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Publicado em Maio-Junho de 2002 (pp. 26-33)

Construindo a história dos Presbíteros no Brasil

Por Pe. Alberto Antoniazzi (Comissão Nacional de Presbíteros — 44)

A contribuição dos nove ENPs (1985-2002) através de seus documentos

Por ocasião do 9º ENP (Encontro Nacional de Presbíteros, Itaici, SP, de 1º a 6 de fevereiro de 2002), foi lançado um livro que reúne os nove Instrumentos Preparatórios (IPs) que serviram para estimular a reflexão antes e durante os Encontros.

O livro oferece, portanto, preciosa documentação histórica a respeito de como evoluiu a reflexão entre os representantes dos presbíteros no Brasil de 1985 a 2002. Uma análise do livro tem necessariamente de escolher um ponto de vista. Não é simples resumir em breve artigo as quase 500 páginas do livro[1].

O estudo dos documentos preparatórios dos ENPs nos mostrou a possibilidade de verificar como evoluíram a percepção da situação (VER), a teologia (JULGAR) e as propostas de ação (AGIR)[2]. De fato, sete dos nove documentos adotam o método “ver, julgar, agir”. Dois IPs (números 1 e 8) seguem esquemas diversos, o que não impede a verificação de convergências e divergências.

Esta breve análise não é, evidentemente, nem todo o livro nem toda a história dos ENPs. Nos nove ENPs houve muitas propostas, tensões, moções, testemunhos. Seria bom contar tudo isso, mas é tarefa para outro livro!

Em linhas gerais, encontramos nos IPs quatro temas principais:

1) Evangelização (documentos 1 e 4);

2) Pessoa e missão do presbítero (docs. 2, 3 e 9);

3) Urbanização e pastoral urbana (docs. 5 e 6);

4) O novo milênio (docs. 7 e 8).

 

Uma leitura que for além dos títulos reconhecerá que, na realidade, os temas são apenas dois:

— a missão da Igreja ou a evangelização, que é o enfoque central de 5 documentos (1, 4, 5, 6e7);

— o presbítero (pessoa e missão), que é o enfoque principal de 4 documentos (2, 3, 8 e 9).

Os dois temas constituirão as duas partes do nosso trabalho.

 

PARTE I — EVANGELIZAÇÃO

 

1. A visão da evangelização em 1985

O IP do 1º ENP (1985) tem por título: “O presbítero na Igreja, povo de Deus, servidor do mundo”. O título interpreta bem a intenção do documento, mas o conteúdo é organizado segundo outro esquema: 1) Evangelização; 2) Povo de Deus, comunidade que evangeliza; 3) O presbítero a serviço da evangelização e do povo de Deus.

O conteúdo parte da citação de Puebla: “O grande serviço que a Igreja presta ao mundo e aos homens é a evangelização” (679). Mostra a tomada de consciência da Igreja (Vaticano II, Evangelii Nuntiandi, Puebla) de que é preciso superar a pastoral da conservação para evangelizar. Fundamenta o primado da evangelização. Descreve suas dimensões, usando o Novo Testamento e as 6 linhas do PPC. Aponta as prioridades (de forma muito próxima a Puebla!): 1) pobres; 2) jovens; 3) questão da terra e reforma agrária; 4) mundo do trabalho; 5) grandes cidades; 6) construção da sociedade pluralista.

A segunda parte mostra que a comunidade eclesial deve assumir a evangelização e deve ser “comunhão e participação” (confira novamente Puebla). A terceira parte aponta o papel do padre e a mudança de modelos: do tridentino ao modelo missionário e evangelizador.

São claras nesse documento de 1985 a influência de Puebla, interpretada numa linha “libertadora”, e predomina a ênfase sociotransformadora. Estamos no final do período da hegemonia progressista e da Teologia da Libertação. Houve, no, primeiro ENP, moções de solidariedade a Leonardo Boff e a Cuba.

 

2. A visão da evangelização nos anos 90

O tema da evangelização volta em 1992, depois da segunda visita do Papa ao Brasil e das Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil (DGAP) de 1991-1994, que abandonaram o esquema anterior da evangelização libertadora de Puebla.

