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Publicado em Maio-Junho de 2001 (pp. 19-22)

A Eucaristia no IV Evangelho: significante e significado

Por Prof. José Luiz Gonzaga do Prado

1. Introdução

R. E. Brown observa com perspicácia que, no lugar da instituição da Eucaristia da Tradição paulino-sinótica, o IV Evangelho traz o Lava-Pés[1]. O Evangelho segundo João não registra na última Ceia a tradição da instituição da Eucaristia, comum a Paulo e aos sinóticos. No lugar da Eucaristia põe o Lava-Pés. Em vez de oferecer o pão partido e o cálice partilhado, no IV Evangelho, Jesus se ajoelha aos pés de cada um, de toalha na cintura e bacia nas mãos. Em vez de dizer: “Fazei isto em memória de mim!”, diz: “Fazei do jeito que eu fiz!” Em vez de mandar repetir o rito, manda reproduzir a atitude. Significa que a comunidade joanina dava mais valor ao significado do que ao significante, queria mais fazer valer o compromisso do que repetir o rito. E podemos nos perguntar o que significa “que se faça a mesma coisa que ele fez naquela Ceia derradeira”?

 

2. A Tradição paulino-sinótica

Paulo e os sinóticos, ao relatar a institui­ção da Eucaristia, estariam mais preocupados com o significante do que com o significado? Estariam pretendendo preservar o rito, a celebração, menos que a vida?

Sabemos que João é uns 35 anos mais recente que a Primeira aos Coríntios, cerca de 20 anos mais recente que Marcos e de 5 a 10 anos posterior a Lucas e Mateus. Quando o IV Evangelho foi escrito, a celebração da Eucaristia, o “Partir do Pão” como Lucas aprecia chamar, já se estaria tornando mera formalidade? Já teria caído na rotina? Ter-se-ia esvaziado de sentido?

Não se pode negar que alguma “burocratização” da Ceia do Senhor já viesse ocorrendo. A mais antiga narrativa da Instituição (1Cor 11,23-26) visa exatamente a obviar essa “burocratização”. O “pão da igualdade”, pouco mais de 20 anos depois de Jesus, vinha sendo ocasião de se exibirem desigualdades: “enquanto um passa fome o outro fica embriagado” (1Cor 11,21).

Dois terços da população de Corinto eram feitos de escravos e o mesmo, senão proporção ainda maior de escravos, devia ocorrer nas comunidades cristãs da cidade (1Cor 1,26). E a “Ceia do Senhor” estava sendo ocasião para uns poucos ricos, letrados e bem nascidos humilharem o grosso da comunidade, os escravos, os pobres (1Cor 11,22). Aquilo já não era mais a Ceia do Senhor (1Cor 11,20)[2].

Celebrar a Ceia do Senhor é lembrar sua morte humilhante — é contradição os ricos dela se servirem para humilhar “os que nada têm”. Celebrar a Ceia do Senhor é comemorar a entrega que ele fez da própria vida — é contradição não saber esperar pelos pobres, recusar-se a partilhar com eles, pensar só em si. Celebrar a Ceia do Senhor é partilhar a mesa comum, que só pode nascer da humildade e da doação, e que “condena” este mundo desigual, (1Cor 11,32) “até que ele venha” instaurar o mundo novo.

Os sinóticos, cerca de vinte ou mais anos após Paulo, insistiram mais do que ele no significado escatológico da Ceia, na plenitude do Reino; e também insistiram no sangue, a morte violenta em favor dos discípulos e da multidão. Além disso, fazem a ligação da Ceia com a Páscoa, mostrando Jesus como o Cordeiro cujo sangue tinge as portas dos fiéis, libertando-os da escravidão. Toda essa teologia nasceu, certamente, de uma necessidade prática. Mostra os significados que uma possível “burocratização” da “partilha do pão” corria o risco de pôr a perder.

Se no início da Tradição paulino-sinótica já ocorriam desvios e mal-entendidos, pode-se crer que um pouco mais tarde, quando o IV Evangelho foi escrito, esses mal-entendidos se tivessem acentuado.

