Artigos

Publicado em Setembro-Outubro de 1998 (pp. 27-29)

O cotidiano do Presbítero: homem de relações

Por Pe. Manoel José de Godoy (Comissão Nacional do Clero — 27)

O Setor Vocações e Ministérios da CNBB, no afã de ajudar os presbíteros na sua realização pessoal e no exercício de seu ministério, realizou algumas análises de caráter expressamente fenomenológico. Nada de grandes teorias, mas uma reflexão que tem partido da experiência dos seus antecessores no trabalho direto com inúmeros grupos presbiterais do país.

A reflexão que segue, portanto, quer ver o presbítero no seu dia a dia, como homem de relações. Como fonte inspiradora, além da experiência, está um texto de Severino Pagani — “Uomo tra la gente”, publicado pela Revista do Clero Italiano, de 1994.

 

1. O padre no conflito das relações

No contexto desta sociedade que muda rapidamente, deixando-nos com a sensação de ter os tapetes tirados dos pés de maneira abrupta e constante, o padre se vê às voltas com desafios cada vez mais profundos e abrangentes. Pelo acúmulo de funções que desempenha, o presbítero é uma pessoa que, cotidianamente, trava uma gama significativa de contatos, de relações, de maneira muito diversificada. É no jogo dessas relações que ele é chamado a realizar-se enquanto homem, cristão e presbítero. É bom frisar sempre: “A graça do sacramento não tira o padre deste mecanismo relacional”.

O primeiro e forte conflito que ele tem pela frente pode ser sintetizado na seguinte equação: como conciliar o seu ser eclesiástico com sua personalidade individual? O presbítero se vê desafiado a descobrir maneiras concretas de dominar tal conflito. Viver equilibradamente a tensão entre a satisfação de seus gostos e a concretização de seus deveres.

É na capacidade de administrar suas atividades e estabelecer prioridades, que o presbítero encontrará as pistas para a vivência equilibrada de suas tensões. O que realiza o homem não é o volume de trabalho realizado, mas a qualidade desse trabalho. Na palavra de K. Barth: “O trabalho humano, para ser bem-feito, precisa estar liberto de tensões (sic); e estar em tensão significa trabalhar dando muita importância a si mesmo, esquecendo-se de Deus”.

Em todo o caso, sabemos que não é nada fácil viver bem no meio de uma sociedade tão complexa como a atual. E aos conflitos estruturais e sociais, àqueles que advêm de nossa condição de cristãos e presbíteros, somam-se os pessoais, os que nos são próprios como homens marcados pela nossa cultura, pela nossa “simples” condição humana. Somos profundamente influenciados pela história e vivências de nossa família e pelo ambiente vital que nos acompanha desde os nossos primeiros dias. O útero da mãe para muitos constitui o paraíso perdido, isto é, um dos raros momentos em que os conflitos foram vividos sob proteção externa. Desde o nascimento, administrar situações difíceis e até extremadas constitui o cotidiano de alguns.

“Quem aprende a viver na complexidade e a caminhar sereno em meio aos conflitos é capaz de medir o verdadeiro sentido e o peso das suas responsabilidades”.

Dizem os psicólogos que os presbíteros constituem um dos grupos mais difíceis de tratamento devido ao componente dominante do seu processo formativo: o racionalismo. Em geral, o clero crê ser capaz de resolver todos os seus problemas de maneira racional.

É bom voltar sempre às nossas fontes tradicionais e confiar no Espírito, na graça que pede de todos os cristãos, de maneira muito especial dos presbíteros, constância de algumas práticas: a oração, os sacramentos, a orientação espiritual, todas as formas de convivência, partilha, revisão de vida em equipe. Por fim, não se deve subestimar a ajuda de um bom acompanhamento psicológico.

 

2. Algumas relações negativas

Nossa família presbiteral é maravilhosa e composta de excelentes e abnegados irmãos que gastam sua vida, sua saúde, suas energias, seus melhores anos para que o Reino aconteça entre nós. Porém, não podemos ignorar inúmeras relações negativas que marcam também a vida de muitos presbíteros.

