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Publicado em setembro-outubro de 2016

Jesus: a misericórdia em movimento

Por Celso Loraschi

Em cada um dos textos evangélicos, podemos contemplar detalhes relacionados não apenas ao conteúdo, mas, sobretudo, ao método utilizado por Jesus em seu ministério público. A cada situação concreta responde com criatividade transformadora. Ele não realiza apenas gestos pontuais de amor misericordioso. Jesus é misericórdia em todo o tempo e com todas as criaturas.

O Espírito Santo atua na história permanentemente. Protagonista principal da evangelização desde os primórdios da Igreja, abre caminhos novos para a realização do Reino de Deus no mundo; interpela-nos, para que respondamos criativamente aos desafios de cada momento histórico, dando prosseguimento à proposta de Jesus. Misericórdia é o apelo do momento, o princípio orientador da prática cristã no mundo atual, que “se apresenta, ao mesmo tempo, poderoso e débil, capaz do melhor e do pior; abre-se na sua frente o caminho da liberdade ou da escravidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade ou do ódio…” (DM 2).

É necessário “contemplar o mistério da misericórdia”, como interpela o papa Francisco. “É condição da nossa salvação; é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida; é o caminho que une Deus e o ser humano…” (MV 2), como revelou plenamente o Filho de Deus por meio de sua prática. Jesus é o “rosto da misericórdia”. Movido pelo amor divino, restitui ao ser humano a plena dignidade de sua natureza e revela-lhe a sua sublime vocação. “Por sua encarnação, o Filho de Deus uniu-se de algum modo a todo ser humano. Trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana” (GS 22). Portanto, sua prática é indicativo fundamental para a ação evangelizadora da Igreja no mundo. Analisada na ótica da misericórdia, torna-se caminho inspirador para a vida não só dos cristãos, mas de todas as pessoas de boa vontade.

A encarnação do Filho de Deus

Cada um dos Evangelhos tem sua maneira própria de fazer a memória de Jesus de Nazaré em cada contexto histórico em que as comunidades estão inseridas. Todos destacam o caráter misericordioso da missão de Jesus. Ele é a suprema expressão da bondade divina, o cume da revelação do amor de Deus, que vem em socorro da humanidade necessitada de redenção.

O “mistério da misericórdia” revelado em Jesus nos leva a contemplar, em primeiro lugar, sua encarnação. “Sendo de condição divina, não se apegou ao ser igual a Deus, mas despojou-se, assumindo a forma de escravo e tornando-se semelhante ao ser humano” (Fl 2,6-7). Em radical solidariedade com os seres humanos, nasceu e cresceu no seio de uma família, necessitado de proteção e de cuidados como uma pessoa comum, numa aldeia sem nenhum atrativo e jamais mencionada no Primeiro Testamento. A observação de Natanael, que vivia em Caná, próximo da residência de Jesus, revela que Nazaré era tida como sem importância e até desprezada: “De Nazaré pode sair algo de bom?” (Jo 1,46); revela também a vida simples e obscura de Jesus, uma vez que Natanael nunca ouvira falar dele até aquele momento em que Filipe o apresenta.

A vida modesta e anônima de Jesus durante todo o tempo de sua infância e juventude oferece sublime valorização não só da dignidade de todo ser humano, mas também da sacralidade do cotidiano. O Filho de Deus submete-se a tudo o que uma pessoa comum devia fazer para viver e conviver naquele contexto histórico. Assim, todas as pessoas, de qualquer época e de qualquer lugar, podem viver movidas pelo mesmo espírito de Jesus. Todo gesto, por mais simples que seja, pode expressar a marca da divindade.

