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Publicado em Novembro-Dezembro de 2009 (pp. 11-12)

Teologia Patrística: Diálogo com as culturas e inculturação, ontem e hoje

Por Frei Carlos Josaphat, op

Os santos Padres foram os corajosos e sábios pioneiros da difusão do evangelho, da sua apresentação bem adaptada para a vida dos fiéis e das comunidades, nos primeiros séculos do cristianismo.

Eles inauguraram o diálogo com as formas de pensamento e com as correntes filosóficas de seu tempo e realizaram, de maneira exemplar, a primeira e bem-sucedida inculturação do evangelho.

Assim se realizava a consolidação da Igreja na fidelidade criativa ao seu divino fundador, na docilidade ao Espírito de amor e de santidade e na estima dos grandes valores culturais, éticos e espirituais da humanidade.

Os primeiros santos Padres — são Clemente de Roma, santo Inácio de Antioquia, são Policarpo de Esmirna — prolongaram o labor dos apóstolos, organizando e estruturando as comunidades eclesiais. Com zelo e inteligência, esses pastores e doutores dotavam a jovem Igreja com os elementos e recursos necessários para que o evangelho, os sacramentos, os ministérios pudessem estar presentes e bem ajustados ao mundo de então.

Esse belo trabalho foi continuado e ampliado pelos grandes luminares da Igreja. Que se pense em santo Atanásio, santo Hilário, santo Ambrósio, são Jerônimo, santo Agostinho, são João Crisóstomo, são Basílio, são Cirilo de Alexandria, são Gregório Magno. Eles resplandeceram no que se chama de a idade de ouro da época patrística. Assim, esses discípulos e missionários da sabedoria levaram a cabo a primeira inculturação mundial da mensagem de Cristo.

Poderíamos dizer que essa grande façanha, realizada em todos os cantos da terra, na Europa, na Ásia e na África, já evocava uma primeira globalização, que nada tinha de uma invasão pelas armas ou de dominação pelo dinheiro. Era o reino da inteligência e do amor, contando com os guias espirituais que se davam quais mestres pacíficos do pensar, do orar e do benfazer.

Com eles e por eles, o evangelho se difunde como a força renovadora do reino de Deus. A verdade e o amor do evangelho produzem a grande virada qualitativa, a mudança profunda e renovadora nos corações e na história da humanidade. Pois a pregação de Jesus de Nazaré se universaliza, suscitando uma rede de comunidades que são outras tantas escolas de perfeição e de elevação espiritual e cultural.

A palavra de Deus, anunciada pelos apóstolos, insere-se em novas formas de linguagem e de cultura, as quais, para além do perfil judaico primitivo, lhe dão novos rostos, fazendo surgir bem unida uma humanidade multicor, multirracial e multicultural. Vai se estabelecendo a fraternidade e vão se desfazendo as discriminações que ameaçam dividir e opor as raças, os povos, as classes sociais e até mesmo as religiões. É a bela lição que nos deixaram os santos Padres e as comunidades por eles edificadas, formando a imensa comunidade da Igreja universal, fonte de graça e de paz para as pessoas e para os povos.

É útil e proveitoso acompanhar, em todos os seus aspectos e em toda sua riqueza divina e humana, os primórdios daquele processo pacífico, mas por vezes acidentado, que vem a ser a inculturação do evangelho.

Mantendo contato com os santos Padres, contemplamos e admiramos a evolução harmoniosa, porque cuidadosamente estimulada e vigiada, das doutrinas, dos costumes, do culto e do conjunto das instituições.

No centro, está a liturgia, o solene culto da Igreja, a expressão primeira de sua vida, de suas comunidades e de seus fiéis. Que preciosidade de doutrina e de graça não resplandece nos ritos dos sacramentos da iniciação cristã, inaugurada e aprimorada nas grandes comunidades patrísticas! No coração da Igreja, qual força primordial de seu crescimento, a eucaristia é celebrada de maneira fiel e criativa.

Desde o primeiro século e cada vez com maior beleza, o domingo, o dia do Senhor, refulge como o núcleo transformador de todo o ciclo litúrgico, que se vai constituindo e ampliando pela fecundidade da palavra, dos sacramentos, do martírio e de outros modelos de santidade dos fiéis de Cristo e seus pastores, guias e mestres de perfeição.

Um dos aspectos mais visíveis, de importância decisiva e duradoura na inculturação do evangelho realizada na época patrística, vem a ser a elaboração e proclamação dos dogmas fundamentais da fé cristã.

Foi a obra dos primeiros e grandes concílios ecumênicos, desde a primeira metade do século IV, reunindo e empenhando a autoridade do conjunto dos bispos em comunhão de fé com toda a Igreja. A Bíblia e a primeira tradição apostólica haviam transmitido a mensagem dessa fé em termos concretos, no processo da história da salvação e da experiência de vida das comunidades e dos fiéis. O que estava em jogo era, portanto, a vida mesma da Igreja, consciente de ser a comunidade que, pela fé e pela graça, tornava presente no mundo a própria comunhão trinitária.

Os concílios e o ensino dos santos Padres deram a essa mensagem e a essa experiência de vida uma elaboração dogmática e doutrinal em sintonia com a filosofia e a cultura, encetando um diálogo que continuaria pelos séculos. Com base no evangelho, a evolução harmoniosa da liturgia, do dogma e da moral foi acompanhada e articulada pelo desenvolvimento das doutrinas, dos ministérios, da hierarquia. A Igreja há de guardar memória perene dessa sua primeira juventude patrística.

No decorrer da história — constatação válida também para os dias de hoje —, todo movimento de renovação da Igreja teve necessidade de começar por um reviver da palavra e da graça de Deus, reencontradas nesta primavera do Espírito que são as comunidades e a figura dos santos Padres, os Pais por excelência, os primeiros educadores de nossa fé.

O Concílio Vaticano II (1962-1965) inaugurou uma época de mais decidida e esclarecida fidelidade à tradição em sua inspiração evangélica e em sua expressão patrística.

Apontou para a Igreja atual os caminhos da colegialidade, do diálogo, da partilha e da comunhão da graça do Espírito, bem como da valorização dos carismas e dos ministérios, na diversidade dos serviços e vocações. Lembrou sobretudo o grande tema da pregação patrística, a qual jamais se contentou em impor simples moral, mas propôs e enalteceu “a vocação universal dos fiéis de Cristo à santidade”, para a plena realização da Igreja e para a felicidade de toda a humanidade.

Frei Carlos Josaphat, op