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Publicado em Março-Abril de 2004 (pp. 15-21)

A sede da vida e as águas de Deus

Por Marcelo Barros

“Eu reconheço quem é de Deus, não quando me fala a respeito de Deus, mas pelo modo como fala e atua nas coisas deste mundo”. Assim se expressava há mais de 50 anos Simone Weil. Teologia é o jeito divino, isto é, amoroso — pois Deus é Amor de olhar as coisas deste mundo e delas falar. A verdadeira espiritualidade vai além do religioso e se revela em uma atitude de amor para com todas as criaturas. O universo inteiro é um imenso altar, no qual podemos contemplar a presença de Deus. Nos meios eclesiais e comunidades cristãs, essa espiritualidade ecológica precisa ser mais aprofundada. Iniciativas como a da CNBB, de dedicar a Campanha da Fraternidade de 2004 (CF/04) ao problema da água, revelam essa nova sensibilidade ecológica e espiritual. É um caminho oportuno e urgente, porque o sistema de vida no planeta está ameaçado e a água se torna o bem mais precioso.

 

1. Crise decorrente de um modelo civilizatório

Muitos livros[1], além de artigos desta mesma revista, revelam a dimensão preocupante da crise da água no mundo. Os diversos fóruns internacionais dedicados à água têm constatado com preocupação que, no mundo, em cada duas pessoas, uma vive em casa sem esgotos e não conta com água potável a menos de um quilômetro. Cada ano, 6 milhões de pobres, dos quais 4 milhões de crianças, morrem de enfermidades ligadas a águas contaminadas. Essa situação não decorre da pouca água que o planeta tem, porque esta daria para satisfazer a todos os seres humanos. A distribuição dessa água pelos diversos continentes e regiões do mundo é muito desigual e há regiões muito carentes, mas o problema de fundo não é esse. O mundo tem água bastante para suprir todos os seres humanos.

“De acordo com as pesquisas, restam mais ou menos 9.000 km3 de água doce, recurso hídrico renovável, à disposição da humanidade. Trata-se de uma quantidade mais do que suficiente para abastecer uma população de 20 bilhões de pessoas. A terra tem atualmente 6 bilhões de habitantes. Entretanto, enquanto a quantidade de água disponível não muda, o consumo humano se multiplicou quase por dez, no último século. E a humanidade tem dilapidado os bens hídricos de tal forma que a quantidade de água disponível se tem revelado insuficiente e tende a diminuir cada vez mais”[2].

O Brasil é um dos países mais ricos em água. Tem 20 grandes bacias hidrográficas, que constituem 12% da água doce existente no mundo. É o único país de dimensões continentais onde chove em todo o território. Entretanto, a situação de nossas águas é lamentável: aproximadamente 70% dos rios brasileiros estão contaminados (esgoto industrial, doméstico, metais pesados, agrotóxicos etc.); 20% da população brasileira (35 milhões) não têm acesso à água potável; 40% da água de nossas torneiras não serve para beber (água que serve a aproximadamente 70 milhões de brasileiros); 80% do esgoto coletado é jogado nos rios; aproximadamente 105 milhões de brasileiros vivem em insegurança quanto à água que consomem.

A água constitui um sistema complexo e frágil que se presta a muitos usos: para alimentação humana, navegação e produção de energia, industriais, agrícolas, recreativos, ecológicos e outros. Praticamente todas as atividades humanas conhecidas precisam de água. A água, matéria-prima insubstituível e vital, atualmente está ameaçada. A razão dessa crise não está simplesmente na diminuição do volume de água do qual dispomos, mas no nosso modo de tratar a terra e a água. A civilização que, nestes últimos séculos, se impôs no Ocidente é predatória e desrespeitosa com o ser humano e com a natureza. A solução não virá de simples medidas técnicas. Teremos de aprofundar uma espiritualidade ecumênica e ecológica que nos faça mudar o modo de olhar a terra e a água e de com elas conviver.

