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Publicado em Março-Abril de 2007 (pp. 22-28)

Vida e missão no chão da Amazônia

Por Pe. José Boeing, svd

Os movimentos nacionais e internacionais interessados na Amazônia cresceram nos últimos anos. Se, por um lado, avançam aqueles com megaprojetos ligados à exploração das riquezas naturais e ao agronegócio, multiplicam-se, por outro, os que buscam garantir o desenvolvimento que respeite a biodiversidade existente em toda a região.

Este texto, considerando a importância da Amazônia no cenário brasileiro, latino-americano e mundial, reflete sobre as riquezas e contradições dessa região, destaca os movimentos sociais e eclesiais que se articulam em sua defesa e aponta os encantos e entraves presentes nas ações pastorais ali desenvolvidas. Entre os diferentes projetos, há tanto os que intentam se instalar nas fronteiras por vias ilegais como há os que resistem e buscam garantir a biodiversidade sustentável na região. Esse é o chão de vida e de missão.

 

1. Situação da Amazônia na atualidade

A Amazônia brasileira compreende os Estados do Mato Grosso, Amazonas, Pará, Acre, Rondônia, Roraima, Amapá, Tocantins e parte do Maranhão. Sua área é da ordem de 3.581.218 quilômetros quadrados (42,07% do território nacional). Caracteriza-se como uma área majoritariamente rural, com grandes distâncias separando as poucas cidades existentes. O acesso aos diversos povoados e lugarejos ocorre, na maioria das vezes, por meio de embarcações que navegam nos inúmeros rios da região. Os dados do Censo 2000 apontam que a Região Norte tem uma população em torno de 13 milhões de habitantes, dos quais 30% vivem na área rural.

Os grandes projetos de exploração das riquezas naturais e o agronegócio, que vem sendo introduzido atualmente na região, por um lado favorecem a economia nacional e certo número de cultivadores que utilizam a tecnologia agrícola, mas, por outro, inspiram sérias apreensões quanto ao futuro e à sobrevivência da população nativa e ao equilíbrio do meio ambiente. As leis concernentes ao meio ambiente, especialmente as relativas ao uso da terra, não são respeitadas; além disso, os órgãos fiscalizadores funcionam com pouca ou nenhuma eficácia, fatos esses que violam os direitos dos antigos moradores e comprometem a biodiversidade.

Os espaços naturais da região amazônica, apreciados no mundo pela sua diversidade biológica, são vitais para o equilíbrio ambiental de todo o planeta. Por isso tanto se fala na Amazônia, embora sejam poucas as iniciativas que efetivamente contribuem para um desenvolvimento sustentável e viável da região e de seus habitantes.

 

1.1. O fascínio da diversidade

A biodiversidade tem sido tratada como vetor-chave na busca do desenvolvimento da Amazônia. Dada a exuberância das riquezas naturais existentes na região, vários atores estão envolvidos, entre os quais se destacam: 1) em nível local, os povos indígenas e as comunidades tradicionais — seringueiros, ribeirinhos, caiçaras, remanescentes de quilombos, pescadores e agricultores que convivem com a biodiversidade há muito tempo e desenvolvem saberes e modos específicos de lidar com plantas, animais, solo etc.; 2) em nível nacional, o Estado, que, de acordo com a Convenção sobre Diversidade Biológica, detém a soberania sobre os recursos genéticos e por isso mesmo deve definir políticas públicas de acesso a eles; 3) em nível internacional, a chamada “comunidade internacional”, que, em princípio, acolhe os interesses dos diferentes países, mas na prática vem sistematicamente satisfazendo as reivindicações da biotecnologia industrial mundial, cujo objetivo é assegurar o controle do acesso a esses recursos. Perguntado sobre a internacionalização da Amazônia, Cristovam Buarque, professor da UNB e ex-ministro da Educação, deu a seguinte resposta: “Se a Amazônia, na ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro, o capital financeiro e os arsenais nucleares dos EUA”.

As relações entre os diversos níveis e atores nem sempre ocorre. Aparentemente, seria óbvio esperar que o Estado se posicionasse a favor das comunidades locais para defender os interesses delas, entendidos como interesses comuns, uma vez que o exercício da soberania sobre os recursos deveria ser feito em prol dos habitantes do território, mas, na maioria das vezes, não é isso que se verifica. Com efeito, o Estado tem conduzido sua política tendo em vista a exportação, especialmente de grãos, promovendo um desenvolvimento que atropela, contamina e destrói as riquezas da região.

