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Publicado em Maio-Junho de 1999 (pp. 9-11)

Milenarismo e esperança escatológica hoje

Por Prof. Renold J. Blank

A mensagem cristã é escatológica por natureza, mas em nada deve ser milenarista. Acentuar essa distinção no final de um milênio é particularmente essencial para recuperar a profunda dinâmica transformadora da esperança escatológica, ameaçada desde o início por um pensamento milenarista mal interpretado. Nesse pensamento em nada contam os anos, em termos numéricos de mil — de tal modo que, após mil anos numéricos, considera-se completo o milênio.

 

1. Perspectiva milenarista

Um milênio, na perspectiva do milenarismo original, não deve contar necessariamente mil anos. Um milênio é uma época histórica que se completou, nada mais.

Na perspectiva do milenarismo, toda a história do cosmo é composta pela justaposição de tais épocas — das quais, uma é independente da outra. Uma época precedente pode servir de exemplo e modelo para a seguinte. Nada mais. Quando uma dessas épocas terminar, acontecerão crises e catástrofes. Elas servem de sinais para o início de algo novo, diferente. Trata-se de nova etapa histórica chamada novo milênio. Assim pensa o milenarismo.

Nessa visão, a justaposição de épocas repete-se até chegar a última delas, onde é atingida a plenitude e a perfeição das épocas precedentes. O nome dessa época histórica varia conforme as culturas. Na cultura greco-romana era chamada de “época de ouro” e na cultura judaico-cristã de “Reino de Deus”. O que caracteriza tal época é a plenificação da história, o cume, o fim último, a perfeição e a realização de todas as esperanças humanas.

Antes de alcançar tal estado, podem acontecer holocaustos e catástrofes durante as épocas históricas intermediárias. Podem ocorrer “fins de mundo” que, conforme a respectiva cultura religiosa, são descritos com mais ou menos crueldade. Esses “fins de mundo”, conforme a mentalidade da época ou do sistema religioso ou político, são apresentados de maneira mais ou menos ameaçadora.

Quanto mais ameaçadora, maior o medo e também maior a tentativa de fugir de tal milênio ou período histórico — para entrar no milênio prometido.

Quanto maior, por sua vez, tal aspiração, tanto menor se torna o interesse em transformar e melhorar a época presente — havendo diminuição proporcional da ênfase e do engajamento nas questões e nos problemas da vivência concreta.

Com essa constatação atingimos o centro da problemática da concepção milenarista, que marcou e continua marcando o pensamento de tantos cristãos. Trata-se de atitude conhecida em nossa história. Atitude alienante que, do passado até hoje, desviou o interesse dos cristãos do mundo, para dirigi-lo de maneira unilateral em direção a uma preocupação individualista de como salvar a própria alma. Trata-se dá atitude milenarista bem vista e perigosa ao mesmo tempo.

Bem vista por todos os que não estão interessados em cristãos engajados com os problemas deste mundo. Atitude cortejada e propagada por todos aqueles que tiram proveito de uma religião que gera medo e se fecha em si mesma. Desse modo podem manter ou aumentar os seus privilégios, poder e interesses, enquanto as grandes massas de fiéis preocupam-se com a salvação individual.

Essa atitude é perigosa para todos os que se deixam seduzir por tal milenarismo. Esses correm o perigo de se fechar, no individualismo religioso, no legalismo rígido, no emocionalismo vazio — que tão bem correspondem aos interesses dos sistemas de poder e de exploração. Atitude igualmente perigosa porque, quanto mais os adeptos de tal pensamento se fecham em seu mundo, tanto menos se tornam capazes de seguir aquilo que seria a sua tarefa — conforme o desejo de Jesus. Tornam-se cada vez menos capazes de realizar o que a Igreja formulou como o grande desafio para todos os cristãos.

 

2. Desafios para alcançar um novo milênio

Tal desafio é profético e incômodo, esquecido por uns e escondido por outros — visto que tal ação religiosa incomoda a eles e aos sistemas de poder e de exploração, que acobertam todos os tipos de interesses pessoais e grupais.

Não obstante isso, a nossa Igreja assim se pronunciou:

•   “Ajudar o homem a passar de situações menos humanas a situações mais humanas” (Puebla 9; Santo Domingo 160, 169, 179, 199).

•   “Construirmos no meio deles uma sociedade mais fraterna” (Puebla 90; Santo Domingo 20, 157, 164, 168, 180, 206, 243, 296).

•   Criar organismos de solidariedade em favor dos que sofrem, de denúncia contra as violações e de defesa dos direitos humanos” (Puebla 92; Santo Domingo 168, 177, 185, 253).

