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Publicado em Janeiro-Fevereiro de 2003 (pp. 21-25)

A teologia do batismo, fonte da teologia da vocação

Por Dom Pedro Brito Guimarães (Bispo de São Raimundo Nonato — PI)

Desejaria que todos e cada um de nós pudéssemos visitar, pelos menos em espírito, a própria pia batismal, mergulhar nela a nossa cabeça e descobrir a missionariedade do próprio batismo… Então, devo ser missionário. Se eu não sou missionário, então não sou cristão.” (Dom Pedro Casaldáliga)

 

Ultimamente, muito se tem falado e escrito a respeito da teologia da vocação e da teologia do batismo de forma isolada e independente. Estamos sentindo a falta de uma reflexão teológica mais articulada, que possa unir as duas teologias. Motivados por essa lacuna, iniciamos agora breve reflexão a respeito da possibilidade dessa articulação, intitulada “teologia do batismo, fonte da teologia da vocação”, esperando que surjam outros trabalhos elucidativos dessa questão que julgamos ser de grande atualidade para o serviço de animação vocacional que a Igreja está sendo chamada a fazer — até porque, mesmo que não se trate de um tema teológico novo, na atualidade eclesial nos parece oportuno e plausível refletir sobre isso. É um caminho longo que, certamente, teremos de nos habituar a percorrer.

O batismo é, antes de tudo, um rito iniciático do cristianismo pelo qual os batizados passam por um processo de transformação existencial e ontológica e se inserem no corpo de Cristo, a Igreja, sendo enviados em missão. É por meio dele que os cristãos entram pela porta que dá acesso ao coração do mistério do cristianismo. Antigamente, essa entrada era um processo longo e difícil. Hoje foram sendo construídos vários atalhos, facilitando ao máximo essa entrada —não sem prejuízo para a compreensão, a internalização e a vivência do próprio sacramento do batismo. Entrando nesse mistério, os pais simbolicamente perdem a posse de seus filhos para Deus, a fonte última da vida humana.

O momento atual torna-se propício para indicar que o batismo, o primeiro dos sete sacramentos, não se funda somente nas palavras de Jesus, nem mesmo somente na sua morte e na sua ressurreição. É costume afirmar que, pelo batismo, somos sepultados, mergulhados na fonte que é Cristo (cf. Rm 6,1-11) e pelo Espírito enxertados e inseridos no seu corpo (cf. 1Cor 12,13). Como todos os sacramentos estão engendrados mais nas ações de Jesus terreno do que somente nas suas palavras, o batismo está fundamentado no anúncio profético de seus atos, na atuação simbólica de suas ações históricas e no seu estilo de vida de servo do Senhor. Dessa forma, a sacramentária, ao considerar o batismo como “sinal eficaz da graça”, não pode esquecer que Jesus o instituiu num ato profético e simbólico, ao ser batizado no Jordão, mostrando-nos a proximidade do senhorio salvífico de Deus, por meio de suas ações simbólicas, significativas e eficazes — entre elas, seu batismo no Jordão. Como todo cristão é potencialmente um vocacionado, faz-se necessário antes admitir que o batismo é a fonte de todas as vocações.

 

