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Publicado em Edição Especial - 1º Centenário dos Paulinos

Conversão pastoral: desafios de renovação da Igreja

Por João Décio Passos

A Igreja se faz na ação concreta no mundo como sinal e instrumento do Reino de Deus. Para essa missão é que ela existe com suas tradições, celebrações e estruturas. Por essa razão, a Igreja se renova à medida que se encarna nas diversas realidades, buscando ser fermento e luz, servindo como Jesus Cristo serviu e dialogando com as diferenças que caracterizam os diferentes grupos humanos. A pastoral entendida como missão que nasce do próprio Evangelho, fonte e base do que a Igreja é e deve ser, constitui a busca de renovação permanente para as estruturas e para as linguagens que fazem parte da Igreja em cada tempo e lugar.

Toda renovação autêntica exige conversão de pessoas e estruturas, tendo em vista que individualidade e coletividade constituem dois aspectos de uma realidade única que é a vida humana. Converter significa optar por uma nova direção e, a partir dessa, refazer os objetivos e as estratégias de ação e, em muitos casos, o próprio modo de ser. O convertido vive uma dinâmica permanente de conformar-se a uma direção escolhida e de reafirmar constantemente essa escolha como orientação fundamental de vida. O cristianismo se constituiu numa autocompreensão e, antes, numa prática de renascimento da pessoa na comunidade. O cristão é aquele que renasce em Jesus Cristo, tornando-se um homem novo (cf. Rm 6,3-11), explica o apóstolo Paulo. A Igreja foi a construção histórica dessa realidade nova – Boa notícia, Evangélion, em grego –, vivenciada como fundamento primeiro; foi a comunidade de renovados e em permanente renovação na atualidade do dom oferecido por Jesus Cristo. Os formatos institucionais agregados progressivamente a essa realidade misteriosa primeira vieram de dentro dela própria e também de fora, do entorno social, cultural e político. De dentro, na medida em que o tempo passa e se torna necessário organizar de maneira mais definida a comunidade; quando a comunidade empresta os modos de organização da sociedade greco-romana e, posteriormente, do próprio Império Romano.

E não faltaram, ao longo da história, movimentos permanentes de renovação eclesial, de retorno àquela fonte original que caía na rotina e se tornava menos visível e operante. Com esse ideal e dinâmica, foram fundadas as comunidades de vida monástica e as ordens religiosas, fizeram ouvir também suas vozes místicos e teólogos, e foram convocados muitos Concílios, de modo explícito o último grande Concílio. A história mostra que a renovação faz parte da dinâmica da Igreja, muito embora se possa constatar uma força de conservação afirmada e reproduzida pela instituição que vai se tornando mais estruturada e rígida, em nome da verdade e da unidade da fé.

A pastoral é a razão de ser da Igreja, e não o contrário. É por causa da missão pastoral que a Igreja existe: é enviada a anunciar a vida de Jesus Cristo a todos os povos, para que todos a tenham plenamente (cf. Jo 10,10). Por essa razão, a Igreja se organiza em suas estruturas e funções, afina sua linguagem e sua solidariedade, avalia e revê suas formas de agir e de pensar. Isso significa dizer que a Igreja não está no centro do anúncio da vida de Jesus Cristo, mas a serviço dele. Para tanto, deve vigiar-se para não cair na tentação do eclesiocentrismo, forma de infantilismo eclesial que só pode ser superado quando se abre para o outro e, no diálogo, constrói com ele novas condições de vida pautadas no amor. O papa Francisco tem falado na necessidade de os pastores terem “cheiro de ovelhas”. O serviço e o diálogo são as atitudes fundamentais da conversão pastoral em nossos dias de modernidade avançada, marcada pelo individualismo e pela busca do maior bem-estar com o menor esforço. A atitude pastoral é, nesse contexto, resistência, testemunho e ação que, em ponto pequeno, provoca transformações, ainda que, muitas vezes, quase imperceptíveis e incontabilizáveis (cf. EG, 279-280). Na medida em que a Igreja, todo o povo de Deus, se converte pastoralmente, ela modifica o mundo e modifica, antes de tudo a si mesma.

