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Publicado em maio-junho de 2019 – ano 60 – número 327 - Pág. 03-14

A Igreja na multiplicidade amazônica

Por Osnilda Lima

A socióloga Márcia Maria de Oliveira convida o leitor a um despertar sobre a importância da Amazônia para toda a criação, sobre a relevância do Sínodo para a Amazônia e sobre as contribuições desse evento para a Igreja e mundo todo.

O que é a Amazônia?

Márcia Oliveira – A Amazônia é o maior bioma da América Latina. Geograficamente, abrange toda a área de floresta tropical, ou aquilo que ainda existe dela, em território brasileiro, colombiano, peruano, venezuelano, equatoriano, boliviano, surinamês, guianense – Guianas Francesa e Inglesa. Um bioma tem de ser visto em sua totalidade e integralidade. Por suas proporções geográficas, representa um grande desafio à comunicação, socialização e integração entre os diversos povos dessa imensa região planetária, caracterizada pela exuberante sociobiodiversidade.

E a Amazônia em seu silêncio, além-fronteiras?

Márcia Oliveira – A Amazônia é quase mítica: um verde e vasto mundo de águas e florestas, onde as copas de árvores imensas escondem o úmido nascimento, reprodução e morte de mais de um terço das espécies que vivem sobre a Terra. Estima-se que lá crescem em torno de 2.500 espécies de árvores – ou um terço de toda a madeira tropical do mundo – e 30 mil espécies de plantas – das 100 mil da América do Sul. É o que se chama de região megadiversa.

As espécies animais são contabilizadas em 4.221, mas se sabe que grande parte delas ainda não foi descrita. A bacia amazônica é a maior bacia hidrográfica do mundo: cobre cerca de 6 milhões de quilômetros quadrados e possui 1.100 afluentes. Seu principal rio, o Amazonas, atravessa a região para desaguar no oceano Atlântico, lançando ao mar cerca de 175 milhões de litros d’água a cada segundo. Existe ainda um Amazonas debaixo do chão, o aquífero Alter do Chão – no noroeste do estado do Pará –, tão imenso quanto o rio de superfície. A evapotranspiração da floresta produz o chamado rio aéreo, que leva água em forma de vapor pela região Centro-Oeste, Sul e Sudeste do Brasil, transcendendo as fronteiras e indo até a Argentina.[1]

Além do ciclo das águas, o bioma tem fundamental importância para o ciclo do carbono. O ciclo do carbono começa pela absorção do gás carbônico do ar principalmente pelas plantas, quando realizam a fotossíntese. Depois, quando os animais herbívoros – que comem vegetação – ingerem esses alimentos, acabam liberando novamente no ar o carbono que tinha sido absorvido pelas plantas. Outras parcelas do carbono são utilizadas na decomposição dos seres vivos quando morrem. As queimadas e a utilização de combustíveis fósseis também liberam novamente o gás carbônico na atmosfera. Ambas causam desequilíbrio no ambiente e contribuem para o aquecimento global.

As estimativas situam a região como a maior reserva de madeira tropical do mundo. Seus recursos naturais, além da madeira, incluem enormes estoques de borracha, castanha, peixe e minérios, representando abundante fonte de riqueza natural.

Há generosa sociobiodiversidade, mas qualquer interferência pode fragilizar, não?

Márcia Oliveira – Toda essa grandeza não esconde a fragilidade do ecossistema local. A floresta vive de seu próprio material orgânico, e seu delicado equilíbrio é extremamente sensível a quaisquer interferências. Os danos causados pela ação humana são muitas vezes irreversíveis.[2]

Tão diversa em biodiversidade, relativamente à sua fauna e flora, também é diversa em sociodiversidade – uma de suas principais riquezas. A região abriga complexa diversidade cultural, incluindo o conhecimento tradicional sobre os usos e a forma de explorar esses recursos naturais sem esgotá-los nem destruir o hábitat natural, numa relação de interdependência e convivência recíprocas. Os diversos povos que ocupam os campos e as cidades da Amazônia sofrem drasticamente com os contrastes sociais e econômicos ali presentes. Enquanto alguns grupos políticos e econômicos centralizam as riquezas produzidas na região e estendem a propriedade privada sobre boa parte de seu território, a grande maioria dos povos vive em situação de miséria nas periferias das cidades.

