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Publicado em Edição Especial - 1º Centenário dos Paulinos

O Comum Digital: as dimensões conectivas e o surgimento de um novo comunitarismo

Por Massimo Di Felice

Este artigo tem por objetivo oferecer uma leitura do significado das dimensões conectivas e ecológica do “comunitarismo” contemporâneo a partir da identificação dos elementos caraterizantes das arquiteturas informativa reticulares. Elementos estes que apontam para a emergência de uma nova dimensão do social na qual os elementos tecnológicos, humanos e ambientais adquirem suas dimensões e formas, somente enquanto conectados, segundo suas atividades agregativas. Apresentando os conceitos de “comunitarismo”, “bens comuns”, “identificações”, “ator-rede”, “tecno-ator”, “dispositivos de conectividades”, “atopia” e “ato conectivo”, este artigo propõe algumas chaves de leitura das ecologias associativas contemporâneas e do “comum digital”, decorrentes da difusão do social network e das redes sociais digitais.

Introdução

Numa nota à edição de Pleiade, o escritor romântico francês Berbey d’Aurevilly narrava a seguinte lenda:

O imperador Carlos Magno, já em avançada idade, apaixonou-se por uma donzela alemã. Os barões da corte andavam muito preocupados vendo que o soberano, entregue a uma paixão amorosa que o fazia esquecer-se de sua dignidade real, negligenciava os deveres do Império. Quando a jovem morreu subitamente, os dignitários respiraram aliviados, mas por pouco tempo, pois o amor de Carlos Magno não morreu com ela. O imperador mandou embalsamar o cadáver e transportá-lo para sua câmara, recusando separar-se dele. O arcebispo Turpino, apavorado com essa paixão macabra, suspeitou que havia ali um sortilégio e quis examinar o cadáver. Oculto sob a língua da morta encontrou um anel com uma pedra preciosa. A partir do momento em que o anel passou às mãos de Turpino, Carlos Magno apressou-se em mandar sepultar o cadáver e transferiu seu amor para a pessoa do arcebispo. Turpino, para fugir daquela embaraçosa situação, atirou o anel no lago de Costança. Carlos Magno apaixonou-se então pelo lago e nunca mais quis se afastar de suas margens (CALVINO, 1996, p. 78).

Comentando o conto de Berbey d’Aurevilly, Ítalo Calvino afirma que o verdadeiro protagonista do conto é o próprio anel mágico, uma vez que seria a partir dele que se desenvolvem os diversos acontecimentos. Contrariamente a essa interpretação, é possível, também, descrever o conjunto de interações que se desenvolvem no conto, como a expressão de um emaranhado reticular que, em lugar de um cenário dividido entre personagens, atores protagonistas e atores coadjuvantes, contextos e situações, nos apresenta a complexidade de uma arquitetura reticular e interdependente, na qual cada ator (o anel mágico, a donzela alemã, o arcebispo Turpino, Carlos Magno, o lago e suas margens) é levado a agir por outros. O próprio anel mágico adquiriu tal propriedade após um feitiço que alguém, provavelmente uma bruxa, aplicou nele, assim como o próprio Carlos Magno passou a alterar seus atos depois do desenvolvimento de seus sentimentos, despertados e continuamente modificados pelo feitiço.

As redes de ação e de atores cruzam-se na narrativa, desenvolvendo tal nível de complexidade de relações que se resulta, consequentemente, improvável pensar um único ator como o promotor principal das ações sucessivas, nem uma origem específica da ação. Essa possível interpretação das qualidades reticulares das interações que se desenvolvem nesse breve conto contribui de forma fértil para pensar as qualidades da complexidade das ações que desenvolvemos cotidianamente nas redes digitais, conectados a dispositivos, circuitos elétricos, bancos de dados e às demais pessoas por suas vezes também conectadas aos dispositivos, circuitos elétricos, bancos de dados e às demais pessoas.

