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Publicado em Março-Abril de 2007 (pp. 3-7)

Testemunho de doação na Amazônia

Por Ir. Cecília Tada

Entrevista com Dom Walter Ivan, bispo emérito de São Gabriel da

Dom Walter Ivan, bispo emérito de São Gabriel da Cachoeira (AM), é um grande e zeloso missionário da Amazônia. Com seus quase 80 anos, continua entusiasmado pela evangelização dos povos da região, dedicando-se, nestes últimos anos, de modo especial aos indígenas, que correspondem a cerca de 97% da população da diocese. Encontra-se atualmente na residência episcopal, após permanecer vários anos na missão junto aos ianomâmis em Maturacá.

Paulistano, cursou algumas séries do ensino fundamental no então Colégio Santo Alberto, anexo à Igreja do Carmo, em São Paulo, concluindo-o depois no Seminário dos Salesianos. Ordenado padre, fez mestrado em missiologia, em 1974, na Universidade Gregoriana e doutorou-se nessa mesma disciplina pela Universidade Urbaniana, também em Roma.

De 1976 a 1979 esteve em Rondônia como coordenador de pastoral da então prelazia, hoje Arquidiocese de Porto Velho. Muitas de suas reminiscências desse período encontram-se registradas na obra Pinceladas de luz na floresta amazônica, no prelo.

De 1980 a 1986, eleito provincial dos Salesianos, teve a sua residência em Manaus, mas percorria toda a Amazônia, extensão que compreendia a jurisdição canônica de sua congregação.

Em 1986, foi nomeado bispo da Diocese de São Gabriel da Cachoeira, exercendo com dinamismo seu encargo de pastor missionário até 2002. Com apresentação sintética, mas de forma muito profunda, faz antever nas entrelinhas de sua entrevista o que foi a sua ação nessa região de muitas belezas não só naturais, mas também humanas, representadas por esta obra-prima da criação, os povos da floresta, ameaçados pela mentira, pela corrupção e pelo risco de despersonalização em face da cobiça tanto de brasileiros como de estrangeiros que aqui chegam para roubar ou impor a sua religião e cultura. Durante o seu pastoreio, Dom Walter publicou várias obras destinadas à evangelização dos povos, sobretudo para a formação de catequistas.

Já como bispo emérito, a partir de 2003 passou a residir numa missão junto aos povos ianomâmis, dos quais conhece a língua.

Em 2006, por questões de saúde, voltou a São Gabriel da Cachoeira. Continua, porém, a visitar e acompanhar as missões indígenas da diocese, acalentando o sonho de fundar ali um Museu dos Povos Indígenas com o objetivo de oferecer fontes de pesquisa e conhecimento acerca desses povos aos seminaristas e educadores da região e, ao mesmo tempo, fazer os povos indígenas valorizarem cada vez mais a sua cultura.

 

IR. CECÍLIA: O senhor já atua no serviço de evangelização há muitos anos na Amazônia. Imaginando essa realidade 30 anos atrás, gostaríamos de saber quais foram os critérios de discernimento para a sua ação pastoral e evangelizadora nessa realidade tão diferente e diversificada.

DOM WALTER: O primeiro critério é que não há povos inferiores, apenas diferentes. Cada cultura tem valores espirituais surpreendentes; todos, portanto, devem ser respeitados.

Temos de nos libertar do etnocentrismo, a tendência a achar que só é válido aquele que pertence à nossa raça e aos nossos costumes. O colonialismo europeu e o da raça branca em geral praticaram muitas injustiças inspiradas no etnocentrismo; basta ver o que os europeus achavam das civilizações indígenas no século XVI e XVII. Tentavam passar a ideia de que o indígena não era sequer um ser humano. Foi preciso que o papa da época declarasse claramente que eles eram seres humanos e por isso tinham de ser respeitados e não podiam ser escravizados. A nossa missão então é esta: pregar a mensagem de Cristo no respeito aos povos indígenas, à sua liberdade e aos seus costumes.

O segundo critério é a preservação da saúde e da educação. Estas são parte integrante da evangelização porque se trata de promover o indígena todo nos seus valores físicos, intelectuais, espirituais e religiosos. E também porque não adianta evangelizar o índio morto. As epidemias, em razão do descaso oficial, faziam que muitos povos indígenas fossem dizimados. Agora estão quase totalmente erradicadas, graças a esse esforço missionário pela saúde e pela educação que acompanhou sempre a evangelização. Por isso, a região do Rio Negro, cuja sede é São Gabriel da Cachoeira, constitui uma das regiões indígenas mais escolarizadas do Brasil.