A Amazônia já sofreu um desmatamento de 700 mil quilômetros quadrados. Houve uma redução nesse processo, mas não seu estancamento. Existe um limite para esse desmatamento e, se ele fosse ultrapassado, a consequência seria a desintegração simultânea de toda a floresta, o que representaria a maior tragédia ambiental do mundo e um prejuízo incalculável para o ciclo de carbono do planeta.

As políticas governamentais de incentivo às hidrelétricas, à mineração e ao agronegócio tendem a anular as iniciativas em prol da preservação da Amazônia, priorizando a exploração e o saque das suas riquezas em detrimento de seus povos que vivem no meio urbano, com todos os problemas daí derivados: miséria, ausência de saneamento básico, aglomeração nas periferias, insalubridade, desemprego e outras mazelas de uma concentração urbana desregulada.

Quais os riscos de uma agenda integracionista para a Amazônia?

Márcia Oliveira – O processo do chamado desenvolvimento da Amazônia é exemplo mais que claro do modo de reprodução do sistema colonialista que presidiu a formação dos países da Pan-Amazônia a partir da sua colonização no século XVI. O atual desenvolvimento econômico ainda se pauta pela agenda do integracionismo, que ignora a presença histórica das populações locais, formadas por povos indígenas, posseiros, ribeirinhos, seringueiros, quilombolas e toda uma infinidade de comunidades tradicionais, consideradas como entrave e empecilho ao desenvolvimento e ao progresso capitalista na região. Em todos os países, as populações locais sofrem as mais diversas formas de pressão para abrir caminho para o “desenvolvimento e o progresso”, vindos de fora para “redimir” a Amazônia do “atraso”, instaurando novo processo colonial que dá continuidade ao colonialismo europeu.

E a multiplicidade dos povos amazônicos?

Márcia Oliveira – A Amazônia é uma multiplicidade de realidades muito distintas. Dadas as proporções geográficas, é uma região gigantesca ocupada por povos e culturas diferentes que apresentam modos de vida distintos. Os povos das águas são múltiplos. Têm em comum a relação de interdependência com os recursos das águas. Habitam as margens ou os cursos dos lagos e rios da Amazônia. Ou seja, moram em palafitas ou casas flutuantes e deixam-se governar pelo ritmo das águas. Convivem com a natureza de modo cooperativo e interativo. Todos os dias, retiram das águas o “peixe nosso de cada dia”, sem excessos ou desperdícios, somente o necessário para alimentar suas famílias com o pescado oferecido generosamente pelas águas, que ainda o produzem em abundância.

O camponês e sua família se apropriam e se utilizam dos recursos naturais da várzea, tendo como pano de fundo o contínuo e cíclico movimento dos rios – enchente, cheia, vazante e seca –, numa relação de respeito, por saber que “a vida comanda o rio” e “o rio comanda a vida”. Entretanto, os ribeirinhos, pescadores da Amazônia, também conhecidos como camponeses das várzeas, sofrem com a presença dos pescadores comerciais, predadores de recursos que já se tornaram escassos em determinadas regiões.

Os povos da floresta, camponeses da terra firme, nas suas mais diversificadas categorias – seringueiros, indígenas e quilombolas –, extrativistas e coletores por excelência, sobrevivem do que a terra e a floresta lhes dão generosamente. São agricultores familiares, cultivam pequenas porções de terra com técnicas tradicionais ancestrais, classificadas como agroecologia familiar por corresponderem a um modo de vida de inter-relação e interdependência com a terra e a natureza. Esses povos cuidam da terra, e a terra cuida deles na mesma proporção. São os guardiões da floresta e de seus recursos. Dela retiram a castanha para sustento da família e para dinamizar a economia com a venda do excedente; coletam o açaí e, alimentada a família, vendem o pouco que sobra para comprar o caderno e o uniforme escolar dos “curumins” (crianças), completar algum item da alimentação e atender a outras necessidades básicas. Todos os alimentos coletados nos rios e nas florestas são saudáveis e livres de veneno.

