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Publicado em Setembro-Outubro de 1987 (pp. 32 – 41)

Meditações bíblicas sobre a Eucaristia

Por Pe. Luís Alonso Schökel, sj

(As meditações I-II, III-IV, V-VI e VII foram publicadas também em 1987, respectivamente, nos números 132, 133, 134 e 135 de Vida Pastoral.)

 

VIII. ANÁMNESIS + MEMÓRIA

Anámnesis é uma palavra grega (como também epiclese) que significa recordação. Da mesma raiz procedem nossas palavras cultas amnésia, nemotecnia. Aplica-se tradicionalmente a essa parte ou aspecto da Eucaristia que consiste em trazer à mente, à memória, recordar. Em sentido técnico, podiam distinguir-se e opor-se anámnesis e epiclese, como texto em que se narra e texto em que se suplica. Sobre a controvérsia informam, em grau diverso, meus dois livros de cabeceira, de Gesteira e de Sánchez Caro. Aqui, minha intenção não é tanto histórica ou sistemática, quanto expositiva. Quero que, meditando, penetremos no sentido e nas consequências de nossa eucaristia como memória.

 

1. A memória

Uma coisa tão simples, tão evidente, tão maravilhosa. De tão óbvia não a vemos, de tão sabida não refletimos sobre ela. Fala-se da “memória dos sentidos”, da qual participam também os animais. Aqui me refiro à memória consciente, como ato do espírito humano. A memória é correlativa ao nosso ser no tempo. Permite-nos fazer presentes fatos, dados, distantes no espaço e no tempo. E que capacidade de conteúdo tem a memória média, e como se dilata elasticamente para aumentar sua capacidade. Se tomássemos uma pessoa de cultura média e começássemos a enumerar e a catalogar todos os dados encerrados em sua memória, ficaríamos pasmados. Quando alguém me diz: “Quantas coisas você sabe!”, eu respondo: “também você, só que sabe outras”. Em que nos ganha um computador? Talvez no número de dados; mas que dizer das conexões, da integração dos dados em unidades coerentes, da viveza = “vida” com que retornam acontecimentos da infância, da vibração emotiva? Não falamos de mecanismo, mas de consciência.

Em que cavernas, em que depósitos esses inumeráveis dados se conservam? Como se mantêm adormecidos e vigilantes para se apresentarem quando necessário? Qual a mola que os faz surgir na consciência, chamados ou não? Dizemos: agora não me vem à memória, não me lembro, não tenho na ponta da língua, faça um esforço para se lembrar, vou refrescar-lhe a memória… De onde “vem”, com que “refresca”, como a consciência se afasta da “ponta da língua”?

Os hebreus tinham uma antropologia mais elementar, mais ligada à corporeidade. O que experimenta com os sentidos, o que escuta, penetra na consciência ou coração, e daí desce para umas “câmaras do ventre”, onde fica armazenado: “As palavras do que murmura são guloseimas que descem até o fundo do ventre” (Pr 18,8).

Ali permanecem escondidas, acessíveis somente a Deus e à consciência: “A lâmpada de Iahweh é o espírito do homem a qual esquadrinha o mais íntimo do corpo” (Pr 20,27).

Daquelas profundidades “sobem ao coração” e se tornam conscientes: Is 65,17; Jr 3,16; 7,31 etc.

Hoje temos explicações mais profundas, menos materiais; mas explicamos realmente a atividade da memória? Ou será que não continua sendo um grande mistério, um dos tantos mistérios do nosso ser?

Além disso, a memória exerce outras funções importantes. É condição de nossa identidade psicológica. Um ataque de amnésia pode chegar ao ponto em que o paciente “é rompido (não rompe) do passado”, não sabe mais quem é. Graças à memória nossa consciência mantém a identidade pessoal através do tempo e dos acontecimentos.

Podemos pensar em uma memória simplesmente cognitiva: como espetáculo que nos oferecemos interiormente; ao qual assistimos, entretidos, serenos, distantes. Geralmente a memória é mais do que espetáculo que se compraz consigo mesmo, e se converte em fator dinâmico. O passado nos foi modelando, ação após ação. Num instante se apresenta um fato de nosso passado carregado de interpelação, disposto a modelar nossa ação próxima, imediata. O arrependimento não pode anular o fato, pode conjurar suas consequências, pode transformar o erro ou culpa em incitação ao bem. Escarmentamos em nós mesmos; é nossa própria barba que vamos cortar. Outros momentos voltam oferecendo ilusão, ânimo. A memória não ressuscita o ato passado, mas carrega e dispara sua virtude. Não deves ter medo delas! Lembra-te bem do que Iahweh teu Deus fez ao faraó…” (Dt 7,18). “És um povo de cerviz dura… Não esqueças de que irritaste a Iahweh” (Dt 9,7). “Recorda que foste escravo na terra do Egito..” (Dt 15,15). “Não perverterás o direito do estrangeiro e do órfão, nem tomarás como penhor a roupa da viúva. Recorda que foste escravo na terra do Egito, e que Iahweh teu Deus de lá te resgatou..” (Dt 24,17).

