Artigos

Publicado em Maio-Junho de 1995 (pp. 15-20)

A espiritualidade no cotidiano

Por Pe. Valdir José de Castro

Introdução

Diante dos inúmeros movimentos de espiritualidade, muitos agentes de pastoral ficam sem saber qual caminho seguir ou então resistem em se adaptar a certas linhas de espiritualidade cristã, especialmente às que nasceram em ambientes monásticos ou às que são adaptadas de contextos culturais muito diferentes dos nossos.

A presente reflexão, sem a pretensão de exaurir o tema, quer oferecer alguns elementos que ajudem os que têm por missão anunciar a Palavra a reencontrar o caminho para uma espiritualidade cristã encarnada no hoje de nossa história, indicando alguns lugares onde a experiência de Deus possa ser feita no dia a dia.

 

1. O que é espiritualidade?

Para muitas pessoas, o termo “espiritualidade” soa estranho, como assunto de minorias, como algo que só tem que ver com padres, religiosos e religiosas ou com minorias privilegiadas do ponto de vista social, cultural e, de certa maneira, econômico.

Outro dado importante é o fato que, devido aos muitos movimentos de espiritualidade que acentuam a perspectiva individualista, muita gente a entende como cultura de valores individuais orientada para o aperfeiçoamento pessoal ou como “vida interior”, na qual o que conta é a “intenção”. A espiritualidade é compreendida como seguimento “espiritualista” de Jesus, caracterizado pela insensibilidade à presença e às necessidades das pessoas reais e concretas.

Por outro lado, emerge também na América Latina um novo modo de pensar e viver a espiritualidade-cristã. Uma espiritualidade que compreende a solidariedade e os gestos concretos em favor dos pobres e marginalizados. Uma espiritualidade vivida no dia a dia e comprometida com a realidade social.

Esse modo de compreender a espiritualidade cristã é sintetizado por Gustavo Gutiérrez como “um modo de ser cristão no mundo”[1]. Ser homem ou mulher “espiritual” é deixar-se guiar a cada dia pelo espírito de Deus, que em Jesus tornou-se Espírito do ressuscitado, que anima a luta em busca do “novo céu e da nova terra, onde habitará a justiça” (cf. 2Pd 3,13).

A espiritualidade, nesse sentido, é um caminho estreitamente ligado à vida concreta. No nosso caso, a complexa realidade brasileira é o lugar onde o agente pastoral é chamado a viver a cada dia a espiritualidade cristã e a deixar-se conduzir pelo mesmo Espírito que animou Jesus e o levou a inserir-se na trama humana e a assumir o risco da história. Vamos procurar nos situar na realidade brasileira a partir dos fatos da vida.

 

2. Fatos da vida

Com a finalidade de motivar a Igreja a uma espiritualidade da Palavra encarnada na realidade brasileira, a CNBB, através da Campanha da Fraternidade, a cada ano, por ocasião da Quaresma, chama a atenção para determinadas situações que denunciam a ausência do “espírito” cristão em nossa sociedade. Neste ano procurou sensibilizar a Igreja e a sociedade para a realidade do excluído.

O texto-base da Campanha da Fraternidade de 1995 traz uma poesia muito interessante de Manoel Bandeira, escrita em 1947, que denuncia uma situação social brasileira de 48 anos atrás: “Vi ontem um bicho na imundície do pátio catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, não examinava nem cheirava: engolia com voracidade. O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem”[2].

O texto é antigo, mas ainda retrata a situação atual de milhões de brasileiros, como aquela divulgada pela imprensa no dia 16 de abril do ano passado e que consternou todo o país ou, pelo menos, a camada da sociedade mais sensível aos problemas sociais. Era o caso da catadora de lixo, de 65 anos, e de seu filho, de 39, que afirmavam ter comido restos de carne humana encontrados por eles em meio aos detritos de um lixo hospitalar. Na entrevista concedida a um jornal de São Paulo, a mulher confirmou: “Comi, sim. Eu e meu filho… Assei no óleo e comi com cuscuz… Costumo comer o que a gente cata no lixo. É peixe, pão, galinha, essas coisas…”[3].