1. A renovação da Igreja

A Igreja fiel à sua origem está sempre em renovação – ecclesia semper reformanda, repetiam e repetem os reformadores. Essa afirmação é mais que um princípio ou uma frase de efeito que possa ser bem acolhida em alguns contextos eclesiais, como em boa medida no contexto atual. Para muitos defensores da preservação da instituição, ela significa não mais que um princípio de renovação espiritual dos fiéis, e não uma postura de renovação institucional, coisa que poderia beirar o propósito do protestantismo no século XVI. Para outros, o correto seria apenas uma re-forma da Igreja (mudança de forma que preserva a essência), e não uma renovação que implicaria mudanças radicais e estruturais. Em qualquer um dos casos, a pergunta pelo que preservar e pelo que mudar permanece na teoria e na prática em todo intento reformador que emerge na Igreja. A pergunta por aquilo que é essencial não fica, de qualquer modo, dispensada e, quase sempre, suscita acalorados debates. Tratar-se-ia de manter as estruturas institucionais intactas e mudar as estratégias evangelizadoras? Ou, de modo oposto, de uma renovação a partir da própria estrutura? Ou, ainda, de modo mais radical, de uma reforma da própria essência, uma vez que essa pode estar desgastada ou perdida no decorrer do tempo? Há quem afirme, nas pegadas da filosofia grega, que uma essência não se perde, precisamente por constituir a natureza estável de determinada coisa. Contudo, a essência da Igreja não pode ser concebida à maneira grega, como ideia platônica ou como forma aristotélica, donde derivariam, de fato, as qualidades da estabilidade e da imutabilidade. Ela é um carisma presente na história e, nessa concretude, torna-se mistério vivo e real; trata-se de um dom vivenciado nas condições reais da história como escolha livre de cada fiel que se agrega a uma comunidade e, nessa relação intersubjetiva, se faz comunhão. A comunidade eclesial constitui essa comunhão e mistério como povo concreto, como povo de Deus, nos ensina o Vaticano II (cf. Lumen Gentium, cap. I e II).

Mas o povo de Deus é santo e pecador; é luta entre o homem velho e o homem novo (cf. Cl 3,5-11) e pode perder o dom original e se desviar do caminho; é quando uma comunidade eclesial deixa de ser eclesial e se torna uma associação qualquer, ainda que em nome de princípios e práticas religiosas. É nesse sentido que, desde as suas origens, a comunidade cristã entendeu que era possível fazer o caminho de volta, reconciliar-se com o dom original, refazer-se como indivíduo e como comunidade a partir do dom original oferecido por Jesus Cristo.

No caso de uma perda da essência, ou do carisma fundante, a renovação eclesial significa a Igreja voltar às origens, ao carisma em status nascendi, para que seja fiel à própria razão de ser. A história mostra que é possível perder o essencial em troca do acidental, ainda que, do ponto de vista dogmático, se deva afirmar que a fonte divina da Igreja é, por si mesma, imperdível, uma possibilidade permanente de “refontalização”. O retorno permanente às fontes significa sempre uma retomada da essência ou do fundamento, atividade ao mesmo tempo hermenêutica e política, ou seja, que interpreta de novo sobre o significado das fontes e, desde então, busca os modos operacionais de aplicá-la em cada época e lugar. Também, de sua parte, a sociologia explica os processos de renovação como inerentes aos movimentos históricos, particularmente aos movimentos religiosos. Esses nascem a partir de uma oferta de carisma por parte de um fundador que se apresenta habilitado para tal: como portador de um dom extraordinário que permite romper com a rotina da história em implantar o novo (cf. WEBER, 1997, p. 193-197). Porém, a rotina que segue a irrupção do carisma proporciona tanto o movimento de institucionalização, ordem que pretende guardar e transmitir com segurança e legitimidade o carisma, quanto o movimento de retorno ao carisma, sobretudo no momento em que a instituição entra em crise seja pela luta interna de seus sujeitos, seja pelo desgaste de suas estruturas e regras (cf. WEBER, 1997, p. 196-197).

A Igreja em processo de renovação

A renovação da Igreja é um movimento nem sempre operante e visível, tendo em vista, no caso da Igreja católica, das estruturas fortemente consolidadas, do ponto de vista organizacional e do ponto de vista da fundamentação teológica. Uma teologia da Igreja que identifica a sua fonte com a sua organização, o carisma com a instituição, o dom da comunhão com as estruturas administrativas, pode levar à ilusão de uma Igreja fixa e perene, sem lugar para o mistério sempre presente e provocador do novo. Nessa perspectiva, a crise da instituição deve ser vista como graça, como possibilidade de renovação na força do Espírito que sopra onde quer e que renova o que está envelhecido. De fato, a pergunta pela essência da Igreja sugere uma saída que busca de dentro dela mesma aquilo que a constitui como fundamento de onde se retiram os elementos para a sua renovação. Toda tradição constitui, nesse sentido, o vínculo que liga a ordem presente ao carisma fundante, do contrário trai-se o próprio passado em nome do presente.