 

2. Memória social

O que disse do indivíduo vale a seu modo à comunidade. Existe uma memória comunitária do passado, uma recordação compartilhada. Um grupo de homens que não compartilham alguma memória não formam sociedade. Até mesmo sociedades mínimas, família ou clã, possuem e cultivam suas recordações comuns: chamam-nas “recordações de família”; relatos e lendas do clã ou tribo. Se ampliarmos o âmbito para um povo ou nação, falaremos de crônicas e história. O empreendimento de Alfonso, o Sábio, de compor a Crônica geral e a História Geral não é uma operação puramente intelectual. A necessidade é tão grande que às vezes os povos inventam história, recorrendo a lendas (Rômulo e Remo, parte de nossos velhos romances). A força é tão grande que o imigrante ou seus filhos chegam a apropriar-se da história alheia, que a rigor não lhes pertence. Muitas vezes a sociedade tem profissionais encarregados de conservar e atualizar a memória coletiva: os que a registram, sejam cantores épicos ou historiadores, os que a recitam, sejam rapsodistas ou professores. E até possuem em seu ventre câmaras onde conservam registros de fatos até o momento oportuno: são os arquivos.

De alguns fatos particulares a memória se atualiza em forma de celebração festiva: dia da independência, dia da República, dia da descoberta, dia de uma viagem em torno da terra, de pisar pela primeira vez na lua (quando a frase “estar no mundo da lua” mudou de significado). Na celebração deve participar a comunidade, de modo que seja pública e coletiva. Também pode haver memórias lutuosas, que são exceção.

Israel, como sociedade, exercita a memória com especial intensidade. Porque em seus feitos gloriosos há um protagonista confesso, que é o Senhor. A memória de Israel é a história de um povo irrealizável sem a intervenção de Deus, incompreensível sem sua confissão. Israel não só exercita a memória; ele tem também uma lei sobre isto, como indica o salmo 78: “O que nós ouvimos e conhecemos, o que nos contaram nossos pais não o escondemos aos nossos filhos; nós o contamos à geração seguinte: os louvores de Iahweh e o seu poder, e as maravilhas que realizou; ele firmou o testemunho em Jacó e colocou uma lei em Israel, ordenando a nossos pais que a transmitissem a seus filhos, para que a geração seguinte os conhecesse, os filhos que iriam nascer: Que se levantem e os contem aos seus filhos, para que ponham em Deus sua confiança, não se esqueçam dos feitos de Deus..” (vv. 3-7).

Grande parte do Antigo Testamento brota não só da observação e fantasia de seus escritores, mas sobretudo dessa urgência de contar. Recordar é dever gostoso; ser desmemoriado é delito.

Além disso, Israel estabelece celebrações, festas, para comemorar fatos capitais, ou enche de conteúdo histórico festas agrárias precedentes. A Páscoa deve recordar a saída do Egito, as Cabanas o caminho pelo deserto. Também têm celebrações penitenciais. O admirável é que nelas se sentem solidários com os pais e entre si; isto é, a confissão dolorida do pecado vincula: “Nós pecamos com nossos pais, nós nos desviamos, tornamo-nos ímpios” (Sl 106,6). “Desde o dia em que o Senhor tirou nossos pais do Egito até hoje não fizemos caso do Senhor nosso Deus, recusamo-nos a obedecer-lhe” (Br 1,19).

Para Israel, celebrar é como voltar a uma matriz comum, como escutar o murmúrio de raízes comuns mergulhadas em terra comum.

Os israelitas recordam as lendas e histórias dos patriarcas, recordam especialmente o fato fundacional, que é a libertação do Egito. Ao invocar o no­me do Senhor, podem acrescentar um título: “Aquele que nos tirou do Egito”. Sua profissão de fé é uma profissão de fatos, não de doutrina. Os Salmos se detêm muitas vezes em repassar fatos da história; outras vezes é o indivíduo que recorda sua experiência passada com Deus. A literatura sapiencial, que no princípio discorre à margem da história, um dia lhe abre as portas.

