Artigos

Publicado em Maio-Junho de 1999 (pp. 23-30)

Milenarismo não é só Idade Média

Por Pe. Alberto Antoniazzi (Comissão Nacional de Presbíteros — CNP-30)

O ano 1000 passou, mas o milenarismo continua como esperança dos pobres

1. A origem do milenarismo

Depois dos primeiros artigos deste mesmo número da revista, já deve ter ficado claro o que é o milenarismo. Trata-se de uma crença de origem judaica, que penetrou no Novo Testamento e nas primeiras comunidades cristãs. Na versão acolhida pelo livro do Apocalipse (cf. Ap 20,4), um reino de mil anos de paz se estabelece sobre a terra entre o “primeiro” Juízo de Deus e o Juízo final, quando a Jerusalém celeste descerá sobre a terra e Deus habitará no meio dos seres humanos.

Há outras versões dos acontecimentos “escatológicos” (isto é, do final dos tempos), entre os antigos autores cristãos; a descida da Jerusalém celeste se daria já durante o reino de mil anos[1]. Com essas versões se misturou a profecia “sibilina”, do século IV, que previa o fim do Império Romano, mas após uma restauração de 100 anos de paz e felicidade por obra de um imperador, descendente ou sucessor do grande Constantino. A profecia teve ampla divulgação na Idade Média, porque foi incluída numa obra do século X, amplamente reproduzida em manuscritos e, finalmente, impressa no início do século XVI, a “Origem e tempo do Anticristo“, do abade Adson de Montier-en-der.

É verdade que o milenarismo encontrou adversários poderosos e a interpretação de Santo Agostinho predominou e foi aceita como ortodoxa, isto é, doutrinariamente correta, coerente com a doutrina oficial da Igreja. Agostinho interpretava os 1000 anos como um tempo simbólico, de duração indefinida, o tempo da salvação pela Igreja, entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. Mas o milenarismo que esperava “mil anos de felicidade” sobre a terra nunca desapareceu completamente e provocou movimentos religiosos importantes, ora liderados por profetas cultos, ora formados principalmente por massas de pobres.

Minha tarefa é rastrear o milenarismo cristão na Idade Média e apontar algumas reflexões para hoje. Naturalmente não tentarei um relato completo ou pormenorizado, mas selecionarei os exemplos mais significativos para o leitor que quer ser atualizado[2].

 

2. A questão do ano mil

O historiador Jules Michelet, em sua História da França (1833-46), espalhou a ideia de que o ano 1000 teria sido aguardado pelo povo numa atitude que misturava terror (do Juízo) e esperança (castigo dos ricos, triunfo dos pobres).

A crença no terror do ano Mil não parece totalmente superada, apesar de muitos historiadores do século XX terem demonstrado que não há nenhuma prova consistente a respeito e que, além do mais, o povo nem tinha consciência de estar no “ano do Senhor” de nº 1000 (ou 1000 d.C.), pois esse sistema de datação estava longe de ser usado comumente nessa época.

Alguns historiadores acharam — e veremos exemplos — traços de crença na próxima chegada dos fins dos tempos perto do ano 1000. Todavia, esqueceram-se de que essa crença não é típica do final do século X ou início do século XI, mas algo que penetra permanentemente a fé cristã na Idade Média e mesmo depois[3].

Um documento que atesta algum interes­se para com o ano mil, posto em relação com o nascimento de Cristo e com a ideia de uma “nova terra”, aparece na “Historia” de um monge, Rodulf (ou Raoul) Glaber (nascido em cerca de 990; †1046 ou logo depois, no norte da França)[4]. Glaber exalta especialmente a história de Cluny, a famosa abadia que renova o monacato beneditino no século X. Mas ele relata prodígios que teriam acontecido no ano mil, como a aparição — durante três meses — de um cometa particularmente brilhante, assim como desgraças (incêndios, tremores de terra, heresias e até depravação do clero), que muitos temiam serem sinais da chegada do Anticristo.

