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Publicado em Novembro-Dezembro de 1997 (pp. 29-34)

Presbíteros na década de noventa

Por Pe. Manoel José de Godoy (Comissão Nacional do Clero — 22)

Alguém poderia se surpreender com o título deste artigo. Afinal, ainda não terminamos a década e, na velocidade atual dos acontecimentos, muita coisa poderá emergir nos próximos três anos. Conscientes disso, utilizaremos basicamente a pesquisa sobre a vida e situação dos seminaristas, do Setor Vocações e Ministérios (SVM) da CNBB, as reflexões feitas por ocasião de três encontros nacionais de presbíteros (ENPs de 1992, 1994 e 1996), o texto preparatório para o 7º ENP (1998) e o principal documento do magistério sobre a vida e o exercício do ministério presbiteral, a exortação apostólica Pastores dabo vobis. A partir desses eventos, tentaremos levantar algumas perspectivas pastorais, na ótica da utopia, para este final de milênio. (O presente artigo terá continuidade no próximo número desta revista.)

Em artigo anterior, sobre os presbíteros na década de oitenta, terminávamos apontando a possibilidade de uma nova onda neoclerical. Podemos afirmar com um pouco mais de segurança que esta tendência continua viva e em franco desenvolvimento. Apesar da exortação apostólica ter dado excelente destaque à dimensão eclesiológica do ministério presbiteral, o que vemos é o apelo mais forte à sua dimensão cristológica. Esta, desvinculada daquela e de uma teologia ministerial que reconheça a diversidade de carismas e ministérios, tem servido de embasamento para um clericalismo exacerbado nos dias de hoje.

Se na economia mundial os anos oitenta ficaram conhecidos como a “década perdida”, o mesmo não afirmamos em relação aos presbíteros. Porém não é nada fácil analisar os seus efeitos nos anos noventa.

 

1. Sínodo sobre a Formação dos Sacerdotes[1]

Sem dúvida, um dos acontecimentos mais importantes da década, no campo da vida presbiteral, foi a realização do Sínodo sobre a Formação dos Sacerdotes. Embora tenha sido cercado de certo temor por maior fechamento no campo da formação, seu resultado surpreendeu a todos com a brilhante exortação pós-sinodal “Pastores dabo vobis”. O clima pré-sinodal não foi dos melhores para nós. Vínhamos de visitas canônicas com resultados não tão claros. O fechamento do Seminário do Regional Nordeste 2 e do seu Instituto Teológico criava uma expectativa não tão alvissareira para o processo de formação presbiteral do Brasil.

A exortação pós-sinodal teve excelente acolhida não só entre os formadores, mas em toda a Igreja. Dentre outros pontos, ratificou o processo formativo dos presbíteros da Igreja no Brasil, organizada em torno de algumas dimensões fundamentais do processo formativo (humano-afetiva, pastoral, intelectual, espiritual, comunitária e permanente), já presentes nas diretrizes nacionais da formação presbiteral.

Essa exortação pós-sinodal assumiu, como apelo da realidade, seis elementos: 1. Profundas e rápidas transformações das sociedades e das culturas de nosso tempo; 2. Multiplicidade e diversidade dos contextos em que a Igreja anuncia e testemunha o Evangelho; 3. Favorável desenvolvimento numérico das vocações sacerdotais registrado em diversas dioceses; 4. Urgência de nova organização dos conteúdos e dos métodos da formação sacerdotal; 5. Preocupação dos bispos e de suas comunidades com a escassez de clero; 6. Absoluta necessidade de que a nova evangelização tenha nos sacerdotes os seus primeiros novos evangelizadores.

No prisma destas novas circunstâncias eclesiais e culturais, concluiu que, diferentemente de alguns anos atrás, hoje, a urgência maior não está na problemática da identidade, mas no itinerário formativo e na qualidade de vida dos presbíteros.