O IP do 4º ENP (1992) procura responder a três questões: 1) A quem evangelizar? 2) Como evangelizar? 3) Quem evangeliza?

O item 1 analisa o desafio da modernidade em linhas gerais (primado da economia; secularização, crise ética ou de valores, incerteza e precariedade no trabalho, pluralismo cultural e religioso…) e especificamente em suas repercussões na sociedade brasileira, com atenção às consequências para a religião e às questões pastorais (desafio urbano; seitas; pastoral social; formação; prioridade dos leigos…).

O item 2 propõe novos acentos na ação pastoral com base em três enfoques: 1) valorização da pessoa e da experiência subjetiva; 2) diversificação das formas de expressão cultural e vivência comunitária; 3) presença mais significativa na sociedade. É evidente a semelhança com as novas DGAP 1991-1994. O item 3, enfim, fala da missão do presbítero e de novos ministérios laicais.

 

Os IPs do 5º (1994) e 6º (1996) ENPs estão voltados para a urbanização e a pastoral urbana. Mas o IP do 5º ENP continua muito parecido com o do 4º, como se pode ver pelo sumário:

I — Realidade socioeconômica e questionamentos éticos

1.1.      A modernização conservadora

1.2.      Desafios emergentes: a crescente distância (apartheid) de ricos e pobres no Brasil e a exclusão dos últimos; a violência; corporativismo e corrupção…

1.3.      Necessidade de redefinir as prioridades políticas e socioeconômicas (escolha ética)

II — Realização pessoal e cultural urbana

2.1. Individualismo e pluralismo no contexto urbano

2.2.      Ânsia e dificuldades do presbítero na vida urbana

III — Busca de respostas pastorais

3.1.      Busca de novas estruturas (exemplo: paróquia como rede de comunidades)

3.2.      Presença pública da Igreja na cidade

O texto revela influências de Santo Domingo (1992) e da CF sobre os excluídos.

 

O IP do 6º ENP aprofunda o tema do mundo urbano, para o qual apresenta “novas interpretações” (cap. 1). De fato, há muitas novidades em comparação com o 5º IP. O cap. 1 é o resumo das pesquisas do CERIS sobre poder local, economia informal, trabalho industrial, pentecostalismo, TV e tecnologias da informação, violência urbana. Fala-se no cap. 2 sobre a espiritualidade e a mística do presbítero, incluindo análise sucinta, mas nova, dos sinais dos tempos, breve teologia da missão e pistas para a reconciliação com Deus, com a natureza e com os irmãos, mais algo sobre a espiritualidade própria dos presbíteros. O cap. 3 retoma os novos horizontes da missão da Igreja (inculturação, diálogo inter-religioso, serviço à vida e à esperança, anúncio evangélico, comunhão eclesial). Reflete a visão das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da lgreja no Brasil (DGAE 1995-1998). O cap. 4 trata do presbítero missionário, profeta e pastor no mundo urbano. A ótica adotada é psicopedagógica[3].

O IP do 6º ENP é o mais longo de todos os IPs. É obra de quatro autores diferentes. Não há uma harmonia perfeita entre os capítulos, mas isso é compensado pela riqueza e variedade das sugestões, que deveriam provocar e ampliar a participação de todos os interessados.

Finalmente, o IP do 7º ENP, “Presbíteros rumo ao novo milênio”, retoma o tema da evangelização segundo o esquema do VER, JULGAR e AGIR:

1. O Brasil do novo milênio (breve histórico e rápida análise da conjuntura);

2. Evangelização para o novo milênio, que distingue evangelização da pessoa, da cultura e da sociedade;

3. Viver o ministério presbiteral (pastoral presbiteral e realização pessoal).

 

PARTE II — A PESSOA DO PRESBÍTERO

 

1. A visão do presbítero no final dos anos 80

Os IPs do 2º e 3º ENPs são voltados especialmente para a pessoa do presbítero, vista em sua conexão com a missão ou o ministério presbiteral.

