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Publicado em maio-junho de 2019 – ano 60 – número 327 - Pág. 23-34

Uma Igreja com rosto amazônico

Por Reuberson Ferreira

O artigo, organizado com base na experiência missionária do autor, aponta caminhos que podem ser divisados como promotores de uma Igreja com rosto amazônico. Considera o que a Igreja amazônica pode oferecer à Igreja Católica no mundo, bem como o que ela precisa ser: uma Igreja plenamente católica na Amazônia.

Introdução

Diante da secular fachada da Basílica Vaticana, a uma multidão embevecida de fiéis reunidos entre as colunatas que cercam a praça idealizada por Bernini, o papa Francisco deu a conhecer, de maneira espontânea e imprevista, ao final da missa da canonização dos mártires do Rio Grande do Norte, seu desejo de celebrar um sínodo pan-amazônico. Se não fossem as revelações posteriores, essa inusitada cena seria uma anamnese perfeita da atitude de outro papa que, numa ocasião similar, após oficiar a Eucaristia, fez um tão espontâneo e significativo anúncio ao mundo, definido como “flor espontânea de inesperada primavera” (João XXIII, 1963). Tal dístico – o Concílio Vaticano II – transformou-se no maior evento da Igreja no século XX e marcou decisivamente a fisionomia católica.

Salvaguardando as diferenças de contextos e proporções, pode-se alentar profundas esperanças em relação às “espontaneidades” daqueles que chegam ao sólio petrino. Quiçá se avizinhe uma lufada revigorante do Espírito Santo, capaz de marcar outra vez a tessitura eclesial, mormente aquela da região amazônica, aportando, como fez o Vaticano II com a modernidade, a Igreja de maneira mais cirúrgica no coração dos povos e das culturas amazônicas. Trata-se de, como sonha o papa Francisco, buscar e apresentar “novos caminhos para a evangelização daquela porção do povo de Deus, especialmente dos indígenas” – uma categoria que frequentemente é esquecida e não raro tem suas perspectivas de futuro defraudadas inclusive pela “crise da floresta amazônica, pulmão de capital importância para nosso planeta” (FRANCISCO, 2017).

Assim, instados pelos apelos do papa Francisco e inquietos pela busca de novos itinerários para a evangelização daquela singular parcela do povo de Deus, tentaremos, neste artigo, apontar caminhos (non nova, sed nove) para a ação pastoral e evangelizadora da Igreja neste admirável “continente amazônico”. Os argumentos que sustentarão o aceno desses caminhos brotaram, de um lado, da reflexão teológica eclesial atual à luz das exigências da ação evangelizadora na Amazônia e do papado de Francisco; de outro, da experiência prático-pastoral do autor deste texto, que, por cinco anos, atuou na Diocese de São Gabriel da Cachoeira, a mais extensa e indígena do Brasil, atendendo a aldeias ribeirinhas e colaborando na formação de comunidades cristãs. O texto, nesse sentido, será eivado também por uma carga testemunhal e delineado segundo a perspectiva de uma posição geográfica restrita, não abrangendo, desse modo, em minúcias toda a capilaridade do universo pan-amazônico.

1. Uma Igreja com rosto amazônico

A alvissareira convocação da assembleia sinodal pelo papa Francisco despertou esperanças, promoveu alegrias. O tema eleito pelo pontífice para esse Sínodo provoca tácita explosão de ideias, propostas e sonhos. Trata-se de oportunidade rara de levar àquela seara eclesial propostas que incidam numa pastoral encarnada, com contornos claros e preocupações que tocam a carne real da Igreja amazônica. De fato, novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral no universo (pan-)amazônico constituem um ideal simultaneamente audacioso e complexo; um projeto digno de visionários da estirpe do atual pontífice, secundado, certamente, por bispos que sentem diuturnamente as vicissitudes do labor evangelizador na desafiante realidade amazônida.

Nesse sentido, é possível, sem antecipar-se às discussões sinodais, tentar contemplar, com propostas objetivas e reais, as silhuetas de uma Igreja nitidamente amazônica. Trata-se, a nosso ver, entre teorias e experiências, de sonhar com uma Igreja capaz de exalar o bom odor de sua gente, além de, ao mesmo tempo, amalgamar as necessidades concretas de seu povo e ser espelho da vivacidade ritual das culturas autóctones.

