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Publicado em Janeiro–Fevereiro de 1998 (pp. 27-31)

Presbíteros na década de noventa (2ª parte)

Por Pe. Manoel José de Godoy* (Comissão Nacional do Clero — 23)

(Continuação do número anterior)

 

1. O 6º Encontro Nacional de Presbíteros (ENP)

O 6º ENP aconteceu em Itaici, de 2 a 7 de fevereiro de 1996, com o tema: “O presbítero: missionário, profeta e pastor no mundo urbano”, e com o lema: “Reaviva o dom de Deus que há em ti” (2Tm, 1,6). Este encontro foi marcado por uma séria preparação através de um excelente subsídio preparatório. Conseguiu reunir o maior número de presbíteros em encontros nacionais, 447 representantes da quase totalidade de dioceses do país. Pecou, talvez, pelo excesso de objetivos. Ele tinha a pretensão de: 1º) dar continuidade ao 5º ENP, levando em conta, além da problemática geral da urbanização, os desafios à pessoa do presbítero e a pastoral da comunicação; 2º) fornecer elementos que ajudem os presbíteros a interpretar a complexa realidade que os envolve; 3º) contribuir para que os presbíteros percebam os desafios que se colocam à missão da Igreja e ao ministério presbiteral; 4º) auxiliar os presbíteros em sua busca de respostas pastorais aos desafios de sua missão; 5º) refletir seria­mente sobre a problemática da comunicação dentro da Igreja e com a sociedade; 6º) contribuir para a elaboração da identidade pessoal do presbítero, encarecendo sua realização humano-afetiva.

Esse acúmulo de objetivos confirmou uma vez mais a máxima de quanto maior a extensão, menor a profundidade. Falou-se de tudo e não se concluiu quase nada. O tempo da preparação foi bem melhor que a realização do encontro.

Porém, o grande ganho deste encontro foi ajudar os presbíteros a assumir as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, documento da CNBB com forte apelo para a dimensão missionária da Igreja. Os presbíteros puderam confrontar sua missão com as exigências da evangelização inculturada: serviço da vida ferida e da esperança vacilante; diálogo com as culturas e as outras religiões; anúncio missionário do Evangelho; vida de comunhão e serviço à comunhão eclesial.

Neste 6º ENP, foi retomado um tema presente no 2º ENP: “A pessoa do presbítero”. Reconhecendo que as mudanças sociais imprimiram marcas profundas no ser do presbítero, o texto preparatório se propõe a dar pistas que os ajudem “a melhor compreenderem a ressonância em seu ‘múnus’ — de missionário, profeta e pastor — em um ambiente sociocultural que mina por baixo os papéis e estilos tradicionais de sua atuação”20.

O método utilizado para tratar o tema da pessoa do presbítero compreendeu dois momentos: 1º) Uma tentativa de des-idealizar a concepção de ser padre, hoje; 2º) Abordar a questão do amadurecimento adulto, humano-afetivo e cristão, da pessoa do presbítero. Em outras palavras, isso representava um esforço para responder a uma demanda bastante atual junto aos presbíteros: o cultivo-de-si. O texto assume claramente que essa é uma demanda que emerge da cultura urbana de hoje em qualquer parte do mundo.

Curiosa é a definição que se dá ao “bom padre” que, devido às circunstâncias tensas e aos desafios da cultura urbana, entra em estresse espiritual, pastoral e psíquico. Este é chamado de padre “light” e “é alguém que ama a Igreja viva e serve aos seus irmãos e irmãs. Ele cultiva honestamente a espiritualidade e a oração; trabalha para superar suas limitações e fraquezas; condivide com o presbitério e a comunidade suas riquezas, preocupações e projetos pessoais. Relaciona-se ‘bem’ com as pessoas, assume a causa dos pobres, estuda, reza, crê. Numa palavra, não pretende acomodar-se à ‘áurea mediocridade’ de uma vida ainda bastante respeitada e respeitável. No entanto, paradoxalmente, algo o torna ‘um homem perplexo’, uma pessoa dividida entre a coragem e o medo de arriscar-se ‘para dentro’ do que escolheu e quer ser. Sente, por isso, a tentação de retrair-se, de preservar-se, de manter ‘abstrata’ a sua adesão aos valores estruturantes de sua vida. Esses valores estão ainda lá, são objeto de seu desejo e de sua preocupação. Não deslancha, porém, o dinamismo que leva mais além. O padre ‘light’ entra na média comportalmente correta de quem vive na civilização urbana”21.

