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Publicado em janeiro-fevereiro - 2014

“Não tenhais medo!” da dificuldade de construir a “Nova Paróquia”

Por Paulo Suess

O artigo é uma reflexão crítica sobre o estudo da CNBB “Comunidade de comunidades: uma nova paróquia”, o qual voltará a debate na próxima assembleia da conferência. Segundo o autor, o texto parte de princípios gerais para aplicá-los à realidade concreta das paróquias, e, para que haja realmente conversão pastoral, é preciso fazer o caminho inverso.

Em sua 51ª Assembleia Geral, realizada de 10 a 19 de abril de 2013, em Aparecida, a CNBB aprovou “um texto de estudo” sobre o tema central “Comunidade de comunidades: uma nova paróquia”.[1] A assembleia ainda não tinha assumido o texto como “documento da CNBB”, o plano original. Foi sábia decisão dos bispos, que se deram conta de que, por causa da escassa participação das bases paroquiais na elaboração do texto, faltou algo – no dizer do papa Francisco, faltou “o cheiro das ovelhas”. Por conseguinte, a assembleia enviou o texto como “caderno verde” aos regionais da CNBB para ser enriquecido e aperfeiçoado, dando ao “verde” do caderno seu significado simbólico que pode vacilar entre imaturidade e esperança.

Na América Latina, a reflexão sobre a paróquia não precisa começar da estaca zero. O próprio texto de estudo lembra tópicos dos documentos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida (cf. DM 6,1; DP 644, DSD 58, DAp 99e, 170, 179, 309), que apontam para a renovação da paróquia. Medellín, por exemplo, já prometeu, em 1968, a revisão de “uma pastoral de conservação, baseada numa sacramentalização com pouca ênfase na prévia evangelização” (DM 6,1), cobrou dos sacerdotes “especial solidariedade de serviço humano, expressa numa viva dimensão missionária” (DM 6,17) e sonhou com “uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal” (DM 5,15). Essa herança imperativa do magistério latino-americano em torno de uma paróquia missionária, “comunidade de comunidades”, foi genericamente assumida nas Diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil, 2011-2015 (DGAE 99), que consideram ser “urgente que a paróquia se torne, cada vez mais, comunidade de comunidades vivas e dinâmicas de discípulos missionários de Jesus Cristo”. Agora, seis anos depois de Aparecida e já quase no último ano da vigência das Diretrizes gerais, a 51ª Assembleia Geral da CNBB procurou desenhar a “nova paróquia” como território comunitário inserido no latifúndio e na contramão do individualismo de hoje.

1. Crítica ao “Estudo 104” à luz do magistério

O texto da CNBB tem quatro capítulos. Trata-se das perspectivas bíblica, teológica e pastoral nos capítulos 1, 2 e 4, respectivamente. Só no terceiro capítulo entra a realidade, com uma reflexão sobre “novos contextos: desafios à paróquia”. Como as reflexões bíblicas e teológicas precedem os novos contextos e desafios paroquiais, não podem responder a esses contextos e desafios. É uma opção metodológica questionável. O Documento de Aparecida traz já na primeira parte o “olhar dos discípulos missionários sobre a realidade” sociocultural, econômica, sociopolítica, étnica, ecológica (DAp 33-97) e eclesial diante de desafios novos e herdados (DAp 98-100). Nessa realidade, segundo Aparecida, a missão dos discípulos missionários é sempre implícita ou explicitamente uma missão evangelizadora, integral, específica, contextual e universal que nos conduz “ao coração do mundo”, onde abraçamos “a realidade urgente dos grandes problemas econômicos, sociais e políticos da América Latina e do mundo” (DAp 148).

A carta que acompanha o envio do texto reza assim: “Nas assembleias regionais e diocesanas propõe-se que o texto seja apresentado, lido e discutido”. Por outro lado, a mesma carta sugere perguntas que podem ser propostas antes da leitura do texto.

