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Publicado em julho-agosto de 2015

Ofício da mãe do Senhor, uma tentativa de responder, pedagogicamente, às urgências da piedade mariana

Por Reginaldo Veloso

O Ofício da mãe do Senhor foi pensado como uma adaptação do Ofício da Imaculada Conceição ao estilo do conhecido Ofício divino das comunidades. Segue a linha da renovação teológica, litúrgica e eclesiástica do Vaticano II, procurando ajudar o povo a encontrar o jeito melhor de amar e imitar Maria e encontrar a verdadeira grandeza de seu lugar na história de Jesus e no mistério de Cristo.

Quando, 14 anos atrás, atendi ao pedido da Editora PAULUS e da Ir. Penha Carpanedo, da Revista de Liturgia, para elaborar um “Ofício de Nossa Senhora”, que sintonizasse, ao mesmo tempo, com a antiga tradição popular do “Ofício da Imaculada Conceição” e a recente e exitosa experiência do Ofício Divino das Comunidades”, minha preocupação era mais pedagógica e teológica do que propriamente ritual e devocional.

Sob o título “EIS AÍ O TEU FILHO!… EIS AÍ A TUA MÃE!… (Jo 19,26)”, logo depois de contar “A história deste Ofício”, (p. 5-9), numa breve e sucinta introdução, eu escrevia, então:

Parece que a devoção dos cristãos à mãe do Senhor oscila entre estas duas palavras que valem como “testamento” de Jesus para os cristãos de todos os tempos:

A devoção mais natural e espontânea, a mais fácil e cômoda, é jogar-se como “filho” ou “filha” no regaço desta mãe, que, por sinal, reflete o rosto materno do próprio Deus, para aí sugar toda a ternura e experimentar o calor da sua proteção. Quem não precisa de proteção?… Quem não a busca?… Quem não se sente bem, protegido?… Sobretudo num contexto de opressão, de incertezas, angústias e sofrimentos, como é o caso da imensa maioria do nosso povo, é fácil entender o afluxo caudaloso das massas, morros acima ou vales abaixo, em demanda de algum santuário da mãe de Jesus e mãe nossa. Fazendo ou pagando suas promessas, o povo chega cheio de direito ou gratidão. Quem mandou Jesus dizer à sua mãe, naquela “hora”: “Mulher, eis aí o teu filho!”?… O povo entende que é papel dela cuidar dos filhos e filhas que Jesus lhe entrega na pessoa do Discípulo, ao pé da cruz. E esse é o jeito “criança” de se gostar da mãe.

Mas há outra maneira de ser devoto de Maria. É, antes de tudo, olhar para ela com a divina simpatia de quem a mandou chamar pelo Anjo de “cheia de graça”! É folhear o Evangelho, os 4 Evangelhos, e receber das mãos do Pai e do Filho e do Espírito este admirável “Espelho de Justiça”, como a apelida a tradicional Ladainha, para aí se confrontar e revisar a vida, rever sua relação com o Pai e o Filho e o Espírito. Pois esta mulher singular, melhor que ninguém, poderá ajudar a Igreja a reencontrar continuamente o seu jeito original de ser. Ela é a própria Igreja na sua origem, Lucas que o diga e João que o confirme: “Eis aí a tua mãe!”. O povo precisa ser ajudado a entender que é sua tarefa cotidiana, a toda hora, seguir JESUS, deixando-se levar pela mão desta Mulher, imitando este modelo admirável de escuta e disponibilidade, de fidelidade e firmeza, de busca de Deus e solidariedade para com o povo. E esse é o jeito “adulto” de os filhos e filhas gostarem de sua mãe. As páginas que se seguem nos ajudem a encontrar o jeito melhor de amá-la e imitá-la, “caminhando e cantando e seguindo a canção” (G. Vandré) (Ofício da mãe do Senhor, p. 10ss).

Como “para bom entendedor poucas palavras bastam”, imagino que a citação acima pôde valer como uma declaração de intenções clara e suficiente. De certa maneira, eu tentava precaver os vários tipos de agentes pastorais, mas muito especialmente os que, com os sinceros cuidados do Bom Pastor, lidam com as comunidades ou as massas “devotas”, contra o perigo de uma piedade mariana entregue aos excessos do sentimentalismo, fruto de uma devoção pouco ou nada evangelizada, de uma generalizada carência de catequese e formação da consciência cristã.