1. O ciclo vocacional do ato profético de Jesus no Jordão

“Aconteceu, naqueles dias, que Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi batizado por João no rio Jordão” (Mc 1,9). Com essas palavras ou outras semelhantes (cf. Mt 3,13; Lc 2,21), os evangelistas registram, no início do ministério público de Jesus, um ato (’ôt) profético de suma importância para a teologia da vocação e a teologia vocacional do sacramento do batismo. Jesus, difundindo e proclamando a boa nova do Reino, não o fez somente pelas palavras, mas igualmente pelos seus atos (Mt 4,23s), de forma a revelar a existência de forte unidade entre palavras e ações. Essa concretização do anúncio nas suas ações e palavras foi a oportunidade de Jesus revelar a sua identidade, autoridade e missão. Muitos dos aspectos extraordinários, significativos e eficazes dos atos proféticos ajudam na confecção do conceito de batismo, qual ato carregado de significação profética. É neles que o batismo cristão tem a sua origem e a sua finalidade. O relato sobre essa ação profética, acontecida à margem do rio Jordão, revela que Jesus não começou o seu ministério público fazendo discursos ou praticando atos abstratos, mas com um ato preciso e concreto que manifesta o seu amor e a sua obediência a Deus, seu Pai, e a solidariedade para com seus irmãos pecadores. Por causa dessa sua concretude, é considerado “paradigma” ou “agenda” para as ações sacramentais da Igreja. Ele é sempre ponto de partida para a caminhada de fé autêntica dos seus seguidores de ontem, de hoje e de sempre. Os exegetas, os liturgistas e os sacramentólogos que trabalham com essa linha de pensamento corroboram sobremaneira com uma iluminação que põe em evidência novos conteúdos e enfoques para a questão dos sacramentos, em geral, e do batismo, em particular. Por isso, afirmamos que o batismo cristão tem a sua raiz no ato (’ôt) profético do Jordão, no qual Jesus foi batizado. Para além de qualquer polêmica, em que se quer insistir é que o batismo é um sacramento, cujo fundamento está fincado nas atitudes, na práxis e no destino de Jesus. O batismo inicia, incorpora, historiciza e prolonga na história aquele ato de Jesus que aponta a chegada do Reino e, com isso, a salvação da humanidade que o segue fielmente. Por não ter levado muito a sério a conexão entre o batismo de Jesus e o nosso, não raro a compreensão teológica e a práxis do batismo ficaram em generalizações, racionalizações, parcialidades e reducionismos; por se perder o caminho principal, fizeram-se atalhos, infantilizando um rito que exige fé adulta. É verdade que o ato profético do Jordão não diz tudo sobre o batismo de João, de Jesus e dos cristãos — aliás, nenhum outro texto faz isso —, porém diz o essencial, e é isso que interessa fundamentalmente no momento: a) Jesus, centro de toda ação, veio pessoal­mente de Nazaré e foi batizado quando todo o povo era batizado; b) na hora do seu batismo, o céu se abre, o Espírito desce e ouve-se a voz do Pai, declarando-o Filho amado. Jesus, vocacionado do Pai, com a sua vinda e com o seu batismo, abre caminho para o batismo cristão; o céu se abrindo deixa passagem para a vinda do Espírito Santo; Deus responde à ação e iniciativa de Jesus e, na sua fala, faz uma declaração de amor por seu Filho. Jesus levou tão a sério a mensagem batismal de João, que adere pessoalmente a ela, abandonando sua casa, começa a anunciar o Reino de Deus e faz disso a sua vocação. Com esse seu ato, retoma, realiza, aplica e faz seu o batismo de João. Por ser batizado, Jesus tem a autoridade de pedir que todos sejam batizados. A atitude de Jesus é coerente: primeiro recebe o batismo, depois pede que se faça o mesmo. Por isso é que se afirma que o batismo do Jordão é a fonte e a origem da vocação do batismo cristão e o protótipo da prática ou do procedimento cristão.

A cena do Jordão é uma síntese, expressa em imagens, do início da atividade de Jesus, do seu caminho para a morte e ressurreição e do prorromper do Reino no mundo mediante sua autodoação. Ele, ao receber um batismo destinado à humanidade pecadora, se solidariza com ela, nos moldes do profeta e servo, justo e sofredor, e abre caminho para a dimensão vocacional do batismo do cristão. O texto de Lucas é, nesse sentido, muito significativo: “Ora, tendo todo o povo recebido o batismo, e no momento em que Jesus, também batizado, achava-se em oração…” (Lc 3,21a). Esse ato de Jesus vai servir de referencial para todas as outras atitudes assumidas por ele durante a sua vida. Isso mostra a estreita ligação que se estabelece nas diversas fases da sua vida por meio de atos proféticos.

Podemos denominar essa sua ação de ato profético vocacional, característica marcante do ’ôt do Jordão, tendo aqui duas motivações de fundo. Primeira: o batismo de Jesus é o prelúdio criativo do cumprimento da justiça no seu ministério público. Mais precisamente, esse é o primeiro ato profético de justiça no seu ministério público, para tornar a humanidade pecadora justa e justificada. Daqui em diante tudo é decorrência desse ato — também a sua morte. E pelo batismo, a fim de que se cumpra toda justiça, Jesus haverá de viver, morrer (cf. Mc 10,35-40) e ressuscitar (cf. Mc 16,6s). A cena do diálogo travado entre João e Jesus, que preparou solenemente o seu batismo, é muito interessante. João, relutando em batizar Jesus, diz: “Eu é que tenho a necessidade de ser batizado por ti e tu vens a mim?” Jesus responde: “Deixa estar por enquanto, pois assim nos convém cumprir toda a justiça” (Mt 3,14-15). Cumprir toda a justiça, que, no fundo, significa fazer a vontade de Deus, não seria uma forma de restituí-la ou de torná-la “sacramento”, sinal da presença do Reino de Deus atuando na história de cada batizado?

