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Publicado em Maio-Junho de 1995 (pp. 9-14)

Acender a chama da mística

Por Pe. Fernando Altemeyer Júnior

Contemplar a vida dos agentes de pastoral e escutar suas histórias de vida, normalmente traz à tona memórias e experiências de dor e de muitos fragmentos do caleidoscópio da Igreja católica no Brasil. Muitos se perguntam se tantos anos de trabalho e de luta, perseguidos pela ditadura militar e pela repressão política, deram resultados eficazes ou só muita canseira. Se nossa pastoral junto aos empobrecidos bebeu do poço abundante do Deus da vida ou padeceu junto na caatinga este vale de lágrimas que é o cotidiano da exploração crescente de nossa gente.

Quando bate o desânimo, como acender de novo a chama do entusiasmo, da mística e do ardor pelo trabalho pastoral? Essa continua sendo uma grande questão. Sem petulância, queremos oferecer algumas pistas concretas.

Lembrava-me uma religiosa missionária vinda do Japão, hoje trabalhando na zona rural, que raramente existem desânimos permanentes e que, quando estamos sob a influência de um desânimo passageiro, alguém ao nosso lado, padre ou religiosa, está superanimado e assim nos contagia com seu élan. “Se ambos, agentes e religiosas, estivermos desanimados, sempre resta olhar a vida de nosso povo e da comunidade onde trabalhamos, verdadeiro cadinho de esperança e fonte da eterna juventude de nossa pastoral”. Sem a fé do povo teríamos dificuldade em sair de muitos impasses pastorais. Dos outros sempre nos vem o apoio para superar as crises e as dores.

Um dos grandes problemas de nossa pastoral, atualmente, é o de padres e seminaristas que não foram preparados nem se prepararam para trabalhar em equipe. Assim a primeira crise pastoral, sentimental ou política por que passam, não sabem como superá-la, e acabam transformando pequenos obstáculos em cizânia e briga insolúvel. Nessas ocasiões é sempre o leigo ou a freira que “paga o pato” e deve se retirar, às vezes transformando belas comunidades e anos de trabalho maduro e coletivo em ciumeira e fofoca, onde sempre “o outro” ou “a outra” tem a culpa e o pecado.

Vejamos algumas luzes e chamas para sair desse impasse.

 

1. Chama que não se apaga

A primeira grande experiência vivida pelo agente da pastoral libertadora que se chamava Moisés deu-se no alto da montanha santa chamada Horeb, onde, após apascentar seu rebanho, ele contempla um fogo que arde sem se consumir, numa bela e misteriosa Sarça Ardente. O relato no livro do Êxodo, capítulo 3, nos apresenta essa que é uma das mais belas epifanias bíblicas.

Esta é sempre a primeira e fundamental experiência mística de quem quer se consagrar ao trabalho popular libertador: ser capaz de contemplar e ser capaz de extasiar-se diante de “sarças ardentes”.

Esse fogo que não se apaga foi para Moisés, e é também para nós, uma porta privilegiada para vislumbrar a dor do povo, para perceber a exploração dos irmãos e para sermos chamados por nosso próprio nome para cumprir uma missão animados por Deus.

Diante dessa chama inextinguível, nosso companheiro de pastoral, Moisés, soube adorar e sobretudo contemplar. Assim também a pastoral popular na América Latina, seguindo os passos firmes e incontornáveis do Vaticano II, de Medellín, de Puebla e Santo Domingo, aprendeu a contemplar as sarças que ardem no meio do povo.

Sarças que são gente de Deus e Deus no meio da gente. Sarças que queimam e incomodam. Sarças que inquietam e questionam nossas Igrejas e nossa pastoral. Sarça com o rosto de gente sofrida e machucada.

Sarça-gente indígena, massacrada secular­mente clamando por terra e liberdade. Sarça-gente negra, organizando quilombos há 300 anos desde o de Palmares, na Serra da Barriga, até os de hoje nas CEBs das periferias.

Assim também hoje, nossa missão primeira é a de, na prática pastoral, sermos capazes de contemplar as sarças vivas e ardentes.

Sim, um bom sacerdote ou religiosa, que assume a luta evangélica da libertação, não pode ser um ativista paranoico como tantos se tornaram. Precisamos com urgência de contemplativos na ação, de gente que viva o profundo e misterioso encontro com o Pai de nossos pais, com o Deus vivo e verdadeiro. E isso se faz no silêncio, na escuta e na prece fervorosa e miúda. Nada de tanta gritaria e aleluias. Antes de tudo, é preciso contemplar as dores presentes em tantos rostos sofridos.