O Concílio Vaticano II, embora não tenha desenvolvido uma teologia muito densa sobre os ministérios, teve a grande intuição de que a caridade pastoral deve ser o grande eixo da vida e exercício do ministério presbiteral. Não podemos considerá-la como fruto de alguma mágica; ela supõe uma paciente construção e inevitavelmente precisa levar em conta a vivência psíquica dos presbíteros.

 

a)    Uma das relações negativas presentes na vida dos padres é a de onipotência. Constitui a expectativa que o presbítero tem em relação aos frutos de seu trabalho. Acredita que à totalidade de sua entrega deve coincidir necessariamente a totalidade dos resultados. Em outras palavras, crê que, com todo o seu trabalho, sua dedicação, conseguirá atingir totalmente os resultados idealizados. O grande problema é que, não tendo medido, com os pés no chão, a distância e a desproporção entre os operários e a messe, entre seu esforço e o resultado, pode sentir-se frustrado e começar a procurar os culpados, os bodes expiatórios. Não há relação humana que se sustente sadiamente nessas condições. Aceitar as limitações sem cair no comodismo é um desafio constante para todos.

 

b)       Outra relação negativa constante na vida e no exercício do ministério é a da cólera. O presbítero, como todo ser humano, se irrita. O problema não está aí. O grande drama é não ter consciência disso. Outro desafio permanente: não represar por demais a cólera, não utilizá-la na base da reação primária, característica da irracionalidade. Ser autêntico, sim, mas sem dispensar a educação e o bom senso! É preciso, porém, cuidar porque “a repressão da cólera e a sua consequente ameaça de explodir, a tentativa sem sucesso de continuar reprimindo-a (inconscientemente) e de suprimi-la (coincidentemente) são os responsáveis principais pela ansiedade e pela tensão do indivíduo humano”.

Ligado a essa relação colérica, talvez até como fruto do descontrole da ira, está o temor de perder a autoridade ou a estima por parte dos outros. Coisas pequenas do dia a dia podem revelar bem essa situação: dificuldade de levantar-se pela manhã, desejo de chorar, tristezas infundáveis, formas imprudentes de guiar o carro, uso desordenado da comida, meter-se em mexericos vingativos excessivos e gratuitos, depressão e tédio. “A vida emotiva e a ação pastoral se ressentem em meio a essas situações”.

 

c)    Relação também negativa é a nostálgica. “Ela surge quando o padre, na sua comunidade, mede tudo a partir de sua vivência e da sua idade, das suas experiências, sucessos e fracassos”. Nessas circunstâncias, nenhum plano de pastoral, projeto de evangelização ou qualquer coisa do ramo consegue motivar o presbítero. Tudo para ele tem gosto de rotina, de velho. Tudo já sabe, tudo já experimentou. Torna-se azedo e pessimista. Não acompanha mais a velocidade do tempo e se escuda nas experiências passadas. É o chamado “choque do futuro”. Um dos sintomas desta relação nostálgica se dá na dificuldade de convivência entre gerações diferentes no presbitério.

 

d)   A relação esgotada manifesta-se através do cansaço real ou psíquico, do estresse, da queima inútil de energias. Não é estranho ao mundo dos jovens que, por se deixarem levar por fáceis idealismos e posições radicalizadas, esgotam-se com frequência, nas relações de todos os tipos. Um sintoma por demais grave que acompanha esta conhecida síndrome de esgotamento das, relações é a diminuição da autoestima. “Ninguém me ama, ninguém me quer”. Consequências: “enfraquecimento das motivações individuais, extinção do desejo espontâneo, redução da necessidade de doar-se. Tudo isso acompanhado de uma espécie de apatia, frustração e desgaste emocional”. Embora não se deva generalizar, a troca de comunidade, de ambiente de trabalho pode se revelar benéfica.