Sem dúvida Jesus, com esse seu ato, inaugura a nova era messiânica modelada pela justiça. E é em vista da concretização dessa nova era que ele se faz batizar e manda que se faça o mesmo em sua memória (cf. Mt 28,19s). Além do mais, na expressão “nos convém” aparece uma referência a algo mais do que simplesmente um ato pessoal. De quem se trata? Dele e João? Deles e todos nós? Uma coisa não invalida a outra, pois caberá ao batizado, inserido num ato de justiça, a missão de cumprir-restituir a “justiça de vida” (cf. Rm 5,18) recebida do Filho amado no dia do seu batismo. Portanto, a água do Jordão, a voz do Pai, a presença do Espírito e tudo o mais que compõe o ’ôt de Jesus, à beira do rio Jordão, evidenciam o que constitui a sua vida, para que servem as suas ações e opções e explicitam a vocação que todos recebem na pia batismal.

A segunda motivação é que seu ato não somente preanuncia ou inicia uma realidade na história, mas já o torna presente e atuante, e vai, dia a dia, se concretizando na vida de cada batizado. Por isso, todo batizado, submergido nas águas batismais, é potencialmente um enviado a cumprir o ato de justificação com o qual foi ungido — trata-se de vocacionado e missionário da justiça salvífica de Deus. Não há dúvida de que Jesus viveu constantemente em consonância com esse seu ato batismal. Basta, para isso, uma leitura atenta do seu comportamento e do seu estilo de vida. Quando eles se referem à opção fundamental pelo Reino a ser feita pelos seus discípulos, explicita-a à luz do seu batismo: “Podeis beber o cálice que eu vou beber e ser batizados com o batismo com que serei batizado?” (Mc 10,38). A sua vida, de agora em diante, passa a ser um “cálice amargo”, a ser bebido com a sua morte (cf. Mt 23,48), um batismo a ser coerentemente assumido, mesmo a preço da própria vida. E é isso que faz dela um sinal personificado do chamado de Deus. No alto da cruz, a justiça de Deus, assumida por Jesus no batismo, eterniza-se e transforma-se em um memorial litúrgico e em uma profecia que a Igreja é chamada a celebrar, até que um dia todos os cristãos se deem conta da importância do seu batismo e se tornem sinais personificados, erguidos no seio da humanidade tão carente de justiça, paz, amor e fraternidade.

Portanto, a sua inserção última no mundo do pecado se dá com a sua morte, mas não é só no Calvário que o seu batismo representa um morrer pelos pecadores; é igualmente verdade que sua morte foi causada por uma vida assumida como contínua doação. Toda a sua existência foi um constante viver em favor da justiça, contra os pecados do mundo. Com esse ato profético de purificação, de justificação e de conversão, realizado para que se cumpra toda a justiça, dá-se início, na história, a realização dessa profecia. Assim focalizado, o batismo de Jesus é bem mais do que um prefácio ou um prelúdio de um drama final. É um ato primeiro que torna o futuro presente e atuante no dinamismo da história. Fazer-se solidário com os necessitados envolve fazer-se solidário em ato, já no presente, e não apenas possibilidade futura.

 

2. O batismo, ’ôt vocacional que justifica e unifica os cristãos em torno de Jesus Cristo

Como, na mentalidade bíblica, o gesto anunciado contribui para apressar a realização do acontecimento, e como uma ação profética não eficaz dificilmente é admissível, o batismo é uma ação litúrgica, simbólica, profética e eclesial de incorporação do cristão a Jesus justo, para praticar a justiça. Foi visto acima como o batismo de Jesus, legitimado pela abertura dos céus, pela descida e unção do Espírito, pela voz do Pai e pelos sinais escatológicos que encerram o gesto de João, causou grande impacto em Jesus, envolveu-o e antecipou algo que somente a sua vida, morte e ressurreição iriam revelar. Esse início da era escatológica é o fundamento simbólico imediato das águas batismais que haveriam de escorrer nas pias batismais do mundo inteiro para o renascer sacramental de todos os povos em Cristo.