Os Evangelhos oferecem sinais que dão conta dos valores pelos quais se orientou Jesus durante sua vida oculta, “crescendo em sabedoria, tamanho e graça diante de Deus e das pessoas” (Lc 1,52). Convivendo no meio de um povo marginalizado, viu a opressão política e religiosa a que os galileus eram submetidos, ouviu seus gritos de aflição, conheceu seus sofrimentos (cf. Ex 3,7). Como muitos cidadãos da época, Jesus podia aderir a movimentos de oposição violenta, como os zelotes, refugiar-se no deserto, como os essênios, fazer parte do sistema religioso oficial, como os saduceus e os fariseus, ou escolher outro caminho que lhe proporcionasse prestígio social. Jesus, porém, rompendo com o poder em sua tríplice dimensão: econômica, política e religiosa (cf. Lc 4,1-13), assume a causa de libertação dos pobres, dos presos, dos cegos e dos oprimidos (cf. Lc 4,14-21): quatro categorias sociais sinalizando a totalidade das pessoas excluídas.

É o início de uma grande caminhada na qual Jesus demonstra seu afastamento das instâncias detentoras do poder, cujos agentes o vigiam, o perseguem e o ameaçam até condená-lo à morte. Nada, porém, o afasta do serviço assumido com convicção junto aos empobrecidos, abraçando a misericórdia como princípio orientador de seus ensinamentos e de sua prática. Por isso, não se submete ao sistema legalista judaico nem satisfaz as expectativas populares de um messianismo triunfalista.

Presença solidária e libertadora

Os relatos evangélicos ilustram, muitas vezes com detalhes, a postura solidária e misericordiosa de Jesus de Nazaré. Movimenta-se com seus discípulos como peregrino portador da graça de vida e de salvação para todos; aproveita os espaços e os momentos, tornando-os propícios para a propagação da proposta do Reino de Deus, de amor, justiça e paz.

  1. Nas sinagogas

A primeira ação de libertação de Jesus, conforme o Evangelho de Marcos (1,21-28), acontece na sinagoga de Cafarnaum, local que ele deve ter frequentado desde jovem. Portanto, conhecia muito bem o conteúdo dos ensinamentos dos escribas e as consequências na vida do povo. As regras do sistema religioso de pureza mantinham a pessoa sob a pressão de obrigatoriedade como forma de pertença ao povo santo de Deus. A maioria sentia-se excluída por impossibilidade de cumpri-las. Aquele ser humano sem nome, atormentado por um espírito impuro, é a figura representativa de todos os que eram considerados impuros: doentes, paralíticos, estrangeiros, mulheres, pobres…

As sinagogas eram espaços que Jesus aproveitou para o seu novo ensinamento. Ele “foi por toda a Galileia, pregando em suas sinagogas e expulsando os demônios” (Mc 1,39). É numa sinagoga, em dia de sábado, que Jesus cura um homem que possuía uma das mãos atrofiada (Mc 3,1-6). Jesus atua para salvar a vida sem discriminação, mesmo contra os imperativos da ordem estabelecida. Chama para o meio aquele que se encontrava marginalizado. Indigna-se e entristece-se pela dureza do coração dos líderes religiosos e políticos (fariseus e herodianos) que, sob o domínio dos seus próprios interesses, se fecham às necessidades dos outros e buscam manter o povo sob o seu controle.

Jesus volta-se por inteiro às pessoas necessitadas e atua no sentido de libertá-las do jugo do legalismo, como fez com aquela mulher que andava encurvada havia 18 anos (Lc 13,10-17). Estava Jesus a ensinar numa sinagoga num dia de sábado. Vendo a mulher, “chamou-a e lhe disse: ‘Mulher, estás livre da tua doença’. Ele impôs as mãos sobre ela, que imediatamente se endireitou e começou a louvar a Deus”. Reagindo ao protesto do chefe da sinagoga, Jesus qualifica os responsáveis religiosos de “hipócritas”, uma vez que, na expressão do Evangelho de Mateus, “amarram fardos pesados e insuportáveis e os põem nos ombros dos outros, mas eles mesmos não querem movê-los, nem sequer com um dedo” (23,4). São guias cegos, pois “filtram o mosquito e engolem o camelo”; deixam de lado o ensinamento mais importante que é “a justiça, a misericórdia e a fidelidade” (23,23-24).