 

3. Memória cristã

Com estes antecedentes, do homem em geral e de Israel em particular, podemos entrar em nosso tema e encontrá-lo iluminado e até explicado. O povo cristão herda a vontade e a urgência da recordação. A eucaristia é memória festiva, comunitária. Além de ação de graças (beraká), é memória. Talvez sejam duas faces da mesma medalha. A uma pessoa que nos fez um benefício insigne somos agradecidos e mostramos isso com palavras e com algum obséquio (beraká). Recordamos seu aniversário ou o dia em que nos salvou a vida, para enviar-lhe um cartão ou um presente. A eucaristia é recordação agradecida, com obséquio, daquele que nos salvou a vida. Recorda festivamente o fato primordial dessa salvação. Como memória festiva tem um conteúdo permanente, um sentido variável, uma função plural.

O conteúdo permanente é o fato que condensa tudo o mais: a morte e a ressurreição do Senhor. O sacrifício pelo qual nos liberta e pelo qual passa da morte à vida. Este núcleo é insubstituível. Este fato, ao mesmo tempo básico e culminante, não pode ser esquecido. Temos um mandato do Senhor: “Fazei isto em minha memória”. Todas as orações eucarísticas ou anáforas estão de acordo neste ponto. Desta vez vou citar a anáfora primeira ou “cânon romano”. Depois de repetir de forma narrativa as palavras da última ceia, acrescenta: “Celebrando, pois, a memória da paixão do vosso Filho, da sua ressurreição dentre os mortos e gloriosa ascensão aos céus, nós, vossos servos, e também vosso povo santo, vos oferecemos, ó Pai..” (Até na debatida anáfora de Addai e Mari, na qual não se citam as palavras da última ceia, não falta a referência explícita “celebrando este mistério… da paixão, da morte e da ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo”. Vero citado livro de Sánchez Caro, pp. 108-138).

O momento da morte e ressurreição supõe e arrasta uma série de fatos, toda uma vida, desde a concepção e o nascimento, continuando pelo crescimento, ensinamento, milagres e outros fatos. Também estes podem ser objeto da memória “variável”, ocasional. A Eucaristia sempre recordará a morte e ressurreição; além disso, um dia recordará o nascimento, outro dia a vinda dos magos, outro o batismo, outro a transfiguração. Esta prática, de um lado, equilibra a monotonia, de outro, centraliza todos os fatos em torno do fato capital. O “ciclo” circunferência litúrgica tem seu centro.

A variedade pode ser apreciada sobretudo nos prefácios, de tal modo que também a vida da Igreja, fruto e consequência da salvação, entre na memória. A reforma litúrgica deu mais espaço à introdução de prefácios específicos.

Depois de considerar o conteúdo estável e o variável, reflitamos sobre a função da memória eucarística. Com o que foi dito acima, será fácil entender a função de agradecer a Deus por seus benefícios. Vejamos a função da memória como garantia de identidade. Nossa identidade cristã tem seu fundamento em Cristo. O adjetivo do substantivo: parece uma tautologia, mas é preciso repeti-lo. Nossa identidade cristã enraíza-se na morte e ressurreição de nosso Salvador. Por isso temos que recordá-las. A recordação explícita nos identifica para dentro e para fora como comunidade. Aí está o nosso documento de identidade. A Igreja não sofrerá um ataque coletivo de amnésia esquecendo-se de quem é; alguns membros podem sofrê-lo. Então, será que a Eucaristia é um simples “preceito dominical”, no qual o importante é a formalidade do cumprimento acima do conteúdo? Preceito dominical significa preceito do Senhor (= domini); e ele o manda, “fazei isto”, para que, correspondendo, sejamos.

E assim passamos para a outra função: a me­mória como princípio de ação. A recordação dos pecados pertencia à liturgia penitencial. Agora recordamos benefícios, que nos impelem ao agradecimento. Além disso, são benefícios exemplares, que nos impelem à imitação. Se nossa identidade se enraíza e brota de um sacrifício por amor, não podemos persistir no egoísmo como forma de vida. Cada momento da vida de Cristo nos fala, nos interpela, exige de nós uma “conformidade”, que é “forma comum”, compartilhada. Do contrário, a me­mória seria sarcasmo. A memória é princípio ou garantia de identidade. A memória enérgica, ativa, é princípio de identificação. Somos de Cristo: sejamos cada vez mais como Cristo. Sua recordação nos incita. E isto não só como indivíduos, mas também como comunidade. “Cristo sofreu por vós deixando-vos um exemplo, a fim de que sigais os seus passos” (1Pd 2,21).

 

4. Recordação e esperança

A memória, além dos enormes serviços que nos presta, pode preparar-nos uma armadilha. Isto acontece quando se transforma em saudosismo de um tempo passado que não volta mais. O homem não sente gosto pelo presente, já não espera nada do futuro e refugia-se numa guarita mental que construiu para si com retalhos do passado. E toda ela feita de quadros que representam momentos felizes, gloriosos, que em parte existiram, em parte são fabricados pela imaginação. Ali se refugia cada vez com maior frequência para fugir do presente e do futuro. Daí lança condenações contra estes tempos, que não considera seus: “no meu tempo…”.

