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Publicado em Novembro-Dezembro de 2003 (pp. 3-9)

Nova etapa para a CNBB? Diretrizes para o período de 2003-2007

Por Pe. Alberto Antoniazzi

 

A 40ª Assembleia da CNBB, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, celebrou em abril de 2002 os 50 anos de vida dessa Conferência — fundada em 1952, por iniciativa de Dom Helder Câmara — e aprovou o novo Estatuto[1]. A 41ª Assembleia, realizada em Itaici (Indaiatuba, SP), de 30 de abril a 9 de maio último, pôs em prática esse novo Estatuto e elegeu, para o quadriênio 2003-2007, a nova presidência e os presidentes das novas Comissões Episcopais. Estas, que são dez e substituem a antiga CEP[2], foram completadas com as eleições dos membros (cada Comissão tem de 3 a 5 membros) pelo Conselho Permanente, reunido no final de junho de 2003.

 

1. Renovação dos quadros

Houve — favorecida pelo Estatuto, mas também pelo inexorável avanço da idade — uma renovação quase completa dos quadros dirigentes da CNBB. Essa renovação chega numa hora em que todo o episcopado está se renovando. Ao longo de 2003 prevê-se a substituição de cinco arcebispos, três dos quais cardeais: os de Aparecida, Belo Horizonte, Brasília, Campinas e Curitiba. Na própria Assembleia foram lembrados os nomes de 20 bispos falecidos entre abril de 2002 e abril de 2003, os de outros 11 que renunciaram no mesmo período, os de 12 nomeados e 15 transferidos, num total de cerca de 300 bispos ativos e 114 eméritos. Considere-se que houve, no 2º semestre de 2002, a substituição do núncio, o que pode ter atrasado algumas nomeações.

Entre os novos eleitos, encontram-se alguns veteranos — como o presidente, cardeal Geraldo Majella Agnelo, 69 anos, ou o vice-presidente, D. Antônio Celso Queiroz, 69 anos, já secretário-geral da Conferência entre 1987 e 1995 —, mas também bispos jovens. O novo secretário-geral, D. Odilo Scherer, tem 53 anos e pouco mais de um ano de episcopado. Na presidência das Comissões Episcopais foram confirmados D. Mauro Montagnoli, 57 anos, para os leigos, e D. Oneres Marchiori, 70 anos, para o ecumenismo, mas são novos D. Anuar Battisti, 50 anos, D. Sérgio Castriani, 48 anos, D. Walmor Azevedo de Oliveira, 49 anos, D. Eugênio Rixen, 58 anos, D. Manoel J. Francisco, 56 anos, D. Aldo Di Cillo Pagotto, 53 anos, D. Orani Tempesta, 52 anos. Para a Comissão da Família foi eleito D. Rafael Llano Cifuentes, 70 anos. D. Jayme Chemello, 71 anos, presidente da CNBB de 1998 a 2003, foi eleito delegado junto ao CELAM.

As eleições, em geral, foram muito disputadas. Quase todos foram eleitos no terceiro escrutínio, com maioria simples — sem obter os ⅔ dos votos necessários para a eleição no 1º ou 2º escrutínio. Mas na eleição por parte do Conselho Permanente (em junho), os que não haviam obtido êxito, na votação para presidente da Comissão na Assembleia (em maio), foram eleitos como membros da mesma Comissão para a qual haviam sido candidatos. Com isso se confirmam, ao mesmo tempo, dois fatos relevantes, que provavelmente vão caracterizar a CNBB nos próximos quatro anos: por um lado, a presença de pontos de vista diversos, dando origem ao debate e às vezes à disputa pelos cargos de direção; por outro lado, a consciência do episcopado de que a Conferência deve representar a todos os bispos (não apenas uma “tendência”) e de que as soluções de consenso devem ser preferidas, sempre que possível.

É provável que o episcopado procure se mostrar unido diante do governo, que goza, em princípio, da simpatia de muitos bispos. Aliás, a 41ª Assembleia foi marcada pela visita do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que, junto com alguns ministros, dialogou longamente com os bispos. Os bispos se mostraram muito disponíveis para colaborar com o governo nas graves questões sociais do País (reforma agrária, desemprego, direitos dos povos indígenas, luta contra a violência e a corrupção, mutirão contra a miséria e a fome…), mas, ao mesmo tempo, não deixaram de afirmar a independência da Igreja e seu direito a criticar, se for necessário ou oportuno.

