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Publicado em Maio-Junho de 2003 (pp. 10-16)

A natureza da Liturgia

Por Pe. Gregório Lutz, CSSp

A liturgia é uma realidade tão rica, que deve ser contemplada de vários e diferentes pontos de vista, de fora e de dentro. É claro que uma abordagem da liturgia somente de fora não é suficiente para conhecê-la a fundo e completa­mente. Quando a estudamos também por dentro, podemos chegar a saber o que ela é realmente. Só assim podemos conhecer sua natureza.

Mas também a própria natureza da liturgia tem vários aspectos ou dimensões. Proponho que sigamos neste estudo o exemplo que o Concílio Vaticano II nos dá na Constituição sobre a Liturgia Sacrosanctum Concilium, ao considerar a liturgia sobretudo como momento da história da salvação e como exercício do sacerdócio cristão. O Concílio vê a liturgia, de fato, primeiro situada na história da salvação, como momento privilegiado dessa história, para depois apresentá-la como exercício do sacerdócio de Jesus Cristo, do corpo místico de Cristo todo, cabeça e membros.

 

I. Liturgia: momento da história da salvação

Como nos lembra a carta aos Efésios (1,4), o plano de Deus de nos salvar é eterno, já existente antes da criação do mundo. A realização desse plano acontece ao longo da história da salvação, que culminou em Jesus Cristo, particularmente com sua morte e ressurreição, e terá seu término na vinda gloriosa do Senhor no fim dos tempos.

Para compreendermos bem o lugar da liturgia na história da salvação, faz-se mister vê-la no Antigo Testamento e na vida de Jesus e, de modo particular, como celebração do mistério pascal, para assim entendê-la em seu valor histórico-salvífico, isto é, como momento da história da salvação.

 

1. A liturgia no Antigo Testamento

O início da liturgia do povo da antiga aliança pode ser visto no Livro do Êxodo, que descreve como Deus escolheu um povo e fez dele povo sacerdotal. Quando Israel tinha saído do Egito, passando pelo mar Vermelho, e se encontrava no deserto, Deus quis fazer com ele uma aliança. Ele chamou Moisés e lhe disse: “Assim dirás à casa de Jacó e declararás aos filhos de Israel: ‘Vós mesmos vistes o que eu fiz aos egípcios, e como vos carreguei sobre asas de águia e vos trouxe a mim. Agora, se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim uma propriedade particular entre todos os povos, porque toda a terra é minha. Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa’. Estas são as palavras que dirás aos filhos de Israel” (Ex 19,3-6).

O que Deus exige do povo é que ouça sua voz e guarde sua aliança. Assim os israelitas serão um reino de sacerdotes e uma nação santa. Nação “santa” quer dizer: nação consagrada ao serviço e ao culto do Senhor. Nota-se que a palavra hebraica que significa serviço significa ao mesmo tempo sacrifício, culto ou liturgia. A liturgia primordial de Israel era, portanto, um culto espiritual: ouvir a palavra de Deus e vivê-la. Este culto era a liturgia de todo o povo, do povo consagrado ao serviço de Deus.

Naturalmente, essa obediência implicava uma expressão também em oração de ação de graças e de louvor, bem como em pedido de perdão pela inobservância da aliança e em petição e súplica. Tal culto espiritual não excluía sacrifícios de vítimas animais — como se mostrava no deserto, quando a aliança foi selada —, mas esses sacrifícios não pertenciam à natureza do culto originário de Israel. Lemos isso explicitamente no profeta Jeremias: “Assim disse Iahweh dos exércitos, Deus de Israel: (…) Eu não disse nem prescrevi nada a vossos pais, no dia em que vos fiz sair da terra do Egito, em relação ao holocausto e ao sacrifício. Mas eu ordenei isto: Escutai a minha voz, e eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo. Andai em todo caminho que eu vos ordeno e vós sereis o meu povo” (Jr 7,21-23).