Partindo desta constatação, dividiu a realidade sociocultural e eclesial entre fatores positivos e elementos problemáticos ou negativos, que emolduram a vida da Igreja hoje.

 

Fatores positivos

1. Sede mais forte e generalizada de justiça e de paz; 2. Sentido mais vivo do cuidado do homem pela criação e pelo respeito à natureza; 3. Procura mais aberta da verdade e da tutela da dignidade humana; 4. Empenho crescente por mais concreta solidariedade internacional e por nova ordem planetária, na liberdade e na justiça; 5. Desenvolvimento sempre maior do potencial de energias oferecido pelas ciências e pelas técnicas e difusão da informação e da cultura; 6. Crescimento da exigência ética, do sentido existencial e de uma objetiva escala de valores que permita estabelecer as possibilidades e os limites do progresso; 7. Queda dos preconceitos ideológicos e da violenta obstrução ao anúncio dos valores espirituais e religiosos; 8. Surgimento de novas e inesperadas possibilidades para a evangelização; 9. Reflorescimento da vida eclesial, em muitas partes do mundo; 10. Crescimento da difusão e do conhecimento das Sagradas Escrituras; 11. Expansão de muitas Igrejas jovens, com um papel importante na defesa e promoção dos valores da pessoa e da vida humana; 12. Reaparecimento do testemunho esplêndido do martírio, da fidelidade e da coragem de muitas Igrejas, chamadas a suportar perseguições e tribulações pela fé.

 

Elementos problemáticos ou negativos

1. Expansão do racionalismo; 2. Defesa exasperada da subjetividade; 3. Surgimento de um ateísmo prático; 4. Crescente desagregação familiar e obscurecimento ou falsificação do verdadeiro sentido da sexualidade humana; 5. Agravamento das injustiças sociais e concentração das riquezas nas mãos de poucos, como fruto de um capitalismo desumano; 6. Permanente ignorância religiosa; 7. Sufoco da catequese através de persuasivas mensagens dos meios de comunicação; 8. Má compreensão do pluralismo teológico, cultural e pastoral; persistente sentido de desconfiança e quase insensibilidade para com o magistério hierárquico; 9. Iniciativas unilaterais e redutoras das riquezas da mensagem evangélica, que transformam o anúncio e o testemunho da fé num exclusivo fator de libertação humana e social ou num alienante refúgio na superstição e na religiosidade sem Deus; 10. Crescente relativismo e subjetivação da fé; 11. Influente poder da sociedade de consumo; 12. Experiência distorcida da realidade; 13. Juventude generosa, por um lado, presa fácil das influências maléficas da atual desorganização social, por outro.

Tudo isso faz o documento elaborar um dos questionamentos mais cruciais para a Igreja: como formar sacerdotes que estejam verdadeiramente à altura destes tempos, capazes de evangelizar o mundo de hoje?

Na tentativa de elaborar uma resposta, a exortação apostólica sistematiza a problemática em dois pontos mais urgentes para serem enfrentados:

1)  A qualidade de vida e de exercício do ministério por parte das novas gerações de padres com características notavelmente distintas com relação às dos seus imediatos predecessores;

2)  A excessiva dispersão nas sempre crescentes atividades pastorais dos sacerdotes já empenhados, há um tempo mais ou menos longo, no exercício do ministério.

 

O documento detectou com exatidão dois problemas cruciais na vida dos presbíteros, no limiar da década de noventa: a deficiente qualidade de vida de uns e o cansaço e dispersão de outros.

A esses, agregamos a falta de perspectiva de alguns que passaram a cuidar excessivamente da própria vida em detrimento dos grandes ideais que a vida presbiteral exige e o desencanto de tantos outros que esperavam um aprofundamento nas transformações iniciadas com o advento do Vaticano II.

