Artigos

Publicado em Setembro-Outubro de 1995 (pp. 21-27)

A Igreja no período Patrístico

Por

(Entrevista com o Prof. Roque Frangiotti)

VIDA PASTORAL (VP): Hoje parece renascer o interesse, por parte dos cristãos, em conhecer melhor o período dos “Pais e Mães da Igreja”, a Igreja do período patrístico. O que significa, propriamente, “Pais e Mães da Igreja”?

Prof. Roque: O afã do Concílio Vaticano II em atualizar a Igreja, isto é, em despertá-la do sono apologético e prepará-la para um diálogo aberto e livre de preconceitos com o mundo moderno, fez ver a necessidade de uma “volta às fontes”. Mas, já bem antes do Concílio, um grupo de teólogos europeus, especialmente franceses, havia começado um trabalho de longo fôlego, numa tentativa que se mostrou frutuosa, de traduzir e apresentar, criticamente, as obras dos “Pais e Mães da Igreja”. Essa expressão “Pais e Mães da Igreja” simplifica uma realidade muito complexa. Quando se fala de “Igreja dos Padres”, ou “Igreja do período patrístico”, certamente a referência está sendo feita à Igreja que se constituiu ao longo dos seis ou sete primeiros séculos do cristianismo. Um período muito longo para ser pensado e compreendido como unidade de uma só dimensão. Há necessidade de se fazer muitas distinções a respeito de doutrinas, disciplinas, práticas litúrgicas, modo de exercer a autoridade. Grosso modo, podemos distinguir três períodos nesta “Igreja dos Pais e Mães”:

1. A Igreja dos “Padres Apostólicos”, isto é, a Igreja formada e alimentada por aqueles que foram os sucessores imediatos dos apóstolos, que estavam ligados, de um modo ou de outro, aos apóstolos como Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna, o Pseudo-Barnabé, Clemente de Roma, Hermas, Pápias;

2. A Igreja dos “Padres Apologistas”, que se estende ao longo do século II (do ano 100 ao 200 d.C.). É uma Igreja marcada pelas perseguições, calúnias e difamações. Surgem, então, aqueles cristãos que têm cultura e preparo intelectual para defender, perante as autoridades, o senado romano ou os imperadores, a fé e a religião cristãs. Algumas dessas defesas (Apologias) chegaram até nós. Por exemplo: a de Diogneto, a de Aristides de Atenas, de Taciano, de Atenágoras, de Teófilo de Antioquia e as principais entre elas, as obras de Justino Mártir (duas Apologias e o Diálogo com Trifão) e a de Ireneu de Lião (Contra as Heresi­as);

3. O período da patrística, propriamente dito, vai do século III até o início da Idade Média. É o período dos grandes concílios ecumênicos nos quais foram decididos os dogmas fundamentais do cristianismo. “Pais e Mães da Igreja” são, portanto, todos aqueles homens e mulheres que, pela doutrina ou pelo empenho e testemunho de vida (martírio), alicerçaram e solidificaram, determinantemente, a fé e a doutrina cristãs.

 

VP: dada essa diversidade de períodos de épocas e de preocupações, seria possível ressaltar alguns pontos comuns?

Prof. Roque: Pode-se falar, realmente, de “pontos comuns”, e não de “uniformidade”. Um dos pontos comuns fundamentais eram as Escrituras do Antigo Testamento e as do Novo, embora estas últimas estivessem ainda em fase de formação durante os dois primeiros séculos, pois o cânon do Novo Testamento só foi fixado em 367. Os “pais” liam, refletiam e elaboravam suas homilias, preparavam a catequese sempre com as Escrituras nas mãos. Enorme quantidade de seus escritos são paráfrases bíblicas, tecidos de repetidas citações bíblicas ou longos comentários dos livros bíblicos.

Outro dado comum era a celebração da Ceia do Senhor, embora não houvesse, como já se disse, uniformidade na forma de celebração nem nas palavras empregadas nas orações.

Outra prática comum era o catecumenato, o tempo de preparação para o batismo. O tom pastoral de suas atividades, a busca de salvação, o detestar as práticas pagãs, a edificação espiritual, a catequética, o valor dado à liturgia, a ênfase na penitência e no jejum eram também pontos comuns.

Mas o ponto comum fundamental era o apego a Cristo como Filho de Deus, como Salvador, como palavra definitiva de Deus. Essa referência a Cristo era o fator decisivo e o princípio que unia a todos.