1.1. Igreja amazônica: capaz de exalar o bom odor de sua gente, sua cultura e sua história

No processo de preparação para a assembleia a ser celebrada em outubro de 2019, a visita do papa Francisco ao Peru, mormente seu discurso a mais de 5 mil indígenas em Porto Maldonado, tornou-se evento inaugural dos trabalhos sinodais, como destacou um bispo da Amazônia (DAMIAN, 2018). Contíguo a esse encontro, naquele mesmo 19 de janeiro, um séquito de mais de 30 bispos, orientados pelo presidente da Rede Pan-Amazônica, cardeal Hummes, e pelo secretário sinodal, dom Lorenzo Baldisseri, debateu sobre a dinâmica de trabalhos da assembleia sinodal. Não mais que seis meses depois, despontou o sucinto texto preparatório, que deveria ser levado às comunidades para ulteriores debates, aportes e retificações, em vista de tornar-se um texto-base da reunião sinodal.

Elaborado por uma equipe de expertos constituídos em uma comissão pré-sinodal, o texto-base do Sínodo, entre outras coisas, atesta que “as reflexões do Sínodo especial superam o âmbito estritamente eclesial amazônico, por serem relevantes para a Igreja universal e para o futuro de todo o planeta” (DP, “preâmbulo”). Esse mesmo argumento, seminalmente, já havia sido avalizado pelo papa Francisco quando da convocação do Sínodo (2017). Assim, antes de receber algo ou ser instruída por outrem, deve-se admitir que a Igreja amazônica pode oferecer muitíssimo de sua realidade à Igreja Católica no mundo; seria o exalar de um bom odor dos cristãos pan-amazônicos para a humanidade.

A Igreja pan-amazônica é, congenitamente, plural e superlativa. Sua pluralidade externa-se em suas expressões eclesiais, em sua população e em sua geografia. De fato, a bacia hidrográfica da Amazônia representa uma das maiores reservas de biodiversidade de água doce e possui mais de um terço das florestas primárias do planeta. São, segundo o documento preparatório, mais de 7,5 milhões de quilômetros quadrados, com nove países que fazem parte desse grande bioma que é a Amazônia (DP 1). A diversidade populacional é imensa. Desde ribeirinhos até citadinos, de aldeias voluntariamente isoladas a tribos profundamente ajustadas à tradição ocidental, são mais de 30 milhões de habitantes. Trata-se, como é dito por pesquisadores, de várias “Amazônias” alocadas numa única pátria grande chamada Amazônia. É um universo plural e grandioso que abriga imensa e diversa variedade de povos, línguas, culturas e raças.

Nesse cenário complexo, amplo e plural, mesmo não de modo homogêneo e totalmente ordenado, a Amazônia consegue conviver com a diversidade e a pluralidade cultural, religiosa e social. Assim, é forçoso admitir que esse aspecto é algo relevante para toda a Igreja. Deve, portanto, ser um dos bons aromas exalados, desde as cercanias das comunidades ribeirinhas ou aldeias indígenas, para a Igreja católica mundo afora. Contemplando a heterogeneidade da Igreja naquela porção particular do povo de Deus, cabe traçar caminhos para, na Igreja Católica, respeitar o diverso, o múltiplo e o plural e conviver com eles, evitando qualquer reducionismo ou unilateralidade de modelo eclesial e compreendendo que os acurados modelos eclesiológicos são modos, por vezes culturais, de viver uma mesma fé.