Evidentemente o profeta se refere aqui à liturgia do templo, que não era expressão da atitude e da vida do povo. Existia um divórcio entre a vida do povo e os sacrifícios oferecidos no templo. Israel não obedecia à palavra de Deus, e assim os sacrifícios não eram expressão de entrega de si a Iahweh. A luta dos profetas contra esse culto vazio e mentiroso não visava a uma novidade no culto de Israel, à espiritualização de um culto que no início teria sido material, mas a uma volta ao culto original, que era profundamente espiritual, embora com possível expressão ritual. Para o culto ritual ser espiritual, ele deve sempre ser a expressão autêntica de uma atitude interior, da vida e da história.

A mesma problemática estava também presente na celebração da Páscoa do Antigo Testamento, que era celebração de um fato histórico por excelência. Mas pelo caráter familiar da refeição pascal, que não exigia uma institucionalização como o culto no templo, o caráter religioso e espiritual podia ser mais facilmente preservado.

 

2. A liturgia de Jesus de Nazaré

Em Jesus de Nazaré, que era em tudo um de nós, exceto no pecado, a humanidade toda ouviu a palavra do Pai e lhe deu também a sua resposta filial. Jesus aceitou e viveu em perfeita obediência à vontade do Pai até as últimas consequências. Nele se realizou plena e perfeitamente o culto espiritual, prefigurado no culto do êxodo e dos profetas. Vejamos isso em alguns momentos e traços marcantes da vida de Jesus.

Jesus nasceu e cresceu num lar que viveu fielmente as tradições religiosas do povo hebreu. Lembremos só que Jesus foi circuncidado no 8º dia de sua vida e foi apresentado no templo no 40º dia. Sem dúvida, ele aprendeu com Maria e José a rezar, antes de mais nada cada manhã e cada noite, o “Shemá Israel”: “Ouve, ó Israel: Iahweh nosso Deus é o único Iahweh! Portanto, amarás a Iahweh teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força” (Dt 6,4-5). Era seu costume estar todo sábado na sinagoga (cf. Lc 4,16). E se a Bíblia conta que aos 12 anos ele foi com Maria e José a Jerusalém, ou que na noite antes de morrer celebrou com seus discípulos a ceia pascal, podemos concluir que Jesus participou de todas as festas do seu povo ao longo do ano. E, certamente, como podemos observar sobretudo na última ceia, esses ritos eram para ele expressão daquilo que viveu e que moveu o seu coração: o amor pelo Pai e por seus irmãos e irmãs.

Assim Jesus realizou o culto que Deus pediu a seu povo no monte Sinai — adotado pelos profetas na recondução do povo. Isso ele expressou também muitas vezes, por exemplo, quando os fariseus o interrogaram: “Por que não se comportam os teus discípulos segundo a tradição dos antigos, mas comem com as mãos impuras?” Jesus cita o profeta Isaías: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mc 7,5-6). No mesmo sentido ele conversou com a samaritana no poço de Jacó, anunciando um culto em espírito e verdade (cf. Jo 4,23-24). Esse culto Jesus realizou em sua vida, sendo obediente até a morte, culto vivido que o Pai aceitou ressuscitando o seu Filho e exaltando-o à sua direita (cf. Fl 2,6-11). É o mesmo culto que ele celebrou ritualmente na instituição da eucaristia e nos mandou celebrarem sua memória. É claro que também para nós, a Igreja, o culto ritual, a nossa eucaristia, os outros sacramentos e toda a nossa liturgia devem ser expressão da nossa vida, de uma vida de amor a Deus e ao próximo, vivida em união com Jesus, para que então a celebremos com ele, nosso sumo sacerdote.

