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Publicado em janeiro-fevereiro - 2014

Grupos de rua: espaço para o exercício da colegialidade na Igreja

Por Pe. Manoel Godoy

À luz da contribuição do Vaticano II para o exercício da colegialidade na Igreja, o autor reflete sobre o caminho de renovação da Igreja e das paróquias como rede de comunidades ou comunidade de comunidades, estimulando a multiplicação dos pequenos grupos de cristãos em torno da Palavra de Deus.

Uma das reflexões mais profundas e complexas do Concílio Vaticano II tangia à questão do exercício do poder na Igreja. O documento Lumen Gentium apontava para a possibilidade de que o poder pudesse ser exercido de forma colegial, isto é, havia o reconhecimento de que o colégio episcopal também tem a autoridade para governar toda a Igreja. Lumen Gentium deixava claro que tal poder só seria lícito junto com Pedro, e nunca sem ele. Mesmo assim, somente o reconhecimento do poder colegial na Igreja já assustou os que defendiam a supremacia monárquica do sumo pontífice, de modo que impuseram ao papa Paulo VI a anexação de uma “nota explicativa” ao documento que deixasse claro o que se queria dizer por colegialidade. Dessa forma, Lumen Gentium foi o único documento conciliar que recebeu um anexo, não votado pelos bispos, mas somente com a assinatura do secretário-geral do concílio. O importante é que, entre a letra e o espírito, há sempre um espaço possível para a ação do Espírito Santo na Igreja. Por conseguinte, logo após o concílio, as formas colegiadas ganharam vigor e muitas experiências bonitas aconteceram. As conferências episcopais ganharam força; os diversos conselhos em âmbito diocesano, paroquial e comunitário também. O povo começou a se sentir verdadeiramente Igreja e a sair da passividade de séculos. Nas primeiras Campanhas da Fraternidade no Brasil, os lemas e os objetivos sempre lembravam a todos o sentido comunitário da Igreja. Na primeira, em 1964, o lema era: “Lembre-se: você também é Igreja”; em 1965: “Faça da sua paróquia uma comunidade de fé, culto e amor”; em 1966, embora não houvesse lema, o objetivo da campanha assim dizia: “Reavivar nos fiéis a consciência de que são membros do povo de Deus, corresponsáveis por toda a comunidade da Igreja local, diocesana, nacional e universal, e chamados a servir todos os homens, especialmente os pobres”.

Com esse espírito, a Igreja no Brasil promoveu, na década de 1970, uma proliferação – sem igual na sua história – de comunidades eclesiais de base. Abandonou a mania de grandes construções e fomentou a multiplicação de centros comunitários por toda a parte. Essa metodologia eclesial favoreceu o surgimento de inúmeras lideranças leigas para a Igreja e para a construção de uma nova sociedade.

Grupos de rua: experiência concreta de colegialidade

Entre as experiências de participação colegiada, nasceram os círculos bíblicos, os grupos de reflexão, os grupos de rua, de quarteirão e outros. Verdadeiras sementes de novas CEBs. Essa estrutura circular começava a fazer frente à rígida estrutura piramidal da Igreja. Fortaleciam-se os conselhos, onde o exercício da colegialidade ganhava mais espaço de fraternidade e corresponsabilidade na Igreja. Segundo o site da Wikipédia, colegialidade é, em sentido abrangente, a reunião de pares para tomada de decisões, com igual peso dos votantes. É claro que, em questões de doutrina, o clero continuava com o poder de veto, mas a vida das comunidades não gira somente em torno disso. É muito mais. Geralmente, em questões de orientação pastoral prática, a colegialidade ia ganhando terreno fértil nas comunidades.