O IP do 2º ENP (“Ser padre: novos desafios para uma vocação que permanece”) analisa, na parte I, as mudanças na sociedade e na cultura. A análise procura ajudar a entender um mundo que muda rapidamente e sem rumo previsível[4] e as próprias mudanças na Igreja. É a época da “inversão de tendências”: novas tendências religiosas — individualismo, seitas e movimentos — enquanto persiste o esforço da Igreja católica em mudar a sociedade (cf. o apoio à participação popular na elaboração da nova Constituição).

A parte II do IP é a mais completa e didática exposição da Teologia do Presbiterato, dita eclesiológica, que nos inspira até hoje: um presbítero dentro e a serviço da comunidade, não fora e acima![5] A parte III trata da espiritualidade presbiteral como prolongamento e aprofundamento da espiritualidade do cristão — e do cristão encarnado na América Latina. A novidade é o cap. 4, uma das “joias” dos IPs, que descreve dimensões e desafios da maturidade presbiteral[6].

O IP do 3º ENP (1989) tem por título: “Fraternidade e serviço”. O cap. 1 (Desafios da realidade) evoca a história dos presbíteros no Brasil desde os anos 60 até a tendência recente: padres mais jovens, mais diocesanos, mais brasileiros (e mais morenos, vindos de todas as regiões e etnias). O capítulo também cita os novos desafios que os presbíteros enfrentam no final da década de 80 (“década perdida”, segundo os economistas e, mesmo na Igreja, “quadro sombrio”[7]). O cap. 2 propõe a teologia da Igreja que estamos construindo e do ministério presbiteral, na linha do cap. 2 do 2º ENP. O IP conclui com o cap. 3 “Propostas e compromissos” para um presbitério unido, solidário, atuante na fraternidade e no serviço. Há ainda um anexo com o comunicado final e a pesquisa de 1989.

 

2. A visão da pessoa do presbítero no limiar do novo milênio

O tema da pessoa do presbítero é retomado nos 8º e 9º ENPs.

O IP do 8º ENP (2000) apresenta um título parecido com o do 7º, mas um enfoque bastante diferente. Aliás, este IP — fruto, em grande parte, do trabalho de Clodovis Boff — é o mais original dos nove. Ele rompe com os esquemas habituais, para propor “três olhares” do presbítero: à comunidade, a Cristo e ao mundo. A 1ª parte propõe a eclesiologia do Vaticano II e a decorrente missão do presbítero, como “promotor de participação comunitária” e homem “colegial”, de equipe. A 2ª parte (Olhar para Cristo) desenvolve o papel do presbítero como representante de Cristo Pastor, aprofundando depois a questão do presbítero como “homem espiritual”, cujo coração está centrado em Cristo, com uma análise perspicaz e provocadora das crises afetivas e uma página transparente sobre as amizades femininas do presbítero[8]. Finalmente, na 3ª parte, vem um olhar para o mundo e os sinais dos tempos, em que se destacam o reconhecimento da subjetividade e as mudanças na religiosidade, com atenção especial à questão dos padres “midiático-carismáticos”, numa tentativa de apontar valores e limites do fenômeno, novidades e perigos. Ainda há considerações sobre a evangelização, parecidas com as das DGAE de 1995-1998.

O IP deste 9º ENP (2002) deve estar vivo na memória de muitos. É o mais curto dos nove. O VER se concentra sobre a situação atual dos presbíteros, proporcionando um bom quadro estatístico, mas renunciando a discernir os diversos perfis teológicos e pastorais de presbíteros que estão proliferando. Acolhe, porém, queixas contra o individualismo e autoritarismo de alguns padres e há um aceno aos desafios da saúde e da esperança! O JULGAR propõe um perfil do presbítero para o novo milênio, insistindo sobre o modelo de Igreja-comunidade que deveria ser determinado. O presbítero é chamado a servir o Reino, ou seja, um horizonte mais amplo do que a Igreja[9], e a ser homem do Espírito. O AGIR é apenas esboçado e deixado aos cuidados dos participantes do 9º ENP. Sugere-se que, após o jubileu de 2000, os presbíteros devem avivar a memória, aprofundar o caminho espiritual; e pôr-se a serviço do Reino, portanto, da paz e da unidade (ecumênica).