 

2. As opções básicas das novas Diretrizes para a evangelização

Na 41ª Assembleia, muitos temas relevantes foram debatidos: conjuntura política, Igrejas cristãs e política, mudança na situação religiosa[3], Amazônia, novos diretórios para a catequese e a pastoral familiar, definição do diretório para o diaconato etc. Mas o tema central — por seu relevo no trabalho da CNBB nos próximos anos — foi a aprovação, após debates bastante aprofundados, das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora 2003-2006 (na realidade, 2007), Diretrizes que, desde 1975, constituem o instrumento central do planejamento pastoral da Igreja no Brasil.

Quem conhece um pouco as Diretrizes sabe que a primeira edição (1975-79) foi um ensaio para retomar e renovar o famoso (e consistente!) Plano de Pastoral de Conjunto 1966-70, que traduziu o Concílio Vaticano II no Brasil. Elas foram substituídas, em 1979, por uma nova edição, notavelmente diferente, inspirada na ideia de “evangelização libertadora”, que guiou a participação brasileira na Conferência de Puebla. Com alguns retoques no “objetivo geral”, essas Diretrizes de 1979-82 foram repetidas quase literalmente em 1983-86 e 1987-90. Só em 1991 houve outras Diretrizes, pensadas de forma inteiramente nova, a partir de uma análise da realidade que procurava entender as transformações sociais e culturais dos anos 80 (a “década perdida” e a “emergência da subjetividade”). Elas foram parcialmente reformuladas em 1995, com ênfase numa nova fundamentação teológico-pastoral da evangelização, tanto que mudaram de nome: de Diretrizes Gerais da Ação Pastoral para Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora. E estas foram substancialmente mantidas em 1999[4] e vigoraram até a 41ª Assembleia.

As Diretrizes 2003-2006 (doravante citadas com a sigla DGAE)[5] apresentam-se como inovadoras em vários aspectos. Antes de tudo, atendendo a uma sugestão dos próprios bispos (ou de seus representantes, como a CEP e o Conselho Permanente da CNBB), o novo texto é mais curto, correspondendo, em extensão, a pouco mais de 50% do texto das Diretrizes de 1999-2002, as quais se tinham tornado uma pequena enciclopédia pastoral. O desejo de brevidade está na origem da escolha de três “eixos” ou “âmbitos” naquele que agora é o terceiro capítulo das DGAE. Essa escolha foi influenciada pela constatação de que a atual realidade sociocultural é demasiadamente complexa para que se pretenda abrangê-la toda num documento como as DGAE. Pareceu mais sensato indicar algumas questões fundamentais e deixar o aprofundamento ou o estudo detalhado para os responsáveis pelo planejamento em nível regional, diocesano ou local. Depois da escolha dos três eixos do capítulo III (que constitui, no texto final, mais de ⅔ das DGAE) foi decidido reafirmar — naquele que agora é o capítulo I — a importância das “atividades permanentes” e, por assim dizer, “fontais” da Igreja: Palavra, Liturgia e Caridade. É nelas que se alimenta a vida da Igreja e delas recebe a força e a inspiração para a evangelização, cujos rumos são descritos, com bastante amplitude, no capítulo III. Antes, porém, de descrever as “diretrizes de ação”, o capítulo II descreve a realidade a enfrentar, os “novos desafios” do mundo à missão da Igreja, justificando de algum modo as escolhas do capítulo III.

