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Publicado em Novembro-Dezembro de 2001 (pp. 11-16)

Presbítero: pessoa e missão

Por Pe. José Antônio de Oliveira (Comissão Nacional de Presbíteros — 43)

9º Encontro Nacional de Presbíteros do Brasil

1. Redescobrindo o caminho

“Não tenho um caminho novo; o que tenho de novo é o jeito de caminhar”. Essas palavras do poeta amazonense Thiago de Mello podem iluminar todo o processo de preparação e realização do 9º Encontro Nacional de Presbíteros do Brasil. Não há grandes novidades; mas é sempre possível olhar para a mesma realidade com outros olhos, percorrer o mesmo caminho de um jeito diferente. Esse é um dos focos do 9º ENP e, sobretudo, um convite a nos revestirmos do “homem novo” (Ef 4,24).

Aparentemente, o tema e o texto preparatório ao 9º ENP fazem parte de toda a trajetória dos Encontros Nacionais de Presbíteros (ENPs). A pessoa e a missão do presbítero estiveram no horizonte de todos os Encontros. “A pessoa do Presbítero” foi tema do 2º ENP, enquanto o 4º lembrava “os desafios da evangelização” e trazia como subtema “a realização pessoal” do presbítero. Também no 6º, os participantes buscavam uma forma de “contribuir para a elaboração da identidade pessoal do presbítero, aprofundando sua realização humano-afetiva”.

No que se refere à missão, tratou-se do ministério presbiteral no 3º ENP; dos desafios da evangelização no seguinte; do “processo de urbanização” no 5º; do padre como “missionário, profeta e pastor” no meio do mundo, no 6º. Depois de oito encontros, de tantos debates, reflexões e muita oração, ficou a certeza de que temos um longo caminho a percorrer” (7º ENP), e que somos constantemente convocados a “reavivar o dom de Deus” (cf. 2Tm 1,6) que está em nós pela imposição das mãos (6º ENP). É preciso nos reabastecer, “pois do contrário o caminho será longo demais”, ou, em outra versão, será “superior às nossas forças” (1Rs 19,7).

À luz do projeto Ser Igreja no Novo Milênio (SINM), entendemos que o caminho da Igreja é a missão. “Deus nos entregou um povo, para ser amado”, lembrava Dom Luciano Mendes de Almeida. Mas estamos conscientes de que é muito difícil amar de verdade o povo, fazer o bem, comprometer-se com o Reino, quando não se está bem consigo mesmo. Essa é a razão de todo o interesse pela pessoa do presbítero; pela sua realização pessoal, sua experiência de Deus, sua consciência de presbitério.

O Pe. Edênio Valle, SVD, encerra suas reflexões sobre o 8º ENP[1] com uma pergunta crucial: “Você é feliz?” Essa pergunta pode assustar um pouco — ou parecer simplista. Mas precisamos nos perguntar sempre: Sou feliz como padre? Sinto-me realizado? O que me motiva a ser padre? Que razões tenho para continuar exercendo o meu ministério? O que é que me faz feliz? Deus nos criou para a felicidade, e a missão não pode me impedir de ser feliz. Pelo contrário, o ser padre deve constituir a razão maior da realização do presbítero, no âmbito pessoal e comunitário.

 

2. Viajando pelo “instrumento de trabalho”

Proponho-me a fazer com você uma rápida viagem pelo texto preparatório ao 9º ENP, parando o olhar e o coração em alguns pontos que merecem atenção especial. Um tempo para ruminar, refletir, guardar na memória ou partilhar com os companheiros. Imaginei uma viagem que podemos fazer juntos, levantando alguns pontos mais relevantes para ser conversados, aprofundados, rezados, neste processo de preparação e na própria realização do Encontro Nacional.

 

 

3. Olhando a paisagem

Quando empreendemos uma viagem, querendo ou não, os nossos olhos vão descobrindo a paisagem, fixando-se no caminho a percorrer, parando em alguns pontos que nos chamam a atenção. No caminho do nosso ministério, temos um vasto chão pela frente. Montanhas e vales. Flores e espinhos. É preciso olhar a realidade que nos cerca e da qual participamos. Conhecer o chão em que pisamos; os caminhos que temos pela frente e aqueles que devemos abrir.

No que se refere à sociedade, a dura realidade das exclusões sociais, da miséria, das diferenças escandalosas, da corrupção na “res publica”, agravada por uma inquietante falta de sensibilidade — mesmo por parte de setores da Igreja — e por uma espécie de “acídia” política, uma “neutralidade apática”, nada poderá ficar fora da reflexão e da missão do presbitério.