 

CONCLUSÕES

Uma primeira impressão geral, que nasce do confronto dos nove documentos (IPs), é de uma grande continuidade teológica, especialmente com relação à teologia do presbiterato. Podemos nos perguntar: Por que esta continuidade? É a melhor solução? Não surgiu nada de novo no assunto? A continuidade foi necessária porque as ideias não penetraram bastante e tivemos de lutar contra a tentação do recuo? Ou teria chegado o tempo de trocar mestres e assessores? Enfim, é preciso repensar a teologia do presbiterato ou é preciso, mais do que tudo, pô-la em prática?

Há, porém, sinais de descontinuidade e de mudança na análise da realidade. Salvo engano, desde 1985 não se percebe “inversão de tendências” na sociedade e na Igreja. Reafirma-se a fé na evangelização libertadora, coerentemente com uma interpretação aberta de Puebla. Teme-se e reconhece-se uma situação difícil para os presbíteros, sobrecarregados de tarefas e, muitas vezes, abandonados a si mesmos nos anos do regime militar. No 1º ENP foi explosiva a manifestação das expectativas pessoais dos presbíteros, unida a uma esperança de mudanças radicais na sociedade.

O 2º e o 3º ENPs voltaram-se para a pessoa do presbítero, com contribuições teologicamente corretas e psicologicamente iluminadoras. Aliás, isso foi logo seguido por um esforço de reciclagem e formação permanente dos padres diocesanos por parte da CNBB, completando o que a CRB já fazia.

O 4º ENP, retomando o tema da evangelização, toma consciência de mudanças profundas na sociedade (economia, política) e na cultura (valores, comportamento). As conquistas e as experiências pastorais dos anos 70 e 80 parecem perder força. O alvo mudou. O contexto é outro. Isso leva a refletir sobre a urbanização e as megalópoles, que parecem expressar e difundir mais tipicamente a nova cultura. Os anos seguintes parecem confirmar as análises do 4º ENP (1992) e das DGAP da CNBB (1991). Nota-se uma radicalização da situação. A realidade cotidiana, sobretudo de trabalhadores e excluídos, torna-se mais dura, enquanto aumenta o esforço da mídia para entreter e distrair, também por meio da religião.

Mais difícil é julgar as propostas ou pistas do AGIR. Há uma oscilação entre reafirmar experiências bem-sucedidas no passado e buscar inovações. Se a realidade mudou, como não mudar também as propostas de ação? Talvez fosse necessário ampliar a reflexão teológica. A realidade sugere novos horizontes e novo pluralismo, que exige respostas diversificadas. Está claro que temos diante de nós diversas frentes de trabalho: a educação da fé e o diálogo com as pessoas; a promoção da solidariedade e da convivência comunitária; a presença pública da Igreja e sua atuação nos novos “areópagos”. Nenhum presbítero pode fazer tudo. É preciso testemunho pessoal, sim, mas também trabalho de equipe e ação conjunta do presbitério. Precisamos de cooperação, sinergia e lideranças inovadoras. Temos de amadurecer o nosso ministério, como fez o apóstolo Paulo: de aprendiz a missionário chefe de equipe, da pequena equipe à coordenação de muitos colaboradores, de muitas tarefas e de muitas igrejas.

A realidade urbana é um bom exemplo dessas exigências. Hoje a conhecemos bem, mas falta criatividade a nossas respostas pastorais. O horizonte atual é, mais uma vez, de transição e mudança, de oportunidades, riscos e dificuldades. Esperamos que ele seja para nós estímulo para, juntos, continuarmos a anunciar o evangelho pela palavra, pela vida e pelo próprio testemunho de nossa fraternidade presbiteral.

 

 

9º ENCONTRO NACIONAL DE PRESBÍTEROS

MENSAGEM FINAL

 

1. Somos 355 presbíteros, delegados eleitos e representantes dos presbitérios das nossas dioceses, vindos de todas as regionais do Brasil, reunidos de 1º a 6 de fevereiro de 2002 na Vila Kostka, Itaici, município de Indaiatuba (SP), para o 9º Encontro Nacional de Presbíteros (9º ENP). Conosco estão alguns representantes dos bispos, diáconos permanentes, assessores e assessoras, seminaristas, pessoas de vida consagrada, cristãos leigos e leigas, convidados e equipe de apoio. Fez-se presente também a Associação Nacional de Presbíteros do Brasil (ANPB), que está comemorando dez anos de existência. Formamos, nesses dias, um grande mutirão de 404 pessoas.

