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Publicado em Janeiro-fevereiro

Educar para a Leitura litúrgica

Por Pe. Silvio Sassi

Como são proclamadas as leituras bíblicas nas assembleias eucarísticas? Uma resposta óbvia, fruto do bom senso e da observação, poderia seguir uma linha intermediária: existem leitores preparados que sabem fazer ouvir o texto proclamado, mas existem também muitos leitores improvisados que tornam incompreensível o que foi lido. Refletindo sobre o processo de comunicação que se cria no momento da leitura litúrgica, podemos identificar o contexto celebrativo, o leitor, o texto, os ouvintes e a situação concreta da leitura.

O contexto celebrativo, em relação aos outros elementos do processo de leitura, vem em primeiro lugar porque assenta as condições ideais que justificam os demais. Existem estudos específicos e artigos que ilustram com competência o significado da palavra de Deus durante a eucaristia; limitar-nos-emos, portanto, a uma reflexão que define o ambiente espiritual da leitura. “Na Liturgia, Deus fala a seu povo. Cristo ainda anuncia o evangelho. E o povo responde a Deus, ora com cânticos, ora com orações” (Sacrosanctum Concilium, n. 33).

O texto de um livro se transforma, por meio da voz do leitor, numa palavra que cria diálogo entre Deus e seu povo reunido em escuta. É, portanto, a fidelidade de Deus que, “em seu grande amor, fala aos seres humanos como a amigos e com eles se entretém para os convidar à comunhão consigo” (Dei Verbum, n. 2). Mas o povo que escuta não fica restrito a um papel passivo, porque é chamado a responder com o canto, com a oração e, sobretudo, com uma vida coerente. “Com as leituras se oferece aos fiéis a mesa da palavra de Deus e se abrem os tesouros da Bíblia” (Instrução Geral do Missal Romano, n. 34). Cristo é presente entre aqueles que se reúnem para rezar em seu nome e aprofundar, guiados pelo Espírito Santo, uma palavra que não se esgota uma vez por todas.

Tais convicções teológicas são indispensáveis para entender a função do leitor: “Esses dados deverão ser levados em conta se se deseja devolver à proclamação litúrgica da Palavra seu valor celebrativo e simbólico. Tal proclamação não pode ser vista como uma narração informativa dos eventos da história da salvação, nem como simples reafirmação dos artigos de um código moral: ela é essencialmente palavra que Deus ‘hoje’ dirige ao homem para que seu hoje seja iluminado e salvo” (Il Rinnovamento Liturgico in Italia, n. 11).

O leitor tem a responsabilidade de tornar viva e audível uma palavra codificada em um texto. Ele não deve nem “ler” nem “declamar”, mas “proclamar”. Somente ler significaria “informar-se”, “dar-se conta” daquilo que é escrito para uma compreensão mental. Declamar somente seria traduzir o texto em uma operação “espetacular” em que todo o corpo é envolvido na percepção do texto. O leitor é convidado a proclamar: ler com atenção o texto para que este se torne significativo aos ouvintes.

“Uma vez que o diálogo litúrgico de Deus com seu povo não está alheio aos condicionamentos da comunicação humana, são úteis todos os meios que favoreçam a escuta e a compreensão do texto lido” (ibid.). “Para que os fiéis, com a escuta da leitura divina, amadureçam em seu coração um suave e vivo amor à Sagrada Escritura, é necessário que os leitores encarregados de tal função, mesmo se não receberam tal instituição, sejam verdadeiramente idôneos e seriamente preparados” (Instrução Geral do Missal Romano, n. 66). A função do leitor é bem delineada pela liturgia tanto em seu aspecto teológico quanto em suas normas concretas.

A falta de preparação adequada ou a fácil improvisação podem obter como resultado a inutilidade do texto proclamado. Sem pretender descrever a situação ideal, mas levando em consideração algumas falhas comuns entre leitores espontâneos, podem-se ter presentes algumas precauções. Em primeiro lugar, é bom ler previamente o texto para uma compreensão de todo o conjunto: perceber se existem palavras desconhecidas, acentos sobre os quais se tem dúvida, frases longas com uma sintaxe confusa.

Estando diante do Lecionário, lembrar que se deve impostar a voz (nem muito baixa, nem muito aguda), combinando-a com uma respiração tranquila. Cada sílaba deverá receber a mesma atenção com uma articulação meticulosa; o percurso vocal seguirá a linha traçada pelos elementos gramaticais, sintáticos e de sentido. O ritmo que norteia a leitura e a modulação da voz serão proporcionais ao gênero literário do texto (narração, diálogo, descrição, invocação etc.). A alternação entre voz e silêncio seguirá o fluir dado pela pontuação sem cair na lentidão ou na agitação.

Esses rápidos acenos à locução têm como objetivo entender a origem dos problemas de uma leitura que não foi educada: sílabas reduzidas ao silêncio; acentos mudados; volume baixo; monotonia no ritmo; frases desconexas; pausas que quebram o ritmo do significado da leitura; vocábulos inventados e palavras trocadas. A importância do texto proclamado não é confiada somente à habilidade interpretativa do leitor; o trecho lido deverá se tornar compreensível aos fiéis mediante o comentário, a homilia, as orações e o compromisso de vida.

No entanto, o Lecionário, livro que contém os textos proclamados, deveria estar sempre “apresentável”: não amarrotado, amarelado nas partes em que se vira a página, rasgado; com os marcadores das páginas desfiados; com páginas descoladas. Lembrar também que os folhetos dominicais são para uso da assembleia; para a proclamação deve-se usar o Lecionário. Se a proclamação se esforça em tornar o texto atual porque o transforma em palavra viva, também os ouvintes têm o compromisso de colaborar, aproximando uma fala à outra. O ouvinte não ajuda quando, nesse momento, está fazendo outras orações, fica mexendo na bolsa, em sacolas ou concentrando a atenção em outras coisas.

Enfim, a situação concreta da leitura é característica de cada igreja particular e do tipo de assembleia, pois se deve levar em conta o som, a acústica do ambiente, a quantidade de pessoas, a iluminação e a colocação do ambão (“lugar” da proclamação da Palavra). Cuidar da locução certamente não resolve todos os problemas, mas é também verdade que a improvisação não facilita a comunicação.

 

* Superior-geral dos Paulinos e membro do Pontifício Conselho para as Comunicações; é especialista em Comunicação pela Sorbonne. Tradução: Ir. Teresa Boschetto, ap e Ir. Clotilde Prates, ap.

 

Pe. Silvio Sassi