 

VP: Por outro lado, havia muita diversidade entre eles? Quais os aspectos que os diferenciavam?

Prof. Roque: Poderíamos afirmar que a diversidade é até bem mais visível. Diversidade de períodos já inclui diversidade de preocupações. Assim, as preocupações dos Padres do século V não serão, certamente, as mesmas dos Padres Apostólicos. A mentalidade dos Padres no período em que a fé cristã é uma religião ilícita, não é a mesma dos Padres que  viveram quando a religião era lícita e depois a religião oficial do Império Romano. A diversidade de região também contribuiu para muitas divergências: uma é a mentalidade do povo frígio, outra a do romano ou do norte da África. São conhecidas as divergências entre as duas grandes escolas teológicas desse período, a escola de Antioquia, mais concreta, que praticava uma exegese mais literal, mais histórica, valorizando mais a humanidade de Jesus, e a escola de Alexandria, mais espiritual, que praticava uma exegese alegórica, mais mística e que valorizava mais a alma, a divindade de Jesus. Os Padres Apostólicos viviam ainda sob forte influência da expectativa messiânico-escatológica. Já os Padres do século IV em diante não se punham mais essa questão. Não se pode deixar de ressaltar as constantes divergências entre eles, a tal ponto de se ter de convocar, frequentemente, sínodos locais, regionais e concílios ecumênicos para dirimir as questões.

Nos meados do século V, um monge muito preocupado e um pouco perdido no meio de tantas “novidades” divergentes de interpretações das Escrituras, resolveu parar e pensar num modo de encontrar um ponto de referência seguro que lhe servisse de bússola. Trata-se de Vicente de Lerins, que, por volta de 434, escreveu o seu vademecum, intitulado Commonitorium. A grande preocupa­ção de Vicente era encontrar uma norma ou princípio em que pudesse confiar, pois, “as proposições dum mesmo escritor são comentadas diver­samente por homens diversos, a tal ponto que parece ser possível delas serem extraídas tantas opiniões quantos forem os homens. Eis por que dediquei constantemente meus maiores desvelos e minhas diligências a investigar, entre o maior número possível de homens eminentes em saber e santidade, a maneira de achar uma norma de princípios fixos e, se possível, gerais e orientadores, para distinguir a verdadeira fé católica das degradantes corruptelas da heresia”.

A passagem para uma Igreja conduzida pela autoridade presbiteral-episcopal vai criar também muitas diferenças não só na estrutura governamental, mas também na doutrina, no controle da produção intelectual e litúrgica das comunidades.

 

VP: Foi por essa razão que surgiram as heresias? Como os Padres lidaram com os conflitos que foram surgindo por toda a parte, conforme nos mostram a história das heresias?

Prof. Roque: Conflitos e divergências existiram desde o início, ainda no tempo de Jesus, entre os discípulos. No tempo dos apóstolos, são conhecidos os conflitos contundentes na comunidade de Jerusalém entre os judaizantes e os helenistas e na comunidade de Corinto. Mas os grandes conflitos provocadores de divergências, que foram abrindo fossos de separação entre grupos e Igrejas locais, começaram a surgir quando, já em regime de liberdade, a Igreja quis unificar as interpretações em torno da pessoa de Jesus Cristo. Todas as grandes heresias giram em torno da pessoa de Jesus Cristo. No período da autoridade carismática, procurava-se dissuadir os fiéis a não dar ouvidos aos falsos profetas, aos lobos vestidos com peles de cordeiro. Não havendo uma autoridade forte, que pudesse empregar a coação, que pudesse usar o poder do “braço secular”, como se fará mais tarde, os líderes empregavam somente o termo de excomunhão, isto é, excluíam os membros que não aceitassem a doutrina comumente pregada e acolhida em nome e sob a autoridade dos apóstolos. Havia liberdade, porém com certo controle, certa “censura”.

Num período em que não se encontravam ainda muito institucionalizadas, as comunidades se toleravam, excluindo ou excomungando membros rebeldes. Mas, à medida que as comunidades se sentem fortificadas e bem-estruturadas, já como religião oficial do Império, as coisas mudam. O controle vai se tornando mais severo, mais rigoroso. Usará até mesmo a força do braço secular para expulsar, excluir, condenar, aprisionar, torturar e matar os “rebeldes”, os hereges. Pode-se verificar isso já no Concílio de Êfeso, em 431, quando os monges capitaneados pelo bispo de Alexandria, Cirilo, invadiram a sala conciliar armados de porretes, ameaçando e exigindo que se votasse a favor do dogma da maternidade divina, tese defendida por Cirilo.