•   “Encorajar a opção de sacerdotes e religiosos pelos pobres e marginalizados” (Puebla 92; Santo Domingo 178, 179, 249, 255, 296).

 

Essas palavras, pronunciadas de maneira profética pelos nossos bispos, soam hoje mais revolucionárias do que quando foram formuladas. Elas soam revolucionárias porque uma mudança de eixo, no pensamento de muitos cristãos, fez com que se esquecessem de que em tais palavras encontrariam a sua verdadeira vocação — em atendimento à vontade de Jesus Cristo, o Filho de Deus, fundamento e base de nossa fé.

Jesus, com sua vida, realizou o que a Igreja lembrou nas expressões que elencamos acima. Quando Jesus nos chama a segui-lo, quer que façamos o mesmo que ele fez: “Vem e segue-me!”.

Tal seguimento, porém, incomoda. Incomoda os cristãos e a própria estrutura da Igreja.

Especialmente por causa disso, há muitos que se deixam seduzir, neste final de século, por um novo pensamento milenarista. Tal pensamento pode ser marcado pelo medo de um eventual fim do mundo ou por um novo triunfalismo que canta glória ao Senhor.

O perigo é, mais uma vez, esquecer, a palavra do Senhor de que a maior glória a ele é dada quando os seus seguidores realizam a vontade do Pai: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos céus, mas quem fizer a vontade do meu Pai” (Mt 7,21). Essa vontade não é caracterizada pelo legalismo ou individualismo, nem pelo medo de um possível holocausto ou pelo triunfalismo religioso, mas pelo serviço ao irmão e à irmã (cf. Mt 20,25-28). Serviço que a própria Igreja formulou no Concílio como sendo o seu objetivo mais direto (Gaudium et Spes 3; Puebla 260).

Diante de tais desafios, a questão mais urgente, neste final de milênio, não é a preocupação milenarista sobre um eventual fim do mundo. Também não pode ser a celebração triunfalista de um novo milênio que começa.

Numa perspectiva escatológico-milenarista, um novo milênio — nova época histórica — não começa com o ano 2001, nem no ano 3001, nem em nenhuma outra data milenária. Também não começa com um holocausto iminente. Inicia a partir do momento em que os cristãos começarem a realizar de verdade aquela que é a sua grande vocação, formulada por Jesus.

O verdadeiro novo milênio começa a partir daquela data em que os cristãos e cristãs começam a realizar a transformação deste mundo conforme os critérios do Reino de Deus. O verdadeiro novo milênio começará a partir de uma mudança de mentalidade, em que cristãos e cristãs compreenderão que a conversão individual é apenas o primeiro passo na realização de sua verdadeira vocação, que é a conversão do mundo e de todas as suas estruturas opostas à vontade de Deus.

O verdadeiro novo milênio inicia a partir do momento em que a Igreja, como um todo, começa a realizar as grandes opções de Jesus. Opções que, como todo o mundo sabe — e que tantos parecem ter esquecido — permanecem as seguintes:

•   Opção pelos pobres (Lc 4,18; Mt 5,1-11).

•   Opção pelo serviço e contra o poder (Lc 22,24- 26; Mc 9,35; 10,43; Jo 13,4-16).

•   Opção pela misericórdia e contra o legalismo (Mt 12,7; Mc 2,27).

•   Opção pela vida e contra as estruturas de morte (Jo 10,10; cf. as curas).

•   Opção pela justiça (Lc 4,18-19).

 

A realização dessas opções por parte da Igreja e por parte de todos os homens de boa vontade significará o verdadeiro fim de um mundo. Mas não será o fim exterior do mundo material, tão esperado pelas várias correntes do milenarismo. Será, pelo contrário, o verdadeiro fim de um mundo interior. Será o fim de um mundo anti-Reino e do pecado.

O verdadeiro fim de um milênio é o que marca o final de uma época histórica de muitos anos em que se falava de Deus, mas não se realizava sua vontade. Trata-se do final de uma época histórica marcada por características opostas às opções de Deus. Quando essas características do anti-Reino desaparecem, pode-se de fato falar do verdadeiro fim do mundo.

 

3. Significado de um novo milênio

A realização das opções de Deus — à qual Jesus nos chamou — significará, por outro lado, o começo de um novo mundo. O início de um mundo de Deus, de um mundo onde Deus reina, de um Reino de Deus. Esse Reino com certeza virá, mas a sua vinda, além de Deus, depende também de nós. O seu início significará o término de todo e qualquer pensamento milenarista e o começo daquilo para o qual todos somos chamados a realizar: o Reino de Deus.

Nisso reside o cume e o fim último de toda a esperança escatológica. Realização do plano escatológico e cósmico de Deus. Realização para a qual nós todos somos chamados a colaborar.

Prof. Renold J. Blank