 

2. A relação espiritual com a água

Desde a década de 60, a ONU começou a tratar a questão da água em vários fóruns e reuniões internacionais. Desde então, diversos documentos e acordos foram tentados para solucionar a crise iminente. Quem lê esses documentos percebe que se procuram soluções sociais, técnicas e políticas para essa crise. É o que está acontecendo em vários países. Wadih Awawdé, prefeito da cidade de Kafr Kana, antiga Caná da Galileia na Palestina, declarou: “Se Jesus voltasse hoje por aqui, nós lhe pediríamos que transformasse vinho em água, no lugar de água em vinho”.

Como não se podem esperar milagres, vários países dessalinizam a água do mar e diversas empresas tratam água dos esgotos, reaproveitando-a para usos caseiros. Tudo isso pode ajudar, mas são medidas que ainda se mantêm na ordem mercantil e não propõem a solução mais profunda: uma relação de amor com a terra e a água. Esse tipo de caminho tem sido percorrido e aprofundado pelas religiões dos povos da floresta e pela espiritualidade ecumênica. Não se trata de resvalarmos para uma visão sacralizada fundamentalista que negue ou diminua o sentido histórico dos fatos e a autonomia histórica da realidade. Não estou propondo nenhuma volta a uma espiritualidade arcaica que veja como intervenções de Deus acontecimentos cuja responsabilidade é nossa. No semiárido nordestino e em muitas outras regiões do mundo, parcelas da população pobre continuam interpretando a seca como castigo de Deus e a água da chuva como vinda diretamente da providência divina. A fé bíblica nos convida a descobrir a presença e a voz de Deus não em milagres fora da história, mas nos fatos da vida. Devemos ler os acontecimentos a partir da história e das causas concretas. A seca é consequência de fenômenos meteorológicos e da política pouco respeitosa dos poderosos que destruíram as florestas, dizimaram a terra e desrespeitaram o ecossistema da região. A chuva, resultado da condensação atmosférica, é fenômeno natural, e não milagre. A espiritualidade ecumênica nos ensina a ver sinais da presença e do amor de Deus não na substituição das causas históricas, mas através delas.

Em todas as religiões antigas, a água é vista como fonte de vida e lugar privilegiado de encontro com o divino. Para criar essa relação, não é preciso pensar que a água seja uma deusa ou crer em lendas que fazem dela uma pessoa humana. Somos pessoas do século XXI, com uma cultura moderna, secularizada e, portanto, nada sacralizada. Mas, assim mesmo, podemos reverenciar nos elementos da terra e da água sinais privilegiados do amor divino e da sua presença carinhosa em nossa vida.

Para aprofundar essa espiritualidade, vale a pena lembrar alguns pontos comuns a várias tradições religiosas. Não recordamos esses caminhos espirituais para cair em sincretismos confusos, mas para enriquecer a própria fé cristã com uma visão mais universal e acolher a palavra de amor que Deus nos diz mediante essas religiões e caminhos espirituais.

 

3. A água em culturas e filosofias antigas

Na Bíblia, diversas culturas se cruzam. Por isso, é importante conhecer algo da antiga religião egípcia e dos costumes espirituais de diversos povos do antigo Oriente Médio.

Para os antigos egípcios, a água era ligada à ideia de reanimação. Osíris faria fluir um jorro de água que liberta a pessoa da rigidez da morte. Também na Babilônia, a deusa Istar, em alguns documentos e histórias representada pela lua, devia descer à região dos mortos para obter a água da vida. Talvez essas imagens simbólicas da água continuaram presentes na teologia neotestamentária do batismo como incorporação à morte e à ressurreição do Cristo (cf. Rm 6,3-11).