Outro aspecto típico da Igreja amazônica que pode ser apresentado à Igreja em toda orbi como bom odor daquela parcela do povo de Deus é a evangélica pobreza. A rigor, constata-se a olho nu que a região pan-amazônica é empobrecida. Um estudo do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) aponta que são drásticas as condições sociais, econômicas e ambientais nos países amazônicos. Cerca de metade da população desses países encontra-se abaixo da linha da pobreza. Associa-se a isso a mortalidade infantil, que na Amazônia é bem maior do que a média nacional dos países. Na Bolívia, ela está acima do verificado nas regiões mais pobres do mundo: são 73 casos por mil nascidos vivos. Há ainda a questão da desnutrição, que atinge um quarto da população infantil, sendo os indígenas os mais vulneráveis a esse problema. Ademais, pesquisas revelam que o analfabetismo na região está acima dos parâmetros internacionais, atingindo na Amazônia brasileira 11%, mais que o dobro em relação aos 5% definidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como critério de situação crítica. Em termos eclesiais, a Pan-Amazônia, proporcionalmente, é a que goza de menor quantidade de ordenados e consagrados a serviço das diversas comunidades, tem menos locais de culto e obras assistenciais mantidas pela Igreja. Percebe-se, portanto, da cultura à religiosidade, da economia à educação, o empobrecimento da região pan-amazônica.

Não obstante a pobreza estrutural, fruto de opções políticas injustas, outro tipo de pobreza pode ser percebido, aquela que é evangelicamente vivida. A Igreja pan-amazônica, excetuando algumas poucas realidades, é simples, pobre. Nas feições do povo ou na organização das igrejas, percebe-se a leveza e a simplicidade das primeiras comunidades cristãs. No estilo, em geral, despojado de seus pastores, percebe-se uma legião de novos signatários do pacto das catacumbas, filhos da tradição latino-americana semeada desde Medellín, desprovidos de títulos e insígnias de ostentação, paladinos de uma Igreja pobre e para os pobres. No apoio às organizações de defesa dos direitos dos espoliados, dos indígenas e ribeirinhos, vê-se a certeza de uma Igreja que busca ser voz ao lado dos que têm pouca ou quase nenhuma voz. Assim, ciente, como sonha e ensina o papa, de que o serviço aos pobres deve ser o critério de autenticidade do evangelho (cf. EG 195), a Igreja na Amazônia tem um bom odor a exalar pelos seus poros para a Igreja Católica no mundo inteiro: o compromisso com os pobres, com uma Igreja pobre. Um compromisso congênito, próprio do seu jeito de ser Igreja.

Em cinco anos que vivi na Amazônia, fui surpreendido, porque aprendi mais que ensinei, ganhei mais que doei. Aquela Igreja local ofertou muito mais à minha visão da Igreja católica, universal. Aprendi, convivendo com outros religiosos, o doloroso preço a ser pago pela fidelidade evangélica a Deus nos pobres e sofredores. Acompanhei, não sem sofrimento, uma religiosa italiana da Congregação das Filhas de Maria Auxiliadora ser subitamente retirada de sua função e enviada ao continente africano após ameaças de morte, por ter denunciado ao Ministério Público a exploração sexual de indígenas por um cartel de empresários da cidade. Aprendi, no atendimento diário de mais de 18 tribos sob minha responsabilidade pastoral, com línguas e histórias diferentes, a conviver com a singeleza e a diversidade de uma Igreja simples e plural, que merece atenção e respeito.

Em resumo, uma Igreja com rosto amazônico, antes de qualquer coisa, tem de oferecer à Igreja Católica no mundo aquilo que ela é, diríamos, ontologicamente. Assim, por sua própria peculiaridade, deve ensinar à Igreja universal a capacidade de conviver com a necessária pluralidade eclesial. De igual modo, a pobreza evangélica, vivida de forma radical na Amazônia, deve ser uma flâmula apresentada à Igreja universal como critério de autenticidade do seu anúncio do evangelho.

1.2. Igreja amazônica: atenta às necessidades concretas do povo e espelho da vivacidade ritual autóctone

Ainda delineando as feições de uma Igreja com rosto amazônico, sonha-se com uma comunidade encarnada, real e sintonizada com as alegrias e esperanças concretas do povo alocado na Pan-Amazônia. Trata-se de ideal ambicioso, pois essa região é infinitamente diversa, plural e múltipla. Esse fato dispensa, por um lado, qualquer projeto monolítico de identidade eclesial e, por outro, enseja a busca de elementos transversais que, adaptados às diversas situações locais, permitem construir uma identidade particular. Nesse sentido, apresentamos três elementos que podem ser catalisadores de uma Igreja com rosto amazônico, a saber: ministérios, defesa da natureza e incorporação de elementos culturais à realidade celebrativa.

