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Publicado em Janeiro-Fevereiro de 1987 (pp. 27-35)

Meditações bíblicas sobre a Eucaristia

Por Pe. Luís Alonso Schökel, sj

Acontece que um exegeta profissional, com muitos anos de experiência, escolhe alguns aspectos da celebração eucarística como tema de meditações. Sem pretendê-lo nem evitá-lo, essas meditações ficam marcadas pelo fundo bíblico do qual emergem.

Acontece, depois, que o exegeta comunica a outros o resultado de suas meditações. Em encontros, cursos, retiros, exercícios espirituais. Talvez pelo ambiente e pela boa disposição, sem dúvida pelo apreço renovado pela Eucaristia, aquelas reflexões são recebidas com interesse e provavelmente com fruto. Até aqui o processo é normal.

Acontece, finalmente, que o falador pensa em tornar-se escritor, e sente o prurido de escrever e publicar o que já ressoou em muitas ocasiões. E então surgem as dúvidas. Porque suas reflexões não são completas, nem sistemáticas, nem rigorosas, porque sobre a matéria existem estudos sérios e valiosos, talvez fosse melhor abster-se de escrever e remeter ao já escrito. Contudo, o trabalho pode justificar-se por seu gênero peculiar: simples reflexões ou meditações. Entre dois extremos — páginas de leitura e pontos de meditação — vão discorrer as páginas seguintes.

O leitor deverá recorrer a obras sistemáticas pa­ra precisar e aprofundar os temas apontados nestas homilias ou meditações. Contento-me em citar duas obras mais recentes, que oferecem bibliografia abundante: M. Gesteira Garza (La Eucaristia, mistério de comunión. Madrid, 1983); J. M. Sánchez Caro (Eucaristía e historia de Ia salvación. Madrid, 1983).

 

I. O SINAL DA CRUZ

1. “Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Assim começa a missa e assim começam muitas das nossas ações. E não nos damos conta daquilo que estamos fazendo, talvez porque tenhamos pressa de rezar. Temos a impressão de que fazer o sinal da cruz não é rezar, mas é um simples pórtico de acesso à oração. Não é que façamos um rabisco no ar, apenas reconhecível; fazemo-lo corretamente, mas sem calma, sem atenção particular, porque temos que recitar uma Ave-Maria ou um Pai-Nosso, ou estamos para celebrar a missa. No entanto, há poucos momentos de oração tão intensos, tão concentrados, como fazer o sinal da cruz.

Imaginemos um turista que subisse as escadarias da catedral de São Tiago e atravessasse a passos rápidos o pórtico para entrar nas naves. Daria vontade de agarrá-lo pelo braço, segurá-lo, detê-lo no pórtico da glória: a glória daqueles apóstolos de pedra que saúdam e acolhem os visitantes. Algo semelhante é fazer o sinal da cruz, magnífico pórtico através do qual penetramos gloriosamente na oração.

Em português temos dois verbos e dois gestos: “benzer-se” (fazer o sinal da cruz) e “persignar-se”. “Benzer” equivale a santificar ou consagrar; a sua forma é uma cruz e uma invocação trinitária. “Persignar-se” é aumentativo e iterativo, como persuadir, perseguir, ou perturbar, e se refere mais propriamente à tríplice cruz “na fronte, nos lábios e no peito”. As palavras que se pronunciam são uma súplica de proteção: “Pelo sinal da santa cruz, livrai-nos, Senhor, nosso Deus, dos nossos inimigos”. Função protetora, diante da função consagradora do fazer o sinal da cruz.

Nesta primeira reflexão gostaria de deter-me no sinal da cruz com a invocação trinitária que está no início da nossa celebração eucarística. Há dois elementos a considerar: o sinal e o nome.

 

2. O sinal é um uso cultural muito antigo, que conserva a sua validade em nossos dias. Sinal, marca, contrassenha, etiqueta, inscrição, tabuleta etc.: a pluralidade dos sinônimos indica a presença multiforme desta prática.

