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Publicado em Novembro-Dezembro de 2009 (pp. 20-27)

Profecia e martírio na Igreja: Testemunhos dos Padres da Igreja aos nossos tempos

Por Ivanir Signorini

O martírio é um dos sinais mais eloquentes da veracidade da revelação. Por ele, a Igreja reconhece-se no caminho da santidade, pois segue a trajetória do próprio Cristo, mártir na cruz. Desde os tempos antigos, os cristãos conheceram o martírio e assumiram seus ideais, mesmo que isso lhes custasse a vida e tantos sofrimentos. Os relatos de martírios impressionavam pela coragem e convicção de suas vítimas, o que assustava seus algozes e lhes causava admiração. Mas os mártires nunca recuaram e até cresciam em dignidade diante dos insultos, blasfêmias e maus-tratos sofridos. O presente artigo mostra a trajetória da teologia e da pastoral do martírio desde os tempos bíblicos, centrando-se nos tempos heroicos dos primeiros séculos. Em todos os séculos, conhecemos relatos de martírios dolorosos, sobretudo nas últimas décadas da nossa história latino-americana. Hoje o martírio continua na resistência de grupos e líderes de comunidades, leigos e leigas, religiosas e sacerdotes que a cada dia ofertam sua vida em nome do evangelho, na causa dos pequeninos.

 

1. Ser cristão, ser mártir

A Igreja primitiva considera mártir aquele que professa sua fé em Cristo e, por causa disso, derrama o próprio sangue. O cristão que derrama seu sangue é alguém que compreendeu a verdade fundamental do cristianismo, a ponto de por ela dar a vida; alguém capaz de viver de fato o cristianismo, mesmo nas situações mais adversas.

O cristão mártir derrama seu sangue, pois aceitou, pela fé, a verdade de Jesus Cristo e vive em função dela. Derramar o sangue por Cristo é testemunho de verdadeiro cristão, que foi capaz de assumir como sua a verdade de Cristo e a viveu em todos os momentos da existência, mesmo diante da certeza da morte suscitada pela confissão de sua fé. O martírio é a morte causada pela perseguição dos inimigos da fé e da verdade cristã; é testemunhar com a vida o amor de Deus, que se estende aos irmãos e não aceita as injustiças sociais e as opressões sofridas pelo povo de Deus. Ser cristão é, além de professar a fé em Cristo, lutar contra a injustiça social e a morte causada por políticas imperiais ou ditatoriais. O mártir adere livre e voluntariamente à morte, ao martírio. Aderir voluntariamente não significa procurar o martírio pelo martírio. Este deve ser consequência da vida em Cristo. E o cristão age pela verdade divina e sabe que, se continuar agindo de tal forma, será perseguido e morto em virtude de tal ação. Na realidade, a voluntariedade decorre da adesão interna à verdade de Deus, adesão essa que leva a pessoa a agir conforme tal verdade.

O cristão não teme a morte pelo martírio; ao contrário, entende-a como ida ao encontro de Deus, de sua comunhão. Não procura morrer para encontrar a Deus, mas, ao fazer o caminho de encontro com ele, depara com a morte e a aceita livremente, com alegria e convicção. Convicção que sempre assustou os perseguidores dos cristãos; convicção que lhes dá força e a certeza da glória de Deus. No martírio o cristão vê Jesus, vê Deus. O martírio de Estêvão demonstra esta certeza: “Repleto do Espírito Santo, Estêvão olhou para o céu e viu a glória de Deus, e Jesus, de pé, à direita de Deus. Então disse: ‘Estou vendo o céu aberto e o Filho do homem, de pé, à direita de Deus’’’ (At 7,55-56).

Temos, a partir do segundo século depois de Cristo, o culto aos mártires: “O culto dos mártires existe desde o século II, como testemunha a história de Policarpo. Ele se desenvolveu no século III, com o número crescente dos mártires. Nos dias dos aniversários de martírio são lidas as Atas dos confessores ilustres, cuidadosamente conservadas nas Igrejas; também as Paixões, redigidas por testemunhas contemporâneas, como a de Policarpo e a de Felicidade e Perpétua”[1].

O martírio surge como consequência do testemunho. Por causa desse testemunho, ocorre a perseguição realizada pelos inimigos da fé cristã, levando ao derramamento de sangue do mártir, ou seja, à morte, aceita voluntariamente em decorrência do testemunho de Cristo. Portanto, o mártir não procura a morte para atingir a comunhão com Cristo, mas, ao procurar Cristo, passa pelo caminho do martírio.