E não é de se admirar também que, com o correr dos séculos, em função das disputas teológicas, a humanidade, a humilhação, a entrega da própria vida por parte de Jesus tenham sido praticamente excluídas da reflexão eucarística, em favor da presença divina, da adoração, da exaltação, do triunfo, a ponto de se usar a Procissão de Corpus Christi para dar prestígio aos figurões do lugar, mesmo para humilhação e em detrimento do povo, como ocorreu nos “Grandes Triunfos Eucarísticos” de Diamantina e de Vila Rica[3]. Pena que a tradição ficou com o triunfo, enquanto a Tradição era a da entrega da própria vida, a da morte humilhante, a da partilha do pão, na qual “ensaiamos a festa e a alegria, fazendo comunhão”!

 

3. A teologia eucarística de João

Se o IV Evangelho não fala da Instituição da Eucaristia, não quer dizer que não fale do seu significado. Pelo contrário, é o evangelho que mais aprofunda a teologia eucarística. A ponto de alguns dos doze (que estariam representando as comunidades de Tradição paulino-sinótica, que Brown chama de Igrejas Apostólicas[4]), chegarem a vacilar. Ao que parece essas Comunidades ou Igrejas sentiram alguma dificuldade para aceitar a teologia eucarística da Comunidade do Discípulo Amado. Mas aceitaram: “A quem iremos, Senhor, só tu tens palavras de vida eterna!” — diz Pedro, seu representante máximo.

A linguagem figurada, simbólica, ou de duplo sentido, é uma das características mais marcantes do IV Evangelho a ponto de Oscar Cullmann tê-la como sua chave interpretativa[5]. Assim, para deixar o leitor mais atento ao sentido figurado das palavras de Jesus, o IV Evangelho costuma usar o seguinte artifício: Um personagem (ou grupo deles) entende literalmente o que Jesus diz e faz uma pergunta tola, ridícula, interpretando suas palavras do modo mais grosseiro possível. Assim é que Nicodemos pergunta se será preciso ficar pequenino e entrar no ventre da mãe para “nascer de novo”. A mulher samaritana pede que lhe dê da água que vira fonte interior, para que ela não precise mais buscar água. O Evangelista quer dizer ao leitor: “Não seja ridículo como eles!”.

No capítulo da Eucaristia[6] são os judeus que fazem a pergunta tola: “Como é que este homem vai nos dar sua carne para comer?”. Não pensaram no que significaria o comer a carne de Jesus, perguntaram como aquilo poderia funcionar na sua maneira de ver física e grosseira. Jesus não responde à questão do como, insiste no significado e nas consequências do comer sua carne e beber seu sangue, alimentar-se da sua doação cotidiana e da sua cruz. Eles entenderam e disseram: “É dura demais esta palavra! Quem a pode suportar?”.

Será que não nos temos preocupado mais em dar uma resposta aos judeus do que em descobrir o que significa “comer a carne e beber o sangue”? A teologia de João não está no como, mas no significado. A pergunta sobre o “como” é tola, ridícula. Só serve para mostrar que a palavra de Jesus não se deve entender em sentido literal.

 

4. Vocabulário joanino

Para entender o sentido das frases precisamos primeiro entender o significado das palavras. E, muitas vezes, as mesmas palavras têm significados diferentes em bocas ou em textos diferentes.

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Comer e beber, no sentido literal têm, evidentemente, em todos os tempos e lugares o mesmo significado. No sentido figurado, porém, o significado pode ser totalmente diverso com quase a mesma evidência.

Na história dos Primórdios, comer da “árvore do conhecimento do bem e do mal” significa experimentar o gosto de ser igual a Deus, de ser o próprio critério, de ser absoluto.

No Apocalipse, comer carne imolada aos ídolos significa praticar a idolatria, especialmente o culto ao Imperador.

Em 1 Cor e em Rm, Paulo discute o significado diferente que pode ter para mim e para o outro o comer das carnes imoladas aos ídolos.

1Cor 10,14-21 explica bem o significado do comer do altar como participação no sacrifício, e comer, entrar em comunhão, com o Corpo de Cristo, a comunidade.

Fora do capítulo 6, João só fala em comer 2 vezes: Primeiro no final do episódio da Samaritana, quando os discípulos dizem: “Come, mestre!”. E ele: “Tenho para comer um alimento que vocês não sabem!”. É “realizar a vontade do Pai, terminar a obra”. E ele diz “está terminado”, só quando “inclina a cabeça e comunica o espírito”. O alimento que Jesus come é, pois, realizar o projeto do Pai, é dar a própria vida e comunicar o espírito, ou seja, a capacidade de também dar a própria vida.

