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Publicado em Novembro-Dezembro de 1995 (pp. 19-24)

Música na liturgia e na pastoral

Por Pe. Darci Luiz Marin

(Entrevista com Ir. Miria T. Kolling)

Miria Therezinha Kolling nasceu em Dois Irmãos (RS) em 1939. Em 1960 ingressou na Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria. Estudou pedagogia e música e exerceu atividades pastorais em Santos (SP). Entre 1983 e 1985 aprofundou os estudos musicais na Alemanha e Áustria. É membro da Sociedade Brasileira de Musicologia, da Academia Feminina de Ciências, Letras e Artes de Santos e da Associação de Regentes de Corais Infantis de São Paulo. Gravou mais de 30 discos com Missas e cantos próprios para celebrações. Reside em São Paulo desde 1989 e participa de encontros de liturgia e canto pastoral em todo o Brasil e exterior (sobretudo Portugal e Estados Unidos). Dedica-se à música litúrgico-pastoral há 25 anos.

 

Vida Pastoral (VP): Por que decidiu dedicar-se à música?

Ir. Miria: A decisão foi se dando aos poucos. Já em família tínhamos o costume de cultivar a música. O grande lampejo de luz, todavia, veio ao participar de um curso de canto pastoral realizado em São Paulo no final dos anos 60. Esses cursos duravam duas semanas, em época de renovação conciliar. Compunham-se do canto comum e aulas em grupos: teoria musical, solfejo, instrumento, canto gregoriano, harmonia, composição… Escolhi a composição. Frei Joel Postma era nosso professor. Pedia que em casa fizéssemos melo­dias para o Ordinário da Missa. A partir dessas experiências, surgiu a Missa da amizade, minha obra-prima, a Missa da alegria, Ser presença e outras. Foram gravações bem simples, em caráter particular, por um pequeno grupo de amigos de Santos (SP).

Começaram, então, os convites para encontros de canto de pastoral, gravações com as Edições Paulinas. Hoje, quando olho para trás e vejo o caminho percorrido, me comovo ao ver como Deus abre caminhos e faz história conosco.

 

VP: Quais as principais diferenças entre música religiosa e os outros tipos de música?

Ir. Miria: A música expressa o mistério profundo do nosso ser, comove-nos e toca as fibras mais íntimas do coração. Como arte, é universal.

Entretanto, há um modo de fazer música para a Igreja e na Igreja, canto que se refere a temas religiosos, à Sagrada Escritura e a Deus. A diferença está no sentido, na forma, no conteúdo e na finalidade. No caso da música litúrgica — feita para o culto, para o louvor a Deus —, tem função específica, ministerial, não é mero enfeite. Como parte integrante da Liturgia que é, deve expressar o mistério celebrado, traduzir o rito, estar em sintonia com o tempo litúrgico, promover a participação dos fiéis, de modo que seja o Espírito a cantar em nós. E assim cantando — deixando-nos envolver e atingir pela mensagem do canto —, aconteça em nós o louvor, a súplica, a conversão, o compromisso, a vida mesma de Deus. Não basta cantar a letra, é preciso rezá-la, assumi-la como nossa. Tocados pelo Espírito, devemos dar-lhe espírito e vida em nós.

Assim como há músicas para dançar, marchar, sonhar, entreter… também há músicas para rezar, louvar a Deus, expressar a fé, transformar a vida.

A liturgia é um grande louvor que a comunidade cristã eleva ao Pai, por meio de Jesus Cristo (nele, com ele, por ele…), na força do Espírito Santo. A música, sobretudo o texto, deve traduzir isso. Daí porque não basta ao compositor ter conhecimento e técnica, exige-se também que tenha vivência cristã, viva sua fé. Há normas que orientam as formas de arte religiosa, que o artista deve conhecer e observar, para que, de fato, seu canto expresse a sacralidade da oração, a alma orante do povo, o Mistério da Salvação que celebramos.

 

VP: Quais as fases mais importantes vividas pela música religiosa no Brasil ao longo dos últimos 25 anos?

Ir. Miria: O Documento 43 da CNBB, “Animação da vida litúrgica no Brasil”, lembra um início de grande entusiasmo no modo de celebrar, na comunicação e no canto em ritmo popular. Começaram os cursos de liturgia e canto pastoral, surgiram equipes de liturgia e canto, aconteceram os encontros nacionais, apareceram excelentes compositores, um verdadeiro “aggiornamento” litúrgico-musical. Mudanças talvez rápidas demais, impossibilitando a devida assimilação do espírito da “Sacrosanctum Concilium”. A formação não acompanhou o ritmo das mudanças e criou lacunas até hoje não preenchidas.