As escavações em territórios do Oriente antigo trouxeram à luz asas de ânforas com letras e sinais impressos. Estes podiam indicar o produtor ou o proprietário de uma mercadoria: trigo, vinho, óleo, produzidos e colhidos por N., ou de propriedade de N. São inúmeros os sinetes em forma cilíndrica provenientes da Mesopotâmia, e outros em forma de escaravelhos provenientes do Egito. O artista gravava neles um desenho ou uma cena em negativo: era um trabalho de miniatura, às vezes estranho. O cilindro era rodado sobre um material mole, e deixava impressa a cena em positivo. Havia sinetes em forma de anel, outros que eram pendurados ao pescoço ou no pulso. Podiam pertencer ao rei, a um ministro, a um secretário, e eram usados com valor jurídico nos documentos. A delegação de autoridade podia ser acompanhada da entrega do sinete pessoal.

Também o AT comprova este uso: “Faraó tirou o anel de sua mão e o colocou na mão de José” (Gn 41,42), delegando a ele sua autoridade imperial. Jezabel “escreveu então umas cartas em nome de Acab, selou-as com o selo real, e enviou-as aos anciãos e aos notáveis” (1Rs 21,8). O rei Assuero disse a Ester e a Mardoqueu: “Escrevei, pois, a respeito dos judeus, o que bem vos parecer, em nome do rei, e selai-o com o anel do rei. Porque todo edito redigido em nome do rei e selado com o anel é irrevogável” (Est 8,8; cf. 3,12). Já o patriarca Judá carregava o seu anel pessoal preso por um cordão (Gn 38,18.25). Jeremias usa a imagem do selo para indicar uma adesão muito pessoal do rei ao Senhor: “Por minha vida — oráculo de Iahweh —, ainda que Conias, filho de Joaquim, rei de Judá, fosse um anel em minha mão direita, eu te arrancaria de lá” (Jr 22,24). Segundo o profeta Ageu, o Senhor diz a Zorobabel: “Eu farei de ti como um sinete, porque foi a ti que eu escolhi” (Ag 2,23).

Assim se indicava a origem e a propriedade: um edito emanado pelo rei, uma casa propriedade de um personagem. O costume subsiste em nossos dias, com mudanças acidentais. Grande parte da publicidade, se não toda, baseia-se na marca, que o consumidor deve reconhecer. Vemos uma circunferência com três raios, e reconhecemos a marca do carro; o mesmo acontece com detergentes, bebidas, filmes. Existe a marca registrada. Analogamente, porém, usa-se colocar uma etiqueta, um ex-libris, nos próprios livros, e bordam-se algumas letras nos lençóis ou nos lenços. O uso moderno é tão difuso e notório que até podemos sofrer seu influxo em nível subliminar. E com isto compreendemos sem dificuldade um bom número de textos bíblicos.

 

3. Marca e sinal da Bíblia. Gostaria de comentar alguns textos nos quais a marca significa posse, ou nos quais tem função protetora. Jó recita a sua peroração, e a oferece a Deus dizendo: “Eis aqui a minha assinatura”. O sumo sacerdote usava um diadema com uma pedra preciosa, na qual estava gravado: “Consagrado a Iahweh” (Ex 28,36). O segundo Isaías anuncia a restauração do povo e a sua adesão ao Senhor: “Eu sou de Iahweh, aquele se chamará pelo nome de Jacó enquanto aquele outro escreverá na sua mão: ‘A Iahweh’, e receberá o nome de Israel” (Is 44,5). Da mesma forma como o proprietário gravava na asa da ânfora o seu nome, assim os israelitas marcavam em seu braço o nome de seu Senhor e patrão.

Também no Cântico dos Cânticos, a esposa fala apaixonadamente: “Grava-me, como um selo em teu coração, como um selo em teu braço” (Ct 8,6). Quer pertencer totalmente ao outro, estar com ele sem nunca separar-se dele. Não pede que coloque o seu nome no braço ou no coração, mas diz: “grava-me”, para que eu seja completamente tua. É o que disse em outras palavras: “Meu amado é meu e eu sou dele” (2,16). É a união do amor, forte como a morte. Ele fica marcado por ela, para sempre.

O poeta do exílio aplica audazmente a imagem a Deus. Jerusalém, a cidade que personifica o povo, é a esposa do Senhor. Lamenta-se que o seu esposo a tenha esquecido, e ele protesta: “Eis que te gravei nas palmas da minha mão, os teus muros estão continuamente diante de mim” (Is 49,16): como se trouxesse na pele um desenho da cidade, uma recordação incancelável.

