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Publicado em número 131 - (pp. 2-7)

CEBs: jeito novo de toda a Igreja ser

Nos dias 22 a 24 de julho de 1986, os participantes do 6º Encontro Intereclesial das CEBs debateram seus problemas, divididos em 4 grandes plenários. O tema do dia 22 foi “CEBs, jeito novo de toda a Igreja ser”. Este tema estava dividido em 4 itens, um para cada plenário. Apresentamos, a seguir, as conclusões de cada um desses plenários, assim como chegaram às nossas mãos: de forma sintética. Em linhas gerais, essas reflexões foram assumidas no Documento Final.

 

PLENÁRIO A

Tema: IDENTIDADE E MISSÃO DAS CEBs

Síntese dos trabalhados da parte da manhã do dia 22: os 23 grupos responderam à questão: Na sua região, o que as CEBs trouxeram de novo para a Igreja?

As CEBs são um novo modo, um novo jeito de ser Igreja para construir uma sociedade nova. A característica mais marcante e englobante deste novo modo de ser Igreja é a ligação entre a fé e a vida.

 

1. As CEBs são comunidade de fé cristã

• A fé tem que ser conhecida, tem que ser aprofundada para poder se decidir por essa nova maneira de ser Igreja.

• As pessoas das CEBs têm que ser comunidade, têm que se unir para poder ser Igreja viva.

• As CEBs têm como centro a Palavra de Deus, o projeto do Pai, o Evangelho libertador de Jesus Cristo e a força do Espírito Santo.

• As CEBs têm que celebrar a própria vida das pessoas, os sofrimentos e as alegrias, a Cruz e a Ressurreição. Se não se celebra a fé em Deus não se celebra nada. Nas celebrações da fé das CEBs são muito importantes as representações e encenações.

 

2. A fé cristã das CEBs tem que ser uma fé vivida, ligada à vida, comprometida com a libertação

• Não se pode ficar só na oração. É necessária também a ação. Com a conscientização da ligação Fé-Vida, as CEBs sabem que estão trabalhando pelo Reino de Deus, por uma nova sociedade.

• Para isto é necessária a conscientização de como são e como devem ser as estruturas da Igreja e as estruturas da sociedade.

 

3. Os frutos novos trazidos pelas CEBs para a Igreja

• A participação e a responsabilidade de todos na Igreja e na sociedade.

• A valorização dos leigos, a valorização das pessoas. Nas CEBs reconhece-se que o povo pobre tem importância, tem valor. O que não acontece na sociedade. As CEBs trouxeram os pobres para dentro da Igreja.

• Acesso à Palavra de Deus e valorização da Palavra de Deus.

• Antes das CEBs o povo era acomodado. Foram as CEBs as que despertaram o povo para assumir a reivindicação de seus direitos, a luta pela justiça, pela libertação dos oprimidos.

• As CEBs trazem a alegria da participação. As CEBs não são uma Igreja de velório.

• As CEBs, onde elas funcionam, vão convertendo os bispos e os padres; fazem com que eles se afastem dos fazendeiros e dos empresários e se aproximem do povo, caminhem com o povo, ponham os pés no chão. No novo modo de ser Igreja das CEBs não há lugar para bispos e padres que queiram dominar autoritariamente. A autoridade na Igreja é para servir.

• As CEBs levam à conscientização e organização do povo através de: cooperativas e hortas comunitárias; participação nos sindicatos e associações de bairros; luta pela terra; participação nos movimentos populares; construção ou reivindicação de escolas, postos médicos, creches, ruas, esgotos, água encanada; grupos de jovens, mães, domésticas, boias-frias, lavadeiras, garimpeiros, pescadores etc.; mutirões: com eles a gente se fortalece.

• Abertura e colaboração com outras Igrejas cristãs.

• Conscientização política.

• Catequese renovada.

• Responsabilidade pela preparação para receber os sacramentos e pela administração de alguns deles.

• Liturgia renovada.

• As CEBs trazem também como fruto uma grande divisão na sociedade: de um lado, estão os ricos e poderosos; de outro, o povo oprimido querendo se libertar e ser libertador. Não se pode ficar em cima do muro. É necessário se unir para construir uma nova sociedade.

 

4. Restam, ainda, muitas dificuldades, resistências, questionamentos

• Tentação de desanimar e desistir diante das perseguições, torturas; impunidade dos que roubam e matam. Mas por outro lado, os nossos mártires nos dão uma força enorme na caminhada.

• Em muitos lugares os bispos e padres não aceitam ainda as CEBs como novo modo de ser Igreja.

• As CEBs têm realmente poder? Que poder devem ter para se defender?

 

PLENÁRIO B

Tema: FÉ E POLÍTICA

Trabalho de grupo: os 20 grupos procuraram responder à seguinte pergunta: Na prática de sua comunidade, como vocês estão ligando fé e política hoje?

