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Publicado em Julho-agosto de 2019 – ano 60 – número 328 - Pág. 13-20

A caridade pastoral e seu diálogo com a razão: algumas reflexões sobre a dimensão intelectual na formação dos presbíteros

Por Joel Portella Amado

O artigo discorre sobre a dimensão intelectual na formação dos presbíteros numa perspectiva de integralidade da pessoa, considerando que todo cabedal formativo deve estar a serviço da caridade pastoral, como sinal visível da efetiva configuração
a Cristo.

Introdução

A formação intelectual dos futuros e atuais presbíteros tem recebido, principalmente a partir das indicações tridentinas, especial atenção. Os seminários têm se empenhado em possibilitar aos futuros presbíteros preparo adequado para, após a ordenação, serem capazes de se lançar no serviço pastoral. Essa preocupação não desapareceu em nossos dias. Ao contrário, torna-se realidade ainda mais necessária e urgente. Refletir sobre ela implica compreender o que significa, neste período histórico em que nos situamos, discernir suas peculiaridades, identificar os desafios e elencar pistas para o caminhar formador dos presbíteros.

1. A identidade da formação intelectual

A nova Ratio insere toda a formação presbiteral e, nela, a dimensão intelectual no processo de configuração a Jesus Cristo (RF 3, 35-40), o qual é apresentado como “sinal visível do amor misericordioso do Pai” (RF 35), identidade que se concretiza no incansável cuidado das ovelhas. Este cuidado implica buscar, reunir, resgatar, proteger (RF 37, 69, 89). Trata-se de identificação que, necessariamente, faz do presbítero um missionário (RF 36, 44) que, à semelhança do Mestre, é incansável na interlocução com pessoas e mentalidades.

Desta identidade presbiteral geral decorre a identidade da dimensão intelectual. O Cristo Senhor anunciou o Reino de Deus por meio de gestos e palavras. Interpretou a mentalidade de seu tempo, dialogou com as diversas compreensões então existentes, buscou exemplos inteligíveis aos seus interlocutores, conheceu os textos sagrados de seu povo, aplicando-os para ler a realidade e explicar os mistérios do Pai. Falou de modo simples e acessível (cf. Mt 6,26-34) aprofundando seus ensinamentos junto aos discípulos, quando necessário (cf. Mc 4,33-34; Jo 6,30-60). Anunciou, portanto, o Reino de Deus também pela via racional, perpassando os caminhos da inteligência e da capacidade de compreensão.

Deste modo, podemos falar de configuração integral a Cristo, cujas implicações abrangem todas as dimensões da formação e “compõem e estruturam a identidade do seminarista e do presbítero, tornando-o capaz de realizar o dom de si para a Igreja, que é o conteúdo da caridade pastoral” (RF 3). Numa perspectiva integral da pessoa, em que fé e razão não se excluem, mas, ao contrário, complementam-se, os presbíteros são vocacionados a dar o melhor de si, a fim de “anunciar, de modo credível e compreensível aos homens de hoje, a mensagem evangélica” (RF 116). A identidade da formação intelectual se insere na caridade pastoral, como sinal visível da efetiva configuração a Cristo Senhor (cf. PDV 21-23). É por isso que a nova Ratio insiste tanto no fato de que “a formação intelectual […] está a serviço do ministério pastoral e incide também sobre a formação humana e espiritual” (RF 117).

2. A dimensão intelectual em nossos dias

É certo que o presbítero vive em função de Cristo Jesus, no serviço evangelizador da Igreja. No entanto, é igualmente certo que a concretização desta identidade varia no tempo e no espaço. Não fosse assim, a nova Ratio não insistiria tanto na necessidade de o presbítero “estabelecer um diálogo profícuo com o mundo contemporâneo” (RF 116), um mundo que experimenta transformações estruturais (AMADO, 2018, p. 107), as quais, por sua vez, exigem mudanças no processo formador dos futuros e dos atuais presbíteros.