 

3. O mistério pascal

Depois de ter esboçado a história da salvação, o Concílio Vaticano II diz em sua Constituição sobre a Sagrada Liturgia: “Esta obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus, da qual foram prelúdio as maravilhas operadas no povo do Antigo Testamento, completou-a Cristo Senhor, principalmente pelo mistério pascal de sua sagrada paixão, ressurreição dos mortos e gloriosa ascensão. Por este mistério, Cristo, ‘morrendo, destruiu a nossa morte e ressuscitando, recuperou a nossa vida’ (Prefácio da Páscoa). Pois, do lado de Cristo agonizante na cruz nasceu o admirável sacramento de toda a Igreja. Portanto, assim como Cristo foi enviado pelo Pai, assim também ele enviou os apóstolos, cheios do Espírito Santo, não só para pregarem o evangelho a toda criatura, (…) mas ainda para levarem a efeito o que anunciavam: a obra da salvação através do sacrifício e dos sacramentos, sobre os quais gira toda a vida litúrgica. (…) Desde então a Igreja jamais deixou de reunir-se para celebrar o mistério pascal: lendo ‘tudo quanto a ele se referia em todas as Escrituras’ (Lc 24,27), celebrando a eucaristia, na qual se torna presente a vitória e o triunfo de sua morte (Conc. de Trento) e, ao mesmo tempo, dando graças ‘a Deus pelo dom inefável’ (2Cor 9,15) em Jesus Cristo, ‘para louvor de sua glória’ (Ef 1,12), pela força do, Espírito Santo” (SC 5s).

O mistério pascal é, portanto, a Páscoa de Jesus — vivida por ele há aproximadamente dois mil anos —, sua paixão, morte, ressurreição e ascensão. Essa Páscoa, no entanto, é o ponto culminante de toda a vida e obra pascal de Jesus. E devemos abrir o horizonte ainda mais: ela tinha seus prelúdios no Antigo Testamento e se completará no fim dos tempos. Ela é realmente o centro de toda a história da salvação.

No entanto, desde que Jesus — que se tinha tornado um de nós pela encarnação— nos uniu a si pelo dom do Espírito Santo — o fruto da sua Páscoa —, somos um com ele e ele conosco, como membros do seu corpo místico, como filhos e filhas do Pai do céu. Assim também nossa vida e história são vida e história de Cristo glorioso. Os bispos latino-americanos reunidos em Medellín, em 1968, disseram claramente que Cristo está “ativamente presente em nossa história” e que “não podemos deixar de sentir seu passo que salva quando se dá o verdadeiro desenvolvimento” (Documento de Medellín, introdução nn. 5-6). Portanto, nosso sofrer e vencer são participação da morte e ressurreição de Cristo, da sua Páscoa. A Páscoa de Cristo continua na páscoa do povo.

Ora, é essa Páscoa de Cristo e do povo que celebramos, quando na liturgia anunciamos a morte do Senhor e proclamamos a sua ressurreição, até que ele venha. É como também os bispos em Medellín constataram: “A presença do mistério da salvação, enquanto a humanidade peregrina até sua plena realização na parusia do Senhor, culmina na celebração da liturgia eclesial” (cap. 9,2).

Ainda outra dimensão do mistério pascal e de sua celebração foi destacada em Medellín, quando os bispos aí reunidos declararam: “O gesto litúrgico não é autêntico se não implica um compromisso de caridade, um esforço sempre renovado para ter os sentimentos de Jesus Cristo e uma contínua conversão” (9,3). Logo em seguida lemos no Documento de Medellín: “Na hora atual de nossa América Latina, como em todos os tempos, a celebração litúrgica coroa e comporta um compromisso com a realidade humana (…) precisamente porque toda a criação está inserida no desígnio salvador” (9,4).

Dessa maneira Medellín explicitou e acentuou uma constatação que o Concílio Vaticano II já tinha feito, dizendo que “a liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte donde emana toda a sua força” (SC 10). Embora o Concílio tenha falado da liturgia como cume e fonte da ação da Igreja, é evidente que a liturgia, na qual celebramos o mistério pascal, é o ponto culminante também de toda a Vida da Igreja — e não apenas da Igreja, mas de toda a humanidade e de sua história.

 

4. Liturgia: momento da história da salvação

Relembrando que o culto agradável a Deus é, em primeiro lugar, nossa vida e história vividas em obediência à sua vontade — como o mostrou perfeitamente Jesus de Nazaré, sobretudo pela sua morte e ressurreição — e que Jesus enviou seus discípulos e deu origem à Igreja pelo dom do Espírito Santo, simbolizado pelo sangue e pela água que jorraram do seu lado aberto, quando ele estava exaltado na cruz, para que fosse anunciado ao mundo e, pela celebração da liturgia, fosse levada a efeito sua obra salvífica, devemos ainda procurar clareza sobre o que significa este “levar a efeito”.

