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Publicado em Março-abril

Política e missão: a fé é compromisso

Por Pe. Valdecir Luiz Cordeiro

A religião ganhou um peso surpreendente nas eleições de 2010, principalmente na disputa presidencial. E isso tudo na República que nasceu sob a égide do positivismo e na qual o caráter laico do Estado é assumido como uma espécie de cláusula pétrea e sinônimo de modernidade.

Por que então a religião, num dado momento, durante algumas semanas, passou a ser “central” no debate público? Por que alguns setores da Igreja Católica, que nunca quiseram se envolver com “coisas terrenas”, de uma hora para a outra fizeram sua irrupção na militância política? Cabe perguntar se a religião – e com ela a Igreja – não foi artificialmente arrastada para o cenário eleitoral por interesses inconfessados e não necessariamente ligados a um compromisso de transformação da realidade num mundo mais humano, como exige a fé cristã.

 

1. Religião e política. Risco de instrumentalização da instituição

Pode ser bom distinguir religião e fé. A religião está ligada a um poder de organizar ritos, espaços e símbolos. Responde a anseios humanos profundos, atua na religação ou compreensão no campo do sentido da existência humana, mas não tem por si mesma um conteúdo que lhe confira especificidade. Por outro lado, a fé cristã é a experiência humana de confiança na palavra de Deus, que exige conversão. A fé é confiança na pessoa de Jesus Cristo. É a Palavra acolhida na comunidade cristã e que confere uma especificidade à experiência religiosa. Pode preencher de conteúdo a religião. Por isso, a religião é cristã tão somente quando nela se vive a fé cristã.

Daí a diferença entre agir em nome da religião e agir em nome da fé. A religião está mais no nível institucional, ao passo que a fé, embora seja vivida numa comunidade que se organiza como instituição religiosa, está mais no nível do sentido que cada fiel dá à própria vida e que se compromete a imprimir no mundo em que vive. Por isso, um canto diz acertadamente que “a fé é compromisso que é preciso repartir…”.

Portanto, no campo da ação político-partidária, o fiel pode agir em nome de sua fé sem instrumentalizar a instituição religiosa a que pertence, pois a fé está no nível das convicções que o sujeito livremente assume e pode defender com criatividade e habilidade política no debate democrático. Já a ação da instituição religiosa, ou em seu nome, é mais delicada nesse campo. Além de esbarrar em limites estabelecidos por lei, pode mais facilmente ser instrumentalizada em prol de interesses alheios à própria fé.

 

2. Um caso que faz pensar

O posicionamento do Regional Sul 1 (Estado de São Paulo) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), nas últimas eleições, parece ter potencializado o uso da religião no debate eleitoral. A Comissão em Defesa da Vida elaborou e divulgou um panfleto, apoiado depois pela Presidência do regional, no qual apresentava argumentos que levavam o leitor a concluir que a ex-ministra chefe da Casa Civil e então candidata à presidência da República era favorável à descriminalização do aborto. E recomendava aos brasileiros e brasileiras que, nas próximas eleições, dessem “seu voto somente a candidatos ou candidatas e partidos contrários à descriminalização do aborto”.

O viés partidário do panfleto se deveu não apenas ao fato de ter alertado os leitores sobre um posicionamento contrário à vida supostamente assumido por determinada candidata, mas também ao fato de ter poupado outro candidato que, por razões históricas, deveria ter sido objeto da mesma preocupação. O potencial explosivo e de manipulação eleitoral do panfleto, que estampava a logomarca da CNBB, logo se revelou. Amplamente divulgado na mídia e em redes sociais, empurrou o tema da “religião” e da “defesa da vida” para o centro do cenário eleitoral.

Avaliou-se que tal situação acabou instrumentalizando a CNBB. Tanto é verdade, que a conferência episcopal reagiu e publicou uma nota oficial sobre sua posição naquele momento eleitoral. Foi reafirmado o compromisso com a vida em todas as suas dimensões, bem como a autonomia do eleitor para discernir e escolher livremente. A CNBB não vetava nenhum candidato.

Tal posicionamento foi substancialmente acolhido depois também pelo Regional Sul 1. E assim se resolveu em parte a questão. Parcialmente porque a impressão e a divulgação do panfleto, na prática, continuaram, num movimento que, em parte, fugiu ao controle de seus autores, qual travesseiro aberto ao vento. A ventania se encarregava de espalhar as penas. E assim, não obstante os esforços para esclarecimentos, a questão sobre a natureza da atuação política da Igreja infelizmente acabou ficando meio em aberto diante da opinião pública.