Em nível mais eclesiástico, o Instrumento Preparatório traz uma análise dos últimos dados do Anuário Católico[2]. Do ponto de vista estatístico, percebe-se um crescimento do número de padres, sobretudo diocesanos. Mesmo assim, há ainda sobrecarga de trabalho: cerca de um padre para 10.265 habitantes no ano 2000. Cresceu bastante o número de padres jovens e dos idosos. Essa realidade traz também suas implicações, sobretudo para a Pastoral Presbiteral.

O fato de sermos mais jovens, mais brasileiros e mais diocesanos, retrato que emerge da pesquisa, leva-nos a algumas reflexões mais sérias. Esse quadro colabora para sermos também uma Igreja mais autêntica, mais profética, mais evangélica, mais missionária? Esses dados da pesquisa, inseridos no quadro eclesial atual, certamente servirão, no 9º ENP, como um pano de fundo objetivo para nossos questionamentos e levantamento de pistas para nosso agir.

Quanto ao aspecto qualitativo e teológico, há uma preocupação maior e muitas interrogações: “A que visão de Deus e de Igreja corresponde o modelo de presbítero que temos e vivemos? Qual a cristologia e eclesiologia subjacentes à missão que a maioria dos padres executa e à sua figura?” O texto lembra que a reflexão sobre a pessoa e a missão dos presbíteros “deve partir de um aprofundamento teológico e espiritual sobre a vocação de todo o povo de Deus”. É necessário ir descobrindo, a cada dia, o que Deus quer de nós hoje, para que, juntos, construamos uma Igreja que seja realmente sinal e instrumento do Reino de Deus no mundo.

Do ponto de vista pastoral e funcional, percebe-se a necessidade de uma análise da sociedade da qual participamos e na qual o padre vai atuar. É necessário levantar os elementos comuns aos diversos ambientes, bem como a realidade pluralista de uma sociedade que caminha entre a secularização e a busca do sagrado; entre a fé-adesão ao projeto do Reino e a religião de consumo; entre a diversidade interna que enriquece e a fragmentação que confunde. Também aqui o texto deixa uma interrogação: neste contexto pluralista, continua adequado o perfil do presbítero “multifuncional”, o agente “genérico”, ou já se pode pensar em vocações “dirigidas” para pastorais e missões específicas?

 

4. Olhando para nós mesmos

Diante do quadro apresentado, alegra-nos o grande número de presbíteros que, como verdadeiros pastores, gastam sua vida numa doação contínua pelo povo e pela causa do Reino. Nos rincões mais distantes de nossa Pátria, partilhando a dor, a teimosia, a luta do povo sofrido; ou nos complexos centros urbanos, sufocados pelo ritmo frenético das cidades, há muita gente se dedicando com alegria, num martírio silencioso e fecundo de quem dá a vida “para que todos tenham vida” (cf. Jo 10,10).

Há verdadeiros “bons pastores”, que procuram se conformar ao Belo Pastor do evangelho, com gestos concretos e bonitos de atenção, de carinho, de respeito, de serviço gratuito, de entrega. Padres que são o “coração de Jesus” para o seu povo. Pastores que usam o seu cajado para enfrentar os lobos e proteger as ovelhas.

São muitos os profetas que falam com coragem, lutam com denodo, testemunham com ousadia, arriscam-se com intrepidez.

Há também muitos santos em nosso meio. Pessoas de Deus. Padres que falam de Deus e falam com Deus. Capazes de enxergar o Cristo nas irmãs e nos irmãos menores. Que, ao celebrar a eucaristia, podem repetir conscientes, em nome de Cristo, mas também com base na própria vida: “Este é o meu corpo que é dado por vós”.

Por outro lado, inquieta-nos o número de padres autoritários, centralizadores, ou ligados a movimentos fundamentalistas. Causa estranheza e dor a busca do sacerdócio como status, a preocupação com uma Igreja triunfalista, a superação da ética pela estética. Num país onde há tantos na miséria, onde milhões de irmãs e irmãos passam fome ou morrem à míngua, é difícil imaginar que um pastor, sinal e instrumento do Cristo servidor, possa viver de mordomias e, pior ainda, com recursos provenientes deste mesmo povo, do rebanho que Deus confiou a cada presbítero, para que dele cuide com carinho.