 

2. A mecha que ainda fumega

Depois de muitos quilômetros rodados de pastoral e reuniões infindáveis, bate na gente o cansaço no corpo e na alma. Tem-se a impressão de que tudo se tornou vício ou rotina. Visitas pastorais feitas por conta da tradição. Acolhimento marcado e controlado pela agenda e pelo cronômetro. Nem pedimos para o povo se sentar, só falamos de pé e correndo. No fim das missas ou pela janela da casa. Pior ainda se somente pela secretária eletrônica ou pelo interfone.

Tudo isso não será por medo dos novos e da criatividade dos outros? Dificuldade pedagógica e humana de lidar com os excluídos? Modo de viver que se aproxima demais do estilo burguês e nos afasta dos pobres? Compra de muitos aparelhos eletrônicos, de muitos vídeos, de muita grade para as igrejas e conventos, e poucas portas abertas para os jovens, os pobres e os operários?

Há demasiada preocupação com alfaias, túnicas, bordados e rituais. Parece que estamos informados de quase tudo na arte e nos símbolos, mas nenhuma mística nos movimenta e sustenta a pastoral e o compromisso inicial com os pobres e com a transformação. A luta contra a cultura da morte parece que foi se extinguindo e se apagando.

É hora de deixar de cuidar de tantas estruturas eclesiásticas e retomar o estilo sóbrio do Servo Sofre­dor do profeta Isaias. Mais evangelho, gente! Mais profecia e uma boa pitada de sabedoria poderão animar e reanimar mentes e corações cansados ou adormecidos.

Sabemos que o aburguesamento mata a pastoral e a mística só pode subsistir se vivermos o paradoxo da fé cristã em plenitude. Se nos confrontarmos, com destemor e loucura santa, com o sistema neoliberal idolátrico. Se nos negarmos a segui-lo como boa notícia e mostrarmos a loucura querigmática dos pobres de Deus: “… para chegares a possuir tudo, não queiras possuir coisa alguma; para chegares ao que não és, hás de ir por onde não és”[1].

Nesta nebulosa ou gelatina atual, em que nos sentimos perdidos e buscamos novas formas e métodos para nossa prática, ouçamos o profeta do exílio com os ouvidos atentos e com o coração aberto: “Eis meu servo que eu apoio, meu eleito, ao qual minha alma quer bem, pus sobre ele o meu Espírito. Para as nações ele fará surgir o julgamento. Não gritará, não levantará o tom, não fará ouvir na rua o seu clamor, não quebrará o caniço rachado, não apagará a mecha que ainda fumega; com certeza, fará surgir o julgamento” (Is 42,1-3).

Esse texto nos mostra que o rosto vivo e machucado de Jesus é para cada agente de pastoral um sinal sacramental da escolha de Deus no cotidiano de sua aliança junto ao povo. Deus não apagará a mecha: aquele amor primeiro que nos levou ao compromisso de sermos Igreja de um jeito sempre novo. Essa mecha fumega, pois temos brasas vivas que nos alimentam na fé e no testemunho evangelizador.

Caniço e mecha sempre se aplicam às vítimas e aos desprovidos de força, mas plenos do Espírito Santificador. Entre nós temos tantos caniços vergados e rachados, mas jamais tombados. Temos chamas vivas como D. Pedro Casaldáliga (neste ano celebrando 25 anos de pastoreio sertanejo) e D. Paulo Evaristo Arns (neste ano celebrando 25 anos de arcebispo urbano). Temos servos queridos e amados, já junto de Deus nos céus, como Mons. Larraín, Mendes Arceo, Leônidas Proaño, Enrique Angelelli, Oscar Romero e Rivera y Damas. Temos ungidos martiriais como Margarida Alves, Santo Dias e Chico Mendes. São chamas vivas do amor de Deus. Eles nos acordam das letargias neoliberais para a verdadeira liturgia vital. Eles nos impedem de transformar nossa liturgia eucarística em rito profano. São sementes de novos cristãos pela palavra e pelo testemunho, pela teologia e pelo evangelho. Enfim, porque são e foram coerentes com os pobres e com o voto de pobreza. Eram e são pobres no meio dos pobres. Sem disfarce nem mentiras.