Nesse complexo e interdependente âmbito ecossistêmico-informativo digital cotidiano, em lugar de tentar desvendar atores protagonistas e construir hierarquias para interpretar a origem da ação, provavelmente pode nos ser útil mudar de atitude e direcionar a nossa atenção sobre o significado do social em rede e sobre a qualidade dos laços comunitários que marcam o convívio e a interação no âmbito reticular. Que comunidade e que social são aqueles que nascem da conexão entre membros de diversas naturezas?

1. O “comum digital”, algumas reflexões sobre um novo tipo de comunitarismo

As nossas sociedades estão marcadas por um importante processo de transformação, uma mudança que diz a respeito não apenas às suas relações internas, mas também ao seu sentido profundo, ou seja, ao sentido que define a mesma natureza e a qualidade do estatuto do social. O advento das redes digitais passou a manifestar a necessidade de uma reflexão maior que pudesse considerar o advento de um social tecnológico e interativo, baseado não mais em formas de comunicação analógicas, mas derivado das mediações entre sujeitos, grupos, empresas e instituições e meios de comunicações, reunido em redes de coletivos humanos, dispositivos e banco de dados (Big Data). Nesta nova conformação, possibilitada pelo aparecimento de novas formas comunicativas com a introdução de tecnologias de transmissão por cabo a fibras óticas, e por wi-fi, satélites, ondas de rádio RFID (Radio frequency identification) etc., que permitem o acesso em tempo real a uma quantidade infinita de informações e a conexão de um amplo ecossistema de atores, o social perde a possibilidade de ser narrado como um sistema, definido e composto por partes e identidades distintas. Este se torna a forma de suas conexões e o resultado estendido de sua distribuição de informações e interações que não se articulam segundo a sequência informativa analógica: emissor-mensagem-meio-receptor. A rede planetária da internet passa a possibilitar a circulação instantânea de informações através de formas de comunicação reticulares a-direcionais, não representáveis por fluxos informativos geométricos em direção ao externo.

A tecnologia – enquanto interface, interatividade e agenciamento – deixa de ser “extensão dos sentidos”, para se tornar interna, uma sociabilidade habitável. O resultado do surgimento deste novo social interativo e ilimitado questiona as ciências sociais, não somente em âmbito de técnica de pesquisa que busque alcançar, ao lado do social tradicional, as suas novas expressões virtuais, mas, sobretudo, em âmbito de categorias, paradigmas e conceitos. É necessário definir e, portanto, delimitar um social em rede? Que tipo de comunidade e que tipo de comum é o que habitamos em contextos conectados e reticulares?

O advento de um comunitarismo em rede baseado em forma de comunicações reticulares e interativas e, portanto, pós-analógica, nos obriga a pensar um social pós-estruturalista, onde os distintos setores, os diversos grupos, as instituições, as empresas, passam a se sobrepor e a reinventar-se através da contínua interação e conexão. Um comum dinâmico e em contínuo devir, algo diferente da estrutura de um organismo fechado e delimitado feito de um conjunto de órgãos separados e interagentes, um comum aberto e híbrido, perante o qual é necessário repensar a própria ideia de laços sociais.

No interior dos estudos sobre social network e laços sociais, podemos identificar diversas abordagens principais que apresentaremos sinteticamente em seguida. A primeira é a que pensa o comunitarismo através das suas dimensões operacionais, introduzindo uma concepção pragmática e simplificada que reduz a comunidade e o comum nos contextos digitais a sua própria aritmética, isto é, à simples contagem descritiva de links e laços que se produzem numa rede. Faz parte desse primeiro grupo tanto a abordagem matemática de Albert L. Barabási (2002), que, desde uma perspectiva quantitativa e matemática, direciona os seus estudos na descrição das relações desenvolvidas numa rede por meio da contagem dos links desenvolvidos entre seus membros. Sempre neste primeiro grupo, podemos contemplar também a perspectiva dos estudos desenvolvidos por Mark Granovetter, que parte de uma ideia de interação social definida como a construção de relacionamentos e laços entre membros de uma rede. Numa perspectiva sociológica, o autor se propõe definir as diversas formas de relações reticulares a partir de uma análise comparativa das intensidades de suas interações. Granovetter, em sua obra The Strength of Weak Ties (“A força dos laços fracos”, em tradução livre) de 1973, salienta que os laços sociais têm uma  intensidade de força que depende da “combinação (provavelmente linear) da quantidade de tempo, intensidade emocional, intimidade (confiança mútua) e serviços recíprocos que caracterizam um laço” (GRANOVETTER, 1973, p. 1361).