Na longa tradição cristã, vivemos, de fato, em nossos dias uma temporalidade de renovação, ainda que sob tensão e luta pelo sentido do significado e dos rumos dessa renovação (cf. FAGGIOLI, 2013). O Vaticano II inaugurou a era da renovação da Igreja, ao colocá-la em diálogo permanente com o mundo presente. O papa João XXIII idealizou e encaminhou o Concílio como propósito de aggiornamento da Igreja ao mundo moderno. Era preciso, acreditava, revelar ao mundo contemporâneo a verdadeira substância da fé, sabendo, pois, que uma coisa era a substância da fé e outra o seu modo de formulação (cf. “Discurso inaugural”). Os tempos pós-conciliares conheceram uma afirmação crescente da visibilidade institucional da Igreja e da unidade da formulação doutrinal e a centralidade das decisões eclesiais, retomando padrões próximos de Trento e do Vaticano I (cf. LIBANIO, 1984; FAGGIOLI, 2013). Pode-se falar hoje, com maior clareza, de uma renovação interrompida que, a partir do governo central da Igreja, transformou as decisões conciliares em um detalhe, talvez pouco importante, dentro da longa tradição católica. A partir do carisma conciliar, as forças de renovação e de conservação se misturaram nas posições e nas práticas eclesiais pelo mundo afora (cf. PASSOS, 2014, p. 31-84). Mas a retomada das fontes conciliares, de seu carisma fundamental emergiu novamente em “flor de inesperada primavera” (JOÃO XXIII), quando já se contava com uma hermenêutica definitiva sobre o Vaticano II, nos termos acima descritos. De dentro da tradição estável emergiu uma crise e, por conseguinte, aos borbotões, um clamor por reformas urgentes na Igreja. O papa Francisco é eleito como programática de reforma da Igreja (cf. PASSOS-SOARES, 2013).

Para os que se calaram na perplexidade da renúncia de Bento XVI e na aparição do novo papa, nitidamente renovador nas atitudes e palavras, o papa Francisco fala hoje, em sua Exortação (2013), de uma “renovação inadiável” da Igreja a partir do “coração do Evangelho” (EG 27; 34). A essência da Igreja vem, pois, da concordância com o Evangelho; nasce da identificação com a vida que jorra do próprio Cristo vivo na história, presente em cada irmão e, de modo particular, nos mais pobres. A alegria do Evangelho se constitui precisamente nessa oferta que se torna, por si mesma, capaz de renovar tudo na Igreja. A pergunta pelo significado e pelos rumos da Igreja sob o pontificado franciscano permanece ainda sem respostas claras e definidas e, hoje, sem dúvidas, sob o signo de uma luta hermenêutica que recoloca em trincheiras disfarçadas renovadores e conservadores.

1.2. A renovação da instituição a partir do carisma

A história das religiões mostra que a rotina do carisma pede a instituição. À medida que passa o tempo, o carisma pode “rotinizar-se”, explica Max Weber (1997, p. 199-200), de forma que a organização das regras e funções aparecem como estratégia de preservação daquela graça original. Porém, a crise e a rotina podem abater-se igualmente sobre a instituição. O desgaste da instituição pode, então, sufocar o carisma em nome de si mesma, de sua própria constituição estrutural e funcional. Em termos teológicos, trata-se do eclesiocentrismo ou da Igreja autorreferenciada, de que fala o papa Francisco. A sequência carisma-rotina-instituição compõe a lógica da formação das instituições de um modo geral, no processo de racionalização que rege a história, segundo Weber (cf. 1996, p. 11). Contudo, a sequência instituição-crise-carisma significa o caminho de volta às origens. Esse processo faz parte da mesma racionalização, jamais unilinear, mas, ao contrário, tenso e marcado por buscas de sentido capaz de revigorar os percursos humanos e de operar mudanças históricas. Não se trata de anarquismo político ou carismático, mas da busca da organização mais coerente com as origens ou com o carisma em status nascendi, do qual veio determinada organização institucional. Assim, ocorrem o nascimento dos movimentos renovadores no decorrer da história humana: quando a rotina institucional já não responde por si mesma a sua existência e permite a emergência de figuras que propõem uma nova condição de vida como dom extraordinário que rompe com o peso do cotidiano.