Glaber, de qualquer forma, e o mundo todo sobreviveram ao ano 1000. O monge cluniacense viveu até ver o ano de 1033, que considerava o milenário da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. E, após outros temores do fim do mundo, viu o que lhe pareceu ser o renascimento da humanidade, acolhido com alívio por todos. “No milésimo aniversário da paixão do Senhor, as nuvens desapareceram em obediência à misericórdia e bondade divinas e o céu sorridente começou a brilhar e a soprar brisas suaves.” Glaber já tinha citado como exemplo de renovação religiosa a construção das igrejas depois do ano mil, numa página que tem um toque de poesia: “Deu-se por todo o orbe da terra, especialmente na Itália e nas Gálias, um surto de construção de igrejas basilicais. Cada povo cristão se tornou êmulo dos outros para erigir (as igrejas) ainda com maior nobreza. Era como se o mundo, tendo-se sacudido e lançado fora o antigo, se estivesse revestindo com a cândida veste das igrejas”[5]. A isso Glaber acrescenta o exemplo da “paz de Deus” — que pode ser considerado milenarista, no sentido de que se trata de um movimento religioso com apoio popular para convencer os nobres — sob a ameaça de castigos divinos — a deixar de fazer a guerra, que fazia sofrer as populações da França no início do século XI.

De qualquer forma, o problema histórico não é demonstrar que houve temores apocalípticos ou esperanças milenaristas ao redor do ano mil. O problema é demonstrar que isso não era frequente ou até constante durante a Idade Média toda ou, melhor, durante toda a história do cristianismo.

 

3. O Apocalipse não é apenas o último livro da Bíblia

Em outras palavras — e isso diz respeito também a nós, cristãos, na véspera do ano 2000 — parece correto pensar que temores e esperanças suscitados pelo livro do Apocalipse não são apenas fato ligado a datas ou períodos especiais do tempo, mas uma dimensão permanente da fé cristã.

A discussão dessa tese, que hoje parece encontrar mais seguidores[6], nos leva a discutir o próprio significado do Apocalipse e da apocalíptica na Bíblia. O tema é demasiadamente amplo para ser desenvolvido aqui e agora. Baste, porém, pensar que a apocalíptica é, na Bíblia, a expressão da certeza de que Deus vencerá um dia o mal e, de modo particular, esmagará o Diabo, a “antiga Serpente”, e da esperança de que isso acontecerá em breve e que os pobres e perseguidos poderão gozar, junto de Deus, de “mil (infinitos) anos de felicidade”.

Essa certeza e essa esperança fazem parte da fé cristã e na Bíblia aparecem desde o início, desde a promessa de Deus à mulher e à sua descendência depois do primeiro pecado (cf. Gn 3,15). É, portanto, natural que tal esperança esteja presente no decorrer da vida da Igreja. E é também natural (ou, pelo menos, sociologicamente compreensível) que as comunidades cristãs expressem mais vivamente essa esperança nas diversas formas de “milenarismo” quando perseguidas, ou sujeitas a traumas violentos, ou frustradas e privadas das condições de vida a que estavam acostumadas[7].

 

4. As Cruzadas dos pobres

Até o século X, a Idade Média não desconhece a espera do Juízo final, mas ela não se traduz em movimentos coletivos de pânico e/ou de esperança, que julgam iminente a transformação do mundo. A Igreja, embora mantenha viva a esperança da vitória de Cristo sobre o mal e, paralelamente, o temor do Juízo divino, evita cuidadosamente criar um clima de expectativa de um Juízo final iminente[8].

No final do século XI, com a proclamação da Primeira Cruzada (1096), surge o primeiro grande movimento coletivo de inspiração milenarista. A situação é complexa e os fatores que a determinam são numerosos. De fato, ao lado da Cruzada dos nobres, militarmente preparados para responder ao apelo do Papa Urbano II — que queria mais ajudar o Imperador cristão do Oriente do que reconquistar Jerusalém — forma-se uma Cruzada dos pobres, movidos tanto por motivos espirituais — a reconquista de Jerusalém, pensada como a terra da Paixão de Cristo e do perdão de todos os pecados — quanto por motivos materiais: a fome e a insegurança que deixavam para trás e a esperança de encontrar em Jerusalém um lugar de bem-estar e felicidade terrena.

Os pobres, animados por pregadores populares, partiram para a Cruzada fugindo ao controle dos nobres. Muitos pobres se perderam e morreram pelo caminho, não sem ter matado antes muitos judeus que recusavam o batismo forçado. (“Se vamos a Jerusalém combater os inimigos de Cristo, por que poupar os inimigos de Cristo que vivem em nossas cidades?” — raciocinavam esses cruzados. Além do mais, os judeus eram muitas vezes mais ricos que os pobres cristãos. E eram protegidos por bispos e burgueses, mas odiados pelo proletariado faminto, que não respeitava nem mesmo a hierarquia eclesiástica, que em vão tentou defender os judeus nas cidades da Alemanha e da França.) Ao massacre dos judeus na Europa, acrescentou-se o dos habitantes — muçulmanos e judeus — de Jerusalém, tomada em 1099, sem que os nobres e bispos conseguissem deter seus soldados e os “pobres” cristãos em sua fúria assassina.