O terceiro critério é o objetivo da escolarização: ajudar o indígena a ser o autor do próprio progresso. Daí surgem as Associações Indígenas, que foram crescendo com grande apoio da diocese. O progresso religioso é parte da opção que a diocese faz. Por isso temos sacerdotes indígenas — porque Deus chama em toda parte.

Finalmente, o último critério — em importância, talvez o primeiro: a mensagem de Cristo não é uma nova cultura que vem se sobrepor à cultura dos indígenas. É uma mensagem que tem de adaptar-se a todas e se adapta porque se resume na lei do “amai-vos uns aos outros”. A lei do amor aperfeiçoa as culturas; não deturpa nem destrói nem desestrutura nenhuma delas.

São esses alguns dos critérios que a diocese sempre adotou, neste tempo em que estamos nela, e continua adotando.

 

IR. CECÍLIA: A Diocese de São Gabriel da Cachoeira tem 97% da sua população constituída de povos indígenas, cada qual com suas tradições, línguas e culturas. Como missiólogo e missionário, a teoria veio realmente ao encontro, facilitando a sua ação missionária nessa região tão distante quanto diferente? Como e em quê?

DOM WALTER: A base da teoria missiológica não brotou de uma escrivaninha, mas da experiência de inúmeros missionários. Durante a época em que estava no curso de missiologia, tive como colegas muitos missionários de grande experiência vindos da África, da Ásia, da Oceania e de todas as regiões do mundo, alguns até encanecidos, já com cabelos brancos, mas dispostos a se tornar alunos de novo por sentirem necessidade de atualização.

E os congressos missionários precedentes ao Concílio Vaticano II foram também espaços que ajudaram na elaboração das linhas mestras, depois transformadas em normas do concílio. Esses princípios básicos do concílio que vieram da experiência ensinam a todos os missionários que o Espírito Santo já trabalha entre os indígenas antes mesmo da nossa chegada, da chegada de qualquer missionário, inspirando muitos de seus costumes, também os religiosos, e configurando os seus ritos e mitos, que são, muitas vezes, sementes do Verbo e pedagogia do evangelho. Exemplo dos indígenas dessa nossa região é o culto da generosidade. Para eles, o culto da generosidade é a virtude principal. Ser sovina é ser egoísta, ser avarento, e isso constitui o maior pecado. Essa verdade é um dado do evangelho já presente na cultura deles que deve ser desenvolvido sem precisar abolir coisa alguma.

A hospitalidade é outro costume deles, assim como o respeito à natureza. O branco chega à floresta amazônica com as motosserras e vai destruindo tudo. Os índios vivem há milênios nessa Amazônia e não destruíram nada; aquelas partes pequenas de floresta que às vezes eles derrubam para suas plantações se refazem com facilidade depois de certo tempo. A vida comunitária também é um valor indígena. Tudo isso são sementes do Verbo, pedagogia do evangelho, as quais já existem na cultura deles e devem ser desenvolvidas, e não abolidas. É essa a nossa teoria: uma teoria que brotou na convivência com eles.

 

IR. CECÍLIA: O senhor concorda com alguns bispos da Amazônia que dizem que missão nessa região é missão ad gentes? Por quê?

DOM WALTER: Em primeiro lugar, é necessário definir o que é ad gentes. Digo isso porque certa vez, numa reunião nacional de cunho missionário, durante três dias se estudou a evangelização ad gentes e, no último dia, um que estava ao meu lado perguntou: “O que é evangelização ad gentes?” Quer dizer, nos três dias ele estava por fora daquilo que se falava. Considero missão ad gentes ir evangelizar não só o pagão, mas também todo aquele cuja cultura é diferente da nossa, o que, portanto, exige de nossa parte humildade profunda, estudo aprofundado e convivência prolongada, numa atitude de respeito para com um povo e a sua cultura, a fim de conseguirmos penetrar as expectativas íntimas — também religiosas — desse povo e evangelizar com base nelas. Se não fazemos isso, se não sabemos o que eles acham essencial e necessário, nós aí ficamos a pregar aos ventos.

É nessa linha que se desenvolve a ação de muitos missionários e missionárias, como a das irmãs que foram para o meio dos índios tapirapés, há muitos anos. O primeiro passo, o primeiro esforço, foi o da convivência, que significou não só estar presente no meio deles, mas também conviver solidariamente com todos os seus anseios e necessidades. Depois dessa convivência, começaram a conhecer a língua, a cultura, conhecer mais profundamente aquilo que eles viviam e sentiam.