 

2. Viver e morrer por Cristo

Cristo alertara seus seguidores de que a verdadeira vida passa pela morte. Tiago e João, ao pedirem o privilégio de sentar ao lado de Cristo, são informados de que sua missão compreende a morte: “Vocês vão beber o cálice que vou beber, e vão ser batizados com o batismo com que eu vou ser batizado” (Mc 10,39-40). O próprio Jesus demonstrava aos discípulos que seu seguimento deveria ser total, a ponto de envolver a comunhão nas mesmas dores e sofrimentos e, principalmente, a doação da própria vida em prol do reino de Deus. “Os cristãos, desde o início, viram o martírio como uma imitação de Cristo, isto é, um tornar Cristo crucificado presente e atual no meio dos homens.”[2] O martírio é a forma de tornar o Cristo crucificado presente no meio das comunidades e dos povos.

A compreensão evangélica de que o martírio é o caminho por que deve passar o cristão, demonstrando sua adesão íntima ao divino, a Deus, a Jesus Cristo, será a tônica dos cristãos. Os Atos dos Apóstolos apresentam o martírio de Estêvão (At 6,8-7,60). Antes da morte, Estêvão, a exemplo de Cristo, entrega o Espírito a Deus e pede o perdão para seus algozes (At 7,59-60). Nesse mesmo livro bíblico, encontramos o martírio de Tiago pelo rei Herodes. O rei passou a maltratar os cristãos e martirizou Tiago à espada.

Paulo, no tempo em que se chamava Saulo, era fariseu e perseguia os cristãos (At 9,1ss; cf. o martírio de Estêvão em At 7,58). Após a conversão, passa a ser perseguido e a sofrer prisões e ameaças de morte por pregar a fé em Cristo. Ele é perseguido em Antioquia da Pisídia (At 13,44-51), em Icônio (At 14,1-7), em Listra, por instigação de pessoas daquelas duas cidades (At 14,19-20); é preso em Filipos (At 16,16-40) e em Jerusalém e é conduzido a Roma (At 21-28), onde, por fim, acaba sendo martirizado.

Sabemos do martírio de Paulo e Pedro em Roma por meio da Carta de São Clemente Romano aos Coríntios. Quanto ao martírio de Paulo, ela assim se expressa: “Por ciúme e discórdia, Paulo ostentou o preço da paciência. Sete vezes carregado de cadeias, exilado, apedrejado, arauto no Oriente e no Ocidente, recebeu a ilustre glória por sua fé”[3]. Acerca do martírio de Pedro, diz: “Fixemos nossa vista sobre os valorosos Apóstolos. Pedro, que por ciúme injusto não suportou apenas uma ou duas, mas numerosas provas e, depois de assim render testemunho, chegou ao lugar merecido da glória”[4].

 

3. Mística do martírio

Os Padres da Igreja compreendiam o martírio como imitação e atualização do martírio por excelência, o de Cristo.

Em Inácio o tema da imitação de Cristo ocupa um lugar de destaque. Seu caminho para o martírio é comparado ao do catecúmeno que se prepara para o batismo, tudo recebendo de Deus… Os mártires de Lyon “amavam reservar este título de mártir a Cristo, a testemunha fiel e verídica por excelência”. O mártir cristão professa sua fé em Cristo diante dos tribunais. Sua fidelidade à mensagem do Mestre o conduz ao cárcere e aos suplícios. Sua morte violenta o une mais intimamente ao seu Senhor morto e ressuscitado. “Cristo julgou digno de chamá-lo para junto de si, após ter gravado nele, pela morte, o selo do martírio”.[5]

 

A profissão de fé e o culto ao único Senhor, Jesus Cristo, acarretaram perseguições aos cristãos. Essas perseguições provinham tanto de imperadores romanos quanto de autoridades judaicas.

 

3.1. Perseguição pelos judeus

O conflito maior com os judeus ocorreu em torno da compreensão de Messias. Jesus, para os cristãos, era o Messias esperado, mas não era reconhecido assim entre os judeus. Dessa forma, começou um distanciamento dos cristãos em relação ao judaísmo, distanciamento de suas normas, práticas, fé e crença messiânica.

