis, mesmo no respeito à diversidade enriquecedora dos carismas. Esta aura de sacralidade foi inquestionavelmente um fator de inibição frente a um questionamento da própria realidade eclesial.

3. O surgimento das CEBs. Proposta de um novo modelo de Igreja

A experiência dos cristãos comprometidos com práticas políticas numa linha de transformação foi um fator importante para que se repensasse em profundidade a fé. Seria ela apenas um caminho paralelo, sem imbricação com a realidade, ou poderia adquirir um novo significado a partir das novas práticas? E é a descoberta de que a fé é algo de profundamente vital, que brota do coração da história e lhe assegura um sentido profundo, o fator decisivo que irá determinar uma reviravolta na compreensão tradicional da própria fé. Se ela é significativa no contexto mais profundo da vida, o que ela tem a dizer frente às novas práticas? Os mais lúcidos dentre os cristãos, comprometidos com essas práticas, começaram a se questionar quanto à validade de uma compreensão da fé que, além de não exprimir a nova realidade em vista da criação de uma sociedade sem opressões, em muitos casos, era fator de bloqueio para a caminhada histórica da libertação. Este primeiro momento de crise propiciou a experiência de uma profunda novidade no nível da compreensão da fé. A Teologia da Libertação nasce justamente como expressão deste questionamento: uma nova teologia porque estamos diante de uma nova prática.

Nos meios acadêmicos, em perfeita sintonia com a teologia mais tradicional, houve críticas sobretudo em função de o social entrar explicitamente, e de forma consciente, como elemento integrante da própria reflexão teológica. A teologia sempre abordou questões sociais, mas a partir de fora, como quem se arroga o direito de julgar sua legitimidade numa perspectiva moralista. O que não se procurou saber foi que a Teologia da Libertação não é um produto de laboratório: é a reflexão crítica, na perspectiva da fé, sobre as práticas políticas dos cristãos numa linha de transformação. Afinal, a Teologia não se pode autolegitimar. Sua legitimidade vai depender de sua capacidade de ser um instrumento interessante na realização histórica do projeto de Jesus, chamado Reino de Deus, que também se exprime num modelo de sociedade onde as relações sejam de fraternidade e não de violência e opressão.

Mas não se pode dizer que o surgimento das CEBs seja um fruto da Teologia da Libertação. Estas novas comunidades de fé são justamente de base porque tiveram origem em estreita ligação com a vida do povo em sua luta de libertação. A sistematização teológica é um momento segundo.

Houve inicialmente pequenos grupos que se reuniram em círculos bíblicos e começaram a perceber uma analogia muito grande entre as próprias práticas e a luta de Israel por se libertar da escravidão do Egito e por caminhar orientado por um grande projeto: a conquista da Terra Prometida. Em outras palavras, esses pequenos grupos começaram a perceber que a Bíblia não é um documento que testemunha uma experiência estranha e definitivamente sepultada no passado. O interesse que, apesar de tudo, se mantinha por esse documento estava ligado ao fato de que se procurou compreender a experiência relatada pelos textos bíblicos a partir de sua tematização teológica: relendo sua história na perspectiva da fé, Israel pode dizer que Iahweh está presente com ele e quer que ele viva numa sociedade sem opressões, chamada terra prometida, onde correm leite e mel.

Estes grupos foram crescendo no aprofundamento da fé em estreita ligação com a vida e se ampliando no espaço eclesial. Criou-se, desta forma, um verdadeiro espaço vital propiciando uma efetiva participação a grupos de cristãos tradicionalmente impedidos de fazer ouvir a própria voz. Ao se realizar a Conferência de Medellín, em 1968, numerosas Comunidades de Base já estavam atuando em vários países da América Latina. A essa altura não estavam ainda definidos os contornos desta nova maneira de ser Igreja e nem era possível entrever um potencial de conflito com a Igreja institucional. Em outras palavras, por ser ainda uma experiência embrionária, não havia elementos suficientes para que se pudesse explicitar sua eclesiologia. Não nos admira, então, como o Documento dos Bispos assuma um posicionamento essencialmente positivo, recomendando inclusive que se façam estudos sérios, de caráter teológico, sociológico e histórico sobre estas comunidades cristãs de base. Elas são consideradas elementos vitais do próprio ser-Igreja: “Assim, a comunidade cristã de base é o primeiro e fundamental núcleo eclesial, que deve, em seu próprio nível, responsabilizar-se pela riqueza e expansão da fé, como também pelo culto que é sua expressão. É ela, portanto, a célula inicial de estruturação eclesial e foco de evangelização e atualmente fator primordial de promoção humana e desenvolvimento” (15,10).