O texto continua abordando a figura do padre “light” e mostra que não basta ser uma pessoa correta, bem enquadradinha. Como relatou um dos assessores do encontro, o padre “light” dá aquela sensação estranha de que “está tudo certinho, mas que tá esquisito tá”. Afirma que o presbítero não é chamado a ser apenas o funcionário da instituição, mas sim seguidor de Jesus Cristo, aberto às surpresas de Deus, companheiro dos pobres na caminhada. O padre “light” é o homem correto, mas que apresenta um desequilíbrio entre o “eu real” e o “eu ideal”, o que lhe provoca o chamado estresse, tão característico do homem urbano. Vale a pena ainda ressaltar a comparação que o texto faz sobre o eu idealizado e a idealização do sacerdócio: esta “tem a ver com o medo de enfrentar carências mal trabalhadas e de correr, por inteiro, o risco humano que a fé exige de nós. Quem idealiza exageradamente a vocação, quase sempre acaba enveredando-se em uma teia de fantasias ilusórias que desmotivam, geram insegurança e podem levar ao cinismo de um bom funcionário que já não vê sentido no que faz. Corre, assim, o perigo de entrar em estresse motivacional, pois o ideal já não alimenta a vida. Pelo contrário, a vocação de quem tem um ideal que equilibra conscientemente o real e o desejado permanece uma força geradora de vida. Dá segurança e convida a avançar”22.

Essas considerações fizeram bastante sucesso no 6º ENP e não faltaram brincadeiras de corredor sobre o padre “light”. Pelas reações e reflexões, não é temerário afirmar que o texto atingiu em cheio uma parte significativa dos presbíteros.

No final do encontro, Pe. Edênio Valle apresentou oito observações que, segundo ele, “expressam o que os padres estão sentindo de fato”. Os oito pontos são os seguintes: 1º) “Importância da aceitação da situação de transição e dos condicionamentos em que nós padres nos encontramos neste fim de século e para a qual não temos (ainda) respostas”; 2º) “Importância da aceitação do papel histórico que temos a cumprir como clero no Brasil que se ‘moderniza’; 3º) “Importância de termos consciência de nossa inadequação à moderna cultura urbana brasileira. Nossas raízes culturais, nossas estruturas, nossa mentalidade e métodos são ainda amplamente rurais”; 4º) “Importância de compreender bem as mudanças religiosas em curso, especialmente em dois de seus aspectos: a) progressiva perda de hegemonia do catolicismo e b) o crescimento rápido de novas formas de religião e mística (‘seitas’)”; 5º) “A interpelação que nos vem da nova vivência e antropologia da sexualidade. A teologia cristã não conseguiu sair da defensiva neste campo, enquanto a prática de vida dos fiéis (e dos padres!) evolui rapidamente, premida por esse sentido cultural”; 6º) “Importância da compreensão da urgência de nos educarmos para a fraternidade presbiteral”; 7º) “Importância da opção preferencial pelos pobres para a nossa vida e ministério, também no que ela tem de mais pessoal”; 8º) “A ‘mundialidade’ é o horizonte necessário para o padre se pensar no mundo que está nascendo. A nossa paróquia é o mundo, com urgência cada vez maior”.