Para Granovetter (1973), os laços fortes se caracterizam pela intensidade de intimidade, aproximação e intenção em desenvolver uma conexão entre pelo menos dois atores sociais, onde se estabelece um relacionamento com maior potencial para a realização de trocas sociais. Os laços fracos se caracterizam por relações mais diluídas, sendo mais abrangentes e menos profundas, o que leva a trocas sociais mais difusas e menos íntimas. No entanto, os laços fracos são essenciais na estruturação das redes sociais, pois são eles que conectam os blocos de grupos compostos por laços fortes.

Assim, ao analisar um grafo, é possível detectar se este é composto por laços assimétricos, onde existem diferentes níveis de forças de laços entre os atores, e simétricos, onde se detecta uma participação mais homogênea dos atores na rede. Na grande maioria das redes, se detecta a caracterização de laços multiplexos, onde se encontram diversos tipos de relações sociais, tanto de laços fortes como de laços fracos (DI FELICE et al., 2012, p. 61).

Nesta mesma direção, os estudos sociológicos de redes sociais desenvolvem a ideia de descrições relacionais de reputação e poder nas próprias redes, como aquelas ligadas ao conceito de capital social.

O conceito de capital social está ligado aos valores inerentes a uma rede social que determina os comportamentos aceitáveis e congratulados nessa mesma rede. Tais valores perpassam as virtudes cívicas, morais e relacionais. […]. No caso específico das redes sociais na internet, os valores do capital social estão diretamente relacionados às questões relacionais (construção de relacionamentos), normativas (desenvolvimento de códigos de condutas), cognitivas (disseminação de informação e elaboração de conhecimento), confiança no ambiente social (meritocracia), institucionais (autoridade e auto-organização) (DI FELICE et al., 2012, p. 67).

Uma segunda perspectiva no âmbito dos estudos sobre o comum e a comunidade em redes é aquela que pensa a extensão tecnológica do comunitarismo como uma destruição dos laços comunitários originários e os contextos reticulares como a crise ou o próprio desaparecimento de um estágio originário, mais real e autêntico. Alinhados a essa perspectiva, encontram-se diversos autores, com destaque para o estudo recente e amplamente divulgado de Sherry Turkle, de significativo título, Alone Together (2011), no qual se descreve a dimensão digital dos relacionamentos como uma perda da complexidade das interações humanas: “Human relationships are rich and they’re messy and they’re demanding. And we clean them up with technology. Texting, email, posting, all of these things let us present the self as we want to be. We get to edit, and that means we get to delete, and that means we get to retouch, the face, the voice, the flesh, the body ­– not too little, not too much, just right”[1] (TURKLE, 2011, p. 23). Uma terceira interpretação do comunitarismo digital refere-se a um tipo de comunitarismo conectado que torna possíveis laços e interações a partir da troca semântica de significados e conteúdos. Essa concepção próxima da ideia de inteligência coletiva desenvolvida pelo filósofo Pierre Lévy exprime a ideia de um comunitarismo conceitual que agrega indivíduos em redes a partir de compartilhamentos de conteúdos e interesses encontrados e compartilhados digitalmente:

A cibercultura é a expressão da aspiração de construção de um laço social, que não seria fundado nem sobre links territoriais, nem sobre relações institucionais, nem sobre relações de poder, mas sobre a reunião em torno de centros de interesses comuns, sobre o jogo, sobre o compartilhamento do saber, sobre a aprendizagem cooperativa, sobre processos abertos de colaboração. O apetite para as comunidades virtuais encontra um ideal de relação humana desterritorializada, transversal, livre. As comunidades virtuais são os motores, os atores, a vida diversa e surpreendente do universal por contato (LÉVY, 1999, p. 130).