Nessa perspectiva, os judeus “incluíram os cristãos como minim (hereges) no Shemone Esre, sua oração cotidiana, e instigaram contra eles a opinião pública”. Por outro lado, “a argumentação teológica dos cristãos reivindicava as profecias do Antigo Testamento para a salvação operada em Cristo e, insistindo na fé, declarava ser a salvação dos homens independente da filiação a Israel”[6].

Essas acusações geraram perseguições mútuas. Os cristãos desenvolveram uma polêmica antijudaica, “como se pode ver na Carta de Barnabé ou no Diálogo com Trifão, de Justino. Inácio de Antioquia ainda opõe o cristianismo ao judaísmo como uma nova forma de vida; em Melitão de Sardes (morre antes de 190 d.C.) já aparece a palavra maligna ‘assassínio de Deus’ (Homilia sobre a Páscoa, 94-97)”[7]. Essa polêmica antijudaica suscitou embates e foi retomada ao longo da história como um dos motivos para perseguir os judeus. Entre 132 e 135 d.C. ocorreu a revolta judaica contra Roma, liderada por Bar-Kokhba; este, após a luta contra os romanos, passou a perseguir e castigar os seguidores de Jesus em Jerusalém por terem se afastado da tradição mosaica.

 

3.2. Perseguição pelos romanos

Quando os cristãos se tornaram um grupo numeroso, suas práticas passaram a representar perigo para os romanos, gerando, com isso, uma série de perseguições.

As primeiras perseguições aos cristãos ocorrem em regiões específicas e localizadas do Império Romano. Estas perseguições foram protagonizadas pela espontaneidade de populações ou por órgãos estatais específicos de determinada administração romana. Estas perseguições ocorreram entre os anos de 50 d.C. (governo do Imperador Cláudio — 41-54 d.C.) até 192 d.C. (governo do Cômodo — 180-192 d.C.). Este período é marcado pela alternância de intensas perseguições e mortes sangrentas e por certa tolerância à fé cristã.

A primeira perseguição cristã de que temos notícia, narrada por Seutônio, ocorreu em torno do ano 50 d.C. e foi protagonizada pelo imperador Cláudio (41-54 d.C.). Cláudio expulsou os judeus de Roma, acusando-os de provocar distúrbios sociais. Nesse período, cristãos e judeus, em algumas regiões, ainda mantinham estreitos relacionamentos e algumas comunidades cristãs eram constituídas de judeus que se tornaram seguidores de Jesus (os judeu-cristãos). A perseguição aos judeus evidentemente se estendeu também aos judeu-cristãos e se restringiu a expulsá-los para longe da cidade de Roma.

Nero (54-68 d.C.) tinha planos de reformar Roma e realizar novas construções. Incendiou a cidade e acusou os cristãos de ser os responsáveis. Essa acusação gerou uma perseguição aos seguidores de Cristo por parte da população revoltosa, e o próprio Nero, com apoio popular, promoveu espetáculos que tinham como centro a morte de cristãos. O historiador Tácito, em 63 d.C., narra estas atrocidades:

Foram presos, em primeiro lugar, aqueles que confessavam; depois, com o depoimento deles, um grande número foi acusado menos do crime de incêndio do que do de ódio ao gênero humano. Ao suplício foi acrescentado o escárnio; homens envoltos em peles de animais morreram dilacerados pelos cães ou foram atados a cruzes; em outros foi ateado fogo, ao cair da tarde, a fim de alumiarem a noite (Anais, 15,44).[8]

 

Os cristãos sempre foram alvo de perseguições no império romano. Em certa perseguição na época do imperador Domiciano (81-96 d.C.), o imperador executou muitos, acusando-os de ateísmo. Nessa ocasião, o evangelista João teve de exilar-se em Patmos.

Sob o governo de Trajano (98-117 d.C.) ocorreram duas situações de perseguição. Inácio escreve sua trajetória: “Sou o trigo de Deus e serei moído pelos dentes das feras, para tornar-me pão imaculado de Cristo. Quando o mundo não vir mais meu corpo, serei um verdadeiro discípulo de Jesus Cristo”[9].