Os ENPs sempre contaram com a presença de bispos, sobretudo daqueles que acompanham as Comissões de Presbíteros nas 16 Regionais da CNBB. O 6º ENP, porém, além destes bispos contou com a presença do Secretário da Congregação para o Clero, D. Crescêncio Sepe. Todo o clima de suspense e de suspeita que havia em relação a esta visita foi transformado pela informalidade com que o representante da Santa Sé tratou os mais de quatrocentos presbíteros presentes. Deixou de lado o discurso que havia trazido pronto e falou espontaneamente de sua alegria por poder entrar em contato com os padres do Brasil. O presbítero que lhe dirigiu a saudação em nome dos participantes do 6º ENP lhe disse: “Mons. Crescêncio Sepe, aqui está o rosto de nossa Igreja, vista a partir dos pastores que vivem junto ao nosso povo. Estamos unidos aos nossos pastores e ao nosso povo. Não somos nem queremos constituir um sindicato na Igreja, ou uma forma de Igreja paralela”23. Desta forma, estava dado o recado a todos os que na Igreja acusam as associações presbiterais de se constituir verdadeiros sindicatos. D. Crescêncio Sepe foi muito aplaudido por todos os presentes, que se sentiram confortados pela sua forma descontraída e amiga de tratar os presbíteros. Ficou, porém, na cabeça dos padres, uma interrogação: onde nascem as críticas às associações presbiterais e até mesmo à Comissão Nacional do Clero?

Na mensagem final há um significativo apelo dirigido a toda a Igreja, que resgata a sua atuação mais profética e, por que não, mais polêmica: “A Igreja tem sido, nas décadas passadas, responsável pela formação de atores sociais. Esteve presente com a Ação Católica junto aos setores da classe média. Com as Comunidades Eclesiais de Base e a Teologia da Libertação, atuou junto às classes populares. É chegada a hora de ela reconhecer o ingente número de excluídos, desempregados, atuantes nos setores da economia informal. A Igreja, e com ela os presbíteros, deve ser agora responsável pela formação dos novos atores sociais, na área dos excluídos e da economia informal”24.

O 6º ENP também fez três significativas moções: uma em solidariedade aos sem-terra, outra em defesa da causa indígena e uma em homenagem a D. Paulo Evaristo Arns, pela passagem do seu jubileu de ouro sacerdotal e do jubileu de prata como Arcebispo de São Paulo.

Tanto o 5º quanto o 6º ENP foram muito organizados, bem refletidos, e já não apresentaram as tensões dos primeiros. Alguns presbíteros levantaram até a hipótese do esgotamento da forma do encontro. Ouve quem atribuísse a ausência das tensões a certo desânimo. O que se pode constatar é que o número de presbíteros atingidos ainda é pequeno. Há muitos que sempre estão presentes e há os eternos ausentes. Constata-se entre os presbíteros do país uma massa silenciosa que cuida diligentemente de sua paróquia, mas dela não sai para nada.

 

2. O 7º Encontro Nacional de Presbíteros

Embora ainda não tenha acontecido, o 7º ENP já está programado para 3 a 8 de fevereiro de 1998, com o tema: “Presbíteros Rumo ao Novo Milênio”, e sob o lema: “Ainda tens longo caminho a percorrer”. Como os demais ENPs, este está sendo preparado através de encontros regionais para o estudo do subsídio que aborda o tema, partindo de uma rápida visão sobre a realidade. A seguir, o texto apresenta aos presbíteros a proposta do Projeto de Evangelização Rumo ao Novo Milênio, com suas exigências para uma ação mais evangelizadora. Conclui-se o subsídio com pistas concretas para a vivência do ministério presbiteral.

O clima de fim de século, fim de milênio, dá um toque especial a este 7º ENP. Toda a Igreja vem desenvolvendo temas e projetos para se adequar às exigências do tempo. O número redondo 2.000 tem uma força própria. É como se estivéssemos às vésperas de uma grande virada. É lógico que isso não está nos planos da Igreja, pois esta, baseada em sua experiência milenar, caminha lentamente, somando e subtraindo, avançando e retrocedendo.

No resgate dos fatos mais recentes da política brasileira, o subsídio preparatório é implacável com o atual modelo sociopolítico e econômico instaurado no Brasil. Sobre o deposto Presidente Collor de Melo diz: “A incompetência de Collor na tentativa de impor a modernização ‘na marra’ e a corrupção que se instalou no seu governo, contudo, obrigaram a própria elite que o colocou no poder a tramar sua destituição”25.