E o perigo tem-se demonstrado mais que real. Com o avanço da onda neopentecostal no seio da nossa Igreja, pior ainda, com o abuso mercantilista com que a religiosidade popular vem sendo manipulada por todas as mídias, sob o olhar conivente de quem deveria interferir e não o faz, por alguma conveniência de questionável interesse, os que, com responsabilidade pastoral, nos dedicamos ao serviço do Reino por Jesus anunciado assistimos atônitos a todo tipo de manifestação espúria e aberrante, praticada a título de “devoção a Nossa Senhora”. E vai do uso abusivo de nomes esdrúxulos dados à mãe de Jesus a cantos, preces e consagrações que beiram a heresia, lamentáveis exageros que a verdadeira grandeza do lugar de Maria, na história de Jesus e no mistério de Cristo, dispensa e refuga.

Quanto eu gostaria de que um bom número de agentes pastorais conhecessem esse subsídio que vem acompanhado de três CDs, respectivamente: Ofício da mãe do Senhor 1: OFÍCIO DAS ALEGRIAS; Ofício da mãe do Senhor 2: OFÍCIO DAS DORES; Ofício da mãe do Senhor 3: OFÍCIO DAS GLÓRIAS.

Como já estão podendo perceber, há clara tentativa de sintonizar com as tradições da religiosidade popular. Manuseando o livreto de 175 páginas ou escutando algum dos três CDs, vão notar ainda mais o tanto de reminiscências e elementos deste jeito de o povo venerar a grande mãe do Senhor, o que dá a esse subsídio plenas chances de cair no gosto do povo: claras ressonâncias dos “AVE” de Lourdes e Fátima, do próprio antigo Ofício da Imaculada Conceição, dos mistérios do santo rosário, só para citar as mais facilmente identificáveis.

Mas vão constatar, sobretudo, a seriedade e o cuidado com que cada elemento desse singelo e sugestivo ritual é tratado: como o próprio cântico de Maria (cf. Lc 1,47-55), trata-se de um louvor “ao Senhor”. A mãe de Jesus, no decorrer das celebrações, sem dúvida, é lembrada e homenageada, mas por e em sua estreita ligação com o mistério de Cristo, sem o que toda forma de invocação, de oração ou mesmo de representação iconográfica perde a genuinidade e a legitimidade. Assumindo a tradição da Liturgia das Horas numa proposta mais popular, a do Ofício Divino das Comunidades, enriquece sobremaneira a tradicional devoção com o canto dos salmos e demais cânticos bíblicos e a leitura das Sagradas Escrituras, o que nos aproxima muito mais deste modelo incomparável de nossa fé que é a própria mãe do Senhor, a serva fiel da Palavra e cantora da libertação.

Creio que, com esses cuidados e dessa forma, tentei prestar um serviço à minha Igreja, sem ignorar os reflexos benéficos que possa ter no diálogo ecumênico, que, sem precisar derivar para o medo de afirmar nossas convicções, tampouco pode ser prejudicado por nossos reais desvios e irresponsabilidades.

Por fim, aproveitando o ensejo das comemorações do cinquentenário do Concílio Vaticano II, remeto-me a um dos seus principais documentos, que, ao inserir, cuidadosa e criteriosamente, a temática mariológica no âmbito do mistério de Cristo e da Igreja, no oitavo e final capítulo da Constituição sobre a Igreja, a Lumen Gentium,

[…] admoesta ao mesmo tempo todos os filhos da Igreja a que generosamente promovam o culto, sobretudo o litúrgico, para com a Bem-aventurada Virgem, deem grande valor às práticas e aos exercícios de piedade recomendados pelo magistério no curso dos séculos e observem religiosamente o que, em tempos passados, foi decretado sobre o culto das imagens de Cristo, da Bem-aventurada Virgem e dos Santos. Mas com todo o empenho exorta os teólogos e os pregadores da Palavra divina a que, na consideração da singular dignidade da mãe de Deus, se abstenham com diligência tanto de todo falso exagero quanto da demasiada estreiteza de espírito (LG 157-158).

Reginaldo Veloso

Tem longa história de dedicação às CEBs e à pastoral; mestre em Teologia (PUG, Roma, 1962); mestre em História Eclesiástica (PUG, Roma, 1965); fez o curso do Ispal, Rio, 1966. É membro da Equipe de Reflexão e Música Litúrgica da CNBB. E-mail: reginaldoveloso@uol.com.br