Não demorou muito para emergirem os ataques a essa experiência. O pontificado do beato João Paulo II foi francamente desfavorável a esse exercício do poder eclesial. Ele, partindo da realidade da Igreja europeia, já não acreditava na estrutura paroquial e passou a incentivar os novos movimentos, tendo como estratégia fazer a Igreja sair em busca dos afastados. De fato, os novos movimentos se mostravam, na Europa, muito mais dinâmicos e flexíveis para assumir o projeto da nova evangelização. Esses movimentos também se enquadravam melhor na proposta de centralização do poder eclesial, pois funcionavam como verdadeiros braços do papa por todas as regiões do mundo. Exemplo claro é o do Opus Dei, que, como prelazia pessoal, deve obediência direta ao papa e não depende em nada das demais organizações eclesiais. Porém, na América Latina e, sobretudo, no Brasil, as paróquias estavam se abrindo à experiência das comunidades e dos diversos grupos de reflexão, fortalecendo uma eclesiologia de comunhão e participação, como apregoou Puebla. Os teólogos que aprofundavam essa eclesiologia foram duramente perseguidos, assim como os que aderiam ao método da Teologia da Libertação e apoiavam a vivência das CEBs. É interessante observar que os ataques a esse modo de governar a Igreja partia de quem percebia que dessa forma surgiria nova maneira de ser Igreja: mais fraterna, mais humana, descentralizada e menos burocrática. Na ótica dos que se opunham ao princípio da colegialidade, este cria na Igreja um poder policêntrico, enfraquecendo o poder central do papa. Afirmam eles:

Na verdade, neste momento, duas entidades paralelas existem para o governo da Igreja. Por um lado, a autoridade hierárquica divinamente instituída, expressa através do papa e das congregações romanas sobre toda a Igreja, os bispos em suas dioceses e os padres em suas paróquias. Por outro lado, está a autoridade revolucionária e democrática, uma criação humana imposta desde o Vaticano II, segundo a qual o colégio episcopal também tem autoridade para governar toda a Igreja, as conferências episcopais de cada país também têm autoridade para dizer aos bispos como governar suas dioceses, o conselho presbiteral também contrabalança e limita a autoridade do bispo em sua diocese e o conselho paroquial toma as decisões importantes no governo da paróquia.[1]

É exatamente aí que está a riqueza da colegialidade: quebrar o poder monárquico e fazer valer a voz de todos os batizados, nas mais diversas esferas eclesiais. Resgata-se assim, de forma genuína, o evangelho, onde Jesus deixa claro que a única hierarquia que deve haver entre irmãos é a do serviço. Não é palavra revelada o que lemos: “Quem quer ser o maior, o primeiro, seja o servidor de todos, seja o último”? A própria Lumen Gentium reconhece que o múnus de ligar e desligar dado a Pedro em Mateus 16 foi dado também ao colégio em Mateus 18 e 26,18-20.[2] Os diversos grupos e círculos, com maior contato com a Palavra de Deus, iam adquirindo o espírito de fraternidade, a consciência de que o poder na Igreja não podia ser exercido da mesma forma que o fazem os poderosos na sociedade civil. Como lemos em Marcos, Jesus apresenta uma avaliação dos governantes do império romano: “Os que são reconhecidos como chefes utilizam o seu poder para tiranizar os povos, e os grandes não fazem outra coisa senão oprimir os seus súditos”. Então Jesus, olhando para os seus discípulos, lhes disse: “Mas, entre vocês, não deverá ser assim” (Mc 10,35-45).

Na América Latina, a experiência vivida nos círculos bíblicos ou grupos de rua revela que essas iniciativas da base foram geradoras de inúmeras comunidades. Estas já nasciam no espírito da colegialidade, segundo o qual todos participavam e se sentiam corresponsáveis pela comunidade. Portanto, se quisermos uma Igreja nova, com paróquias renovadas, como rede de comunidades ou comunidade de comunidades, precisamos multiplicar os pequenos grupos de cristãos que, em torno da Palavra de Deus, se unem e se reúnem para iluminar sua prática inspirados pela pergunta de fundo: “O que faria Jesus se estivesse em nosso lugar?” Conhecendo cada vez mais a prática de Jesus, os cristãos vão construindo a própria vida e orientando suas ações por tudo o que Jesus falou e fez. Essa simples experiência vivida nos grupos de rua é semente de nova liderança nas comunidades.