Já por ocasião da Conferência de Puebla, dez anos mais tarde, as Comunidades Eclesiais de Base haviam feito uma longa caminhada, explicitando melhor suas características e exigências, e apresentando-se até como instância crítica frente à Igreja Institucional. Compreende-se, então, como o Documento dos Bispos, mesmo confirmando a posição assumida em Medellín, levante algumas reservas e suspeitas, sobretudo em referência à “igreja popular” e aos “magistérios paralelos” que se insinuam nesta linha: “A seita tende sempre ao autoabastecimento quer jurídico quer doutrinal; integradas na totalidade do povo de Deus, as CEBs evitarão com certeza estes escolhos e corresponderão às esperanças que a Igreja da América Latina nelas deposita” (262).

Algo de extremamente importante aconteceu no espaço entre as duas Conferências do CELAM, permitindo que ficassem melhor definidos os elementos fundamentais da eclesiologia das CEBs. Por se tratar de células vivas, em constante processo de transformação, torna-se impossível uma sistematização definitiva. Assim mesmo, faremos uma tentativa de discernir alguns elementos que nos parecem fundamentais na situação que hoje estamos vivendo.

a) Uma Igreja repensada a partir das aspirações populares

Temos visto mais acima que, anteriormente a um repensamento da fé, existiu um compromisso político de grupos de cristãos com práticas em perspectiva de transformação da sociedade. O aprofundamento dessas práticas exigiu que se utilizassem leituras aprofundadas dos mecanismos que geram esta sociedade.

Isso permitiu que se percebesse, no organismo social, a existência de um sistema radicalmente injusto: o mundo da pobreza tem como causa o mundo da riqueza, configurando uma situação de fato de luta de classes.

Além disso, a ênfase no compromisso transformador permitiu uma releitura da atuação histórica de Jesus: ele anuncia um reino universal como comunidade de irmãos a partir da ótica do marginalizado. A originalidade do anúncio de Jesus não está na ênfase que ele dá ao compromisso da fraternidade, mas no fato de que ele propõe uma fraternidade que tem como ponto de partida o mundo de pobreza e marginalização. Em outras palavras, Jesus muda radicalmente o ponto hermenêutico.

É dentro desta perspectiva que deve ser compreendida a opção da Igreja pelos pobres. Nunca é demais enfatizar que não se trata de uma opção sentimental, mas de uma opção hermenêutica. A universalidade do anúncio não está absolutamente ameaçada. Quando se afirma que todos são pobres, uns em bens materiais e outros em bens espirituais, e que, por conseguinte, a opção pelos pobres não pode ser exclusiva, está-se demonstrando que não se compreendeu absolutamente nada do que seja a opção pelos pobres. A Boa-Nova da fraternidade não é restritiva em nível de pessoas pois todos os homens, sem qualquer distinção, são convidados a uma vida de comunhão. Mas é fundamental que haja uma restrição em nível de ótica justamente para viabilizar o projeto da fraternidade. Quando dizemos que estamos num mundo de opressão, não estamos fazendo uma generalização em nível de pessoas ou de classes sociais. Há os que são vítimas e há os que são algozes. Os que são causa e os que são efeito. A exclusividade da ótica se deve ao fato de que é somente a partir da experiência do pobre que se pode perceber a profundidade da opressão. Em razão disso, o interesse em alterar a situação só pode surgir de quem é vítima da situação e não de quem dela goza os benefícios.