As religiões orientais ganharam versões ocidentalizadas pelo helenismo, fenômeno cultural do século IV antes de Cristo. Diversos ritos helênicos e de religiões de mistérios se baseavam em abluções rituais e ritos de renascimento espiritual. Os mais conhecidos são os banhos de purificação que precediam os mistérios de Elêusis. Há quem acredite na influência dos ritos de Elêusis na prática de abluções dos essênios no Mar Morto e do batismo de João Batista no Jordão.

Em diversos ritos orientais antigos, a água tinha uma função na sagração dos reis. O poder que o rei recebia não era apenas político. Era de ser representante da divindade para o povo. Nos ritos antigos de entronização se encontra alusão à água da vida. Dava-se de beber ao rei essa poção de água da vida e ele era ungido e mergulhado (batizado) em águas lustrais. Por esse rito passavam os faraós do Egito, os reis da Mesopotâmia, os príncipes da índia e em diversas tribos africanas[3].

Na cultura grega, a água tem também esse duplo significado de vida e de morte. O filósofo Tales de Mileto ensinava que toda forma de vida provém da água[4].

Essa convicção de que as águas formam o fundamento do universo faz parte da psicologia humana. O próprio inconsciente humano é representado pelas fontes ocultas no seio da terra. Por isso, nas tradições da maioria dos povos, a água é lugar de aventura e de enfrentar o desconhecido e penetrar no mais profundo da própria identidade. Na mitologia grega, Ulisses vaga pelo mar durante dez anos e encontra as sereias, seres da água e da terra, mulheres que cantam maravilhosamente, encantando os viajantes extraviados, e têm metade do corpo como peixes. Na mitologia do Mediterrâneo, há também a figura das “anguanas”: “São representadas como mulheres jovens e solitárias, dotadas de beleza extraordinária e com longos cabelos soltos… Em geral, este mito estava ligado à lavagem da roupa e a aspectos cultuais desse costume feminino. As anguanas são lavadeiras noturnas e encontram os homens solitários e extraviados ou marginalizados. Expressam a relação entre o mundo humano e o sobrenatural”[5].

Essa relação entre vida e morte, realidade humana e mistério da vida após a morte é expressa na crença do “rio da morte”, presente na antiga religião greco-romana. Segundo a visão clássica, a morte é um rio de águas escuras e misteriosas. Creonte é o barqueiro do rio da morte.

 

4. Na escuta das religiões populares do Brasil

Em todas as religiões e tradições espirituais, a água tem um significado muito rico, além do seu conteúdo material. Ela simboliza a vida. Na maioria das formas pelas quais os povos antigos contam a criação do mundo, a água representa a fonte da vida e a energia divina da fecundidade da terra e dos seres vivos. Sua presença garante a vida.

As culturas indígenas e o modo como os índios expressam sua fé dependem muito do ambiente no qual cada grupo vive. Uma aldeia indígena no cerrado ou no Centro-Oeste ou que migrou do árido sertão do Ceará não tem com a água a mesma relação dos povos da Amazônia ou daqueles que nasceram e viveram nas margens de um grande rio. Mas, tanto para uns como para outros, a água é sagrada. Os que vivem às margens dos grandes rios são mais ligados à água do que à terra agrícola. Veneram as fontes e rios como lugares de onde brota a vida. Os rios e fontes são lugares sagrados, e muitos rituais iniciáticos são realizados nas madrugadas de lua cheia, em meio às águas. Os que moram em regiões áridas veneram a água como tesouro escondido que almejam e do qual também dependem.

A maioria dos povos indígenas crê que a água é o primeiro elemento da criação e primordial manifestação do amor divino por nós. Muitos a adoram como divindade ou morada dos espíritos. Do norte ao sul, cânticos e preces indígenas reverenciam o avô Sol, a avó Lua, a mãe Terra e a irmã Água. Essa designação revela uma relação de maior proximidade e parentesco da água com o ser humano. De comunidades indígenas nos vêm terapias baseadas na água.