E, depois, no capítulo 18, diz que os judeus não quiseram entrar na casa de Pilatos a fim de não se contaminarem para poderem “comer a Páscoa”. Aqui a ironia de João irrompe com força: Vão assassinar um inocente (o verdadeiro cordeiro pascal), mas têm escrúpulos de entrar na casa de um gentio para poder estar puros a fim de comer aquela páscoa que virou mera formalidade. Aqui comer é participar da celebração, é praticar o gesto ritual da Ceia Pascal agora destituída de sentido.

Podemos, então, resumir o significado do comerem provar, experimentar, participar, entrar em comunhão com o que o alimento significa e com os comensais, digerir, assimilar, cumprir a missão de dar a própria vida.

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Carne e sangue não no sentido literal, mas como indicação de um todo, é expressão semita bem semelhante à nossa “carne e osso”. Carne é, porém, palavra-chave da teologia joanina. “E o Verbo se fez carne”, segundo Bultmann (TheoL des NT 46, p. 386), é o núcleo do IV Evangelho. Para Comblin deveríamos traduzir “O Verbo se fez pobreza”.

O IV Evangelho insiste na palavra sarx, que traduz o hebraico basar, parecendo desconhecer a palavra soma, preferida por Paulo e pelos sinóticos, ao falarem da Eucaristia. Na linguagem bíblica, sarx, carne, muito mais que soma, corpo, carrega consigo a ideia de fraqueza, de limitação, de pobreza em todos os sentidos, a ponto de Paulo, diferentemente de João, dar-lhe a conotação negativa de “instintos egoístas” como traduz a Bíblia Pastoral.

Sarx, carne, de Jesus significa, portanto, para João, o Jesus pobre, com fome, cansado, suado, mas ainda pronto a servir, a dar atenção, a acudir quem dele precisa.

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Comer a carne é, pois, ingerir, assimilar — não nos intestinos, como pensavam os judeus — mas na mente, na própria vida, no próprio comportamento, a doação cotidiana de Jesus. O engolir uma hóstia vale, se significa realmente pôr para dentro da gente o mesmo empenho humano, pobre e sofrido de Jesus a serviço dos outros. Senão…

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E o sangue? É derramado. É a morte violenta, a vida entregue, que nos purifica do pecado (1Jo 1,7). Paulo e os sinóticos insistem nisso desde que colocam a Ceia de Jesus no momento decisivo: ir em frente, encarar a morte que lhe preparam, ou fugir dela? A decisão é por ir em frente, o que significa entregar-se à morte violenta: “É o meu corpo entregue, é o meu sangue derramado!”. Gesto de suprema coragem e valentia.

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Beber o sangue consequentemente significa deixar escorrer para dentro da gente a coragem que Jesus teve ao dar o passo decisivo, que o levaria à morte violenta. E significa, à medida que significa!

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“É o espírito que dá a vida, a carne não vale nada” (6,63). Aqui o Evangelista toma a palavra espírito, por oposição a carne, no sentido de interpretação figurada, por oposição a interpretação literal: “As palavras que vos falei são espírito e vida”, têm sentido figurado profundo e vital que alguns não aceitam, acham duro demais. E a “carne” como interpretação literal das palavras de Jesus não estaria significando exatamente uma “coisificação” da Eucaristia?

No geral do IV Evangelho, porém, “espírito”, sobre o significado semita de força interior, significa a força de amar a ponto de entregar a própria vida. Esse espírito Jesus o comunica ao acabar de morrer (19,30), é simbolizado na água que, com o sangue, escorre de seu peito aberto pela lança do ódio gratuito (19,34), e transforma-se numa fonte interior a jorrar vida definitiva (4,14), rios de água viva, amor de dar o sangue, produzindo mais amor de dar o sangue, a partir do último dia, quando Jesus é glorificado na cruz (7,37-39)[7].

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“Este pão é minha carne para a vida do mundo”. Pensar-se-ia naturalmente em vida para quem come e bebe, para quem assimila Jesus. Aqui, porém, Jesus fala em vida para o mundo.

Estará o mundo sob o domínio da morte? Que significa “vida para o mundo”? Uma resposta breve e clara ouvi na homilia (conversa) numa comunidade rural: “Jesus dá o sangue e manda a gente dar o sangue pelos outros, no nosso mundo cada um está querendo é chupar o sangue do outro”. Isso nos leva à morte.