A história se repete. Podemos parafrasear Manuel Bandeira: não são dois cães, não são dois gatos, não são dois ratos… são dois seres humanos que, como tantos outros milhares, buscam alimento no lixo para sobreviver. Ao que tudo indica, nada mudou de 1947 a 1995. Antes deste período a situação também não foi diferente.

Esta realidade suscita-nos a seguinte interroga­ção, dentre outras: dado que a espiritualidade cristã está ligada à vida, qual a espiritualidade vivida neste país que chamamos de “cristão”?

 

3. Espiritualidade cristã e história

Na raiz da autêntica espiritual idade cristã existe sempre uma experiência viva e dinâmica de Deus, realizada por pessoas concretas que buscaram viver a Palavra na história, num tempo e cultura bem precisos.

É por isso que muitos cristãos, particularmente os que vivem no Terceiro Mundo, num contexto social com os problemas acima descritos (e tantos outros!), tomam cada vez mais consciência de que certas espiritualidades transmitidas no passado tornaram-se inadequadas para expressar ou animar a atual situação histórica.

A espiritualidade cristã deveria estar estreita­mente ligada à vida. O Evangelho, sua fonte primeira, acima de tudo é uma mensagem de vida que deveria abraçar todo o cristão, a sua existência inteira, corporal e espiritual, intelectual, volitiva e afetiva, individual e social. Podemos dizer que a espiritualidade cristã é mais ou menos profunda de acordo com a sua adesão à Palavra vivida concretamente na história e que gera solidariedade, paz, justiça, liberdade e vida para todos.

Ser cristão inserido no mundo, em meio às agitações cotidianas, é acima de tudo ter Jesus Cristo como modelo de vida: suas palavras, suas ações, seu modo de relacionar-se com Deus (o “Pai”) e com as pessoas (os “irmãos”).

Jesus, como verdadeiro homem, também viveu uma “espiritualidade”. Onde estão, então, as fontes da espiritualidade que animou Jesus na missão? Quais as características principais do Espírito que o animou e com o qual entrou perfeitamente em comunhão de vida, a ponto de tornar-se nele “Espírito do Ressuscitado”? O que implica, na vida concreta, deixar-se conduzir por esse Espírito?

 

4. A Bíblia: fonte de espiritualidade

A Bíblia é fonte da espiritualidade cristã. É o livro que narra a experiência espiritual de um povo. O que ela contém não são teorias ou tratados de espiritualidade, mas a história de um povo sempre a caminho, em busca de um sentido para a sua vida, em Deus. Um povo que vive momentos de fé, de esperança, de alegria, assim como de incertezas, de infidelidade, de angústia. Vejamos, então, onde o povo de Deus encontra a força animadora para enfrentar os desafios do dia ­a dia.

 

4.1. Deus e o sopro gerador de vida

O Antigo Testamento narra a história do povo judeu, que questiona o conteúdo de sua fé e busca um sentido para a sua vida, conhecendo Deus não a partir de conceitos abstratos ou pré-formulados, mas através dos fatos da vida.

A experiência do êxodo é o acontecimento marcante de sua história. Nele o povo descobre que Deus é o grande libertador, é quem o livra da terra da escravidão, é quem faz aliança com ele e o conduz para uma terra de liberdade e vida. A experiência espiritual de Israel é concreta, real e cotidiana. Por isso o povo pode louvar: “Seja bendito, Javé, o Deus de Israel, porque só ele realiza maravilhas! Para sempre seja bendito o seu nome glorioso! Que toda a terra se encha de sua glória!” (Sl 72[71],18-19).

As maravilhas operadas por Deus nada mais são do que ações concretas para preservar a vida, para conservar aquele mesmo “sopro de vida” (ruah = “força escondida” ou “espírito”) que insuflou no ser humano, na criação: “Então Javé Deus modelou o homem com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivente” (Gn 2,7). A glória de Deus está justamente em proteger essa vida. Como dirá santo Irineu: “A glória de Deus é o homem vivo”.

Nesse sentido, Deus se manifesta e intervém de modo privilegiado na vida e na história humana por meio da Palavra e do seu Espírito. O agir da Palavra se entrelaça com o do Espírito. O Espírito de Deus é o espírito que vivifica. A Palavra de Deus, tal como seu Espírito, cria e recria.