O segundo passo, o serviço, vem ao encontro das mais diversas necessidades deles, tanto materiais como espirituais.

O terceiro passo se traduz no anúncio de Jesus Cristo, que não precisa ser adiado indefinidamente. Podemos falar de Jesus Cristo desde o começo, como fazemos com os índios mais distantes da nossa cultura — os ianomâmis, por exemplo. Eles conhecem Jesus Cristo e o amam desde já, muito antes de perceberem e conhecerem que ele é o Filho de Deus. Não era assim entre os hebreus? Quando Jesus perguntou: “Quem sou eu, no dizer das multidões?”, eles responderam: “Nós achamos que você é um grande profeta, João Batista, o Elias que voltou a terra”. “Mas o que vocês mesmos, apóstolos, pensam dele?”, Jesus continuou. Então São Pedro respondeu: “Você é o Filho de Deus; nós acreditamos que você é o Filho de Deus”. Jesus disse: “Pedro, você disse isso porque Deus Pai lhe revelou”.

Então, aos indígenas e a todos os povos que não conhecem Cristo, devemos apresentá-lo em todos os momentos da vida deles que sejam acontecimentos salvíficos, mesmo antes de conhecerem que ele é o Filho de Deus. Vão venerá-lo e amá-lo como os hebreus o fizeram, seguindo-o e escutando-o muito antes de saberem que ele não era simples profeta, mas muito mais: o Filho de Deus. Isso se dá com todos os povos. Por isso, não devemos adiar o anúncio; enquanto lhes prestamos serviço e temos com eles uma convivência pacífica, esses povos vão conhecendo os fatos da vida de Jesus e com o tempo vão também amá-lo e adorá-lo como Filho de Deus.

É isso que achamos que seja ad gentes: não só aos pagãos, mas àqueles que ainda conhecem Jesus imperfeitamente.

 

IR. CECÍLIA: Como o senhor reage diante das críticas de várias ONGs e instituições que acham que o trabalho dos missionários, muitas vezes, serviu mais para destruir ou enfraquecer a identidade indígena, negando aos índios o direito de cultivar as suas tradições, línguas e culturas?

DOM WALTER: Essa acusação à ação missionária de destruição ou desestruturação da cultura indígena, nós a escutamos aos montes vinda da parte de muita gente. Qual é a nossa reação? Em primeiro lugar, precisamos ter um alto grau de autocrítica, examinar em que erramos ou podemos ter errado, porque os missionários do passado vieram com muita boa vontade e com uma dedicação e desprendimento de si mesmos admiráveis, porém sem o conhecimento de antropologia cultural, algo hoje indispensável. Portanto, podem ter errado e podemos ainda hoje estar errando. No passado, faltou-nos uma base antropológica; por isso, devemos sempre escutar as sugestões de antropólogos sérios e honestos. Aliás, devemos ter um diálogo aberto, de igual para igual, com eles, baseando-nos também num conhecimento mais profundo da antropologia cultural — essa é a primeira reação.

Segunda reação: muitas críticas feitas provêm de pessoas agnósticas, que pretendem reprovar tudo o que seja evangelização, achando que a pregação da fé em Jesus Cristo desestrutura e destrói a cultura indígena porque tudo nesta é baseado no sentimento religioso dos índios. Ora, isso é um preconceito aplicado sem critério. Cristo trouxe uma mensagem, e não uma cultura; o evangelho não é uma cultura nova que vem se sobrepor a outras, mas uma mensagem que se adapta a todas as culturas sem destruí-las e se resume na lei do amor.

Muita crítica — é um terceiro critério — provém de pessoas que querem conservar os índios como objeto de estudo e, portanto, pô-los debaixo de uma redoma e isolados de todos os outros, para que elas possam continuar os seus estudos. Nós consideramos os índios como irmãos, detentores dos mesmos direitos. Hoje os índios já não querem ficar isolados. Eles mesmos procuram contato com as outras culturas, então têm de ser preparados e educados para não serem destruídos por elas, porque muitas realmente os consideram inferiores. E não é assim.

Do mesmo modo que os índios têm o direito de conservar seus costumes, também religiosos, têm o direito de conhecer Jesus Cristo, que o missionário anuncia, o Cristo que propõe sem impor, que está indo ao encontro desse direito e não está destruindo nenhuma cultura. Agora, o estudo da missiologia nos seminários é, ao mesmo tempo, teologia missionária e antropologia cultural aplicada à evangelização. Então os missionários novos, daqui a 20 ou 25 anos, serão mais preparados para abordar as culturas indígenas com grande respeito e, ao mesmo tempo, evangelizar corajosamente, sem medo, porque não destruirão nada daquilo que os próprios indígenas consideram como valores.