O cristianismo vivencia essa tensão como dinâmica permanente e constitutiva que o faz sempre voltado para fora de si mesmo, para sua fonte; sempre provisório na história que passa na busca do mistério que o constitui. A Igreja é, ao mesmo tempo, o cristianismo em busca de si mesmo; a comunidade que se direciona para o seu fundamento primeiro e a instituição que se estrutura para vivenciar de modo responsável o dom de que é portadora. O carisma cristão é um dado sempre atual e provocante, que chama de novo para si como verdade e bondade salvífica. A tensão entre preservar e renovar é, portanto, inerente ao cristianismo, donde se explicam tanto as rupturas que geram novas igrejas, os movimentos renovadores internos e a luta entre os avançados e os conservadores no seio de mesma comunidade de fé.

1.3. O renovar-se a partir do Evangelho 

O carisma tem nome e conteúdo dentro da comunidade cristã. O Evangelho vivo é a origem permanente da Igreja (cf. EG 34), ou seja, seu começo e sua continuidade: a fonte de onde jorra a força e a regra para toda a organização da Igreja. Essa é a razão de a Igreja estar em renovação permanente. Em termos sociológicos, trata-se de um carisma que constitui a base da instituição. A instituição – as estruturas, as regras, as funções e os papéis – é toda construída para preservar e transmitir o carisma no decorrer do tempo e em cada espaço. Sem o carisma, a instituição perderia sua razão de ser. O cristianismo constitui um tipo de movimento que, por se tratar de uma atualidade permanente de salvação por meio da presença pneumática de Jesus Cristo na história, não permite congelamentos institucionais nem em nome do passado, nem em nome da organização burocrática presente. A legitimidade da Igreja vem de seu carisma: o Cristo vivo, que inclui em si mesmo, de modos diferenciados, todos os seus discípulos, todos os homens e todo o universo.

A Igreja se renova a partir dessa fonte não somente no sentido litúrgico, mas também no sentido sociocomunitário e no sentido institucional. Somente assim pode ser entendida como o Corpo de Cristo na história, como Corpo vivo de ungidos pelo Espírito na comunidade de distintos na unidade (1Cor 12–15).

A Igreja que, em nome da preservação de algum modelo institucional do passado, não se renova torna-se conservadora, fixada em uma época, e fundamentalista, ao justificar essa época como seu fundamento sagrado. Em nome do dom da salvação vivenciado na fé, no amor e na esperança, na comunidade, tudo deve ser renovado e, em boa medida, reinventado. “O Concílio Vaticano II apresentou a conversão eclesial como a abertura a uma reforma permanente de si mesma por fidelidade a Jesus Cristo: ‘Toda renovação da Igreja consiste essencialmente numa maior fidelidade à própria vocação. […] A Igreja peregrina é chamada por Cristo a essa reforma perene. Como instituição humana e terrena, a Igreja necessita perpetuamente dessa reforma’” (EG 25).

2. A conversão pastoral

A ideia de conversão pastoral soa paradoxal, sabendo que ela faz parte da vida da Igreja. Ora, só se fala em conversão sobre algo que precisa de mudança de rumo. O conceito apresentado pelo papa Francisco se insere em seu propósito de reforma da Igreja. A Igreja em saída tem de se converter em seu modo de agir e, por conseguinte, em seu modo de ser. A conversão pastoral é, nesse sentido, mudança estrutural e metodologia da Igreja. Mas, nesse processo de renovação que permanece em curso na Igreja, qual o lugar da pastoral? É preciso lembrar que, na luta pelo sentido autêntico das renovações conciliares, a criatividade pastoral das primeiras décadas conheceu a rotina nas décadas seguintes, bem como um crescente controle por parte dos organismos da Cúria Romana. A Igreja viveu uma “conversão institucional”: uma volta à identidade universal no âmbito das práticas e das ideias, em nome da ortodoxia e da tradição, por meio da afirmação sempre maior da centralidade eclesial da hierarquia. Um modelo de Igreja marcada essencialmente pela comunhão dos iguais em franca distância das diferenças inerentes ao mundo moderno se fez presente por meio de sujeitos e mecanismos eclesiais. E a pastoral tomou rumos decorrentes desse modelo, adquirindo características, ora de reprodução da endogenia católica, ora de reprodução dos modos individualistas da cultura de consumo e, ainda, de persuasão de massas.