Com essas chamas vivas, não podemos desanimar, pois nos alimentam com a seiva pura que vem das raízes do Cristo libertador. Das fibras profundas de sua prática bebemos esperança e podemos de novo assumir riscos políticos e pastorais em nome do Cristo e dos pobres, seus amados.

 

 

3. “Eu vim trazer fogo à terra”

Ao assumir a pastoral junto dos empobrecidos e excluídos, temos diante de nós tamanhos desafios que acabamos nos sentindo pequenos e impotentes.

Em 1944 o dominicano Pe. Lebret dizia:

“Muitos homens, diante dos obstáculos, pa­ram, consideram-nos, medem-nos e ficam no lugar. Encontram um cupim e o transformam numa montanha. Bastaria, quase sempre, saltar por cima ou contornar.

Outros ficam parados sistematicamente, analisando todos os obstáculos, todas as dificuldades reais possíveis, atuais e futuras. Tal atitude é semelhante à do ciclista que pretendesse permanecer em equilíbrio sem pedalar e sem correr. O equilíbrio da ação está no movimento”[2].

Essa tem sido costumeiramente outra razão de tanta crise e desequilíbrio pastoral. Falta-nos o entusiasmo e a audácia dos grandes evangelizadores. audácia indispensável, pois nossa pastoral junto aos empobrecidos será aos olhos do mundo uma grande loucura, uma imprudência e um enorme desperdício. Alguns até nos chamarão de oportunistas ou vanguardistas.

Temos, entretanto, o estímulo e a palavra de nosso mestre na escola da pastoral popular, que é o próprio Jesus de Nazaré: “Eu vim trazer fogo à terra, e como desejaria que já estivesse aceso! Devo receber um batismo, e como me angustio até que esteja consumado” (Lc 12,49-50).

Esse texto, que tanto incomoda as instituições — incluindo a eclesiástica — e aqueles que pensam com mentalidade de funcionários, é um convite à liberdade evangélica, ao serviço corajoso junto aos oprimidos e excluídos e, sobretudo, uma experiência de Deus em nossa vida comunitária.

Cristo lembra que nosso batismo nos introduz na vida da Trindade Santa e que nossa espiritualidade não pode reduzir-se a um pentecostalismo estreito. Nossa espiritualidade é trinitária. Somos trinitários. E é por estarmos nas mãos do Pai, seguindo o exemplo e a prática de seu Filho, que somos inspirados e soprados pelo fogo do Espírito Santo.

É a Trindade Santa que impede a gente de desanimar, mesmo quando todos os agentes de uma equipe e até mesmo o povo estiver cansado e desesperançado. Só Deus resta para nos consolar e afagar. Ele que é Pai de todas as misericórdias e do amor pleno. Quando o desânimo for crônico, só Deus para nos queimar por dentro, uma e outra vez!

Partilhemos um belo texto de Santo Agostinho, para que queime nossa alma e de toda nossa Igreja latino-americana, como queimou fundo o autor das Confissões:

“O que é que amo, quando amo Deus? … Quando o amo, amo uma certa luz, uma certa voz, uma como que fragrância, um alimento, um abraço; amo tudo isso quando amo a Deus — luz, voz, fragrância, alimento e abraço para o meu homem interior.

N’Ele a minha alma vê uma luz que não se apaga, n’Ele ouve melodias infinitas; n’Ele se expande a fragrância de perfumes que não são dissipados pelo vento, n’Ele saboreia-se um alimento que nunca sacia; n’Ele o abraço é tão estreito e íntimo que nenhum cansaço o pode desfazer. Isso é o que eu amo, quando amo a Deus. E o que é isso?”[3].

Assim nossa espiritualidade libertadora deve ser sempre filha da rebeldia e inebriar-se desta luz, voz, fragrância, alimento e abraço do nosso Deus e Pai maternal!

Quem já pôde estar com pessoas no limite da vida já sentiu essa experiência. Quem já participou de uma luta dos sem-terras ou com os favelados já ouviu essa voz. Quem vive e celebra a Eucaristia sabe de onde vem essa luz e é capaz de ouvir melodias infinitas. Na experiência da dor, da luta e da Eucaristia se escondem os mistérios maiores desse fogo que abrasa e que renova a face da terra.

Um destacado líder da comunicação cristã atual no Brasil, Mons. Arnaldo Beltrami, insiste cotidianamente lembrando um axioma de toda pastoral a todo agente de pastoral que queira ser feliz: “Só faz sentido para mim o que for sentido por mim”.

