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Publicado em Janeiro-Fevereiro de 2008 (pp. 28-32)

Um pastor no coração da Amazônia: Entrevista com Dom Alcimar Caldas Magalhães — Diocese do Alto Solimões

Por Ir. Cecília Tada

Estamos em Tabatinga, no Alto Solimões da encantadora Amazônia. Encantadora por sua riqueza cultural, étnica, ambiental. Não há como não se embevecer com a exuberância de seus povos, suas matas, rios e tudo que faz da Amazônia o pulmão do mundo. Como seria bom se houvesse apenas essa Amazônia!

Um olhar mais atento para a realidade do Alto Solimões, porém, faz-nos enxergar outra Amazônia, fruto da ganância dos que, sem escrúpulo e sem consciência ecológica, depredam a natureza, dizimam culturas, matam povos. Aqui, a maior parte da população constitui-se de povos indígenas ou de seus descendentes, numa miscigenação peruana e colombiana e com uma maioria vivendo, ainda, de maneira bastante primitiva, apesar de a ciência e a tecnologia mostrarem seu rosto na região.

Como no resto do País, também no Alto Solimões, vive-se o drama do desemprego, da falta de educação e tantas outras carências que desfiguram populações, causando-lhes dor e sofrimento que clamam aos céus. A pobreza é estampada nas precárias condições de vida da maioria da população. Por causa disso, a maioria do povo vive sem perspectivas, em constante mobilidade. A violência cresce e os suicídios se sucedem num índice assustador.

Como devolver a este povo sem voz e sem vez a dignidade de filhos de Deus? De que maneira ajudá-los a resgatar sua autoestima e a convicção do próprio potencial quando estão desempregados, marginalizados e humilhados diante de uma situação subumana de vida? Qual teria sido a atitude de Jesus se hoje viesse até nós? O que ele diria? São perguntas que, inevitavelmente, vêm à nossa mente e ao nosso coração de cristãos compromissados com a vida na justiça e no amor.

Deus, que nunca abandona seu povo, especialmente os pobres e oprimidos, continua suscitando profetas e pastores que o animam, reavivando sua esperança na vitória do bem. No Alto Solimões não é diferente. O profeta-pastor chama-se dom Alcimar Caldas Magalhães.

Filho da terra e, por isso, conhecedor profundo dos reais problemas, plenamente identificado com as lutas de seu povo, dom Alcimar assume seus costumes e sua cultura. Por isso, fora do templo, faz do chapéu de roceiro sua mitra, do terçado e da enxada seu cajado, da capa de chuva sua casula e da bota de borracha seu calçado. É dessa forma que ele se apresenta junto aos pequenos e aos trabalhadores, que se sentem à vontade diante da simplicidade e da pobreza de seu bispo.

Vê-se que dom Alcimar se despojou do seu status de mestre em Teologia Dogmática pela Universidade Lateranense de Roma e de jornalista formado pela Rede Audiotelevisiva Italiana (RAI) para assumir a condição de um “peão” entre os peões, fazendo-se semelhante ao povo em tudo. O discurso sobre inculturação, tão necessário na vida missionária, é muito bonito na teoria, mas, quando vemos dom Alcimar, totalmente esvaziado de si, entendemos o alcance dessa exigência para assumir a condição do povo, tornando-se um irmão entre os irmãos.

Trata-se, sem dúvida, de um jeito diferente de exercer o múnus episcopal, o qual nos faz compreender que não podemos viver só de ideias ou de teorias, só de devoções e piedades, mas saber conjugar ideias, teorias, ação e espiritualidade, de forma que, pela força do amor, pela força do evangelho, se possa ajudar a transformar a realidade, atualizando a promessa de Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Na Amazônia, só se evangeliza pelo amor que se traduz em solidariedade. Sem isso, as pregações e palavras bonitas não ressoarão nesta realidade sofrida do povo sem perspectivas, no meio da floresta, sem energia, sem escola, sem hospitais e com serviços públicos que funcionam mal. Como ensinar o Pai-Nosso aos de barriga vazia e a um povo que não encontra saída para seus dramas?