O ensinamento de Jesus não corresponde a uma doutrinação autoritária e rigorista que incute nas pessoas o espírito de submissão legalista, culpando-as, engessando-as e oprimindo-as. Deixando-se conduzir pelo Espírito de Deus, enfrenta o mal, desagregador da integridade humana. Sua autoridade não se alicerça no poder institucional; ele não tem dificuldades de violar a lei do sábado para fazer o bem. Jesus age com consciência e liberdade, pondo em movimento um processo de cura e de libertação tanto individual como social. Ele é a mão misericordiosa de Deus estendida a cada pessoa e à humanidade como um todo.

  1. Nas casas

A misericórdia de Jesus manifesta-se fundamentalmente pela proximidade solidária. É o que caracteriza o seu ministério público. Ele se põe a caminho na direção das “periferias geográficas e existenciais”, aproximando-se das pessoas indefesas e desprotegidas e acolhendo a todas as que o procuram (Mc 1,32). Assim, dirige-se à casa de André e Simão, cuja sogra estava de cama com febre (1,29-31). “Aproximou-se dela, tomou-lhe a mão e a fez levantar-se”. A febre é sintoma de alguma doença que Jesus logo detecta. A ideologia sinagogal chegava às casas e atingia especialmente o cotidiano das mulheres, que deviam viver no silêncio e na obscuridade, realizando todo tipo de trabalho doméstico e impedidas de serem protagonistas sociais. O encontro com Jesus, que “a toma pela mão”, fez a sogra de Pedro “levantar-se”, verbo relacionado à cura e à ressurreição do corpo.

A casa é espaço de acolhida, de anúncio da Palavra e de libertação. Sabendo que Jesus estava em casa, em Cafarnaum, tantos o procuraram, que já não havia lugar à porta (Mc 2,1-12). Quatro pessoas solidárias transportam um paralítico para a casa onde se encontra Jesus a pregar. Fazem-no de modo criativo e persistente. A fé deles, revelada na prática amorosa, é percebida por Jesus, que, surpreendentemente, diz ao paralítico: “Teus pecados estão perdoados”. O perdão divino é dom gratuito. A reconciliação com Deus resgata a integridade da pessoa, bem como a sua liberdade de pôr-se em movimento, desatrelando-se de um sistema religioso que separava os abençoados “justos” ou “puros” (judeus cumpridores da Lei) dos amaldiçoados “pecadores” ou “impuros” (doentes, estrangeiros, empobrecidos…).

A vida íntegra é condição indispensável para a autêntica realização humana. É necessário, para isso, sanar as rupturas interiores bem como o sentimento de culpa, de inferioridade, de insegurança e de medo da condenação divina. Para isso, Jesus oferece o perdão dos pecados, restabelecendo a unidade interior e a confiança absoluta em Deus, fonte de vida e salvação. Os escribas, teólogos mantenedores daquele sistema excludente, escandalizam-se diante da atitude de Jesus. Em sua lógica, consideram-no blasfemo. No entanto, a lógica de Jesus é outra. Dirige-se ao paralítico, ordenando: “Levanta-te, toma o teu leito e vai para a tua casa”.

Jesus, a misericórdia em movimento, atua de modo a reconstruir a humanidade, resgatar a dignidade dos filhos e filhas de Deus e, consequentemente, restabelecer a fraternidade e a justiça. Na casa de Levi, ele senta à mesa com publicanos e pecadores (Mc 2,15-17). Põe-se em comunhão de vida com o povo considerado ignorante e impuro pela teologia oficial. E declara: “Eu não vim chamar justos, mas pecadores”. O chamamento de Jesus é para o banquete da vida, conforme ensina também por meio de parábolas, como a dos convidados em Lucas 14,15-24 e as três parábolas da misericórdia no capítulo 15. A centralidade da mensagem de Jesus é a revelação de Deus como Pai/Mãe, cuja misericórdia ultrapassa toda medida humana.