Ministérios

Uma Igreja amazônica que se faça verdadeiramente encarnada na história e assuma o rosto do seu povo deve repensar o exercício dos ministérios naquela região e repropor novos modelos. A rigor, tem-se ciência de que, dos mais de 400 mil sacerdotes no mundo, uma das menores parcelas de ministros ordenados católicos está no continente americano: cerca de 30%, segundo dados do Anuário Pontifício. A título de exemplo, no Brasil há 27.416 presbíteros e 3.849 diáconos permanentes. Existe, ainda, irregular distribuição do clero no país. A maior parte está concentrada nas regiões Sul (25%) e Sudeste (45%), enquanto na região Norte, justamente onde está a parte brasileira da Pan-Amazônia, há apenas 3% do clero nacional. Esse fato implica uma parca assistência às comunidades e a privação de muitos fiéis do acesso à Eucaristia dominical.

A lamentável situação eclesial à qual os povos ribeirinhos e comunidades da Pan-Amazônia estão submetidos pela falta de clero exige, no Sínodo, uma resposta audaciosa. É momento de rever o modelo de ministro ordenado e esboçar um papel mais significativo da mulher na Igreja do Amazonas. Não se trata de oposição ao ministério ordenado celibatário, que é um dom e graça para a Igreja, como afirmou dom Erwin Kräutler (BALLOUSSIER, 2018), mas de repensar a privação eucarística que muitos vivem na Amazônia. Ao mesmo tempo, é necessário identificar o tipo de ministério que pode ser dado à mulher, levando em conta o papel central que desempenham nessa Igreja particular (DAMIAN, 2018). A Igreja amazônica, assim como toda a Igreja universal, não deve ficar refém de um modelo único de exercício do sacerdócio (a rigor, a Igreja é plural em formas de vida sacerdotal). Deve, desde a Amazônia e ouvindo o clamor do povo, abrir-se a outros modelos. Especial atenção merece a proposta de Fritz Lobinger, bispo emérito de Aliwal,África do Sul,de “equipes de anciãos”. Esses anciãos (homens e mulheres) não seriam clérigos, embora fossem sacramentalmente ordenados sacerdotes e serviriam a Eucaristia. A um padre animador celibatário caberia supervisionar (acompanhar) as várias equipes ministeriais. Com esse regime, talvez não se sanaria a questão ministerial, contudo se mitigaria a dificuldade de comunhão que muitos amazônidas enfrentam.

Ecologia

Outra senda de uma Igreja forjada com traços plenamente amazônicos é a inegociável defesa integral da natureza. A Igreja cresce à sombra da diversidade ecológica da Amazônia, respira e transpira a biodiversidade dessa região. Deve-se ter claro que a Pan-Amazônia, em todo seu conjunto, responde pela metade da biodiversidade mundial, goza da última floresta tropical, amalgama 15% da água doce no mundo e é a maior extensão florestal nos trópicos. A população que vive na região – da qual fazem parte muitos cristãos –, além de habitar o lugar, tem uma relação umbilical inextrincável com a terra, os rios, as matas e as florestas. A cosmovisão dos viventes autóctones é eivada por essa relação quase mística com o ambiente que povoam.

Essa relação espiritual, no entanto, é diuturnamente tomada de assalto, achacada e vilipendiada. Em toda a Pan-Amazônia há reiteradas investidas de grandes conglomerados industriais para explorar suas riquezas minerais e vegetais. Milhões de quilômetros da região amazônica estão cedidos à exploração de recursos minerais. Só na Amazônia, até 2020, prevê-se o funcionamento de mais de duas dezenas de usinas hidrelétricas, às expensas do alagamento de áreas que deveriam ser protegidas e do remanejamento de famílias que, bem mais que terem uma terra, se sentem parte da terra que habitam. Soma-se a isso o desmatamento das florestas, que, somente na Amazônia Legal brasileira, segundo o Imazon, chegou a mais de 4 mil quilômetros no último ano. Não raro esse processo tem o assentimento dos próprios habitantes locais, que, cooptados por industriais e sob o engodo do discurso de bem-estar social, acampam as ideias subjacentes à prática exploratória e as promovem entre seus pares. Em face de tão complexo cenário, colocar-se sobre o pálio de defesa da biodiversidade é questão premente para a sociedade civil, e mais ainda para a Igreja.