A solução não está na criação de meios que tornem o povo mais dependente. Ao contrário, é preciso, com dedicação, torná-lo autônomo, independente, libertando-o de todo sistema que o escraviza. É para essa direção que aponta o trabalho de dom Alcimar. Sua inteligência e sabedoria, ele as usa para articular os homens públicos, prefeitos e vereadores em fóruns de debate como o Solifórum e o Sevas (Seminário de Vereadores do Alto Solimões), criando a mesorregião do Alto Solimões. Todo seu esforço é voltado para desenvolver projetos sociais que recuperem a autoestima dos índios, ribeirinhos e marginalizados urbanos e para planejar ações eficazes que evitem o esvaziamento das comunidades ribeirinhas e indígenas.

Dom Alcimar se preocupa, também, com iniciativas que garantam a segurança alimentar nas sedes municipais e comunidades, ameaçadas pelo esgotamento das reservas de pesca e pelo abandono da agricultura familiar. Consciente da necessidade de sempre haver mais gente envolvida na luta pela defesa do povo do Alto Solimões, está permanentemente atento às novas lideranças que vão surgindo, oferecendo-lhes capacitação a fim de que, com base em sua formação ética e cristã, atuem nos meios políticos. Conhecedor profundo do potencial da juventude, tem presença constante nos meios universitários da região.

Contemplando a ação de dom Alcimar e olhando a extensão do Alto Solimões com seus desafios, vem-nos à mente a imagem do Cristo que reconhece a imensidão do campo em contraste com a escassez de operários.

Neste momento, mais uma vez, é dom Alcimar quem nos ensina quando diz que, realmente, é preciso rogar ao Senhor da messe que envie operários para a sua vinha, mas que sejam operários despidos das vestes de mestres e senhores e revestidos do mais nobre sentimento de quem quer amar servindo o outro em sua necessidade e pobreza.

 

Diocese do Alto Solimões

Situada no oeste do Estado do Amazonas, abrangendo uma área de 132.195 quilômetros quadrados, fazendo fronteira com a Colômbia e o Peru e com uma população aproximada de 200.000 habitantes, Tabatinga é a sede da Diocese do Alto Solimões. A diocese constitui-se de sete municípios, 331 comunidades e oito paróquias, contando com seis padres diocesanos e dez religiosos. As congregações religiosas femininas presentes são apenas três, e há duas masculinas. Há três anos, uma equipe missionária itinerante integra a caminhada eclesial, com núcleos em Manaus e Tabatinga. Dezoito denominações religiosas estão espalhadas em toda a diocese, com centros de formação de seminaristas e leigos missionários.

 

Entrevista realizada em Tabatinga

VP — Ao longo dos municípios que constituem a sua diocese, o senhor protagoniza a execução de projetos de desenvolvimento sustentável em vários sítios da diocese e em sítios de particulares. O que levou o senhor a fazer essa opção?

Dom Alcimar — Esse exemplo visível de solidariedade se iniciou com meu predecessor, dom Adalberto Marzi. Foi ele que começou a reunir prefeitos, vereadores e lideranças na tentativa de criar um ambiente favorável ao desenvolvimento da região. Claro que, sendo filho da terra e com família em todo o Alto Solimões, eu tinha mais condições de conhecer a realidade e os mecanismos que atuam em seu empobrecimento. Foi por isso que me dediquei ao trabalho de reunir as lideranças, de tentar aproximar os prefeitos entre si, para criar um pensamento mais coerente e abrangente e promover não iniciativas isoladas, mas iniciativas em toda a região, a fim de dar-lhe um rosto. Esse trabalho irrompeu então como uma pastoral de fundo político, de fundo de compaixão, como uma pastoral social com um âmbito maior. Fruto do esforço que não é só meu, mas principalmente das lideranças, foi o aparecimento do consórcio dos municípios, o fórum da mesorregião, ligado ao Ministério da Integração, em razão do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) baixíssimo da região, um dos piores do País. E surgiu também uma pastoral voltada para problemas mais concretos e profundos, como a segurança alimentar e a produção de alimentos compatíveis com as culturas indígenas, além de um conhecimento maior do empobrecimento da região e o Solifórum (Fórum de Desenvolvimento Integrado do Alto Solimões). Claro que tudo isso atraiu as atenções de políticos, de ONGs e de pessoas atentas aos processos sociais. A diocese não pretende ser a responsável por puxar para a frente essa “carroça”: fazemos votos que políticos, lideranças e universidades sejam instâncias transformadoras de tal realidade. A universidade do estado, um dos frutos dessa mobilização, tem, hoje, exuberante clientela com mais de 1.500 alunos em cursos básicos como a formação de políticos, professores, lideranças e técnicos. Estamos ainda iniciando essa universidade, que certamente vai trazer muitos benefícios e vai mudar o rosto desta nossa região.