Para as bases paroquiais, o texto da CNBB, embora seja um caderno verde de estudo, representa certa autoridade e inibe a reflexão livre, porque não foi pensado como ponto de partida para a construção de um novo documento da CNBB com a participação das bases paroquiais, mas como um modelo que deve ser adaptado aos diferentes contextos. Dessa adaptação vão depender, assim, as expectativas expressas na Introdução, o “êxito” da construção da nova paróquia (n. 5).

Além do equívoco metodológico, o “texto verde” sofre um curto-circuito histórico. Ao propor que, para a construção da nova paróquia, devamos “ter diante de nós […] o próprio Jesus e sua maneira de suscitar, organizar e orientar a vida em comunidade” (n. 3), comete o equívoco de um curto-circuito histórico e mostra como o método dedutivo, por vezes, se aproxima das conveniências ou do fundamentalismo. Nesse caso, a reflexão bíblica não responde aos desafios posteriormente apontados nem apoia a “conversão pastoral” (DAp 370) almejada. A cristologia das entrelinhas se torna jesulogia, em função de resultados preestabelecidos.

Antes de caminhar e de corrigir a caminhada, é preciso ver o caminho. Nessa perspectiva, a cura do cego, nos evangelhos sinóticos, é o último e mais significativo sinal de Jesus. Somente aquele que recuperou a vista pode subir com Jesus a Jerusalém. A análise séria da realidade com os olhos da nossa fé não seria a tentativa de recuperar a vista?

Precisamos reaprender o método indutivo do concílio! O papa João XXIII autorizou e assumiu esse método indutivo em sua carta encíclica Mater et Magistra (1961), na qual escreve: “Para levar a realizações concretas os princípios e as diretrizes sociais, passa-se ordinariamente por três fases […]. São os três momentos que habitualmente se exprimem com as palavras seguintes: ver, julgar e agir” (MM 232). É o método do aggiornamento, das portas abertas, do serviço à humanidade.

A constituição pastoral Gaudium et Spes assumiu o discurso indutivo, partindo da vida concreta da humanidade, de suas alegrias e esperanças, tristezas e angústias (cf. GS 1). A transformação da paróquia tem de levar em conta essa “vida concreta da humanidade”, seus horários e itinerários, seu lazer e trabalho, seus espaços de vida e suas redes de comunicação.

Em sua encíclica Ecclesiam Suam (n. 27), Paulo VI assume o discurso do aggiornamento de João XXIII e justifica o método indutivo “como orientação programática”. Na última sessão do Vaticano II, o papa respondeu ao setor que acusou o método indutivo do concílio de ter desviado o foco teológico das matérias tratadas para um foco antropológico:

Desviado, não; voltado, sim. Mas quem observa honestamente este interesse prevalente do concílio pelos valores humanos e temporais não pode negar que tal interesse se deve ao caráter pastoral que o concílio escolheu como programa e deverá reconhecer que esse mesmo interesse jamais está separado do interesse religioso mais autêntico, devido à caridade que é a única a inspirá-lo (7/12/1965).

A diferença entre os dois métodos e seu impacto sobre o conteúdo são grandes. Sinteticamente, poder-se-ia dizer: o método dedutivo aplica princípios gerais aos contextos e sua realidade concreta. O método indutivo procura, a partir da realidade concreta em que o povo vive, a partir da realidade contextual e histórica, a partir das causas de estruturas paroquiais caducas, construir novos modelos comunitários que serão sempre submetidos a novas experiências. Faz mais de 40 anos que Paulo VI nos lembrou em sua carta apostólica Octogesima Adveniens (1971), que não basta recordar os princípios, afirmar as intenções, fazer notar as injustiças gritantes e proferir denúncias proféticas; essas palavras ficarão sem efeito real, se elas não forem acompanhadas, por parte de cada um em particular, de uma tomada de consciência mais viva de sua própria responsabilidade e de uma ação efetiva (OA 48,2).

Sem análise da realidade da paróquia contemporânea e da vida das pessoas que vivem nos condicionamentos dessa realidade, a reflexão bíblica e teológica representa justaposições, oferecendo o verniz de ideais e princípios, passando por cima de estruturas obsoletas.