Cabe, ainda, ressaltar que a exortação apostólica apresenta uma teologia do ministério presbiteral com um equilíbrio magnífico entre as mediações cristológicas e eclesiológicas. Afirma que “os presbíteros são chamados a prolongar a presença de Cristo, único e sumo Pastor, atualizando o seu estilo de vida e tornando-se como que a sua transparência no meio do rebanho a eles confiado”. E mais: “O sacerdote tem como referência fundamental o relacionamento com Jesus Cristo Cabeça e Pastor: ele, de fato, participa, de modo específico e autorizado, na ‘consagração/unção’ e na ‘missão’ de Cristo (cf. Lc 4,18-19). Mas, intimamente ligada àquela, encontra-se a relação com a Igreja. Não se trata de relações simplesmente justapostas, mas profundamente unidas numa espécie de mútua imanência. Essa perspectiva do documento é importante, pois resgata a mediação eclesiológica, muitas vezes ofuscada por um acentuado cristologismo. Ressalta a necessidade da inserção do presbítero na Igreja, mistério, comunhão e missão como exigência intrínseca do ministério presbiteral. “O ministério ordenado tem uma radical ‘forma comunitária’ e pode apenas ser assumido como obra coletiva”. Essa visão do ministério presbiteral desenvolvida por João Paulo II, nessa exortação apostólica, corrobora uma teologia que corrige as exacerbações da atual onda do neoclericalismo e destaca bem a figura de Cristo como único mediador, segundo a belíssima reflexão sobre o sacerdócio presente na carta aos Hebreus. Como afirma Vanhoye: “A referência a Cristo mediador parece-me, com efeito, preferível à referência a Cristo-cabeça, tal como se fazia, por exemplo, no esboço pré-sinodal (referia-se ao sínodo de 1972), no qual se dizia que o sacerdote ‘representa Cristo enquanto é chefe da comunidade e está, por assim dizer, à frente dela’. Esta maneira de falar tem o inconveniente de obscurecer a função própria de Cristo-sacerdote que consiste em pôr a comunidade em relação com Deus. Em vez disso, falar de mediação dá a perspectiva correta, na qual entra também a função de cabeça ou chefe. Por outro lado, insistir no ‘representar Cristo-cabeça’ pode conduzir a um conceito autoritário do ministério[2].

A teologia dos ministérios, incluindo a reflexão sobre o ministério presbiteral, está, porém, necessitando de melhor sistematização por parte da Igreja. Tal carência transparece no cotidiano da práxis eclesial e se faz sentir de maneira mais forte quando se trata da relação do sacerdócio ministerial com o sacerdócio comum dos fiéis.

A década de noventa está deixando em aberto tal debate, que vai aos poucos amadurecendo entre os presbíteros. Por outro lado, percebe-se que o atual processo formativo não está enfrentando tal desafio, e os novos presbíteros, sempre com gratas exceções, vão optando — será consciente? —, por uma forma bastante clerical no exercício do ministério. É o que revelou, em parte, a pesquisa realizada junto aos seminaristas, no começo da década.

 

2. Pesquisa nos seminários[3]

Numa pesquisa realizada em 1993, pelo Setor Vocações e Ministérios da CNBB, com mais de 60% dos seminaristas do Brasil, temos algumas constatações que, embora a precariedade da pesquisa, nos ajudam a detectar algumas tendências no quadro dos futuros presbíteros.

Num quesito da pesquisa consultava-se a preferência e a rejeição dos seminaristas na forma de exercer o ministério. Neste campo foi possível uma comparação com a pesquisa anterior, de 1982.

Pe. Antoniazzi, fazendo esse trabalho, constatou: “As tarefas preferidas em 1982 (vigário de paróquia, atividade missionária em regiões carentes de padres) continuam nos primeiros lugares, mas perderam força (-25% de preferências para a opção vigário; -21% para a atividade missionária). Mais ainda caiu a preferência para o trabalho com as comunidades eclesiais de base (CEBs): -47% de preferências e leve aumento de rejeição. Com isso, em 1993, a pastoral das CEBs é superada pela pastoral com os jovens. Em geral, caíram as preferências para com a pastoral voltada para os pobres e minorias marginalizadas: -56% para a pastoral da terra; -40% para a pastoral com os pobres das periferias urbanas; -47% para a pastoral dos direitos humanos; -78% para a pastoral operária; – 40% para a pastoral dos migrantes. A pastoral carcerária permanece estagnada nas preferências, num nível muito baixo, e vê crescer rejeição”[4].