Sendo a Amazônia tão abundante, quais dinâmicas provocam a pobreza de seu povo?

Márcia Oliveira – A pobreza produzida ao longo da história por uma relação de subordinação, de violência política e institucional, de exploração, em sua maioria de origem externa, representa uma ferida profunda nos corpos dos diversos povos de toda a Amazônia. Num modelo de desenvolvimento que não respeita os direitos e a dignidade dos povos amazônidas, a acumulação da riqueza implica o aumento da pobreza.

Mas a maior riqueza da Amazônia é a sua sociodiversidade cultural, ameaçada pelos grandes projetos econômicos assentados em todo o território amazônico, que promovem a derrubada constante das florestas e a contaminação dos rios, lagos e igarapés, comprometendo a sobrevivência dos povos que dependem do extrativismo animal e vegetal.

Quais são as maiores chagas que avançam Amazônia adentro?

Márcia Oliveira – Embora ela seja uma das maiores reservas de água potável do mundo, um dos principais problemas da Amazônia é o abastecimento de água. Os garimpos clandestinos, as hidroelétricas, as petroleiras e as mineradoras transnacionais estão por toda parte, promovendo a contaminação das águas e do solo em proporções irreparáveis.[3] Da mesma forma, o desmatamento também compromete os mananciais de água potável em toda a Pan-Amazônia. Justificado, na grande maioria dos casos, pelo avanço da fronteira agropecuária com grande predominância da criação de gado de corte, o desmatamento abrange boa parte dos estados da Pan-Amazônia, que são os principais responsáveis pela expansão pecuária no Brasil e na Bolívia.

É inegável a contribuição econômica da produção de gado leiteiro e de corte. Entretanto, o que se questiona são a expansão dessa atividade econômica, que avança dia a dia sobre a floresta, e os impactos socioambientais desse modo de produção. O problema consiste no modelo de produção agropecuária adotado na Amazônia de modo extensivo, que vem provocando desmatamento desnecessário e tornando o setor agropecuário o principal contribuinte para as emissões de gases de efeito estufa (GEE). O desmatamento ilegal avança sobre as Unidades de Conservação e sobre as terras indígenas, deixando um rastro de destruição, de conflitos socioambientais, de trabalho escravo e de todo tipo de violência agrária.[4]

Com as migrações, há também a mazela do tráfico de pessoas?

Márcia Oliveira – Na trilha das migrações, cresce na Amazônia “uma das mais perversas formas de violação aos direitos humanos”, o tráfico de pessoas,[5] que também tem crescido assustadoramente em todo o mundo e se convertido numa das economias ilícitas com maiores lucratividades. Da mesma forma, o contrabando de migrantes tem atingido enormes proporções num contexto de intensa mobilidade humana, que atinge praticamente todos os países do mundo.

O que se pode aprender do modo de vida amazônico?

Márcia Oliveira – Nessa perspectiva, os povos da Amazônia, nos seus novos processos de organização social, têm muito para ensinar com seu modo de vida simples, seu desapego às coisas materiais, sua solidariedade e, acima de tudo, seu cuidado e respeito para com a floresta e para como todos os seres que nela habitam, os quais tornam o homem e a mulher mais dignos de Deus e da sua criação.

E o movimento migratório e imigratório na região?