Em Jerusalém, sob o domínio do imperador Adriano (117-138 d.C.), os judeu-cristãos foram perseguidos após a revolta judaica (132-135 d.C.), liderada por Bar-Kokhba. O imperador esmagou a revolta, encheu Jerusalém de templos gregos, trocou o nome da cidade para Aelia Capitolina e proibiu os judeus de entrar na cidade sob pena de morte. No período do imperador Antonino (138-161 d.C.), no ano de 156, Policarpo, bispo de Esmirna, por ser cristão, foi sacrificado na arena de Roma. “O aparelho para prendê-lo à fogueira foi disposto em torno dele. Os carrascos iam pregá-lo, quando ele disse: ‘Deixai-me livre; aquele que me deu forças para enfrentar o fogo dar-me-á forças também para permanecer imóvel sobre a fogueira, sem necessidade de vossos cravos’. Durante esse tempo, sentimos um perfume delicioso como o do incenso ou o dos mais preciosos aromas”[10].

Veja-se também um trecho do martírio de Justino, sob Marco Aurélio (161-180 d.C.), no qual o Padre mostra sua fé e convicção:

Quando estavam diante do tribunal, o prefeito Rústico disse a Justino: Primeiramente submeta-se aos deuses e obedece aos imperadores. JUSTINO — Ninguém pode ser censurado ou condenado por ter obedecido aos mandamentos de nosso Salvador, Jesus Cristo. O prefeito Rústico — A qual ciência te consagras? JUSTINO — Estudei todas as ciências. Acabei abraçando a doutrina verdadeira dos cristãos, embora ela desagrade àqueles que são desviados pelo erro.[11]

 

A partir de 193 d.C., sob o governo de Sétimo Severo (193-211 d.C.), até 311 d.C., no governo do imperador Galério, verificou-se o agravamento da situação. Nesse tempo, o imperador, oficialmente, proclamou perseguições aos cristãos em todos os cantos do império. Em 202 d.C., o imperador Sétimo Severo editou uma lei que proibia a conversão ao judaísmo e ao cristianismo. Com essa lei assistiu-se à primeira perseguição universal aos cristãos. No período, foram martirizadas as jovens cristãs Perpétua e Felicidade, em Cartago[12].

Quando o imperador Décio (249-251 d.C.) assumiu o poder, novas perseguições tiveram lugar. Como em todos os tempos, elas escondiam um motivo muito evidente: medo do poder crescente e da rebeldia dos cristãos, que criticavam os poderosos e não se submetiam às suas leis atrozes. Décio, para reforçar sua autoridade e garantir a unidade do império, exigiu a veneração aos deuses do império e o culto ao imperador. Também ordenou a prisão dos bispos cristãos das principais comunidades. É desse período o martírio do papa Fabiano[13] e de tantos outros sacerdotes.

Sob o imperador Valeriano (253-260 a.C.), o clero foi obrigado a sacrificar aos deuses romanos e impedido de celebrar o culto cristão. A desobediência implicava pena de morte e confisco de bens. Sabe-se que o próprio papa Sixto II (257-258 d.C.), com quatro de seus diáconos, foi martirizado no governo de Valeriano.[14]

O imperador Aureliano (270-275 d.C.) buscou a unificação e a solidificação do império. Assim, introduziu um culto comum no império, o culto e a adoração ao “Sol invictus (o deus-sol vitorioso), e atribuiu-se o título de “Dominus et deus” (Deus e Senhor). Com Diocleciano (284-305 d.C.), a tendência de Aureliano foi reforçada, gerando, consequentemente, a partir de 303 d.C., uma série de perseguições e assassínios de cristãos.

Com a abdicação de Diocleciano, temos o fim da perseguição universal do império romano aos cristãos e inicia-se uma fase de aproximação ao Estado romano.

 

4. Paradigma do martírio em nossos tempos

O martírio cristão que se verificou na Igreja primitiva tornou-se emblemático para toda a história do cristianismo. Passado o período de perseguição aos cristãos, mesmo após o cristianismo ter se tornado fé aceita e, muitas vezes, a única oficial, o martírio nunca deixou de se fazer presente na história da Igreja. São os mártires de todos os tempos que, inspirados no martírio por excelência do próprio Cristo e no testemunho martirológico da Igreja primitiva, têm continuado a testemunhar virtudes divinas anunciadas pelo cristianismo.

O martírio, no entendimento da Igreja, decorre não somente da profissão de fé, mas também de virtudes que se relacionem a Deus. É evidente que toda virtude relacionada a Deus funda-se, por excelência, na fé.