Por outro lado, analisando as rejeições, embora se constate que a tarefa de capelão militar continue sendo a mais rejeitada, em relação a 1982, cresceu em 150% a sua preferência. Menor crescimento tiveram as áreas de trabalho junto a pessoas influentes na sociedade, empresários e políticos.

Sempre chamando a atenção para a dificuldade de tirar conclusões absolutas, o que a pesquisa, neste campo, deixa entrever é que o agravamento da situação social não encontrou eco no processo formativo dos futuros presbíteros. Em outras palavras, pode-se afirmar que diminuiu a incidência da realidade sociopolítica na formação dos seminaristas. Pe. Antoniazzi conclui: “A geração atual dos seminaristas (como, parece, a dos jovens seus contemporâneos) não manifesta claros projetos de mudança e cuida mais da própria ‘realização pessoal’”[5].

Comparando os dados da pesquisa com as reclamações que os presbíteros fazem nos seus encontros nacionais, ficamos com uma interrogação intrigante: os seminaristas avaliam como altamente positiva a formação que recebem, sobretudo a intelectual, por outro lado, os novos presbíteros constantemente reclamam do baixo nível da formação recebida. Será que os primeiros anos de exercício ministerial são suficientes para colocar os presbíteros em defasagem com a realidade que enfrentam? Será que a vida do seminário está tão distante da verdadeira realidade que não permite ao seminarista perceber que seu estudo não o habilita a lidar com a sociedade atual? Pelos dados da pesquisa, percebe-se uma fuga em relação às pastorais mais “sociais” e um voltar-se para as tarefas mais tradicionais da Igreja. Vendo a rapidez com que a sociedade muda, cabe uma pergunta mais: quais são as pistas de interpretação do fenômeno do fechamento dos seminaristas às questões mais afins da modernidade?

Como vimos, a Pastores dabo vobis alertava para a deficiente qualidade de vida de uns e o cansaço e dispersão de outros. E a mesma exortação apostólica apontava duas pistas de solução: cuidar da programação e realização dos itinerários educativos para o sacerdócio ministerial e estimular, cada vez mais, a formação permanente.

 

3. Os presbíteros e seus encontros

 

4º Encontro Nacional de Presbíteros (ENP)

Com o tema dos “Desafios da evangelização para o presbítero hoje”, a Comissão Nacional do Clero (CNC) realizou o seu 4º ENP, primeiro da década, em Itaici, de 11 a 16 de fevereiro de 1992, e reuniu 368 presbíteros, representando 198 dioceses. Na introdução do texto preparatório, justificava a escolha do tema como sendo uma maneira de inserir o encontro “na busca de um renovado esforço de evangelização, que toda Igreja hoje procura”[6].

Na realidade, essa data estava cercada de simbolismo para todo o continente latino-americano. Os quinhentos anos da chegada dos colonizadores ao continente vinha provocando inúmeras reflexões e manifestações no seio da Igreja. Uns celebravam a data como cinco séculos de evangelização, outros preferiam referir-se ao evento como memória da conquista. Essa diferença de hermenêutica acerca dos quinhentos anos gerava certo mal-estar no seio da Igreja. E, nesse clima, o episcopado latino-americano preparava-se para a sua IV Conferência Geral, a realizar-se na capital da República Dominicana, em outubro daquele ano.