 

5. A perversão do milenarismo: da paz para a violência

Como é possível que uma ideologia, inicialmente pacifista, como o milenarismo, se transforme de tal jeito a ponto de chegar a produzir o seu oposto, os massacres de inocentes? Certamente o milenarismo não é a única utopia que chegou à perversão. Talvez as trágicas condições do povo na Europa dos séculos IX e X — a “idade das trevas”, segundo os historiadores, cheia de guerras, invasões, fome e pestes — expliquem a dureza de coração desses cristãos que acreditavam lutar contra o Anticristo e apressar a salvação do mundo, enquanto matavam judeus e muçulmanos. Mas também a pregação dos “profetas” populares garantiu ao povo cristão que estes estavam fazendo a vontade de Deus. “Deus le volt!”(Deus o quer) foi o grito que deu início à Primeira Cruzada.

Na Segunda Cruzada, a de 1147-49, a crença milenarista num Imperador que salvaria os pobres e instauraria uma era de felicidade atuou ainda fortemente. Mas a 3ª e a 4ª Cruzadas foram ações essencialmente políticas dos reis europeus, que não deixaram espaço para a atuação dos pobres. Estes acabaram organizando infelizes e malsucedidas expedições sozinhos sem nenhum recurso, como a “cruzada” pregada por Foulques de Neuilly (1198), que fracassou muito antes de chegar à Terra Santa, ou a “Cruzada das crianças”, de 1212. Na realidade, foram duas Cruzadas (uma francesa e uma, maior, a partir do vale do Reno), que também acabaram mal, com a morte dos participantes ou a venda dos sobreviventes como escravos para a África. Por mais de um século ainda, apesar dos insucessos, repetiram-se frequentes expedições de pobres para a Terra Santa, sempre esperando uma iminente aparição de um Rei ou Imperador, que salvaria os pobres e derrotaria as forças do Anticristo.

 

6. Outra deformação: a Igreja vira o Anticristo!

É curioso que, a partir do século XIII (300 anos ou mais antes de Lutero), alguns profetas milenaristas tinham incluído entre as forças demoníacas, a serviço do Anticristo, o próprio clero católico e, rapidamente, a alta hierarquia, bispos e papa. Norman Cohn explica o fenômeno como uma necessidade: “Todo o movimento milenarista era, de fato, quase obrigado, pela situação em que se encontrava, a considerar o clero como uma fraternidade demoníaca. Um grupo de leigos chefiado por um guia messiânico e convencido de ter sido encarregado por Deus da missão altíssima de preparar o caminho para o Milênio, tal grupo encontraria na Igreja institucionalizada, na melhor das hipóteses, uma oposição intransigente e, na pior, uma impiedosa perseguição”[9]. Na teoria milenarista, o Anticristo agiria através da fraude. Onde o Anticristo poderia se disfarçar melhor do que debaixo das vestes do papa e dos prelados? Rapidamente a Igreja de Roma foi identificada com a Babilônia, a cidade símbolo do poder demoníaco, o contrário da sonhada Jerusalém descida do céu.

 

7. O santo Joaquim de Fiore e o radicalismo de seus discípulos

A oposição à hierarquia de turbulentos grupos de pobres, mesmo inspirados por sinceros sentimentos religiosos, não teria produzido maiores perturbações na cristandade, se nova visão teológica, altamente sedutora, não tivesse encontrado extraordinária difusão graças também à mais florescente e dinâmica ordem religiosa do século XIII.