Há também uma marca protetora. “E Iahweh colocou um sinal sobre Caim, a fim de que não fosse morto por quem o encontrasse” (Gn 4,15). Este sinal indica que ele está sob a jurisdição completa do Senhor, e que a ninguém será lícito fazer justiça ao homicida. Ezequiel desenvolve o tema numa visão: “Por causa de seus pecados, Jerusalém é condenada”, e o Senhor envia os executores da sentença. Mas leiamos os textos: “Então gritou aos meus ouvidos em alta voz: ‘Os flagelos da cidade se aproximam, cada um com seu instrumento exterminador na mão’. E eis que seis homens vinham do caminho do pórtico superior, o qual dá para o norte, cada um com a sua arma de destruição na mão. Entre eles estava um homem vestido de linho, o qual trazia um estojo de escriba na cintura. Chegaram-se e puseram-se de pé junto ao altar de bronze. A Glória do Deus de Israel se ergueu de sobre o querubim sobre o qual se encontrava, veio para o limiar do Templo e chamou o homem vestido de linho, que trazia na cintura o estojo de escriba, e Iahweh lhe disse: ‘Percorre a cidade, a saber, Jerusalém, e assinala com um tau a testa dos homens que estão gemendo e chorando por causa de todas as abominações que se fazem no meio dela’. Ouvi que dizia aos outros: ‘Percorrei a cidade atrás dele e feri. Não mostreis olhar de compaixão nem poupeis a ninguém. Velhos, moços, virgens, crianças, mulheres, matai-os, entregai-os ao exterminador. Mas não toqueis ninguém daqueles que trouxerem o sinal do tau. Começai pelo meu santuário!’’’ (Ez 9,1-6).

Marca, em hebraico, se diz “tau”, ou seja, a letra tau que antigamente se escrevia com dois traços em cruz. O escrivão marca o tau, a cruz, na fronte, um sinal que significa “fiéis ao Senhor”, e em virtude dele os assinalados se salvam do extermínio. É uma garantia evidente, que os executores devem respeitar. Algo semelhante àquele sinal de sangue nos umbrais e nas arquitraves das portas, quando pelos caminhos do Egito passava o exterminador arrecadando o tributo dos primogênitos. Ou como o cordão escarlate à janela da casa de Raab, encostada às muralhas de Jericó, que serviu para salvar toda a família (Js 2,18).

O Apocalipse recolhe e transforma a cena de Ezequiel: “Vi também outro Anjo que subia do Oriente com o selo do Deus vivo. Este gritou com alta voz aos quatro Anjos que haviam sido encarregados de fazer mal à terra e ao mar: ‘Não danifiqueis a terra, o mar e as árvores, até que tenhamos marcado a fronte dos servos do nosso Deus’. Ouvi então o número dos que tinham sido marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel” (Ap 7,2-4).

 

4. Com os textos anteriores passamos do contexto cultural geral ao contexto religioso da Bíblia. Já encontramos um par de vezes o nome como sinal no diadema do sacerdote e na tatuagem dos fiéis do Senhor. O nome pode ser a marca, ou parte dela: nós reconhecemos o carro por essa circunferência com três raios, e também por seu nome, Mercedes. O filho traz o nome do pai do qual nasceu: Ezequiel filho de Buzi, Jeremias filho de Helcias. O Templo traz o nome do Senhor; os altares são dedicados invocando o nome do Senhor. A bênção se realiza “impondo”, invocando o nome do Senhor sobre a comunidade.

 

5. O contexto cristão. São Paulo diz que “onde há um cristão, há uma nova criação”, ou nova humanidade; há uma nova origem, uma posse nova. O cristão se incorpora a Cristo mediante a fé e permanece marcado. O batismo é um sinal, uma marca vitalícia que não se apaga; esta marca não é outra senão a do Espírito, imposto por Deus; com ele Deus santifica, consagra. A partir desse momento há um homem novo, porque é filho de Deus; ao ser adotado recebe uma participação da vida divina, começa a viver com nova respiração: “Nele também vós, tendo ouvido a Palavra da verdade — o evangelho da vossa salvação — e nela tendo crido, fostes selados pelo Espírito da promessa, o Espírito Santo, que é o penhor da nossa herança, para a redenção do povo que ele adquiriu para o seu louvor e glória” (Ef 1,13-14). “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, pelo qual fostes selados para o dia da redenção” (Ef 4,30).