Uma 2ª fase marcou a década de 70, quando a Igreja do Brasil e da América Latina se abriu para o social, para os problemas e lutas do povo sofrido, na busca da libertação. Surgiu um novo canto, ligando a Palavra de Deus à realidade. Documentos pastorais, livros litúrgicos, novo modo de celebrar os sacramentos e a fé, valorização dos ministérios, participação ativa e consciente do povo, que ganhou vez e voz, são alguns frutos dessa época — com muitos aspectos positivos e algumas limitações.

Seguiu-se uma fase de acomodação, de certo cansaço. A deficiência na formação litúrgico-musical produziu músicas de consumo, inadequadas à celebra­ção. Produziu-se muito, mas de modo deficiente. Surgiu a necessidade de fazer coletâneas, para se constituir um repertório básico. Vieram os folhetos litúrgicos, para orientar o povo para uma melhor participação — porém, foram usados indevidamente, por falta de equipes de liturgia ou por acomodação dos padres. A liturgia foi se integrando cada vez mais dentro da pastoral orgânica em nível paroquial, diocesano e nacional.

Hoje estamos numa fase de síntese, querendo achar o equilíbrio entre o antigo e o novo, entre o aspecto contemplativo e o engajamento social, entre a produção de consumo e a música mais universal, que leve ao encontro íntimo e profundo com Deus. Percebe-se grande desejo de renovação e aperfeiçoamento, presença significativa nos encontros de liturgia e canto pastoral, o surgimento de novos e bons compositores. Busca-se uma espiritualidade litúrgica, capaz de integrar liturgia e vida, na transformação pessoal e no compromisso com a transformação do mundo.

 

VP: Como fazer para utilizar bem a música nas celebrações?

Ir. Miria: Em primeiro lugar, depende de bons compositores, que façam músicas adequadas, com textos inspirados na Bíblia e na liturgia, levando em conta a vida, a realidade, a cultura do povo. O ideal é que a música leve em conta o aspecto estético, seja bonita e fluente, cantável, e atenta à função ministerial. Deve revestir o texto de tal forma que nos ajude a rezar de fato.

Depois, depende de uma boa execução — bons animadores e dirigentes de canto, que assimilem, rezem, comuniquem a mensagem ao povo, assumindo-a como sua.

É preciso ter critérios na escolha dos cantos. Não se canta um canto só porque é bonito ou comove, mas devido à função ministerial do canto; este deve traduzir e expressar o rito, levando os fiéis à participa­ção afetiva e efetiva.

Os instrumentistas também têm papel importante e decisivo na execução das músicas — tocar bem, apoiar, sustentar o canto, integrar-se na liturgia. Tudo deve ser preparado com antecedência e bem ensaiado. Não se pode improvisar uma celebração, como não se improvisa uma festa.

A formação litúrgico-musical também é importante. Não basta cantar. É preciso saber por que, o que, como e quando cantar. Isso exige estudo, reunião, oração e preparação da equipe.

Ter clara consciência de que ser ministros da liturgia significa estar a serviço da comunidade. Não se pode cantar para o povo, mas com o povo. A música é um ministério que deve ser usado com humildade e de modo discreto, embora com competência e com o devido preparo. Somos instrumentos, cada qual com sua função, trabalhando em equipe, a serviço da comunidade. O dom, o dinamismo interior, a força que nos impele a cantar, vem do Espírito, que age e canta em nós.

 

VP: Em que sentido a música poderia ser mais bem aproveitada como instrumento de evangelização em nosso país?

Ir. Miria: “Como na música, assim na vida”, poderia dizer o provérbio. É inegável o poder da música, a influência que ela exerce sobre o espírito humano, os nossos sentimentos, a vida e até o destino de um povo. Já dizia alguém que as maiores revoluções não se realizam pelas armas, mas pela música. Alguns fatos a que assistimos hoje confirmam essa verdade.

Penso que nós, cristãos, ainda usamos pouco esse poder da música. Somos muito tímidos e não nos lançamos a um trabalho evangelizador mais efetivo, concreto, atraente, em nome de um falso respeito. Pelo batismo somos todos chamados a evangelizar, a ser missionários da vida e do amor. Com que alegria e entusiasmo não deveríamos também nós, como os discípulos, após a ressurreição do Senhor, anunciar aos irmãos o que vimos e ouvimos, em contato com o ressuscitado!