Ao longo do século XII, estende-se a vida de Joaquim de Fiore, um notário convertido em monge, e em monge sempre mais rigoroso e santo, até a morte (†1202)[10]. Deixou vários escritos, geralmente comentários bíblicos. Foi estimado pelos papas de sua época e nunca pareceu fora da ortodoxia. Mas sua teoria das três idades na história da salvação — a do Pai, a do Filho e a do Espírito — teve repercussões explosivas. De fato, Joaquim relativizava o evangelho de Cristo e a própria Igreja, que de algum modo seriam superados (de forma analógica, sem rupturas radicais) numa época “espiritual”, a do Espírito Santo e a dos homens espirituais (os contemplativos, os monges). Joaquim previa que a nova Idade começaria em 1260, ou seja, 42 gerações (cada uma de 30 anos) após o nascimento de Cristo, como Cristo tinha nascido 42 gerações (3 x 14) depois de Abraão (cf. Mt 1,17). Joaquim tinha previsto algumas dificuldades ou provações na passagem da Idade de Cristo para a do Espírito. Mas os detalhes, que aos primeiros leitores pareceram sem importância, adquiriram novo peso, quando os franciscanos “espirituais” se consideraram os representantes da Idade do Espírito, e um deles, Gherardo de Borgo San Donnino, em 1254, publicou algumas obras de Joaquim com uma introdução, em que não só previa para 1260 uma Igreja toda espiritual, mas também um papa demoníaco que, por pouco tempo, ocuparia a cátedra de Pedro.

Embora em 1260 nada tenha acontecido de novo, e Gherardo tivesse sido condenado, a influência de suas ideias e de um joaquinismo radicalizado se espalharam amplamente, seja entre os franciscanos, seja fora deles. Seria demasiadamente longo acompanhar todas as vicissitudes do joaquinismo, mesmo só no ambiente franciscano. Dele permanecerá sempre o apelo a uma pobreza autêntica, radical, e a uma concepção “espiritual” da Igreja, e, portanto, um princípio de crítica ao exercício do poder por parte da hierarquia e ao acúmulo das riquezas por parte de religiosos.

Entre as esperanças dos joaquinistas havia a de um “pastor angelicus”, ou de um papa angélico, que permitiria finalmente a passagem pacífica de uma Igreja carnal e corrompida para uma Igreja realmente espiritual. A eleição de Celestino V (1294), após vinte e sete meses de espera e acordos, encheu de esperanças os espirituais, logo decepcionados pela renúncia do santo eremita, despreparado para reger a cúria romana.

Mais rigoroso com os “fraticelli” (assim, depreciativamente, os chamava) será o papa João XXII (1316-34). Naqueles anos, alguns franciscanos espirituais acabarão na fogueira. E até o superior geral da Ordem dos franciscanos, Miguel de Cesena, divergirá do papa João XXII e acabará liderando os dissidentes, protegido pelo imperador Luís II da Baviera. Traços da espiritualidade joaquinista permanecerão entre os franciscanos até mais tarde, como veremos.

Quanto à difusão das ideias de Joaquim entre os leigos (um deles foi o grande poeta Dante Alighieri, que elogia no Paraíso o abade Joaquim pela boca de São Boaventura), baste aqui relembrar que elas sofreram uma ulterior simplificação e que o final da Segunda Idade — a de Cristo— foi feito coincidir com a vinda do Anticristo, derrotado, chegando a Terceira Idade — a do Espírito Santo.

 

8. O milenarismo na encruzilhada: paz ou violência?

Pode-se discutir se o joaquinismo é, propriamente, milenarismo, embora tenha havido — sobretudo nos discípulos de Joaquim (que, às vezes, traíram ou deformaram sua doutrina) — uma mistura de elementos milenaristas com a teologia do santo abade de Fiore. Aqui nos interessa retomar o fio da história do milenarismo, para constatar que — no século XIV — ele se divide em duas correntes: uma que espera, pacífica e confiantemente, a vinda do Reino de mil anos de paz; outra que julga melhor apressar a instauração do Reino pela força. Ao lado delas, continuava majoritária na Igreja a corrente que podemos considerar agostiniana: a que vê os mil anos realizados no tempo da Igreja e que, portanto, aguarda o Juízo final sem mais, sem nenhum reino de mil anos de felicidade celeste realizado na terra. Essa corrente, aliás, contribuiu não pouco para espalhar o medo de um Juízo iminente, precedido por desgraças terríveis e advertências celestes[11].