Vivemos um tempo de mudanças diametrais. Passamos de uma concepção estática da vida para uma perspectiva de altíssima mobilidade e volatilidade. Passamos de um período histórico de certezas consolidadas para um tempo no qual as identidades, também a dos presbíteros, se veem diretamente atingidas. Nos tempos de certezas, a plausibilidade do que o presbítero diz e faz encontra-se alicerçada na tradição e na instituição. As pessoas tendem a crer, porque sempre se fez assim (tradição) e porque o presbítero faz parte de uma instituição sólida. Nos tempos de mobilidade e volatilidade, o presbítero se vê individualizado e desafiado a interagir muito mais com questionamentos do que com acolhimentos. Sua palavra necessita, continuamente, do convencimento. Nesta tarefa, compreende-se a importância da dimensão intelectual, como parte irrenunciável da missão do presbítero.

Os presbíteros sempre se viram diante da necessidade de pregar, expor, apresentar e ajudar a compreender o evangelho. A novidade está em que as categorias culturais até então utilizadas para isso já não possuem fôlego suficiente para se fazerem entender. Uma explicação teológica pode ser rigorosamente correta, sem que, entretanto, consiga chegar ao coração e à vida das pessoas, soando muito mais como uma espécie de equação matemática, cujas lógicas internas, embora perfeitas, independem de como os interlocutores estejam no momento em que tomam contato com elas. Não se trata, portanto, de alterar o conteúdo do evangelho, mas perceber que sua transmissão necessita de instrumentos diferentes daqueles utilizados durante séculos.

Daí a importância de encontrar caminhos sólidos para a formação dos presbíteros, também no que diz respeito à dimensão intelectual. O presbítero, insiste a nova Ratio, necessita estar preparado para, a todo momento, ser capaz de explicar, de modo razoável e inteligível, as razões de sua fé e, a partir daí, os motivos pelos quais é necessário seguir determinado caminho ético (cf. RF 116). Ao fazê-lo, já não basta expor a lógica interna de um raciocínio filosófico ou teológico nem apresentar o argumento de autoridade da Escritura, da tradição ou da instituição. Em nossos dias, é indispensável que a mensagem seja traduzida em categorias que, mantendo-se fiéis ao conteúdo cristão, sejam igualmente aptas a falar à vida dos interlocutores.

3. Relativismos, fundamentalismos e crises existenciais

Esse descompasso entre o conteúdo assimilado e as possibilidades de sua transmissão e captação pode estar na raiz de muitos problemas de esgotamento, crise e desistência de presbíteros. Não são, por certo, os únicos motivos, mas convém que se analise com atenção se a formação intelectual está provendo instrumentos adequados para uma ação evangelizadora em tempos de incertezas, de escolhas individuais, passionais e imediatistas. Períodos históricos como o atual possibilitam duas atitudes extremas: o relativismo e o fundamentalismo. Ambas misturam dois aspectos que precisam ser distinguidos, exatamente, pela dimensão intelectual: o conteúdo de fé e sua expressão histórico-cultural. Se, por um lado, não se transmite o conteúdo sem a expressão, por outro, não se pode nem lesar o conteúdo, em favor de novas formas de transmissão, nem identificar, sem mais, as formas históricas de transmissão com o conteúdo, numa tentativa infrutífera de impingir os dois.

Não se nega que o atual momento da história do mundo apresenta aos presbíteros questões de natureza humana, espiritual e pastoral. Afirma-se que também a dimensão intelectual adquiriu caráter de urgência. Num tempo em que as certezas e verdades sofrem de flacidez, o risco de negar essa dimensão é grande, caindo numa espécie de fideísmo imediatista, ainda que sob as melhores intenções evangelizadoras. Assim como é necessário olhar para a pessoa do presbítero, alicerçar sua espiritualidade e discernir caminhos pastorais, também é necessário que a dimensão intelectual acompanhe pari passu esse processo. Sem um substrato racional adequado, o enfrentamento de tempos como os
atuais corre vários riscos. Poderá, por exemplo, suscitar ações pastorais e caminhos de espiritualidade que não sobrevivem quando passam pela dimensão intelectual, racional.