Em outro momento, Jesus encontra-se à mesa, como convidado de um fariseu chamado Simão, quando aparece “uma mulher da cidade, uma pecadora… Ficando por trás, aos pés de Jesus, ela chorava; e com as lágrimas começou a banhar-lhe os pés, a enxugá-los com os cabelos, a cobri-los de beijos e a ungi-los com o perfume…” (Lc 7,36-50). O fariseu fica horrorizado, uma vez que, segundo a sua concepção religiosa, o ambiente fica impuro com a presença de uma mulher tão indigna. Apegado à sua tradição de pureza, não percebe as lágrimas e não capta o sentido dos gestos de amor e de ternura que ela realiza. Desqualifica o profeta Jesus, que parece não saber quem é aquela intrusa e indesejável. “Se uma pessoa não quer incorrer no juízo de Deus, não pode tornar-se juiz do seu irmão. É que os homens, no seu juízo, limitam-se a ler a superfície, enquanto o Pai vê o íntimo” (MV 14). Para o fariseu, não havia dúvida de que a pecadora deveria ser retirada daquele ambiente. Jesus, que não é moralista nem seguidor de normas que discriminam, deixa-se tocar e amar do jeito que só aquela mulher sabia fazer. Por meio de uma parábola, ajuda o fariseu a entrar também na dinâmica da misericórdia divina, que refaz a inteireza do ser humano e lhe possibilita uma vida radicalmente nova, de paz e salvação.

Vida nova foi o que Jesus possibilitou à filha de Jairo, chefe da sinagoga que, “caindo aos pés de Jesus, rogava-lhe que entrasse em sua casa, porque sua filha única, de doze anos, estava à morte” (Lc 8,40-55). Ela ficou de pé no mesmo instante em que Jesus, “tomando-lhe a mão, chamou-a…”. Entrelaça-se neste episódio a cura de “uma mulher que sofria de um fluxo de sangue, fazia doze anos, e que ninguém pudera curar”. Tanto a filha de Jairo como esta mulher são figuras do povo de Israel sob o domínio do legalismo que exaure a vida e a liberdade. Desembaraçando-se dos preconceitos religiosos e saltando a lei que a impedia de estar no meio da multidão (cf. Lv 15,19-27), a hemorroíssa aproxima-se de Jesus e toca suas vestes, ficando imediatamente curada. Jesus, sensível a tudo o que lhe acontece ao redor, deseja conhecê-la e abre-lhe a possibilidade de revelar-se perante todos para testemunhar sua cura. Ele a acolhe com especial predileção: “Minha filha, tua fé te salvou; vai em paz”.

Jesus também suscita uma mudança de vida em Zaqueu ao tomar a iniciativa de entrar em sua casa (Lc 19,1-10). Zaqueu é chefe dos cobradores de impostos, um senhor muito rico, bem conhecido em Jericó. Sua fama não é boa: é um pecador. Como pode Jesus hospedar-se na casa desse tipo de gente? O próprio Zaqueu sentia-se indigno de acolhê-lo. Mas quer “ver” Jesus e, para isso, sobe numa árvore. Jesus “levanta os olhos” e pronuncia o nome de Zaqueu, ordenando que desça imediatamente, pois “hoje eu devo ficar em tua casa”. O advérbio de tempo “hoje” aparece com frequência no Evangelho de Lucas (cf. 2,11; 3,22; 4,21; 5,26; 19,9; 23,43). “Hoje a salvação entrou nesta casa”, afirmou Jesus após Zaqueu tomar a decisão de mudar de vida. Jesus inaugura o “hoje” da graça da salvação, abre a possibilidade de um novo tempo, do kairós divino na vida de cada pessoa.