2. A passagem do papa Francisco

Entre o envio do documento verde, o “Texto de estudo 104”, às Igrejas locais, ainda em abril de 2013, e seu retorno à Comissão de Redação, na sede da CNBB em Brasília, previsto até o dia 15 de outubro de 2013, aconteceu a 28a Jornada Mundial da Juventude, de 23 a 28 de julho, no Rio de Janeiro. A presença marcante do papa Francisco na JMJ, seus discursos e gestos, propondo sair da “cultura de sempre”, uma cultura descontextualizada que “anula a força do Espírito Santo”, obrigam a repensar métodos e conteúdos pastorais urbi et orbi. Francisco lembrou perspectivas e contornos do magistério latino-americano, parcialmente esquecidos, que precisam ser reassumidos em nosso trabalho pastoral e, por conseguinte, influenciarão qualquer texto com a pretensão de configurar uma “nova paróquia”. A transformação do “estudo verde” em “documento azul”, que será a tarefa da 52a Assembleia Geral da CNBB, em abril de 2014, precisa zelosamente assimilar as propostas do papa.

Em seu discurso à Comissão de Coordenação do Celam no dia 28 de julho, o papa Francisco destacou, como primeira entre “quatro características” da Conferência de Aparecida, seu “início sem documento”. Em vez de trabalhar a partir de “uma espécie de Instrumentum laboris”, com base no qual se poderia desenrolar “a discussão, a reflexão e a aprovação do documento final […], Aparecida promoveu a participação das Igrejas particulares como caminho de preparação que culminou em um documento de síntese. Esse documento, embora tenha sido ponto de referência durante a 5ª Conferência Geral, não foi assumido como documento de partida”. O que o papa queria dizer com isso é o seguinte: os bispos se sentiram mais à vontade sem a camisa de força de um instrumentum laboris, com posições previamente marcadas e/ou excluídas, como já era costume nos sínodos romanos depois de Paulo VI. Nesses sínodos, os “instrumentos” previamente escritos se tornaram instrumentum simulationis de colegialidade, com escassa interlocução entre a Igreja de Roma e as outras Igrejas particulares.

O próprio Vaticano II (1962) já tinha dado esse sinal à Cúria romana: “Por favor, nos deixem começar sem censuras prévias travestidas de documentum laboris!” Na época, Roma tinha preparado textos e os bispos do mundo inteiro deveriam adaptá-los em tempo recorde. Era previsto realizar o concílio no prazo de um ano. Mas os padres conciliares não aceitaram esse procedimento.

Mesmo depois do envio do texto de estudo às bases pastorais, permanece a ambiguidade entre um texto que nem foi construído a partir de dificuldades, demandas, sugestões e propostas feitas pelas comunidades nem leva em conta a realidade em que vivem essas comunidades. Inicia com Jesus Cristo e um mergulho no mistério trinitário (cf. n. 5). No texto, seus autores insistem nesse procedimento para dar continuidade à metodologia das Diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil (2011-2015) (DGAE 4). Continuidade, no caso, significa “autorreferencialidade” e ruptura com a tradição indutiva acima descrita.

O pensamento indutivo dá voz de intervenção à realidade concreta. Assim temos de interpretar os gestos do papa Francisco, como sua ida à pequena ilha de Lampedusa, onde chamou a atenção para a vida, miséria e abandono dos refugiados políticos. Enquanto ninguém se lembra mais das palavras do papa, o gesto fica gravado na memória. Na Jornada Mundial da Juventude, antes de pronunciar discursos programáticos, Francisco visitou jovens no Hospital São Francisco de Assis na Providência de Deus, que se dedica à recuperação de dependentes químicos e indigentes, reuniu-se com a Comunidade de Varginha, que faz parte de uma grande favela, e se encontrou com jovens detentos. A “conversão pastoral” vai depender dessa voz da realidade que interfere sobre nossos discursos e textos.