 

“Revesti-vos do homem novo” (Ef 4,24)

2. O Espírito do Pai nos convocou para estarmos reunidos em nome de Jesus, e aqui chegamos, trazendo alegrias e esperanças, angústias e tristezas, para partilhar. Colocamos em comum os avanços constatados em nossos presbitérios e Igrejas locais, desde o nosso último encontro. Fomos motivados pelo estudo do Texto-Base do 9º ENP, que nos ajudou a aprofundar a temática da pessoa e da missão do presbítero, na perspectiva do lema: “Revesti-vos do homem novo” (Ef 4,24).

 

3. Nossa Assembleia coincidiu com a realização do 2º Fórum Social Mundial, que aconteceu em Porto Alegre (RS). Com os participantes desse evento, aos quais enviamos uma mensagem, sonhamos e acreditamos na possibilidade de um mundo diferente, revestido de justiça, transformado pela solidariedade e animado pela luta em favor da vida. Estamos, também nós, profundamente chocados com a onda de violência que atinge o povo, ceifando vidas inocentes, também de políticos mais comprometidos com os excluídos e excluídas. O aumento da violência decorre também da situação de miséria, corrupção — praticada entre aqueles que deveriam ser exemplo de honestidade e de transparência — e impunidade. Saímos convencidos de que é indispensável acolher o recente documento da CNBB (Doc. 67 — “Eleições 2002”), estudando-o e refletindo sobre ele com as comunidades neste período que nos separa das próximas eleições, na esperança de contribuirmos com uma real mudança fio quadro institucional do nosso país.

 

 “Ainda tens um longo caminho a percorrer” (1Rs 19,7)

4. Constatamos que os avanços na caminhada presbiteral foram muitos: a busca de uma espiritualidade da caridade pastoral, a atenção para com a formação permanente, o crescente cuidado dos presbíteros uns com os outros, maior abertura para refletir sobre nossa dimensão humano-afetiva, o aumento da corresponsabilidade nos presbitérios e na Associação de Presbíteros. Tudo isso indica que está havendo o acolhimento da pastoral presbiteral. Todavia, estamos conscientes de que ainda temos longo caminho a percorrer. Por isso, firmamos o compromisso de continuar em atitude permanente de conversão, motivando todos os irmãos presbíteros a prosseguir por esta estrada.

 

5. Somos desafiados à aventura do encontro com o nosso eu real, com a nossa pessoa. O exercício do nosso ministério depende, em grande parte, da nossa realização pessoal. Acreditamos que, quando somos integrados e felizes como pessoas, podemos contagiar os outros, anunciando e testemunhando a boa notícia de Jesus. Realizamo-nos como pessoas, vivendo o nosso ministério no confronto com a realidade, marcada pela miséria e sofrimento do povo, e com as exigências radicais do evangelho. Em nossa época, o valor da individualidade irrompe com toda a força, mas cresce também a tentação do narcisismo, também no meio eclesiástico. Precisamos, pois, rever a nossa “autorrealização” à luz do ministério pascal. A realização pessoal do cristão passa necessariamente pelo seguimento a Jesus Casto crucificado e leva à saída do egocentrismo para a reciprocidade e a gratuidade.

 

6. Dessa perspectiva, surge o desafio da missão: sermos presbíteros abertos à mundialidade, cidadãos do mundo, capazes de ter uma visão de Deus que ultrapassa todas as denominações. Como ministros da catolicidade, somos chamados a fazer das nossas comunidades eclesiais verdadeiros sacramentos da universalidade do amor de Deus. Vivendo mergulhados na eclesiologia da Igreja local, precisamos nos tornar cada vez mais sinais visíveis do Reino de Deus sem fronteiras.