Não se trata de completar ou continuar a obra de Cristo, como se ela não tivesse sido perfeita. Deus fez, através de Jesus, tudo para a nossa salvação. Mas ele nos quer salvar como seres livres. Livremente nos pomos contra Deus pelo pecado, livremente devemos também aceitar a salvação que Deus operou para nós. Precisamente assim a salvação pode ter efeito: se nos voltamos para Deus, se ouvimos sua palavra e a pomos em prática e se acolhemos o presente de uma nova vida, de uma nova história do Reino que Jesus veio anunciar. Essa acolhida e aceitação acontecem por uma vida em obediência a Deus, mas de modo especialmente consciente e intenso na liturgia. É como afirma a Constituição sobre a Sagrada Liturgia: “Para levar a efeito obra tão importante (a obra da salvação), Cristo está sempre presente em sua Igreja, sobretudo nas ações litúrgicas” (SC 7). Portanto, dizendo “sim” a Deus, à sua vontade e à sua obra, e sobretudo celebrando na liturgia esse nosso sim vivido, é que se leva a efeito a salvação. Assim a liturgia cristã, ela mesma um fato histórico, torna-se momento privilegiado da história da salvação.

Seria bem compreensível alguém perguntar como é que na liturgia pode ocorrer salvação. Como vimos, a liturgia não é ação meramente humana. Cristo está presente na celebração litúrgica como agente principal. Devemos igualmente lembrar que toda ação litúrgica acontece, como nos diz o Vaticano II, na força do Espírito Santo (SC 6). Mas é bom recorrer ainda ao conceito de memória, se queremos entender a eficácia salvífica da liturgia. Memória litúrgica não é simples lembrar. Lembramos, sim, a Páscoa histórica de Cristo e do seu povo, mas a lembramos na presença de Cristo e na força do Espírito Santo. Lembrando a pessoa e a obra de Cristo, abrimo-nos para ele. Como diz o livro do Apocalipse, Cristo está à porta e bate. Se abrimos a porta, ele entra para cear conosco (cf. Ap 3,20). Isso quer dizer que ele entra em comunhão íntima conosco, e esta comunhão de vida entre Deus e nós é salvação. Ninguém pode duvidar de que tal liturgia seja um culto agradável a Deus — supondo que celebramos ritualmente aquilo que vivemos. Não é apenas um fazer externo, mas a expressão de uma atitude interna e da nossa vida cotidiana. O que assim vale para cada um de nós vale para nossas famílias, para nossas comunidades eclesiais, para a Igreja e, de certo modo, para toda a humanidade e para sua história. Todas as pessoas de boa vontade que vivem o amor e a solidariedade, que lutam pela justiça e a paz, estão fazendo a vontade de Deus. Embora muitos não tenham consciência de sua vida pascal em união com Jesus Cristo — e não a celebrem na liturgia cristã ou, talvez, de nenhum outro modo —, também neles é levada a efeito a obra salvífica de Cristo. Toda a história da humanidade é história da salvação, porque nela se leva a efeito a obra redentora de Cristo até o fim dos tempos. A liturgia é momento privilegiado dessa história. Sendo assim, não poderíamos dispensar toda a liturgia e apenas viver um culto espiritual? Não, porque, desde Caim e Abel, a humanidade, de modo particular o povo da antiga aliança — para não falar em outras religiões —, celebrava sua vida e história. Assim fez também Jesus, mandando-nos fazer o mesmo em sua memória. Celebrar é uma dimensão essencial e indispensável de uma vida verdadeira e plenamente humana. Na festa, celebrando a vida, vivemos mesmo. Por isso, não há nada mais humano do que celebrar, na liturgia, a verdadeira vida de cada um de nós e de toda a humanidade que Jesus nos mereceu por sua morte e ressurreição.