No geral, a tônica das análises de conjuntura presentes nos textos preparatórios dos ENPs sempre foi muito crítica. Há sempre uma tomada de posição firme em relação à opção pelos pobres e uma cobrança para a atuação profética da Igreja. Vejamos, por exemplo, esta passagem do subsídio preparatório ao 7º ENP: “Frente aos inúmeros problemas socioeconômicos e políticos da conjuntura atual, a Igreja observa que eles são consequências de ações humanas, deliberadas, e não efeitos de causas naturais incontroláveis, como eram até há pouco carestias e epidemias. Por isso a Igreja, mais que apontar causas e soluções técnicas, denuncia a falta de ética como o principal fator das desigualdades e injustiças econômicas e reafirma a necessidade de conversão das pessoas e de uma verdadeira revolução na ordem das prioridades dos sistemas”26.

 

3. Balanço do setor vocações e ministérios

Não obstante essas posições, firmes e corajosas dos presbíteros presentes nos ENPs, a realidade demonstra um clero bastante heterogêneo. Inúmeros padres estão às voltas com uma gama imensa de problemas. O Setor Vocações e Ministérios (SVM) da CNBB, na Assembleia Geral do Episcopado brasileiro, realizada em abril de 1997, fez um balanço27 da situação atual dos presbíteros onde desenha, ao lado de variadas iniciativas positivas, os principais focos de insatisfação. Nesta dupla vertente de realizações e insatisfações, o SVM levanta alguns traços dos presbíteros.

 

Realizações

a)    fidelidade ao chamado apostólico, como verdadeiros pastores no meio do povo, gastam a vida numa doação contínua;

b)   desprendimento e coragem no assumir a pobreza evangélica;

c)    esforço sobre-humano para atender a demanda das comunidades, celebrando até mais de cinco eucaristias em todo fim de semana;

d)   busca de inculturação e de partilha das condições da vida do povo, morando em regiões de conflito e arriscando a vida em solidariedade com os pequenos, nossa gente desprotegida;

e)    amor à Palavra de Deus e cultivo de profunda espiritualidade, vivendo evangelicamente o celibato em testemunho de uma adesão plena ao Cristo;

f)    interesse pela formação permanente em busca de atualizar a sua ação pastoral;

g)    sintonia com o projeto pastoral diocesano;

h)   cultivo da fraterna amizade com os leigos, valorizando os ministérios deles e, com eles, procurando edificar uma Igreja participativa;

i)     capacidade de trabalhar em equipe e busca efetiva de integração no presbitério;

j)     abertura à dimensão missionária e disposição para ajudar as Igrejas irmãs com menores recursos. Mostram-se generosos e disponíveis e quase sempre aumentam trabalhos que vão além das suas reais possibilidades.

 

Insatisfações

a)    desânimo diante do presbitério, que não assume colegialmente o plano diocesano de pastoral e das divergências e conflitos de pastorais e movimentos;

b)   falta de fraternidade presbiteral decorrente da atual tendência de pensar o ministério em função precípua da própria subjetividade;

c)    perplexidade diante do avanço de novos movimentos religiosos;

d)   dificuldade de estabelecer um equilíbrio entre certo rigor doutrinal exigido pelo magistério e uma prática pastoral operante e misericordiosa;

e)    dificuldade de se posicionar diante dos novos desafios, que exigem criatividade e mudança na prática, enquanto a hierarquia permanece cautelosa, freia ou interdita caminhos;

f)    desencantamento pela falta de incentivo e até mesmo de respeito por parte de bispos com relação aos organismos colegiados da diocese;

g)    angústia por não corresponder a uma figura idealizada do padre;

h)   apego excessivo a paróquias e cargos eclesiásticos, o que torna estes presbíteros pouco disponíveis para o serviço da Igreja;

i)     sobrecarga de atividades (há paróquias com 20 e até 40 comunidades e/ou pastorais) que geram cansaço, estresse ou apatia;

j)     muitos presbíteros concentram em suas mãos toda a administração paroquial;

k)    sentimento de insegurança e incompreensão em face da opinião pública que picha os padres;

l)     dilacerados por dificuldades na dimensão afetivo-sexual, com prejuízo da realização enquanto pessoa e ministro, muitos se ressentem da falta de convicção evangélica à qual costuma se somar a falta de estruturas de apoio, ficando o celibato acorrentado a uma vida de solidão e isolamento;

m)  ausência de estímulo para a formação permanente, devido a uma formação que lhes assegurou uma falsa autossuficiência e acomodação;

n)   carência de compreensão, amizade, apoio e visitas por parte de alguns bispos;

o)   dificuldades em organizar e usar bem o tempo acarretando pouco tempo para ler, estudar e rezar.