A chuva é sempre vista como água sagrada que manifesta o poder da vida. Entretanto, se chove exageradamente, a água provoca inundações e destruições. Também pode ser sinal de destruição e de morte. Vários povos mantêm tradições de dilúvios e renovação do mundo por meio da água. É também muito comum associar o poder dos xamãs com a capacidade de fazer chover. Há tambores e ritmos próprios para o “chamado da chuva”. Danças que imitam passos da água no solo parecem ter o poder de atrair novas chuvas.

As religiões afro-brasileiras têm sua primeira inspiração em cultos africanos muito antigos, principalmente da costa atlântica da África e de regiões mais ocidentais. De lá os mercadores de escravos sequestraram populações inteiras que deram ao Brasil a riqueza das culturas banto, nagô, fon e ioruba. Nessas regiões da África, até hoje, os rios são sagrados. Por isso, vários orixás (manifestações divinas na cultura ioruba) ou inquices (na cultura banto) têm nome de rios (Oxum, Oyá, lemanjá etc.). No Brasil, Oxum é identificada com a água doce dos rios, fontes, lagos e cachoeiras. Normalmente, em cada templo da religião dos orixás existe uma fonte sagrada. E o povo venera em cada nascente de água doce a morada de Oxum, manifestação divina na beleza feminina.

Um elemento comum a todas as culturas afro-descendentes é a inter-relação de todos os elementos da vida. O sagrado é vivido aqui e agora, em todos os aspectos da vida cotidiana, e se manifesta em cada elemento da natureza. Desses, a água é o elemento primordial.

A umbanda é mais urbana. Assume elementos do espiritismo kardecista, de tradições e crenças indígenas e ainda do catolicismo popular. Sua visão sobre a terra e a água tem muito em comum com todas as religiões afro e indígenas. Deus é contemplado em sua presença e manifestação no universo e em cada ser da natureza. Várias comunidades de umbanda ministram o batismo para crianças e compreendem esse rito com água como o primeiro contato com os guias espirituais. Por isso, deve ser realizado no primeiro mês do nascimento. A água deve ser “de cachoeira e luz”. Conforme outro autor, em outras tendas, “o batismo é feito com água da chuva apanhada recentemente. Caso não tenha chovido nos últimos dias, deve-se apanhar água de cachoeira ou nascente pura”[6]. A água é o elemento que põe a pessoa batizada em contato com seus guias espirituais e serve também para banhos de limpeza ou “descarrego”.

 

5. A água na tradição judaica

A Bíblia começa dizendo que, quando Deus criou o céu e a terra, o Espírito de Deus pairava sobre as águas. Todos os livros da revelação judaico-cristã falam da água como símbolo do Espírito de Deus que derrama sobre o universo uma vida nova. De acordo com o livro do Gênesis, quando a humanidade, por seu modo mau e injusto de agir, corrompeu a própria criação de Deus, foi por intermédio das águas que Deus purificou a terra. O dilúvio é uma parábola presente em centenas de povos e religiões da terra. A Bíblia se serve dessa estória antiga como figura da invasão babilônica. Os exércitos inimigos são como ondas ameaçadoras que afogam Israel e ameaçam toda a vida sobre a terra. A narrativa bíblica do dilúvio é uma denúncia do imperialismo que até hoje castiga a humanidade e o próprio equilíbrio ecológico. Entretanto, o relato se encaminha para um final de esperança: por intermédio das águas, Deus recria o universo e refaz uma aliança de amor com todo cosmo (cf. Gn 9).

Deus dá as águas da chuva e dos poços ao seu povo como sinal de sua aliança de amor. O poço é o lugar onde as mulheres dos clãs vêm buscar água e por isso é onde os patriarcas encontram suas esposas. À beira dos poços dão-se os casamentos e o povo faz os seus acordos e juramentos (cf. Gn 24,11ss; Ex 2,16ss). Desde os tempos bíblicos, quem consegue controlar as fontes e garantir água para todos beberem pode governar o povo. Até hoje, em muitos países, a água é elemento importante de governabilidade.