Se a Igreja hoje, em fidelidade à opção de Jesus, opta preferencialmente pelos pobres, não é por uma questão de bons sentimentos ou de compaixão em referência àqueles que estão “na pior”. É para viabilizar historicamente o projeto de Jesus: criar uma sociedade sem opressões.

Que bispo nenhum se preocupe! O evangelho será anunciado também aos ricos. Somente que a partir da ótica do pobre: a radicalidade do compromisso exige uma ação eficaz que atinja não apenas os efeitos, mas também as causas.

É isso que se entende por Igreja popular: o povo pobre e marginalizado torna-se protagonista, faz ouvir a sua voz e se compromete, na perspectiva da fé, em recriar as relações históricas. O pobre irrompe na Igreja introduzindo um elemento fundamental de crise: ela não pode fazer o discurso do pobre e ao mesmo tempo continuar inalterada em sua organização interna e em suas alianças históricas. Temos aí um elemento de radical inquietação, porque implica uma atitude de profundo despojamento, a exemplo de Cristo que “esvaziou-se a si mesmo, e assumiu a condição de servo” (Fl 2,7a).

b) Um novo modelo de Igreja em vista de um modelo alternativo de sociedade

A experiência das CEBs propiciou a redescoberta da diaconia da Igreja. Ela não tem justificação em si mesma. Sua qualificação vai depender do serviço que ela presta na atuação histórica do projeto de Jesus.

Houve época em que a teologia e o magistério se preocuparam em enfatizar que a pertença à Igreja era condição de salvação. Numa primeira fase acentuou-se a pertença efetiva pela mediação sacramental.

Uma teologia mais recente, sem abandonar a condição restritiva, alargou o conceito de Igreja. Começou-se então a falar em cristãos anônimos: aqueles que o são de fato, sem disso terem consciência.

Ambas as concepções pecam pelo mesmo princípio: incapacidade de compreender o ser Igreja e sua missão.

A melhor imagem para exprimir a originalidade do ser-Igreja parece-nos a parábola do fermento na massa. Em termos quantitativos, a desproporção entre a massa e o fermento é enorme. Sem a pequena quantia de fermento, o pão seria inviável. Mas a função do fermento não é a de transformar a massa em fermento. Isso a tornaria intragável. Sua função é a de fazer a massa crescer.

A Igreja-fermento não é a comunidade da salvação, mas a comunidade da consciência da salvação. É por isso que a afirmação tradicional de que fora da Igreja não há salvação já não pode ser sustentada hoje.

A partir dessa compreensão, não diminui em nada o extraordinário valor da pertença eclesial. As CEBs representam uma recuperação da Igreja como fermento de transformação e crescimento em vista da criação de uma sociedade sem opressões.

Mas, exatamente por isso, a tarefa exigente da evangelização deve ser compreendida em outra perspectiva: trata-se de um anúncio em vista de um aprofundamento do compromisso, sem exasperar a preocupação pelo aumento quantitativo da comunidade, isto é, daqueles que nas lutas históricas encontram a presença graciosa da salvação de Deus. Frente a uma sociedade marcada por relações históricas injustas, uma vez que se capitaliza na exploração dos mais fracos, a Igreja deve ao mesmo tempo denunciar a iniquidade do modelo social que aí está, e anunciar a viabilidade histórica (sempre parcial e provisória) da utopia do Reino. E para realizar isso, ela não pode fugir de uma postura claramente partidária fazendo a opção hermenêutica pelos pobres. A pretensa, neutralidade é claramente uma situação pecaminosa por ser um inequívoco posicionamento em favor da situação existente. Além disso, esta postura é uma traição ao Deus bíblico, que não é imparcial ou neutro, pois toma partido em favor do órfão, da viúva, do pobre e do estrangeiro. Não é possível realizar uma harmonia acima ou fora das relações históricas.

c) Defasagem entre a nova sociedade e a realidade eclesial

Um elemento importante, ligado à experiência das CEBs, é a compreensão da fé como dimensão fundamental da vida, ou como sua significação profunda. Supera-se, dessa forma, uma concepção que visualizava a experiência da fé como um oásis no meio do deserto. Não existe uma História Sagrada como âmbito exclusivo da presença da graça, e uma história profana marcada pela ambiguidade e pelo pecado. Esta dualidade teologicamente não faz o menor sentido. A presença significativa de Deus se processa dentro das coordenadas de uma história inteiramente normal. Em razão disso, a vida, com todos os seus desafios e ambiguidades, torna-se parteintegrante da realidade da fé.

