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Publicado em Maio-Junho de 2010 (pp. 25-28)

Por uma espiritualidade encarnada: reflexões sobre a espiritualidade do(a) agente de pastoral à luz do documento de Aparecida

Por Rodrigo Borgheti

1. Introdução

Um documento do Magistério da Igreja pode ser lido e compreendido sob diferentes enfoques. Podemos descobri-lo como instrumento que nos revela as circunstâncias históricas em que se inscreve determinada doutrina, considerá-lo como um elemento a mais para formularmos críticas e expressarmos nosso descontentamento acerca da realidade eclesial ou, ainda, lê-lo com o objetivo de aprofundar uma mística pessoal que caracteriza o estilo próprio de cada um e o leva a atuar como membro da Igreja viva de Cristo. O presente artigo se insere nesta terceira possibilidade vislumbrada.

Nosso interesse pelo desenvolvimento da espiritualidade cristã nasceu com a prática pastoral educativa decorrente de 13 anos de trabalho em instituições católicas de ensino. Ao longo deste tempo, compreendemos a riqueza espiritual contida nos documentos do Magistério eclesiástico e reconhecemos que uma leitura bem orientada pode constituir fonte de espiritualidade adaptada aos novos tempos, repercutindo em ações pastorais com amplitude e profundidade.

Sabemos que o Documento de Aparecida é muito rico pelo imenso leque de temas e orientações pastorais que contém. Ele recapitula o que há de melhor nos documentos das conferências do Celam anteriores, e isso dentro de um quadro teológico muito mais rico, seguro e homogêneo. Foi escrito para todos os batizados e principalmente para os ministros de ação pastoral. O documento em si tem como grande objetivo oferecer aportes significativos para que os fiéis ajudem a converter a Igreja em uma comunidade mais missionária. Com este fim, fomenta-se a conversão pastoral e a renovação missionária das Igrejas particulares, das comunidades eclesiais e dos organismos pastorais.

Retoma, como documento do Magistério latino-americano, a importância da missão laica abordada desde o Vaticano II, apostando nos variados processos formativos, com seus critérios e seus lugares segundo a diversidade de ministérios cristãos, e prestando especial atenção na iniciação cristã, na catequese permanente e na formação dos agentes de pastoral, pois considera, como o Vaticano II, a importância dos leigos, retomando a ideia de que são

participantes do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo, têm um papel próprio a desempenhar na missão do inteiro povo de Deus, na Igreja e no mundo (2). Exercem, com efeito, apostolado com a sua ação para evangelizar e santificar os homens e para impregnar e aperfeiçoar a ordem temporal com o espírito do evangelho; deste modo, a sua atividade nesta ordem dá claro testemunho de Cristo e contribui para a salvação dos homens. E sendo próprio do estado dos leigos viver no meio do mundo e das ocupações seculares, eles são chamados por Deus para, cheios de fervor cristão, exercerem como fermento o seu apostolado no meio do mundo (Decreto Apostolicam Actuositatem, parágrafo 2).

 

O documento se estrutura mediante a articulação dos seguintes elementos: fé viva em Cristo a partir de uma experiência de encontro (“discípulos”), fé essa que se irradia no mundo em forma de missão (“apóstolos”) e se prolonga na sociedade como compromisso pela justiça e pela vida (“para que nele nossos povos tenham vida”). Parte-se da fé em Cristo como fundamento de tudo, caminhando em direção à evangelização como o primeiro desdobramento espontâneo e enfocando por último a missão social como plataforma de concretização da fé.

Pela primeira vez é superada a ideia de uma fé entendida como simples aceitação de doutrinas, ou apenas como opção ética, ou ainda como mera tradição cultural. Aparecida aponta a espiritualidade como a parte mais íntima e vital da fé, que deve ser cultivada em vista de uma evangelização efetiva do continente.

O Documento de Aparecida ressalta também a importância da formação do(a) discípulo(a) e missionário(a), seja leigo(a), religioso(a), consagrado(a) ou clérigo, nas dimensões espiritual, comunitária, intelectual e pastoral-missionária de forma integrada, enfatizando a importância do laicato no processo de evangelização.