 

VP — Como se dá o trabalho social da diocese com as diversas entidades, como o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), o Idam (Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Amazonas), o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e outros? Quais as vantagens e os benefícios para a porção do povo de Deus da diocese?

Dom Alcimar — A relação é normal. Por enquanto, a diocese cuida da evangelização como tal, então é mais do que natural que tentemos trazer para a região técnicos, soluções científicas no campo da agricultura, da piscicultura, da produtividade, da organização das comunidades, em forma de associações, de sindicatos, de colônias de pescadores, de todos esses organismos de que dispomos e de outros que possamos trazer para cá. É mais do que normal, por ser condizente com o tipo de trabalho apostólico que escolhemos. Nós escolhemos isso.

 

VP — No início da Igreja, a expansão do cristianismo obrigou os apóstolos a tomar uma decisão: “Não está certo que nós abandonemos a pregação da palavra de Deus para servirmos as mesas” (At 6,2). Como o senhor concilia a sua dedicação aos dois projetos, que são importantes?

Dom Alcimar — Nós podíamos ter escolhido catequese, cursos de Bíblia, outros tipos de presença pastoral, mas pareceu-nos — a nós e ao Espírito Santo — que deveria ser assim. Parecia ser esse o clamor mais forte, mais urgente, mais cristão, mais humanitário que estávamos percebendo. Por algum tempo, os apóstolos serviam também as mesas e, quando a coisa amadureceu, eles puderam ser liberados. O Alto Solimões já amadureceu o suficiente para abandonarmos o serviço da mesa? É uma pergunta. Em segundo lugar, acredito que, em qualquer circunstância, aqui ou em Roma, aqui ou em qualquer parte do mundo, a Igreja tenha de fazer as duas coisas. Se a evangelização é totalmente desencarnada, totalmente de sacristia, a palavra não convence. Foi essa razão, a meu ver, que levou Jesus a fazer milagres e dizer “deem vocês mesmos de comer”, porque o povo daquele tempo, como o nosso, poderia estar saciado de palavras, mas elas não enchem barriga. Quando a barriga está vazia, a fome é péssima conselheira e não leva ninguém a ser solidário, fraterno e irmão. Veja as canoas da nossa região. Nós remamos de um lado; quando a canoa toma a direção, remamos do outro. Acho que assim deve ser: no momento estamos remando de um lado, talvez aparentemente mais do lado do social, com essas preocupações, porque estamos vendo nosso povo migrar para as grandes cidades. Nossa diocese vai ficando deserta. Daqui a pouco será melhor transferir o bispo e a diocese para a periferia de Manaus. Enquanto houver gente aqui, será preciso que os acompanhemos, lendo os sinais do tempo, remando a canoa, ora de um lado, ora de outro ou, às vezes, com ambas as mãos, para que a evangelização seja confirmada pela solidariedade, pela preocupação com a vida humana, e esta seja iluminada pela palavra de Deus, pela catequese. E esse binômio tem de ser administrado pelo Espírito Santo, pelos pastores e pelo povo de Deus, com muita sabedoria, muita serenidade.

 

VP — A extensão territorial da Diocese do Alto Solimões é grande, os operários são poucos para atender a todos, muitos se sentem como ovelhas sem pastor, o medo toma conta de muitos diante da violência crescente: como o senhor se sente diante desses desafios?