O texto preparatório nos recorda: “A concepção verdadeiramente cristã do ministério ordenado exclui qualquer forma de clericalismo, ou seja, assumir o status de padre como profissão e fazer do que seria o colégio dos presbíteros uma espécie de casta burocrática que (…) usa o nome divino em benefício do seu poder ou prestígio”[3].

Vale aqui uma visita aos últimos Encontros Nacionais, onde muito se falou do padre “light”, que procura levar uma vida sem muito compromisso, enveredando-se pela via das compensações baratas. Vem ainda à mente a figura daqueles que buscam “formas espiritualistas e consolatórias de religião”, assimilando a tendência — tão presente na sociedade neoliberal — de “buscar um deus que me serve”, em vez de “um Deus a quem eu sirvo”. Assim, o agente que foi consagrado e enviado para servir o rebanho serve­-se do rebanho para garantir a própria segurança e bem-estar.

É ainda significativo e preocupante o pouco interesse despertado pelas pastorais sociais em muitos. Não podemos viver de saudosismo, mas recordamos que, no início da caminhada dos ENPs, as referências e modelos que tínhamos eram presbíteros como Josimo Tavares, Ezequiel Ramin, Gabriel Maire, João Bosco Bournier, Dom Helder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Oscar Romero. Hoje, esses nomes já não falam tanto para muitos, e os modelos são bem outros.

Há ainda a constatação de que — em muitos regionais, dioceses, paróquias —, quando se sente a necessidade de cortar despesas, começa-se a fazê-lo pelas pastorais sociais. O que acontece no cenário político e governamental não está muito distante da prática de muitas de nossas Igrejas particulares, onde a promoção social fica em segundo plano.

Por fim, não podemos nos esquecer de que a vida e a saúde psicofísica do presbítero merecem atenção especial por parte de todos. A Pastoral Presbiteral precisa estar atenta para que nenhum padre — como nenhum ser humano — fique abandonado à própria sorte ou tenha de enfrentar sozinho o cansaço, a solidão, suas crises e angústias. O sentir-se membro de um presbitério que seja de fato a sua família deve dar segurança ao presbítero, evitando ainda o excesso de trabalho ou o acúmulo de atividades dispersas e desorganizadas, que desgastam a pessoa e deixam uma sensação estranha de vazio, de ineficiência e não realização pessoal.

 

5. Não viajo sozinho

Dizemos sempre que ninguém é padre sozinho. A pessoa é ordenada para um presbitério. Isso faz parte do ser presbítero. Na Exortação Apostólica sobre a Formação dos Sacerdotes, “Pastores Dabo Vobis”, o Papa João Paulo II retoma o Decreto Conciliar “Presbyterorum Ordinis”, para reafirmar que “o ministério ordenado tem uma radical ‘forma comunitária’ e só pode ser assumido como ‘obra coletiva’”[4]. Mais do que funcional, essa é uma questão ontológica. Na ordenação, somos inseridos num presbitério no qual e com o qual exerceremos o nosso ministério, em espírito de comunhão e corresponsabilidade.

Os Conselhos Presbiterais, indispensáveis nas dioceses, as Comissões e Associações de Presbítero, os Encontros que acontecem em todos os níveis têm se constituído em instrumentos eficazes na formação dessa consciência de comunhão e participação. Para tanto, precisam ser valorizados e aperfeiçoados.

 

6. Um olho no retrovisor

Uma das riquezas do povo de Deus sempre foi a capacidade de “fazer memória”. O passado sempre ilumina o presente e aponta para o futuro. Quem dirige um automóvel sabe ser quase impossível avançar para a frente sem um olho no retrovisor. Por isso, o Instrumento de Trabalho nos convida a “reavivar a memória”. Sugere que saibamos recordar, ou seja, trazer ao coração alguns momentos fortes da Igreja.

O Projeto SINM reporta-nos às primeiras comunidades cristãs. Aqui, o convite é para uma viagem bem mais próxima, porém não menos rica: a eclesiologia do Concílio Vaticano II, trazida à tona pelo Papa João Paulo II, em sua Carta Apostólica “Novo Millennio Ineunte”; a experiência profética das Conferências de Medellín e de Puebla, quando a Igreja católica da América Latina faz uma opção clara pelos pobres e por uma fé mais encarnada; o caminho bonito percorrido pela Igreja católica no Brasil nos últimos 30 anos, numa história marcada pelo testemunho e martírio de muitos; o rico conteúdo dos Encontros de Presbíteros, em sua preparação, realização e desdobramentos[5].