Alguns desterrados de Babilônia cultivavam o saudosismo que os paralisava e cegava. O profeta do desterro e do retorno, o Dêutero-Isaías, parecia abolir a lei da memória quando lhes dizia: “Não fiqueis a lembrar as coisas passadas, não vos preocupeis com acontecimentos antigos. Eis que vou fazer uma coisa nova, ela já vem despontando: não a percebeis?” (Is 43,18-19). A tal ponto ficam olhando para o passado, que não veem brotar o futuro. Como se Deus não tivesse mais nada a fazer, o homem nada a esperar. Como se todos os seus encontros com Deus se encontrassem no passado e nada mais restasse para viver.

Pois bem, existe também uma memória do futuro. Esperar é recordar; esperar é tornar o futuro presente. Algumas vezes sabendo o que será, outras vezes sem adivinhá-lo: “Teu passado parecerá pouca coisa diante da exímia grandeza do teu futuro” (Jó 8,7). Se não gostamos da palavra “recordar”, podemos substituí-la por “ter presente”. O verbo hebraico ZKR significa este ter presente: “sem pensar (zkr) no desenlace” (Is 47,7); “sem pensar (zkr) no futuro” (Lm 1,9); “põe de lado sua recordação e lembra-te do fim” (Eclo 38,20); “lembra-te dos que te precederam e dos que te seguirão” (Eclo 41,3). Ou então, com outro matiz, recorda-se um anúncio ou promessa passados cujo conteúdo pertence ao fu­turo.

Isto é capital na vida cristã. Não vivemos somente do passado; vivemos também do futuro. O Senhor, que veio, tem que vir. Nosso encontro com Deus não está apenas no passado, mas também no presente e no futuro. Toda a história da Igreja é como um longo caminho estendido, tenso, entre Cristo que veio e Cristo que há de vir. Ele é caminho. Quando concluímos a leitura da Bíblia, as últimas palavras são: “Vem, Senhor Jesus”; e ao fechar o livro, fica definitivamente aberto.

Nossa liturgia renovada soube exprimi-lo e inculcá-lo de novo. A anáfora primeira (cânon romano) que antes citei, detinha-se na ascensão. Não assim as novas e renovadas. Se as nossas recordações são gloriosas, gozosa é nossa esperança. Por isso a assembleia pode celebrar uma memória festiva.

Vou fixar-me nas aclamações depois da consagração. O sacerdote diz: “Eis o mistério da fé”; isto é, a cifra, o compêndio. De nossa fé, que é nossa adesão, nosso compromisso com o Senhor. E o povo responde, na primeira fórmula: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição, vinde, Senhor Jesus!”.

Enraizados no passado, abrimo-nos para o futuro; e o presente festivo abarca tudo. Na segunda fórmula, a aclamação soa assim: “Toda vez que comemos desse pão e bebemos desse cálice, anunciamos, Senhor, a vossa morte enquanto esperamos a vossa vinda!”. A ressurreição está implícita: se deve voltar, é porque está vivo. E até este momento ressoará nossa aclamação esperançosa, do indivíduo e da Igreja. A terceira fórmula diz apenas: “Salvador do mundo, salvai-nos, vós que nos libertastes pela cruz e ressurreição”.

Depois das aclamações, comuns a todas as anáforas, diferencia-se a memória em algumas variações. A terceira anáfora, depois de mencionar a ascensão, acrescenta: “enquanto esperamos a sua nova vinda”; o mesmo diz a quarta. O tema ressoa em outras passagens: “sejamos repletos de todas as graças e bênçãos do céu” (I anáfora); “dai-nos participar da vida eterna” (II anáfora); “esperamos também nós saciar-nos eternamente da vossa glória” (III anáfora); “possamos alcançar a herança eterna no vosso reino” (IV anáfora). Assim o presente de nossa celebração eucarística fica preso entre a recordação da primeira vinda de Cristo e a recordação-esperança da última.

Não posso pôr ponto final. Porque a memória eucarística não é pura recordação mental, visto que ela acontece na realidade. Faz-se presente o Senhor morto e ressuscitado, sacramentalmente, se nos comunica de fato a vida futura. Não é só recordação; mas nem por isso deixa de ser memória, anámnesis.

 

IX. CONSAGRAÇÃO — TRANSFORMAÇÃO

Como nas reflexões anteriores, minha intenção não é oferecer um estudo científico e sistemático do tema, nem uma vulgarização competente daquilo que já foi estudado; contento-me em iluminar, com reflexos do Antigo Testamento e reflexões desses reflexos, alguns aspectos importantes de nossa eucaristia.