Em várias ocasiões, o papa Francisco insistiu no caráter missionário da paróquia. Na homilia da santa missa com bispos, sacerdotes, religiosos e seminaristas, Francisco sintetizou seu pensamento sobre a paróquia:

Não podemos ficar enclausurados na paróquia, em nossa comunidade, em nossa instituição paroquial […], quando tantas pessoas estão esperando o evangelho. Sair, enviados. Não é um simples abrir a porta para que venham, para acolher, mas sair pela porta para buscar e encontrar. […] Pensemos com determinação na pastoral a partir da periferia, começando pelos que estão mais afastados, pelos que não costumam frequentar a paróquia.[2]

A paróquia missionária, segundo o papa Francisco, é um espaço aberto para acolher e enviar, um espaço pensado a partir das periferias geográficas e sociais, um território sem fronteiras, onde se promove a cultura do encontro. A proposta de Francisco não é abandonar as paróquias, mas dinamizá-las. Como? Fechando a “alfândega paroquial”,[3] ampliando as fronteiras pastorais, redefinindo os destinatários preferenciais a partir das periferias e transformando os destinatários paroquiais em agentes pastorais!

3. Conversão pastoral na paróquia missionária

A “conversão pastoral” coincide com a “renovação missionária das comunidades” (DAp 365-372). Esta exige a transformação de uma pastoral dedutiva, de cunho clerical, concentrada na mão do clero que considera as comunidades filiais como franquias padronizadas, em pastoral indutiva, protagonizada pelo conjunto do povo de Deus. Desde os anos 1960, essa “conversão pastoral” já está em discussão e andamento. Não precisamos inventar a roda, mas despender uma força institucional para fazê-la girar “em comunhão e com participação”. O texto sobre a “nova paróquia” não precisa repetir as análises feitas por Aparecida, mas colocá-las no chão concreto das comunidades.

Todos nós conhecemos essas comunidades de comunidades nas quais alimentamos nossa fé, ampliamos nosso horizonte de vida com o sofrimento dos pequenos e fortalecemos nossa esperança ao consolar os desesperados. À maioria dos agentes de pastoral não faltam virtudes. Às vezes faltam tempo e paciência para viver seu ministério no meio do povo; falta coragem de romper com a “cultura de sempre” e coragem de dizer às comunidades: “Vocês são Igreja plena e nós, agentes de pastoral, sobretudo os bispos, empenhamo-nos para que essa plenitude não seja apenas espiritual ou virtual, mas também sacramental”. As comunidades querem uma pastoral integral com “a participação plena na eucaristia dominical” (DAp 253, cf. 149), já que “a eucaristia é o lugar privilegiado do encontro do discípulo com Jesus Cristo” (DAp 251) e o viático do missionário peregrino.

Temos de fazer ressoar a mensagem do Ressuscitado com honestidade: “Alegrai-vos! Não tenhais medo!” (Mt 28,9-10). Não tenhais medo de perguntar às comunidades como imaginam a “nova paróquia”! Não tenhais medo de receber respostas ou propostas inesperadas das comunidades! Não vamos dar respostas às perguntas que não existem e não vamos indicar temas sobre os quais não se pode falar!

Não tenhais medo de falar ao povo sobre os obstáculos que impedem sua plena participação na eucaristia. Não tenhais medo de falar do imperativo da lei suprema que representa o último artigo (cf. Cân. 1.752) do Código de Direito Canônico: “A salvação das almas deve sempre ser a lei suprema”. Em função dessa “lei suprema” e da “comunidade de comunidades”, precisamos repensar o tratado sacramental que se formou, basicamente, no tempo pós-apostólico e medieval. Ao menos precisamos explicar onde estão as dificuldades, as possibilidades e impossibilidades de avançar na discussão sobre os “viri probati”, a qual parou logo depois do concílio.

Chegamos ao ponto crítico. A escassez de ministros ordenados se espelha na redução significativa dos católicos. O processo de urbanização e secularização, a volatilidade religiosa pós-moderna e a estrutura ministerial inadequada à realidade pastoral, associados a muitos outros fatores, produziram, na América Latina e no Caribe, uma redução dos católicos e presbíteros em números absolutos (DAp 100a). A reprodução cultural e rural do catolicismo era característica da cristandade que passou. Como podemos, com poucos agentes que, no mundo urbano, vivem mais dispersos, transformar os batizados – que já nem cristãos culturais são – em discípulos missionários? O mundo acadêmico e as faculdades de teologia não podem nos responder essa pergunta. Eles nos podem, porém, ajudar a discernir e amparar, teologicamente, as respostas das comunidades de acordo com a “suprema lei”.