Uma quarta linha de estudos é aquela que pensa o comunitarismo digital como a extensão ou a amplificação do comunitarismo e dos laços presenciais que encontrariam, no social network e nas redes digitais, sua maior realização e sua maior eficiência, fazendo das redes um novo sistema operativo social. É esta a contribuição oferecida por Barry Wellman e Lee Rainie, que em seu livro Networked: The New Social Operating System abordam a questão diretamente:

A evidência mostra que nenhuma destas tecnologias é um sistema fechado, capaz de isolar as pessoas. As tecnologias de hoje são mais integradas na vida social de quanto não o eram as tecnologias precedentes. As pessoas não estão ligadas aos gadgets, estão ligadas umas com as outras. […] No momento no qual incorporaram as tecnologias, as pessoas mudaram a forma de comunicar entre elas. Tornaram-se cada vez mais networked [conectadas] enquanto indivíduos, mas que como integrantes de grupos (WELLMAN e RAINIE, 2002, p. 46).

O livro propõe uma leitura do comunitarismo contemporâneo segundo a sua dimensão conectiva que supera as dimensões presenciais e que expande o comum e a reciprocidade para um nível estendido à dimensão das redes informativas. No primeiro capítulo, os autores narram a história dramática de um casal de Portland (EUA), Peter e Trudy, que, após um trágico acidente, difunde sua história nas redes sociais digitais. A esposa de Peter havia entrado em um profundo estado de coma e a difusão das imagens dela no hospital, uma vez divulgadas na rede, obteve o conforto e a solidariedade de pessoas de diversas cidades dos Estados Unidos. Houve quem escrevesse uma mensagem de conforto, quem fizesse orações, quem oferecesse apoio. Em pouco tempo, Peter recebeu ajuda de todos os tipos, desde conselhos de profissionais sobre como enfrentar corretamente a burocracia dos trâmites do seguro até conselhos médicos de especialistas. Para os dois autores, esse caso, como muitos outros, é exemplo do advento de um novo tipo de comunitarismo, cujas caraterísticas seriam consequência do surgimento de um “novo sistema operativo social”: o modo como Peter e Trudy usaram as redes sociais não é somente uma história tocante. É também a história de um novo sistema operativo social que definimos “networked individualism” (individualismo em rede), contrapondo a ele o sistema operativo precedente, formado em volta de amplas burocracias hierárquicas e de pequenos grupos fortemente interconexos, como os núcleos familiares, as comunidades e os grupos de trabalhos. Para definir o networked individualismo, usamos a expressão de “sistema operativo”, pois este descreve a maneira como as pessoas se conectam entre si, a maneira como se comunicam e trocam informações. Utilizamos essa definição também porque sublinha o fato de que as sociedades – como os sistemas informáticos – possuem estruturas baseadas sobre networks, que oferecem oportunidades e vínculos, normas e procedimentos (WELLMAN e RAINIE, 2002, p. 55).