O nascimento para a vida nova exprime-se eficazmente no símbolo da água como seio fecundo da Igreja; acrescenta-se como gesto o sinal da cruz e a invocação ou dedicação ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Sinal e nome.

Aqui é necessário um esclarecimento importante, porque a fórmula “em nome de” pode ser mal interpretada. Em hebraico vimos dois casos de consagração ao Senhor com a expressão leYahweh, ou seja, a preposição de oferta e posse e o nome pessoal (Ex 28,36 e Is 44,5). Outros casos usam o termo “nome”: “Ele edificará uma casa em minha honra / ao meu nome, lismi (2Sm 7,13); “Um templo em honra do nome do Senhor”, lesem Yhwh (1Rs 7,13); “Oferecem sacrifícios e oferendas ao meu nome”, lismi (Ml 1,11). Pelo contrário, para significar que se age “em nome de outros”, representando alguém, o hebraico usa e preposição be-: Ex 5,23; Dt 18,20.22; 1Sm 25,5-9; 1Rs 22,16; Jr 20,9 etc. No primeiro grupo, o tradutor grego usa o termo no dativo: tô onomati; no segundo, usa en onomati. A fórmula batismal de Mt 28,19 usa a expressão inequívoca de consagração: “em nome…”, eis to onoma. Em língua moderna, quando alguém age ou faz algo “em nome de”, está representando outra pessoa ou entidade; mas não se usa a expressão “consagrar, dedicar ao nome de N.”, mas simplesmente “dedicar a N.”, se se excetua a expressão “pôr em nome de” como passagem de propriedade. Por isso a fórmula batismal: “eu te batizo em nome do Pai”, poderia ser interpretada como se o oficiante agisse “em representação” do Pai. O sentido verdadeiro é uma dedicação total, uma consagração, um pôr no nome (na posse) da Santíssima Trindade.

 

6. É tão grande o sinal da cruz e o nome trinitário sobre esta criatura, que ela começa a ser “super-homem”, filho de Deus assinalado para sempre. Mas a nossa vida não é somente o fato radical ontológico, o fundamento último indestrutível, porque nós somos consciência e liberdade. O nosso ser fecundo se desenvolve e se articula através de ações, pequenas ou grandes, diárias e decisivas, íntimas e visíveis, das quais temos consciência, nos lembramos ou nos esquecemos. O homem é um ser unitário, profundo, que se realiza em múltiplos aspectos.

Pelo fato de agir como cristão, podemos dizer que toda a atividade de um homem está marcada. Mas visto que nos possuímos através da consciência reflexa, e possuímos o nosso agir através da liberdade, temos que marcar conscientemente todas as nossas obras e atividades, todos os nossos dias, com a marca e o sinal do cristão. O que subsiste de profundo em nosso existir, manifesta-se em uma atividade que enfrentamos, no novo dia que desponta trazendo-nos o programa dos nossos compromissos, e talvez alguma gratificação imprevista. Então assinalamos com a cruz esse dia, essa viagem, essa ação, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

Assinalamos a nossa atividade e o nosso repouso, as alegrias e as dores, com o sinal da cruz e com o nome trinitário, e assim realizamos o nosso ser cristão no curso da vida. E também a nossa morte será marcada pelo sinal da cruz. Não que as obras e ações tenham necessidade de nova consagração, quando o núcleo profundo da existência já está consagrado pelo batismo; mas com esse ato acrescentamos a toda ação o esplendor da consciência, o dinamismo da liberdade.

E o que significa “assinalar” a nossa atividade com o sinal da cruz? A cruz significa sacrifício por amor, é a morte para a ressurreição. O sinal da cruz sobre as nossas ações significa anular o nosso egoísmo e libertar para o amor; significa renunciar à vaidade, ao prestígio, ao desejo de possuir e dominar, para consagrar a obra a Cristo. E um sacrifício de si, para uma vida mais alta. Uma obra que realizo por pura vaidade não pode levar o sinal da cruz, não está crucificada, não está cristãmente santificada; uma obra de apostolado, por amor do próximo, é oferecida e consagrada: “Ninguém de nós vive e ninguém morre para si mesmo, porque se vivemos é para o Senhor que vivemos e se morremos é para o Senhor que morremos. Portanto, quer vi­vamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,7-8).