 

II. Liturgia: exercício do sacerdócio

Conforme constatamos, o Concílio Vaticano II explica a liturgia, em primeiro lugar, como momento da história da salvação. Mas esse não é o único aspecto a ser considerado por quem quer conhecer a natureza da liturgia. Sobretudo quando o Vaticano II faz aquela descrição da liturgia geralmente considerada como definição, várias outras dimensões são mencionadas, entre as quais a da liturgia como exercício do sacerdócio de Cristo e dos cristãos. Aprofundaremos primeiro esta dimensão e, em seguida, duas outras também essenciais para um conhecimento da natureza da liturgia: sua dimensão simbólica e as duas vertentes da ação litúrgica. Outro aspecto importante da liturgia é que nela participamos da liturgia celeste.

Antes de entrar no estudo das diferentes dimensões, vejamos o texto conciliar em questão. Embora não seja uma definição em sentido estrito — porque o Concílio julgou que definir fosse tarefa da ciência litúrgica, e não do magistério —, é de suma importância: “Com razão (…) a liturgia é tida como o exercício da função sacerdotal de Cristo. Ela simboliza através de sinais sensíveis e realiza em modo próprio a cada um a santificação dos homens; nela o corpo místico de Jesus Cristo, cabeça e membros, presta a Deus o culto público integral” (SC 7).

 

1. O sacerdócio de Jesus Cristo

Como vimos na primeira parte, Jesus Cristo praticou e preconizou em sua vida o culto em espírito e verdade — culto que Deus havia prescrito a seu povo, ao selar a aliança no monte Sinai. A carta aos Hebreus, descrevendo o sacerdócio novo, único e definitivo de Jesus Cristo, diz: “Ao entrar no mundo, ele (Jesus Cristo) afirmou: `Tu não quiseste sacrifício e oferenda. Tu, porém, formaste-me um corpo. Holocaustos e sacrifícios pelo pecado não foram do teu agrado. Por isso eu digo: Eis-me aqui — no rolo do livro está escrito a meu respeito — eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade’. Assim, ele declara, primeiramente: ‘Sacrifícios, oferendas, holocaustos, sacrifícios pelo pecado, tu não os quiseste, e não te agradaram’. Trata-se, notemo-lo bem, de oferendas prescritas pela Lei! Depois ele assegura: ‘Eis que eu vim para fazer a tua vontade’. Portanto, ele suprime o primeiro regime para estabelecer o segundo. E graças a esta vontade é que somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas” (Hb 10,5-10). É o culto da vida de Jesus, completado pela sua morte na cruz e cuja aceitação o Pai manifestou ressuscitando seu Filho da morte. Como Jesus entrou pela sua morte no santuário verdadeiro, o céu, assim está agora e eternamente diante do Pai, entregando-se em eterno amor obediente, e associa a si os que na terra estão em comunhão com ele, sobretudo os que, pelo batismo, se tornaram com ele e nele sacerdotes, os membros do seu corpo místico. Em sua vida, especialmente quando celebram a liturgia, Jesus está presente e agindo, como diz a Constitui­ção sobre a Sagrada Liturgia, “no sacrifício da missa, tanto na pessoa do ministro, ‘pois aquele que agora oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que outrora se ofereceu na cruz’ (Conc. de Trento), quanto sobretudo sob as espécies eucarísticas. Presente está pela sua força nos sacramentos, de tal forma que, quando alguém batiza, é Cristo mesmo que batiza. Presente está pela sua palavra, pois é ele mesmo que fala quando se leem as Sagradas Escrituras na Igreja. Está presente finalmente quando a Igreja ora e salmodia, ele que prometeu: ‘Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, aí estarei no meio deles’ (Mt 18,20)” (SC 7). Evidentemente, os membros do seu corpo que participam do seu sacerdócio devem celebrar como ele, quer dizer, celebrar aquilo que vivem, sua obediência ao Pai e entrega pelos irmãos, exatamente como Jesus, na última ceia, celebrou ritualmente seu Sacrifício vivido desde a sua encarnação até a morte na cruz.