Márcia Oliveira – A partir de 2010, a Amazônia passou a figurar entre as regiões com maior mobilidade interna e internacional na América Latina. As novas rotas migratórias, que circulam no sul da América Latina e passam pela Amazônia, representam novos deslocamentos, oriundos especialmente do Caribe e dos países transfronteiriços. A esse respeito, constata-se que as fronteiras da Amazônia são vistas pelos migrantes como a entrada para o Brasil pelas portas dos fundos. O estado de Roraima, de maneira especial, figura nesses itinerários migratórios como lugar de entrada de grandes contingentes migratórios oriundos da Venezuela e como lugar de passagem para países vizinhos, notadamente Guiana Francesa, Argentina e Chile.[6]

Essa nova conjuntura migratória na Amazônia favorece a atualização dos estudos migratórios e da sociologia dos deslocamentos humanos e destaca o papel que a região passa a ocupar na conjuntura internacional, num processo de adaptação à nova Lei de Migrações, Lei 13.445/2017, que orienta a elaboraçãode políticas públicas migratórias e determina que a ausência delas representa grave violação aos direitos humanos por parte dos Estados nacionais e dos governos locais. A falta de políticas migratórias abre precedentes para a atuação de grupos especializados na exploração de migrantes em situação vulnerável, que são submetidos a condições subumanas de trabalho, muitas vezes análogo ao escravo. Nesse contexto, as rotas do tráfico humano têm aumentado de forma exponencial na Amazônia, atingindo crianças migrantes e principalmente mulheres para fins de exploração sexual comercial, nas suas mais variadas modalidades.[7]

Em uma parcela dasociedade, há resistências à acolhida aos imigrantes?

Márcia Oliveira – Sim. A presença mais expressiva dos migrantes nas ruas das cidades de Roraima tem
revelado atitudes discriminatórias relacionadas ao racismo, discriminação de classe, sexismos e xenofobia. Observa-se um cotidiano de relações tensas e conflituosas direta ou indiretamente influenciadas por discursos e iniciativas de representantes do poder local – político e econômico –, que, em oposição ao que estabelecem os acordos e tratados internacionais assinados pelo Estado brasileiro, apregoam o fechamento da fronteira e a retirada dos venezuelanos das regiões centrais da capital e praticam atitudes de completa intolerância e xenofobia.[8]

Na dinâmica migratória, a fronteira tem outro sentido?

Márcia Oliveira – É inegável que os migrantes são portadores de mudanças importantes no modo de vida tanto das sociedades de origem quanto daquelas de destino migratório. Eles contribuem para ampliar a visão do espaço amazônico para além das fronteiras brasileiras e relacioná-lo com a ideia de simultaneidade de tempos e espaços. As fronteiras dão lugar às transformações simultâneas do espaço regional, no qual as distâncias culturais se estreitam ou se escancaram e as diferenças passam por um processo de reelaboração ou de exasperação das relações sociais. Nessa perspectiva, a fronteira representa um divisor de águas determinante para a construção de relações que extrapolam as próprias linhas geopolíticas e estendem-se por outras regiões a partir do momento em que os migrantes adentram os países limítrofes.

Percebe-se que nativos e estrangeiros e as cidades que os recebem não ficam incólumes à migração. A propósito, ainda que não seja essa a representação hegemônica, é inegável a contribuição dos migrantes para o desenvolvimento da Amazônia, uma vez que os deslocamentos de populações fazem circular novas bases de produção, transferências de tecnologias e conhecimentos, enriquecendo, em maior ou menor grau,
as relações culturais, sociais, políticas e econômicas. Nesse sentido, os migrantes e refugiados, longe de se configurarem como problema social, representam avanços importantes para a região.

E a presença da Igreja Católica na Amazônia, desde a colonização?

Márcia Oliveira – A história da presença e missão da Igreja na Amazônia confunde-se com a história da colonização e, ao mesmo tempo, difere substancialmente dela. Confunde-se porque a Igreja chega junto com os colonizadores das Coroas espanhola e portuguesa, imbuídos da ânsia de riqueza e da prática saqueadora dos recursos naturais das colônias. Simultaneamente ao projeto colonizador, porém, a Igreja estabelece um projeto evangelizador que representa enormes divergências quanto ao que as Coroas esperavam dos primeiros missionários que aportaram ao largo da bacia amazônica.