Outra opção que influenciou a redação das Diretrizes foi a decisão de levar em séria consideração a Carta Apostólica de João Paulo II Novo millennio ineunte (sobre o início do novo milênio). É fácil verificar que dessa carta foram utilizados basicamente os capítulos III e IV. O capítulo I, voltado para a memória do jubileu, não tinha mais sentido. O capítulo II, que é uma bela meditação sobre o “rosto” de Cristo, é pressuposto, enquanto também as DGAE pretendem traçar um projeto de evangelização que tem em Cristo sua fonte, sua inspiração, seu modelo[6]. O capítulo III da NMI, “Partir de Cristo” (n. 29-41), indica os fundamentos ou as fontes de todo projeto pastoral e é assumido sobretudo no capítulo I das DGAE. O capítulo IV da NMI, “Testemunhas do amor” (n. 42-57), inspira algumas das pistas de ação da última parte das DGAE, que visam realizar a proposta da própria NMI, n. 29: “traduzir (o programa de sempre) em orientações pastorais ajustadas às condições de cada comunidade”[7].

 

3. O conteúdo das novas DGAE

Antes de discutir as perspectivas que as novas DGAE abrem e as tarefas que solicitam, é necessário considerar brevemente o seu conteúdo. Já vimos que as DGAE são constituídas por três capítulos de extensão muito desigual. Após rápida introdução (n. 1-12), que situa o sentido do documento e a vontade de ser fiel — ao mesmo tempo — ao único evangelho de Cristo e à realidade que estamos vivendo hoje, o capítulo I ilustra a “Missão da Igreja: evangelizar” (n. 13-43). Retoma o conceito de “evangelização inculturada” (já explicitado em Santo Domingo e assumido nas Diretrizes da CNBB de 1995), com um oportuno esclarecimento sobre os conceitos de “anúncio” e de “testemunho” (cf. n. 17), ambos de origem neotestamentária. Depois, inspirando-se nas grandes constituições do Vaticano II, mostra como a Palavra de Deus e a liturgia são o fundamento da vida da Igreja, cujo primeiro dom ou carisma é o amor, a caridade. Reafirmados o primado da Palavra na vida da Igreja e a importância da celebração litúrgica — da eucaristia dominical e dos outros sacramentos —, as DGAE ressaltam a prática da “caridade”[8], seja como comunhão fraterna entre os cristãos, seja como solidariedade que procura se abrir a todos e especial­mente ao serviço aos pobres, não se limitando ao assistencialismo, mas chegando até o empenho na política e na transformação da sociedade.

O empenho do cristão na sociedade — numa perspectiva de anúncio do evangelho, mas também de compromisso e de solidariedade com todos — é o que inspira as “diretrizes de ação” do capítulo III, precedido por um discernimento dos “novos desafios” (o Concílio falava de “sinais dos tempos”) no capítulo II. Dessa forma, não parece exagerado reconhecer — como fundamento das DGAE — um esquema conciliar, que pode ser descrito assim:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4. Os novos desafios

Depois de ter evocado a missão da Igreja e sua solidariedade com a humanidade, a Gaudium et Spes (GS) se iniciava com breve análise da “condição do homem no mundo de hoje” (n. 4-11). É provavelmente essa a parte da GS que mais precisa ser atualizada, embora manifeste o conhecimento das “mudanças profundas” na condição e na consciência da humanidade, sob a influência da ciência e da técnica, do projeto de dominar o mundo, da aceleração da história, da crescente interdependência dos povos (ainda não se falava de “globalização” ou “mundialização”).

Do mesmo modo as DGAE, antes de traçarem um programa de atuação da Igreja na sociedade, na perspectiva da evangelização e da solidariedade, analisam os “sinais dos tempos” no capítulo II: “Novos desafios no início do novo milênio” (n. 44-62). A análise é formulada muito brevemente; cada tópico — cada traço da nossa sociedade — é apenas indicado ou esboçado. O que significa que, querendo compreender mais ou aprofundar, há aqui um campo muito vasto de estudo. Não há indicações bibliográficas e notas (o trabalho fica por conta dos leitores ou dos estudiosos), mas é explícito o convite a — antes de agir — analisar e avaliar a complexidade da situação e as causas reais dos fatos com que nos defrontamos.