Uma quinta linha de análise sobre o comunitarismo em rede é aquela que o define como uma nova dimensão agregativa que expressa outro tipo social, um social não mais limitado apenas ao humano, um “supersocial”, composto por membros de diversas naturezas. Podemos incluir a ideia de comunitarismo dinâmico e em rede à ideia de microassociações proposta por Bruno Latour, cujo ponto de partida é a questão sobre a composição do social: “Quando falamos do social, quantos somos? Quem somos?” (LATOUR, 2013, p. 27). Para Latour, a sociedade não pode ser definida senão de forma metafísica, isto é, através de conceitos e categorias abstratas, como proposto pela sociologia, mas apenas observada em sua dimensão microagregativa no momento de seu acontecer. Inspirado na microssociologia de Gabriel Tarde, o sociólogo francês, pensa, de um lado, na composição deste novo tipo de agregados comunitários e, de outro, na maneira de estudá-los. Em relação ao primeiro aspecto, Latour procura descrever os agregados em redes a partir de sua dimensão emergente, que o vê composto pela interação entre diversos “actantes” (seja humano ou não, qualquer elemento que deixa rastro). Como já observado anteriormente, as caraterísticas de tais interações não são o resultado de uma estratégia do sujeito, num contexto reticular, ao contrário, o “ator é aquilo que muitos outros levam a agir… O ator na expressão hifenizada ator-rede não é a fonte de um ato, e sim o alvo móvel de um amplo conjunto de entidades que examinam em sua direção” (LATOUR, 2013, p. 51). Tal concepção pensa o ator numa perspectiva complexa, como o membro de uma complexidade que o supera e da qual depende:

Empregar a palavra ator significa que jamais fica claro quem ou o quê está atuando quando as pessoas atuam, pois o ator, no palco, nunca está sozinho ao atuar […] por definição a ação é deslocada. A ação é tomada de empréstimo, distribuída, sugerida, influenciada, traída, dominada, traduzida. Se se diz que um ator é um ator-rede, é em primeiro lugar para esclarecer que ele representa a principal fonte de incerteza quanto à origem da ação (LATOUR, 2013, p. 55).

O que marca a teoria do ator-rede é a abertura para uma dimensão complexa, que coloca cada membro da rede dependente das atividades dos demais membros, sejam estes humanos e não. O comunitarismo em rede seria caracterizado pela incerteza, seja de seus membros, seja de suas interações. Do comunitarismo em rede não poderíamos “dizer”, mas apenas “acompanhar e cartografar” seus imprevisíveis dinamismos. Essa dimensão de incerteza do social marca a emergência de um novo tipo de complexidade que nos obriga a uma ruptura epistêmica que muda a nossa forma de abordar as dimensões do social. Nessa nova perspectiva, em lugar de definir deveríamos preferir não somente observar, mas jamais chegar a padrões que definem estruturas e tipologias, pois, numa dimensão reticular, não há estabilidade duradoura nem estruturas rígidas. A incerteza marcaria, então, a forma e a dimensão agregativa, oferecendo a nós a dimensão de um conjunto de incertezas, de dúvidas e de indecisões que marcam a atmosfera do nosso convívio em todos os seus âmbitos.

Nesta dimensão de incerteza e de algo não racionalmente definido, encontramos a perspectiva do comunitarismo oferecida pelo sociólogo francês Michel Maffesoli e que constitui, nesta proposta de síntese, a sexta interpretação sobre o comunitarismo. Nesta, as interações midiáticas contribuem de forma significativa ao desenvolvimento do comunitarismo, não somente para a formação dos processos de construção das identidades e das experiências do lugar (J. Meyrowitz), sejam estas coletivas ou individuais, mas também por uma significativa e importante alteração da experiência sensorial: “A experiência tátil passa atualmente […] através do desenvolvimento tecnológico […] por meio do qual se desenvolve uma interdependência societária inegável” (MAFFESOLI, 1990, p. 85). Smartphones, video games, circuitos digitais de compartilhamento de músicas (MP3) e vídeos, as festas raves e as paixões pelos esportes radicais necessitam de explicações centradas em seus dinamismos comunicativos e tecnológicos. Não somente porque tais experiências têm suas próprias origens, em muitos casos, no próprio social network, mas, sobretudo, encontram suas significações e seus principais espaços de compartilhamento da própria experiência nas redes digitais. O advento de formas de sociabilidade construídas em sinergia com as tecnologias digitais e os dispositivos de conexão marca o comunitarismo contemporâneo, caraterizado por M. Maffesoli pela difusão de formas de apropriação lúdicas e criativas das novas tecnologias:

Todos os microrrituais […] parecem possuir esta função de desviar a técnica de suas funções meramente instrumentais, para agrupar os indivíduos em volta de uma atividade comum e de uma paixão compartilhada. Podemos, portanto, dizer que o destino da técnica moderna reside na sua apropriação dionisíaca e, portanto, numa ressacralização e num reencantamento do mundo (MAFFESOLI, 1990, p. 88).