Virtude cristã é agir livremente conforme a vontade de Deus, ocasião em que nos entendemos como seres para Deus. Desse entendimento decorre nossa profissão de fé, o agir e a liberdade. Portanto, virtuoso, no cristianismo, é o que se esforça para constantemente agir conforme a vontade de Deus; o que a cada pensamento, palavra ou ato procura se configurar a essa vontade. Essa configuração transparece na profissão de fé, na adesão ao ritual cristão e no agir cristão na sociedade: ação no trabalho, no lar e na vida social segundo a vontade de Deus.

Mártir derrama o sangue. Ao longo da história da Igreja, muitos foram os mártires que deram a vida por aderirem à verdade da fé cristã e por ela livremente derramarem seu sangue. Santa Maria Goretti deu a vida para preservar sua pureza virginal, por entendê-la como uma virtude divina. São João Batista morreu martirizado por defender a fidelidade conjugal como uma virtude divina. Ao se recusar a violar o segredo de confissão, são João Nepomuceno foi martirizado.

Muitos cristãos foram mártires nos campos de concentração, como testemunho contra um sistema imperialista que dizimou milhares de vidas. A Igreja celebra, no dia 14 de agosto, o martírio de Maximiliano Maria Kolbe, padre franciscano, prisioneiro dos campos de concentração de Auschwitz durante a 2ª Guerra Mundial. O padre ofereceu a vida no lugar da do pai de família e sargento do exército polonês Franciszek Gajowniczek, condenado a morrer de fome e sede como punição pela fuga de um preso. Maximiliano foi verdadeiro mártir, pois amou a exemplo de Cristo. Maximiliano, como os mártires, rezou pelos seus torturadores e assassinos.

Em nossos tempos, não vivemos perseguições sistemáticas contra a Igreja, mas contra fiéis que assumem causas sociais e ecológicas em nome da fé. É o caso da irmã Dorothy Stang, mártir no Pará. Ela, em nome da fé no Deus de Jesus Cristo, pôs-se ao lado das populações pobres, vítimas de poderosos que as expulsavam para se apropriar das suas terras. Essa fé lhe deu força e coragem para permanecer no local, mesmo sabendo que sua vida corria riscos, mesmo recebendo constantes ameaças. Ameaças que se confirmaram em fevereiro de 2005, quando, aos 73 anos, foi brutal e covardemente assassinada a tiros. Muitos inimigos das coisas de Deus atualmente não apresentam o rosto e o nome nem dizem por que matam. Mas nós sabemos. Utilizam-se das estruturas estatais para serem inocentados.

 

5. Em tempos de opressão, martírio é subversão

A Igreja na América Latina, à luz da realidade própria deste continente, entendeu como martírio as perseguições, torturas e mortes com derramamento de sangue sofridas por fiéis, religiosos e religiosas, sacerdotes e bispos. A Igreja latino-americana funda-se no martírio de Cristo, no testemunho apostólico e na Igreja primitiva. Texto emblemático para a Igreja latino-americana é o da carta de Tiago 2,14-26: “Meus irmãos, se alguém diz que tem fé, mas não tem obras, que adianta isso? Por acaso a fé pode salvá-lo? Por exemplo: um irmão ou irmã não têm o que vestir e lhes falta o pão de cada dia”. Tiago considera que a fé salvadora é a fé com obras. E as obras consistem em dar de comer e de vestir aos que não têm comida nem veste todo dia. Agir para prover as pessoas de comida e vestimenta é dar paz; é agir conforme a vontade de Deus; é ser virtuoso; é uma virtude relacionada a Deus; é uma virtude fundada na fé; é tratar das coisas divinas; é ser mártir.

A alegoria de Mateus (25,31-46) torna-se a pedra angular para o entendimento do martírio latino-americano. Jesus, ao falar do juízo final, é lacônico ao apresentar os abençoados de Deus como os que dão de comer, beber, hospedagem, cuidam dos doentes, visitam os presos: “Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar”. Dar comida, bebida, agasalho, hospedagem é ajudar os pequeninos; é ajudar a Cristo. Mas a ajuda efetiva ocorre quando destruímos sistemas e estruturas que geram situações de pobreza e miséria; estruturas que vivem de pobres, de pessoas que não têm comida, bebida, agasalho, casa. A Igreja latino-americana, na realidade que lhe é própria, entendeu que ajudar os pequenos e a Cristo é também combater estruturas sociais injustas que fabricam miséria. Esse combate é amar a Cristo; é confessar-se cristão; é dedicar a vida a Deus.