 

Os presbíteros que atuam no Brasil, de Norte a Sul, têm demonstrado — nos encontros nacionais, regionais e diocesanos —, uma sede imensa de acertar o compasso com a história e capacitar-se para responder adequadamente aos desafios dos tempos modernos, ou pós-modernos. A década de noventa segue, em ritmo acelerado, rumo ao novo milênio, com os presbíteros buscando novas pistas para o seu agir no mundo. Percebe-se que há uns pontos que já se tornaram consensuais, pelo menos teoricamente: maior atenção à pessoa do presbítero, implantar uma pastoral presbiteral, buscar uma sólida espiritualidade, caminhar em conjunto com a Igreja do Brasil e suas opções pastorais, buscar maior fraternidade entre os padres e bispos, estruturar melhor a formação permanente.

Padres que estejam verdadeiramente à altura destes tempos, capazes de evangelizar o mundo de hoje28 é, afinal, a grande utopia a ser perseguida nestes anos que antecedem a chegada do novo milênio.

 

4. Estatísticas da década

Outra forma de se analisar a situação dos presbíteros na década de noventa é através dos números. O Setor Vocações e Ministérios (SVM) da CNBB, a partir das estatísticas disponíveis, chega às seguintes conclusões29:

Com os números mais recentes sobre a situação dos padres e seminaristas no Brasil, do período de 1993­-1995 podemos perceber as mudanças significativas na composição do clero católico, que — em resumo — se tornou mais diocesano, mais jovem e mais brasileiro.

 

a)   Os padres diocesanos aumentam e superam o número dos religiosos: O CERIS informa que o número de padres diocesanos alcançou 7.724 em 1995, a previsão era que chegasse a 7.775, enquanto o número dos padres dos institutos (a maior parte “religiosos”) alcançava 7.586, a previsão era de 7.633. Confirma-se assim que em 1995, pela primeira vez em muitos anos, o número dos padres diocesanos supera o dos religiosos (em 1960, os diocesanos eram 37,5%). O número das ordenações dos diocesanos foi de 335 em 1993, 455 em 1994 e 316 em 1995. O número das ordenações dos religiosos foi de 141 em 1993, 210 em 1994 e 153 em 1995. Às ordenações devem ser acrescentadas, no período 1993-1995, as chegadas de 177 missionários do exterior. Mesmo assim as “entradas” de religiosos não cobriram o número das “saídas” (falecimentos, transferências para o exterior, laicizações…, que foram respectivamente: 304; 252; 232). As ordenações de padres diocesanos, como se pode ver, foram o dobro das ordenações presbiterais nos institutos religiosos. O CERIS não informou sobre a idade dos padres. Mas o alto número de ordenações confirma a tendência ao rejuvenescimento do clero

 

b)   Mais brasileiros, menos missionários de outros países: Quanto à nacionalidade, tínhamos em 1995, entre os padres diocesanos, 6.810 brasileiros e 911 estrangeiros (11,8%) [três não declararam sua nacionalidade]. Entre os religiosos, no mesmo ano, havia 4.967 brasileiros e 2.618 estrangeiros (34,5%) [um não declarou]. No total, 3.529 estrangeiros (= 23,06%), num total de 15.300 padres atuando no Brasil. Lembre-se que os estrangeiros eram 27,2% em 1990 e 42,25% em 1960. Confirma-se, outra vez, e de modo expressivo, a tendência à diminuição de missionários vindos do exterior.

 

c)    Aumento significativo dos seminaristas diocesanos: Quanto aos seminaristas maiores diocesanos, o número, após a estagnação entre 1986 e 1990, voltou a subir, passando de 3.147 (1990) para 3.973 (1995). Quanto ao número dos seminaristas dos Institutos (religiosos ou afins), não consta mais nas informações do CERIS. Segundo o último Anuário Estatístico da Igreja (publicado pelo Vaticano em 1996), os seminaristas religiosos no Brasil eram 2.779 em 1989, caindo para 2.384 em 1991 e subindo novamente até alcançar 2.893 em 1994 (último dado). Em termos percentuais, os seminaristas maiores diocesanos cresceram 26% entre 1990 e 1995; os religiosos cresceram 4% entre 1989 e 1994.