A conversão pastoral significa o modo de praticar o Evangelho no tempo e no espaço; constitui a ação que faz a própria Igreja como mediadora do carisma da salvação; o caminho de volta ao poço da água viva (cf. Jo 4,11-15) e a busca da identificação com o Mestre Pastor. A Igreja em saída (cf. EG 20) não se acomoda em suas estruturas institucionais; se faz peregrina no seguimento de Jesus e vai ao encontro dos que mais necessitam de sua solidariedade. Nesse sentido, a prática mais planejada ou estratégica identifica-se substancialmente com a espiritualidade do seguimento do Pastor. Viver em Cristo é agir nele. E a Igreja pode repetir com o apóstolo Paulo: “Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). A conversão pastoral se torna, nesse sentido, o caminho de renovação da Igreja. Pela via de identificação com o Pastor, a Igreja se desfaz de suas carapaças estruturais, de seus apetrechos estéticos e de seus poderes políticos. A via prática parece ser, antes de tudo, o caminho adotado por Francisco em seu ministério e para o qual convida toda a Igreja. É do testemunho e da vivência concreta que podem vir as mudanças. Vale lembrar que as filosofias de raiz realista sempre postularam a precedência da prática em relação às ideias. As ciências humanas afirmam que, antes de se mudar uma estrutura jurídica, teórica ou política, mudam-se as práticas históricas. A Igreja em saída se lança numa postura missionária que, pela força da coerência com o anúncio concreto do Evangelho (vivenciado, testemunhado e pregado), conduz a Igreja às reformas inadiáveis. Na força do anúncio é que as estruturas caducas podem e devem ser superadas. Jamais pela discussão teórica de modelos ou de ideias, mesmo que de ideias teológicas.

E o convite à renovação é feito a todo o povo de Deus, como deixa claro o papa. A Igreja deve renovar-se por inteiro, da hierarquia às bases, das estruturas às posturas pessoais, da estrutura burocrática às linguagens. O povo de Deus nasce do próprio Evangelho vivenciado na comunidade dos seguidores de Jesus, não nasce como descendente de uma hierarquia que se exercita a partir de um epicentro sagrado, de onde provém a possibilidade da graça; não se identifica com a organização histórica da comunidade eclesial, expressa em modelos institucionais, e não nasce, por fim, do aglomerado de fiéis, indivíduos agregados em torno de um ideal. O povo de Deus é constituído a partir da acolhida de Jesus Cristo vivo presente no amor que gera a comunhão dos seguidores de Jesus.

A Igreja em busca permanente de sua fonte

Contudo, a conversão pastoral permanente tem suas exigências e seu preço. O mundo atual faz convergir no mesmo projeto consumista as posturas individualistas que afirmam a busca incessante de bem-estar, incluindo como arremate mais profundo o bem-estar espiritual, com as posturas tradicionalistas que afirmam segurança em sistemas comunitários tradicionais e seguros de sua identidade. Ocorre, nesse caso, um encontro aparentemente curioso entre o mais moderno individualismo com o mais pré-moderno institucionalismo, sabendo, contudo, que se trata, na verdade, de um arcabouço seguro de ordem que abriga em seu seio as posturas de bem-estar individual que dispensam a dolorosa busca espiritual marcada pela autonomia radical, pela construção pessoal de um percurso espiritual e pela referência ao outro como parâmetro de vida moral comunitária. Sem esses valores e vivência, não há ecclesia de Jesus, mesmo que haja uma instituição assentada sobre tradições consolidadas e estruturada em um corpo burocrático orgânico e funcional.

O preço da conversão pastoral da Igreja é a opção pela construção de si mesma no serviço mútuo, no diálogo que busca a verdade nas diversas alteridades e no aprofundamento do seguimento de Jesus Cristo em cada tempo e lugar, sem as seguranças da instituição ou dos aparelhos burocráticos eficazes. É viver sem ouro nem prata, viver sempre a caminho do Reino e na busca da identificação mais perfeita com o Mestre. Tudo isso significa lançar-se na busca permanente da verdade e da vida que se mostra sempre incompleta e provisória, jamais segura e definitiva. A fé cristã é um exercício de liberdade que se abre para um mistério que não se deixa aprisionar em nenhum conceito definido ou em uma estrutura fixa e acabada. É “caminho, verdade e vida” (Jo 14,6), e não essência definida e instituição pronta. É vivência do amor que busca concretizar-se em modos comuns de vida, porém sem “cidade permanente” (cf. Hb 13,14). É dentro do provisório que o cristianismo constitui um caminho de vida que se constrói no seguimento. Ser discípulo é seguir o caminho do Mestre a cada dia (cf. Mt 10,24-25; Lc 9,23-24).