 

2. O sacerdócio dos cristãos

Ao selar a aliança no deserto do Sinai com o povo libertado da escravidão do Egito, Deus tinha dito: “Se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim uma propriedade particular entre todos os povos… Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Ex 19,5-6). É esse texto que ressoa nas palavras de São Pedro em sua primeira carta: “Dedicai-vos a um sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus por Jesus Cristo”, e: “Vós sois uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, o povo de particular propriedade, a fim de que proclameis as excelências daquele que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa” (1Pd 2,5.9). No mesmo sentido, o livro do Apocalipse diz que Jesus “fez de nós um reino de sacerdotes para Deus, seu Pai” (Ap 1,6). Como no Antigo, assim também no Novo Testamento esse é um sacerdócio espiritual que, no entanto, não exclui, e sim inclui o oferecimento de sacrifícios rituais na Igreja o sacrifício eucarístico. É igualmente claro que o exercício desse sacerdócio se estende a toda a liturgia, a todas as celebrações. E, finalmente, não há dúvidas de que esse povo sacerdotal são todos os batizados. Como, no batismo, nascemos pelo dom do Espírito Santo como filhos e filhas de Deus em Jesus Cristo, assim somos, no batismo, ungidos sacerdotes no sumo sacerdote Jesus Cristo.

E o sacerdócio dos ordenados? Como diz o termo que o especifica, “sacerdócio ministerial”, ele está a serviço do sacerdócio comum de todos os batizados. Os ordenados ajudam todo o povo dos batizados a viver e exercer o seu sacerdócio espiritual e ritual.

Sobretudo na liturgia se exerce o sacerdócio de Jesus Cristo, do qual participam todos os batizados e, de modo particular, os ordenados. É nesse sentido que a Constituição sobre a Sagrada Liturgia fala da “plena, consciente e ativa participação nas celebrações, que a própria natureza da liturgia exige e à qual, por força do batismo, o povo cristão, ‘geração escolhida, sacerdócio régio, nação santa, povo de conquista’ (1Pd 2,9), tem direito e obrigação” (SC 14). No mesmo sentido, a Constituição diz ainda: “As ações litúrgicas (…) são (…) celebrações da Igreja, que é o sacramento da unidade, isto é, o povo santo, unido e ordenado sob a direção dos bispos. Por isso, essas celebrações pertencem a todo o corpo da Igreja, e o manifestam e implicam” (SC 26).

 

3. A liturgia como ação simbólica sacramental

A Constituição sobre a Sagrada Liturgia diz que, pelo exercício do sacerdócio de Jesus Cristo, “mediante sinais sensíveis, é, de modo particular a cada sinal, realizada a santificação do homem” e a glorificação de Deus (SC 7). Não se pode aqui apresentar toda uma antropologia e teologia do sinal e do símbolo. Mas isso nem é necessário para uma compreensão daquilo que o Concílio queria dizer sobre a natureza da liturgia. Essa constituição não fala de simples sinais que apenas manifestam uma realidade ou a ela remetem. Fala de sinais que também realizam aquilo que manifestam ou significam. Tais sinais chamamos, na liturgia e na ciência litúrgica, geralmente de símbolos. A realidade sensível do símbolo é também, na liturgia, normalmente uma coisa, um objeto ou uma ação sensível que manifesta e realiza o mistério celebrado ou a salvação. Assim, por exemplo, a comunidade reunida em assembleia litúrgica não apenas remete ao corpo místico de Cristo, mas é esse corpo. E, quando alguns membros dessa assembleia exercem determinados ministérios, são os membros do corpo de Cristo que o fazem. Naquele que preside, a cabeça desse corpo, Jesus Cristo mesmo, está presente e agindo, falando para nós em nome do Pai do céu ou levando a nossa oração a Deus. Quando o presidente da celebração eucarística diz: “Isto é o meu corpo que será entregue por vós”, é Jesus Cristo mesmo que diz isso; e então a espécie do pão não apenas nos remete ao corpo de Cristo, mas é o corpo de Cristo eucarístico. Convém lembrar ainda que, graças a seu caráter simbólico, a liturgia pode manifestar aquilo que nela se realiza de forma muito melhor do que o poderiam as palavras. Por exemplo, um aperto de mão ou um abraço podem dizer muito mais do que apenas palavras.