Na mística ou espiritualidade dos seguidores de Jesus é assim também. Se não colocarmos todas as energias em favor de nossos projetos e demonstrarmos com sentimento e pensamentos nossa disposição de mudar as estruturas de injustiça, ninguém, nem nós mesmos, vamos acreditar no que fazemos. É de dentro que vêm a força e o tesouro, mas vêm também os erros e o desânimo.

Nestes tempos de grandes dificuldades pastorais e de pouco apoio eclesial e estratégico para quem está nas periferias de nossas cidades, é preciso descobrir e avivar as chamas dos que ainda hesitam e provocar o voo daqueles que são tímidos. A hora é de audácia missionária. É hora de acender fogueiras para esquentar corações e vidas mornas. Tempo de esperanças ferventes e caridades que aqueçam de verdade!

 

4. Os místicos estão entre nós

Três grandes desafios pedagógicos podem, se enfrentados, nos ajudar a vencer o desânimo atual e a fragmentação de nosso trabalho popular. Isso não somente na Igreja, mas também nas associações populares. Não são receita de bolo, nem horóscopo. São pistas refletidas e pensadas a partir da prática e seus novos desafios. Como nossa grande prioridade é e continua sendo o trabalho de base com o povo das bases, temos de ocupar espaços e aprender a partir de três pilares fundamentais: presença, solidariedade e resistência.

 

4.1. O que entendemos por presença?

É ser parceiro com o povo sem carregá-lo nas costas.

É ouvir suas dores e buscar junto unguento para curá-las.

É incentivar a sua ação enquanto sujeito e procurar não substituir sua prática conscientizadora.

É assumir o lugar social dos pobres e seus projetos, e não somente fazer turismo e filantropia nas favelas, cortiços ou acampamentos.

É ser persistente e “cabeça-dura” nas coisas que exigem perseverança e firmeza permanente. E ser maleável com os companheiros e membros de nossa equipe de vida. Afinal, ninguém é de ferro.

Assim me dizia a Ir. Dirce Genésio dos Santos, religiosa do Instituto Beatíssima Virgem Maria, profundamente comprometida com a periferia paulistana há muitos anos: “O que me anima é a fé em Jesus Cristo, seu exemplo de vida e as pessoas que o seguem. Neste mundão de meu Deus, todos os que seguem Jesus verdadeiramente e tentam fazer algo novo, são banidos. O próprio Cristo teve momentos de desânimo e de conflito profundo. Lembremos da cena em que pede para afastar o cálice, mas, em seguida, ele se firma e diz que veio para cumprir a vontade do Pai. Procuro sempre fazer revisão de minha vida e de minha prática. Rever ajuda mais do que fazer. Aliás, penso ser este o ponto fundamental do crescimento humano. Tenho também muito dentro de mim de fidelidade ao exemplo de minha fundadora, esta mulher maravilhosa que foi Maria Ward. Ela foi o máximo. Penso também que hoje existem muitos movimentos religiosos, dentro e fora da Igreja católica, que estão estimulando o comodismo e a resignação. Eu, ao contrário, nas horas de maior angústia e dor, me apego ao Cristo e digo: ‘água mole em pedra dura tanto bate até que fura’. E logo completo: se faltar água, use dinamite”.

Esse exemplo e presença viva da fidelidade ao Cristo da Ir. Dirce se multiplicam em tantas pessoas e comunidades vivas neste imenso Brasil, e nos ajudam a afirmar que cristão nenhum tem o direito de permanecer em cima do muro.

As decisões, embora difíceis, são critério de fidelidade ao evangelho. A presença é o primeiro caminho para vencer o mal e o fatalismo. Exige compromisso e pôr-se a caminho sempre.

 

4.2. O que entendemos por solidariedade?

É estar sempre juntos, especialmente nos momentos fortes.

É ser equipe de amigos e de partilha.

É celebrar juntos com frequência.

É manter contatos com as pessoas com quem trabalhamos (no passado), e não simplesmente com quem agora estamos trabalhando. Ser solidários sempre, e não apenas, oportunisticamente, nos momentos que estamos precisando.

É agir em favor dos pobres, e não só fazer denúncia ou discurso panfletário.