Tendo por base os primeiros documentos que registram a presença e o papel da Igreja na Pan-Amazônia, é possível observar certa desobediência dos primeiros missionários em relação à prática colonialista, de maneira especial no que se refere à questão da escravidão indígena,[9] tema bastante evitado pelos intelectuais da história da Amazônia. A história, nessa perspectiva, exige da Igreja atual um “ajuste de contas” com o passado e, no mínimo, um pedido de perdão[10] para seguir adiante.

Se, por um lado, a cristianização passava pelo projeto civilizatório colonizador, o que exigiu dos primeiros missionários uma postura arbitrária e autoritária, promovendo intensa desterritorialização de povos inteiros destinados ao trabalho servil, por outro, a ação missionária implicava também abraçar a causa ameríndia, o que provocou importantes rupturas com os compromissos assumidos com as Coroas ibéricas. Muitos missionários foram expulsos, exilados ou morreram em prisões como preço da desobediência.[11]

Está em processo o Sínodo para a Amazônia. O que isso representa?

Márcia Oliveira – O Sínodo para a Amazônia representa simultaneamente um ponto de chegada e de partida. Ponto de chegada porque reconhece a trajetória da presença profética da Igreja nessa região. Ponto de partida porque se acredita que o Sínodo apontará novos caminhos e novas direções para a caminhada da Igreja, com novas práticas de libertação descolonizada, profética e missionária.

Como vem sendo realizada a escuta dos povos da Amazônia em preparação ao Sínodo?

Márcia Oliveira – O processo de escuta tem mobilizado toda a Igreja da Pan-Amazônia, que tem encontrado também muitas dificuldades para realizar as consultas nas bases. Os encontros em pequenos grupos, comunidades e paróquias têm se multiplicado por toda parte, constituindo experiências muito bonitas e profundas. Trata-se de oportunidade ímpar para escutar os povos da Amazônia, seus sonhos, desejos e anseios, e para conhecer mais profundamente seus sofrimentos, lutas e resistências. As escutas confirmam que o povo sabe o que quer e como quer nossa Igreja na Amazônia. Entretanto, há muitas dificuldades que podem comprometer o processo de escuta. As distâncias e o difícil acesso a muitas comunidades e grupos espalhados pela Amazônia representam importantes barreiras no processo de escuta. Mas é louvável o esforço que as dioceses e prelazias estão fazendo para romper essas barreiras e levar o Sínodo aos povos e comunidades mais distantes. É importante destacar o papel do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), do Conselho Indígena de Roraima (CIR), da Comissão Pastoral da Terra (CPT), da Cáritas e dos/as religiosos/as missionários/as que não medem esforços para envolver os povos indígenas, ribeirinhos, seringueiros, comunidades quilombolas, camponeses e todos os povos das águas e das florestas da Amazônia nesse processo sinodal.

Há alguma experiência para destacar nesse processo de escuta para o Sínodo?

Márcia Oliveira – Gostaria de destacar a experiência que testemunhei, entre os dias 26 e 30 de setembro, nas comunidades do baixo rio Cotingo, no extremo norte do estado de Roraima, acompanhadas pelos missionários da Consolata. Mais de cem catequistas e lideranças da Terra Indígena Raposa Serra do Sol estiveram reunidos na Missão Camará para a realização da escuta, num clima de grande celebração de encontro das comunidades e com grande participação da juventude e das mulheres. Apresentaram propostas importantes para os “novos caminhos da Igreja na Amazônia”, por exemplo a construção de um centro de formação permanente, segundo o formato e a metodologia praticados pelos povos indígenas, e a criação de ministérios específicos, como diáconos permanentes ou “presbíteros casados”, para garantir maior presença da Igreja nas comunidades mais longínquas, somando esforços com os missionários sacerdotes que acompanham a Missão Camará.