As formas de agregações das tribos metropolitanas, explicadas por Maffesoli como a emergência de uma socialidade de um sentir em comum (“sentir com”) que reúne em um “presentismo experiencial” as práticas das comunidades contemporâneas, encontram nas extensões digitais uma ulterior expansão: “As tecnologias do ciberespaço potencializam a pulsão gregária, agindo como vetores da comunicação e da condivisão dos sentimentos e laços comunitários” (LEMOS, 2002, p. 17). Com a difusão da computação móvel e das formas de conectividades generalizadas (wi-fi, RFID, wi max etc.), o dinamismo dos comunitarismos estendeu-se às dimensões ulteriores, superando as distinções e produzindo hibridações e atribuindo novas formas e significados ao próprio conceito de comum. Por isso achamos necessária uma última explicação que leve em consideração a qualitativa alteração das dinâmicas ecológicas e conectivas das interações próprias do comum digital.

2. Caraterísticas do comunitarismo em rede e os desafios da pastoral digital

As características deste novo cenário comunitário apresentam-se como uma alteração profunda que podemos, embora de forma superficial e imprecisa, sintetizar em alguns pontos para tornar a nossa exposição mais clara. Uma primeira característica remete à própria ideia de comunidade, que desde uma perspectiva reticular, estende-se muito além de sua dimensão humana, para incluir todos os membros da biosfera. Trata-se de uma alteração qualitativa, que encontra importantes antecipadores na própria tradição eclesiástica, na própria ideia de pensar a dimensão da criação como uma qualidade comum a todos os seres vivos e a toda a realidade. Um exemplo entre todos a respeito, no interior da tradição franciscana, encontramos na filosofia de São Boaventura, na qual a natureza assume a dimensão não apenas de uma realidade criada, mas da emanação do divino enquanto expressão do Deus criador. “Deus est intimus est cuilibet rei creatae” (DI FELICE, 2009, p. 24). Na segunda parte do Breviloquium intitulada De creatura mundi, Boaventura explica o conceito que descreve a essência das criaturas que, antes de serem em si mesmas, são em Deus. Assim, toda a criação se apresenta como o caráter de um imenso vestígio da divindade: “Podemos concluir que todas as criaturas deste mundo sensível conduzem a Deus […]. Elas, de fato, são sombras, ecos, representações daquele primeiro princípio que é suma potência” (BOAVENTURA, 1991, p. 34). Em consequência dessa primeira caraterística, podemos enxergar um primeiro desafio da “pastoral digital em rede”, relativo à necessidade de não se referir somente aos humanos, nem de ter seu sentido principal no alcance de objetivos humanos. Não se trata apenas de pensar as ações ecológicas humanas, mas de repensar a própria composição da comunidade para além da dimensão antropocêntrica e social. Esse primeiro desafio decorrente dessa primeira caraterística nos leva para um segundo aspecto, que chama a atenção para a dimensão ecológica da arquitetura do novo comunitarismo. Este apresenta-se, de fato, mais como uma “rede de redes” composta por entidades orgânicas e inorgânicas, conectadas entre si e capazes, portanto, de transformações recíprocas adquiridas de suas próprias interações. Esta característica de uma complexidade mutante e emergente deve pôr para as atividades pastorais um ulterior desafio, relativo à inclusão no âmbito comunitário dos elementos tecnológicos e comunicativos. É necessário aqui fazer um esforço teórico que pressupõe a relativização da concepção instrumental da tecnologia, desenvolvida por boa parte da filosofia ocidental, e recuperar a complexidade e todo o mistério da dimensão “poiética” atribuída por Heidegger à técnica.