Vale a pena registrar o que os bispos latino-americanos assumiram em Medellín, em 1968: “Que se apresente cada vez mais nítido, na América Latina, o rosto de uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de todo o poder temporal e corajosamente comprometida na libertação de todo o ser humano e de toda a humanidade”[6].

 

7. Descortinando horizontes

A viagem amplia os nossos conhecimentos e nos lança para a frente. À medida que vamos subindo, os horizontes vão se alargando, aumenta a vontade de caminhar e a ânsia de atingir o objetivo. Se estamos vivendo — nesta sociedade “pós-moderna” — uma verdadeira mudança de época, sentimos que deve haver também uma mudança mais radical em nossos paradigmas, “nas ideias de fundo, nos grandes modelos”. De forma alguma poderemos conservar um olhar míope para toda essa realidade complexa na qual estamos envolvidos. Mais ainda: não podemos nos dar ao luxo de gastar nossas energias, nosso tempo, toda a riqueza dos dons e da graça que recebemos, em questões internas da Igreja, em competições infantis, em debates estéreis que não levam a nada.

O Projeto SINM deixa claro que o fato de a Igreja cuidar de si não significa que ela esteja cumprindo a missão para a qual Jesus a instituiu. A missão é muito maior que a própria Igreja. E sua identidade se manifesta quando ela consegue ser, de fato, luz, sal e fermento no meio do mundo. A Igreja não foi criada para si, e o trabalho do presbítero não é apenas para a Igreja, mas na Igreja, como Igreja, em função do Reino. Nossas energias não se destinam às “mazelas” internas, mas à “construção de um futuro humanamente digno e sustentável” para todos.

Dentro dessa perspectiva, o texto nos convoca a assumir verdadeira dimensão de “ecumenicidade” em nosso exercício pastoral, sobretudo na busca comum da paz, justiça e defesa da criação, juntamente com tantas outras Igrejas, religiões e organizações. Convida-nos a desenvolver uma “mística do pacifismo” e uma “espiritualidade ecológica”, contra toda a cultura armamentista e depredadora da vida. Aponta ainda os grandes desafios da distribuição justa dos recursos naturais, tecnológicos e econômicos; bem como o resgate da dignidade e dos direitos da mulher, “propiciando uma distribuição mais justa das oportunidades entre os sexos, também dentro da Igreja”[7].

Um aspecto fundamental é que esse compromisso social do presbitério implica, em primeiro lugar, o próprio testemunho de vida, nas opções que fazemos. Se queremos um mundo diferente, é imprescindível que sejamos sinais. Não fomos escolhidos, chamados, consagrados, para ser simples imagens da sociedade que temos: “Vocês sabem que… entre vocês não deverá ser assim” (Mt 20,26). Deus nos chamou para ser sinais do seu Reino, o sonho bonito de Jesus Cristo. O testemunho de uma vida sóbria, simples, despojada, será forte denúncia contra a idolatria do consumismo, da ganância, e o anúncio de uma sociedade frugal, em que a oportunidade de vida digna para todos é muito mais plausível.

Nosso testemunho passa também por uma clara opção pelo pobre, pelo sofredor, pela vítima — exigência evangélica e condição de fidelidade a Jesus Cristo. Compaixão e solidariedade são palavras que precisam estar em destaque no dicionário do “ser” presbítero. Já que estamos percorrendo esta estrada, lembro que os caminhoneiros gostam de colocar no parachoque uma frase que expresse o seu jeito de ser ou de ver a vida. Ditados que escondem e revelam uma verdadeira filosofia de vida. Se tivesse de escolher uma frase para resumir o nosso jeito de ser padre, optaria por aquilo que dizia Dom Angélico Sândalo Bernardino no último ENP: “Paixão pelo Reino e compaixão pelo povo”. Neste trabalho encarnado, no contato amigo e solidário, vamos descobrindo toda a beleza e riqueza que o povo tem para oferecer. Bebendo de sua esperança e partilhando de suas lutas, conseguimos “visualizar a construção da utopia do Reino”.

 

8. Uma parada na estação

A realização do ENP é breve parada na “estação”. Lugar de encontros e de abraços. Encontram-se companheiros de ministério de todo o Brasil, para estreitar laços e criar comunhão. A estação é lugar de partilha da vida e de avaliações. Trazemos notícias de alguns, levamos notícia para outros. Na estação do ENP, colocamos na mesa de estudos e na mesa da Eucaristia nossas angústias e esperanças, as luzes e sombras de todo o presbitério nacional. É também momento privilegiado de celebração — a liturgia dos caminhantes. Celebramos o caminho percorrido e os passos dados, os horizontes que se abrem e a esperança que nos anima.