Há resistências nesse processo sinodal?

Márcia Oliveira – Há! O processo sinodal tem encontrado a resistência de alguns bispos e sacerdotes que não aceitaram muito bem algumas propostas do Sínodo. Há realidades em que as lideranças locais, com destaque para as pastorais sociais e para as/os religiosas/os das congregações locais, têm assumido a frente dos trabalhos de escuta nas comunidades para garantir maior participação nas assembleias territoriais e fazer que “as vozes dos povos da Amazônia” sejam ouvidas e enviadas para as equipes de sistematização do processo sinodal.

É possível projetar o que o Sínodo poderá trazer de novo à Igreja?

Márcia Oliveira – O “processo sinodal” representa um tempo de graça para a Igreja na Amazônia. Dependendo de seus resultados, poderá orientar a experiência sinodal da Igreja em outras partes do mundo. Mas, no caso específico da Amazônia, temos a grande oportunidade de compartilhar com toda a Igreja universal e com todo o planeta os valores de um evangelho inculturado em uma região que tem muito a partilhar com todo o mundo, de maneira especial os ensinamentos de convivência sem destruição, numa relação de reciprocidade que representa a tão sonhada “ecologia integral” proposta pelo papa Francisco na Laudato Si’ (2015). O Sínodo representa importante oportunidade para “amazonizar”o mundo, no sentido de comprovar que é possível adotar outros modos de vida diante de um predominante modelo de desenvolvimento que precisa ser mudado.

O Sínodo tem a responsabilidade de “amazonizar” também a Igreja universal, apresentando os resultados do trabalho de incidência e sensibilização para incentivar mudanças profundas em toda a Igreja preocupada e comprometida com uma “sobriedade feliz” testemunhada pelos povos da Amazônia.

Para você, o que o processo sinodal já vem evidenciando?

Márcia Oliveira – Sinto que o processo sinodal tem comprovado que precisamos de uma Igreja mais despojada e itinerante, capaz de acompanhar os povos nas mais diversas realidades e contextos, propondo uma teologia capaz de compartilhar a experiência de um Deus encarnado nesta realidade[12] de convivência, interação, interdependência e interligação com o cosmo e com a natureza.[13] Uma teologia alicerçada nas múltiplas espiritualidades das florestas e das cidades da Amazônia, com especial atenção para os povos indígenas, que representam “o mais importante lugar teológico, onde podemos ouvir a voz de Deus em sua plenitude e atualidade e descobrir os caminhos do seguimento efetivo de Jesus”.[14]

Fala-se em formar uma Igreja com rosto amazônico. Ela já não é uma realidade?

Márcia Oliveira – A Igreja com “rosto amazônico” já está em curso na Amazônia, e o Sínodo virá confirmar esse “rosto”, cuja expressão é a transnacionalidade da Igreja pan-amazônica, que levaà consciência da necessidade de uma ação eficaz diante dos desafios que ultrapassam as fronteiras de um único Estado e requerem a sinergia das forças vivas de todas as nações envolvidas, em sintonia com a Santa Sé, com o Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com o Secretariado da América Latina e Caribe de Cáritas (Selacc) e com a Confederação Latino-Americana e Caribenha de Religiosos e Religiosas (Clar).

A Igreja na Pan-Amazônia é caracterizada pela eclesialidade que, por ser de índoletransnacional, visa criar interação e colaboração harmoniosa entre os vários componentes da Igreja – congregações, dioceses, Cáritas, associações ou fundações católicas, grupos de leigas e leigos, entre outras instituições e grupos sociais e eclesiais.