 

1. A consagração

Alguns poderão recordar tempos da infância ou da juventude quando a consagração se apresentava como o momento culminante, central, de celebração eucarística. Era cercada de um aparato de mistério e solenidade particular. Ou se fazia um silêncio completo ou se tocava a “marcha real” como homenagem de um povo a seu Senhor presente. Até as pessoas mais importantes se ajoelhavam ou dobravam um joelho nesse momento. Depois de cada uma das duas consagrações, o sacerdote, de costas, levantava com os braços bem erguidos a hóstia e o cálice, para que o povo visse e adorasse. Várias genuflexões articulavam a ação.

Aquela prática tinha função catequética: suscitava o senso do mistério, fomentava a reverência e a humildade, provocava um ato de fé intenso. Juntamente com estes valores podiam insinuar-se inconvenientes notáveis: o momento ficava desligado da dinâmica unitária da celebração; sua intensidade apagava o que vinha antes e o que vinha depois. A comunhão tinha menos importância, o que vinha antes quase não se entendia. Creio que o mais sensível desses inconvenientes era o fato de perder o sentido da unidade da celebração. Creio que hoje é mais fácil evitar essa dificuldade; em parte porque os textos são pronunciados na língua do povo, em parte porque as novas ou velhas anáforas desenvolvem um esquema mais simples e linear.

Por causa dessa unidade profunda, tive que adiantar matéria ao explicar a fórmula do “ofertório-beraká”. A presente reflexão tem sentido dentro da série.

 

2. Transformação

Em nossa educação o termo “consagração” estava ligado exclusivamente às palavras tiradas de um texto narrativo, isto é, um par de frases do relato da última ceia pronunciadas por Jesus sobre o pão e sobre o cálice. Ficavam fora, embora contíguas, a introdução narrativa e o preceito institucional “fazei isto em minha memória”. Mas os orientais atribuiriam o efeito à epiclese; e muitos teólogos atuais insistirão em tomar unitariamente a ação litúrgica.

Uns e outros analisaram e explicaram este aspecto da eucaristia em termos de transformação real (não ato puramente mental). A partícula portuguesa trans- significa mudança, mutação; transfigurar, transição, transubstanciação, transfinalização… As orações litúrgicas brasileiras utilizam o verbo tornar-se: “para que se tornem”. Talvez fosse mais claro dizer “para que se transformem, se convertam”. Não ficaria mal um verbo que significasse com mais clareza a passagem de uma situação a outra. Parte-se de uma situação estável, segue um momento de transição, que desemboca em nova situação estável. A estabilidade pode ser relativa; agora nos fixamos no momento da transição que pode ser processo ou instante. O que é um momento, um instante em nossa percepção empírica?

Estabilidade e mudança são duas categorias de que me valerei para abordar um mistério sem pretender esgotá-lo. A analogia, o símbolo, será meu instrumento para girar em torno, em espiral que se aproxima sem jamais chegar. Preciso de uma base ampla na qual colocar a nossa ação: uma base de experiência e cultura que erga e sustente a nossa reflexão. Para subir muito, é preciso que a base seja ampla.

 

3. Fixidez e mudança

Há pessoas, épocas, culturas que atribuem mais importância à estabilidade; outras são mais sensíveis à mudança. Um povo, uma época vive mais na estabilidade, outra vive e sente a evolução e também a revolução.

Como é a mentalidade bíblica do Antigo Testamento? Pressupõe e valoriza preferentemente a fixidez, sem fechar os olhos à mudança.

O primeiro capítulo do Gênesis é um texto tardio que utiliza para sua visão poética e teológica um esquema cultural fixista. Deus cria distinguindo e fixando ser, natureza, funções. Sol, lua, estrelas. Águas de cima e de baixo e uma abóbada de separação. Mares e continentes. E os seres vivos cada um “segundo sua espécie”. Não cria todos os indivíduos; pelo contrário, abençoa-os com a fecundidade; mas sempre “segundo a sua espécie”. Tudo fixado desde o princípio e que não se deve confundir. Um homem não deve arar com boi e asno, não deve tecer com lã e linho, um sexo não deve vestir roupas do outro; porque isto seria misturar e confundir, contra a ordem da criação (segundo uma escola de pensamento e de conduta). A distinção e a fixidez ficam seladas em um sistema de nomes imposto pelo próprio Deus: “Chamou-o dia, noite, mar…”. Até mesmo o homem já nasce diferenciado entre homem e mulher.