É importante destacar ainda os constantes apelos do Papa para uma nova evangelização. Desde a XIX Assembleia do CELAM (Haiti, 1983), o Papa havia desencadeado todo um projeto visando à celebração do ano 2000, sob o título de “Nova Evangelização”. Em outubro de 1984, em Santo Domingo, na abertura do novenário de anos em preparação à celebração dos 500 anos da evangelização da América Latina, o Papa retoma o tema da Nova Evangelização. Porém é em maio de 1988, na cidade de Salto, no Uruguai, que João Paulo II precisa melhor a nova evangelização. É aí que ele diz que a evangelização deve ser nova em ardor (conversão do coração, da vida), método (cada fiel é missionário, anunciador de Jesus), e expressão (em linguagem adaptada ao mundo moderno, aos MCS, de forma inculturada).

Com essa moldura conjuntural, a CNC, acrescida de um representante de cada Regional da CNBB, indicou três passos para a preparação do 4º ENP, em três interrogações: 1ª) A quem evangelizar? (Compreender os desafios da realidade); 2ª) Como evangelizar? (Apontar pistas pastorais); 3ª) Quem evangelizar? (Situar o ministério do presbítero, de modo que estimule juntamente seu empenho missionário e sua realização pessoal.)

Analisando a primeira parte, percebe-se um esforço dos presbíteros em descobrir aspectos positivos da modernidade. É visível, porém, que há muito mais receio e temor que esperanças. Acentua a centralidade da economia ou o primado da produção que desloca a religião do eixo da sociedade e a privatiza; destaca a especialização como causadora de uma fragmentação da vida social e intelectual; lamenta a forte crise de valores religiosos, morais e éticos, a crise das ideologias e instituições; denuncia a ambiguidade dos MCS. Afirma que tudo isso incentiva um clima de incertezas e provisoriedades, abalando as ideologias que apontavam a possibilidade de um futuro melhor.

Olhando mais de perto o campo religioso, os presbíteros constatavam um crescente pluralismo, sobretudo no campo das experiências religiosas subjetivas. Isso provocava um enfraquecimento da religião institucionalizada. Era época do aparecimento mais visível da chamada adesão parcial, uma espécie de mistura de crenças e práticas de confissões diferentes e experimentação de novos cultos. Ainda mais grave, os presbíteros constatam o avanço fenomenal do indiferentismo. Trata-se de um desafio bastante novo para a Igreja católica. Acostumada a enfrentar adversários bastante hostis, ela se vê agora diante de um fenômeno inédito na sua história. São inúmeras pessoas que, sem renunciar totalmente à crença em Deus, de fato, deixam qualquer prática religiosa. O próprio texto preparatório percebe que carregou demais as tintas na análise do chamado mundo moderno. “Esta análise ou avaliação da modernidade, vista sob o ângulo dos últimos anos e de sua ‘crise’, pode parecer demasiadamente negativa”[7].

O que o tempo vem confirmando é que os presbíteros se sentem, cada vez mais, despreparados para enfrentar os desafios de uma sociedade que muda de forma rápida demais. As mudanças profundas e rápidas que caracterizam a sociedade de hoje têm, no que diz respeito à celeridade, sua gênese na segunda metade da década perdida, os anos 80. É certo que muitos identificam a década de 80, sobretudo seus cinco primeiros anos, como tempo de um imobilismo atroz. Porém, no final de 1986, iniciaram-se processos que provocaram mudanças de enorme importância. Os fatos sucederam-se com uma rapidez tão impressionante que estamos longe de esgotar suas análises. Reformas na URSS, distensão internacional, perda do monopólio de poder de vários partidos comunistas na Europa oriental, queda do muro de Berlim, fim da ordem geopolítica internacional que vigorava desde o fim da última guerra mundial, fim do regime do apartheid na África do Sul, nova formulação do sistema capitalista (consenso de Washington), acirramento das lutas étnicas, novas ondas “socializantes” na Europa (França e Inglaterra), as grandes revoluções no mundo tecnológico, na informática, os processos de globalização…[8]. Poderíamos continuar enumerando imensa gama de fatos que impulsionaram mudanças que ainda estamos longe de entender em profundidade. A insegurança que tudo isso provoca pode estar expressa nas atuais opções de considerada parcela do clero jovem, como constatamos em pesquisa realizada junto aos seminários. Vale apena destacar, mais uma vez, a constatação do Pe. Antoniazzi: “A geração atual dos seminaristas (como, parece, a dos jovens seus contemporâneos) não manifesta claros projetos de mudança e cuida mais da própria ‘realização pessoal’”[9].