O batismo de Jesus no Jordão revela a existência de três características fundamentais para a teologia da vocação do nosso próprio batismo: primeiro, a sua vinda de Nazaré para o Jordão é sinal vocacional indicativo e antecipador da sua missão — ungido pelo Espírito para “cumprir toda a justiça”, o Filho de Deus não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de muitos (cf. Mc 10,45); segundo, a voz vinda do alto — além de indicar que Deus voltou a falar — é um sinal vocacional indicativo e demonstrativo da identidade de Jesus como o Filho Amado. Essa revelação, bem no início da sua missão, ilumina suas ações posteriores no mundo e lhes dá credibilidade. Doravante vai agir em conformidade com aquilo que lhe é próprio: como Filho de Deus; terceiro, tudo isso contribui para indicar o sinal vocacional da revelação da sua autoridade. No gesto de “fazer-se batizar”, Jesus, como servo de Deus, se faz autor de grandes gestos de justificação, de perdão dos pecados, de efusão do Espírito e de solidariedade para com os pecadores.

Essa breve análise dos elementos próprios do batismo de Jesus demonstra, entre outras coisas, que há um nexo vocacional indissolúvel entre o seu e o nosso batismo. Como o seu batismo foi o ponto de partida de sua missão profética, régia e messiânica, lugar da revelação da sua identidade, autoridade e missão, o ato litúrgico da Igreja também o é. De fato, o batismo é o sinal de que o tempo do Reino e da graça chegou. Um sinal capaz de, ainda hoje, visibilizar a presença de Deus na vida do cristão, incorporando-o e configurando-o a Cristo morto e ressuscitado, tornando a sua existência redimida, justificada e vocacionada. Sendo o batismo o sinal privilegiado pelo qual Deus entra na vida humana para salvá-la, é igualmente sinal do início da existência cristã redimida e vocacionada. O ato batismal marca, por assim dizer, o início da palavra e dos atos do vocacionado do Pai na história pessoal de cada cristão.

A razão de o cristão, ungido pelo Espírito, iniciar uma vida nova redimida, justificada e vocacionada está no fato de que a graça — pela qual o cristão é enxertado na justiça de Jesus para praticar gestos semelhantes aos dele — é atualizada na pia batismal, confirmada na crisma e plenificada na eucaristia. Esse início profético orienta a existência vocacionada a produzir, em abundância, frutos de justiça, de esperança e de autodoação. Nesse sentido, o cristão pode ser definido como “agente ou operador de justiça”, por estar inserido não num rito vazio, alienante, mas num dinamismo da graça salvífica trazido por Cristo, que o transforma em uma nova criatura, atuante em uma nova história e em uma nova comunidade de salvação. Se o batismo cristão não implicasse esse estilo de vida em favor do Reino de Deus e de sua justiça, perderia muito da sua especificidade e muito da sua razão de ser. E poderia ser tudo, menos um ato de inserção em Jesus Cristo.

A justiça, sendo o atributo central da vontade de Deus, é igualmente o elemento constitutivo da salvação situada na história de um povo que caminha à luz da nova e eterna aliança. É essa justiça que se manifesta solenemente na ação profética de Jesus no Jordão, sinal maior da conversão ao Reino. Em Jesus, ela implicou o começo das suas atividades vocacionais, passando pelo cálice e batismo (Mc 10,38-39; Lc 12,50) da morte e culminando com a ressurreição. O ’ôt profético do seu batismo se prolonga na pia batismal, no momento em que a Igreja pronuncia epiclética, anamnética e doxologicamente a fórmula: “… eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Do mesmo modo como Jesus, ungido pelo Espírito, realizou a justiça de Deus Pai por atos e palavras, a Igreja é chamada a realizá-la celebrando o batismo, a fim de prolongar na história os efeitos dos gestos proféticos em favor da justiça. A mesma voz que um dia foi ouvida, declarando Jesus Filho de Deus, o mesmo Espírito que o ungiu e enviou a cumprir toda a justiça são agora sinais que acompanham e impulsionam a graça da unção e do envio dos cristãos pelo mundo, no momento do seu batismo. Batizar para que se cumpra toda a justiça é, fundamentalmente, assimilar a lógica de Jesus, que declara bem-aventurados “os pobres de espírito, os mansos, os aflitos, os misericordiosos, os que têm fome e sede de justiça, os puros de coração, os que promovem a paz, os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5,3ss).