Não somente o elemento comunicativo e, hoje em boa parte, tecnológico e digital facilita a comunicação entre os membros da comunidade, mas, enquanto condicionante de formas de interações, deve considerar-se parte integrante da ecologia comunitária, enquanto “actante” e parte ativa. Superando, portanto, a concepção de meio, a pastoral em contextos digitais deve pensar que não existe comunidade e comum sem a técnica e que, no âmbito das arquiteturas comunitárias contemporâneas, os laços e todos os tipos de dimensões relacionais estendem-se para além do presencial, amplificando nossa dimensão comum e nos tornando muito mais relacionais.

O aspecto ecológico e interativo do comunitarismo em rede comporta um ulterior desafio: além daquele relativo à extensão da ideia de comunidade aos não humanos e ao protagonismo do tecnológico em seu âmbito, leva-nos à ideia da localidade “atópica” do comunitarismo contemporâneo, que, superando os limites físicos do “hic et nunc”, expande-se para além do espaço, prolongando a temporalidade das relações e do diálogo numa dimensão temporal continuada. A comunidade é hoje “sempre on-line” e habita uma geografia informativa, atópica, dinâmica e difícil de definir, capaz de reconstruir espaço, temporalidade e, portanto, comunidade, com formato e dinâmicas espontâneas e sempre novas. Cabe à pastoral tornar-se presença e comunidade em tempo e espaços novos e em contextos não apenas comunicativos, isto é, caraterizados apenas pela troca de informações, mas, sobretudo, em dinamismos habitativos, nos quais é necessário tomar a particular forma da arquitetura interativa em rede para poder ¨ser comum¨.

Referências

BARABÁSI, A. L. Linked: The New Science of Networks. Perseus Books Group, 2002.

BOAVENTURA, S. Breviloquium. Vicenza: Edizioni L.I.E.F., 1991.

DI FELICE, M; TORRES, J. C.; YANAZE, L. K. H. Redes digitais e sustentabilidade – as interações com o meio ambiente na era da informação. São Paulo: Annablume, 2012.

GRANOVETTER, Mark S. The strength of weak ties. American Journal of Sociology, v. 78, n. 6, 1973.

LATOUR, B. Reagregando o Social. Bauru: Edusc, 2012.

LEMOS, A. Cibercultura. Porto Alegre: Sulinas, 2002.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1993.

MAFFESOLI, M. Au creux des aparences. Pour une éthique de l’esthetique. Paris: Plon, 1990.

MEYROWITZ, J. No sense of place. The Impact of Electronic Media on Social Behaviour. Oxford University Press, 1994.

RAINIE, Lee; WELLLMAN, Barry. Networked – il nuovo sistema operative sociale. Milano: Guerini Scientifica, 2012.

TURKLE, S. Alone together. Basic Books, 2011.

[1] Tradução livre: “As relações humanas são ricas, desorganizadas e exigentes. Nós as organizamos com a tecnologia. Escrever, passar e-mail, postar, todas essas coisas nos apresentam como queremos ser. Nós editamos, e isso significa que temos de apagar, e isso significa que temos de retocar, o rosto, a voz, a carne, o corpo – não pouco, não muito, apenas para a direita”.

Massimo Di Felice

Sociólogo pela Universidade La Sapienza de Roma, doutor em Ciência da Comunicação pela ECA-USP, onde leciona no programa de pós-graduação e coordena o Centro de Pesquisa Internacional Atopos. Fez pós-doutorado em Sociologia pela Universidade Sorbonne, Paris V. É professor convidado na Universidade Lusófona de Portugal, na Universidade IULM de Milão e na Universidade de Córdoba (Argentina). E-mail: mdfelice@uol.com.br.