Conforme o livro do Êxodo, através da água Deus salva o seu povo da escravidão do Egito para encaminhá-lo a uma terra nova e livre. Toda a Bíblia compara a própria Palavra de Deus com a água que gera vida onde toca. E os Salmos chamam a Deus de fonte de águas vivas e pedem que nos sacie com suas torrentes inebriantes (cf. Sl 36; Sl 42 e outros).

 

6. As águas do Cristo Messias

Os profetas bíblicos lutaram pela pureza da fé bíblica, mas aceitaram associar Deus com antiga divindade das águas. Vários oráculos chamam a Deus de “fonte de águas puras” (Jr 2, Ez 36). Esses textos nos convidam a olhar uma fonte de água e reconhecer nela uma manifestação de Deus. Isaías prometia aos peregrinos do templo que os inimigos seriam vencidos: “Com alegria, vocês poderão beber água nas fontes da salvação” (Is 12,3). No final do cativeiro da Babilônia (século VI a.C.), um discípulo de Isaías convida: “Venham beber sem pagar… Assim como a chuva não volta para a terra sem a ter fecundado e cumprido a sua missão, assim a Palavra de Deus é eficaz e a promessa divina se cumpre” (Is 55). “Deus vai fazer a paz correr para o povo como um rio de águas transbordantes” (Is 65,17).

Conforme textos proféticos, após ter rejeitado Israel por sua traição à aliança, Deus aceita voltar ao meio do seu povo como uma água que faz viver (cf. Ez 47,1-12). Textos rabínicos da época de Jesus comparavam o Messias à rocha da qual Moisés fez jorrar água no deserto (cf. Ex 17). Diziam que aquela rocha teria acompanhado misteriosamente toda a marcha do povo nos 40 anos do deserto. E “aquela rocha era o Cristo, o Messias” (1 Cor 10,4). O Messias será quem der ao povo uma água viva tão abundante e saudável que quem dela beber jamais terá sede. Por isso, a comunidade de João faz uma catequese sobre a fé, lembrando a conversa de Jesus com uma mulher samaritana, à beira do poço de Jacó (Jo 4). Quando Jesus lhe diz que pode dar uma água que nela será fonte de vida para sempre, a mulher logo pergunta pelo Messias.

Desde tempos antigos, as pessoas devotas tinham o costume de fazer abluções e banhos rituais, antes de ir a uma romaria no templo e quando pediam a Deus uma vida nova. É nessa cultura que se explica o rito do batismo de João Batista, como sinal de arrependimento. De acordo com os Evangelhos, Jesus começou sua missão de servo de Deus pelo batismo que recebeu de João. O batismo o fez assumir a vocação de servo, vencer as tentações de grandeza e começar seu trabalho pela inserção em meio ao povo mais pobre da Galileia (cf. Mc 1).

 

7. Por trás dos Evangelhos

Nos anos 70, o Evangelho de Marcos foi escrito para responder à pergunta: “Quem é Jesus?”. No capítulo 4, refaz uma história que se baseia em uma lenda de luta entre Deus e as águas. No início, o mar aparece como caminho que ajuda as pessoas a se deslocar de um lado a outro. Jesus diz: “Passemos à outra margem”. De repente, à noite, o mar se manifesta como o domínio das forças inimigas que o povo teme. Jesus conversa com as águas furiosas, como alguém fala a um ser vivo e inteligente. Manda o vento parar e o mar acalmar-se. E o texto diz: “Tudo fica calmo”. As pessoas se perguntam: “Quem é este a quem até o mar e o vento obedecem?” (Mc 4,35-41).