 

Quanto às previsões para o futuro, o número dos presbíteros está aumentando desde 1980, quando eram 12.688 e alcançou 15.310 em 1995 (aumento de 20,66% em 15 anos). No mesmo período, a população aumentou de 30,9%, passando de 119.002.706 para 155.822.400. Logo, o aumento do número dos padres não acompanhou o crescimento demográfico. A relação padre/habitantes passou de 1: 9.379 (1980) para 1: 10.178. Nos últimos anos, contudo, a situação tem apresentado algumas alterações. A população cresce mais lentamente, enquanto o número dos padres continua aumentando. De fato, em 1991 tínhamos 14.419 padres para 146.917.459 habitantes (1: 10.189). Em 1995, 15.310 padres para 155.822.400 habitantes (estimativa do IBGE, provavelmente um pouco exagerada). Consequentemente, temos um padre para 10.178 habitantes, ou seja, uma situação um pouco melhor que a de 1991.

Se o número das ordenações continuar aumentando, como nos últimos anos, e a população continuar crescendo mais lentamente, nos próximos anos a situação poderá ser modificada. Mas tudo indica que, por enquanto, a mudança não será substancial e não voltaremos tão cedo à situação de 1960 (um padre para 6.284 habitantes).

Por fim, constata-se que são mais numerosas as vocações provenientes dos movimentos. Isso tem gerado algumas tensões, visto que alguns movimentos já possuem os seus próprios seminários. Esses seguem mais as orientações de seus movimentos do que das Conferências Episcopais e Igrejas Particulares.

 

6. Conclusão

Como alertamos no início (1ª parte), a década está todavia em curso e muita coisa poderá acontecer. Os tempos mudam cada vez com maior velocidade. Porém, cremos ter abordado alguns pontos importantes da realidade presbiteral que, certamente, servirão de base para possíveis previsões. Um campo aberto para a análise é o da figura do presbítero nos Meios de Comunicação de Massa. Embora na maioria das vezes não corresponda à verdade, essas imagens têm forte penetração na mente do povo e fazem a opinião da sociedade civil.

Queremos concluir este artigo prestando uma homenagem aos inúmeros presbíteros que, de maneira anônima, gastam sua saúde, sua vida, fazendo da caridade pastoral o eixo do exercício de seu ministério. Lembrança especial àqueles que consumiram sua vida ou a tiveram arrebatada, levando às últimas consequências a opção pelos preferidos de Jesus: os pobres. Registramos alguns nomes para que a ladainha seja completada por todos os que lerem estas páginas: Padres Antônio José de Maria Ibiapina, Josimo Moraes Tavares, Antônio Henrique Pereira Neto, Nildo do Amaral Júnior, Paulo Englert, Gabriel Maire, Giancarlo Oliveri, Rodolfo Luckenbein, Cláudio Bergamaschi, Ezequiel Ramin, e tantos outros.



20 Texto preparatório do 6º ENP, p. 60, Arquivo do SVM da CNBB.

21 Texto preparatório do 6° ENP, p. 63, Arquivo do SVM da CNBB.

22 Idem, p. 67.

23 Saudação ao representante da Congregação para o Clero, in Arquivo do SVM da CNBB.

24 “Mensagem aos Irmãos Presbíteros”, docu­mento final do 6º ENP, in Arquivo do SVM da CNBB.

25 “Presbíteros Rumo ao Novo Milênio”, texto preparatório para o 7º ENP, in Arquivo do SVM da CNBB.

26 Idem, p. 17.

27 “Setor Vocações e Ministérios”, apostila de 1997, Arquivo do SVM da CNBB.

28 “Pastores dabo vobis”, exortação pós-sinodal de João Paulo II, Ed. Paulinas, São Paulo, 1992, p. 27.

29 “Ministérios na Igreja”, apostila de 1997 — arquivo do SVM da CNBB.

Pe. Manoel José de Godoy* (Comissão Nacional do Clero — 23)