Essa defesa da biodiversidade insere-se na clarividente certeza descrita pelo papa Francisco como ecologia integral (cf. LS 137). Ela repousa na plena convicção da inter-relação entre todos os organismos vivos, considerando o mundo todo como uma casa comum. Essa concepção concorre para a ideia de que a crise ambiental não é distinta da crise social (cf. LS 137) e que somente uma visão holística da realidade possibilitará a resolução de tão complexa situação. Nesse espírito, ante a crescente devastação da Pan-Amazônia, a crítica ao modelo de desenvolvimento antropocentrista e capitalista aplicado à Amazônia deve ser protagonizada pela Igreja. Esta deve inserir, no micronível, em seus planos catequéticos, uma crítica a esse sistema de desenvolvimento, que oprime e mata. De igual modo, na formação do clero local, deveria incutir, via ementa de cursos de formação sacerdotal, uma sadia teologia da criação, que torne aguda a compreensão da inter-relação entre os sistemas naturais e sociais, dos quais o próprio ser humano é parte, e explicite que a destruição dessa inter-relação implica também a do ser humano. Ainda nessa perspectiva, a Igreja deve colocar-se em linha de frente para interpor objeções a acordos que primam apenas pela lucratividade, sem levar em consideração o bem-estar das populações frágeis que vivem à sombra e/ou às margens da região amazônica. Por fim, que a defesa da ecologia integral seja uma bandeira institucionalizada da Igreja universal e das Igrejas particulares da Amazônia, para que não seja refém de primaveras ou invernos eclesiais, mas permaneça uma prática contínua da Igreja.

Ritualidade e liturgia

No espírito do olhar poético de Guimarães Rosa, uma terceira margem à qual a Igreja amazônica deve singrar, a fim de plasmar sua própria imagem, é o universo da ritualidade. Não sem razão, mirando a Pan-Amazônia, pode-se parafrasear o pensamento cartesiano e dizer que ritus, ergo sum (no rito, existo). Os povos autóctones, em geral, são afeitos a celebrações rituais. São ritos que as comunidades nativas preservam de maneira sistemática e explícita, vivenciando-os e transmitindo-os às gerações mais novas. Comuns entre muitas tribos, em diversas aldeias e comunidades, são os ritos que secundam a gravidez e o nascituro, que marcam a entrada na puberdade ou na vida adulta, que acompanham a passagem da vida para a morte. São ritos que se traduzem em festas, em grandes comemorações religiosas e espirituais.

Em comunidades amazônidas mais moldadas pela mentalidade ocidentalizada, os ritos são vividos de maneira velada, talvez parcimoniosa. Nesses casos, bem mais que em cerimônias rituais, expressam-se no modo particular de entendimento do mundo e de relacionamento com ele. É uma cosmovisão peculiar. Constata-se que é uma percepção delineada pela atitude de sacralidade com relação à natureza, aos ancestrais e ao Criador. Essa condição ritual, a exemplo de todas as outras culturas, é algo superlativo na cultura amazônica. Trata-se de quesito do qual não se pode prescindir na tentativa de compreender tal universo, pois compõe, de maneira emblemática, o complexo mosaico dos povos da Pan-Amazônia.

Diante dessa constatação, parece irrefragável a necessidade de localizar a liturgia católica de rito latino – predominante na região amazônica – dentro dessa ritualidade e festividade intrínsecas ao universo amazônico. Não se nega que o rito latino seja ritual, mas deve-se admitir que ele advogue uma ritualidade que possa ser, à luz do “continente amazônico”, prenhe de tons afeitos ao gênio das culturas (cf. CELAM, Medellín, “liturgia”, n. 7b) e se expresse como coroa de compromisso com a realidade humana (cf. CELAM, Medellín, “liturgia”, n. 4). Assim, é um imperativo que o Sínodo possa abrir espaço, não de maneira excepcional, mas institucionalizada, para que cada vez mais, sobretudo no que diz respeito às línguas mais comuns, os livros litúrgicos sejam vertidos para o vernáculo. Certamente, com o motu proprio Magnum Principium, de Francisco, está sendo germinada essa ideia no que tange à tradução dos textos para as línguas usualmente faladas, contudo cabe insistir para que essa posição seja aplicada a todos os tomos litúrgicos que compõem os rituais católicos.