Se acontecem mudanças, é como infração da ordem estabelecida. Podem ser catástrofes. “Catástrofe” é palavra grega, que denota um inverter, virar (kata-strepho). Tal é, por exemplo, o dilúvio, que mistura águas de cima e de baixo, que confunde continentes com oceanos. Tal é a destruição de Sodoma e Gomorra, que acaba pelo fogo prósperas cidades e férteis campinas. O terremoto é um estremecimento, patológico ou numinoso, da terra firme (como se se tornasse oceânica). A estabilidade é tema ou preocupação dos escritores. Acima de tudo ergue-se e impõe-se a soberania de Deus que pode induzir uma mudança catastrófica ou benéfica: “Ele formou a terra e a fez, ele a estabeleceu” (Is 45,18); “por sua sabedoria estabeleceu o mundo” (Jr 10,12); “ele próprio fundou a terra sobre os mares e firmou-a sobre os rios” (Sl 24,2); “assentaste a terra sobre suas bases, inabalável para sempre” (Sl 104, 5). Em sua grande imprecação, Jó pede que um eclipse obscureça a terra, que as trevas se apoderem da luz (cap. 3). É uma volta ao caos primordial.

Simplificando dados cheguei ao binômio estabilidade e catástrofe. Sobre este fundo surpreende-nos o último capítulo do Antigo Testamento. Último pela cronologia, não pela colocação em nossas Bíblias. O livro é provavelmente contemporâneo de Cristo, é de origem grega, pertence ao corpo sapiencial e se chama Sabedoria. Por seu gênero e sua época pode contemplar a história em seu conjunto e propor sínteses; por sua posição fronteiriça mescla influxos gregos à tradição de Israel. Tenho que citar todo o final do livro: “Assim, os elementos entre si se harmonizavam, como na harpa, em que as notas modificam a natureza do ritmo, conservando, todavia, o mesmo tom; é o que se pode representar, olhando os fatos: enquanto seres terrestres transformavam-se em aquáticos; os que nadam saltavam para a terra; na água, o fogo aumentava a sua força e a água esquecia seu poder de extinção; as chamas, pelo contrário, não abrasavam as carnes dos frágeis animais que ali perambulavam; nem derretiam — cristalino e solúvel — aquela espécie de manjar divino! Senhor, em tudo engrandeceste e glorificaste o teu povo; sem deixar de assisti-lo, em todo o tempo e lugar o socorreste!” (Sb 19,18-22). Aqui entra a teoria dos elementos e sua trans­mutação maravilhosa, tudo para a salvação e pelo poder divino. A passagem do mar Vermelho é fazer surgir continente onde havia mar; o maná não se desfaz aos raios do sol.

Interessa-me também a comparação musical do autor. Não penso que seja um perito em música, mas teria algumas ideias, talvez de estirpe pitagórica, daquelas que eram correntes na época. O importante é o sistema de correspondências (cito meu comentário em Los Libros Sagrados): unidade do instrumento/unidade do universo, permanência dos sons/permanência dos elementos, variação de melodias ou tons/variação em função dos elementos, resultado harmônico em ambos os planos. A música, por analogia, faz compreender um mistério da ação divina: como instrumentista e compositor, Deus sabe criar a unidade do múltiplo, estabelece leis e proporções, muda-as sem destruir a harmonia. Em vez de “música das esferas”, dá-se harmonia do cosmo e da história como variações de um tema de salvação.

Este escritor tardio recolhe sugestões já expostas por outros, por exemplo, o Segundo Isaías ou algum salmo: “Ele transformou rios em deserto, nascentes em terra sedenta… Transformou o deserto em lençóis de água, terra seca em nascentes…” (Sl 107,33.35).

Mais do que expor um tema bíblico, propus um esquema construído com um par de citações: estabilidade, catástrofe, transformação. É uma pedra da base que eu me propunha colocar antes de subir ao cume.

 

4. Tomo outra peça da nossa cultura moderna: dinamismo e transformação. Em nossa cultura moderna apreciamos de maneira preferente a mudança, o dinamismo. Evolucionismo frente ao fixismo. Não é que neguemos a estabilidade. Sem contar com alguma estabilidade, não haveria ciência possível. Mas é estabilidade de processos. As leis conhecidas e formuladas, embora sejam estatísticas, permitem-nos operar. O universo que hoje contemplamos é um perpetuum mobile.

Podemos começar com o inorgânico, com esses astros que até alguns séculos atrás se julgava fossem constituídos de matéria incorruptível e perfeitamente estável em seu incansável girar. Isto acabou. O sol é para nós uma massa que se consome em processos de fusão e fissão, derramando energia em torno de si, que põe em movimento infinitos processos na terra. E não falamos de astros sem mais, pelo contrário, distinguiremos estrelas brancas e estrelas vermelhas, novas e supernovas, nebulosas e galáxias; tudo em contínuo movimento e transformação. E uma energia chamada luz que viaja e torna contemporâneo à nossa percepção o que acontecia há bilhões e trilhões de anos.