A preocupação com a revitalização espiritual da vida dos batizados em seu caminho de discipulado é uma novidade, se compararmos o Documento de Aparecida aos documentos precedentes do Magistério latino-americano. Por isso, como opção metodológica, nosso objetivo foi contribuir com uma análise construída na perspectiva da espiritualidade cristã do agente de pastoral que é em primeiro lugar discípulo(a) e missionário(a) de Jesus Cristo, aprofundando essa temática com base nas raízes encontradas no documento: a riqueza espiritual da piedade popular católica, a espiritualidade trinitário-cristocêntrica, comunitária, missionária e mariana.

 

2. O(a) agente de pastoral como discípulo(a) e missionário(a) de Cristo

Os novos tempos exigem novo estilo de agir pastoral que só pode brotar de uma radical inserção no mistério de Jesus Cristo encarnado em nossa realidade (SD 28). Assim, delineou-se novo perfil de Igreja neste início de século XXI.

Quanto à importância dada no Magistério da Igreja do século XXI ao agente de pastoral no processo de evangelização, o Documento de Aparecida apenas deu continuidade às linhas traçadas nos documentos do Vaticano II e retomadas no documento de Santo Domingo.

A ideia central é que todos os batizados são chamados ao discipulado e à missão de levar a boa-nova de Jesus Cristo, entretanto o agente de pastoral é o batizado que assumiu a missão evangelizadora da Igreja por meio de uma adesão pessoal à proposta de Cristo, fazendo do seguimento e da missão um caminho de plenitude e sentido de vida. Portanto, o agente de pastoral tem de ser, antes de tudo, um discípulo, um seguidor de Cristo, uma testemunha fiel.

O principal protagonista da evangelização é o Espírito Santo. Partindo desse princípio, entendemos que a qualidade e a eficácia da ação pastoral-missionária dependerão, em grande medida, da qualidade humana e cristã do agente, isto é, de sua busca zelosa pela santidade, que caracterizará sua espiritualidade.

 

3. Espiritualidade como expressão de um encontro pessoal

Entendemos por espiritualidade a expressão da nossa relação com um mistério totalmente transcendente e mesmo assim posto no início e no fim dos “desejos originários do coração”, os quais definem a nossa identidade humana e pessoal. É fruto do encontro com uma pessoa concreta, um indivíduo histórico, que vem a nós por meio da nossa amizade com os companheiros que ele atraiu a si como ao próprio Corpo Ressuscitado. A nossa fé em Cristo é a consequência de um encontro que nos faz reconhecer Jesus como o rosto humano do Mistério, como a encarnação do Mistério (Giussani, O senso religioso).

A espiritualidade, portanto, é aquilo que nos anima e nos impulsiona à vida cristã. É fruto de nossa relação com Deus, a qual se manifesta nas atitudes cotidianas e no serviço ao próximo. Assim, falar de espiritualidade não é falar de uma parte da vida, mas de toda a vida. É a dimensão espiritual que alicerça o ser cristão na experiência de Deus manifestado em Jesus e o conduz, pelo Espírito, nos caminhos de um amadurecimento profundo.

 

4. Uma espiritualidade trinitário-cristocêntrica

Para o Documento de Aparecida (AP 240), a experiência batismal é o ponto de início de toda espiritualidade cristã que se fundamenta na experiência do encontro e no seguimento da pessoa de Jesus, estabelecido sobre o sólido fundamento da Trindade-Amor, que é unidade e comunhão inseparável.

Espelhados nessa relação trinitária, somos impelidos para a vida comunitária, que nos permite superar o egoísmo e nos encontrar plenamente como pessoas, criadas à imagem e semelhança de Deus, dedicando-nos ao serviço do próximo (AP 244). Por meio dos diversos carismas pessoais, a pessoa se fundamenta no caminho da vida e do serviço proposto por Cristo com um estilo próprio. Isso deve caracterizar a espiritualidade do agente de pastoral.

O caminho com Jesus Cristo dá-se, portanto, a partir de um encontro humano que nos induz a descobri-lo e segui-lo como o Mistério feito homem. Esse milagre, naturalmente, é obra do Espírito Santo, enviado como fruto do mistério pascal do Senhor, de modo que a nossa espiritualidade é o efeito do Espírito Santo que nos permite encontrar e seguir Cristo em nossa existência humana.

Em decorrência disso, a nossa espiritualidade afirma sempre uma paixão pelo humano. As características eclesiais, eucarísticas e bíblicas dela derivam do fato de basear-se no encontro com Cristo por meio dos relacionamentos humanos.

Um ponto importante a destacar no documento é que a própria natureza do cristianismo consiste no reconhecimento da presença de Jesus Cristo e no seguimento decorrente desse encontro.