Temos hoje tantos meios — livros, som, imagem e todas as formas de arte — que podem ser aproveitados. É claro que o contato pessoal, a presença e a palavra carregadas de força divina, ainda são os melhores e mais atuais meios. Se o anúncio for feito através do canto, a mensagem será mais facilmente percebida. A música envolve, emociona, torna mais fácil a memorização, desenvolve a capacidade de sentir, criar e apreciar a beleza, reforça e valoriza a palavra, sendo também uma forma privilegiada de oração, de elevação do coração a Deus.

Assisti, há pouco tempo, à apresentação do Coral evangélico norte-americano “Mount Moriah” (que esteve no Brasil). O modo como transmite vida e emoção é algo marcante. Esse coral consegue passar a mensagem ao povo através do canto, dos gestos, da dança, da expressão corporal e dos movimentos. Os participantes estão inteiramente presentes naquilo que cantam. E assim deve ser. O povo brasileiro é um povo dado ao ritmo, à dança, à música, à alegria, e isso deveria ser mais bem aproveitado na evangelização.

 

VP: O que você acha das músicas de ocasião (por exemplo, as músicas feitas para a Campanha da Fraternidade)?

Ir. Miria: Dentro ou fora da Campanha da Fraternidade (CF), o certo é que há músicas que vêm para ficar — que se impõem, marcam época — e outras, descartáveis, que desaparecem assim como surgiram, sem atingir a alma do povo.

No Brasil, onde se tem produzido muito ultima­mente — o que não deixa de ser um grande valor —, há, no entanto, um pouco dessa mentalidade consumista: usar e jogar fora, cada ano renovar repertório, novas campanhas, novos temas, muitas vezes não se levando em conta o tempo litúrgico ou o mistério celebrado. É uma pena!

Quanto à CF, eu mesma colaborei durante anos, compondo cantos diversos. Quantos foram esquecidos, deixados de lado, embora bonitos e bem-feitos! Parece-me que os primeiros anos foram marcantes, e ainda hoje são cantados vários cantos de 20 ou 30 anos atrás. As músicas circunstanciais, passageiras, com um objetivo muito determinado, uma vez que este passou, são esquecidas. Cantos que levam em conta o aspecto profundo do ser, a sede e busca de Deus, os valores fundamentais do homem válidos para qualquer tempo e lugar, são certamente mais duráveis. Sinto faltar, às vezes, aos poetas e salmistas do povo o aspecto contemplativo, místico, celebrativo e orante. O povo nos ajuda a perceber isso e sabe fazer a diferença.

 

VP: Entre os seus discos, quais os mais conhecidos e por quê?

Ir. Miria: Os primeiros, nascidos na década de 70, certamente marcaram época. A Missa da amizade, Missa da alegria, Ser presença, foram meus primeiros discos, numa linha mais popular, fáceis, inspirados no evangelho e nascidos da vida. Apesar de gravados de forma precária, em caráter particular, foram logo divulgados até fora do Brasil. Em 1975 foi lançada a Missa dos bem-aventurados, gravada pelas Edições Paulinas. Não há quem não conheça e não cante essa Missa, em alguns lugares até de cor. Como canta a realidade última de nossa vida — morte e ressurreição —, tem ajudado a muitos em seus momentos de dor. Segundo alguns, é minha melhor obra. Não dá para comparar. Cada “filho” é único, e nasce de uma experiência de vida, fruto de meu contato com Deus e com o povo, duas dimensões que tenho sempre presentes ao compor. Procuro rezar cantando e cantar rezando. O fato de eu fazer letra e música é significativo, pois as duas “casam” perfeitamente, formando unidade. Procuro cultivar e colocar esse dom a serviço da Igreja, do povo e da liturgia.

Experiência interessante tem sido a de fazer melodias com textos de outros poetas, como é o caso da Missa do Espírito Santo, também de grande aceitação, a da Noite Feliz (Natal) e outras. Também são muito bem-aceitas minhas Missas para crianças.