Anular o sentido egoísta de uma ação é marcá-la com a cruz; e é também libertá-la e torná-la disponível por um dinamismo novo, trinitário. Está aqui a grandeza e a responsabilidade de santificar-se.

Então, quando começamos a obra mais importante da semana ou do dia, quando iniciamos a eucaristia, benzemo-nos no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. E o sentido trinitário da celebração eucarística, que tornará a se exprimir nos momentos sucessivos, é proclamado desde o início.

 

II. A LITURGIA PENITENCIAL

1. Quando não há um motivo particular que o desaconselhe, a nossa celebração eucarística traz no início uma liturgia penitencial, isto é, uma ação litúrgica na qual se exerce o ministério da reconciliação. Atualmente, esta ação não é uma forma particular de sacramento da penitência; e não quero discutir aqui o problema do seu significado e da sua função originais. Poderíamos considerá-lo um “sacramental”, mais do que o bater no peito e usar água benta. O ministério da reconciliação é amplo, generoso da parte de Deus, e a Igreja pode atuá-lo de várias formas, dependendo das circunstâncias de tempo, de lugar e de pessoas. Gostaríamos de inscrever tal liturgia num texto de são Paulo: “Tudo isto vem de Deus, que nos reconciliou consigo por Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação. Pois era Deus que em Cristo reconciliava o mundo consigo, não imputando aos homens as suas faltas e colocando em nós as palavras da reconciliação. Sendo assim, em nome de Cristo exercemos a função de embaixadores e por nosso intermédio é Deus mesmo quem nos exorta” (2Cor 5,18-19).

A rigor, não somos nós que nos reconciliamos; é Deus que nos reconcilia, e nós “nos deixamos reconciliar” com ele. O ato implica o cancelamento de uma dívida ou o perdão de um pecado, para restabelecer as boas relações. Esse perdão é oferecido por Deus por meio de Cristo, e a Igreja deve pôr-se ao serviço da reconciliação.

É preciso sublinhar o caráter interpessoal do ato. Fala-se de dívida que intervém entre duas pessoas, devedor e credor; se falássemos de ofensa, seriam ofensor e ofendido. Mais do que infringir uma norma objetiva, faltamos com um compromisso com outra pessoa: compromisso de justiça ou de amor?

 

2. Funções e atos. Deus intervém como parte ofendida, e o homem, a comunidade, como a parte que ofendeu. Não negamos que em outras ocasiões Deus aja como Juiz, em posição elevada e imparcial, condenando o culpado e absolvendo o inocente. Há numerosos exemplos dessa atividade no AT, concretamente nas súplicas do inocente acusado e perseguido, e nos textos escatológicos. Ora, esses momentos não são liturgias penitenciais ordenadas à reconciliação. Na liturgia penitencial do AT, Deus não é juiz, mas parte ofendida. Isto pode ser verificado em muitas lamentações proféticas, nos salmos 50-51 e em outros salmos penitenciais.

A parte ofendida quer restabelecer as boas rela­ções pessoais, e deve fazer isto de maneira pessoal, não mecânica, envolvendo o ofensor. Não pode dizer: “não tem importância, eu esqueço tudo, não foi nada”, antes que o ofensor complete seu processo de transformação. Se o ofensor faltou aos seus compromissos de maneira consciente e livre, aconteceu algo sério, e o ofendido não dirá: “aqui não aconteceu nada”, porque esta não seria uma reconciliação responsável entre duas pessoas. Pelo contrário, iniciará um diálogo, apresentará queixa, fará um processo, para que o ofensor reconheça a sua culpa e peça perdão. Somente assim se restabelecem relações pessoais recíprocas.

Se o ofendido diz que não se importa com o que aconteceu, isto implica que não se importa com a pessoa do ofensor. Toda vez que desprezamos as críticas dos rivais, com isto os desprezamos como pessoas. A Deus importa a pessoa do ofensor, por isso ele se importa com o que aconteceu. Ele quer cancelar a dívida, tirar a mácula, aliviar a culpa, perdoar a transgressão; mas quer fazer isto envolvendo a consciência e a responsabilidade do ofensor. Somente no fim poderá dizer: “esqueci tudo”. Responsabilidade é responder a alguém, por alguma coisa. Por isso a liturgia penitencial é um processo que comporta convocação, debate, sentença.