A Amazônia, sem dúvida, abrange a maior biodiversidade do planeta. Faz parte dela mais da metade das plantas tropicais da Terra. Estima-se que, numa área de 250 hectares, podem ser encontradas 750 espécies diferentes de árvores, 400 tipos de aves e 120 espécies de mamíferos. A variedade da fauna, da flora e dos microorganismos constitui a mais rica biodiversidade planetária. Na Amazônia encontram-se 8% da água doce do mundo, espalhada em inúmeros rios que banham a região.

Paulo Henrique Costa Mattos, professor universitário e assessor dos movimentos sociais de Gurupi, Estado do Tocantins, explica que, segundo estimativas científicas, existem hoje, em todo o planeta, 30 milhões de espécies de seres vivos, dos quais 1,4 milhão já foi catalogado. Das espécies catalogadas, calcula-se que uma em cada dez está na Amazônia. Cerca de 35% dos primatas, 11% dos pássaros, 37% dos répteis e 61% dos anfíbios vivem na Amazônia. Além disso, ela abriga 30 mil exemplares de plantas, o que representa 10% de todo o planeta. Uma reportagem da revista Veja (nº 33, dezembro de 1997) sobre a Amazônia afirma que, “com relação a peixe de rios, a Amazônia é insuperável. Ali nadam entre 2.500 e 3 mil espécies diferentes. Apenas no Rio Negro, já foram descritas 450 espécies. Em toda a Europa, as espécies de água doce não passam de 200”. Essa diversidade está cada vez mais ameaçada pela implementação de projetos que não consideram o dinamismo e a originalidade da vida na região. Referindo-se às consequências de tal procedimento, Paulo Adário, coordenador da campanha do Greenpeace na Amazônia, afirma: “Conter a destruição das florestas se tornou uma prioridade mundial, e não apenas um problema brasileiro”. De fato, se não ocorrerem reações de toda ordem, a destruição continuará visível e as consequências serão terríveis para todo o planeta.

 

1.2. Antigos e novos projetos

A história da ocupação da Amazônia desde a chegada dos portugueses, que adentraram nas florestas com suas ambições políticas e econômicas, tem sido drástica. Tal história ganhou novos contornos com a intensificação da ocupação mediante as grandes empresas seringalistas de exploração dos recursos naturais da floresta e a consequente expansão do capital sobre o trabalho.

O ciclo da borracha, a partir de 1850, com as empresas seringalistas da Inglaterra e, mais tarde, em 1935, com a Ford dos Estados Unidos, impulsionou nova etapa de exploração da Amazônia. Na região expandiram-se os seringais, os garimpos, as fazendas e os projetos de mineração com seus respectivos donos, que ampliaram e delimitaram terras para os seus empreendimentos. No caso das grandes empresas agropecuárias e mineradoras, o governo — além de conceder-lhes incentivos fiscais — chegou a repassar-lhes recursos públicos, estimulando-as a se estabelecer na região e a se apropriar de vastas extensões de terra. Assim, o próprio governo facilitou a concentração do capital na Amazônia por meio da posse da terra.

O governo militar, em 1966, criou a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), porque os militares concebiam a região apenas como um vazio demográfico, fundamentando essa concepção nos slogans: “terra sem homens para homens sem terra” e “integrar para não entregar”. A Amazônia era entendida como um monstro que deveria ser dominado. Essa visão inspirou grandes projetos com investimentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), do Banco da Amazônia (Basa) e da Sudam, também para infraestrutura e estradas. Até 1985 tinham sido financiados 581 projetos agropecuários; desses, apenas 166 (25%) foram implementados. Porém, os recursos que deveriam ser aplicados neles e foram desviados não retornaram para os cofres públicos; em vez disso, aumentaram o capital dos latifundiários.

O Projeto Jari, de Daniel Ludwig, foi implementado em 1968 com 3.654.421 hectares para a exploração de celulose no Estado do Pará. Tornou-se o segundo maior latifúndio na Amazônia, pois o primeiro é de Cícero Rego de Almeida, com 4,7 milhões de hectares, registrados no cartório de Altamira. Em 1969, surgiram os grandes projetos para a exploração da bauxita pelas empresas Alcoa e Mineração Rio do Norte, para a extração do ferro, em Carajás, pela Companhia Vale do Rio Doce e para a hidrelétrica de Tucuruí. Atualmente, está em discussão a construção da hidrelétrica de Belo Monte no Rio Xingu, município de Altamira, projeto que suscita uma série de conflitos resultantes da desapropriação de terras e dos possíveis efeitos do impacto ambiental.