Infelizmente, nem sempre essa teoria e essa práxis batismais foram fiéis a esse conteúdo eminente­mente bíblico. Por vezes se centrou esforço demais em problemas que, certamente, não eram os mais urgentes. Houve muita preocupação com o “batismo de crianças”, infantilizando um rito da fé adulta e quase o transformando em “coisa de criança”. Vale dizer que o problema não é a criança, mas, sim, o adulto que, ungido pelo Espírito para o seguimento radical de Jesus, não honra o nome de cristão, ao esquecer que o batismo é um ato vocacional da fé adulta que testifica, de forma indelével, que a pessoa batizada aderiu pessoalmente a Jesus Cristo. Portanto, quando o ideal de Jesus é assumido no batismo, a pessoa que o recebe se torna ela mesma um sinal personificado de Jesus no mundo.

 

3. Formação de uma comunidade vocacional, de fé, justa e profética

O batismo, ato profético que justifica os cristãos e os unifica em torno de Jesus Cristo, conforme foi caracterizado acima, é agora qualificado com base em uma categoria muito própria das ações proféticas: a formação de comunidade. Todo sacramento é celebrado em vista da formação de uma comunidade de fé, justa e profética. De fato, o batismo, justificando, faz dos cristãos discípulos incorporados a Jesus Cristo, membros vivos e ativos de seu corpo que é a Igreja, comunidade de fé, de vida e de culto, em espírito e verdade. Na invocação trinitária da fórmula batismal, os cristãos são inseridos não somente em uma comunidade formada de seres humanos imperfeitos, mas na comunhão mesma de Deus uno e trino. Esse ato vocacional, quando celebrado em nome do Pai-Criador, do Filho-Recriador e do Espírito-Transcriador de todas as coisas, é o início de nova vida. O batismo proporciona um encontro criador e libertador com

Deus Pai que chama à vida, com o Filho que a redime e com o Espírito que guia e orienta esse encontro. Assim, justificados pelo Filho diante do Pai, é no Espírito que os cristãos são irmanados em um só corpo e um só espírito (cf. 1Cor 6,11; 12,13) e enviados ao mundo como instrumentos de justiça, a serviço de Deus (cf. Rm 6,13).

Toda a existência cristã, redimida na pia batismal, é uma forma de renascimento, de viver com, por e em Cristo. O batismo configura o cristão a Cristo em todos os seus aspectos, sobretudo naqueles característicos do seu batismo: no cálice que ele bebeu e no batismo que ele recebeu (cf. Mc 10,38; Lc 12,50). Hoje há todo um esforço de tirar o batismo do seu isolamento e de reintegrá-lo na comunidade eclesial, assembleia dos chamados. Todas as suas ações, quando realizadas com pathos, ou seja, com a decidida vontade de que sejam um sinal da chegada do Reino, fazem referência ao aspecto comunitário. A ação profética do batismo de Jesus faz uma sutil, mas não insignificante, referência comunitária. No diálogo de João com Jesus é afirmado: “Assim nos convém que se cumpra toda a justiça” (Mt 3,15). Além dessa embrionária referência comunitária, existem, em outras ações de Jesus, elementos que autorizam, sem violentar o texto, a perceber a índole comunitária e corroboram essa percepção.

Aqui a atenção será concentrada no ato significativo da escolha dos doze apóstolos, chamados primeiramente para estarem com Jesus (cf. Mc 3,14), e no lava-pés (cf. Jo 13,1). Esse ato do chamado dos apóstolos, com o qual Jesus antecipa o cumprimento da formação da nova comunidade dos filhos de Deus dispersos pelo mundo, serve para iluminar bem a dimensão comunitária do batismo. Esse grupo foi sempre considerado o primeiro germe da Igreja nascente. É ele quem faz com que ainda hoje se professe a fé na Igreja apostólica. No entanto, aqui interessa sobretudo dois aspectos desse ato, a saber: a profissão de fé de Pedro em Cesareia de Filipe: “Tu és o Cristo de Deus” (Mc 8,29), e o gesto do lava-pés no Cenáculo: “(não) terás parte comigo” (Jo 13,8). Que tipo de comunidade é formada mediante esses dois atos proféticos de Jesus?