A conversão pastoral é, nesse sentido, ruptura e resistência ao que propõe como segurança e felicidade a sociedade atual e que o papa Francisco denominou como mundanismo (cf. EG 93-97). Converter-se pastoralmente é simultânea e inseparavelmente abrir-se para a realidade imanente, concreta e imediata e para a realidade transcendente, espiritual e mediada pela fé; é de dentro da concretude da vida humana que emerge a vida do espírito, que se faz a experiência do Cristo vivo em cada ser humano, de modo particular nos mais pobres, presença do humano mais singular, desvestido de todo e qualquer acréscimo que o qualifique materialmente.

2.2. O discernimento dos sinais dos tempos

A história é o lugar da vivência da fé e nela a Igreja se lança no discernimento dos sinais dos tempos, como ensina o Vaticano II na Gaudium et Spes: “para desempenhar tal missão, a Igreja, a todo momento, tem o dever de perscrutar os sinais do tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de tal modo que possa responder, de maneira adaptada a cada geração, às interrogações eternas sobre o significado da vida presente e futura e de suas relações mútuas”  (n. 4). A história se torna lugar onde Deus fala e, portanto, lugar em que a Igreja busca a verdade. A leitura de fé da história tem uma raiz teológica, o Espírito de Deus ali está presente. “Movido pela fé, conduzido pelo Espírito do Senhor que enche o orbe da terra, o povo de Deus esforça-se por discernir nos acontecimentos, nas exigências e nas aspirações de nossos tempos, em que participa com outros homens, quais sejam os sinais verdadeiros da presença ou dos desígnios de Deus” (n. 11). O povo de Deus, ou seja, toda a Igreja, se esforça por discernir os desígnios de Deus na história. Nesse exercício se incluem o discernimento das linguagens modernas das ciências e do progresso por meio da Palavra divina, para que possa, por meio delas, exprimir melhor a mensagem de Deus ao mundo de hoje (cf. n. 44).

A conversão pastoral é consciência do lugar da Igreja na história e de sua missão de dialogar com cada época e lugar e, por meio desse diálogo, auscultar a palavra viva de Deus. Ao sair de si mesma e voltar-se para fora: para o outro, para a cultura, para os pobres, para o mundo etc., a Igreja se faz seguidora de Jesus Cristo, que vive no presente pela força do Espírito. Essa postura rompe com todo tipo de fechamento e estagnação da Igreja em si mesma; constitui o primeiro passo da conversão pastoral, a partir do qual se pode pensar nas ações pastorais concretas, desde a mais íntima até a mais exterior ou avançada.

O mundo não somente está prenhe dos sinais de Deus, fala de seus desígnios, como também se torna o parâmetro necessário para a Igreja compreender a sua missão e cada tempo e lugar, o que significa superar todas as formas de fixação no passado, na tradição ou mesmo em uma hermenêutica literal e fundamentalista que considera como fonte de sentido somente um texto que vem do passado e que se identifica em sua forma literal com a Palavra de Deus. O mundo constitui, assim, uma referência de sentido para a Igreja; a igreja toma consciência de si mesma e de sua missão na conformidade com a Palavra de Deus e, por conseguinte, no exercício do diálogo com as linguagens que vêm do mundo, até mesmo com aquelas linguagens distantes da linguagem usual da Igreja, como as ciências modernas.

O significado espiritual-social

A superação das dicotomias é inerente à conversão pastoral. Trata-se de uma atitude fundamental do cristianismo, decorrente do mistério-dom da encarnação que liga definitivamente o divino ao humano. O cristianismo rompe com a distinção/oposição entre sagrado e profano constitutiva das religiões de um modo geral (cf. ELIADE, 1999). Amor a Deus e amor ao próximo não constituem atitudes opostas nem distintas, ensina São João (1Jo 4,7-21). As dicotomias entre Deus e os homens constituem mentiras para o cristianismo. No entanto, paradoxalmente, o cristianismo herdou dicotomias profundas que ainda hoje estão presentes nas ideias e nas práticas: oração versus ação, espiritual versus material, corpo versus alma, espiritualidade versus social, Igreja versus mundo etc. Essas oposições criam falsas espiritualidades e falsas posturas pastorais, espiritualidades intimistas e sobrenaturais, pastorais eclesiocêntricas e desencarnadas. O princípio da encarnação é a fonte da transitividade, da relação e da comunhão entre esses aparentes opostos. A pastoral é a ação concreta do diálogo e do serviço da Igreja no mundo onde encontra com Cristo no outro, como exorta Francisco: “entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até a humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo” (EG 24).