Tratando assim do caráter simbólico da liturgia, falamos de sua sacramentalidade. Os sete sacramentos são ações simbólicas que realizam o que significam. Dessa sacramentalidade participam todas as ações litúrgicas, também os agentes da celebração, os objetos que se usam e até o espaço e o tempo em que a liturgia se realiza.

 

4. Na liturgia, Deus nos santifica e nós glorificamos a Deus

Na história de Deus com a humanidade realiza-se o eterno plano do amor divino: desde a criação, e sobretudo através da obra da salvação do mundo, até a última vinda do Senhor na glória — num dinamismo que costumamos considerar como descendente. A esse dinamismo corresponde o ascendente, em que a humanidade, enquanto conhece Deus e o reconhece como seu criador e salvador, responde a ele em louvor e ação de graças, não apenas em palavras, mas sobretudo pela vida e ação conforme a vontade divina, caminhando assim para a plenitude do Reino. A mesma vertente dupla observamos na liturgia. De um lado, celebramos a ação santificadora de Deus, principalmente na proclamação da Palavra ou, por exemplo, no perdão e no novo nascimento com que Deus nos agracia, talvez de forma mais evidente na eucaristia, no Corpo do Senhor entregue e no seu Sangue que bebemos. A esse dinamismo descendente da nossa santificação corresponde, também na liturgia, outro: o ascendente, o da glorificação de Deus, em nossa oração litúrgica, quando levantamos nossas mãos em sinal de elevação dos corações a Deus, de modo particular quando oferecemos o sacrifício eucarístico e pedimos que o Pai nos aceite com seu Filho.

Evidentemente, em tudo isso, em todas as nossas ações simbólico-sacramentais, sempre quando exercemos o nosso sacerdócio na liturgia, devemos expressar com autenticidade o mistério que celebramos e — da nossa parte, naquilo que somos e vivemos — nossa atitude interior. Só assim nossa liturgia será um culto agradável a Deus, adoração em espírito e verdade. Tal liturgia nunca pode ser ação meramente humana, mas sempre se realizará por força do Espírito Santo e em sintonia com a ação de Jesus, nosso sumo sacerdote.

 

5. Na liturgia terrena, participamos da liturgia celeste

Geralmente, quem preside a missa introduz o Santo, convidando a cantá-lo em comunhão com os anjos e os santos do céu. Essa não é uma linguagem figurativa, mas sacramental-real. Para toda a liturgia, vale o que a Constituição do Concílio Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia diz da liturgia das horas: “O sumo sacerdote da nova e eterna aliança, Cristo Jesus, assumindo a natureza humana, trouxe a este exílio terrestre aquele hino que é cantado por todo o sempre nas habitações celestes” (SC 83). De fato, ele, que está à direita do Pai, nos fala na proclamação e explicação da Palavra, e com ele e por ele nós nos dirigimos ao Pai, unidos no Espírito Santo —, portanto, em íntima comunhão com as três pessoas da Santíssima Trindade, participando da sua ação, como partilhamos também a vida divina, por força do nosso batismo. Por isso, a Constitui­ção sobre a Sagrada Liturgia pode com todo o direito dizer: “Na liturgia terrena, antegozando, participamos da liturgia celeste, que se celebra na Cidade Santa de Jerusalém, para a qual, peregrinos, nos encaminhamos” (SC 8).

 

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Certamente poder-se-ia dizer muito mais sobre a liturgia. Mas também não há dúvida de que o Concílio Vaticano II — no início da Constitui­ção sobre a Sagrada Liturgia, nos artigos aqui referidos — nos diz aquilo que é o mais pertinente e essencial que se possa e deva dizer sobre a natureza da liturgia: ela é um momento da história da salvação, porque nela se leva a efeito a obra redentora de Jesus Cristo, pelo exercício do seu sacerdócio, da cabeça e dos membros do seu corpo místico.

Pe. Gregório Lutz, CSSp