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Publicado em Novembro-Dezembro de 2004 (pp. 10-16)

Sexualidade: a felicidade ao alcance de todos

Por Frei Antônio Moser

Introdução

O desejo de ser feliz é a mola propulsora de cada ser humano e acalenta os sonhos da humanidade em todos os tempos. Por isso mesmo, quando aparece algum personagem ou surge algum movimento de cunho religioso e social prometendo felicidade, seu êxito está garantido. É verdade que os falsos moedeiros costumam ser rapidamente desmascarados, mas nem por isso deixam de encontrar outra clientela: basta que saibam dar algum toque novo à sua mensagem. Ocorre que, bem lá no fundo, até mesmo os falsos moedeiros têm alguma razão nas suas promessas: mesmo que o caminho seja tortuoso, todos nascemos para ser felizes e a felicidade está ao nosso alcance. Para tanto, basta chegar ao “fio da meada” e saber utilizá-lo adequadamente. O “fio da meada” parece encontrar-se na sexualidade.

Claro que não se pode ser ingênuo: a sexualidade, seja sob o prisma pessoal, seja sob o prisma social, constitui um dos maiores mistérios da vida. Ela é força paradoxal que movimenta toda a vida e a vida toda — ora sob o prisma do amor, ora sob o prisma do ódio. Ela não é a única força; no entanto, esgueira-se em meio às outras forças, sejam materiais, sejam espirituais. Lá no fundo, ela encarna o paradoxo humano: meio humano, meio divino, meio material, meio espiritual, meio anjo, meio demônio. Daí a necessidade de proceder com cautela: mediante a sexualidade, a felicidade encontra-se ao alcance de todos, só que, ao mesmo tempo, qualquer erro pode ser fatal. O sorriso da esfinge grega, símbolo dos mistérios que envolvem a sexualidade, é muito significativo: “Cuidado, pois este caminho tanto pode levar à vida quanto à morte”.

Tendo isso em vista, poderemos agora oferecer uma espécie de roteiro da felicidade, mediante a integração da sexualidade. Certamente não é o único roteiro possível, mas pode ser um deles. Nesse roteiro sinalizaremos exatamente sete passos. Sete é número bíblico que guarda sentido de plenitude. Quem quiser pôr a mão no tesouro, ou seja, abraçar a felicidade, deve estar atento ao menos a sete pontos decisivos: bendizer todos os dias a Deus por ele nos haver feito seres sexuados; jamais rir da sabedoria que se oculta por trás de certas estranhas intuições e mitos do passado, conjugar certos dados das ciências, desenvolver apurado senso crítico em relação à mídia, cultivar a arte de amar, construir a própria casa, saber transcender-se.

 

1. Graças a Deus, somos sexuados!

Hoje, em termos de comportamentos sexuais, e no contexto do nosso “mundo ocidental cristão”, a primeira impressão que se tem é a de que quase todo o mundo é “liberado” e “liberal”. Entretanto, se olharmos com um pouco mais de atenção, o quadro se apresenta de maneira mais complexa. Importa evitar qualquer tipo de simplismo. Talvez, com as devidas ressalvas, se possa trabalhar na pressuposição de grupos, mais ou menos sintonizados: em matéria de comportamento sexual, o “povão” quase sempre foi liberal e continua se enquadrando no liberalismo, sem entender o que significa essa palavra. Mesmo entre os que são cristãos, reina certa complacência: “Pode ser pecado, mas Deus entende”.

Entretanto, no núcleo mais ligado às Igrejas cristãs, muitas pessoas apresentam uma formação rígida de consciência. Se formos a fundo, constataremos que, em pleno século XXI, não poucas dessas pessoas bem que gostariam de ser assexuadas, para assim não serem obrigadas a enfrentar as tentações da carne. Algo de parecido se encontra também entre o clero e os representantes da vida religiosa, sobretudo entre pessoas de mais idade. Além de vigorar nessas mentes uma concepção muito pobre de sexualidade, reina uma concepção rigorista, sobretudo no que diz respeito aos outros: escandalizam-se com determinadas histórias, mas sua reação apenas reflete frustrações e recalques pessoais mais ou menos profundos. O moralismo rançoso tem muito de quixotesco: põe-se a combater moinhos de vento, em vez de ajudar na construção de uma nova realidade pessoal e social.