Primeiro: o batismo forma uma comunidade vocacionada, de fé apostólica, “atuante e amante”. É um dom de Deus, mas é também uma resposta de fé da pessoa humana ao dom oferecido. Na breve profissão de fé de Pedro, temos a mesma resposta de fé que a Igreja pede de quem vai ser batizado. Nesse pequeno ato de fé — embora não trate especificamente do batismo nem faça referência aos elementos materiais próprios dele — teologicamente está presente aquilo que é parte integrante de uma comunidade cristã e que a qualifica: a fé em Jesus Cristo. A Igreja compõe-se de pessoas que professam a fé em Jesus e renovam os seus gestos. Contudo, que tipo de comunidade se forma por meio dessa profissão de fé batismal? Com o batismo, Deus instaura uma comunidade de fé formada por pessoas livres, fiéis, identificadas com ele e guiadas pelo Espírito, que professam uma só fé e um só batismo. Foi esse ato significativo de Jesus que fez nascer a fé e, com ele, uma nova comunidade, que se distingue pelos sinais proféticos de justiça e solidariedade, num mundo muito propenso a cultuar a injustiça e o individualismo. Portanto, a raiz bíblico-teológica dessa comunidade vocacionada está no ato da escolha dos doze apóstolos e na consequente profissão de fé em Jesus Cristo, Filho de Deus, a qual, na boca de Pedro, rememora o ato batismal do Jordão e continua a ser revivida em cada batismo cristão. A profissão de fé de Pedro expressa bem o que ele é, na realidade: a “pedra da edificação da Igreja”.

Segundo: o batismo forma uma comunidade vocacionada, de fé, justa e serviçal, que tem parte com o Senhor. A vida de uma comunidade mede-se pelo serviço que ela presta aos demais, gratuitamente. O ato profético do lava-pés descreve, com cores vivas, as exigências evangélicas do humilde serviço vocacional comunitário. Lavar os pés, além de gesto humilde de acolhida de Jesus, é ato que manifesta uma forma concreta de viver a fraternidade. Nele Jesus se autodefine como modelo ou exemplo de mestre-servidor para os discípulos de todos os tempos e de todos os lugares. A graça do batismo é um dom de Deus para o mundo, que, com ela, passa a ser modelado por atos dessa natureza, a exemplo de Jesus Cristo. Que tipo de comunidade se forma em torno desse seu ato? Uma comunidade de serviço, de testemunho e de doação, cuja raiz e força estão na interajuda. A fundamentação bíblica que mais diz respeito à vocação batismal está na resposta que Jesus dá a Pedro, diante da objeção deste de deixar lavar os pés: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo” (Jo 13,8). “Ter parte com” é a explicação que Jesus dá à exigência do seu ato. Este “ter parte com”, fruto da lavagem dos pés uns dos outros, significa, na prática, formar comunidade e viver a fraternidade. Para alguns, esse gesto de Jesus significa uma “espécie de batismo” da comunidade apostólica, célula-mãe de toda comunidade eclesial. Haveria outro sinal que melhor descreva a adesão do cristão a Jesus no batismo do que este “ter parte com ele?”. O batizado é um membro do seu corpo, é alguém incorporado ao seu estilo de vida doada, é um vocacionado a permanecer, fiel e perseverantemente, unido a ele. A adesão a Jesus, própria do batismo, não é outra que ter parte com ele. Afirmativamente, isso pode ser considerado o fundamento sólido e a dimensão prático-social do batismo cristão, cuja finalidade é formar uma comunidade vocacionada que se unifique em torno de gestos concretos de serviço e interajuda.

 

4. Conclusão

Um dos traços característicos do discipulado é o seguimento radical dos gestos proféticos do Senhor e Mestre Jesus Cristo. Por isso, a conclusão a que se chega nesta breve reflexão sobre a teologia vocacional do batismo como ato profético, em vista da formação de uma comunidade de fé, justa e serviçal, é que o ’ôt do batismo de Jesus permite pôr em evidência os elementos que melhor caracterizam uma comunidade vocacional: a profissão da mesma fé, o renascer das mesmas águas, a unção com o mesmo Espírito, a recepção do mesmo batismo, a prática do mesmo serviço e a possibilidade de ter parte com ele. Embora esses seus gestos não possam ser, sem mais nem menos, considerados sacramentos, a referência a eles serve ao menos para descrever os efeitos vocacionais da graça batismal na vida eclesial e no mundo. Numa sentença, se os sacramentos são atos proféticos e eclesiais que reproduzem o que significam e significam o que produzem, e se o batismo é um ato de fé que justifica e unifica os cristãos como filhos de Deus e membros da Igreja, então ele é a fonte da teologia da vocação.

 

 

Dom Pedro Brito Guimarães (Bispo de São Raimundo Nonato — PI)