Ultimamente destacaria dois trabalhos: a Missa “O Senhor, minha festa”, fruto de uma experiência no interior do Nordeste — gravada e lançada também em Portugal. A outra, “Solidão sonora”, foi um pedido dos Carmelitas Descalços, em 1991, em comemoração ao IV centenário da morte de são João da Cruz. Uma experiência forte, profunda de Deus, e que pessoal­mente considero minha obra mais inspirada e mais bem-elaborada.

 

VP: Quais as principais preocupações presentes nas letras e melodias de suas musicas?

Ir. Miria: Quanto à letra, que seja de inspiração bíblica e litúrgica, refletindo a vida (lutas, vitórias, esperanças, alegrias…) do povo, sempre partindo da experiência pessoal, brotada do coração, em contato com Deus e com o povo, para assim traduzir seus sentimentos, sua alma, sua fé, sua vida. Fico muito feliz quando alguém me diz: “Irmã, a senhora disse neste canto o que eu gostaria de dizer, e não consigo”. É em nome do povo que compomos, tendo, no coração, o coração daqueles que rezam, louvam, suplicam e celebram. A letra deve ter também caráter orante, que nos ajude a rezar e celebrar.

Quanto à música, é algo mais difícil de explicar. É Deus, de fato, que inspira, como e quando quer. A gente só acolhe, cria espaço, se faz instrumento. Como dizia Beethoven, “a música é 10% de inspiração e 90% de transpiração”. Nesse sentido, é preciso trabalhar o pequeno lampejo de luz que se faz. Minhas músicas são cantáveis, fluentes, espontâneas, embora às vezes com modulações, fazendo com que alguns achem complicado. Esse é meu estilo, que atinge a alma do povo porque nela já está. Cabe-me apenas despertar a música que nele dorme, fazendo-a minha e recriando-a de forma nova.

A maior parte dos meus cantos são feitos a uma só voz, pura melodia. Mas ultimamente venho compondo músicas a vozes, para atender também aos corais, que reclamam — com razão — haver pouco material litúrgico para eles. São assim “O Senhor, minha festa”, “Solidão sonora”, “Músicas para casa­mento e Bodas”, entre outros.

O importante na música é criar empatia e sintonia com o povo, comunicar com o coração, atingir a alma, o mais profundo da vida.

 

VP: A seu ver, qual o atual estágio da música litúrgico-religiosa em nosso país?

Ir. Miria: Nota-se uma grande busca, um grande desejo de renovação e empenho na formação litúrgico musical. Exemplos disso são as semanas de liturgia, o Curso Ecumênico de Liturgia e Música (CELMU), promovido pela CNBB, os cursos de férias, os encontros de liturgia e canto pastoral, que se multiplicam… Uma iniciativa interessante está sendo feita pela Escola Diocesana de Música da Diocese de São Miguel Paulista (SP), que este ano inaugurou um curso, com duração de dois anos, com aulas semanais, contando aproximada­mente 300 participantes.

Não obstante o caminho feito, continuam os desafios:

 

• criação de equipes de liturgia, que acolham, preparem, ajudem o povo a celebrar o Deus da vida;

• animadores de canto capazes de dirigir o canto do povo;

• presidentes que envolvam a assembleia, comuniquem vida, revistam de carne e espírito os ritos e a estrutura;

• adequação das missas e meses temáticos ao Ano Litúrgico;

• equilíbrio entre cantos novos e antigos, for­mando um repertório básico de cantos (espécie de hinários, coletâneas);

• formação litúrgico-musical nos seminários e nas casas de formação, bem como entre os agentes de pastoral, e mesmo a reciclagem do clero;

• uma espiritualidade litúrgica centrada no mistério pascal do Senhor Jesus, que caminha conosco, na força do seu Espírito, para que, animados e sustentados por essa presença, a liturgia nos transforme em promotores da paz, defensores da vida, comprometidos com a construção do Reino, em nós e no mundo.

 

O caminho se faz caminhando… O canto alivia o peso e sustenta a luta.

 

VP: E a música religiosa dedicada às crianças, como está?

Ir. Miria: Não são muitos os que se dedicam ao trabalho musical com crianças, pois é também dom especial penetrar a alma infantil, adivinhar-lhe os desejos e necessidades e traduzir sua vida em música.

De qualquer forma, o coração da criança é terreno fértil, onde a semente lançada logo frutifica: Tudo o que nele cai, se faz vida. A arte, sobretudo a música, o canto, é um meio privilegiado de atingir e moldar seu coração, de lhe anunciar a boa-notícia da vida e do amor. É grande a procura de músicas para a catequese e as celebrações, mas ainda temos pouco material. Na escola, nos encontros de catequese e nas celebrações se deveria cantar muito mais. O canto é muito apropriado para rezar e louvar a Deus, capacitando a criança a participar do culto da Igreja.