Sendo assim, é preciso desenvolver uma pastoral interna (para o clero, os religiosos e religiosas, as pessoas ligadas às Igrejas) e outra externa (para os que não mantêm vínculos com as Igrejas), a fim de sempre proclamar o Evangelho da Sexualidade. Evangelho é sempre boa nova, só que ora se deve fazer uma leitura mais no sentido da verdade, com acento nas exigências morais, ora se deve fazer uma leitura mais no sentido da libertação de tabus. Para quem tende ao liberalismo, aperta-se mais o registro do ideal e da verdade do ser; para quem tende ao rigorismo, aperta-se mais o registro da liberdade dos filhos e filhas de Deus.

Concretamente, o Evangelho da Sexualidade parte do pressuposto de que ela sempre é dom de Deus e, como tal, entra em cheio nos projetos de Deus. Ao criar-nos como seres sexuados, Deus nos fez assim, não por engano ou de maneira temerária, mas para propiciar-nos o crescimento numa tríplice dimensão: pessoal, social e transcendente. Na dimensão pessoal, a sexualidade encontra-se a serviço da personalização, ou seja: é uma energia que nos torna pessoas únicas e originais, à exata medida que nos empurra ao encontro do diferente, do outro. Na dimensão social, a sexualidade abre-se ao serviço da construção de uma nova humanidade: não aquela do ódio e da destruição, mas aquela que derruba todos os muros e preconceitos, sejam eles de ordem cultural, étnica, racial, ideológica ou religiosa. A sexualidade é destinada a abrir caminho para a estruturação da grande família dos filhos e filhas de Deus. Diante de tudo isso, cada um de nós só pode exclamar: obrigado, Senhor, por me haverdes feito ser sexuado, ainda que nem sempre seja fácil lidar com essa energia paradoxal.

 

2. Quem se ri das intuições e dos mitos do passado?

Vivemos em tempos de aceleração no campo das descobertas e no campo das práticas. A distância entre as duas se torna cada vez menor. Portanto, compreende-se que muita gente tenha perdido o sentido da historicidade humana. Melhor dito: muitos perderam um dos elementos constitutivos da historicidade, pois só veem o que muda e pode mudar, e não veem mais o que permanece e deve permanecer. A historicidade sempre pressupõe um “esse”, um núcleo mais estável, e um “fieri”, um núcleo mais maleável. Isso fica muito bem evidenciado também no que diz respeito à sexualidade. Como núcleo mais estável, podemos considerar o sexo genético. Como núcleo mais maleável, podemos considerar uma série de dimensões da sexualidade: cultural, econômica, social, psíquica e espiritual. Uma é a face que nos é “dada”, e a outra é a que pode e deve ser “cultivada”. É sobretudo nesta segunda linha do núcleo maleável que se impõe a necessidade de uma verdadeira educação sexual. Enquanto no núcleo mais estável nos reconhecemos mais na dependência do patrimônio genético, no núcleo mais maleável nos reconhecemos como responsáveis pela nossa própria história pessoal e social.

Algo parecido deve ser dito a propósito dos valores — mormente dos que se referem à sexualidade. No afã de viver logo à luz das novas descobertas, muitos já não se perguntam pelas intuições da humanidade — especialmente pelas intuições da Igreja. Assim, riem-se de certas intuições fundamentais não só para compreender, mas também para viver de maneira humana a sexualidade. Exemplificando, podemos evocar o mito da esfinge de Tebas, mito ligado à figura de Édipo Rei. Trata-se de um mito que tematiza a sexualidade humana e é denso em termos de intuição. Esse mito traduz uma compreensão muito profunda da ambivalência da sexualidade: ela pode ser caminho para a felicidade, como também pode ser caminho para a desgraça. Tudo depende de saber encontrar uma resposta adequada ao enigma apresentado pela esfinge: quem é o ser humano?