A Igreja na Pan-Amazônia é também caracterizada pela luta em defesa e proteção da vida de várias comunidades, que, somadas, representam mais de 30 milhões de pessoas. Elas estão ameaçadas pela poluição, pela radical e rápida mudança do ecossistema do qual dependem e pela falta de proteção de direitos humanos fundamentais. Isso ocorre quando, por exemplo, o desmatamento avança sem controle ou quando projetos de mineração e de agricultura intensiva são iniciados sem consultar, muito menos envolver, as populações locais da Amazônia, no respeito à sua dignidade. A tomada de posição da Igreja em favor dos povos da Amazônia confere à Igreja universal o reconhecimento de sua presença profética e de seu compromisso com a libertação. Isso é ser Igreja com “rosto amazônico”.

A presença da mulher na Igreja e na sociedade amazônica, como se caracteriza?

Márcia Oliveira – É impossível falar da Igreja na Amazônia sem falar da presença e do papel das mulheres à frente dos grupos organizados, das comunidades e pastorais. Também não é possível falar de política e movimentos sociais na Amazônia sem considerar a atuação das mulheres.

Elas estão à frente da organização e animação das comunidades, das organizações sociais, da educação, da saúde. Seu papel está relacionado com a herança étnica dos diversos povos ameríndios que se organizam com base na orientação das mulheres em estreita relação com o sagrado. Para a maioria das etnias, as mulheres são portadoras da experiência do sagrado, são pontes entre o humano e o transcendente. São portadoras das diversas espiritualidades e por isso desenvolvem papel importante também na vida política dos grupos étnicos, ensinando a compartilhar a relação de poder numa atitude de descentralização, o que gera maior participação e compromisso com a causa da vida e da libertação. Joênia Wapichana é exemplo disso. Foi a primeira mulher indígena eleita deputada federal no país, com 8.491 votos, dos quais, seguramente, boa parte veio dos “parentes étnicos” dos diversos povos indígenas de Roraima.

Reconhecer o papel das mulheres na Igreja da Amazônia é fazer justiça a todas aquelas que morreram em defesa dos direitos e da vida dos povos dessa região, com especial destaque para a irmã Dorothy Stang, covardemente assassinada em Anapu, no Pará, em 12 de fevereiro de 2005, e para a irmã Cleusa Coelho, mártir da justiça e da paz dos povos indígenas, assassinada no dia 28 de abril de 1985 na Prelazia de Lábrea, no Amazonas. Penso que o Sínodo acena para o reconhecimento de nosso papel na Igreja e na sociedade. Prova disso é a minha participação na Comissão de “Experts”, convidada pelo Vaticano, por meio da Secretaria do Sínodo, para contribuir com as reflexões pré-sinodais e elaborar o Documento Preparatório, que tem como finalidade conduzir os trabalhos da escuta sinodal. Ser a única mulher leiga na equipe provoca certa “estranheza” num ambiente em que a presença masculina é predominante. Entretanto, o fato de compor a equipe significa certa abertura da Igreja à participação ativa e efetiva das mulheres. Vejo nisso um sinal de mudanças mais profundas na Igreja, no sentido de uma abertura para o diálogo com as mulheres e para a valorização de nossa presença e nosso papel.


[1] MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Amazônia. Disponível em: <http://www.mma.gov.br/biomas/amaz%C3%B4nia>. Acesso em: 10 mar. 2018.

[2] OECO. O que é o bioma Amazônia. Portal de meio ambiente da UFRN, Natal, 5 set. 2016. Disponível em: <http://www.meioambiente.ufrn.br/?p=36432>. Acesso em: 10 mar. 2018.

[3] Como o que vem ocorrendo no rio Orinoco, na Amazônia venezuelana, com a intensa mineração irregular mobilizando toda uma economia garimpeira que vem devastando territórios indígenas inteiros, entre os quais o do povo warao. O território warao vem sendo invadido por garimpos clandestinos desde 2016, o que tem provocado a contaminação dos afluentes do rio Orinoco, matando os peixes e forçando o povo à migração compulsória para fugir da fome e da miséria instaladas por toda parte.