Estudar torna-se, desse modo, uma questão de sobrevivência para todas as pessoas, especialmente para os presbíteros. Estes desempenham um papel central, mesmo na atual sociedade secularizada. Embora a secularização tenda a privatizar a experiência religiosa, não retira dos líderes religiosos o papel de referência sociocultural. As pessoas continuam a esperar desses líderes uma ajuda eficaz para suas angústias. Se, por exemplo, um ministro religioso não for capaz de responder a questões referentes aos impasses existenciais ou somente reiterar respostas com base em formulações de outros momentos históricos, ele não apenas desapontará quem o consulta, como também removerá de sua confissão religiosa uma parcela da insciência sociocultural. A condição de inutilidade existencial passará do ministro para a confissão.

Significativo exemplo de como a dimensão intelectual deve ser desenvolvida nos futuros presbíteros e reforçada nos atuais foi-nos apresentado pelo papa Francisco, em sua exortação apostólica Gaudete et Exsultate, precedida pela carta Placuit Deo, da Congregação para a Doutrina da Fé. Estes documentos apresentam um modo simples de compreender a dimensão intelectual, quando abordam duas questões teológicas surgidas nos primeiros séculos: o pelagianismo e o gnosticismo. Nos dois documentos, percebemos que, para além de uma explicação histórica, busca-se entender os mecanismos teológicos e suas incidências na vida de pessoas e sociedades (conteúdo). O capítulo 2 da Gaudete et Exsultate consiste no esforço de traduzir, para os dias de hoje (formulações), estes conteúdos: a idolatria de si mesmo e o descarte dos outros. Em sua pregação e na fundamentação de suas atitudes pessoais e pastorais, o presbítero não poderá descartar o que estudou nos bancos seminarísticos, considerando tratar-se apenas de informação a ser replicada na avaliação acadêmica. Ao contrário, precisará o tempo todo se interrogar sobre o sentido existencial e missionário do que está estudando. Em termos de neopelagianismo e neognosticismo, haverá de indagar como fazer para interpelar a autossuficiência e o descompromisso de seus interlocutores. Deverá indagar (dimensão humana) se ele mesmo não acabou caindo nas armadilhas dessas duas heresias milenares (cf. GE 36-46; 57-59), tornando-se, existencial e pastoralmente, egocentrado e distante das reais causas das angústias de suas ovelhas.

4. Onde então estudar?

O fato de os seminaristas estudarem em uma instituição que não seja o próprio seminário, com corpo docente habilitado nas disciplinas e também no objetivo de formar pastores, apresenta valores e riscos. Dentre os valores, destaca-se a proximidade com o pensamento plural e a consequente necessidade de exercitar o diálogo, tanto na escuta quanto na apresentação das razões de existir e crer. Dentre os riscos do estudo em uma instituição que não o próprio seminário, encontra-se a possibilidade de um ensino não tão tranquilo das bases filosóficas e teológicas, atribuindo a quaestiones disputatae a condição de doutrina pacífica. É por isso que a Pastores Dabo Vobis insiste na cuidadosa distinção “entre a doutrina comum da Igreja e as opiniões dos teólogos ou as tendências que depressa passam” (PDV 55).

O fato é que a formação voltada para o pastoreio apresenta características peculiares que exigem, se não um curso especificamente seminarístico, pelo menos a mescla, com estudos nos dois ambientes. Não se trata de blindagem intelectual, mas do reconhecimento de que o objetivo final condiciona o itinerário percorrido. A formação de pastores indica o modo como se vai estudar a filosofia, a teologia e as demais ciências. A finalidade, conforme indica a Ratio, é o ministério pastoral. Por certo, o presbítero não pode ser confinado ao papel de repetidor de formulações filosóficas e teológicas. Ele necessita, como exigência da sua missão pastoral de dialogar, estar bem preparado para enfrentar as quaestiones disputatae. Estas, porém, devem ser apresentadas exatamente como disputadas.