Na mesma direção vão os mitos que dizem respeito à fecundidade: não expressam ignorância, mas, ao contrário, uma percepção profunda de que a sexualidade e a capacidade de transmitir a vida constituem algo de tão extraordinário, que, a rigor, não seriam devidas aos seres humanos. Sexualidade e fecundidade seriam atributos divinos confiados aos humanos. Foi compreendendo isso que a psicologia ligada a Jung não só valorizou a mitologia, como também viu nela uma espécie de ciência vital para o ser humano encontrar o sentido das suas energias mais profundas.

Nessa mesma linha de raciocínio, convém recordar alguns posicionamentos de conhecidos teólogos ao longo da história. Quem não mergulha a fundo nas suas intuições, os cita como representantes do rigorismo e da ignorância. Na lista aparecem, entre outros, São Jerônimo, Santo Agostinho, Santo Tomás e São Boaventura. Nem é preciso citar as dezenas de frases sempre recorrentes. Todas vão na linha de compreensões consideradas inadmissíveis, porque muito negativas. De fato são infelizes, quando tiradas do contexto; mas são frases que carregam consigo uma intuição inegociável, que é exatamente a da ambiguidade da sexualidade, mormente aquela que se apresenta associada ao prazer sexual. O prazer é bom? Claro! — já respondia Epicuro, o pai da filosofia do prazer—, mas é necessário ir devagar, pois, indo com muita sede ao pote, pode-se ficar bêbado. O prazer deve ser sorvido aos goles, devagarinho, para que possa merecer o nome “prazer”. “Moderação” é termo clássico mais acertado. Moderação no comer, no beber, no lazer, no sexo. Quando o prazer comanda a vida, ele se transforma num tirano, que escraviza a quem julga estar se beneficiando e escraviza a quem é transformado em objeto.

 

3. As ciências podem ser nossas aliadas

Indiscutivelmente, hoje dispomos de um número infinitamente maior de informações do que no passado. Informações mais completas sobre todas as coisas e sobre todas as realidades da vida. Basta acionar a internet para encontrar farto material sobre qualquer assunto. É significativo que alguns especialistas que trabalharam no Projeto Genoma, para desvendar os mais profundos segredos do ser humano enquanto ser biológico, julgam que serão necessários 30 anos para uma leitura completa de todo o material descoberto. Isso tudo apresenta uma vantagem, mas também comporta um risco. Vantagem: obter muitos dados, em primeira mão; risco: não saber o que fazer com esses dados ou embaralhá-los, não respeitando alguns pressupostos básicos, tais como não pedir às ciências a visão global de um problema, nem dados definitivos, nem o sentido último das coisas — pois as ciências são setoriais, sempre trabalham com o pressuposto da provisoriedade de seus dados e só podem oferecer um sentido primeiro, e nunca o último.

Respeitados os devidos limites, e sabendo articular bem os dados, não há dúvida de que as ciências nos fazem perceber um horizonte ao mesmo tempo vasto e profundo de uma realidade — no caso, o horizonte bem vasto e profundo da sexualidade. E isso é de uma importância vital, pois mesmo pessoas que se consideram especialistas em sexualidade acabam manifestando uma concepção muito pobre e superficial sobre ela. Infelizmente, o reducionismo manifestado na contemplação apenas do ângulo biofisiológico da sexualidade constitui tônica bastante generalizada — também nos chamados círculos científicos. Parece que esqueceram o que Freud, há exatamente cem anos, já havia descoberto e anunciado com toda a clareza: a sexualidade não é uma coisa, não se confunde com um órgão; ela está mais para energia, poderosa e ambivalente. Como energia, perpassa toda a vida humana e todas as fases da vida. Só que o faz em conjugação com uma multiplicidade de aspectos.