“Em certo sábado, entrou na casa de um dos chefes dos fariseus para tomar uma refeição” (Lc 14,1-6). Encontrava-se aí um hidrópico. Aos legistas e fariseus que o espiavam, disse: “É lícito curar no sábado?” E diante deles curou o hidrópico e despediu-o. O tempo propício de salvação chegou para todos, também para os ricos, desde que decidam restituir o que roubaram, renunciar ao acúmulo e promover a justiça social; também para os “inchados”, ávidos de glórias e de recompensas, desde que se disponham a ocupar o último lugar e servir os “pobres, estropiados, coxos, cegos” (14,13) sem esperar nada em troca. “Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (19,10).

São muitos os momentos, citados nos Evangelhos, de Jesus nas casas. Revelam certamente uma intenção eclesiológica. Os discípulos (e, várias vezes, a multidão) estão junto a Jesus nas casas, lugar de ensino e de promoção da vida sem exclusão. Assim como faz Jesus, devem fazer também seus seguidores. Ao enviá-los em missão, deu aos seus apóstolos “o poder de expulsar os espíritos impuros e curar todo tipo de doença e de enfermidade”, recomendando que entrassem nas casas como portadores da paz (cf. Mt 10,1-12). Alguns dos que foram libertados por Jesus são também enviados a evangelizar em suas casas: “Vai para casa, para junto dos teus, e anuncia-lhes tudo o que o Senhor, em sua misericórdia, fez por ti” (Mc 5,18-20).

Esta teologia da casa reflete certamente a prática da Igreja primitiva. Vários textos o confirmam: “Partiam o pão pelas casas e tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração” (At 2,46); em Jerusalém, na casa de Maria, mãe de João Marcos, reunia-se uma comunidade (At 12,12); também na casa de Lídia (At 16,40), de Priscila e Áquila, em Corinto (At 18,1-3), e de vários outros.

  1. Em todos os lugares

Jesus e os discípulos percorrem o país e atravessam fronteiras, caminhando e semeando os sinais do Reino de Deus. Todo lugar e todo momento são oportunidades de exercer a misericórdia: por meio de ensinamentos como o sermão da montanha (Mt 5-7) e o da planície (Lc 6,20-49); pelo discurso das parábolas (Mt 13) e o da comunidade (Mt 18); pelas controvérsias a respeito das tradições dos fariseus (Mt 15,1-20); pela orientação aos discípulos, no caminho a Jerusalém, sobre o seu seguimento (Mc 8,27-10,52); e tantos outros momentos demonstrativos do empenho de Jesus em levar a Boa-Nova da vida e salvação a todos.

Os ensinamentos de Jesus são corroborados por sinais concretos de amor aos doentes e marginalizados, como a acolhida e cura dos leprosos (Mc 1,40-45; Lc 17,11-19); do endemoninhado em Gerasa, na Transjordânia (Mc 8,28-34); da mulher hemorroíssa, logo que voltou da viagem (Mc 5,25-34); do paralítico na piscina de Betesda, em Jerusalém (Jo 5,1-18); do cego de Betsaida (Mc 8,22-26) e de Bartimeu na saída de Jericó (Mc 10,46-52); do servo de um centurião ao entrar em Cafarnaum (Mt 8,5-13); da filha de uma mulher siro-fenícia, no território de Tiro (Mc 7,24-30); do surdo-gago, na Decápole (Mc 7,31-37); do epilético surdo-mudo, ao descer da montanha onde ocorreu a transfiguração (Mc 9,14-29); da multidão faminta num lugar deserto (Mc 6,30-44); a ressurreição do filho da viúva de Naim (Lc 7,11-17) e de Lázaro em Betânia (Jo 11,1-44); e tantos outros sinais. Mateus sintetiza deste modo a ação misericordiosa de Jesus:

Ele percorria toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando toda e qualquer doença ou enfermidade do povo. Sua fama espalhou-se por toda a Síria, de modo que lhe traziam todos os que eram acometidos por doenças diversas e atormentados por enfermidades, bem como endemoninhados, lunáticos e paralíticos. E ele os curava. Seguiam-no multidões numerosas vindas da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e da Transjordânia (4,23-25).