O capítulo toca assuntos como a globalização (n. 45); o aumento sensível dos riscos (catástrofes ecológicas, terrorismo; insegurança do emprego e do futuro, violência cotidiana — n. 46); a reação das pessoas no sentido da busca do imediato, da satisfação aqui e agora, da busca da felicidade e da realização pessoal, a qualquer preço, com prejuízo das relações sociais e dos compromissos duradouros (n. 47); o enfraquecimento da política, o qual decorre do individualismo e do crescimento do poder dos grandes grupos econômicos (n. 48); a defesa dos direitos individuais e sociais por parte de novos movimentos (n. 53); a diminuição do emprego na indústria, a fragmentação do processo produtivo e a flexibilização das relações de trabalho (n. 49); o enfraquecimento das “comunidades” tradicionais e a rápida urbanização, com a formação de “megalópoles” (n. 50); o declínio dos papéis “naturais” ou tradicionais, enquanto o indivíduo constrói a própria identidade (n. 51); o papel fundamental da família, embora esteja mais frágil e exposta a rupturas; a procura de relações pessoais e comunitárias a partir da escolha do indivíduo, por afinidade de interesses (n. 52).

Atenção maior é dada às mudanças no campo religioso, no qual se percebe também a penetração do individualismo, que leva as pessoas a escolher sua religião ou a selecionar crenças, ritos e normas que lhe agradam subjetivamente. Isso contribui para o aumento do número dos que recusam a adesão a qualquer instituição religiosa e da atração pelas práticas esotéricas (n. 54). Mais questionadora ainda é a tendência à inversão de sentido da experiência religiosa. A religião torna-se busca de utilidade para o indivíduo; é intensamente procurada, também na mídia, a qual, porém, pode banalizar a religião, reduzindo-a a mais um espetáculo. E, ainda, há uma tendência a afirmar a inocência dos indivíduos, recusando a “culpa”, enquanto a difusão da nova religiosidade convive com o aumento da criminalidade (n. 55).

O fortalecimento dessas novas tendências no Brasil parece confirmado pelos resultados do Censo 2000, que evidenciaram a diminuição da porcentagem dos católicos (de 83,3%, em 1991, para 73,9%, em 2000), o aumento da porcentagem dos cristãos evangélicos (de 9,0%, em 1991, para 15,6%, em 2000) e o aumento dos que se declararam “sem religião” (de 4,7%, em 1991, para 7,4%, em 2000). Para as diferenças regionais, as DGAE remetem ao Atlas da filiação religiosa[9].

Os dados do Censo são apenas quantitativos. As DGAE citam também dados de uma recente pesquisa do CERIS sobre regiões metropolitanas[10], segundo a qual muitos brasileiros frequentam atos religiosos de várias denominações (n. 57) ou mostram adesão apenas parcial a muitas das doutrinas cristãs.

As DGAE concluem que o País não se tornou menos religioso, argumentando que a declaração “sem religião” parece indicar mais uma “desinstitucionalização” da religião, ou seja: há indivíduos que não aderem mais a uma religião institucionalizada, mas não deixam de acreditar em Deus e de rezar ocasionalmente (n. 59). Reconhecem que o catolicismo perdeu, nas últimas décadas, certo número de católicos “nominais”, mas ganhou em participação ativa dos fiéis na vida eclesial, na evangelização e no compromisso social (n. 60). Reconhecem também que, enquanto muitas Igrejas evangélicas se mostram dinâmicas na procura de novos fiéis, às vezes proselitistas, a organização da Igreja católica, muito dependente do padre e da paróquia, parece não ter conseguido acompanhar o aumento da população nas periferias metropolitanas, nas fronteiras agrícolas e na região amazônica (n. 61)[11]. Terminam advertindo que as diferenças na porcentagem de católicos entre regiões ou Estados podem ter causas históricas de longo prazo e não depender da ação pastoral recente (n. 62).

Embora as conclusões sejam matizadas, se não tímidas, os dados sobre a situação religiosa do Brasil mostram a necessidade de maior esforço pastoral e missionário da Igreja católica. Vários dados mostram que, por certos aspectos, não foi a população que abandonou a Igreja católica, mas a Igreja católica que não acompanhou adequadamente muitos de seus fiéis, especialmente os que migraram, seja para o entorno das grandes metrópoles, seja para longínquas fronteiras agrícolas ou extrativistas. Mas certamente o desafio não é apenas quantitativo. Não se trata só de fazer mais, mas de fazer melhor.