 

VP: Alguma iniciativa especial por ocasião destes seus 25 anos dedicados à música litúrgico-pastoral?

Ir. Miria: Algumas iniciativas estão em andamento:

— Da parte da PAULUS Editora, um álbum de partituras, com cerca de 200 cantos; uma espécie de “songbook” — Missas e cantos que marcaram época e que são mais cantados pelo povo.

— Com a COMEP? — Ed. Paulinas — a grava­ção do CD “Graças, Senhor”, contendo 12 músicas inéditas, para celebrar o Deus do amor e da vida, pois é ele que nos inspira e sustenta.

— Um encontro de liturgia e canto pastoral em São Paulo, provavelmente no próximo mês de agosto, não só abrangendo a arquidiocese de São Paulo, mas também as cidades vizinhas. Terá caráter celebrativo, culminando com a celebração eucarística.

— Com a agenda já lotada para o próximo ano, por onde eu passar, nos encontros com o povo, celebra­remos a festa que é de todos. Celebrar, cantar, mais do que nunca, é preciso!

— Providencialmente, no final deste ano, irei a Lisieux, na França, onde procurarei compreender e sentir a mensagem, a vida e a espiritualidade de Santa Teresinha, cujo centenário de morte celebraremos em 1997. A pedido dos Carmelitas Descalços, comporei Missa e cantos inspirados em sua vida e escritos.

 

VP: Algumas observações e sugestões aos agentes de pastoral (para concluir).

Ir. Miria: A todos os que, por dom e graça, têm o privilégio, bem como a responsabilidade de sustentar o louvor do povo, eu diria:

1. Sustentem com arte a louvação, como nos pede o Salmo 32. É preciso dar a Deus o melhor e mais digno. É belíssimo o ministério do canto e da liturgia, o único que começa na terra e se prolonga no céu, eternidade adentro.

2. Ninguém ama o que não conhece. Cultivem-se, estudem, aprofundem seus conhecimentos litúrgicos musicais, para servir melhor. O cultivo pessoal, a oração e a meditação da Palavra são também fundamentais para o sustento no ministério.

3. Preparem bem as celebrações, evitando a improvisação. Não se improvisa uma festa, muito menos a festa do Senhor. É falta de respeito com o povo. Há uma preparação remota, da equipe, que deve se reunir, de preferência semanalmente, para aprofundar os textos bíblicos, escolher e ensaiar os cantos, preparar as leituras, distribuir as tarefas… E há uma preparação próxima, da equipe com o povo, antes da celebra­ção, para aquecer a voz e preparar o coração.

4. Saibam-se ministros, servidores, não donos da liturgia. Ninguém sabe nem pode fazer tudo sozinho. Importa o trabalho em e da equipe, cada qual exercendo sua função, tendo em vista a participação de todo o povo.

5. Tenham entusiasmo, isto é, estejam em Deus! Devemos ser apaixonados por ele, pelo seu Reino, pela liturgia e pelo povo. Só assim faremos vida em nós a VIDA que celebramos, o que se traduzirá nas atitudes e gestos, no tocar e cantar, nos ritos e palavras. É preciso fazer-nos sacramentos da presença salvadora de Deus.

6. Não desanimem diante das dificuldades, dos obstáculos, venham de onde vierem. Quem trabalha por Deus deve estar preparado e perseverar no bem, no compromisso assumido. É por ele que damos a vida, em favor do povo. Sempre “vale a pena, quando a alma não é pequena”.

7. Enfim — entre tantas outras observações e sugestões que poderiam ser dadas — é importante que as equipes de liturgia e celebração ajudem a que, de fato, o momento celebrativo seja festa e se faça compromisso de vida, verdadeiro encontro de irmãos entre si e com o Deus libertador, cume e fonte de toda a vida e ação da Igreja.

 

E nós, os que servimos a Deus pela música, disponhamo-nos a rezar com o poeta místico: “Senhor, faze de mim um instrumento simples e reto como uma flauta de bambu, que tu possas encher de música”. Só assim, através de nós, o canto de Deus chegará ao coração do povo, e o canto do povo alcançará o coração de Deus.

Pe. Darci Luiz Marin