Esse entrelaçamento está claro na missão profética. Movido pelo Espírito do Deus da aliança, o profeta torna-se o portador da Palavra, que é anúncio e denúncia. Tendo presente a situação de desânimo e de morte do povo, o profeta relembra os feitos de Deus na história e denuncia tudo o que não está de acordo com o projeto de liberdade e vida para todos.

Podemos ilustrar essa afirmação recordando o livro do profeta Ezequiel. Em Ezequiel, a palavra profética, tal como a palavra criadora, convoca o espírito para libertar e restaurar a vida do povo de Israel, que tinha sido dominado, destruído e exilado. O profeta Ezequiel está diante de um povo “morto” e sem esperança — como os “excluídos” da nossa sociedade, hoje! — que é comparado a uma grande quantidade de ossos. Frente a essa situação, o profeta, em nome de Jesus, suscita a esperança: “Assim diz o Senhor Javé a esses ossos: ‘Vou infundir um espírito, e vocês reviverão. Vou cobrir vocês de nervos, vou fazer com que vocês criem carne e se revistam de pele. Em seguida, infundirei o meu espírito, e vocês reviverão’” (Ez 37,6) … “O espírito penetrou neles, e reviveram, colocando-se de pé. Era um exército imenso” (Ez 37; 1Ob).

É esse o Espírito de Deus, que transforma, na história, as realidades de morte em vida. Deixar-se conduzir pelo Espírito de Deus é comprometer-se com situações de vida e entrar na dinâmica de Deus, que cria e recria. “Caminhar segundo o espírito é rechaçar a morte (o egoísmo, o desprezo pelos outros, a cobiça, a idolatria) e escolher a vida (o amor, a paz, a justiça)”[4].

 

4.2. O Espírito na missão, de Jesus

Na história, Deus se encarnou e assumiu um nome: Jesus. Nele, o Espírito se tornou Palavra encarnada e nos revelou o Deus que se solidariza concretamente com os pobres, com os marginalizados e oprimidos. Esta dinâmica do agir de Deus não poderia deixar de estar em Jesus, que disse: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra” (Jo 4,34).

O Espírito criador e recriador do Pai age sempre em Jesus. É esse Espírito que, na concepção de Jesus, cobre Maria com sua sombra (Lc 1,35). É ele que desce sobre Jesus no momento do Batismo (Lc 3,22); é esse espírito que o conduz através do deserto (Lc 4,1); é no Espírito que Jesus louva o Pai, que “escondeu as coisas do Reino aos sábios e entendidos e as revelou aos pequeninos” (Lc 10,21).

É o Espírito também que envia Jesus em mis­são. Lucas, ao apresentar o programa da atividade de Jesus, coloca em sua boca as palavras do profeta Isaías, quando este profetizava que o Messias iria realizar a missão libertadora dos pobres e oprimidos: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19).

O Espírito consagra e conduz Jesus às ações concretas no mundo em favor da libertação dos pobres, da conversão dos pecadores, da saúde e reintegração dos doentes na sociedade; enfim, para estar, de modo especial, a serviço dos injustiçados e marginalizados.

Então, para ser discípulo de Jesus já não basta confessar abertamente, como Pedro, o seu messianismo; é necessário compartilhar do seu caminho, deixar-se orientar pelo mesmo Espírito que o animou: “O Espírito Santo, que o Pai vai enviar em meu nome, ele ensinará a vocês todas as coisas e fará vocês lembrarem tudo o que eu lhes disse” (Jo 14,26).

Por isso Jesus chama todos à conversão, ou seja, à ruptura com os “falsos deuses”, com as ideologias que escravizam, com as estruturas políticas, sociais, econômicas e religiosas que geram injustiça e morte.

Portanto, mais que “alma elevada” é preciso ter, como Jesus, um “coração de carne” para agir em favor dos mais necessitados. Onde estiver o “coração de carne” ali estará o Espírito de Deus: “Darei para vocês um coração novo, e colocarei um espírito novo dentro de vocês. Tirarei de vocês um coração de pedra, e lhes darei um coração de carne. Colocarei dentro de vocês o meu espírito, para fazer com que vivam de acordo com os meus estatutos e observem e coloquem em prática as minhas normas” (Ez 36,26-27).