Outro problema sério decorre da instalação, de forma irregular, do porto da empresa Cargill em Santarém, Pará, e da expansão da soja na Amazônia, principalmente naquele estado. Essa expansão vincula-se às dinâmicas da especulação e da apropriação fundiária desordenada e ao uso predatório dos recursos naturais, o qual, segundo estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ocasiona 26.000 quilômetros quadrados de desmatamento ao ano. Por isso, as organizações e os movimentos ambientais, como o Greenpeace, pressionaram os grandes compradores de soja na Europa, como o McDonald’s e outros, mostrando a irregularidade da produção na Amazônia. Foi imposta uma moratória, sendo estipulado um prazo de dois anos para os produtores de soja regularizar, junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), as terras pretendidas para o plantio da soja. Essa exigência faz parte dos critérios que compõem a pauta de negociação do Greenpeace com os consumidores europeus e os movimentos sociais, por um lado, e os produtores de soja, por outro. A intenção é obter de imediato uma redução dos impactos negativos na região amazônica, e, para isso, a medida deve ser adotada pelos grandes compradores e consumidores de soja a partir da safra de 2006/2007.

Outro grande intercâmbio comercial está sendo instituído por meio da Integração da Infraestrutura Sul-Americana (IIRSA), tendo como principal protagonista o Brasil, cujo objetivo é abrir fronteiras para comercializar os produtos por várias vias de transporte. Guilherme Carvalho esclarece que esse projeto tem quatro frentes: 1) Eixo multimodal — Integração Leste-Oeste Sul-Americana, conectando os oceanos Atlântico e Pacífico por meio da Amazônia, transporte fluvial (2.862 quilômetros no Brasil e 1.580 na Colômbia) e 474 quilômetros de estradas: rota para o transporte de petróleo, gás natural, minério e madeira; 2) Eixo Peru-Brasil-Bolívia — escoamento da soja de Rondônia e Mato Grosso; 3) Empreendimentos — fábrica de celulose, investimento de US$ 300 milhões; Smelter — Alumínio (US$ 650 milhões); frigorífico (US$ 25 milhões); processador de soja (US$ 85 milhões); torrefadora de café (US$ 30 milhões) e curtume (US$ 85 milhões); 4) Rodovias — Acre, BR-317; Amazonas, BR-220 e 317; Roraima, BR-401; Amapá, BR-156; Pará, BR-163.

Está claro que tais empreendimentos, embora tenham uma perspectiva de desenvolvimento, obedecem a um modelo proposto de fora e de cima para baixo, sem levar em conta a vida dos povos amazônicos, com suas necessidades, preocupações, interesses, desejos e sonhos. Essa prática acaba comprometendo a vida nas suas diferentes expressões.

Verifica-se na Amazônia que o grande capital a cada ano investe mais na exploração dos recursos naturais, sejam eles minérios, madeiras, plantas medicinais (patentes e piratarias), peixes, animais e a floresta em geral. São visíveis os impactos dos grandes grupos já instalados na região: Ferro Carajás, Calha Norte, Albrás, Alunorte, Alunar, Zona Franca, Alcoa, entre outros.

Diante dessa realidade, emergem algumas necessidades urgentes, a saber: a implementação dos compromissos nacionais e internacionais assumidos, em 1992, no âmbito da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB); a destinação das áreas griladas na região amazônica (que, de acordo com dados da CPI da Grilagem, chegam a 100 milhões de hectares ou a 20% da Amazônia Legal) prioritariamente para a criação de reservas extrativistas e para o Projeto de Desenvolvimento Sustentável; o estabelecimento das unidades de conservação; o redirecionamento do Programa Nacional de Reforma Agrária para áreas já desmatadas, com estímulo à agricultura familiar; o fortalecimento das instituições encarregadas da proteção ambiental, como o Ibama e as Secretarias Estaduais de Meio Ambiente; a demarcação de todas as terras indígenas; o fortalecimento dos movimentos sociais em toda a Amazônia. Para efetivar essas exigências, é preciso envolver a sociedade civil organizada, o setor produtivo e o governo na busca de soluções. Sem um trabalho conjunto, torna-se impossível um desenvolvimento que potencialize a sobrevivência da região amazônica.