Por essa altura, já não se pode falar de muita liberdade. Não se pode esquecer que, para uma religião com pretensões universais, a ortodoxia se tornava um imperativo político também na visão não só dos imperadores, mas também na dos bispos e patriarcas. Nesse clima, as divergências apareciam como ameaças tanto para a Igreja como para o Império. Já não podiam simplesmente ser toleradas.

 

VP: Os Padres só se preocupavam em defender a disciplina e a ortodoxia ou incentivaram a criatividade, estimulando a liberdade (especialmente na liturgia e na catequese)?

Prof. Roque: A preocupação dos Padres parece ter sido sempre pastoral, converter os judeus e os pagãos para a fé e religião cristãs e alimentar esses convertidos com uma doutrina sólida. Só à medida que interpretações divergentes, práticas disciplinares, atitudes fortemente marcadas pela dissonância iam surgindo, eles procuravam “tomar certas providências”.

É compreensível que determinada Igreja, vivendo sob ameaça de perseguição por parte das autoridades do Império, não podia se dar ao luxo de estabelecer uma “inquisição” rigorosa no seu interior com o fim de verificar quem era ou não ortodoxo. As Igrejas tinham certa autonomia e tentavam se proteger e se fortalecer entre si. Além disso, as distâncias entre uma região e outra — como a Síria e a África do Norte —, e a falta de uma rede de informações mais ágil, fazia com que as Igrejas fossem criando suas particularidades disciplinares e litúrgicas.

Não havia, portanto, uma intervenção, uma proposta de incentivar a criatividade, de estimular a liberdade. Havia mais liberdade por não existir uma central única de comando, de controle. Assim, as comunidades de uma região tinham costumes diferentes em relação às de outra; as da Ásia Menor e as de Roma, por exemplo. A diversidade na data de celebração da Páscoa entre as duas comunidades é um exemplo marcante e que nasceu não do “espírito de liberdade”, mas de tradições antigas.

O historiador da Igreja primitiva, Eusébio de Cesareia, comentando sobre a questão, diz que se estabeleceu entre as duas comunidades uma polêmica muito séria. A comunidade cristã da Ásia, apoiando-se numa tradição apostólica, celebrava a Páscoa do Senhor no décimo quarto dia depois da lua cheia, no qual os judeus deviam imolar o cordeiro pascal, enquanto a maioria das outras comunidades (das outras regiões) celebravam a Páscoa no próprio dia da ressurreição. Essa divergência foi motivo de longas discussões em quase todas as comunidades do Oriente e do Ocidente, sem que se chegasse a um acordo mútuo. Foi só com o Concílio de Niceia (325) que se impôs o costume de celebrar a Páscoa conforme a Igreja de Roma.

Ao tratar do jejum, Eusébio observava ainda que “uma tão grande diferença no costume não surgira ultimamente, mas já muito antes, sob o governo de nossos predecessores” (HE. V, 23). Mas, diz que, “apesar disso, aqueles ficaram solidários numa convivência pacífica e a divergência de opinião acerca do jejum consolidou a concórdia na fé” (ibidem).

Não romperam a paz com aqueles que, em nome de outras Igrejas, observavam uso diferente. Nunca houve alguém excomungado por causa disso.

 

VP: O que dizer sobre a “inculturação” nos Padres da Igreja? Como se pode entender a inculturação dos “Pais e Mães da Igreja”?

Prof. Roque: Parece que a inculturação dos “Pais e Mães da Igreja” se deu de maneira natural. Não foi necessário fazer Sínodos ou Concílios para resolver se iam ou não inculturar-se. Parece que aqueles que tinham visão e eram mais lúcidos, vertiam espontaneamente a mensagem evangélica, a catequese e a liturgia nos usos e na linguagem da cultura de seu tempo. Utilizavam, sem receio, os elementos da cultura na liturgia, na catequese e nos escritos. Já é um dado aceito que Paulo foi o primeiro entre os apóstolos a se “inculturar”, a fazer-se judeu com os judeus e grego com os gregos. Os Padres, especialmente a partir do século II, empregavam categorias, termos e expressões usados na cultura greco-romana, até mesmo categorias filosóficas. Mas não se deve, também aqui, generalizar.