 

5. Onde fazer a experiência de Deus?

Espiritualidade a partir da situação brasileira é, então, uma forma real, movida pelo Espírito, de viver o Evangelho, uma vivência que nos leva à solidariedade e à construção de uma sociedade mais humana e fraterna. E tudo isso é fruto do maior dom do Espírito: o amor. Como o apóstolo Paulo diz, é esse o dom mais alto, o caminho que ultrapassa a todos (cf. 1 Cor 12,31).

O amor, movente da espiritualidade cristã, não é algo puramente sentimental ou racional, mas a “força interior” que “nada faz de inconveniente, não procura o próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor; não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade” (1 Cor 13,5-6).

O cristão é chamado a viver no seu dia a dia esta mística do amor da forma como Jesus viveu, mística entendida como “motor secreto de todo compromisso, aquele entusiasmo que anima permanente­mente o militante, aquele fogo interior que alenta as pessoas na monotonia das tarefas cotidianas e, por fim, permite manter a soberania e a serenidade nos equívocos e nos fracassos”[5].

Vamos apresentar alguns dos lugares onde o cristão é chamado a viver a espiritualidade no cotidiano. Além do contexto social brasileiro, marcado pela injustiça, incluímos também a família, o trabalho, o tempo livre e a comunidade.

 

5.1. As lutas em favor da vida

Colocar-se a favor da vida é entrar na dinâmica do Espírito que guiou Jesus, o Messias que veio ao mundo “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Esta vida, com certeza, não se refere somente à vida “eterna” ou à vida do “além”, mas também a esta realidade, aqui e agora. Os sinais concretos que Jesus realizou em favor da vida no exercício de sua missão comprovam isso.

Sobre a “vida eterna” o próprio Jesus disse: “a vida eterna é esta: que eles conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que tu enviaste, Jesus Cristo” (Jo 17,3). A vida eterna, portanto, consiste em se compro­meter com Deus, que se revela nas palavras e ações de Jesus, que lutou contra todas as situações de morte e as venceu com a ressurreição.

A cultura da morte na qual vivemos exclui grande parte da população de toda e qualquer participação. As consequências são os casos de ontem e de hoje, conforme já apresentamos, e que ilustram bem em qual sociedade vivemos.

Diante de tal situação, o cristão é chamado a viver a espiritualidade encarnada, que se expressa através de gestos concretos, na luta pela liberdade através da sua ação política e na luta pela vida, que concretamente nasce da exigência de uma economia justa, que propicie trabalho e pão para todos.

 

5.2. A família

Podemos compreender a família não somente do ponto de vista sociológico, mas também teológico, isto é, como lugar da experiência de Deus.

Neste sentido, a espiritualidade familiar pode ser concebida sob dois pontos de vista que se completam: a espiritual idade conjugal, isto é, do casal (chamado a viver a fidelidade e a solidariedade entre si), e a espiritualidade da família como um todo, incluídos os filhos.

A família é o primeiro lugar onde o ser humano experimenta o amor, ou, pelo contrário, pode se ver frustrado nessa experiência. A família é o lugar onde um grupo de pessoas compartilha as alegrias e esperanças, mas também as tristezas, os cansaços, as angústias e as dificuldades diárias. A espiritualidade familiar é o caminho em que o homem e a mulher percorrem juntos com os filhos, buscando viver o evangelho nas relações entre si, para enfrentar e superar os problemas.

Infelizmente, desde a Idade Média tem-se acentuado na espiritualidade cristã a dimensão clerical e monástica, valorizando de modo particular a vida celibatária ou a virgindade consagrada. Isso se explica pelo fato de que os mestres e escritores de espiritualidade e teólogos não constituíram família. Desde então a espiritualidade matrimonial e a dimensão nupcial da vida do casal foram colocadas em segundo plano, como uma forma subalterna de vida cristã.