 

3. Fé e política: compromisso por um mundo mais humano

A fé exige conversão e anima os homens e mulheres no compromisso histórico, na construção de um mundo onde seja mais fácil sorrir. A fé não é compatível com neutralidade, indiferença ou manipulação. Exige engajamento. E espiritualidade cristã não combina com espiritualismo, mas é estilo de vida que se concretiza na colaboração entre as pessoas para maior humanização.

Neste ponto, creio ser oportuna uma palavra sobre certa ambiguidade que se tem verificado no seio de nossa querida Igreja nas últimas décadas. Não me refiro ao ensino social da Igreja, que é bastante coerente, tampouco às comunidades em geral. Antes, reporto-me a certo discurso que desaconselha aos cristãos católicos o engajamento político em nome da fé. Os reais motivos que sustentam esse discurso são ocultados, consciente ou inconscientemente, por seus protagonistas. Em geral aparece apenas a ideia difusa de que devemos “cuidar da espiritualidade” e tomar o devido cuidado para não transformar o evangelho de nosso Senhor num evangelho terreno.

A ambiguidade a que me refiro tornou-se mais evidente no contexto do engajamento partidário de uma parcela da Igreja, conforme exposto acima. Trata-se do fato de parte significativa das pessoas de Igreja defensoras da neutralidade ter feito sua aparição na política. E feito da pior forma. Pregadores que nunca tocaram em assuntos políticos ocuparam o espaço público, e até mesmo o púlpito, para advogar em favor da vida, emitindo opinião sobre em quem não votar. Mas renunciava-se a discutir amplamente os prementes desafios do país. Os que, em nome da universalidade da palavra de Deus, outrora advertiam sobre supostos riscos de uma “opção pelos pobres” agora mostravam sua real opção.

Apoiados na ideia geral de defesa da vida, acabaram instrumentalizando a Igreja. Emprestaram a um dos candidatos o irrenunciável tema da defesa da vida. Mas este se resumia, de maneira simplista, à questão da oposição à descriminalização do aborto. Assunto chancelado e amplificado pela velha mídia impressa e televisiva que outrora atacava a Igreja, ávida por escândalos e sempre atenta a qualquer sinal de obscurantismo, tal como, pasmem, “ser contra o aborto”.

O caso em questão é instrutivo e explicita o caráter meramente aparente da neutralidade reivindicada e historicamente incentivada por alguns líderes e grupos católicos. São conhecidas algumas experiências históricas na América do Sul. No Brasil e no Chile da segunda metade do século passado, em nome de valores universais da pátria e da família, com o apoio mais ou menos explícito e consciente de setores conservadores da Igreja, foram gestadas e instauradas ditaduras sanguinárias.

Não podemos nos posicionar em favor da vida orientados unicamente por uma visão biologista. Os recentes conhecimentos científicos nos campos da física e da química nos ajudam a entender que a vida seria impossível sem as condições estruturais e materiais necessárias para o seu surgimento e evolução. Portanto, defender a vida humana é mais que defender o direito de nascer. É também empenho na criação de condições para que ela cresça e alcance pleno desenvolvimento. É defender um Estado voltado para toda a população e empenhado na superação da miséria; é lutar contra o imperialismo da cultura do individualismo e dos mercados; é ajudar a promover a integração da América Latina, a fim de enfrentar a tirania do norte global e combater toda forma de preconceito contra os pobres.

 

Conclusão

Penso ser sumamente desejável que os católicos que, mesmo de última hora, entraram em cheio na política nas eleições passadas continuem firmes na luta. Que doravante tenham grandeza e força profética para continuarem na militância, com a vida e com a palavra, mas para além de uma quase abstrata “luta pela vida”. Espera-se, além disso, que nosso encontro com Jesus Cristo na Palavra, na eucaristia e no rosto dos pobres nos ajude a compreender que, em nossa experiência de fé, não cabe aquela neutralidade em matéria de política que alguns têm recomendado à minha geração.

 

* Presbítero da Arquidiocese de Porto Velho. Foi assessor e articulador do 12º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base – 2009. Cursa o doutorado em Teologia Sistemática na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), em Belo Horizonte, onde também fez seu mestrado, na mesma área.

E-mail: valdecir@netcourrier.com

 

Pe. Valdecir Luiz Cordeiro