É uma tradição semelhante às histórias de pescas milagrosas. Ezequiel havia prometido que uma fonte jorraria do novo templo do Messias e suas águas tornariam fecundo o Mar Morto. Onde não se encontrava pesca, de repente, as águas se tornariam piscosas (cf. Ez 47). Lucas conta que Jesus chama alguns discípulos para segui-lo, a partir de uma pesca milagrosa (cf. Lc 5,1-11). O 4º Evangelho reproduz um episódio semelhante em seu capítulo final, como manifestação do Cristo ressuscitado na Galileia, chamando de novo os discípulos à missão (cf. Jo 21).

Conforme o 4º Evangelho, por ocasião de uma celebração, no último dia da festa das Tendas, diz Jesus: “Se alguém tiver sede, venha a mim e beba quem crê em mim. Como diz a Escritura: ‘Do seio do Messias jorrarão rios de água viva’”. O Evangelho diz que ele se referia ao Espírito Santo que haveria de receber todas as pessoas que nele cressem (cf. Jo 7,37-39).

Jesus interpretou a sua paixão e morte na cruz como um batismo (cf. Mc 10,38; Lc 12,50). O 4º Evangelho frisa: após a morte de Jesus na cruz, um dos soldados, com um golpe de lança, o feriu em seu lado e logo “saiu sangue e água” (Jo 19,34). O evangelista dá tanta importância a isso que garante ser testemunha do fato. A água é sinal do Espírito e da renovação espiritual que Deus quer dar a todos os crentes.

A vitória de Cristo e a manifestação de sua vinda restauram a criação e reconciliam campo e cidade. Na nova Jerusalém, há um rio de águas vivas que irrigam a cidade e dão vida nova a todas as criaturas (cf. Ap 22).

 

8. “Somos sepultados com Cristo nas águas do batismo…”

Desde o início das Igrejas cristãs, as comunidades associaram a recepção do Espírito ao rito do batismo. Paulo ensina: “Pelo batismo, somos sepultados na morte com o Cristo, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também vivamos de modo novo” (Rm 6,4). “Com ele, Jesus, fostes sepultados no batismo, no qual também fostes ressuscitados pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou” (Cl 2,12).

Isso é o “mistério pascal”, a possibilidade de todas as pessoas participarem desse processo pelo qual passou Jesus: vencer a morte e ressuscitar para uma vida nova. Essa energia de amor e de ressurreição que atuou na pessoa de Jesus esta, conforme Paulo, escondida desde sempre em Deus, no próprio ato de criar o universo (cf. Ef 3,9)[7]. É essa energia que se expressa no universo todo como um corpo cósmico do Cristo, plenitude da criação de Deus (cf. Cl 1,15ss). A carta aos Colossenses fala de uma Sabedoria Cósmica, pela qual todas as coisas existem. Cristo é o mistério divino do mundo. Quem honra o Cristo honra todas as coisas criadas nele e ele em todas as coisas. O que a gente fizer à terra, faz ao próprio Cristo.

Somos irmãos e irmãs da criação de Deus. A própria criação aspira à liberdade dos filhos e filhas de Deus. A salvação ou ressurreição atinge pessoas e cosmo. Todo o universo participa da expectativa dos seres humanos por uma vida plena, por ser libertos de tudo o que nos leva para baixo e receber a herança dos filhos e filhas de Deus (cf. Rm 8).

Nas antigas comunidades cristãs, o batismo era, realmente, sinal de mudança de vida e de iniciação na intimidade com Deus. Abolia diferenças sociais: “Não há mais judeu, nem grego, escravo, nem livre. Todos nós que fomos batizados formamos uma coisa só em Cristo” (Gl 3,28).

Conforme os Atos dos Apóstolos, Pedro é chamado à casa de Cornélio, centurião romano, para testemunhar que crentes não judeus recebem o Espírito Santo do mesmo modo que os crentes vindos do judaísmo o tinham recebido no dia de Pentecostes. “Pode alguém recusar a água para que sejam batizadas essas pessoas que receberam o Espírito Santo tanto quanto nós?” (At 10,47). Do mundo inteiro as pessoas são associadas à graça de Pentecostes, arrependendo-se de seus pecados, aderindo ao evangelho do Reino de Deus e sendo batizadas na água e no Espírito Santo.