É preciso romper com a transferência de modelos da experiência monacal para a espiritualidade familiar ou conjugal. Urge ter presente realidades esquecidas como o amor, a sexualidade e a fecundidade. Não seria a falta de uma espiritualidade familiar encarnada uma das causas da desarmonia de tantos lares hoje?

 

5.3. O trabalho

Outro lugar da experiência de Deus no dia a dia é o trabalho. Diante dos conflitos e das crises no mundo do trabalho, sempre há a tentação de se voltar ao refúgio espiritualista.

Todavia, todos os trabalhadores são chamados a viver a espiritualidade do compromisso de humanizar o trabalho e as estruturas produtivas e a gerar movimentos de solidariedade. A solidariedade, que tem seu fundamento no Evangelho, apresenta-se como a expressão da koinonia cristã: comunhão com Deus e com o próximo. Só assim é possível gerar condições melhores de vida para todos.

A Igreja, nos últimos anos, tem se esforçado em superar a ênfase dada no passado ao caráter penoso do trabalho, entendido como castigo ou como consequência do pecado.

Ninguém pode negar o trabalho como atividade também divina. Não podemos nos esquecer de que, segundo o livro do Gênesis, Deus também “trabalhou”: “Deus, então, abençoou e santificou o sétimo dia, porque foi nesse dia que Deus descansou de todo o seu trabalho como criador” (Gn 2,3).

Nesse sentido, a encíclica Laborem Exercens (“Sobre o trabalho humano”) de João Paulo II traz em seu último capítulo uma novidade. Pela primeira vez uma encíclica trata da espiritualidade do trabalho. Do ponto de vista da ética, o trabalho passa a ser apresentado à luz da espiritualidade, que, nesse caso, não é concebida como realidade pertencente às atividades como a oração, a contemplação e o culto, mas como uma dimensão que abraça toda a existência da pessoa. Mostra que não se pode cair na tentação de separar vida espiritual da vida social real. É a espiritualidade que, permanecendo fiel à transcendência, segue a lei da encarnação assumindo e enfrentando os conflitos do mundo do trabalho e da sociedade.

Tudo isso suscita-nos algumas interrogações: se o trabalho é lugar da experiência de Deus, que experiência fazem os desempregados? E aqueles que trabalham em lugares insalubres? E os que exercem atividades que não contribuem para a construção de um mundo mais humano e fraterno? E os que trabalham em regime de escravidão? E os trabalhos que exploram mulheres e crianças?

 

5.4. O tempo livre

Por tempo livre entendemos todos os momentos que ajudam o ser humano a não deixar que o trabalho se torne um peso excessivo e escravizados: o tempo dedicado ao repouso, ao lazer, à cultura, ao turismo, às relações interpessoais. São momentos que ajudam o ser humano a se “humanizar”, a cultivar as relações humanas. Se o trabalho é atividade humana e divina, também o é o descanso. Também o tempo livre é lugar de espiritualidade.

Este tema pode ser visto sob diversas perspectivas, dependendo da situação em que vive o trabalha­dor.

Primeiramente recordemo-nos dos trabalhadores para os quais soa estranho a expressão “tempo livre”. São aqueles que, mesmo que queiram, não podem usufruir de tempo livre suficiente para dedicar-se a si e aos outros. São as pessoas que não encontram tempo, porque todo o seu tempo é gasto no trabalho e nos meios de transporte que as conduzem ao emprego.

Outro caso é o do subempregado e dos que ganham um salário insuficiente. Muitos, nessa situa­ção, para sobreviver, aproveitam o tempo que seria livre para exercer outra atividade e aumentar a renda familiar a fim de dar uma vida mais digna aos filhos.

Para outros ainda, o tempo livre se torna um incômodo, como no caso do desempregado. O tempo livre é tempo de preocupação com o seu presente e com o futuro.

Por outro lado há os trabalhadores que encontram tempo livre, porém, condicionados ao sistema que idolatra o ter e o fazer. Analisando o tempo livre em nossa sociedade, concluímos que este tem em vista orientar o ser humano para os grandes interesses capitalistas, sendo o mais importante deles o consumo que anula a sua dimensão lúdica, imaginativa e criativa.