 

5. Atuação em três âmbitos: pessoa, comunidade e sociedade

O capítulo III das DGAE, o das “diretrizes de ação”, foi organizado em três seções, julgando inadequada uma visão global, generalizada, da sociedade atual e de sua complexidade. Foram considerados distintamente (embora advertindo suas conexões mútuas) três âmbitos ou áreas de ação: pessoa, comunidade, sociedade[12].

Para cada âmbito, foram formulados: o desafio; a proposta cristã; as pistas de ação.

A formulação merece atenção, porque procura evitar o genérico, a fim de colher a especificidade de cada desafio no contexto da sociedade atual (coerentemente com a análise do capítulo II). Por isso transcrevemos aqui os títulos das três seções:

 

1.    PROMOVER A DIGNIDADE DA PESSOA

1.1. O DESAFIO: A construção da identidade pessoal e da liberdade autêntica numa sociedade consumista.

1.2. A PÉ CRISTÃ: A dignidade absoluta da pessoa — “Filhos de Deus, nós o somos!” (1Jo 3,2).

1.3. PISTAS DE AÇÃO: serviço; diálogo; anúncio; comunhão.

 

2.    RENOVAR A COMUNIDADE

2.1. O DESAFIO: A fragmentação da vida e a busca de relações mais humanas.

2.2. A FÉ CRISTÃ: Da dignidade de filhos à realização da fraternidade — “Vós todos sois irmãos!” (Mt 23,8).

2.3. PISTAS DE AÇÃO: serviço; diálogo; anúncio; comunhão.

 

3.    CONSTRUIR UMA SOCIEDADE SOLIDÁRIA

3.1.  DESAFIO: O escândalo da exclusão e da violência na sociedade consumista.

3.2.  PROPOSTA CRISTÃ: A realização da solidariedade — “Não havia necessitados entre eles” (At 4,34).

3.3.  PISTAS DE AÇÃO: serviço; diálogo; anúncio; comunhão.

 

É evidente que, na formulação das “pistas de ação”, as DGAE adotaram o esquema já presente nas Diretrizes anteriores, desde 1995, das quatro “exigências” da evangelização, mais simples que o das antigas seis “linhas” do PPC de 1966-70, esquema que obriga a pensar a evangelização em todos os seus aspectos principais, sem desvios unilaterais de um lado ou de outro.

Breve resumo das três seções nos ajudará a tentar uma avaliação e a apontar perspectivas.

 

1. Promover a dignidade da pessoa

O desafio é visto como o de construir “a identidade pessoal e a liberdade autêntica” na sociedade atual, consumista e massificadora. As pistas de ação indicadas têm como núcleos principais: 1. 3. 1) no serviço, ajudar a formação humana das pessoas, a come­çar pela garantia das condições básicas de vida, passando principalmente pela educação e o aconselhamento (cf. n. 85); 1.3.2) no diálogo, educar ao respeito das diferenças (religiosas, culturais etc.), pressuposto para a superação das discriminações (n. 86-92); 1.3.3) no anúncio, propor o evangelho de Jesus Cristo a todos (n. 94-95), em termos de diálogo, a partir da experiência de cada pessoa, na forma do encontro fraterno e do testemunho (n. 96-100); 1.3.4) no testemunho de comunhão, formar comunidades cristãs verdadeiramente acolhedoras e fraternas, de comunhão e participação, de oração e experiência de Deus, de comunicação (n. 104-111).

 

2. Renovar a comunidade

O desafio é buscar relações humanas mais fraternas e solidárias, tirando o indivíduo do isolamento e da massificação, da fragmentação da vida pessoal e social. As pistas de ação são: 2.3.1) no serviço, educar as pessoas para o relacionamento solidário e fraterno, defendendo as famílias e as pequenas comunidades, além de prestar aqueles outros serviços sociais que permitam uma convivência pacífica e positiva para as pessoas (n. 123); 2.3.2) no diálogo, contribuir para a convivência respeitosa entre comunidades diferentes, sem discriminações, superando as formas de opressão que permanecem (especialmente para índios e negros — cf. n. 130-131); 2.3.3) no anúncio, fazer da própria comunidade cristã um anúncio e prestar especial atenção às comunidades que precisam de evangelização; 2.3.4) no testemunho de comunhão, incentivar comunidades eclesiais acolhedoras e participativas, mas sem cair no puramente emocional; garantir a todos o acesso aos bens espirituais da Palavra, dos sacramentos e da caridade; buscar espiritualidade e práticas de comunhão (n. 139-151).