5. Um serviço indispensável

Por tudo isso, reconfigura-se o papel do prefeito de estudos. A nova Ratio o menciona, no conjunto da comunidade de formadores, como um coordenador “para as diferentes dimensões formativas” (RF 134), na verdade, um verdadeiro “coordenador da dimensão intelectual” (RF 137). Entre suas tarefas, encontra-se a programação de um plano global de estudos para os formandos, o apoio aos professores, quando os cursos são realizados no próprio seminário, o acompanhamento, quando realizados em instituição que não o seminário, e a responsabilidade por um plano formativo complementar (cf. RF 137). Junto com tudo isso, nosso tempo pede acompanhamento individualizado de cada formando, característica assumida oficialmente pela nova Ratio (cf. RF 44-49). Consequentemente, o coordenador da dimensão intelectual deve exercer sua função – também e com destaque – no atendimento individualizado dos formandos, esclarecendo-lhes as dúvidas, ajudando-os, principalmente, na formação de sínteses entre as disciplinas estudadas e destas, pelo menos com a dimensão pastoral, ainda que existam outros formadores habilitados para o trabalho com as demais dimensões.

Como se vê, a figura do coordenador da dimensão intelectual adquire atualmente uma força que, em outros momentos históricos, não possuía ou não era percebida. Como a própria Ratio não fecha questão quanto ao local de estudos, deixando em aberto ser no próprio seminário ou em alguma universidade ou faculdade (cf. RF 137), a questão das sínteses pessoais, em vista da caridade pastoral, independe de onde se estude. Ela, na verdade, alavanca o papel do prefeito de estudos, tenha esse nome ou outro, exigindo, no lidar com os formandos, maior personalização, bom preparo acadêmico e presença ativa na vida da comunidade formadora. Esta realidade se aplica também à formação a distância, atrativa para grupos que não possuem fácil acesso a instituições de ensino nem têm condições de receber professores em determinados períodos. Aplica-se, igualmente, à formação por blocos, em que os alunos começam estudando matérias de segundo ou terceiro períodos. Nestes casos, a figura do coordenador ou orientador de estudos é, igualmente, indispensável para superar as fragmentações.

6. O desafio da formação virtualizada

O animador ou coordenador da dimensão intelectual ajudará no enfrentamento de um crescente desafio, fruto do descompasso entre propostas acadêmicas originárias de outro momento histórico e sociocultural e a mentalidade dos jovens de nossos dias. Não se nega a importância da apresentação de conteúdos e o papel iluminador dos docentes. Ocorre que, numa época em que o uso das redes sociais e demais mecanismos virtuais de busca é grande, a relação entre professor e aluno já não é a mesma de gerações anteriores. Informações obtidas na internet acabam por receber maior credibilidade que afirmações de um professor em sala de aula. Este quadro se agrava quando o professor, por um lado, destaca questões disputadas e, por outro, vídeos na internet apresentam formulações históricas como se fossem conteúdos dogmáticos. Diante de um impasse, às vezes, tão grande, os alunos necessitam escolher e, em geral, ficam com o que é dito nas redes sociais, nos sites de busca e canais da internet.

O professor em sala padece de duas limitações. De um lado, queira ou não, é a presença institucional, característica que se encontra em baixa nos dias atuais. De outro, necessita desenvolver, ainda mais que em tempos passados, sua capacidade de comunicar os conteúdos. Afinal, vivemos num tempo em que as formas de comunicação tendem a valer mais do que os con-
teúdos apresentados. É por isso que deparamos com a atitude de seminaristas que, cumprindo os deveres institucionais de estudo, deixam-se, porém, guiar nas diversas dimensões por fontes obtidas na internet (ZACHARIAS, 2018, p. 98-99). A superação deste impasse não vai ser feita por alguém responsável pela disciplina, até porque o impasse não é questão de disciplina, mas de pedagogia. Num mundo fragmentado, também o ensino, o ensinante e o aprendiz podem experimentar a fragmentação, cabendo, pois, ao coordenador da dimensão intelectual ouvir, interpretar e ajudar, no discernimento e na formação da consciência.