Havia aqueles que tinham verdadeira repugnância pela cultura greco-pagã. Homens como Taciano, Hérmias, Tertuliano, embora de certa cultura, julgavam toda a cultura pagã venenosa, satânica, perniciosa para os cristãos. Para eles, bastava a leitura das Escrituras e nada mais.

Contudo, deve-se dizer que a inculturação ocorrida no período patrístico foi uma faca de dois gumes. Teve seu preço. Sabemos que o helenismo pensava de maneira dualista, idealista, especial­mente o do período em questão, influenciado pelo domínio do platonismo e neoplatonismo. Para essa filosofia, o mundo verdadeiro é o mundo de cima, do alto. Lá se encontram a verdade, o imutável, o duradouro, o eterno. O mundo de baixo, este mundo, é inferior, caduco, falso, sem valor. Isso habilitou as mentes a buscar a verdade sempre no outro mundo e ligá-la sempre à ideia de imutabilidade, de eternidade. Com isso, a mensagem cristã, que era dinâmica, viva, histórica, tornou-se uma “verdade imutável”, através da fixação dos dogmas. As categorias bíblicas, históricas, tornaram-se ontológicas, metafísicas e fo­ram perdendo o contato com a história real. Uma vez fixada a verdade nas categorias dogmáticas, não havia mais necessidade de procurá-la. Já estava dada para sempre. Com isso se estancou o caminho da busca, a pedagogia de ir aprendendo a fazer a verdade.

De fato, os problemas teológicos e cristológicos acirraram as discussões em nível altamente especulativo, e acabaram introduzindo nas comunidades categorias e conceitos de densidade metafísica como os de geração, criação, emanação, processão, substância, consubstancial, hipóstase, pessoa, vontade, natureza, livre-arbítrio. Se isso representou um relativo crescimento e progresso do pensamento cristão, produziu, por outro lado, a paralização posterior pela fixação de um vocabulário tido como único capaz de reter a verdade absoluta.

 

VP: Qual a importância do estudo dos “Pais e Mães da Igreja”, hoje? Que lugar podem ocupar? Esse estudo é importante apenas para os intelectuais ou também para os agentes de pastoral?

Prof. Roque: Em primeiro lugar, deve-se evitar o “endeusamento” dos “Pais e Mães da Igreja”. Eles não disseram tudo. Têm de ser compreendidos no contexto histórico, social, político e econômico em que viveram. Não podem ser modelo para tudo e para todos. Não deram a última palavra teológica.

Em segundo lugar, deve-se evitar os “ana­cronismos” como, por exemplo, pensar Pedro como Papa ou os chamados “bispos” e os “presbíteros” como os bispos e os padres atuais.

Deve-se assumir que a Igreja não é só corpo místico mas também corpo histórico e, por isso, ela está marcada pelos homens que a formam e a dirigem em cada época. Esses homens estavam condicionados, por mais bem-intencionados que fossem, pelo tempo, temperamento, cultura, vícios e psicoses pessoais. O esforço que fizeram, o empenho com que se dedicaram à causa que abraçaram, isso é modelar, exemplar, mas não os transformam em “santos”, automaticamente.

Por outro lado, partindo da inspiração dos que, na década de 40, começaram a redescobrir os “Pais e Mães da Igreja” e do espírito do Concílio Vaticano II, isto é, espírito ecumênico, sabendo que tanto católicos como ortodoxos, e também os cristãos das Igrejas surgidas da Reforma (Luteranos, Calvinistas, Anglicanos, Episcopalianos, Metodistas etc.), têm em comum a estima aos escritos dos “Pais e Mães da Igreja”, o estudo atual deles será o ponto de máximo valor para a questão do ecumenismo e ajudará, certa­mente, a estreitar os laços, o diálogo inter­confessional. Só por esse fato, já se justificaria o seu estudo.

Em terceiro lugar, o estudo dos “Pais e Mães da Igreja” pode ajudar a compreender a Igreja de hoje e seus problemas, pois mostram como as raízes do presente estão fincadas no passado e permitem acompanhar sua evolução. Permitem entender melhor a complexidade dos problemas atuais, as tensões, os conflitos. Nessa direção, penso que a PAULUS Editora está prestando um serviço inestimável aos cristãos de todas as denominações, colocando ao alcance de todos os melhores textos dos “Pais e Mães da Igreja”, não só na nova coleção Patrística, mas também na coleção Espiritualidade, na qual já apareceram títulos significativos, e na coleção Patrologia.