 

3. Construir uma sociedade solidária

O desafio é contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade solidária, e não excludente, como a que temos. A contribuição específica dos cristãos é enfocada em três níveis: a) Iniciativas e práticas solidárias. É o nível do socorro às necessidades imediatas e urgentes, cujo ícone é o “bom samaritano”, que socorre o ferido com os próprios recursos, sem perguntar quem é; b) Reivindicação de políticas públicas. É dever dos cristãos também reivindicar das instituições públicas “políticas” e ações para resolver os problemas sociais, a começar pelos mais gritantes. A Igreja há tempo (especialmente na assembleia de 2000, sobre os 500 anos do Brasil, e no documento sobre as eleições de 2002) indica uma lista de prioridades (cf. n. 166); c) Participação política. Apesar do enfraquecimento da política (cf. n. 48), cabe aos cristãos e às comunidades eclesiais incentivar a participação política e o exercício da cidadania, numa perspectiva que vise não só a novas políticas públicas a curto prazo, mas um novo modelo de sociedade — justa e solidária — a médio e longo prazo. As pistas de ação decorrem dessas orientações básicas e devem ser pensadas também olhando a realidade local.

A síntese do conteúdo parece suficiente para mostrar que as novas DGAE procuraram, quanto possível, unir a valorização da experiência pastoral do passado (e nisto se situam sob o signo da CONTINUIDADE) e o reconhecimento das novas situações, dos desafios inéditos, das necessárias inovações (e aqui estamos sob o signo da NOVIDADE).

As DGAE não podem ser acusadas nem de continuísmo nem de infidelidade à caminhada da CNBB e da Igreja no Brasil. Tentam o caminho que a realidade exige: a adaptação, o avanço, construído sobre o que continua como válido fundamento. O perigo talvez seja outro. Diante da multiplicidade das indicações, alguém pode ser tentado a fazer uma escolha arbitrária, unilateral, esquecendo aspectos essenciais ou a visão de conjunto. Por isso, parece-me essencial evitar a fragmentação e prestar muita atenção em tudo o que pode ajudar a dar organicidade à ação evangelizadora e pastoral.

 

6. Perspectivas e questões abertas

A própria discussão das DGAE, na fase de elaboração e na assembleia, assinala-nos as questões que merecem mais atenção, esclarecimentos e, possivelmente, ulteriores aprofundamentos. Sem pretensão de discutir tudo, acenaremos para algumas dessas questões pastorais e teológicas.

Antes de tudo, é necessário compreender a natureza de cada “exigência” da evangelização. Sem essa compreensão, as próprias DGAE não seriam entendidas corretamente.

A exigência do “serviço” indica o plano em que os cristãos procuram colaborar na edificação de uma sociedade humana e humanizadora, no nível da pessoa, das comunidades e das macroestruturas sociopolíticas e econômicas.

A exigência do “diálogo” diz respeito à comunicação entre pessoas e grupos sociais no respeito das diferenças. É o campo do ecumenismo, do diálogo religioso e cultural, da luta contra a discriminação.

O “anúncio” exige a proposta da mensagem e da experiência cristã; numa palavra: do “evangelho” de Jesus. A própria forma do anúncio deve ser evangélica, dialogal, fraterna, se não se quiser obscurecer o conteúdo da mensagem com atitudes agressivas ou autoritárias pouco condizentes com ela. O dever do anúncio não se limita ao próximo, mas envolve a cooperação com a missão ad gentes, a proclamação da Palavra a todos.

A exigência da “comunhão” propõe a realização — nas comunidades eclesiais — daquele espírito e daquela prática da comunhão fraterna, que nascem da aceitação e compreensão do evangelho. A comunhão deve ser, antes de tudo, uma “espiritualidade”, mas também deve se expressar em atitudes e práticas que facilitem a comunhão com Deus, o entendimento recíproco entre os irmãos, a participação de todos.