Grupos de rua: espaço de formação de novas lideranças

Quanto mais uma pessoa se identifica com seu grupo, quanto mais se sente motivada a exercer sua liderança, melhor percebe a necessidade de mais formação, maior conhecimento da vida de Jesus, dos evangelhos e de outros instrumentos para analisar a realidade social que a cerca; melhor percebe que uma leitura superficial e fundamentalista da Bíblia não corresponde às necessidades reais suas e de seus irmãos e irmãs; melhor percebe que essa Palavra, para iluminar sua vida e a de seu grupo, precisa ser confrontada com a realidade social, política e cultural que a cerca. Por isso, a colegialidade vivida nos grupos de rua serve também para fazer surgir inúmeras iniciativas no campo da formação, para um bom exercício da liderança no próprio grupo, na comunidade maior e também na sociedade, nas lutas em resgate da cidadania civil e cristã. O ministério da coordenação de grupos de rua é por demais exigente, sério e comprometedor. Basta imaginar que daí pode estar surgindo uma nova comunidade, a exemplo das primeiras comunidades que aparecem no Novo Testamento. Vejamos o esquema do nascimento da comunidade de Filipos e o comparemos com o surgimento de inúmeras comunidades eclesiais de base. Paulo e Timóteo, passando por Filipos, não encontram sinagoga e, procurando por um lugar de oração, descobrem um grupo de mulheres à beira do rio; a elas anunciam a boa-nova e uma delas os hospeda em sua casa, recebe o batismo e daí nasce a primeira comunidade cristã na Europa (cf. At 16,11-15). Aquilo que nasce tão espontaneamente precisa depois de aprofundamento no conhecimento da proposta do ser cristão no mundo, no seguimento de Jesus. É preciso, então, evitar toda e qualquer acomodação; ir atrás de formação para melhorar, cada vez mais, a participação nos processos de agrupar mais pessoas em torno do projeto de evangelização transformadora, em vista do anúncio e antecipação do Reino.

Foi, portanto, nas casas daqueles que aceitaram o seguimento de Jesus que nossa Igreja nasceu. E é exatamente esse o elo que une a experiência primitiva e a de tantos grupos de rua: ser Igreja de casa em casa, Igreja que vai ao encontro das pessoas lá onde elas vivem o seu dia a dia. A casa se configura como espaço privilegiado de evangelização, lugar propício da experiência com Jesus, o qual impele os que a fazem a passar a boa-nova para a frente (Mt 8,14; Lc 10,38; 19,5). Era nas casas que acontecia a celebra­ção da ceia, onde se mantinha viva a memória do Ressuscitado (Lc 22,11-12; Mt 26,18). E a experiência da didaskalia, isto é, do ensinamento, da formação, também se dava nas casas (Mt 13,36; Mc 16,14; At 1,13-14; 2,1.42-47; 16,14-15.32-34; 18,7-8; 20,20). Os grupos de rua, nos moldes de hoje, configuram-se como Igreja nas casas, Igreja de casa em casa, semente de novas comunidades e fonte geradora de novas lideranças.

Fundamentos teológicos para os grupos de rua

Lemos na carta aos Efésios, atribuída ao apóstolo Paulo:

Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós. Mas a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo (Ef 4,1-7).

Cada cristão que participa de um grupo de rua tem a oportunidade de fazer essa experiência de unidade profunda, por motivações de fé. No meio de uma sociedade onde vigora a rivalidade, a competitividade, somos chamados a aprender a conviver com o diferente, com o outro, experimentando no dia a dia os frutos do Espírito. “Como bons administradores da multiforme graça de Deus, cada um coloque à disposição dos outros o dom que recebeu” (1Pd 4,10). Como afirma o filósofo francês, nascido numa família judaica, Emmanuel Lévinas: é no face a face humano que irrompe todo sentido; diante do rosto do outro, as pessoas se descobrem responsáveis e lhes vem à mente o Infinito. Também afirma: quando o rosto do outro irrompe à minha frente, nele eu vejo escrito: não matarás! Os grupos de rua, ao contrário da vida massificada e individualista a que somos submetidos em outras instâncias, possibilita esse face a face com nossos irmãos e irmãs.

Podemos, de fato, pôr em prática as recomendações de uma vida solidária que o apóstolo Paulo deu aos cristãos da cidade de Roma:

O amor seja sincero. Detestai o mal, apegai-vos ao bem. Que o amor fraterno vos una uns aos outros, com terna afeição, rivalizando-vos em atenções recíprocas. Sede zelosos e diligentes, fervorosos de espírito, servindo sempre ao Senhor, alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração. Praticai a hospitalidade. Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram. Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal pelo bem (Rm 12,9-12.13b.15.21).