 

SÍNTESE DO PLENÁRIO

1. Narração de experiências significativas

• Uma pastora batista que, por ser mulher, teve de enfrentar lutas na comunidade até ser aceita como pastora através dos ministérios específicos com os boias-frias, nas associações de bairros etc.

• Encruzilhada Natalino (RS) e a criação de experiências comunitárias em Nova Ronda Alta.

• Fazenda Annoni e romaria de 250 colonos — adultos, jovens e crianças — até Porto Alegre, percorrendo 450 quilômetros a pé.

• No Maranhão, casos de tortura a agentes comprometidos com as CEBs, e um deles, inclusive, está presente ao Encontro.

 

2. Análises gerais

a) Constatações negativas

• Comunidades para as quais a política ainda é algo alheio à fé.

• Existência de muitos sindicatos-pelego no campo.

• Avanço e instalação da UDR.

• Membros do clero (bispos, padres) que impedem a caminhada ou não dão apoio claro.

• Tensão no interior das CEBs por causa das opções políticas.

• Dificuldades de organização por medo e por causa das perseguições dos grandes.

• Ilha de Marajó, excluída da Reforma Agrária tão necessitada.

• Enganação da Nova República a respeito da Constituinte.

 

b) Constatações positivas

• Crescimento e conscientização que se manifesta de muitas formas. Por exemplo: escolha de candidatos às eleições ligados aos interesses populares, lançamento de candidatos próprios das CEBs, engajamento nos mais diversos movimentos populares, lutas populares e pastorais engajadas (CPT, PO,PJP).

• Organização de cursos sobre Fé e Política em nível de diocese para esclarecer sobre os problemas políticos e sociais.

• Avanço da teologia a partir da percepção de como o plano de Deus faz exigências políticas: Deus quer o homem livre e libertado.

• Maior consciência na denúncia das injustiças sociais.

• Produção de textos para a formação política dos membros das CEBs.

• Luta para transformar os sindicatos-pelego.

• Empenho em assumir, em nível de diocese, a luta pela Reforma Agrária e pela criação de infraestrutura para que dê certo.

• Existência de muitas lutas específicas de índios, mulheres, negros, sem-terra e problemas específicos.

• Existência de grupos de estudo e reflexão sobre problemas de Fé e Política.

• Clareza cada vez maior de que não há verdadeira fé sem compromisso político.

 

c) Questionamentos

• O que podemos fazer para que a hierarquia aceite a caminhada libertadora das CEBs?

• Como superar a barreira da politicagem?

• Como enfrentar o problema da absorção dos membros das CEBs pelos membros partidários?

• É hora de uma “Pastoral Política”?

• Como resolver o problema da dupla militância, nas CEBs e nos Partidos?

• Esclarecer melhor o problema da Igreja com sua opção de classe e opção partidária.

 

PLENÁRIO C

Tema: ESPIRITUALIDADE LIBERTADORA DAS CEBs E BÍBLIA

 

DINÂMICAS

• Bate-papo rotativo a partir da questão: Quais as ideias fortes que a Bíblia traz para a caminhada da sua comunidade?

• Trabalho em grupo a partir da questão: Como a Bíblia entra nas lutas da sua comunidade?

 

SÍNTESE

• A Bíblia entra nas CEBs através dos círculos bíblicos, liturgia e organização do povo.

• As comunidades percebem que a maioria do povo da Igreja ainda não lê a Bíblia como mensagem de libertação.

• Os meios de comunicação social dificultam a leitura e a compreensão da Bíblia.

• Muitas vezes a leitura da Bíblia é feita ainda individualmente.

• A leitura da Palavra de Deus traz consigo sempre um risco, um perigo: aparece como um julgamento da parte de Deus para aqueles que não aceitam o convite de caminhar com seu povo. Um julgamento também para a Igreja, como instituição, onde a ordem hierárquica tem mais importância do que a comunhão.

• A organização do povo cresce na resistência à opressão, e no esforço de libertação. A leitura da Bíblia vem para sustentar a luta; para continuar a luta; é alimento na luta. Essa leitura é sempre coletiva.

• O povo que sofre encontra na Bíblia histórias que contam como Deus convoca o povo para a resistência. Por isso, a Bíblia não está freando o povo, nem levando a queimar etapas, mas indica que a vitória é certa.

• A Bíblia nos revela que Deus está presente na história. Os relatos bíblicos refletem a nossa própria história. Por isso, a Bíblia pode ser considerada como “espelho” da vida do povo.

• A Bíblia é nossa parceira e nossa companheira.

• A Bíblia é um livro que nos ensina a ser solidários com aqueles por quem Deus tomou partido: os fracos, os pobres, os marginalizados. Nesse sentido, a Bíblia nos convida a nos engajarmos na luta pela concretização de uma sociedade de partilha, de justiça e de liberdade. Ela pode ser compreendida como uma ferramenta no processo de libertação.

• A Bíblia é luz e permite ter uma visão mais clara das ideologias e das estruturas, bem como perceber qual é o projeto de Deus sobre o momento histórico que estamos vivendo. Isso nos leva a entender um jeito novo de ser Igreja.