As dimensões espiritual e social, muitas vezes entendidas e vivenciadas equivocadamente como polos opostos, constituem, do ponto de vista da fé cristã, uma única e inseparável realidade, onde se dá o encontro concreto entre Deus e o ser humano. O compromisso social é decorrente da profissão de fé no Pai (que ama cada ser humano), no Filho (que assumiu nossa carne) e no Espírito Santo (que une a todos). A redenção tem um sentido social. No irmão, “está o prolongamento da Encarnação para cada um de nós” (EG 179).

Na teologia da encarnação se encontram indissociavelmente espiritualidade e materialidade, se encontram a teologia do mundo e da Igreja, como consequência madura das orientações conciliares contidas na Lumem gentium e na Gaudium et spes. Nessa mesma teologia, os pobres se tornam presença concreta do Cristo sofredor; neles a concretude do amor adquire sua máxima expressão.

A Igreja que se recolhe em sua estrutura existe para si mesma e trai sua essência, ainda que em ações julgadas espiritualmente puras e perfeitas. O recolhimento na individualidade pode ser igualmente a morte da Igreja, ainda que em nome de vivências místicas de intimidade com Deus.

3. A prática do serviço

A pastoral entendida e assumida como missão encarnada da Igreja faz a mudança por dentro da vivência da fé: como identificação com Cristo no outro que se apresenta e que se achega sem hora marcada, sem credenciais morais e confessionais, e sem oferecer nada em troca. Esse outro é, antes de tudo, o ser humano desnudado de seus direitos, os pobres e os excluídos, mas é também a alteridade cultural que carrega dentro de suas ambiguidades as sementes do Verbo. A prática autêntica começa, portanto, no coração, se faz na cordialidade entre os semelhantes e na misericórdia para com todos. Esse é o coração do Evangelho, o coração da comunidade eclesial e deverá ser o coração da sociedade. No encontro que supera as indiferenças, na solidariedade que vence os isolamentos e na fraternidade que liga as distâncias, a pastoral se realiza, rompendo com todos os dualismos. A conversão pastoral exige, portanto, as experiências de curtição e bem-estar espiritual, a mecânica da ação planejada, que executa os objetivos de uma instituição e a transformação estratégica de condições sociais carentes e desumanas. Qualquer isolamento em uma dessas direções nega o Pastor que nos chama a pastorear consigo, mesmo que afirme rituais piedosos e serviços dedicados à estrutura da Igreja.

A prática pastoral realiza a missão da Igreja, fazendo-a sair de si mesma para servir até as periferias humanas (cf. EG 20). O serviço ao ser humano constitui a Igreja, e é a única razão de ser de toda e qualquer ação que realize. A estrutura eclesial existe para servir, e não para se autopreservar, ensina o papa Francisco. “A reforma das estruturas, que a conversão pastoral exige, só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária, em todas as suas instâncias, seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de ‘saída’ e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade” (EG 27).