Uma comunidade eclesial formada por inúmeros grupos de rua tem as características reais de verdadeira comunidade cristã, pois os valores e princípios do cristianismo são mais bem internalizados quando vividos em grupos menores.

Perspectivas novas para os grupos de rua no pontificado do papa Francisco

Ao se apresentar como bispo de Roma, o papa Francisco retoma o documento Lumen Gentium, quando este desenvolve a teologia da Igreja local, ponto fundamental para o exercício da colegialidade na Igreja. Assim diz o concílio:

O bispo, distinguido pela plenitude do sacramento da ordem, é o administrador da graça do sacerdócio supremo, principalmente na eucaristia, que ele mesmo oferece ou cuida que seja oferecida, e pela qual continuamente a Igreja vive e cresce. Essa Igreja de Cristo está verdadeiramente presente em todas as legítimas comunidades locais de fiéis, que, unidas com seus pastores, são também elas, no Novo Testamento, chamadas igrejas. Nessas comunidades, embora muitas vezes pequenas e pobres, ou vivendo na dispersão, está presente Cristo, por cuja virtude se consocia a Igreja una, santa, católica e apostólica (LG 26).

Outra atitude do novo papa que vai na mesma direção é a nomeação de uma equipe de cardeais para assessorá-lo na reforma da Cúria romana. Isso é inédito no governo papal, que sempre tem agido só ou junto com a própria Cúria. Este organismo da Igreja tem sido apontado como responsável pela atual crise de credibilidade que assola a instituição católica. Bem recentemente, na missa do dia 16 de abril, o papa Francisco, discorrendo sobre a recepção do Concílio Vaticano II, disse que o grande problema é que ainda há muitos “cabeçudos” na Igreja. Para explicar melhor o que significa ter cabeça dura, o papa fez referência aos discípulos de Emaús: “cabeças duras e de coração duro para acreditar em tudo aquilo que os profetas falaram!” (Lc 24,25). E no domingo do dia 21 de abril, na ordenação de dez jovens, ele alertou:

Exercitai na alegria e na caridade sincera a obra sacerdotal de Cristo, determinados unicamente a agradar a Deus, e não a vós mesmos. Sede pastores, não funcionários! Sede mediadores, não intermediários. Peço-vos em nome de Cristo e da Igreja, por favor, não vos canseis de ser misericordiosos. Oferecei a todos a palavra de Deus que vós próprios recebestes com alegria. Lembrai-vos das vossas mães, avós, catequistas, que vos deram a palavra de Deus, a fé. Tende sempre diante dos olhos o exemplo do Bom Pastor, que veio para servir, não para ser servido, e procurar os que estavam perdidos.

Esses sinais do papa Francisco, somados a tantas outras palavras e demonstrações de simplicidade e desejo de caminhar junto, retomam o melhor da mística cristã e da tradição sinodal da Igreja.

À luz disso tudo, podemos, agora, retomar também nossa experiência de Igreja nas bases, por meio de grupos, comunidades, círculos, abandonando a mentalidade triunfante de megaconstruções, de multiplicação de santuários; por meio da volta à ética, sem excessiva preocupação com a estética. Igreja em ponto menor, onde a fraternidade é real e o conhecimento mútuo a regra. Recriar nos tempos de hoje a experiência dos primeiros, entre os quais não existia fome nem discriminação social, étnica ou de gênero (cf. Gl 3,27-28).

É claro que teremos de conviver com uma montanha de contrapropostas nascidas nos dois últimos pontificados. Foram mais de três décadas de incentivo a grupos muito estranhos, tais como os Legionários de Cristo, os Arautos do Evangelho, o Sodalício de Vida Cristã com seus ramos: Associação de Maria Imaculada para Mulheres (1974), Movimento de Vida Cristã (1985), Fraternidade Mariana da Reconciliação (1991), Irmandade Nossa Senhora da Reconciliação (1995), Servas do Plano de Deus (1998) e outros.

Numa palavra, podemos dizer que, até o momento, o papa Francisco tem aberto novas portas para a recepção do Concílio Vaticano II, mas esta nova fase conciliar terá de sobreviver em meio a muito conservadorismo acumulado nas últimas décadas.