Dom Alcimar — Os desafios daqui são sui generis. Os desafios de fronteira não poderiam ser diferentes, diante da convivência de muitas etnias e de muitos interesses. O desnível existente entre Peru, Brasil e Colômbia leva a essas migrações, a essa mobilidade humana, e isso importa em problemas. Como me sinto? Como se sente a Igreja. A Igreja vai tentar acompanhar de forma bem responsável, fraterna, e não quer ser a Igreja do Brasil ou do Peru. Ela é única, mãe e mestra de todas essas etnias e de todo o povo de Deus. Por isso é que nós trabalhamos, os bispos da região. Pela parte que me toca, procuramos fazer um trabalho que poderia ser até melhor, quanto às vocações, à organização da catequese propriamente dita, à evangelização de anúncio, à evangelização de testemunho, na qual devemos pensar muito. Um anúncio sem testemunho, sem caridade, sem a participação do coração e da fraternidade não tem credibilidade, não tem raízes, não permanece por muito tempo. Quero entender esses desafios como fruto do ambiente em que vivemos, dos tempos de desorganização social em que estamos vivendo. O tráfico de drogas, por exemplo, gera violência, problemas de relacionamento, destruição, o enfraquecimento de estruturas como a família, a escola, a profissão, o trabalho. Essas coisas, tomadas como naturais, como pertencentes a esse universo de fronteira, é que, com a graça de Deus e com a ajuda de outras dioceses, poderíamos tranquilamente solucionar.

Nossa Igreja está aberta. Certamente as distâncias, a especificidade do trabalho tipicamente de fronteira são um alarme e uma preocupação. Às congregações que desejam enviar membros para um trabalho, eu diria que aqui não é uma coisa tão terrível, não há por que se alarmar, não há por que ter medo, porque o povo daqui tem um coração extremamente generoso, bom, cristão. Os indígenas não são indígenas que tenham animosidade para conosco, pelo contrário, são irmãos fraternos. Então eu diria às congregações que nos visitem e, possivelmente, venham aprender conosco. Nós estamos numa escola espetacular de convivência evangélica, de encontro de raças, cultura e etnias, e isso pode favorecer extremamente as vocações dessas congregações. Daqui saíram muitas irmãs para o Brasil, e nós temos seis sacerdotes da cidade. Poderiam ser 10, 12, 20 ou mais. Ocorre somente que a formação de agentes — todos os superiores sabem — é custosa, porque requer cursos, viagens, experiências e contatos. Aqui na fronteira, fazer esse tipo de preparação de agente é dispendioso, porquanto são viagens que custam sempre mais de mil reais, ida e volta daqui para Manaus, e de Manaus para Brasília outro tanto. Então, se somos poucos, quero pensar diante do divino Pai que somos o suficiente. Não vejo grande problema em sermos poucos, pois acho que é a oportunidade de sermos humildes, abertos para receber a ajuda de quem queira ser irmão nosso, viver a experiência de Deus junto conosco aqui na fronteira.

 

VP — Quais são as perspectivas pastorais e evangelizadoras da diocese diante da realidade de fronteira e a partir das grandes intuições de Aparecida, que provocam um grande mutirão missionário?

Dom Alcimar — São as perspectivas que a gente vê; está tudo aí para descobrir. Aparecida ocorreu ontem e pouca informação nós temos aqui. Há uma leitura aqui ou acolá. Esse mutirão de evangelização da América Latina nos atinge em cheio, porque aqui temos a encruzilhada dessa América Latina, com um Peru que está descendo a montanha e vindo para a floresta, a floresta do Departamento de Loreto, de Iquitos (respectivamente, unidade administrativa do Peru e sua capital), com uma migração que converge para a fronteira brasileira. Nossos caminhos se cruzam com os caminhos da Colômbia por causa dos fugitivos da guerrilha e dos desentendimentos existentes naquele país, os quais buscam também entre nós uma convivência mais fraterna, mais tranquila, com maior paz. De nossa parte, temos todas as etnias indígenas, principalmente a tribo ticuna, que hoje se diz a mais numerosa de todo o Brasil, com 40.000 indivíduos aproximadamente, e espera muito de nós. Etnias como os marubos, os matises, os canamaris e uma série de outras que estão “renascendo das cinzas”, como os cambebas, os cocamas e aquelas que se julgavam extintas e hoje, dadas as facilidades, as benesses que o governo concede aos indígenas, estão querendo retomar o seu passado indígena. Essa é, a meu ver, uma messe, um campo de ação muito parecido com aquilo que Aparecida indica como um caldeamento de raças desta nossa América Latina e, portanto, como um desafio maior para a missionariedade da nossa mãe Igreja.

Ir. Cecília Tada