E passando ao que é pequeno, do átomo descemos às partículas, para assistir a lentos ou vertiginosos processos de mutação. O que à primeira vista nos parece estável, é porque tem um tempo e ritmo muito diferente do nosso. Se pudéssemos mudar nosso ritmo, fluxo e refluxo do mar seriam um tic-tac, noite e dia seriam um pulsar; depois o seriam as estações; apreciaríamos o desintegrar-se de corpos radiativos como vemos se fundir a cera junto ao fogo. Vivemos imersos num redemoinho de forças, limitados por nossa duração e por nossos ritmos peculiares. Quando a ciência consegue rompê-los e superá-los, assistimos maravilhados a metamorfoses mais fantásticas do que a nossa fantasia.

Passemos à vida vegetal, que se apodera do mineral para levá-lo a um estado novo, que por sua vez é processo contínuo. Será que um cedro é redutível à soma de processos físico-químicos? E em que sentido são idênticos esse cedro e sua semente original? Pois a vida animal toma a vegetal para levantá-la ao nível da sensação, em salto qualitativo. Ainda mais radical é o salto qualitativo do mineral, vegetal e animal à esfera da consciência e da liberdade. A consciência ajudada pela memória é princípio de identidade possuída; pelo contrário, a matéria do nosso corpo renova-se a velocidades diversas. E também a vida da consciência é processo com linhas, ondas e saltos.

Além disso, o homem é transmutador: observando, experimentando, interfere, põe em andamento processos, transforma. A própria capacidade de atuar desenvolve-se em processo crescente, com notáveis saltos qualitativos.

Passo à linguagem. Segundo Gn 1, Deus fixa os seres em nomes. Segundo Gn 2, Adão fixa em um sistema de nomes certeiros as espécies animais. Linguagem como fixidez, embora a passagem de ser à experiência e à linguagem já seja transformação. Mas entra a fantasia, põe-se a brincar com palavras e frases, e introduz esse salto e emparelhamento que é a metáfora: “meta-phora = translação”. Pego o já citado livro da Sabedoria, porque esta viagem tem um destino. Refiro-me à composição musical. A natureza está povoada de sons, ruídos, rumores. O homem os destila e estiliza, organiza-os em sistemas que chamamos escalas, tons, modos. Pensemos no nosso: doze sons temperados, replicados em ordem de frequências. E desse punhado de sons nasce uma selva encantada, misteriosa de canções, árias, danças, suítes, sonatas, sinfonias, concertos.

O homem é imagem de Deus também em sua capacidade de transmutar, combinar e produzir formas novas, sem limite… Goza ao fazê-lo, e desfruta daquilo que faz. É o mundo humano da arte.

 

5. Outra transmutação

Havia necessidade da anterior para enfrentar uma mutação de outra ordem. Tínhamos que chegar bem treinados e acostumados à mudança para contemplar esta nova mudança que é o mistério. Supera todas as anteriores e as recolhe e levanta. É a irrupção de Deus no humano, é um Deus que se faz homem, é uma natureza humana assumida por uma pessoa divina. Na história não houve transmutação maior e mais misteriosa do que esta. Ela justificaria todas as estabilidades e mudanças do universo.

Treinados com a disciplina da mudança, acostumados com a surpresa do salto, educados a imaginar e esperar mais, vislumbramos uma mudança que nos supera, e que aceitamos gozosos e humildes: a encarnação.

O Filho de Deus feito homem assume o mundo mineral, vegetal, animal e humano. Sua natureza humana é o microcosmo, unidade de toda a criação, e ao mesmo tempo a junção da criação com Deus de modo misterioso. Esta é a mudança máxima. Cremos nela quase sem entendê-la, mas o crer nos enche de pasmo e gozo. Há um momento em que sua figura humana deixa trans-luzir outra figura escondida, e se trans-figura. Ficam absortas as três testemunhas com vontade de continuar contemplando para sempre. A transfiguração é como um ato de transparência dos símbolos. A impressão é da luz branquíssima, intensíssima, sem deslumbrar. Como se o corpo familiar se resolvesse em luz (como se a matéria se transformasse em energia). Foi uma antecipação efêmera da mudança futura. A humanidade assumida pelo Filho de Deus participa plenamente da experiência humana, menos no pecado, até à morte, e morte de cruz. Mas por essa morte passa a glorificação, que é mudança definitiva.