 

3. Relações positivas

Há também, como alertamos no início, uma gama muito rica de relações positivas. Entre elas está a de uma existência reconciliada consigo mesmo, com Deus e com os outros. Pés no chão, consciência da realidade, estar presente no presente, constituem as pistas para esta vivência reconciliada. Conhece-se a si mesmo e por isso tem um juízo exato sobre sua pessoa: nem se subestima, nem se ensoberbece. “Uma existência reconciliada como acolhida da totalidade de si mesmo, com suas luzes e sombras, possibilita ao padre uma experiência mais madura de amor para consigo e para com os outros”.

 

a)    “Uma boa relação consigo mesmo, premissa de toda autêntica e humana relação, encontra seu fundamento no íntimo relacionamento com Deus. O modo como um padre se relaciona com as pessoas transmite inevitavelmente a experiência de amizade que tem ou não com Deus”. Pistas para uma relação reconciliada com Deus são as conhecidas de nossa tradição, que, devido à nossa excessiva familiaridade com as coisas sagradas, tornam-se muitas vezes inócuas, sem valor. A primeira delas é a obediência à palavra de Deus. Escuta constante. Como nos dizia o Pe. Chèvrier, ter tamanha familiaridade com o evangelho que o nosso viver e o nosso agir sejam espontaneamente o viver e o agir de nosso Senhor. O exercício do ministério presbiteral precisa ser caracterizado por um amor pastoral revestido de afabilidade, paciência, perseverança, benevolência. Neste contexto de pós-modernidade, onde o sagrado emerge como realidade difusa na mente dos homens e mulheres de hoje, o presbítero está intimado a ser mistagogo: aquele que conduz o povo de Deus. “Quem se relaciona com o padre deveria descobrir algo da sua comunhão com Deus”.

 

b)   No contato com o outro, o profundo respeito pelo mistério de cada pessoa é condição para uma relação sadia, equilibrada, evangélica. É preciso alimentar constantemente a postura de defesa do direito do outro ser outro. “Salvar a alteridade significa declinar todos os verbos que sustentam o desenvolvimento da liberdade dos outros: acolher, escutar, saber ver a diversidade, entrar nas histórias pessoais diferentes, esperar, ter paciência, valorizar as qualidades, procurar compreender, perdoar, enriquecer-me através da experiência dos outros, aprender a me corrigir, a pedir, a acreditar, a confiar”.

 

c)    A relação com a história, com o tempo, é fundamental para quem está à frente de comunidades, de multidões que esperam orientação segura para o seu agir. A necessidade de atualizar-se constantemente, através da formação permanente, é cada vez mais urgente para os presbíteros. Sem ser ingênuo, é preciso ter olhar confiante na história: vencendo a tentação de esquecê-la, de negá-la ou de fechar-se a ela. A superação vem de um cultivo sadio da memória, da presença e da prospectividade. Para isso, são necessárias algumas posturas em relação ao tempo: paciência, humildade e esperança.

 

d)   Por fim, uma consideração justa e equilibrada a respeito da própria vida, da vida dos outros, das “coisas” de Deus e da história tornam mais dinâmico e produtivo o exercício do ministério presbiteral. Só assim compreendemos que, se desejamos certo bem-estar para nós e para os outros, é necessário abandonar-se a uma “bondade inteligente”. Concretizar na nossa vida o ideal apresentado por Pedro em sua primeira carta: “sejam moderados e sóbrios, para se dedicarem à oração. Sobretudo, conservem entre vocês um grande amor, porque o amor cobre uma multidão de pecados. Pratiquem a hospitalidade uns com os outros, sem murmurar. Cada um viva de acordo com a graça recebida e coloque-se a serviço dos outros, como bons administradores das muitas formas da graça que Deus concedeu a vocês” (1 Pd 4,7b-10).

 

Que nessa árdua, mas gratificante tarefa de autoconhecimento, possamos repetir com Karl Barth: “Ter adquirido uma consciência mais clara dos próprios limites foi, sem dúvida, uma mudança Para melhor da minha existência nesses últimos anos”.

 

 

 

Pe. Manoel José de Godoy (Comissão Nacional do Clero — 27)