As duas principais correntes estavam de acordo num ponto: em apontar os sinais do fim próximo do mundo (ou no Juízo, ou na chegada do Milênio), que eram todos terríveis e associados à ideia do castigo de Deus pelos pecados humanos: peste, fome, guerra, depravação dos costumes… A peste negra de 1348, com milhões de vítimas (em alguns países, extinguiu um quarto ou até um terço da população), marcou o início de um período de medo que duraria, embora com alguns intervalos, até cerca de 1650. É curioso que quase tudo era interpretado como sinal do Juízo (ou do Milênio) iminente. Dizia-se que a humanidade estava no fim dos tempos, envelhecida enfraquecida. “As cidades e aldeias eram mais povoadas; os estábulos estavam cheios de gado que se mantinha forte… Os homens viviam longamente… Podemos também observar que as partes do ano não fazem mais seu dever, como se dissolvem, a terra se cansa, as montanhas não dão mais tanta abundância de metais, a idade do homem diminui dia a dia… de tal modo que podemos dizer que o mundo está em seu declínio e aproxima-se de seu fim”[12].

 

9. Esperança escatológica e novo mundo

Até a descoberta da América foi interpretada como sinal do fim dos tempos, porque está escrito no evangelho que “a Boa Nova do Reino será proclamada em todo o mundo, como testemunho para todas as nações. E então virá o fim” (Mt 24,14). Aliás, Cristóvão Colombo se acreditava escolhido por Deus para mostrar “de que lado se encontravam o novo céu e a terra nova de que o Senhor falara pela boca de são João em seu Apocalipse”[13] e pensava que os reis de Espanha seriam os reis dos últimos dias. Colombo calculara que o fim do mundo estava próximo (nas suas contas, 1501 era o ano 6845 do mundo, e a terra não deveria passar de 7000 anos!). E via uma confirmação disso na “pregação do Evangelho sobre tantas terras em tão pouco tempo” (Carta aos Reis Católicos, 1501).

Nos primeiros missionários católicos na América, encontramos — poderia ser diferente? — traços de expectativas escatológicas. Destaca-se o caso de frei Turíbio Motolinia (nome nahuatl que adotou no México e que significa “miserável”). Ele chegou ao novo mundo em 1524 e aí morreu em 1569. Esse franciscano conservava algo das convicções joaquinistas de seus irmãos dos séculos XIII e XIV. Julgava a evangelização da América decisiva para apressar o fim do mundo e a instauração dos mil anos de paz. Portanto, tinha pressa. Embora quisesse proteger os índios dos espanhóis corrompidos, não julgava dispensável o uso de moderadas formas de coerção (como os castigos corporais), para manter os índios nas aldeias dirigidas pelos frades e afastá-los de seus “vícios”. Acelerou os batismos, junto com seus irmãos, os “doze apóstolos do México”. Numa carta de janeiro de 1555, Motolinia comunica ao imperador Carlos V a realização de 300.000 (trezentos mil!) batizados e, ao mesmo tempo, suas divergências com o dominicano Las Casas, que queria uma evangelização mais lenta e respeitadora da cultura indígena[14].

 

10. O milenarismo violento, espada de Deus

Mas, antes de concluir, é preciso olhar — ao menos brevemente — para aquela corrente propriamente milenarista, que nos séculos XIV-XVI escolheu o caminho da violência. Encontramos movimentos desse tipo na Inglaterra, no fim do século XIV, na Boêmia no século XV, na Alemanha na época da Reforma (século XVI) e, ainda, na Inglaterra do século XVII (mas aqui estamos longe da Idade Média).

O inglês John Wyclif (1324-1384) foi o elo entre os franciscanos espirituais e o movimento hussita. Ele forneceu a justificação teológica — crítica dos sacramentos e do clero, volta à pobreza na Igreja — que serviu de orientação à pregação dos “poor priests” (padres pobres). Estes anunciavam não tanto o fim do mundo, quanto o fim de um mundo: a sociedade dominada pelos grandes proprietários feudais e eclesiásticos. Depois disso a humanidade voltaria ao paraíso terrestre e viveria na plena igualdade: “Quando Adão cavava e Eva fiava, onde estava o nobre?”. Todos os bens deveriam ser postos em comum e abolidas as diferenças sociais.