Grupos de rua e as coisas práticas para sua vivência e multiplicação

Precisamos, urgentemente, trabalhar as motivações para a criação e multiplicação de grupos de rua. As motivações emergem, em primeiro lugar, das necessidades da evangelização, porém não se podem desprezar as motivações humanas, sociais e políticas a fim de fomentar a nova sociedade que queremos, como sinal do Reino querido por Jesus. Recentemente a CNBB se debruçou sobre a necessária conversão pastoral em vista do fomento a novas modalidades paroquiais. As paróquias nunca mudarão se ficarem sob o velho esquema de centralismo burocrático, modelo muito usual nos dias de hoje. Os grupos de rua poderão dar novo dinamismo às paróquias, descentralizando todos os serviços e ministérios e, sobretudo, tirando o foco do processo evangelizador da figura do clero e tornando a Igreja toda mais laical.

Fundamental para isso é ter clareza do que é um grupo de rua e de quais são suas atribuições. Esses grupos se formam em torno de algumas tarefas bem claras: refletir, rezar e agir. Refletem sobre a vida do dia a dia, sob a iluminação da Palavra de Deus. Vida e Bíblia caminham juntas no dia a dia dos grupos de rua. Rezam de um modo novo, pois falam com Deus, por meio de orações e cantos, expondo a própria vida, com tudo o que emergiu do momento da reflexão. Agem, pois entendem que a reflexão e a oração os levam a assumir compromissos concretos com todas as necessidades dos irmãos e irmãs, sejam elas religiosas, políticas, sociais, morais e outras.

Para a multiplicação dos grupos de rua, é preciso também desenvolver estratégias de acordo com a realidade local. Pode-se começar organizando a paróquia em setores, formando pequenos conselhos ou equipes especiais. Para esse primeiro passo, pode-se partir do levantamento dos endereços dos fiéis que costumam participar da missa; com a ajuda deles, procuram-se casas dispostas a se abrir para a experiência dos grupos de rua.

Na maioria das experiências que conhecemos, são as mulheres que começam e animam os grupos de rua; porém é bom deixar claro que eles estão abertos à participação da família toda, homens, mulheres, jovens e crianças. É fundamental que esses grupos não pratiquem nenhum tipo de discriminação.

Quanto à periodicidade, cada grupo decidirá com seus membros; porém é importante que se disponha a reunir-se pelo menos duas vezes ao mês. Em certas ocasiões será preciso intensificar ainda mais os encontros, por causa de algumas necessidades pontuais. E quanto ao local dos encontros, há duas experiências mais comuns: rodízio nas casas dos membros ou um espaço fixo, tal como uma garagem ou o cômodo um pouco maior de alguma casa.

É importante também que os membros dos grupos de rua exercitem sua liderança na comunidade maior, na paróquia, nos movimentos do bairro e outros lugares. Pastoral e ministérios laicais caminham juntos. Uma pastoral é mais dinâmica à medida que mais ministérios vão surgindo. Isso porque uma liderança autêntica multiplica lideranças. O espaço maior – comunidades e paróquias – também serve como suporte para a formação, aprofundamento e exercício de outros ministérios que transcendem os grupos de rua. Esse espaço também é importante para que os grupos não se fechem, pois a comunhão com outros grupos é que garante a sua eclesialidade.

Como muito já se falou, esses grupos de rua, círculos bíblicos ou grupos de reflexão constituem sementes de novas comunidades. Quando uma paróquia se torna grande sementeira, pode-se pensar no modelo de comunidade de comunidades ou rede de comunidades. Tudo começa pelo pequeno, pela base, pelo simples, como o ditado africano usado por dom Moacyr Grechi no 12º Intereclesial de CEBs: “Gente simples, fazendo coisas pequenas em lugares pouco importantes, quando unidos, fazem coisas extraordinárias”.


[1] <http://www.fsspx.com.br/exe2/o-que-e-a-colegialidade/>, artigo assinado pelo Rev. Pe. Peter R. Scott (acesso em: 22 abr. 2013).

[2] Cf. Lumen Gentium, n. 22.

Pe. Manoel Godoy

Mestre em Práxis Cristã pela Faje (Belo Horizonte), é diretor-executivo do Ista – Instituto São Tomás de Aquino (Belo Horizonte), pároco e professor de teologia. Foi assessor da CNBB (por dez anos) e da Organização dos Seminários Latino-Americanos, do Celam (Bogotá).
E-mail: manologodoy@terra.com.br