É normal então que as CEBs, ao mesmo tempo em que valorizam a presença crítica cada vez mais significativa da Igreja frente à iniquidade do modelo social em que vivemos, comecem a perceber como a própria Igreja reproduza, em grande parte, os aspectos negativos deste mesmo modelo social: estrutura piramidal e ausência de uma efetiva participação das bases em questões decisivas e não apenas em questões periféricas. A Igreja prega uma democracia que ela mesma se recusa de praticar em sua organização interna. Ela defende a livre expressão das ideias, e no entanto censura e desqualifica teólogos.

A progressiva tomada de consciência desta defasagem vai privando a Igreja de sua força moral na denúncia da injustiça e da marginalização a que são relegados os pobres, impedidos de uma efetiva participação não apenas nas decisões políticas como também nos benesses da sociedade.

Teologicamente, não existe nenhuma incompatibilidade entre o ser Igreja e a prática da democracia. Afirmar que não faz sentido exigir democracia na Igreja porque nela o poder é delegado diretamente por Cristo à hierarquia, suscita enormes perplexidades para quem se propõe compreender a fé no coração das relações históricas. Além do mais, afirmações desse tipo, como nos foi dado ouvir ainda recentemente de um bispo progressista, deixam transparecer um sério problema. Não estamos usando chavões quando afirmamos que há bispos progressistas e bispos conservadores. Os fatos estão aí para nos mostrar que estamos diante de uma realidade insofismável.

A questão de fundo, que nos interessa aqui, é a constatação de que o critério determinante para essa divisão não é a Teologia, mas a Sociologia. Trocando em miúdos: há bispos que têm uma compreensão funcionalista do organismo social, falam em reformas e assumem uma postura ética frente às desigualdades sociais. E há bispos que têm uma compreensão dialético-estrutural do organismo social e propõem transformações profundas com modelos alternativos de sociedade. Mas em nível teológico, os bispos estão unidos por um consenso quase geral: a Igreja é piramidal por direito divino. A coexistência justaposta de uma Sociologia aberta com uma Teologia fechada abre margem a muita incerteza quanto ao futuro da Igreja da América Latina.

4. Conclusão: realidade histórica e dimensão utópica das CEBs

A respeito das CEBs muito se tem teorizado, pondo em realce sua dimensão de novidade frente ao modelo de Igreja tradicional. Importante é a compreensão do povo de Deus: não é mais a congregação daqueles que professam o mesmo Credo, mas a convergência de todos aqueles que se comprometem com o mesmo projeto. E esta convergência não passa necessariamente pela mediação da consciência cristã, enquanto profissão explícita de fé no evento Cristo como presença salvadora de Deus.

Em razão disso, não nos parece viável a identificação do povo de Deus com a Igreja. Esta é apenas a parcela teologicamente consciente deste povo. E, em princípio, é até possível que alguém faça parte da Igreja, porque professa seu Credo e participa de sua prática sacramental, sem entretanto fazer parte efetiva do povo de Deus, pelo fato de estar comprometido com um projeto histórico de opressão. Neste caso, em nível de práxis, ele se situa numa posição diametralmente oposta ao projeto fundamental de Jesus. Afinal, não é quem diz… mas quem faz… que entrará no Reino dos Céus, conforme afirmava um autor desconhecido…

Não temos dificuldades em reconhecer que todos esses aspectos representam muito mais a dimensão utópica do que a realidade histórica das CEBs. Historicamente, todas elas ficam aquém dessa utopia. Mas é importante que a utopia não perca a sua mordência e se constitua sempre num princípio de contestação frente às absolutizações das formas históricas. As CEBs testemunham em favor de uma Igreja em constante movimento e permanentemente insatisfeita com as realizações atingidas.

Hermilo E. Pretto