E ainda mais: quem absorveu um pouco da psicologia profunda sabe muito bem que afetividade, ternura, carinho, cultura, intuição, transcendência não se apresentam como enfeites de árvore de Natal, mas fazem parte da seiva que denominamos sexualidade. Se essas dimensões forem esquecidas, a sexualidade, em vez de energia vital, transforma-se em energia mortal. A sexualidade encontra-se para a ternura assim como a energia atômica para o uso pacífico: carregada de esperanças para gerar luz e força. Entretanto, quando posta em mãos irresponsáveis, torna-se força de destruição.

Mas não é só a psicologia profunda que pode nos ajudar a ter compreensão um pouco menos venal da sexualidade. A rigor, sabendo fazer uma leitura adequada, todas as ciências humanas e do social, de um modo ou de outro, oferecem subsídios preciosos. Mesmo algumas ciências que, à primeira vista, nada têm que ver podem oferecer tais subsídios. É o caso da politologia. A sexualidade tem incidência na agressividade, na violência e na guerra. E mais: ela tem tudo que ver com a manipulação ideológica de pessoas e populações, servindo como instrumento de alienação. Cultivada como arma ideológica, torna-se tão perigosa quanto a bomba atômica: elimina qualquer possibilidade de resistência aos donos do poder.

 

4. Desenvolver senso crítico em relação à mídia

O último parágrafo do item acima introduz-nos em outra área que tem tudo que ver com a concepção de sexualidade e os comportamentos sexuais: a mídia. Aqui, novamente, é preciso fugir dos simplismos — quer condenatórios, quer laudatórios. Para devida compreensão do influxo da mídia sobre a mentalidade e os comportamentos, mormente no campo da sexualidade, convém trazer à tona vários prismas.

O primeiro diz respeito ao potencial de comunicação e, consequentemente, de comunhão: trazendo “ao vivo” para a tela aspectos culturais, políticos e religiosos, a mídia possibilita hoje um conhecimento mútuo difícil de ser imaginado há poucas décadas. Com isso, povos, culturas e religiões nunca estiveram tão próximos.

Um segundo prisma a ser levado em consideração é o da diversidade de concepções veiculadas pela mesma mídia. Uma coisa é a mídia num país de cultura muçulmana, outra é a mídia agindo nos quadros do neoliberalismo. Destarte, é perigoso avaliar genericamente seu influxo. Ademais, não podemos esquecer que a mídia não age por si mesma: ela interage, ou seja, seu influxo depende muito da maneira pela qual as pessoas se posicionam diante dela: de maneira ingênua, totalmente receptiva, ou de maneira crítica.

Contudo, feitas essas observações e ressalvas, não se pode deixar de perceber que muitas imagens e mensagens vêm carregadas de todo tipo de distorções e preconceitos, exatamente no que diz respeito a costumes, tradições e religiões, ou seja, a mídia pode exercer função no mínimo ambígua. Imaginar que as consciências estejam acima das mediações religiosas, políticas e sociais é ingenuidade. Como é ingenuidade ainda maior julgar que as consciências são uma espécie de santuário imune às ideologias veiculadas pela mídia. Conjugada com uma série de outros fatores, ela tanto pode aproximar quanto afastar pessoas, povos e culturas; tanto pode ajudar a integrar quanto desintegrar a sexualidade e a família.