 

IR. CECÍLIA: O que o senhor diz sobre evangelização inculturada? Como seria uma liturgia inculturada?

DOM WALTER: Fiz um trabalho de pesquisa sobre a origem da palavra inculturação. No entanto, ela depois se tornou uma palavra que todos usam para tudo, às vezes com o sentido não muito exato.

Inculturação é um tema teológico, e não antropológico; portanto, refere-se à mensagem de Cristo, e não somente àquela atitude de uma pessoa de raça branca ou de qualquer raça que se insere em meio a um povo e procura se acostumar com os seus hábitos. Isso aí costuma ser aculturação, no sentido de amálgama entre duas culturas — um tema antropológico.

Inculturação significa, para dar uma definição fácil e popular, exprimir a mensagem de Cristo e celebrá-la na liturgia de acordo com os modos de pensar, de ser e de viver e dos símbolos da cultura a ser evangelizada, de tal maneira que essa mensagem acabe sendo uma segunda natureza nessa cultura e passe a ser expressa no modo próprio de essa cultura celebrar com seus símbolos. Um exemplo: aqui entre os indígenas tucanos ou aparentados com eles e também entre os indígenas banivas, que são de outra raça, mas têm o mesmo costume, há um hábito denominado Dabucuri, festa que fazem quando recebem uma pessoa importante, um povo ou uma tribo inteira que venha visitá-los. Nessa ocasião eles realizam uma dança e uma música enquanto vão apresentando dons para presentes. Em geral estes são coisas simples — frutas do lugar, objetos do artesanato deles e assim por diante.

Pois bem, o Dabucuri tem o sentido de oferta. Todas as vezes em que há uma visita, um grupo de pessoas que visitam, esses índios fazem a oferta durante essa música e em meio a essa dança. Na liturgia do ofertório da missa cabe muito bem o Dabucuri. Depois de conversar com eles e de uma estrita ação deles, aceitaram, com muita alegria, fazer o Dabucuri nas missas de solenidades e em celebrações especiais, uma oferta a Deus na hora do ofertório para que os bens postos no pé do altar sejam depois distribuídos aos mais necessitados. Essa cerimônia indígena se torna, pelo sentido divino, no sentido de entrega a Deus daquilo que a gente tem de melhor, para que isso possa servir às pessoas que mais precisam. É um exemplo de aplicação, na liturgia, das coisas próprias da vida deles.

Contudo, não podemos fazer isso de maneira superficial; um padre que coloque umas penas na cabeça e celebre a missa com aquilo pode estar fazendo uma coisa boa, mas não inculturação. Trata-se apenas de uma adaptação. Inculturação se verifica quando a gente acolhe tudo aquilo que faz parte da cultura do outro, todos aqueles valores da cultura alheia, e os utiliza num caminho para conhecer melhor Jesus e para cultuar melhor, para viver melhor a liturgia. Isso é o que considero inculturação.

 

IR. CECÍLIA: Uma mensagem final…

DOM WALTER: Quero deixar uma mensagem a todos os cristãos, mas principalmente aos jovens. Lembrar que a ideia mestra do Concílio Vaticano II é que toda a Igreja é missionária. Portanto, ressuscitar deve ser nosso esforço; ressuscitar o espírito missionário em todos os cristãos e, mais especialmente, nos seminaristas. Os jovens são naturalmente generosos e propensos a abraçá-lo quando um grande ideal lhes é apresentado. A missão — entendida como “sair de si mesmo em direção ao outro”, principalmente ao irmão carente e pobre — seja esse ideal a ser proposto a eles. Então poderão ser missionários no próprio meio em que vivem, sem que se deixe de estimular a doação ad gentes. O exemplo dos mais arrojados suscitará neles e em todos o aumento geral de missionariedade, e há de crescer também as vocações que partem para regiões onde a cultura ainda é muito diferenciada. Nossa intenção não é modificar ou abolir determinada cultura, mas evangelizá-la e fazê-la impregnar-se de cristianismo. Missionariedade é ter espírito missionário. É esta mensagem que eu gostaria de deixar: que principalmente os jovens, os seminaristas, sejam envolvidos na missão, principalmente por ocasião deste ano da Amazônia. Sejam imbuídos desse espírito e do grande desejo de partir de si mesmos para que o outro encontre a Cristo por meio do seu exemplo.

Cachoeira (AM)

Ir. Cecília Tada