O batismo é como novo dilúvio, cujas águas nos despojam da imundície da carne e nos limpam, “não da sujeira Corporal, mas nos firmam no compromisso de uma boa consciência diante de Deus, mediante a ressurreição de Jesus Cristo” (1Pd 3,21). A última promessa da Bíblia é a água da vida que Jesus dará a quem resistir e vencer todas as perseguições (cf. Ap 22,5ss).

Lendo a Bíblia assim, a partir da relação entre a aliança de Deus e o dom da água que ele garante ao seu povo, podemos pensar na realidade da água em nosso mundo. Hoje, grandes empresas multinacionais e grupos locais poderosos apoderam-se da água como mercadoria e privatizam as fontes que, em todas as tradições espirituais e na Bíblia, são verdadeiros templos de Deus no universo. No mundo inteiro, a sociedade civil e grupos populares estão se organizando contra essa política injusta. Será que, após ler esta reflexão bíblica, você recebeu impulso suficiente para participar — em nome de sua fé e como algo que não e só político e social, mas também espiritual — do movimento de defesa da água como bem universal e direito de todos os seres vivos?

 

9. Para concluir

Essa visão bíblica e espiritual revela: a vida brotou das águas. Sendo a água constitutiva do ser humano e da vida como um todo, ela é direito natural, dádiva divina, e não obra humana. Por isso, não pode ser reduzida a uma mercadoria e a um bem particular. Ninguém pode arrogar a si o poder de negar a um semelhante ou a qualquer ser vivo esse bem essencial à vida.

A privatização e mercantilização das águas são condições impostas pelo FMI a países pobres, como o Brasil, que dependem de seus empréstimos. É bom sinal que surjam lutas populares contra a privatização dos serviços municipais de água, contra a construção de novas barragens, assim como é positivo ver grupos defendendo a campanha do povo do sertão nordestino e de todo semi-árido brasileiro por captação de água de chuva e a luta dos ribeirinhos pela defesa de seus rios. Essas lutas são expressões de cidadania e sinais de fé em Deus, fonte de vida e amor do universo[8].



[1] Eis alguns: RICARDO PETRELLA, O manifesto da água, Petrópolis, Vozes, 2002; DEMÓSTENES ROMANO FILHO et al., Gente cuidando das águas, Belo Horizonte, Mazza, 2002; MARIE-FRANCE CAIS, MARIE-JOSÉ DEL REY, JEAN PIERRE RIBAUT, L’Eau et la Vie, Paris, Charles Leopold Mayer, 1999; JACQUES SIRONNEAU, L’acqua, nuovo obiettivo strategico mondiale, Trieste, Asterios, 1997.

[2] Estes dados estão em MANLIO DINUCCI, Il sistema globale, Bologna, Zanichelli, 1998, p. 282.

[3] GEO WIDENGREN, Fenomenologia delle religione, Bologna, EDB, 1984, pp. 531-532.

[4] Cf. MANFRED LURKER, Dizionario delle imagini e dei simboli biblici, Roma, Ed. Paoline, 1990, p. 5.

[5] DANIELA PERCO, “Le anguane: mogli, Madri e lavandaie”, in Acqua e simbolo, Campagna EAS, 6.2.

[6] PAULO GOMES DE OLIVEIRA, Umbanda sagrada e divina, vol. I, Rio, 1953, p. 188.

[7] É a tese de ADOLPHE GESCHÉ, Dieu pour penser, IV, Le Cosmos, Ed. du Cerf, 1994.

[8] Para aprofundar esta dimensão ecumênica e bíblica da espiritualidade da água: MARCELO BARROS, O Espírito vem pelas águas, São Paulo, Loyola-Rede, 2003.

Marcelo Barros