Diante de tudo isso, fica clara a necessidade de cultivar um senso crítico agudo. Esse senso crítico se direciona, em primeiro lugar, aos conteúdos, que tanto podem ser positivos quanto negativos, tanto profundos quanto superficiais. Pela própria característica do mundo das imagens e pela inegável força do Ibope, no que diz respeito à programação, já se pode deduzir que os conteúdos são normalmente muito superficiais, simplistas e permissivos. Com isso a mídia reforça a subcultura da promiscuidade, que sempre vigorou no nosso meio. A formação de uma consciência crítica passa, portanto, em primeiro lugar, por uma visão ampla e profunda da sexualidade; em seguida, passa por uma verdadeira revisão de 500 anos de história pouco edificante. Sem isso, a sexualidade pode ser um caminho para o prazer fácil, mas não para a realização pessoal e social. A promiscuidade sexual encontra-se na origem de centenas de milhares de menores de rua e de enorme contingente de pessoas que vão passando de mão em mão, perdendo o senso mínimo de dignidade.

 

5. Cultivar a arte de amar

A arte de amar é o título de um célebre livro de Erich Fromm. Mas é, sobretudo, a expressão de um caminho tão seguro quanto impopular na busca da felicidade. De acordo com a mentalidade reinante, se há algo que se nasce sabendo, é exatamente amar. Isso na pressuposição de que o amor se confunde com sexo e é questão de “química”. Mais exatamente, o amor se confundiria com atração sexual. Nesse caso, a partir da adolescência, todos poderiam considerar-se especialistas no assunto. A rigor, não haveria nada a aprender. Falar em educação sexual seria uma impropriedade, já que não há propriamente o que aprender. Basta experimentar.

É nesse contexto que se impõe, antes de mais nada, uma distinção referente aos vários níveis de amor. Com efeito, existe um nível epidérmico, acionado sempre que os sentidos percebem algo de prazeroso à vista; existe um nível que denominamos de amizade, que já pressupõe uma caminhada movida não só pelos sentimentos, mas sobretudo por ideais e objetivos comuns; existe o nível mais profundo, quando duas pessoas chegam a uma capacidade de doação tão grande, que uma é capaz de dar a vida pela outra. Amar aqui significa comprometimento total. Jesus se refere exatamente a este nível quando nos chama de amigos. Esse último nível, normalmente, está vinculado a uma fé muito profunda e não se encontra no início, e sim no fim de longa caminhada.

A arte de amar remete também para uma compreensão antropológica. Em termos de compreensão e de comportamentos no campo da sexualidade, a humanidade parece haver sempre balançado entre períodos de pessimismo e de otimismo ingênuo. Nos períodos de pessimismo acentua-se uma compreensão dualista de corpo e alma e, consequentemente, desconfia-se de tudo o que se encontra ligado ao corpo e à sexualidade. Nos períodos de otimismo ingênuo, acentua-se a inocência da sexualidade e do corpo, porque se parte de uma compreensão antropológica semelhante à de Rousseau — para quem o ser humano nasce bonzinho e a sociedade é que pode torná-lo mau.

É nesse contexto que se mostra particularmente importante recordar a concepção antropológica cristã: nem anjo, nem demônio. O ser humano nasce marcado pelo pecado de raiz e, por isso mesmo, numa condição de ambivalência radical. Nessa pressuposição, tudo deve ser aprendido e conquistado, também em termos de amor. A compreensão e a conquista, por sua vez, pressupõem uma conjugação de empenho com graça.

Se esse tipo de visão causa estranheza, convém lembrar a linguagem de São João, para quem a vida humana é uma eterna luta entre luz e trevas. Ou então nunca é demais lembrar Freud, para quem a sexualidade vem constituída por uma dupla pulsão: vida e morte, amor e ódio. Eros e Tanatos se apresentam como uma dialética constante. É com essas pressuposições que devemos acentuar: ninguém nasce sabendo amar. Amar é uma arte, que tem de ser aprendida a duras penas. É que o amor verdadeiro só se torna possível à medida que são vencidos o egoísmo e o narcisismo.