7. Ordenação não é formatura

Se, por um lado, a dimensão intelectual é fundamental na formação dos presbíteros, por outro, no caso dos que se preparam para a ordenação, esta não pode, na prática, ser o critério determinante. Sabemos do empenho dos formadores para que, ao apresentar candidatos à ordenação, todas as dimensões possam estar equitativamente articuladas. No entanto, sabemos também ser costume observar o tempo de seminário como um tempo de escola, no sentido de que, percorrida a grade de matérias, o passo lógico seja a ordenação.
A nova Ratio recorda que este passo não é automático (cf. RF 118) e que, conquanto tenham sido cumpridos os requisitos acadêmicos, até mesmo com avaliação intelec-
tualmente elevada, exigem-se, para o presbiterato, também as dimensões humana, espiritual e pastoral. O percorrer da grade de disciplinas escolares dá direito ao bacharelato, não gera o direito à ordenação.

8. A importância da formação permanente

Esta reflexão não se aplica apenas aos futuros sacerdotes. A nova Ratio insiste na formação como atitude permanente dos presbíteros (cf. RF 56), atitude que decorre da realidade experimentada no dia a dia, mas também das demais dimensões, entre as quais a pastoral e a espiritual. Do dia a dia vem, com força cada vez maior, a certeza de que não é suficiente atingir bom nível de preparação inicial. É necessário manter esse nível e aperfeiçoá-lo continuamente. Profissional algum pode se satisfazer apenas com o que aprendeu no curso que o habilitou ao serviço.

O mesmo sucede com o presbítero. As atuais mudanças não acontecem apenas no âmbito científico e tecnológico. Ocorrem também, e com grande vigor, na interpretação da realidade, nas relações humanas e no sentido da existência. A cada momento, surgem questões que desafiam as compreen-
sões até então obtidas. Úteis em outros tempos, algumas explicações se mostram ineficazes diante de problemas novos.

Não nos esqueçamos de que, em lugar de isentar o presbítero da função orientadora, as atuais mudanças potencializam essa função. Busca-se, cada vez mais, a figura do pai ou da mãe espiritual. Fortalece-se a imagem do life coaching e de tantas outras formas de ajuda, para fazer sínteses existenciais, especialmente quando as existentes se mostram ineficazes. O ser humano não foi criado para a autossuficiência, mas para a interação. As mudanças de nosso tempo não aboliram esta condição antropológica, porque contexto histórico algum tem a força de alterar um dado existencial como esse. As transformações atuais deslocaram o lugar onde se pode encontrar esse apoio externo. Já não é tanto na dimensão institucional, mas no indivíduo, seja ele de que instituição for. Importa às pessoas de nosso tempo que a ajuda venha. Se houver identificação entre o indivíduo e a instituição, melhor será. Se não houver, problema algum será criado e o indivíduo será ouvido como tal.

Esse deslocamento da instituição para o indivíduo atinge o presbítero no exercício de sua missão e, por consequência, impõe-lhe atualização contínua. Em outros momentos históricos, a instituição fornecia à pessoa a necessária credibilidade. O conselho, a orientação e a ajuda poderiam não ser satisfatórios, mas sabia-se estar no caminho certo, em virtude da instituição à qual o ministro religioso pertencia. Atualmente, em virtude da inversão, a credibilidade da ação dos ministros religiosos descolou-se da instituição para o indivíduo, de tal modo que este mesmo ministro recebe sobre as costas uma responsabilidade muito maior do que em outras épocas. O que antes era dividido com a instituição, a qual, em alguns casos, ficava com a maior parte do peso, agora é quase que integralmente colocado sobre os ombros do ministro religioso. Por isso, é importante que o presbítero continuamente se atualize. Se não o fizer, estará se lesando, também humana, espiritual e pastoralmente. O risco do descompasso entre a formação intelectual recebida e os impasses oriundos da pastoral pode ser grande demais, gerando, desse modo, crises, algumas vezes irreversíveis.