 

 

2. Movimentos em defesa da Amazônia

Um dos principais problemas da região amazônica é a grilagem de terras, especialmente por meio da falsificação de documentos, com o intuito de privatizar as terras públicas. Diante disso, nos diferentes estados da região amazônica, realizam-se cursos, encontros, debates a fim de conscientizar a população, especialmente os trabalhadores rurais, tendo em vista a ampliação da resistência e a defesa dos direitos humanos. A luta pela preservação da Amazônia transformou-se em uma questão mundial porque o desequilíbrio ambiental decorrente de sua destruição poderá ter um impacto sobre todo o planeta e provocar uma tragédia sem precedentes na história humana. A necessidade de garantir a vida em todos os sentidos tem impulsionado o surgimento de movimentos sociais e eclesiais em defesa da Amazônia que buscam oferecer resistência e propor alternativas aos ataques sistêmicos do poder político e econômico contra o ecossistema e contra a população nativa. São problemas que exigem uma luta constante no sentido de promover a justiça e a paz.

 

2.1. Movimentos sociais

Os movimentos sociais dos trabalhadores, povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e entidades da sociedade civil organizada sempre resistiram ao modelo econômico excludente e propuseram projetos ajustados à realidade amazônica. Entre as inúmeras organizações prontas para se contrapor aos projetos que não respeitem a biodiversidade estão as reservas extrativistas. A proposta de criação dessas reservas e o desenvolvimento sustentável na Amazônia têm sua origem principalmente na luta de Chico Mendes e dos seringueiros que organizavam o “empate”, estratégia para impedir, empatar uma atividade — no caso, o desmatamento. Em decorrência dessa luta, o Incra, mediante a Portaria nº 627, de 30 de julho de 1987, criou a primeira reserva extrativista. Hoje, 32% da floresta da Amazônia está protegida e é coordenada pelo Sistema Nacional de Unidade de Conservação (SNUC).

Destacam-se ainda alguns outros modelos de projetos, especialmente a Área de Proteção Ambiental (APA), os parques nacionais, as reservas biológicas, os assentamentos, o agroextrativismo, a Floresta Nacional e o Projeto de Desenvolvimento Sustentável. São conquistas que resultaram da organização e da luta de inúmeras associações, movimentos, sindicatos, conselhos de seringueiros, ribeirinhos, indígenas, remanescentes de quilombos, sem-terra, pesquisadores e núcleos de universidades públicas, que uniram forças em prol de um desenvolvimento que preserve a região.

Com a chegada da Cargill a Santarém, em 2001, e dos plantadores de soja ao Pará, surgiu a Frente em Defesa da Amazônia (FDA). Movimento que congrega cidadãos e lideranças dos movimentos sociais e estudantis e das pastorais sociais da Igreja e tem como objetivo consolidar um projeto que garanta a estabilidade dos trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade na Amazônia. Em 2003, só em Santarém, foram presos 18 grileiros de terras públicas, entre os quais funcionários do Incra e da Rice Imobiliária, que produzia a documentação falsa. Essas ações, mesmo que insuficientes, contribuem para barrar a grilagem e o desmatamento na região.

 

2.2. Movimentos de Igreja na Amazônia

Um marco da caminhada pastoral na região amazônica foi o Encontro Inter-Regional dos Bispos da Amazônia, de 24 a 30 de maio de 1972 em Santarém (PA). Esse evento constituiu um passo importante para a tomada de posição diante dos desafios dessa imensa região. As palavras enviadas pelo Papa Paulo VI sobre o tema “Cristo aponta para a Amazônia” inspiraram as linhas prioritárias da pastoral da Amazônia. Impulsionada pelo Concílio Vaticano II, pela Conferência do Episcopado Latino-Americano, em Medellín (1968), e pelas experiências e anseios das comunidades, a Igreja na Amazônia escolheu como diretrizes a encarnação na realidade e a evangelização libertadora. Tais diretrizes é que orientaram e definiram as quatro prioridades para a pastoral da Amazônia: 1) a formação de agentes de pastoral; 2) as comunidades eclesiais de base; 3) a pastoral indígena; 4) a abertura das Rodovias Transamazônica e Cuiabá-Santarém. Em 1972, surgiu o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e, em 1975, num momento difícil para a Igreja no Brasil por causa da ditadura militar, foi criada a Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Com o tema “A Igreja que se faz carne e arma a sua tenda na Amazônia”, em 1997, na cidade de Manaus, os bispos da Amazônia celebraram os 25 anos do encontro de Santarém. Com base nas análises das violências e injustiças que os povos da Amazônia vinham sofrendo, os bispos assumiram algumas perspectivas para a ação evangelizadora da pastoral da Amazônia: inculturação, encontrando o rosto da Igreja na Amazônia; cidadania, buscando formar dirigentes populares que atuem no campo sociopolítico, para ser fermento evangélico no centro da decisão; formação — ministérios adequados às necessidades das comunidades; anúncio central da boa-nova, promovendo comunidades de fé no testemunho do evangelho.