Um desses pregadores, chamados também “lolardos”, participou da revolta dos camponeses de 1381 e acabou enforcado, por ter dirigido uma marcha dos pobres para Londres. Apesar da derrota, o movimento lolardo sobreviveu bastante tempo clandestinamente e teve repercussão na Boêmia, reino incluído no Império Romano-Germânico. A situação desse reino parece ter sido marcada no século XIV por um excesso de concentração de riquezas nas mãos de poucos eclesiásticos. A eles começaram a reagir outros, mais críticos, que denunciaram os abusos e pediram a volta à Igreja das origens. As ideias do inglês Wyclif foram também acolhidas por estes. João Huss (1389-1415) recolheu, sobretudo, as críticas às hierarquias. Para Huss, imperador, senhores feudais e bispos perdiam sua autoridade, quando caíam no pecado. E não deviam mais ser obedecidos. Huss se tornou professor de teologia e depois reitor da universidade de Praga, tendo o apoio do rei. Mas se desentendeu com este por causa de indulgências. Afastado de Praga (1412-1414), mas tendo apoio popular, Huss continuou escrevendo, introduzindo uma distinção “explosiva” entre a Igreja de Cristo e a Igreja Católica Romana[15] e criticando acerbamente a “simonia” do clero. Em 1415, Huss se dirigiu ao Concílio de Constância, esperando contribuir para uma reforma geral da Igreja. Apesar de um salvo-conduto do imperador Sigismundo, foi preso e queimado como herege. Uma das últimas cartas de Huss, escrita no cárcere pouco antes da morte, identificava o Papa com o Anticristo.

Um amigo e discípulo de Huss, o teólogo Jerônimo de Praga, foi morto no ano seguinte. A notícia desse duplo martírio revoltou os hussitas na Boêmia. Foram necessárias cinco “cruzadas”, durante vinte anos, para acabar com os rebeldes. Enquanto isso, houve momentos em que o rei e o arcebispo tiveram de fugir de Praga, e os pregadores hussitas (aliás, divididos em muitas facções) exigiram tanto a supressão dos impostos quanto a destruição de imagens e relíquias nas igrejas, além de reivindicar para os leigos a comunhão sob as duas espécies, pão e vinho. O episódio mais típico foi a pregação de um iminente juízo divino, do qual escapariam apenas os que se refugiassem em algumas montanhas santas, indicadas como o “Tabor”. Daí o nome de “taboritas” aos seguidores do movimento. Uma grande peregrinação de “taboritas” acontecia em julho de 1419 no sul da Boêmia, enquanto em Praga os hussitas radicais “defenestravam” (matavam, jogando pelas janelas) os conselheiros municipais nomeados pelo rei. Por algum tempo, em face da ameaça das tropas do imperador Sigismundo, os hussitas se reuniram, enquanto aumentava a fé na chegada iminente da vingança divina, que seria favorável aos pobres. A essa altura, os “taboritas” pregavam também que não haveria misericórdia para os pecadores e que os fiéis deviam derramar o sangue dos adversários de Cristo[16]. E aguardavam um tempo em que não haveria mais “opressor dos pobres, imposições, clero e nenhuma autoridade secular”. Após alguns sucessos militares, os “taboritas” acabaram enfraquecidos por suas divisões internas (os mais extremados foram chamados de “adamitas”, porque queriam voltar ao estado de Adão, até mesmo andando nus) e, finalmente, pelas tropas imperiais.

 

11. Milenaristas, protestantes e guerra dos camponeses

Movimentos milenaristas reaparecem na Alemanha no tempo de Lutero, já no início da Idade Moderna. Entre os personagens mais famosos, destaca-se Tomás Müntzer, teólogo e pregador, que se colocou contra Lutero e a favor dos camponeses; à frente de um grupo deles morreu na batalha de Frankenhausen (15/5/1525). Ele foi, ao mesmo tempo, um revolucionário social, que lutou contra a riqueza e a dominação dos nobres, e um reformador religioso, convencido de ser “a espada do Senhor”. Nas suas obras, não deixa muito claro como imagina o futuro de “mil anos de felicidade”, demasiadamente ocupado com a crítica da Igreja da época e a contestação das estruturas feudais. De qualquer forma, Ernst Bloch viu nele “o teólogo da Revolução”[17]. Enquanto Lutero acabou pedindo aos príncipes para “matar como cães” os camponeses revoltosos, Müntzer se revoltava contra Lutero associado aos príncipes e o tratava de “porco de engorda”.