Uma segunda questão diz respeito às DGAE como instrumento de planejamento pastoral de uma diocese, de um setor (ou área, ou forania, ou movimento…), de uma paróquia ou comunidade. Não propõem que cada um faça tudo. É bom que cada cristão tenha consciência de que a sociedade atual atinge e influencia a vida de todos, sendo necessária uma atitude de reflexão e discernimento.

As Diretrizes são feitas para que haja avaliação das ações realizadas e planejamento criativo das ações futuras, dividindo entre os agentes e as organizações pastorais as tarefas — o acolhimento das pessoas, o desenvolvimento da comunidade e a atuação sociopolítica — e procurando, ao mesmo tempo, “sinergia” ou integração entre os vários sujeitos da ação pastoral.

Em outras palavras, as DGAE não são o planejamento pastoral já pronto, nem manual para orientar a atuação de indivíduos. São instrumento para que uma comunidade, um grupo ou uma instituição planejem sua ação, confrontando com sua realidade local as diretrizes nacionais (fundadas na tradição evangélica e no magistério da Igreja universal). Não será correto, tanto menos será eficaz, limitar-se a ler as DGAE. Elas supõem efetivamente um levantamento da realidade, um discernimento de critérios e de prioridades e, finalmente, opções e decisões que se concretizem num plano de ação.

Pode-se levantar a hipótese — já submetida ao Conselho Permanente da CNBB, em junho de 2003 — de que as DGAE se tornem temas de estudo, oportunamente facilitados por subsídios (nacionais ou regionais) adequados às comunidades. Dada a sua amplitude, parece oportuno propor não mais do que um tema (uma seção do capítulo III) por ano. Por exemplo: 2004, a pessoa (desafios atuais e respostas cristãs); 2005, a comunidade (não apenas eclesial, mas o conjunto das relações com o próximo); 2006, a sociedade (com suas macroestruturas econômicas, culturais e políticas). É bom lembrar que a evangelização avançou significativamente na Igreja no Brasil nos últimos anos, depois das DGAE de 1995, não apenas pela ênfase que recebeu nas Diretrizes, mas principalmente pela realização dos “projetos de evangelização”[13]. Não concordo com a sugestiva (mas inadequada) comparação dos projetos com um momento de festa (o jubileu), depois do qual seria preciso voltar ao trabalho cotidiano (representado pelas Diretrizes). Não há oposição, mas complementaridade, entre “projetos” e “diretrizes”. Os projetos não foram “festivos”, mas exigiram trabalho para tomar efetivas e eficazes as Diretrizes da CNBB.

Além da reflexão pastoral, as DGAE contêm, ao menos implicitamente, um apelo à reflexão teológica. Os bispos escolheram privilegiar os aspectos práticos, as “pistas de ação”. Mas a resposta aos desafios atuais exige também aprofundamento e atualização da teologia. Esquematicamente, poder-se-ia dizer:

promover a dignidade da pessoa exige novo desenvolvimento da antropologia cristã, que proponha uma resposta às novas interrogações acerca da identidade, liberdade e felicidade da pessoa humana; uma nova reflexão sobre o mal e o sofrimento[14]; uma “recuperação” dos conceitos de criação e salvação etc.

renovar a comunidade exige revisão da nossa eclesiologia e da teologia pastoral, a fim de iluminar a busca de formas de experiência comunitária e de organização eclesial adequadas para expressar hoje o mistério da Igreja, povo de Deus e corpo de Cristo…

construir uma sociedade solidária exige repensar mais radicalmente a “doutrina social” e desenvolver a reflexão ética acerca das novas questões políticas e sociais, muito diferentes da “questão operária” no final do século XIX e bem mais complexas que ela.

 

A própria condição da sociedade e da cultura atuais nos impõe contínua atualização da nossa reflexão e permanente busca de respostas adequadas aos novos desafios. Não poucos analistas consideram como característica da “modernidade” a “reflexividade”, ou seja, o fato de a nossa sociedade oferecer continuamente novas informações e novos recursos, recolocando perenemente em discussão as atitudes correntes, as soluções já conhecidas e comprovadas, e, com isso, rediscutindo também os valores consagrados.