 

6. Construir a própria casa

Este item já se encontra implícito no anterior: a integração da sexualidade e a consequente possível felicidade não caem prontas do céu. Elas são um dom, mas também uma conquista. E aqui emerge a importância vital dos valores éticos: nossa casa tem de ser construída aos poucos e progressivamente. Com certeza, em nenhum outro campo os valores foram mais questionados. Em termos de ética sexual, nós nos encontramos como que diante de um espelho quebrado, que já não reflete nossa autocompreensão. Por isso mesmo, repensar os valores referentes à sexualidade é tão importante quanto difícil. Isso porque não é apenas questão de linguagem, mas — de novo — de antropologia. Nem uma antropologia pessimista nem uma antropologia ingênua possibilitam esse repensar. Só uma compreensão dialética abre caminho para a redescoberta dos valores éticos fundamentais.

Numa compreensão dialética, a integração da sexualidade nunca aparecerá como algo acabado — ela será sempre fruto de um processo que exige empenho e deverá ser continuamente retomado. A integração depende muito das coordenadas pessoais, mas também das coordenadas sociais. Além disso, há contínua mudança em todas essas coordenadas. Assim, esse processo nunca será uma conquista estritamente pessoal, e sim o resultado de uma interação com o meio ambiente e com as pessoas com as quais se mantêm contatos. A alteridade não é apenas uma bela palavra. Ela é a expressão da proximidade e da distância, da familiaridade e da estranheza que marcam todos os encontros humanos. O diferente sempre ameaça a minha identidade; mas, por outro lado, essa é a única maneira de encontrar e enriquecer minha identidade.

Por aí se vê que a integração da sexualidade pressupõe o que comumente se denomina de diálogo, algo aparentemente fácil. Só que também o diálogo é muito mais que uma palavra bonita. Ele só se concretiza com o desnudamento diante do outro. Com efeito, o diálogo requer autenticidade e transparência. Exige que todas as máscaras sejam rasgadas. É por essa razão que o amor autêntico constituirá sempre um processo mais ou menos doloroso: ele se constrói sobre a verdade do próprio ser e sobre a descoberta da verdade do ser do outro. Só que essas duas verdades, em certas circunstâncias, podem ser difíceis de assumir. Por trás de rostos e corpos atraentes, podem esconder-se personalidades complexas. Aceitar as próprias sombras e as sombras dos outros nem sempre é fácil. Nossa casa não é construída apenas por nós próprios, nem apenas a dois — eu e mais alguém. Nessa construção entram muitas outras pessoas, oriundas dos respectivos círculos familiares e de amizade. Compreende-se, assim, que a felicidade ou se constrói em círculos cada vez maiores ou, então, será apenas uma ilusão. Ninguém é feliz sozinho.

 

7. Transcender-se

Também este item se encontra subjacente nos precedentes. De fato integrar a sexualidade, no fundo, significa integrar a personalidade; e integrar a personalidade significa “conviver”, articulando as múltiplas dimensões e os múltiplos aspectos da vida. Entretanto, essa dimensão da transcendência apresenta uma fisionomia muito especial. É que ela não se concretiza entre iguais, mas com o totalmente Outro — que é Deus. O diálogo consigo mesmo e com os outros necessita de um referencial. E esse referencial aponta para o sentido mais profundo da sexualidade: por que Deus nos fez seres sexuados, dos pés à cabeça, do começo ao fim da vida? Por que, para falar do Reino dos céus, Jesus se refere — com certa frequência — a algo tão carregado de sexualidade quanto uma festa de casamento? É nesse nível do sentido mais profundo que vamos encontrar a condição primeira e absoluta para a integração da sexualidade.

Como definimos logo na introdução, a sexualidade não se confunde nem com genitalidade, nem com sexo, nem com os órgãos sexuais. Esses são componentes, mas a realidade mais profunda é constituída por uma energia, ou seja, uma força que nos impele ao encontro dos outros. Deus nos fez sexuados para facilitar a comunicação e a comunhão. A sexualidade é um veículo privilegiado de comunicação e de comunhão. É nesse sentido que dissemos no título do primeiro item: “Graças a Deus, somos sexuados!” Essa é uma maneira diferente de dizer: “Graças a Deus, fomos feitos por amor e para o amor!”.