• Essa leitura, feita nas comunidades, unindo Vida e Bíblia, é muito fecunda.

 

PLENÁRIO D

Tema: CEBs, HIERARQUIA E MINISTÉRIOS

No bate-papo rotativo foi discutido: Como as CEBs estão superando os desencontros dentro da Igreja? A questão levantada para os trabalhos dos 15 grupos foi a seguinte: Como os novos ministérios/serviços estão construindo o nosso modo de ser Igreja?

Depois do debate em grupos houve um plenário em que os relatores apresentaram o resultado da discussão em grupo, seguido por um momento de tribuna livre, “a fila do povo”. Queremos sintetizar os dois momentos em 5 pontos:

 

1. As lutas vitoriosas do povo

Espontaneamente e com muita alegria o pessoal lembrou várias lutas vitoriosas do povo: conquista das diretorias de sindicato, criação de um conselho de moradores, de uma horta comunitária etc. Isso como sinal que a fé do povo e sua expressão eclesial, as CEBs, estão vivas, ligadas às lutas pela vida. Uma nova maneira de ser Igreja com novos ministérios só nasce a partir da base, quando se parte das angústias, das necessidades, da realidade do povo.

 

2. Quais são os novos ministérios/serviços?

a) São os ministérios de sempre (catequese, liturgia…) só que agora exercidos de maneira diferente: mais ligados à vida do povo, exercidos em equipe. E agora exercidos por pessoas diferentes: são os animadores/leigos que em algumas comunidades assumem o ministério do batismo, do casamento…

Esses ministérios foram chamados “ministérios internos”, de serviço à construção da própria CEB.

b) São osministérios novos mesmos, que nasceram de alguns anos para cá: ministérios a serviço da saúde popular, dos direitos humanos, do mutirão, da pastoral da terra, da pastoral operária, dos jovens, da promoção da mulher, dos subsídios populares… Todos eles ligados às lutas do povo. São os “ministérios externos” de serviço político à sociedade.

 

3. O que gerou essa mudança no exercício dos ministérios e o nascimento de outros novos ministérios?

• Foram os Círculos Bíblicos, a recuperação da Bíblia pelo povo.

• As reuniões em pequenos grupos onde cada um pode falar.

• O método ver-julgar-agir, que ajuda a ligar a fé com a vida, a ligar as CEBs com os movimentos populares.

• As próprias lutas do povo fizeram crescer a consciência dos pobres: é o pequeno acreditando no pequeno.

• Nisso tudo ajudou muito o apoio de bispos, padres e vários serviços pastorais: CPT, CPO, CEBI, PJ …

• A descentralização dos serviços pastorais da paróquia abriu espaço para o povo participar e assumir sua Igreja.

• A própria cultura do povo, seu jeito de convivência, de partilha e solidariedade deu um grande impulso aos ministérios e serviços.

 

4. Aparece uma Igreja com novo rosto

• Toda ela ministerial, cada qual contribuindo com seu dom.

• Comprometida com o povo: uma Igreja dos pobres.

• Com a base na Palavra de Deus, o Evangelho de Jesus Cristo.

• Celebrando a vida do povo.

• Partilhando o poder em inúmeras instâncias, do conselho comunitário até a assembleia diocesana.

 

5. Existem, todavia, ainda muitos desafios e questões

• Há bispos e padres que atrapalham e dificultam a caminhada das CEBs, levando um dos participantes a desabafar: “CEBs somos nós. Vamos acabar com a hierarquia eclesial”, mas logo corrigido por outro participante: “Não é o caso de acabar com a hierarquia; os bispos e padres devem se adaptar ao povo, se converter ao povo, e logo depois dar orientação ao povo”. Ou outro: “Como pode o bispo que não vai de acordo com a maioria do povo continuar como pastor?!” “Tem muitos bispos que ficam em cima do muro.” “Quando é que a Igreja se tornará pobre de verdade?” “Só haverá conversão quando padres e bispos experimentarem o que é a vida do povo.”

• Existe ainda, no exercício dos ministérios e serviços, discriminação de jovens e de mulheres: “Por que a mulher não pode ser sacerdote?”.

• São poucas ainda as comunidades em que os leigos assumem ministérios tradicionalmente reservados a ministros ordenados (diácono, padres e bispo), como, por exemplo, o ministério do batismo, do casamento…

• E no caso de leigos assumirem esses ministério: “Como confirmá-los nessa missão sem criar minipadres?”.

• Em relação à militância política existe certo preconceito nas CEBs: o medo da política partidária, o não saber distinguir bem o espaço da CEB e da política.

• Como guardar o elo de ligação entre o povo das CEBs e os militantes na política partidária?

• Temos de ter cuidado com o nosso trabalho de mutirão e outras promoções para não fazer o que o governo deveria fazer.

• Neste ano de eleições devemos estar atentos para não deixar que políticos mal intencionados se aproveitem da gente.