Como toda a liturgia, o Encontro é também “cume e fonte”. É chegada de um longo caminho percorrido. É o ponto alto de todo um processo de experiências, de reflexões e orações, nas dioceses e regionais. Pessoas vindas de todos os cantos param por alguns momentos para descansar, alimentar-se e preparar-se para nova partida. Vem à memória o dia em que Jesus chamou os apóstolos, após longa jornada de trabalho, sem que tivessem tempo nem para comer, e disse: “Vamos sozinhos para um lugar à parte, para que vocês descansem um pouco” (Mc 6,31). O Encontro é um espaço para recuperar as forças, ajeitar e refazer a bagagem, escolher novos objetivos, levantar meios para se chegar ao destino e, olhando para a frente, partir.

Na estação, há gente que chega de todos os cantos e gente que parte em todas as direções. “O trem que chega”, diz Fernando Brandt na canção de Milton Nascimento, “é o mesmo trem da partida. Chegar e partir são dois lados da mesma viagem”. Mas ele não chega como partiu e não parte como chegou. Em cada parada ele se renova. E segue o seu destino.

Porém, queremos, sem apego exacerbado aos trilhos, ver um pouco mais claro a meta desse trem. Estamos falando do sentido profundo de nossa existência como presbíteros, pois acreditamos que isso é fundamental para ajudar a tantos outros passageiros do mesmo trem a descobrir também o rumo certo a seguir. As paisagens que aparecem no caminho não são tão claras, tão evidentes nem tão alvissareiras. Saber ver no momento presente — diante do panorama confuso que se nos apresenta — uma pista de realização pessoal e comunitária, alicerçada na prática de Jesus, é, sem dúvida, grande conquista.

 

9. Deixando a estrada e subindo ao barco

Certa vez, alguns pescadores tinham trabalhado toda a noite sem nada conseguir. Cansados e desanimados, vieram para a praia lavar e guardar as redes. Jesus subiu a uma delas, que era de Simão, e pediu que voltassem para o mar, de onde falou e ensinou as multidões. Depois disse: “Avance para águas mais profundas e lancem as redes para a pesca” (Lc 5,4). Mesmo sabendo que “o mar não estava para peixe”, em atenção à Palavra de Jesus, lançaram as redes. O resultado foi surpreendente.

Neste mar de desafios em que vivemos, há muitos presbíteros cansados do trabalho. Há outros que experimentam uma sensação de vazio, como se o seu trabalho não estivesse dando frutos. Pela carência de padres e consequente excesso de atividades, muitos se veem forçados a reduzir seu ministério a mero sacramentalismo, sem perceber resultados positivos. Desgastam-se dia e noite, sem conseguir saciar a sede do povo. Tudo isso gera certo desânimo ou desencanto.

O Encontro ajuda-nos a sentir que Jesus está conosco e usa o nosso barco para levar a Boa Nova à multidão faminta e sedenta. Ele nos mostra que uma noite aparentemente estéril esconde no bojo uma madrugada de esperança e um amanhecer de pescas abundantes, na força da sua Palavra e da sua Presença. Mais uma vez, lembro Thiago de Mello: “Faz escuro, já nem tanto: vale a pena trabalhar. Faz escuro, mas eu canto, porque a manhã vai chegar”.

Mas o Encontro quer também nos ajudar a buscar uma Igreja mais ministerial. Ao longo da história, a Igreja foi perdendo a riqueza dos carismas; e dos ministérios. Foi optando por um clericalismo centralizador, valorizando simplesmente o ministério ordenado. Todos os outros foram colocados em função ou a serviço deste. Os leigos simplesmente passam a colaborar com a hierarquia, e os ministérios são conferidos provisoriamente àqueles que se preparam para o sacramento da ordem. É urgente dar à Igreja um rosto mais plural, mais feminino. Também é urgente recuperar a eclesiologia do Corpo Místico, em que todos os membros sejam reconhecidos e valorizados. Distribuir os serviços, mas também as decisões. Deixar aos presbíteros o que lhes é específico: a eucaristia, o perdão sacramental e a coordenação/animação da comunidade eclesial. Podemos ser os maestros da orquestra, mas jamais poderemos tocar todos os instrumentos.