Assim nos afirma Santa Teresa de Jesus, doutora da Igreja: “O Senhor quer obras. Se vês uma enferma a quem podes dar algum alívio, não tenhas receio de perder a tua devoção e compadece-te dela. E se lhe sobrevém alguma dor, doa-te como se a sentisses em ti. Se for preciso, faze jejum para lhe dar de comer. Não tanto com os olhos nela, quanto porque sabes que teu Senhor o quer assim. Esta é a verdadeira união com a vontade de Deus! Se vires louvar muito a uma pessoa, alegra-te mais do que se te louvassem a ti. Verdadeira­mente é fácil para quem é humilde, pois até sente confusão quando é louvado… Olhai quanto custou a nosso Esposo o amor que nos teve. Com o objetivo de nos livrar da morte, sofreu a morte crudelíssima na cruz”[4].

 

4.3. O que entendemos por resistência?

É pensar a pastoral e o trabalho com o povo com mais criatividade.

É celebrar as pequenas vitórias.

É abrir espaço para que o povo se expresse nas liturgias e nos encontros.

É estudar a história recente e passada das lutas populares resgatando lições da memória popular.

É encontrar novos aliados para as causas difíceis e advogados para as causas consideradas impossíveis.

É treinar gente para a resistência ativa e para as horas de conflito.

É, enfim, ler, rezar e alimentar-se com o texto sagrado da Escritura para descobrir novas luzes para o amanhã.

É confiar na graça divina e, sobretudo, na misericórdia do Pai de Jesus.

Assim nos ensina o doutor e mestre Tomás de Aquino: “A esperança não se apoia principalmente na graça já recebida, mas na onipotência e misericórdia divinas, pela qual quem não tenha a graça pode consegui-la, e assim chegar à vida eterna. E da onipotência de Deus e de sua misericórdia está convicto aquele que tem fé”[5].

Se após toda esta reflexão sobre como acender ou reacender a chamada esperança e da mística o(a) caríssimo(a) leitor(a) não tiver ainda conseguido fazer fumegar, faiscar ou queimar algo em seu interior, o jeito (e a hora) é dar o salto mortal para dentro do Deus escondido, fonte de toda mística e paixão. Era assim que E. Kant definia a mística: “… ist ein Übersprung von Begriffen zum Undenkbaren” (é um salto mortal da razão para o inconcebível).

Isso que o pensador alemão filosoficamente definia, boa parte do povo brasileiro assim murmura a cada manhã: “Com Deus eu me deito, com Deus eu me levanto. Com a graça de Deus e do Espírito Santo. Jesus, Filho da Virgem Maria, me acompanha esta noite e todo dia. Vós me olhais e me guiais. Meu anjo da guarda me ampara e me guia”.

A tradição apocalíptica, transformando tanta perseguição em doxologia de resistência, nos faz proclamar e acreditar nessa perspectiva como hino em nossa Igreja. Assim nós cremos que quanto mais escura é a noite, mais prenuncia o alvorecer, com o poeta Thiago de Mello e com os cristãos de ontem na Roma imperial — sob o domínio de Diocleciano — e os de hoje, nas comunidades vivas dos pobres. “Não haverá mais maldição. O trono de Deus e do Cordeiro estará na cidade e seus servos lhe prestarão culto: verão sua face e seu nome estará sobre suas frontes. Não haverá mais noite, ninguém mais precisará de luz da lâmpada nem de luz do sol, porque o Senhor Deus difundirá sobre eles a sua luz, e reinarão pelos séculos dos séculos” (Ap 22,3-5).



[1] São João da Cruz, “Subida ao Monte Carmelo”, livro I, cap. XIII, in Obras Completas, Vozes-Carmelo Descalço, Petrópolis, 1984, p. 182.

[2] Louis-Joseph Lebret, Princípios para a ação, Livraria Duas Cidades, São Paulo, 1984, p. 66.

[3] Santo Agostinho, Confissões, Quadrante, São Paulo, 1989, p. 181; S. Agostinho, Confissões, 5ª ed., Paulus, São Paulo, 1993, pp. 254-255.

[4] S. Teresa, “Quintas Moradas”, cap. III, in Santa Teresa de Jesus, Castelo interior ou moradas, 5ª ed., Paulus, São Paulo, 1994, pp. 122-123.

[5] Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, (Parte II-II, questão 18, artigo 4, sujeito de esperança), BAC maior 36 (Suma de Teologia, tomo III), Madri, 1990, p. 173.

Pe. Fernando Altemeyer Júnior