 

7. A universalidade da missão, vista na dinâmica do Reino, impulsiona-nos para o compromisso com a transformação da realidade, assumindo a dimensão profética de nossa vocação. Mesmo conscientes de que ainda estamos a caminho, precisamos ser instrumentos da construção da verdadeira paz, cujo alicerce é a prática da justiça e do perdão. Diante das violências gritantes deste início de milênio, cujas vítimas são principalmente os pobres e inocentes, torna-se cada vez mais indispensável e imperiosa a prática de uma solidariedade efetiva, sinal concreto de que o Reino de Deus está, aos poucos, acontecendo.

 

8. Constatamos o acelerado empobrecimento dó povo brasileiro. Segundo os dados do último censo do IBGE, cerca de 53 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha de pobreza e 23 milhões abaixo da linha de miséria: são os sem-terra, sem-trabalho, sem-casa, sem-pão, sem reconhecimento da dignidade, sem possibilidades de vida. Essa situação de injustiça nos obriga a reassumir com maior vigor, à luz do evangelho, a profética e solidária opção pelos pobres*, em defesa da vida e pelo enfrentamento do sistema neoliberal, concentrador de bens e excludente da maioria. Conclamamos os irmãos presbíteros a seguir e a abraçar efetivamente o projeto em anda­mento da CNBB sobre as “Exigências éticas e evangélicas de superação da fome e da miséria”. A mudança do lugar social torna-se uma exigência para a espiritualidade e a ação dos presbíteros. As pastorais sociais e as CEBs têm, por essa razão, lugar prioritário em nossa evangelização.

 

9. A Campanha da Fraternidade deste ano, dedicada aos povos indígenas, deverá ser para todos nós um momento forte de conversão e convite concreto à solidariedade. Além de permitir resgatar nossa dívida para com esses povos, ela nos oferece a possibilidade de pensar o mundo da ótica dos excluídos, aprendendo com os irmãos indígenas a tornar possível e real a utopia de uma “terra sem males”.

 

 “Eu vos escolhi e vos destinei…” (Jo 15,16)

10. O grande desafio que se impõe aos presbíteros é o de ser cristão. Tarefa nada fácil, que comporta pontos claros e obscuros. Não é mal que assim seja, porém é preciso que se tenha consciência dela. “A opção cristã, firme em sua orientação última, e decidida em suas opções fundamentais, tem de ser humilde no concreto, cuidadosamente atenta em seu avanço e aberta aos novos desafios e possibilidades”**. Isso supõe uma educação cristã que contemple, em primeiro lugar, a vocação fundamental que recebemos no batismo: ser discípulos e discípulas de Jesus.

 

11. O momento de espiritualidade, orientado pelo Cardeal Aloísio Lorscheider, ajudou-nos a perceber que a nossa existência pessoal e o vigor da nossa missão dependem profundamente do grau de consciência da nossa vocação. Estaremos verdadeiramente comprometidos com a missão se tivermos a convicção plena da nossa escolha: “Não fostes vós que me escolhestes; fui eu que vos escolhi…” (Jo 15,16). Todo o nosso ministério está intimamente relacionado com o grau de intensidade da nossa comunhão com a Trindade. Deus nos chama, dá-nos sua graça e nos envia.

 

12. A missão dos cristãos e das cristãs é participação e continuação da missão de Jesus: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio (Jo 20,21). Em nossa condição de animadores de comunidades, sinais visíveis de Jesus, o Bom Pastor e Servo, precisamos fazer do nosso encontro e da nossa intimidade com a Trindade algo permanente, constante e prazeroso. A experiência da imersão no mistério trinitário e a nossa total docilidade ao Espírito nos farão homens abertos aos apelos da humanidade, prontos para lavar os pés dos outros, de modo particular daqueles e daquelas que mais sofrem.

 

“… Para irdes e produzirdes fruto e fruto que permaneça” (Jo 15,16)

13. Este encontro confirmou em nós a certeza de que o cultivo de uma espiritualidade bíblica e trinitária alimentará o nosso perfil de presbíteros mais animadores de comunidades e menos dominadores, mais carinhosos e mais dedicados, solidários com os que estão sofrendo. Presbíteros que escutam muito e falam pouco; menos “chefes” e mais irmãos. Não meros administradores dos sacramentos, mas proclamadores dos gestos libertadores de Deus. Pastores que dão a vida pelo povo, sem obscurecer a figura do único e verdadeiro Pastor, Jesus Cristo. Homens que interiorizam a Palavra dentro do contexto em que se encontram, para comunicá-la de modo vivo e vivido ao povo. Padres cuja vida será simples, pobre e austera.