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Do ponto de vista da transformação ou da renovação, a Igreja constitui um curioso paradoxo, uma vez que carrega como sua origem o germe da própria mudança de tudo o que constrói como organização institucional. Sua história mostra, por essa razão, a força da conservação que busca afirmar a ligação direta entre as construções institucionais do presente e as origens do passado, sob a regra do “sempre foi assim”; legitimam-se, assim, as concepções, as regras e as funções como fundadas diretamente no carisma (na decisão de Jesus, na vontade de Deus). O resultado final é uma teologia da instituição, uma eclesiologia que inclui no mesmo sistema teológico todas as construções institucionais numa espécie de sacralização generalizada de certos costumes (o latim, a música, os estilos arquitetônicos, os vestuários litúrgicos etc.). Por outro lado, a mesma história revela a força da renovação, primeiro por aqueles que estão menos comprometidos com os costumes e os papéis institucionais, o povo. O povo assimila, em suas práticas de fé, o que é prático, sem preocupações com coerência de ideias ou fidelidade à disciplina moral e litúrgica oficial. Assim se explicam os sincretismos, troca espontânea do mais complexo e abstrato pelo mais simples e prático. E a Igreja transformou muitos hábitos a partir desse processo no decorrer de sua história. A força de renovação pode vir também da parte dos que se propõem a pensar a fé por meio da teologia. Não faltaram reformadores dessa estirpe. O exemplo mais típico é, por certo, a Reforma Protestante. Em certa medida se incluem entre esses os místicos que, não obstante a simplicidade e praticidade, provocaram mudanças, ainda que tópicas, a partir de concepções de vida defendidas como mais autênticas ao dom inicial. Mas há também força renovadora eclodida de dentro das hierarquias, por função defensoras da estabilidade da instituição, tais como algumas realizadas por sínodos e concílios. Caso dos Concílios de Trento e Vaticano II, da Conferência de Medellín etc. Nessa direção se incluem, evidentemente, os papas reformadores, tais como Gregório VII, João XXIII e, no momento, o papa Francisco. Quando isso ocorre, os resultados estruturais das reformas se tornam viáveis, pela força da legitimidade da autoridade que as conduz.

Na verdade, toda renovação só se conclui quando atinge a Igreja como um todo. Em termos sociológicos, quando ocorre socialização religiosa: a interiorização dos valores por parte do conjunto dos fiéis e do clero e, por conseguinte, a vivência dos mesmos valores pelo conjunto deles. Em outros termos, é quando a norma ou o valor se tornam cultura. Do contrário, a renovação pode permanecer na esfera da legalidade, localizada em lugares e sujeitos isolados, ou atingir apenas a superfície. As reformas da Igreja católica são, por essa razão, sempre lentas e heterogêneas: atingem de modo diferenciado as localidades e os sujeitos. Há sempre os que permanecem sob as regra dos velhos costumes, dentro ou fora da oficialidade eclesial. A história mostra essas divergências não somente nas reformas que romperam diretamente com a tradição católica, mas também dentro da própria Igreja.

As reformas pretendidas pelo papa Francisco não fugirão dessa lógica, não obstante carreguem a força do Magistério e da autoridade papal. De modo semelhante ao que ocorreu com o papa João XXIII, ele se mostra acolhido, sobretudo para além das instâncias hierárquicas; suas ideias e práticas são acolhidas de modo simpático pelo povo de um modo geral, católicos, não católicos e, até mesmo, por não crentes. Entre o papa e o povo, posiciona-se o clero, de um modo geral, mas de modo decisivo o episcopado. Esse meio institucionalmente estabelecido e politicamente forte tem optado pelo silêncio e pela passividade, que pode ser visto como indiferença ativa, que aposta na inércia e na rotina das ideias, como oposição discreta que boicota com a chamada contraideologia, afirmando projetos opostos ou como adaptação fisiológica em nome de benefícios a receber ou a uma fidelidade cega e sem convicção.

A saída para o pastoreio coloca a Igreja em trânsito permanente para além de si mesma: para o mesmo encontro inseparável com Cristo e com o povo. Nessa dinâmica, a comunidade eclesial se renova, para ser servidora fiel do Mestre, abandonando suas seguranças institucionais, suas vaidades estéticas e suas ambições de poder. A renovação da Igreja pretendida e orientada pelo Vaticano II estará sempre em curso quando a misericórdia, o serviço e o diálogo forem as atitudes constantes que rejam todos os ministérios que compõem a Igreja, os ordenados e os não ordenados. Essa chamada do papa Francisco a todo o povo de Deus só se concretizará se houver conversão pastoral por parte de toda a Igreja: que sai permanentemente “da própria comodidade” (EG 20) para servir.

Referências

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ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

FAGGIOLI, Massimo. Vaticano II: a luta pelo sentido. São Paulo: Paulinas, 2013.

LIBANIO, João B. A volta à grande disciplina. São Paulo: Loyola, 1984.

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PASSOS, J. Décio. Concílio Vaticano II: reflexões sobre um carisma em curso. São Paulo: Paulus, 2014.

VELASCO, Rufino. A Igreja de Jesus: processo histórico da consciência eclesial. Petrópolis: Vozes, 1996.

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João Décio Passos

Doutor em Ciências Sociais e livre docente em Teologia. Professor do Departamento de Ciência da Religião da PUC-SP e do Instituto São Paulo de Estudos Superiores. E-mail: jdpassos@pucsp.br