O episódio milenarista mais famoso e que mais impressionou os contemporâneos foi o dos anabatistas de Münster, cidade alemã próxima da Holanda. No ano de 1534, na cidade de Münster, até então dividida entre católicos e luteranos, prevaleceu nova corrente religiosa, a dós anabatistas (que exigiam novo batismo dos adultos, considerando inválido o batismo de crianças). Eles atraíram outros simpatizantes, sobretudo da Holanda, onde estavam sendo perseguidos. Entre eles se destacaram João Matthys e João de Leida. Eles interpretavam a Bíblia como a promessa de um reino de paz e felicidade na terra, mas exortavam seus seguidores a exterminar os ímpios, que impediam a realização do Reino e eram, definitivamente, instrumentos do Anticristo. Em fevereiro de 1534, os anabatistas conseguem expulsar os habitantes de Münster não ligados a eles, ou seja, luteranos e católicos. Na cidade é instalado um regime comunitário. Todos os recursos devem ser postos em comum. Quem se opõe aos líderes é eliminado. O bispo manda tropas para cercar a cidade, mas essas são derrotadas por João de Leida em 25 de maio de 1534. No apogeu do seu domínio, João de Leida se faz proclamar rei, passa a viver luxuosamente e introduz novo regime matrimonial: a poligamia. Ele mesmo se circunda de muitas esposas, quase um harém. Mas a superioridade das tropas inimigas, que apertavam o cerco dos anabatistas, levou à derrota destes (24/6/1535) e à morte de João de Leida, após muitas humilhações e torturas (janeiro de 1536). A recordação dos acontecimentos de Münster ficou, por muito tempo, como motivo de temor nas autoridades civis e eclesiásticas.

 

12. O milenarismo secularizado

O milenarismo não morrerá, porém, em Münster. Sobreviverá, sobretudo, nas formas pacíficas, seja povoando de expectativas escatológicas o protestantismo americano do século XIX (adventismo, e — fora do protestantismo — mórmons e testemunhas de Jeová), seja secularizando-se em utopias que prometem “mil anos de felicidade” por outros caminhos, que não os de Cristo. Além das grandes utopias progressistas e socialistas do século XIX, pode-se ver novo milenarismo nas promessas da “New Age”[18].

***

De qualquer forma, o milenarismo não está hoje na moda. Nos últimos anos, na segunda metade do século XX, as utopias e a fé no progresso perderam força. O futuro da sociedade aparece mais incerto. Até as grandes conquistas sociais estão expostas ao retrocesso. Aumentou talvez a liberdade individual, sobretudo na esfera privada, mas economia e política parecem sempre mais estruturas que funcionam por dinamismos internos, impessoais, onde o indivíduo tem pouco a dizer. O destino da humanidade parece ameaçado. Mais dolorosa ainda se torna a situação dos pobres, rejeitados ou excluídos por um sistema que tem o lucro como motor.

Está na hora de voltar a fundar a esperança sobre aquilo que realmente vale. A esperança não é só, no Novo Testamento, “elpis” (realização do desejo). A esperança é também “hypomoné”, perseverança, persistência, firmeza. A luta dos pobres não terminará tão cedo! O cristão não se deixa levar pela angústia, nem pelo desejo desmedido. O cristão confia na vitória de Deus sobre o mal, mas a procura e a invoca a cada dia: “Não nos deixeis cair na tentação, mas livrai-nos do Mal (e do Maligno)”. Cada dia o Espírito deve nos conduzir a discernir, no hoje, os sinais da bondade de Deus e as ameaças do Anticristo. E a renovar nossas escolhas. Não esperamos o paraíso para amanhã e aqui na terra. Caminhamos firmes no caminho traçado por Jesus. Carregamos a cruz de Cristo, não como insígnia militar, não como espada para eliminar fisicamente o inimigo. O cristão carrega o amor desarmado e confiante, como Jesus fez.



[1] Além dos artigos desta mesma revista, cf. também o nº 15/1 dos “Annali di Storia dell’esegesi” (Bologna, EDB, 1998, 320 pp.), todo dedicado ao milenarismo cristão e a seus fundamentos na Escritura, com vários artigos sobre o fenômeno nos séculos I-V. Muito útil também o nº 277 (1998/4) da revista “Concilium” (ed. Vozes, Petrópolis, 144 pp.): “O fim do mundo está chegando?”, com vários artigos sobre apocalíptica e milenarismo.