De posse desta análise, os presbíteros levantaram algumas pistas, que continuam atuais, ao redor de três ideias-força: 1ª) Em nível da pessoa e da experiência subjetiva (Valorização da pessoa e da experiência subjetiva); 2ª) Em nível da comunidade e dos grupos (Diversificação das formas de expressão e de vivência comunitária); 3ª) Em nível da sociedade e das macroestruturas (Por uma presença mais significativa na sociedade).

Analisando o insuficiente número de presbíteros para tão grande missão, concluem: “Será necessário transferir maciçamente a novos ministros e aos leigos muitas das tarefas atualmente desempenhadas pelos presbíteros”[10]. E, simultaneamente, percebem que serão necessárias outras medidas: renovar e qualificar o ministério presbiteral, repartir melhor as tarefas prioritárias entre os presbíteros, assumir o processo de formação permanente, renunciar a tarefas meramente executivas e dedicar mais tempo ao atendimento das pessoas e à formação dos leigos. Quanto a estes, os presbíteros percebem que é urgente reconhecer o seu potencial evangelizador, dar-lhes mais espaço de liberdade, promover sua participação em todos os níveis, efetivar sua formação e entregar-lhes responsabilidades apostólicas e pastorais, tanto aos que atuam diretamente no campo eclesial, como aos que o fazem na sociedade[11].

O 4º ENP deixou transparecer certo desencanto da parte de muitos presbíteros em relação às mudanças socioeclesiais. O seu lema: “Presbíteros, atendam aos sinais dos tempos”, mereceu um destaque na mensagem final onde transparece nitidamente uma exortação de esperança, na tentativa de reerguer o ânimo dos companheiros de caminhada. Diz a mensagem final: “Constatamos nestes dias a coragem e a perseverança de milhares de irmãos presbíteros que conservam vivos os seus ideais. Pudemos, no entanto, perceber também o cansaço, a incerteza e o desânimo que tomam conta de muitos irmãos presbíteros. As tarefas pastorais são muitas. Os resultados parecem minguados. Às vezes, nos sentimos como os discípulos no lago de Genezaré: ‘Trabalhamos a noite inteira sem nada apanhar’ (Lc 5,5)”[12]. Na tentativa de explicitar as razões para tal situação, a mensagem final diz: “Uma sensação de impotência se apodera de nós quando observamos na sociedade as mil faces do processo de empobrecimento de nosso povo, fruto de um sistema perverso, sem rosto humano”. E, por outro lado, os presbíteros se mostram também apreensivos quanto aos rumos da Igreja: “Um sentimento de mal-estar nos invade quando observamos algumas tendências dentro de nossa Igreja. Deixa-se para trás a atitude evangélica da acolhida fraterna, do perdão e da misericórdia a que o Concílio Vaticano II nos motivou. Abre-se cada vez mais espaço à rigidez da lei e aos interesses internos da instituição eclesiástica. Deixa-se em segundo plano a dimensão profética da Igreja, sensível ao destino comum de todos, à coletividade humana”. E, tentando transmitir um apelo de esperança para todos os presbíteros, a mensagem final alertava: “Não é hora de depor as redes, mas sim de sonhar, e sonhar juntos. É hora de reviver o amor primeiro, de reavivar o ardor inicial do nosso ministério presbiteral. É hora de repensar nossa missão evangelizadora”.