Essa foi a maravilhosa experiência dos primeiros discípulos, que, encontrando Jesus, ficaram fascinados e cheios de assombro diante da excepcional idade de quem lhes falava, diante da maneira como os tratava, coincidindo com a fome e sede de vida existentes em seus corações.

 

5. Espiritualidade do jeito de Maria

Maria Santíssima é modelo perfeito de agente de pastoral. Teve uma missão singular na história da salvação, concebendo e educando seu filho e o acompanhando até seu sacrifício definitivo. O Documento de Aparecida reconhece seu testemunho e nos convida a imitá-la cada dia mais. Ela é a “máxima realização da existência cristã como um viver trinitário de ‘filhos no Filho’” (AP 266). Foi exemplo de obediência à vontade de Deus por meio de sua fé, que alimentava com a meditação da palavra e das ações de Jesus. Segundo o documento, Maria é aquela que “fala e pensa com a palavra de Deus; a palavra de Deus se faz a sua palavra e sua palavra nasce da palavra de Deus. Além disso, assim se revela que seus pensamentos estão em sintonia com os pensamentos de Deus, que seu querer é um querer junto com Deus” (AP 271).

Por isso, é a presença materna indispensável e decisiva na gestação de um povo de filhos e irmãos, de agentes missionários de seu Filho (AP 524).

Podemos contemplar os frutos da espiritualidade de Maria na passagem das bodas de Caná, por meio das atitudes de atenção, serviço, entrega e gratuidade que devem distinguir os discípulos de seu Filho. Perseverou junto aos apóstolos à espera do Espírito, cooperando com o nascimento da Igreja missionária, na qual imprimiu seu caráter, que a identifica profundamente. Essas atitudes criam comunhão e nos educam para um estilo de vida compartilhado e solidário, em fraternidade, em atenção e acolhida ao outro, especialmente se é pobre ou necessitado.

Maria, portanto, além de modelo e paradigma da humanidade, é artífice de comunhão (AP 268), à medida que sempre esteve atenta à palavra de Deus, a ponto de ser mãe da Palavra encarnada.

 

6. Uma espiritualidade encarnada nos diversos ambientes

Entender a fé como um evento existencial, como uma “experiência de encontro” — um encontro vivo com a pessoa viva de Jesus Cristo: essa foi a grande redescoberta de Aparecida que nos ajuda a redimensionar a espiritualidade na vida cristã como principal motivação de nosso apostolado.

Dessa maneira, podemos entender o papel da verdadeira espiritualidade nos dias de hoje: uma espiritualidade com mãos e pés que confirma na ação (cabeça) e apresenta motivações. Mas principalmente uma espiritualidade com “espírito”, isto é, consciente de que molda o ser e motiva o fazer cristão.

O Documento de Aparecida nos possibilita pensar que uma espiritualidade encarnada se manifesta quando colocamos o coração em Deus e, ao mesmo tempo, sabemos reconhecê-lo no coração dos homens e mulheres do contexto em que vivemos e atuamos.

Possuir espiritualidade encarnada nos diversos ambientes é ter espiritualidade de discípulos e missionários de Cristo, o que caracteriza o essencial do ser “pessoa de Deus”, cheia do Espírito Santo de maneira tal que seja capaz de transbordar a principal motivação do agir apostólico.

Em outras palavras, é saber proclamar com a vida as razões da própria fé, que caracteriza a identidade do cristão, seguindo o exemplo de são Paulo quando disse: “Eu sei em quem acredito!” (2Tm 1,12).

 

BIBLIOGRAFIA

CELAM. Documento de Aparecida: texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Brasília: CNBB; São Paulo: Paulinas; Paulus, 2007. 301 p.

GIUSSANI, Luigi. O senso religioso. São Paulo: Companhia Ilimitada, 1988.

LIBANIO, J. B. Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano: do Rio de Janeiro a Aparecida. São Paulo: Paulus, 2007. 167 p.

STROBINO, Ivo. A propósito da espiritualidade apostólica marista. Disponível em: <www.champagnat.org/…/SpiritualitApostoliqueMariste_PT.doc>. Acesso em 8 fev. 2010.

VATICANO II. “Decreto Apostolicam Actuositatem, sobre o apostolado dos leigos”, in: Compêndio do Vaticano II: constituições, decretos e declarações. Petrópolis: Vozes, 1984.

 

Rodrigo Borgheti