O aspecto festivo do tempo livre infelizmente está deformado. Nas grandes cidades, os grandes shoppings — “centros de compras” — tornaram-se “centros de lazer”, indício claro de que o tempo livre é para gastar dinheiro e gerar lucro. Também outras diversões giram em torno do lucro: o esporte (o esporte profissional foi fortemente comercializado), o turismo…

É preciso, então, se libertar da visão consumista do tempo livre. É preciso fazer dele verdadeiro lugar da experiência de Deus e de relacionamento humano, gratuito. Mais do que nunca, é preciso recuperar e proporcionar a todos o tempo livre entendido na linha da gratuidade, no qual o sentido da festa e do encontro com Deus e com o próximo são os aspectos mais importantes.

 

5.5. A comunidade

Outro lugar da experiência de Deus é a comunidade que professa a fé no Reino anunciado por Jesus, Reino que tem como norma principal a vivência do amor e por finalidade a liberdade e a vida de todos.

Entendendo a espiritualidade como o “modo de ser cristão no mundo”, recordamos que Jesus viveu em comunidade e que as comunidades cristãs foram formadas pelos seguidores de Jesus. Isto é, a comunidade nasce do seguimento de Jesus, que anunciou o projeto do Pai e que deu a vida por essa causa, de todos os que se associam a ele na história de sofrimento e morte da humanidade para transformá-la em história de vida.

A comunidade é o lugar do anúncio, e o anúncio central é a ressurreição de Jesus. Nela os cristãos, à luz da fé no Ressuscitado, ouvem e refletem sobre a Palavra e são chamados a estar a serviço uns dos outros, colocando em prática os dons recebidos.

A comunidade é o lugar da celebração. Celebrar é fazer memória das intervenções de Deus na história em favor da vida, de modo particular as operadas através de Jesus. Portanto a comunidade é o lugar da festa, do louvor, da ação de graças ao Deus que ainda hoje continua agindo em benefício do seu povo.

A comunidade é o lugar da partilha entre os membros que a formam, a qual se expressa em gestos concretos “para fora” (na missão!). É o lugar da celebração da Eucaristia. É onde se reparte o pão, as alegrias, as esperanças, bem como as dificuldades, as dores, as angústias, as tristezas.

Como diz o texto-base da Campanha da Fraternidade de 1995, “a sociedade capitalista neoliberal promove o materialismo, o consumismo, o individualismo, a competição; com isso facilita a alienação e a corrupção em detrimento da cooperação, do espírito comunitário, da solidariedade e do bem comum”[6]. Ser comunidade é ser sinal de vida, de solidariedade, de alegria e estar a serviço dos excluídos, reintegrando-os na sociedade. Este é o grande desafio das comunidades, no dia a dia, numa sociedade que prega o comodismo e o individualismo.

 

Conclusão

Muitos outros aspectos poderiam ser tratados no que se refere ao tema da espiritualidade no cotidiano. Fica-nos, porém, a certeza de que é na realidade diária que cada agente de pastoral é chamado a viver em comunhão com Deus, a entrar na dinâmica do Espírito Criador, que o anima no compromisso com o mundo e o leva a transformar as situações de morte em vida, como fez Jesus. De fato, “toda a criação geme e sofre dores de parto até agora. E não somente ela, mas também nós, que possuímos os primeiros frutos do Espírito, gememos no íntimo, esperando a adoção, a libertação para o nosso corpo” (Rm 8,22-23), a libertação dos corpos sofridos, dos excluídos, de todos os que esperam resgatar sua dignidade, que nasce da espiritualidade cristã vivida concretamente na história.



[1] Guitiérrez, G., Beber no próprio poço, Vozes, Petrópolis, 1984, p. 23.

[2] CNBB, Eras tu, Senhor?!, Texto-base CF/95, ESDB, São Paulo, 1994, p. 81.

[3] Folha de S. Paulo, 1-12, 16 de Abril de 1994.

[4] Guitiérrez, G., op.cit., p. 81.

[5] BOFF, L.- Frei Betto, Mística e Espiritualidade, Rocco, Rio de Janeiro, 1994, p. 25.

[6] CNBB, op. cit., p. 36.

Pe. Valdir José de Castro