[2] Duas das maiores obras sobre o mílenarismo medieval estão disponíveis em português: uma é o clássico “The Pursuit of the Millennium” de Norman COHN, editado em 1957 em inglês, revisto em 1970 e publicado em 1981 na tradução: Na senda do milênio. Milenaristas revolucionários e anarquistas místicos da Idade Média. Editorial Presença, Lisboa, 334 p.; a outra é a mais recente “História do paraíso” de Jean DELUMEAU, cujo 2º volume tem por título: Mil anos de felicidade, Terramar, Lisboa, 1997, 528 p. (ed. francesa, Fayard, Paris, 1995) [a obra não se ocupa tanto da Idade Média quanto da Moderna; trata, porém, do joaquinismo, séc. XIII, e dos movimentos da transição para a Idade Moderna, dos lolardos a Tomás Müntzer].

[3] Nesse sentido, cf. as observações de Raoul MANSELLI, no capítulo “L’attesa escatologica” (A expectativa escatológica) de sua obra Il soprannaturale e la religione popolare nel Medio Evo. Ed. Studium, Roma, 1985, pp. 53ss. — Particularmente interessante é o artigo do jornalista e sociólogo inglês Damian THOMPSON, “O mistério do 1000”, in “Concilium” 277 (1998/4), pp. 48-58.

[4] Breves trechos da sua obra, traduzidos, sobre Cluny e a renascença religiosa, estão na Antologia de textos históricos medievais, org. por Fernanda ESPINOSA, Sá da Costa Editora, Lisboa, 1981, 3ª ed., pp. 274 e 286-287.

[5] Citado por F. ESPINOSA, Antologia de textos históricos medievais, p. 274 (cf. acima, nota 4).

[6] Cf., por ex., no nº 277 de “Concilium” (já citado na nota 1), os artigos de Teresa OKURE, Do Gênesis ao Apocalipse: a apocalíptica na fé bíblica, pp. 29-37, e de Hakan ULFGARD, Lendo o Apocalipse hoje… reconhecendo sua mensagem permanente, pp. 38-47.

[7] Uma explicação do surgimento dos movimentos milenaristas mais violentos é proposta por Norman COHN no capítulo 3 — “O Messianismo dos pobres desorientados” — do seu livro Na senda do milênio (citado acima na nota 2).

[8] Cf. as ponderadas observações de Raoul MANSELLI (citado acima, nota 3), que indica além de escritores eclesiásticos (a começar pelo primeiro grande papa medieval, Gregório Magno, que atuou entre 590 e 604), também as obras de arte, que documentam as crenças populares, como a imagem do Juízo, em que Cristo separa os bons (as ovelhas) dos maus (os cabritos). Essas cenas são mais frequentes a partir do século XI. Mas já no século IX a Igreja tinha difundido o temor do “juízo particular”, em que a alma, após a morte, é “pesada”, numa disputa entre Satã e São Miguel, que a introduz no paraíso (como se pode ver na ilustração da capa do próprio livro citado de Raoul MANSELLI, Il soprannaturale e Ia religione popolare…). No mesmo livro, nas páginas 48 e 49 e na nota 55, encontram-se notícias sobre o culto do arcanjo são Miguel.

[9] Na senda do milênio, op. cit., p. 67.

[10] Joaquim consta até hoje na lista dos bem-aventurados.

[11] Desse medo, desde o fim do século XIV até meados do século XVII, ocupou-se Jean DELUMEAU em sua História do Medo no Ocidente 1300-1800, Companhia das Letras, S. Paulo, 1989, pp. 205-238.

[12] Textos citados por Jean DELUMEAU, História do medo no Ocidente, op. cit., p. 231.

[13] Citado por Jean DELUMEAU, História do Medo no Ocidente, op. cit., p. 213. O texto original está em uma carta de 1500.

[14] O texto da carta de Motolinia se encontra traduzido em Paulo SUESS (coord.), A conquista espiritual da América Espanhola. Vozes, Petrópolis, 1992, pp. 852- 868.

[15] Sigo aqui as informações de J. DELUMEAU, Mil anos de felicidade, op. cit., pp. 111-114.

[16] Cf. os textos citados por J. DELUMEAU, Mil anos de felicidade, op. cit., p. 121 ss.

[17] A primeira edição alemã do livro de E. BLOCH é de 1921. Está traduzido em várias línguas.

[18] Jean DELUMEAU dedica boa parte do seu Mil anos de felicidade (op. cit., pp. 317-465) aos milenarismos secularizados.

Pe. Alberto Antoniazzi (Comissão Nacional de Presbíteros — CNP-30)