Ademais, cabe desvelar a necessidade de adaptações rituais à realidade de alguns atos litúrgicos. Não se trata apenas de concessões, mas de admissão de traços da cultura amazônica no universo celebrativo, de maneira institucional. Tais traços seriam apresentados em cantos, na apropriação justa de ritos, como os de apresentação de nascituros (benzimentos) ou de apresentação de dons (como o que ocorre no Dabucuri, cerimônia milenar que ocorre na região do alto rio Negro), ou na preparação do ambiente religioso. Deve-se, contudo, livrá-los de qualquer sincretismo, mas fundi-los no espírito da liturgia católica, que, a rigor, não prescinde da realidade concreta dos povos; antes, ao contrário, faz-se carne nelas (cf. EG 115; 167).

À guisa de exemplo, ao longo dos anos que vivi na região amazônica, percebi que alguns passos foram ensaiados. O bispo da Diocese de São Gabriel da Cachoeira, Edson Damian, entusiasta da cultura indígena, caminhando às apalpadelas, buscava sendas para esse feliz casamento entre a fé e a cultura. Em sua ordenação episcopal, com a mitra e o báculo, recebeu o cocar e o bastão indígenas, signos do poder e do serviço religioso. Esse gesto, excetuando a entrega da mitra, ele repetia quando ordenava padres autóctones. De igual modo, nos ritos iniciais da missa de posse do bispo, ao som do cariçu (instrumento musical ritual dos indígenas), foi feita uma ambientação do espaço, com defumação e preces em língua nativa. Igualmente, no processo catequético, há um esforço para aproximar a dinâmica própria do Reino de valores da cultura indígena, normalmente muito próximos. De modo particular, em celebrações com grande afluência de fiéis, eu favorecia o canto de músicas em línguas nativas, danças rituais e a proclamação de leituras no vernáculo local. Talvez seja o Sínodo momento oportuno de abertura para nova reforma litúrgica que, desta vez, atinja de maneira explícita o coração da realidade amazônica. Atualmente, o bispo da Diocese do Alto Rio Negro anda às voltas com uma tradução do rito da missa para uma das línguas presentes na sua diocese, a fim de que seja aprovada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Oxalá o Sínodo Pan-Amazônico impulsione esse projeto.

Conclusão

Ao fim desta reflexão, recorda-se que a evangelização no horizonte amazônico já goza de um lastro histórico de mais de 300 anos. Muito embora o Sínodo possa ser avançado e assertivo em suas intuições, deve-se reconhecer que suas proposições ainda percorrerão lento caminho até serem decantadas e se tornarem límpidas na Igreja amazônica. Desse modo, as sugestões acima expostas são elucubrações entre a teoria e a prática que precisam ser recepcionadas, acolhidas, avaliadas e redirecionadas até se tornarem suficientemente capazes de embeber a catolicidade da Igreja na cultura indígena. A rigor, em termos eclesiais e na perspectiva de uma sinodalidade profunda, julgo que a assembleia dos bispos deste ano deixará grande legado se, verdadeiramente, permitir aos bispos locais a liberdade para ousar traçar caminhos, construir novas trilhas. Nesse espírito, caberia aos prelados da Pan-Amazônia, com responsabilidade evangélica e devotado amor à Igreja, a missão de estabelecer, em suas realidades locais, aspectos ligados ao culto (liturgia), ao ministério (homens e mulheres) e à defesa da natureza, enquanto a Roma, como primeira entre iguais, competiria assentir e confirmar. Trata-se de ideal que beira à utopia; todavia, é ela que, como diria o poeta uruguaio Eduardo Galeano, serve de estímulo no horizonte para nos fazer caminhar.

Referências bibliográficas

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Reuberson Ferreira

Reuberson Ferreira, msc, é religioso e padre da Congregação dos Missionários do Sagrado Coração. Mestre em Teologia, trabalhou cinco anos no Amazonas, na Diocese de São Gabriel da Cachoeira (AM). Atualmente é pároco e reitor do Santuário Nacional de Nossa Senhora do Sagrado Coração em São Paulo (SP).