Entretanto, uma espécie de monofisismo que reina em certos ambientes cristãos anula o que consideramos negatividade (o corpo, a materialidade, as sombras etc.). Essa é uma concepção bastante perigosa, pois acaba mascarando não apenas a complexidade de toda a realidade humana, como também a grandeza dos projetos de Deus — os quais são todos dialéticos, sempre apresentando ao menos dois polos. É assim que nos construímos entre o pecado e a graça, entre o amor e o ódio, entre a paz e a guerra. A sexualidade, como já assinalamos acima, é ambivalente, pois articula vida e morte, amor e ódio, encontro e solidão. A ambivalência nunca é completamente superada. Aliás, isso nem seria desejável, uma vez que é nessa polaridade que reside sua força propulsora. Anular um dos polos seria, literalmente, anular a própria sexualidade e a própria personalidade. Nosso caminhar é sempre um exercício de equilíbrio no meio de passos desequilibrados. Do mesmo modo, nossa vida é um oscilar entre luzes e sombras, entre vida e morte, entre saúde e doença. Essa é a beleza e a riqueza da vida humana.

Contudo, tal dialética tem de se articular com base em uma síntese. Deus é a grande síntese, de onde tudo parte e para onde tudo converge. Daí a impossibilidade de uma integração fora da transcendência. Embora não se deva falar de amor “meramente humano”, pois o amor sempre carrega consigo traços da divindade, onde existe amor, Deus aí está. Num primeiro momento, essa expressão pode nos ajudar na compreensão da imperiosidade da transcendência. Pois bem, já o amor “meramente humano” só é possível quando nós nos transcendemos — saindo de nós e indo ao encontro do outro. Acontece que dois ou mais “outros” ficarão sem sustentação, se não tiverem onde se agarrar. Sem um ponto de referência para fora do circuito humano, o amor será sempre um pobre amor, “meramente humano”. Isso significa que nele a sexualidade nunca alcançará sua plenitude, uma vez que ela existe para possibilitar uma espécie de pré-degustação daquilo que é a vida em comunhão com Deus.

 

Conclusão

À primeira vista, aproximar sexualidade e felicidade pode parecer algo temerário. Afinal, a felicidade só pode ser conquistada com base em muitos pressupostos, que ultrapassam o círculo da sexualidade. Ademais, além de a palavra felicidade apontar para diferentes concepções, que vão desde um materialismo disfarçado até “a felicidade eterna”, pressupõe uma espécie de plenitude, que não é encontrada apenas em uma dimensão. Daí a pergunta: será que a sexualidade tem todo esse peso na felicidade ou na desgraça das pessoas, das culturas e dos povos? As dúvidas procedem. Contudo, desde que se trabalhe com um conceito amplo de sexualidade e de felicidade, como nós o fizemos, não há nada a estranhar com a aproximação. Afinal, integração da sexualidade significa integração da personalidade, e integração da personalidade é o que uma pessoa mais pode desejar. Quem se sente integrado se sente feliz, mesmo que encontre dificuldades pelo caminho.

Como procuramos evidenciar ao longo destas reflexões, a integração da sexualidade exige um trabalho persistente em múltiplas direções. Por isso mesmo, nada mais enganador do que imaginar que o sexo traz felicidade. Isolado do contexto de uma vida, o sexo pode oferecer prazer momentâneo, mas nunca a felicidade. A felicidade só pode ser encontrada quando se verifica uma comunhão profunda entre seres humanos e quando essa comunhão é sacramentada pelo próprio Deus. Em outros termos, a felicidade está ao alcance de todos, mas nem todos estão dispostos a investir o necessário para que felicidade não seja confundida com facilidade.

 

Frei Antônio Moser