 

14. Percebemos que precisamos valorizar e intensificar ainda mais a nossa formação permanente, sendo presbíteros “em formação”. É indispensável cultivar certa disciplina que nos possibilite encontrar o tempo necessário e os meios mais adequados para isso. No âmbito da Igreja local e do presbitério diocesano, urge criar a consciência da formação interdisciplinar, a fim de que possamos estar mais preparados para o exercício do nosso ministério numa cultura marcada pelo acelerado fenômeno da urbanização. Por isso, não devemos ter medo de liberar e incentivar a capacitação de irmãos presbíteros que depois possam nos ajudar, mesmo que isso venha a exigir, ainda que por pouco tempo, mais doação e mais renúncia por parte de todos nós.

 

15. Queremos nos comprometer cada vez mais com a pastoral presbiteral, entendida como ação sistemática da Igreja local para estimular nos seus padres a alegria e o prazer de serem servidores do povo, segundo o exemplo do Bom Pastor. Esse esforço comum deve nos levar a formas bem concretas de solidariedade presbiteral. Temos que colocar em discussão os problemas que dificultam ou até impedem a fraternidade nos presbitérios e encontrar caminhos de solução. Exemplo disso são os casos de injustiça no aspecto econômico, que, às vezes, encontramos entre os padres de uma mesma diocese. A verdadeira fraternidade presbiteral passa por concreta ação solidária de partilha de bens e de recursos. Convidamos todos os irmãos presbíteros do Brasil a assumir com entusiasmo esta causa tão importante.

 

16. Insistimos no resgate da eclesiologia de comunhão e participação, segundo a perspectiva do Vaticano II. Cremos numa Igreja servidora da humanidade, ecumênica, em diálogo com o diferente sem, porém, aceitar nenhuma forma de conivência e de pacto com a injustiça. Uma Igreja que leve a sério o protagonismo dos cristãos leigos e leigas, a ampliação da participação da mulher nos ministérios e nas instâncias de decisão e de poder, maior envolvimento das Igrejas locais e dos regionais na indicação e nomeação de bispos, o incremento do ministério do diácono permanente. Acreditamos no valor e na importância dos Conselhos Diocesanos e Paroquiais, não só consultivos, mas deliberativos, na diversidade dos ministérios, na formação personalizada. É nesse tipo de comunidade que o presbítero encontra a necessária valorização como pessoa portadora de dons e carismas.

 

17. A Igreja é convocada pela Trindade e enviada em missão. Cremos, todavia, que a missão deva ser vista sempre na perspectiva do Reino. Neste sentido, ela não pode ser reduzida a mero anúncio, visando “lotar os templos”. Por isso, convidamos todos os presbíteros do Brasil a alargar seus horizontes, pensando também nas Igrejas locais que estão além dos limites de suas dioceses e ainda padecem pela falta de ministros ordenados. Nesse sentido, a pastoral vocacional precisa ser mais aberta e ter dimensão missionária, deixando de ser “recrutamento fácil” de candidatos ao seminário diocesano e para as congregações religiosas. Precisa, sim, ser antes de tudo animadora, incentivadora e acompanhadora de vocações para o Reino.

 

18. Lamentamos profundamente que, após a insistência de tantos, ainda persista, na Igreja do nosso país, pouca sensibilidade da hierarquia eclesiástica para com as cerca de 70 mil comunidades eclesiais que não têm a celebração dominical da Eucaristia. Elas, embora bem organizadas e reunindo-se com regularidade, são privadas do sacrossanto direito de celebrar semanalmente a Ceia do Senhor. Sabemos que, para garantir esse direito, é necessário rever as modalidades do ministério presbiteral, fixadas por longa tradição, mas hoje inadequadas à realidade e distantes da práxis do Novo Testamento e da Igreja Antiga. Sentimos, como sempre mais urgente, a coragem de reforma que devolva às comunidades, especialmente às menores e mais pobres, a possibilidade de realizar o memorial da morte e ressurreição de Jesus, sinal expressivo e significativo da nossa identidade católica.