Digna de registro é a fundação da Associação Nacional de Presbíteros (ANPB) durante o 4º ENP, no dia 13 de fevereiro de 1992. Nessa ocasião, foi eleita e empossada a primeira diretoria da entidade (composta de 12 pessoas). A ideia da criação de uma Associação de Presbíteros nasceu no seio dos ENPs e ganhou força com as palavras do Papa João Paulo II, na sua fala aos presbíteros, em Natal, no ano de 1991. Afirmava o Papa: “A Igreja vos reconhece, inclusive, o direito a terdes vossas próprias associações em nível diocesano, ou, se preciso, em nível interdiocesano”[13].

Mesmo assim, a ANPB nasceu sob o signo da suspeita de inúmeros bispos que a enquadravam na categoria de sindicato dos padres. E embora a ANPB tenha nascido com a expressiva adesão de 234 sócios, conte com um estatuto registrado em cartório, com o apoio de um grupo de bispos presente no 4º ENP e aprovada oficialmente pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, ela não conseguiu ainda articular os presbíteros do país e até hoje não constitui de fato sua personalidade.

 

O 5º Encontro Nacional de Presbíteros

O 5º ENP, o segundo da década de noventa, teve como tema: “O presbítero no processo de urbanização”, e foi realizado em Itaici, de 4 a 9 de fevereiro de 1994. Reuniu 380 presbíteros, representando 204 dioceses brasileiras (83% do total). Justificam a escolha do tema devido aos desafios provocados pelas reflexões que emergiram na preparação das Diretrizes da Ação Pastoral da Igreja no Brasil, pelo documento final da IV Conferência Geral do Episcopado da América Latina, realizada em 1992, em Santo Domingo, capital da República Dominicana, pelo acelerado processo de urbanização que acontece no mundo inteiro e, sobretudo, no Brasil, onde 77,5% da população já vivia na cidade, e ainda por razões teológicas, afirmam. Veem a cidade como “lugar-sinal-instrumento da realização futura do Reino de Deus ou do acontecer trágico do antirreino”.

Uma vez mais, o texto preparatório adotou o método ver-julgar-agir. Levantou as características mais marcantes da realidade socioeconômicas e os questionamentos éticos; destacou a necessidade da realização pessoal na cidade; buscou algumas respostas pastorais.

Na realidade, percebeu-se, pelos dois documentos elaborados antes do 5º ENP, um preparatório e outro de trabalho, que os presbíteros estavam longe de encontrar pistas concretas de atuação na cidade. Detectaram serem as estruturas eclesiais refratárias ao meio urbano, embora o cristianismo tenha forte conotação citadina no seu nascedouro. Porém, não se animaram a retomar as críticas à estrutura paroquial.

O 5º ENP serviu mais para colocar em pauta o tema da atuação da Igreja na cidade. O texto preparatório termina elencando uma série de boas intenções apenas: “Reconhecer e fomentar o protagonismo dos leigos, descobrir e anunciar o Deus da vida, comunicar a fé cristã centrada na grandeza do Mistério Pascal, celebrar a Reconciliação e a Eucaristia a partir de e em vista da vida na cidade, viver e anunciar a moral cristã como promoção e defesa da vida, e, por fim, viver como Cristo a opção pelos pobres… eis os meios que tem a Igreja e, nela, os presbíteros, para se fazerem presentes no processo atual de urbanização”[14].

A mensagem final ratifica a visão da realidade dos encontros anteriores: “No Brasil, o fato urbanização se dá em meio a um sistema de capitalismo periférico neoliberal, que acelera e acentua ainda mais a apartação entre os poucos ricos e a enorme massa sobrante dos miseráveis, que sacraliza o sacrifício de vidas inocentes de tantos irmãos e irmãs nossos”[15]. Reconhece, como já o havia feito no 4º ENP, que há uma onda pessimista no meio de parte significativa do clero e faz um contundente apelo: “Não podemos deixar-nos contagiar pela apatia, pelo medo e pela desesperança — antivalores propalados pelo diabólico sistema em que vivemos”[16].