As diferentes formas de opressão e desrespeito aos direitos humanos dos povos amazônicos, assim como as exigências do evangelho, têm feito do martírio uma prática constante na vida da Igreja e da sociedade. Quem trabalha na perspectiva da justiça e da paz com certeza encontrará oposição, perseguição e até morte. A história recente registrou exemplos de vidas entregues para o bem dos pobres e dos rejeitados, vidas de profetas e mártires do reino de Deus. O Bispo Dien (do Vietnã) é citado muitas vezes por causa da declaração profética que fez no Concílio Vaticano II: “Nós temos muitos mártires, sim; mas teremos mártires da justiça?” O que se constata na região amazônica é que muitas lideranças cristãs e sindicais levaram a sério esse compromisso e foram martirizados, como Padre Josimo, Padre Ezequiel Ramin e, mais recentemente, em 12 de fevereiro de 2005, a Irmã Dorothy Stang. Em uma de suas camisetas estava escrito: “A morte da floresta é o fim da nossa vida”. Ela tinha como uma das suas principais bandeiras a defesa do Projeto de Desenvolvimento Sustentável, seguindo o exemplo de Chico Mendes, assassinado em 22 de dezembro de 1988.

Infelizmente, nos últimos 20 anos contabilizaram- se 581 assassinatos no Pará em razão da luta pela posse da terra. Segundo o Programa de Proteção dos Defensores e Defensoras dos Direitos Humanos, atualmente há 120 pessoas ameaçadas no estado, entre as quais Frei Henri de Roziers, da CPT de Xinguara; Dom Ervin Kaulter, bispo do Xingu; Padre Edilberto Sena, da Diocese de Santarém; e Padre José Boeing, missionário do Verbo Divino. Trata-se de ameaças e assassinatos motivados especialmente pela “impunidade que mata e desmata”. O que se constata é que, apesar da impunidade e do descaso pela vida, são inúmeras as práticas pastorais que seguem denunciando todas as injustiças e anunciando a esperança de que uma sociedade mais justa e fraterna é possível.

 

3. Entraves e encantos na missão

O Conselho Mundial de Igrejas Cristãs, em suas diretrizes atuais, assume um compromisso com a Amazônia, quando afirma: “É nosso dever defender, prevenir, convencer, enfim, esgotar todos os recursos que, devida ou indevidamente, redundem na defesa, na segurança, na preservação desse imenso território e dos seres humanos que o habitam e que são patrimônio da humanidade, e não patrimônio dos países cujos territórios pretensamente dizem lhes pertencer”. A Amazônia impõe a toda a sociedade brasileira o grande desafio de evitar que tenha o mesmo destino de outras regiões tropicais, especialmente no que diz respeito à destruição florestal e à pobreza social. Outro desafio é garantir para os filhos e filhas da floresta amazônica o respeito à “dignidade da pessoa humana”, como consta no artigo 1º, inciso III, da Constituição Federal.

 

3.1. Os entraves da missão

Um dos entraves é a ideia de que 80% da região amazônica está coberta por florestas e por isso ela precisa ser desmatada. Há muita dificuldade para perceber que essa realidade possibilita promover o tão sonhado desenvolvimento sem descuidar da preservação, mediante a adoção de um novo modelo que atenda às aspirações da população e mantenha o equilíbrio ecológico que sustenta toda a vida na região.