Sobre esse assunto, o texto de estudo traz alguns questionamentos. Lembra que o Papa João XXIII propôs uma volta às fontes para atualizar a mensagem do evangelho ao mundo de hoje. “Nas Igrejas apostólicas, toda a comunidade se via como diaconal, comunidade de serviço em nome de Deus. Ninguém era chamado de ‘sacerdote’, a não ser Jesus. (…) As formas atuais de ordenação de ministério evoluíram no decurso de um desenvolvimento histórico complicado”[8]. E cita o Documento Ecumênico de Lima, comentário ao nº 12 do capítulo Ministério: “As Igrejas devem evitar atribuir as suas formas particulares do ministério ordenado diretamente à vontade e à instituição do próprio Jesus Cristo”. Por mais polêmica que seja essa afirmação, ela não nos impede de nos debruçar com mais carinho sobre a questão ministerial, tendo a coragem de abrir mão dos espaços “conquistados”, na busca de uma Igreja mais fiel às suas origens. Precisamos reconhecer que, mais que o sacramento da ordem, o batismo é a grande fonte de ministérios para a Igreja.

Voltando ao nosso mar, recordamos os presbíteros que ficam à margem ou na superfície. Têm medo do mar profundo, ou não conseguem alargar os horizontes. Jesus nos convida a avançar para águas mais profundas, fazer-nos ao largo. Nossa missão é muito grande para nos contentar com as margens. Rica demais para ficarmos na superfície. Nosso ministério não se coaduna com a superficialidade e a mediocridade. É necessário que estejamos em um processo contínuo de aprofundamento da nossa mística; no esforço constante da formação permanente em todas as dimensões: humano-afetiva, comunitária, espiritual, intelectual e pastoral; procurando conhecer mais a fundo toda a complexidade do mundo da cultura, da política, da economia, da ciência. Não que tenhamos a obrigação de ser especialistas em tudo, já que temos o nosso específico. Mas é difícil agir de maneira transformadora numa realidade que não conhecemos ou pela qual deslizamos apenas superficialmente.

Após a pesca abundante, os apóstolos ficam admirados e até assustados. Era difícil acreditar no que viam. Mas Jesus os tranquiliza, dizendo a Pedro: “Não tenhas medo!” (Lc 5,10). Que o 9º ENP nos traga uma palavra de encorajamento e de esperança. A missão nos inquieta, os desafios nos assustam, nossa fragilidade incomoda. Mas a Palavra de Jesus ressoa forte em nosso coração: Não tenha medo!

Em um outro momento semelhante, já após a ressurreição, depois de um longo caminho ao lado de Jesus, depois de partilhar a ceia e a paixão, acontece uma outra pesca “milagrosa”. Diante dessa nova experiência, Pedro “veste a roupa” e se atira ao mar (cf. Jo 21,7). Temos também a nossa caminhada com Jesus. Todos já partilhamos da sua Ceia e da sua paixão. Experimentamos sua presença e sua graça em nossas “pescas” de cada dia. O 9º ENP traz também este convite aos presbíteros do Brasil: “Vestir a roupa e atirar-se ao mar”. “Revesti-vos do homem novo” (Ef 4,24) é o lema do Encontro. Atirem-se ao mar, sem medo! Lancem as redes para a pesca!

“Vem, eu te chamo! Vai, eu te envio! Rumo a um mundo novo leva o meu povo”[9].

 



[1] Vídeo: Novo Milênio, Novo Presbítero? — Carta a Teófilo — Verbo Filmes. Sobre este tema, ver também Vida Pastoral 213 (julho-agosto de 2000), pp. 25-30.

[2] Anuário Católico do Brasil 2000, CERIS (Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais), Rio de Janeiro, p. 84.

[3] Instrumento de trabalho, p. 16.

[4] João Paulo II, Pastores Dabo Vobis, 17.

[5] Há previsão de que a Comissão Nacional de Presbíteros e o Setor Vocações e Ministérios da CNBB estarão publicando, em breve, pela Paulus Editora, um volume único com os Textos Preparatórios de todos os ENPs. Será, certamente, precioso instrumental para quem quiser conhecer um pouco mais da trajetória da Igreja no Brasil, e a reflexão que os presbíteros fazem desta caminhada, com base em sua vida e missão.

[6] Conclusões de Medellín, Paulus, São Paulo, 1984, caps. 5,33a.

[7] Instrumento de trabalho, p. 27.

[8] Instrumento de trabalho, p. 17.

[9] Canto vocacional de Manoel Valente.

Pe. José Antônio de Oliveira (Comissão Nacional de Presbíteros — 43)