Pelo menos, na linha da constatação, os dois ENPs ajudaram os presbíteros a destacar: a importância da subjetividade e da valorização da experiência pessoal da fé de Deus em Jesus Cristo e o crescente pluralismo religioso. Isso já havia aparecido no 4º ENP, mas no quinto emergiu com mais força devido ao forte processo de despersonalização provocado pela vida na cidade e pela busca ansiosa por novas experiências religiosas, cada vez mais distante das Igrejas burocratizadas e racionalizadas[17].

É importante ressaltar a primeira assembleia da Associação Nacional de Presbíteros do Brasil (ANPB) que antecedeu ao 5º ENP e que recebeu dos participantes deste forte apoio: “… antecipou a este nosso 5º ENP, a primeira assembleia da ANPB, realizada em São Paulo, entre os dias 1º a 4 de fevereiro. Ficamos mais felizes e encorajados com o documento final desta assembleia. Ele representa e engrossa nosso clamor e nossa ‘postura enérgica em defesa da vida’. Acolhemos os compromissos daqueles que estavam participando desse acontecimento inédito da Igreja no Brasil”[18].

O documento ao qual se faz referência no parágrafo acima é, na verdade, muito mais crítico ao sistema do país que a mensagem final do 5º ENP. A mensagem da ANPB, com o título — “O que fizeste a teu irmão?” — reflete bem a situação que atravessava o país. Durante e depois do processo de impeachment do Presidente Fernando Collor de Melo, a sociedade brasileira conheceu a instalação de uma série de Comissões Parlamentares de Inquérito que, na sua maioria, só serviram para explicitar a cultura do corporativismo parlamentar e da impunidade que grassa no país. Afirma a mensagem: “Os jornais e revistas, o rádio e a televisão vêm apresentando aspectos de um imenso holocausto da vida, sacrificada aos deuses do projeto neoliberal, que se concretiza na sujeição ao FMI e na pretensa modernização do país e de todo o continente.

Tudo isso se esconde, hoje, atrás da impunidade dos corruptos e corruptores pequenos e grandes grupos econômicos dentro e fora das instâncias do poder que se aproveitam enganosamente da apressada revisão constitucional, escamoteiam e diluem as investigações e os inquéritos, e ameaçam a vida dos que levantam a voz”[19].

(Continua no próximo número)



[1] “Pastores dabo vobis”, exortação pós-sinodal de João Paulo II, Ed. Paulinas, São Paulo, 1992.

[2] Martini, Carlo Maria e Vanhoye, Albert, Bíblia e Vocação, Ed. Loyola, São Paulo, 1987.

[3] Estudos da CNBB, nº 74, Situação e vida dos seminaristas maiores no Brasil II, Paulus, São Paulo, 1995.

[4] Op. cit., p. 31.

[5] Op. cit., p. 37.

[6] “Instrumento Preparatório para o 4º ENP”, in arquivo do Setor Vocações e Ministérios (SVM) da CNBB.

[7] Idem, p. 11.

[8] Cf. Júlio Santana, in Tempo e Presença, nº 253, 1990, pp. 5-8.

[9] Op. cit., p. 37.

[10] Idem, p. 34.

[11] Idem, p. 35.

[12] Mensagem final do 4º ENP, arquivo do SVM da CNBB.

[13] João Paulo II aos padres do Brasil reunidos em Natal, aos 13.10.1991, in L’Osservatore Romano, ed. em port. de 20.10.1991 – pp. 537/9.

[14] Idem, p. 37.

[15] Mensagem Final do 5º ENP, arquivo do SVM da CNBB.

[16] Idem.

[17] Documento de Trabalho do 5º ENP, p. 13. Arquivo do SVM da CNBB.

[18] Mensagem Final do 5º ENP, Arquivo do SVM da CNBB.

[19] Mensagem da ANPB, quando da sua fundação. Arquivo do SVM da CNBB.

Pe. Manoel José de Godoy (Comissão Nacional do Clero — 22)