Ele é “o Cordeiro que tira o pecado do mundo”, e o pecado do mundo é este “chupar o sangue”. Há uma discussão de Jesus com os judeus, representantes da “ordem” deste mundo, na qual muito se fala em pecado, filiação diabólica e em morte (capítulo 8). Ela é colocada exatamente junto ao Tesouro do Templo, lugar onde Deus foi substituído pelo dinheiro, sua proposta de vida, pela ganância. “Todos os que vieram antes de mim (os antigos dirigentes) são assaltantes e ladrões… que só vêm para roubar, matar, destruir. Eu vim para que tenham a vida e a tenham em plenitude” (10,8. 10).

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“Vossos pais comeram o maná no deserto, mas morreram… quem comer deste pão não morrerá, viverá para sempre”. A referência ao mar, à montanha e à proximidade da Páscoa, no início do capítulo 6, já colocara o episódio todo sob o perfil do êxodo. O paralelo é claro, então: o maná não garantiu a entrada na Terra Prometida, pois morreram no deserto, enquanto o comer este outro pão descido do céu, o assimilar a doação sárquica de Jesus, dá a vida definitiva. Quem não come e bebe, quem não ingere o “dar o sangue” de Jesus, não tem vida em si mesmo (v. 54), não produz vida, produz morte. Mas quem come, permanece com Jesus, adere a ele, faz como ele (v. 56), permanece no mesmo amor dele (15,9) e assim produz vida e participa também da vida permanente que ele tem com o Pai (v. 57). Ressuscita, passa da vida meramente biológica (bios) para outra categoria de vida (zoé aiônion), vida, duradoura, definitiva ou permanente.

 

5. Conclusão

A Igreja do IV Evangelho é, sem sombra de dúvidas, a menos institucional, a mais desestruturada do Novo Testamento. Por isso mesmo, esse evangelho é o que mais insiste na radicalidade dos significados e das propostas.

Na Ceia, que não é pascal, pois o Cordeiro só será morto no dia seguinte, o lava-pés, que não se institucionalizou, substitui a partilha do pão, que se institucionalizou. Aí Jesus tira e depois retoma o manto, significando que entrega sua vida e a retoma novamente. Mas ele amarra uma toalha à cintura como avental que nunca mais tira. O serviço não termina no gesto de lavar os pés, isso também pode se “burocratizar”. O servir continua até a cruz, até a morte.

 

 

Duas pequenas perguntas:

1) Será que, fazendo do Cristo eucarístico um Senhor triunfante, não estaremos fazendo o mesmo que Simão Pedro (“Tu não me lavarás os pés nunca!”), que não admite um Cristo humilhado e servidor, por receio de precisar “ter parte com ele”?

 

2) Os que se preparam para o ministério presbiteral: estarão tão ansiosos pela oportunidade de colocar-se a serviço do povo, ajoelhar-se a seus pés sujos a fim de lavá-los, como anseiam pelo momento de presidir com poder uma Celebração Eucarística?



[1] As Igrejas dos Apóstolos, Paulus, S. Paulo, 1986, p. 111.

[2] Notar a diferença de mentalidade com relação à atual teologia eucarística: Para Paulo o que faz com que a Ceia do Senhor não seja autêntica, não é a falta de ministro ordenado ou erro na “matéria” ou na “forma”, é a falta de significado, é a incoerência entre significante e significado.

[3] HOORNAERT, E., Formação do Catolicismo Brasileiro, Vozes, Petrópolis, 1974, p. 97.

[4] BROWN, R.,A Comunidade do Discípulo Amado, Paulus, S. Paulo, 1984, pp. 84-92.

[5] CULLMANN, O., Der Johaneische Gebrauch doppeldeutiger Ausdrücker als Schlüssel zum Verständnis des viertes Evangeliums: TZ 4 (1948) 360-372.

[6] COMBLIN, J., A Força da Palavra, Vozes, Petrópolis, 1986, p. 25.

[7] Segundo J. Mateos e J. Barreto a expressão último dia, que ocorre pela primeira vez no capítulo 6, significa o último dia de Jesus, o dia da sua glorificação (morte), o sexto dia, dia da nova criação do homem, o dia mais solene da festa no trecho citado, e não o dia escatológico esperado por Marta para um futuro não admitido por Jesus (11,24-26).

Prof. José Luiz Gonzaga do Prado