 

19. A missão enfrenta ainda outros enormes desafios. Entre eles queremos destacar a questão da “mídia católica” e de certos padres “midiáticos”. Não podemos continuar fazendo vista grossa a certos programas e pregações que são a negação visível da Igreja Povo de Deus, a apologia da massificação, a violação de orientações litúrgicas elementares, a proposta de um modelo de presbítero em contraste com os mais recentes documentos eclesiais e, em certos casos, uma demonstração de falta de ética pública do padre.

 

20. Enquanto nos alegramos com a celebração dos 50 anos da CNBB, pedimos com insistência aos nossos bispos que, no âmbito desta instância de cultivo da afetividade e da colegialidade episcopais, com coragem, lucidez e determinação, encontrem solução verdadeira para esses e outros problemas que estão interferindo e ameaçando seriamente a nossa ação evangelizadora e a realização do presbítero como pessoa e na missão. Está na hora de acolher o apelo de Cristo — “Duc in altum!” “Avança para o alto-mar!” —, como nos lembra o Papa João Paulo II, no limiar do novo milênio.

 

 “Alegres por causa da esperança…” (Rm 12,12)

21. Neste início de milênio, são tantos os desafios para a pessoa e a missão do presbítero! Todavia, aqui, nestes dias de grande fraternidade e partilha, como já dissemos acima, apareceram muitos sinais de esperança, que nos garantem que o Espírito caminha conosco e nos anima. Com essa certeza, convidamos nossos irmãos de caminhada a prosseguir com muito entusiasmo no seguimento de Cristo, sem se deixar dominar pelo desânimo e cansaço. Percebemos que o projeto de evangelização “Ser Igreja no Novo Milênio”, em andamento, tem sido instrumento valioso para revigorar a missão de muitos presbíteros. Em tempos de grandes interpelações e inquietações, acolhamos com fé a exortação do apóstolo Paulo: “Alegres por causa da esperança, firmes na tribulação, perseverantes na oração” (Rm 12,12). Maria, mãe dos caminheiros, peregrina de Nazaré, ajude-nos a confiar no amor misericordioso do Pai que sempre nos acompanha.

Itaici, Indaiatuba (SP), 6 de fevereiro de 2002



[1] Ou apresentar 500 páginas em 50 minutos. Este artigo retoma substancialmente a palestra pronunciada pelo autor durante o 9º ENP, em 4 de fevereiro de 2002.

[2] Os números de páginas citados se referem ao livro: CNP — Presbíteros do Brasil Construindo História, Paulus, São Paulo, 2001.

[3] Aqui o texto retoma o capítulo 4 do IP do 2º ENP, sobre maturidade presbiteral, de autoria de Edênio Valle (cf. abaixo, nota 6). O Pe. Edênio Valle falou sobre o tema também no 9º ENP.

[4] Só recentemente A. Giddens falará de World Runaway (Mundo em descontrole, Record, Rio, 2000).

[5] Como mostra sinteticamente o esquema da p. 64 do livro que estamos analisando.

[6] O capítulo ocupa as páginas 86-106 e foi redigido, com grande competência, pelo padre e psicólogo Edênio Valle SVD.

[7] Confira p. 130 do livro.

[8] O texto é muito rico, mas outros assessores ficaram com receio de um recuo da visão eclesiológica do presbítero para a visão cristológica, que separa o padre da comunidade.

[9] Foi o tema da exposição feita no 9º ENP por Dom Marcelo Barros.

* “… segundo as palavras inequívocas do evangelho (Mt 25), há na pessoa dos pobres uma especial presença de Cristo, obrigando a Igreja a uma opção preferencial por eles” (João Paulo II, Novo Millennio Ineunte, 49). O destaque é nosso.

** Queiruga, A. T., O cristianismo no mundo de hoje, Paulus, São Paulo, 1994, p. 6.

 

Pe. Alberto Antoniazzi (Comissão Nacional de Presbíteros — 44)