É por isso que as dioceses e congregações religiosas têm mantido o hábito de reunir seus membros para encontros, com assessoria especializada em assunto candente.
Algumas chegam a determinar um tempo específico após o qual o presbítero é chamado a se distanciar do cotidiano pastoral para um período de revigoramento pessoal, espiritual, pastoral e intelectual. Cresce o papel da pastoral presbiteral como responsável, também, pela formação intelectual dos presbíteros.

Em tudo isso, é importante que o próprio presbítero tenha como objetivo o contínuo aprofundamento intelectual. Alguns têm buscado retornar aos bancos escolares, seja para a pós-graduação em Filosofia ou Teologia, seja para a graduação em outras ciências. Por certo, nem todos os presbíteros possuem aptidão para os bancos escolares. Entretanto, todos precisam ler, todos podem se reunir, aproveitando os pequenos grupos, como as turmas de ordenação ou de afinidade com uma escola espiritual.

Em tudo isso, a mencionada figura do diretor de estudos se realça ainda mais. Assim como vários presbíteros, tendo sido influenciados por um bom diretor espiritual nos tempos do seminário, permanecem com o mesmo após a ordenação, idêntica atitude pode ocorrer no campo intelectual, com encontros individuais ou em grupo, nos quais aquele orientador dos tempos seminarísticos permanece exercendo o seu serviço.

A título de conclusão

A dimensão intelectual, embora possa deixar a impressão de ser um assunto tranquilo e bem estabelecido, apresenta peculiaridades e desafios próprios. Numa perspectiva de ser humano integral, a racionalidade necessita ser considerada e integrada no conjunto das demais dimensões. A nova Ratio Fundamentalis foi promulgada num tempo de fragmentações, verificadas também nas dimensões que compõem a pessoa. Nosso tempo propicia crise de identidade em todos os âmbitos da existência, atingindo os presbíteros e, neles, as várias dimensões, entre as quais a intelectual. Isso, porém, não significa que se possa abandonar a reflexão, pois “a fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade” (RF 1).

Os desafios são muitos. Decorrem dos próprios formandos, oriundos de uma realidade para a qual os sistemas formativos nem sempre estão preparados. Decorrem também de sistemas pedagógicos ainda em vigor, embora tenham sido gestados em outros contextos socioculturais. Surgem, em terceiro lugar, do próprio exercício da atividade intelectual, atingida pelas marcas de nosso tempo, fragmentador e receoso de sínteses e identidades.

Em meio a tudo isso, a nova Ratio aponta pistas, dentre as quais a perspectiva integral é a mais destacável. Aprender a articular, no dia a dia, as dimensões humana, espiritual, pastoral e intelectual é um desafio a ser vencido a cada instante, no nível pessoal e no institucional, tanto pelos que se preparam para o sacerdócio quanto pelos que são interpelados a cuidar de sua formação permanente.

Referências bibliográficas

AMADO, Joel P. Cuidar de si para cuidar dos outros. O presbítero dez anos depois da Conferência de Aparecida. In: FONTES, D.; MORAIS, J. G.; FERREIRA, N. S. (Org.). A formação sacerdotal hoje. Rio Bonito: Benedictus, 2018. p. 103-114.

ZACHARIAS, R. Formação intelectual. A urgência de superar a douta ignorância. In: TRASFERETTI, J. A.; MILLEN, M. I. C.; ZACHARIAS, R. Formação: desafios morais. São Paulo: Paulus, 2018. p. 97-121.

Joel Portella Amado

Dom Joel Portella Amado é doutor em Teologia pela PUC-Rio, professor de Antropologia Teológica na mesma universidade e bispo auxiliar do Rio de Janeiro. E-mail: joelamado@puc-rio.br