A “recepção criativa”, que as DGAE solicitam (cf. n. 204-211), não é, portanto, apenas desejo; é necessidade que se impõe hoje a todos.



[1] Durante a assembleia foi apresentada volumosa obra (600 páginas) de história da CNBB: Presença pública da Igreja no Brasil, Paulinas, S. Paulo (organizada pelo Instituto Nacional de Pastoral).

[2] A Comissão Episcopal de Pastoral (CEP), que se reunia mensalmente em Brasília, para dirigir com a presidência as atividades da CNBB, era composta de nove bispos, cada um encarregado de uma “linha” ou “setor” da CNBB. As dez Comissões Episcopais, que substituem agora a CEP, correspondem substancialmente a essas nove “linhas” e setores, mais a Comissão de Doutrina. Para mais informações, pode-se consultar: <www.cnbb.org.br>.

[3] Merece menção especial o Atlas da filiação religiosa e indicadores sociais no Brasil (PUC-Rio e Loyola, S. Paulo, 2003), que foi apresentado pelos principais autores, César Romero JACOB e Dora Rodrigues HEES (outros colaboraram na redação da obra, que contém os mapas do Brasil das regiões metropolitanas, com os dados do Censo 2000 do IBGE).

[4] Cf. CNBB, Doc. 61, Diretrizes gerais da ação evangelizadora… 1999-2002, Paulinas, S. Paulo, 1999.

[5] Cf. CNBB, Doc. 71, Diretrizes gerais da ação evangelizadora… 2003-2006. Paulinas, S. Paulo, 2003 (as páginas 123-138 contêm um índice de temas que faltava nas edições anteriores e que facilita a comparação entre as partes; de fato, vários temas são abordados repetidamente em cada uma das três seções do capítulo III).

[6] A inspiração cristológica das Diretrizes é visível nas 59 citações do Novo Testamento (e nas referências a ele). Há mais 5 citações do Antigo Testamento. O Concílio Vaticano II é citado 31 vezes (predominam Gaudium et Spes, com 8 menções, e Lumen Gentium, com 7). O Papa João Paulo II é citado 55 vezes, das quais 24 são citações ou referências da Novo millennio ineunte e 7 são referências aos discursos recentes do Papa aos bispos brasileiros nas visitas ad limina de 2002. Do Papa Paulo VI é citada 5 vezes a Evangelii Nuntiandi. Outros 23 documentos da Santa Sé (Código de Direito Canônico, normas litúrgicas, documentos de Pontifícios Conselhos…) são mencionados 23 vezes. A CNBB cita seus próprios documentos (também as Diretrizes anteriores) 39 vezes. As Conferências Episcopais latino-americanas de Puebla e Santo Domingo são lembradas, respectivamente, em 11 e em 2 lugares. Finalmente há 4 citações de palavras de santos.

[7] Cf. também CNBB, doc. 71, Diretrizes gerais da ação evangelizadora… 2003-2006, n. 7.

[8] Cf. 1Cor 13,1ss.

[9] Trata-se do Atlas citado acima, na nota 3.

[10] Cf. CERIS, Desafios do catolicismo na cidade, Paulus, S. Paulo, 2002.

[11] As DGAE não aludem à má distribuição dos agentes de pastoral, em primeiro lugar presbíteros e religiosos(as). Sobre esse assunto, reuniu boa documentação e apresenta reflexões críticas o Pe. Evandro Ruiz Alves COSTA, no Caderno CERIS nº 3, Dinâmica populacional e Igreja católica no Brasil 1960-2000 (CERIS, Loyola, Paulus, 2003).

[12] Esta perspectiva já fora adotada na análise e nas orientações do doc. 45 da CNBB, Diretrizes… 1991-1994.

[13] O projeto Rumo ao Novo Milênio, aprovado em 1996 e orientado pela Carta Apostólica Tertio millennio adveniente, que se esgotou com o jubileu de 2000, e o projeto Ser Igreja no Novo Milênio, aprovado para 2001-2002 e prolongado para 2003, na espera de novas decisões por parte da presidência e do Conselho eleitos em maio de 2003.

[14] Um esboço de reflexão sobre o tema está nos números 75-80 das DGAE.

Pe. Alberto Antoniazzi