A precariedade numérica nos obriga a repensar a amplitude imperativa da “natureza missionária” do povo de Deus. Até agora nós apenas arranhamos essa natureza, com um prego enferrujado de princípios descontextualizados. Como deixar aflorar essa “natureza missionária”, aprisionada em estufas institucionais? Como abrir os olhos dos batizados para a realidade do continente e do mundo e chamá-los à sua responsabilidade (DAp 14; 33)? A realidade interpela os cristãos e seus pastores; cobra coerência com as promessas e os imperativos do evangelho e “um compromisso com a realidade” (DAp 491).

A novidade da paróquia será a sua missionariedade como paróquia samaritana e advogada da justiça dos pobres. Essa missionariedade perpassa todos os planos pastorais, o livro de caixa, a formação dos agentes. Ela é vivida a partir de pequenas comunidades que aprofundam sua fé na leitura da palavra de Deus, celebram sua vida na eucaristia e, ao anunciar a proximidade do Reino, procuram seguir Jesus, na responsabilidade para com o mundo além de qualquer fronteira, capaz de se converter, de perdoar e de curar as feridas da humanidade (cf. Mc 1,15; RMi 14,2).

            4. Algumas propostas práticas

Depois desses discernimentos e lembretes, seguem algumas propostas práticas para a tarefa a ser cumprida: configurar a nova paróquia.

4.1. Consideração prévia

Na construção de um texto sobre a “nova paróquia”, precisamos não só permitir, mas também pedir e incentivar a participação das comunidades. Como transformar em instâncias deliberativas as estruturas comunitárias existentes nas igrejas, nos diferentes conselhos e nos sínodos, por exemplo, cuja característica atual é serem instâncias consultivas? Como transformar estruturas de supervisão, de visitas rápidas e horas marcadas, em estruturas de presença inculturada? O povo prefere um pastor tocável a um padre Fórmula 1. “A Igreja sabe ainda ser lenta: no tempo para ouvir, na paciência para costurar novamente e reconstruir? Ou a própria Igreja já se deixa arrastar pelo frenesi da eficiência?”, pergunta o papa Francisco ao episcopado brasileiro. Os encaminhamentos já fazem parte do modelo de Igreja em construção. Meios e métodos fazem parte da mensagem.

4.2. Valorizar a voz do povo de Deus

Antes de enviar um “texto de estudo” às bases regionais e às comunidades, os remetentes precisam perguntar a si e aos destinatários: “Queremos que se trabalhem as reflexões sobre a nova paróquia a partir da realidade e experiência das comunidades ou a partir de uma reflexão bíblico-teológica? Deve-se trabalhar com a moldura do método indutivo ou dedutivo?” Seguem outras perguntas. O texto é meramente informativo, consultivo, ou as respostas terão certo peso decisivo nos encaminhamentos posteriores? Queremos apenas um novo arranjo de flores, já cortadas por floristas profissionais, ou queremos, na próxima assembleia da CNBB, depositar cestos de flores novas do campo aos pés de Nossa Senhora Aparecida? Queremos ouvir aquilo que as comunidades acham que nós queremos ouvir ou queremos ouvir o que elas realmente pensam? Entre não ouvir o povo, constituí-lo assessor, estimular a sua manifestação ou lhe conferir voz decisória, muitas variantes de comunicação eclesial são possíveis.