Conclusão

Em cada contexto específico, Jesus realiza gestos tão humanos quanto eficazes. A cada situação concreta, responde com criatividade transformadora. Os gestos de Jesus são Evangelho – Boa Notícia – para mulheres e homens, para crianças e adultos, para judeus e estrangeiros. Algumas expressões de ternura e de misericórdia transmitem especial força simbólica: Jesus se aproxima, toma pela mão e faz levantar-se (cf. Mc 1,31; 1,41; 2,9-12; 3,3; 5,41-42; 8,23; 9,27; Lc 7,14.); é movido de compaixão (Mc 6,34; 8,2; Mt 20,34); chora a morte do amigo Lázaro (Jo 11,35-38); acolhe e perdoa os pecadores, também a Pedro, que o traiu por três vezes (Mc 2,5; Lc 7,36-50; Jo 21,15-17); demonstra afeto com as crianças (Mc 10,13-16), com as mulheres (Mc 14,3-9), com o jovem inquieto (Mc 10,21); encontra-se e dialoga com estrangeiros (Mc 7,24-30; Jo 4), com judeus notáveis (Jo 3; Lc 18,18-23); dedica tempo à formação com seus discípulos (Mc 4,10-34), envia-os em missão (Mc 6,7-12), convida-os a descansar (Mc 6,31), encoraja-os em suas dificuldades (Mc 6,45-52), lava-lhes os pés (Jo 13,1-17), concede-lhes a sua paz (Jo 14,27), reza ao Pai por eles (Jo 17); indigna-se diante do legalismo excludente e da exploração econômico-religiosa (Mc 3,5; Mt 23; Jo 2,13-17); extrapolando a justiça humana, proclama a misericórdia divina para todos, também para os da última hora (Mt 20,1-16)…

Enfim, em cada um dos textos evangélicos, podemos contemplar detalhes relacionados não apenas ao conteúdo, mas, sobretudo, ao método utilizado por Jesus no seu ministério público. Ele não realiza apenas gestos pontuais de amor misericordioso. Ele é amor em todo o tempo e com todas as criaturas. É o ser que se dá a si mesmo, por inteiro. “A misericórdia expressa a essência divina, que se encontra graciosamente virada para o mundo e para os seres humanos… A misericórdia é a caritas operativa et effectiva de Deus” (KASPER, 2015, p. 114). Isto não é uma teoria abstrata. Jesus movimentou-se como misericórdia e chamou discípulos para segui-lo.

Não é estranho que, ao confiar sua missão aos discípulos, Jesus os imagine não como doutores, hierarcas, liturgistas ou teólogos, mas como curadores: ‘Proclamai que o reinado de Deus está próximo: curai os enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expulsai demônios’. A primeira tarefa da Igreja não é celebrar culto, elaborar teologia, pregar moral, mas curar, libertar do mal, tirar do abatimento, sanear a vida, ajudar a viver de maneira saudável. Esta luta pela saúde integral é caminho de salvação e promessa de vida eterna (PAGOLA, 2013, p. 43).

 

Bibliografia

FRANCISCO. Misericordiae Vultus (MV): bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. São Paulo: Paulus : Loyola, 2015. (Documentos do Magistério).

JOÃO PAULO II. Carta encíclica Dives in Misericordia (DM). São Paulo: Paulinas, 1980.

KASPER, Walter. A misericórdia: condição fundamental do Evangelho e chave da vida cristã. São Paulo: Loyola, 2015.

PAGOLA, José Antonio. Marcos: o caminho aberto por Jesus. Petrópolis: Vozes, 2013.

Celso Loraschi

mestre em Teologia Dogmática com concentração em Estudos Bíblicos, professor de Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos na Faculdade Católica de Santa Catarina (Facasc). E-mail: loraschi@facasc.edu.br