É preciso que nos detenhamos neste ponto, porque não podemos entender nem devemos pensar a transformação eucarística a não ser em termos de glorificação. A imaginação que nos ajuda pode também nos enganar. Os artistas representam a Cristo glorificado com uma corporeidade como a precedente, só que radiante. Recordemos o atlético Cristo ressuscitado, com a cruz, de Miguel Angelo. Deram pé para isto os relatos evangélicos da ressurreição, que representam um corpo semelhante ao anterior como penhor de identificação sensível; embora dotando-o de qualidades superiores. Nossa imaginação não pode imaginar de outra forma. Mas nossa mente pode conceber de outra forma, e pode criticar as imagens ou servir-se delas com consciência de sua limitação.

Pois bem, postos a imaginar, peçamos auxílio à ciência moderna, que nos fala de matéria e energia e da transformação de matéria em energia. A luz é energia e é corpórea, quer adotemos um modelo ondulatório, quer um modelo corpuscular. A energia não é matéria, mas também não é imaterial ou espiritual. Imaginemos que a corporeidade do glorificado esteja formada de pura energia sem matéria. Terá relações e qualidades novas no espaço e no tempo: concentração intensa, presença difusa, mobilidade sem travas, ação e comunicação… Um universo formado de pura energia seria um universo corpóreo e novo. Um corpo glorificado de pura energia é uma imagem, não há dúvida, mas está muito mais próximo da realidade do que o ressuscitado de mármore de Miguel Ângelo, ou a figura leve e suave de Fra Angélico.

 

6. Continuamos imaginando e discorrendo. Pela ressurreição, Cristo alcançou esta etapa definitiva de transformação, que a transfiguração prefigura. A ela estão convidados os homens e, subordinados a eles, outras criaturas. Pela energia ou atração do Ressuscitado, um pedaço de pão, um cálice de vinho são arrastados e transformados para este momento final e definitivo, para salvação do homem. A energia do Crucificado se concentra nesse círculo e volume do pão e do vinho para comunicar-se através deles ao homem. Dissemos que essa energia é sua corporeidade. Como a transfiguração foi antecipação, assim o é a transformação eucarística. Então mudou a “figura”, oferecendo à contemplação a realidade íntima, ainda com véu de aparências. Agora, sem mudança de aparências, se oferece à comunhão-comunicação o corpo glorificado. E transmite-se antecipadamente uma vida que será definitiva.

Estou imaginando o modo de um ato real. Não estou descrevendo uma atividade puramente mental do crente. O Ressuscitado atua realmente, com a força do Espírito, sobre o pão e o vinho; comunica realmente por eles transformados sua vida definitiva.

Manejei imagens como instrumento de inteligência e explicação. Devemos ter consciência de seu caráter explicativo, analógico. O importante é que o nosso ponto de partida seja a glorificação de Cristo. Não é Cristo em sua situação mortal aquele que se faz presente na eucaristia. Mas sem dúvida é a pessoa de Cristo que se comunica transfundindo sua vida. O seu é um corpo vivo, o corpo de uma Pessoa.

A eucaristia é como um segundo advento ou vinda corpórea de Cristo glorificado. Advento antecipado, como expliquei no capítulo sobre a memória. Olhando-o na perspectiva oposta, poderia dizer que é um salto para o futuro definitivo dos dons e da comunidade. E juntando as duas perspectivas, diria que é um encontro de Cristo com a criação e os homens: com a criação representada pelo pão e o vinho (como vimos no capítulo sobre o ofertório-beraká), dos homens representados por esta comunidade cristã.

Cristo já chegou ao termo para sempre; nele uma humanidade singular já chegou. O resto da humanidade, o resto da criação agora sentem uma atração para cima, para o futuro, e por trás um impulso ou empurrão: a atração da glória de Cristo, o impulso do Espírito; como um vento que enfuna as velas impelindo a nave para a sua transfiguração. Como se a nave saísse de um meridiano de sombras para transfigurar-se em brancura luminosa pela ação do sol que já saiu. Submetida às duas forças, está se transformando por dentro, “embora ainda não se veja o que vamos ser” (1Jo 3,2).

É, como se o pão e o vinho se tivessem adiantado para chegar a um termo suspirado; fizeram-no, como dizia o livro da Sabedoria, para a nossa salvação. Já transformados implantam em nós um princípio de transfiguração sucessiva, que gradativamente chegará à transfiguração definitiva: “somos transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente, pela ação do Senhor, que é Espírito” (2Cor 3,18). Também nós suspiramos pela glorificação à qual somos chamados. A eucaristia é testemunho, garantia, antecipação de nossa transformação. Também a comunidade vai se transformando progressivamente em comunidade de irmãos, filhos de Deus.

A eucaristia, como unidade articulada, é transformação. Do copioso repertório de nossa tradição podemos respigar algumas denominações: mudança, mutação, transformação, devir, fazer-se, remodelar, santificação, consagração, transfiguração, reformação. Diversas palavras para um mistério único.

 

Pe. Luís Alonso Schökel, sj