4.3. Lembrar o magistério latino-americano

Gostamos de trabalhar com textos que são a extensão da nossa memória. Esses textos-memória, no caso da “nova paróquia”, seriam a síntese dos textos que, desde Medellín, foram produzidos pelo magistério latino-americano, não mais que uma ou duas páginas. Podemos enviar essa síntese às comunidades, pedindo uma avaliação do povo de Deus, nestes termos: “Nós, bispos, em certa sintonia com vocês, povo de Deus, estivemos sempre preocupados com nossas paróquias e comunidades. Desde o Concílio Vaticano II (1962) e Medellín (1968), avançou a nossa reflexão e hoje lhes enviamos alguns trechos de textos que escrevemos, nós ou nossos antecessores, sobre a paróquia, enriquecidos com alguns questionamentos do papa Francisco na JMJ, no Rio de Janeiro. Antes de escrever outro documento, queremos ouvir sua opinião e suas propostas. Onde as nossas paróquias conseguiram avançar? Onde a nossa pastoral e as estruturas paroquiais ficaram ‘caducas’? Quais são as causas? Quais são as suas propostas? Cordiais saudações com a proposta do nosso papa Francisco: ‘O que derruba as estruturas caducas, o que leva a mudar os corações dos cristãos é justamente a missionariedade!’”

           4.4. Quatro toques de uma melodia sempre nova

Em todos os passos da construção do texto sobre a “nova paróquia”, procuremos observar quatro aspectos distintos e, ao mesmo tempo, inseparáveis. Eles servem para estruturar o envio da proposta, como também para sistematizar as respostas e propostas das comunidades:

           4.4.1. VISÃO: Levantamento da realidade da paróquia e do povo com o povo.

            4.4.2. PARTICIPAÇÃO: Estruturar, encaminhar e discutir esse levantamento com lideranças inseridas num processo de formação permanente e que são “mestres da escuta”: abertas à pluralidade, sabem acolher, conviver, envolver e distinguir.

            4.4.3. COMUNHÃO: A construção do texto envolve a construção das comunidades com lideranças esclarecidas sobre a metodologia que faz parte dos objetivos e da mensagem. Propostas de “conversão pastoral” já são resultado dessa conversão e convivência “para que todos vivam, na pluralidade da experiência da fé, na diversidade de carismas e de dons, a unidade indispensável à vida cristã”.[4]

            4.4.4. MISSÃO: Testemunho e anúncio do Reino nos fazem estender as fronteiras paroquiais até as periferias sociais, psicológicas, culturais. Nosso querigma visa à conversão, ao perdão, à cura real e/ou simbólica das feridas da humanidade. Da MISSÃO que ultrapassa as fronteiras paroquiais, o discípulo missionário traz sempre uma VISÃO mais profunda da realidade. A partir das periferias conhecemos melhor os objetivos e a relevância do conjunto da missão. O processo metodológico é de uma espiral, não de um círculo. Os quatro aspectos – visão, participação, comunhão, missão – são como quatro toques de uma melodia, sempre nova como as águas de um rio.



[1] Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Comunidade de comunidades: uma nova paróquia. Brasília, 2013. (Estudos da CNBB, 104.)

[2] Palavra do papa Francisco no Brasil. São Paulo: Paulinas, 2013. p. 73s.

[3] No dia 25 de maio de 2013, durante a missa na Casa Santa Marta, o papa Francisco lamentou as portas fechadas na Igreja pelos fiscais da fé. Acrescentou-se aos sete sacramentos mais um, o oitavo: “o sacramento da alfândega pastoral” (fonte: Rádio Vaticana).

[4] Estudos da CNBB, n. 104, l.c., n. 238.

Paulo Suess

É doutor em Teologia Fundamental. Em 1987 fundou o curso de pós-graduação em Missiologia na Pontifícia Faculdade Nossa Senhora da Assunção (SP). Recebeu o título de doutor honoris causa das Universidades de Bamberg e Frankfurt (Alemanha). É professor na pós-graduação em Missiologia no Itesp (SP) e assessor teológico do Cimi e do Comina. Entre suas publicações, citamos o Dicionário de Aparecida: 42 palavras-chave para uma leitura pastoral do Documento de Aparecida e Impulsos e intervenções: atualidade da missão (ambos pela Paulus).
E-mail: suess@uol.com.br
Blog: http://paulosuess.blogspot.com