Diante desse entendimento, muitos foram os cristãos que, por professarem a fé, lutaram contra estruturas sociais injustas, capazes de gerar fome, miséria, escravidão e morte. Luta que lhes custou a vida com o derramamento de sangue. São mártires? São mártires, pois morreram pela fé. “A fé, enquanto esteve embalsamada nas formulações dos manuais e catecismos aprovados, parece que não despertou maiores suspeitas (…) mas a fé que entra no modo de ser diário, pessoal e social, na sociedade injusta, egoísta, não cristã, passa a ser um ‘foco’ de subversão da ‘ordem’ existente, desmoralizando e anulando os que a encarnam”[15].

Na América Latina, cristãos morreram pela fé, pelo amor e pela dedicação total a Cristo. Doaram a vida para assegurar comida, água, moradia e liberdade aos pequeninos, ou melhor, a Cristo (Mt 25,31-46), e lutaram contra estruturas ditatoriais causadoras dessa situação. Muitos foram os mártires no Brasil, na Bolívia, no Paraguai, na Argentina, em El Salvador, no México, na República Dominicana e em outros países. Como não falar de martírio, de amor a Cristo, à Igreja, ao próximo e à fé, no caso de inúmeros cristãos perseguidos e torturados por denunciarem situações injustas e por se colocarem ao lado dos pobres?

A Argentina conhece inúmeros mártires, como dom Enrique Angel Angelelli, vítima de um suposto acidente automobilístico após apurar o assassínio de dois padres, ou os missionários palotinos (pe. Alfredo Kelly, Pedro Duffau e Alfredo Leaden e os seminaristas Emílio e Salvador) assassinados por policiais, em 1976, por serem contrários à pena de morte e ao regime militar. São modelos de vida cristã, sacrificados por sua fé encarnada e subvertedora dos planos dos poderosos.

Na Guatemala, o sacerdote dominicano Carlos Morales foi assassinado por defender os camponeses e as comunidades indígenas vítimas de discriminação racial. Nesse país, a realidade de pobreza contrasta com a riqueza concentrada nas mãos de apenas 300 famílias. A Igreja se levanta contra tal situação e inúmeros sacerdotes e leigos têm morrido em prol dessa causa, entre os quais destacamos Conrado de la Cruz e Guilhermo Woods.

Em El Salvador, dom Oscar Romero foi assassinado quando celebrava uma missa. Ele denunciava a exploração do povo pobre e mobilizava inúmeras pessoas para mudar a realidade do país e evitar uma guerra civil. Sua luta incomodou 14 famílias que compunham a elite de El Salvador; elite que passou a culpar a Igreja pela situação de revolta no país.

No Panamá destacamos o sacerdote Héctor Gallego. Sua atividade consistia em reunir os camponeses para, com base na discussão dos problemas locais, ler os textos bíblicos, buscando a resposta de Deus àquela situação. A conscientização dos camponeses gerou a fúria das elites, que, em 9 de junho de 1971, assassinaram o sacerdote.

No México, o padre Juan Morán Samaniego foi morto por conscientizar e unir o povo, a fim de que não aceitasse a tomada das terras. A resistência popular causou a fúria dos poderosos locais, que não hesitaram em ameaçar o padre e assassiná-lo em 1979, na Diocese de Toluca.

No Brasil, o frei dominicano Tito foi protagonista de uma das histórias mais polêmicas. Preso e torturado pela ditadura militar, para que entregasse seus confrades que fomentavam a conscientização contra a ditadura, foi exilado num mosteiro na França, onde, em razão dos traumas causados pelas torturas, cometeu ato suicida em 1974. O padre Rudolf Lunkenbein e o índio bororo Simão foram mortos em 1976, na colônia indígena de Meruri, a leste do Mato Grosso: o padre defendia os índios bororos e suas terras e, em consequência disso, os dois morreram no ataque à colônia promovido por 62 fazendeiros da região. Em 1976, o padre jesuíta João Bosco Penido Burnier foi agredido no crânio e no cérebro por um soldado militar ao se opor à tortura de duas mulheres na delegacia; o padre morreu no dia seguinte à agressão. Padre Antônio Henrique Pereira Neto foi assassinado no Recife, em 1976, pelo seu empenho na organização da juventude universitária, principal foco de resistência ao regime militar.