[4] Dados levantados e analisados por especialistas do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia – Imazon. Disponíveis em: <http://imazon.org.br/slide/agropecuaria/>. Acesso em: 13 out. 2018.

[5] TORRES, Iraildes Caldas; OLIVEIRA, Márcia Maria de. Tráfico de mulheres na Amazônia. Florianópolis: Mulheres, 2012. As autoras afirmam que, de maneira especial, as mulheres representam grande proporção nas redes do tráfico humano na Amazônia.

[6] Sob o título “RR é passagem para imigrantes que querem chegar à Argentina”, uma matéria jornalística afirma: “A maioria prefere países economicamente estáveis e onde não tenha dificuldade com a língua” (Folha Web, Roraima, 2 jul. 2018). Disponível em: <https://www.folhabv.com.br/noticia/RR-e-passagem-para-imigrantes-que-querem-chegar-a-Argentina-/41520>. Acesso em: 9 set. 2018.

[7] Sobre isso, cf. BASTOS, Isabela. Tráfico de pessoas: relatos de um crime silencioso na Amazônia. Em Tempo Online, Manaus, 27 nov. 2017. Disponível em: <http://d.emtempo.com.br/amazonas-cidades/87498/trafico-de-pessoas-conheca-relatos-de-um-crime-silencioso-na-amazonia>. Acesso em: 10 set. 2018.

[8] Conflitos frequentes têm ocorrido entre brasileiros e venezuelanos, situação que revela a omissão por parte do Estado, conforme matéria disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/09/imigrantes-voltam-para-a-venezuela-apos-violencia-em-roraima.shtml>. Acesso em: 10 set. 2018.

[9] Os principais documentos que implicam, direta ou indiretamente, a Igreja na escravidão indígena indicam o seu papel na regulação da escravidão: Lei de 1587; Regimento de 21/2/1603; Lei de 1611; Provisão Régia de 17/10/1653; Alvará de 28/4/1688.

[10] O papa Francisco já iniciou esse processo em sua visita ao México em 16 de fevereiro de 2016, quando pediu perdão em um duro pronunciamento contra “a dor, o abuso e a desigualdade” sofridos pelos povos indígenas. E, mais recentemente, quando se reuniu com os povos indígenas da Pan-Amazônia no dia 19 de janeiro de 2018, em Puerto Maldonado, Peru, onde decidiu pelo Sínodo Especial para a Amazônia e declarou que “os povos amazônicos nativos provavelmente nunca foram tão ameaçados em suas próprias terras como estão agora”.

[11] Atuaram nisso concretamente como missionários, mas também politicamente, denunciando a brutalidade dos conquistadores (como foi o caso dos dominicanos Montesinos e Las Casas) ou a ganância dos “encomendeiros” e “mamelucos” paulistas (como os jesuítas Antonio Ruiz de Montoya e Samuel Fritz). Cf. MARTINS, Maria Cristina Bohn. A Amazônia e seus índios no Diário de Padre Fritz. IHU On-Line, São Leopoldo, 27 jul. 2007. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/8564-a-amazonia-e-seus-indios-no-diario-de-padre-fritz-entrevista-especial-com-maria-cristina-bohn-martins>. Acesso em: 10 mar. 2018.

[12] OLIVEIRA, José Aldemir de; GUIDOTTI, Humberto (Org.). A Igreja arma sua tenda na Amazônia: 25 anos do encontro pastoral de Santarém. Manaus: Universidade do Amazonas, 2000.

[13] LÓPEZ HERNÁNDEZ, Eleazar. Teología india. Cochabamba: UCB/Guadalupe/Verbo Divino, 2000.

[14] PERANI, Cláudio. Espiritualidade amazônica. Revista Convergência Brasília, n. 406, p. 471, out. 2007.

Osnilda Lima

Osnilda Lima é jornalista, formada em Comunicação Social; assessora nacional de comunicação da Cáritas Brasileira, organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB); membro da diretoria da Signis Brasil; religiosa da Congregação das Irmãs Paulinas.