Conciliar a conservação dos recursos naturais com o desenvolvimento econômico e social é, portanto, a meta a ser perseguida. Os entraves encontram-se na concretização dessa meta. Seu cumprimento ou não se refletirá não somente nos índices de desmatamento, mas também no modo como ele ocorre e onde ocorre. O mais importante é reduzir aquele desmatamento que, além de desperdiçar as riquezas florestais da região, não traz benefícios para a sociedade brasileira. Para tanto, o governo terá de intervir de maneira sistemática e levando em conta as diferentes realidades das “fronteiras”. O fundamental, contudo, é que as organizações da sociedade civil, os movimentos dos trabalhadores, as ONGs e as lideranças religiosas comprometidas com a questão ecológica e social sejam consultados e as propostas emergentes desse processo sejam avaliadas e testadas.

No campo da missão, ainda permanece a dificuldade de entender que a biodiversidade é obra e criação de Deus e, por isso, as ações pastorais deverão contribuir para garantir a integridade da criação mediante a promoção da justiça e da paz.

 

3.2. Os encantos da missão

Os encantos da Amazônia não decorrem só da beleza da biodiversidade, mas fundamentalmente da população formadora da “cultura da floresta”: indígenas, remanescentes de quilombos, ribeirinhos, migrantes de diferentes tempos e origens. Esse povo, que é considerado tranquilo e reservado e se isola na floresta, carrega uma cultura milenar e está imbuído da religiosidade popular, como sinal de fé e resistência. É marcado pelas crenças, lendas, ritos, mitos e pajelanças. Com as devoções aos santos coexistem as crenças em bichos e visagens, em forma de seres sobrenaturais que habitam e protegem as águas e florestas, perseguindo quem depredar a natureza. Entre as inúmeras formas de elaborar uma explicação dos fenômenos, destacam-se as lendas do curupira, do jurupari, do saci-pererê e da cobra-grande.

O pajé, concebido como curandeiro, ocupa lugar específico na vida das comunidades e na medicina popular. Acumula largo conhecimento medicinal da floresta. O benzedor também tem uma força misteriosa de curar, abençoar, receitar amuletos (de ossos, dentes de animais etc.) que protegem do mau-olhado ou do quebranto. Muitos encantos da vida surgem das festas religiosas, das cerimônias litúrgicas e dos folguedos, ponto de encontro e de superação dos problemas. Encontros de reza, procissão e cantos se associam aos fogos, bebidas e danças. São festas que encantam pela sintonia com a biodiversidade e, especialmente, com sua preservação.

A ecologia tem tudo que ver com a espiritualidade, pois todas as formas de vida estão interligadas e inter-relacionadas. Essa concepção abre perspectivas para a relação com o que está além, como afirma Luís Jacques Saldanha: “Se a gente tem crença na transcendência, na espiritualidade, não precisa consumir tanto para poder dar um mínimo de significância para esta vida”. E, na mesma direção, ele afirma que ninguém tem o direito de comprometer o futuro do qual não fará parte. É preciso abrir trilhas, fazer o caminho, e, nesse processo, a recuperação da sacralidade de todas as coisas permitirá à vida florescer em todo o seu esplendor.

Assumir com paixão os encantos, desafios e obstáculos de cada realidade é o caminho missionário e profético. Nessa perspectiva, Giorgio Paleari afirma: “Profeta é alguém que tem uma grande proximidade e intimidade com Deus, enviado a proclamar a boa-nova de Deus e a denunciar as injustiças e tudo o que se refere à violação da vida. Não diz palavras próprias nem se exalta com suas próprias teorias. Sente-se impelido a comunicar a partir desta intimidade geradora de modo que as palavras sejam de Deus, faladas com um timbre humano e histórico. O missionário como profeta é, também, alguém profundamente sintonizado com os acontecimentos históricos. Vive uma vida presente na história com os limites, os sofrimentos e os anseios de todas as pessoas, especialmente dos mais pobres”. Por mais desafiadora que seja a realidade, a perspectiva profética sempre encanta a missão.

As comunidades eclesiais de base impulsionam a pastoral na Amazônia, pois é o lugar onde a maioria oprimida e marginalizada da sociedade tem o seu lugar, participa e desenvolve suas capacidades e potencialidades, formando os filhos e filhas da floresta. É urgente que na região amazônica se cumpra a vocação do cuidado confiada pelo Criador e animada por Maria de Nazaré, padroeira da Amazônia que faz maravilhas por meio dos pequenos, derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes, desperta relações solidárias, fraternas, geradoras de vida para todos. Eis a vida e missão nesse chão.

 

Bibliografia

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Pe. José Boeing, svd