Inúmeros são os mártires sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos que, por causa do evangelho, denunciaram e enfrentaram o Estado, as elites e as doutrinas de segurança nacional instaladas nos países da América Latina, os quais promoviam pobreza, morte, expulsão de camponeses das próprias terras, impunidade em relação a crimes praticados por autoridades, má distribuição de terras, exploração de povos indígenas ameaçados. Eles sabiam que corriam risco de morte, mas resistiram e enfrentaram-na por amor a Cristo e à Igreja. Aceitaram, livremente e por amor a Deus, ofertar a vida nos altares do povo explorado e oprimido.

 

6. Martírio branco

O martírio vermelho se dá com o derramamento do sangue em nome da fé, tendo em vista as coisas sagradas, ou seja, a vontade de Deus. Ainda presenciamos situações de martírio em localidades específicas do mundo. Em diversos lugares, cristãos são sacrificados em patíbulos de terror. Em outros, como em nossas comunidades e nas pastorais de fronteira, sacerdotes, religiosas(os) e leigas(os) entregam a vida e vivem na austeridade, partilhando o destino dos empobrecidos. Alguns ainda tombam violentamente, como irmã Dorothy. Outros se entregam silenciosamente e morrem aos poucos, para que o povo tenha mais vida. São muitos os cristãos mártires nos centros e nas periferias das cidades, no sertão e nos campos.

No entanto, a tradição da Igreja também reconhece o martírio branco, que se dá quando alguém abandona tudo em nome de Cristo e porque ama a Deus. São fiéis que deixam família, bens, riquezas, confortos para dedicar sua vida a Deus. Essa dedicação passa pela convivência e inserção em comunidades exploradas, no auxílio aos que passam fome e não têm onde morar e onde buscar a cura para suas doenças. São pessoas, mártires, que entendem que a vida é gratuidade de Deus. Sendo gratuidade, devemos vivê-la como tal. Ou seja, somente viveremos a verdadeira vida quando todos tiverem vida digna e soubermos viver como irmãos; quando já não houver necessitados, fome e exploração do ser humano sobre os próprios semelhantes; quando todas as pessoas entenderem que o centro de sua vida é Deus. Deus que é amor, misericórdia e bondade.

Olhemos para nossos mártires, os santos de todos os tempos, e busquemos neles modelos de amor e dedicação ao próximo segundo a fé em Jesus Cristo. Fixemos o olhar na ação pastoral de tantos “mártires” que se queimam qual chama viva nas comunidades para animar a luta dos empobrecidos. Que a vida deles seja exemplo eficaz de fé para nossa vida.

 


Bibliografia

BERARDINO, Angelo di. Dicionário patrístico e de antiguidades cristãs. São Paulo: Paulus, 1983.

BOGAZ, A. S.; COUTO, M. A.; HANSEN, J. H. Patrística, caminhos da tradição cristã. São Paulo: Paulus, 2008.

CLEMENTE DE ROMA. Carta de Clemente Romano aos Coríntios. Trad. Paulo E. Arns. Petrópolis: Vozes, 1971.

DUÉ, Andrea. Atlas histórico do cristianismo. Aparecida: Santuário; Petrópolis: Vozes, 1999.

HAMMAN, Adalbert-G. Para ler os Padres da Igreja. São Paulo: Paulus, 1995.

LENZENWEGER, JOSEF et al. História da Igreja católica, São Paulo: Loyola, 2006.



[1] Hamman, 1995, p. 54.

[2] Figueiredo, 1986, p. 106.

[3] Clemente de Roma, 5,5-6.

[4] Idem, 5,3-4.

[5] Figueiredo, 1986, p. 106.

[6] Lenzenweger et al., 2006, p. 26.

[7] Idem, p. 26.

[8] Hamman, 1995, p. 67.

[9] Idem, p. 23.

[10] Idem, p. 24.

[11] Idem, pp. 67-68.

[12] Idem, pp. 53 e 59.

[13] Idem, p. 49.

[14] Cf. Hamman, 1995, pp.49 e 53-54.

[15] Ferrari, 1984, pp. 24-25.

Ivanir Signorini