Esse processo, que é mistério de graça em ação, assume a forma externa de um juízo contraditório entre duas partes, o ofensor e o ofendido. A forma externa é como uma pantomima que realiza o que representa. É como as frases chamadas “performativas” (o inglês perform significa “realizar”). Quando um presidente diz: “declaro aberta a sessão”, esta está real e juridicamente aberta, tem validade legal. Quando a assembleia litúrgica representa um juízo contraditório de reconciliação, o que se representa acontece realmente.

Esse processo ou representação eficaz desenvolve-se normalmente em três atos: acusação, confissão, perdão.

 

3. Primeiro ato: acusação. A parte ofendida convoca o ofensor, lembra-lhe os seus compromissos, lança-lhe em rosto sua inadimplência. Este ato permanece implícito e não é expresso em nossa liturgia penitencial. Está implícito na convocação litúrgica. No novo missal italiano encontramos uma alusão a ele: “O Senhor Jesus, que nos convida à mesa da palavra e da eucaristia, nos chama à conversão”. “Somos chamados a morrer ao pecado…” “O Senhor disse: quem não pecou, atire a primeira pedra.”

Eximimo-nos de citar e ler as passagens pertinentes no AT; citarei apenas algumas, tiradas dos salmos e dos profetas: “O próprio Deus vai julgar. Ouve, meu povo, eu vou falar, Israel, vou testemunhar contra ti. Assim te comportas, e eu me cala­ria? Eu te acuso e exponho tudo aos teus olhos” (Sl 50,6-7.21); “O que encontraram os vossos pais em mim de injusto, para que se afastassem de mim e corressem atrás do vazio, tornando-se eles mesmos vazios? Os sacerdotes não perguntaram: ‘Onde está Iahweh?’ Os depositários da Lei não me conheceram, os pastores rebelaram-se contra mim, os profetas profetizaram por Baal… Porque meu povo co­meteu dois crimes: Eles me abandonaram, a fonte de água viva, para cavar para si cisternas, cisternas furadas, que não podem conter água” (Jr 2,5.8.13). Todo o texto de Jeremias 2,1-4 deveria ser lido e meditado neste ponto.

A acusação se baseia nos compromissos assumidos, e apela a eles. Existe, pois, um compromisso recíproco, e este compromisso se articulou numa série de cláusulas. O compromisso é a aliança, as cláusulas são elencadas no documento da aliança. “Reuni junto a mim os meus fiéis, que selaram minha aliança com sacrifício” (Sl 50,5). “Que te adianta recitar meus preceitos e ter minha aliança na boca?” (Sl 50,16). A aliança do Sinai propõe dez cláusulas: em grego deka-logoi, o decálogo; o documento é gravado numa tábua de pedra que se conserva no Templo. Com base nessas cláusulas, Deus pode queixar-se contra seu povo, porque este não honrou os compromissos solenemente assumidos. O povo, unissonamente, havia prometido: “Tudo o que Iahweh disse, nós o faremos!” (Ex 19,8; 24,3.7).

Para a comunidade reunida a celebrar a eucaristia, qual é o ponto de referência? É sempre o decálogo do Sinai? O preceito do sábado e a proibi­ção de fazer imagens de Deus não estão mais em vigor; o resto de certa forma continua válido, ainda que não tal e qual. O cristão não vive na aliança antiga, mas na nova; o protocolo da nova aliança não é o decálogo do Sinai, mas o evangelho de Cristo. As bem-aventuranças, o sermão da montanha, o preceito de perdoar os inimigos, não fazem parte do decálogo; e mesmo aquilo que ainda está em vigor, foi profundamente transformado. Não é correto dizer que a base da vida cristã, no que se refere às coisas a fazer, é o decálogo. O capítulo 5 de Mateus tem expressões como as seguintes: “Ensinaram-vos que foi dito aos antigos… Mas eu vos digo… Foi ordenado também… mas eu vos digo…” Em vez de Moisés como mediador, Jesus, o Messias, o Filho do Pai; em lugar do Sinai, o monte da Galileia; no lugar dos dez preceitos ou proibições, oito bem-aventuranças; em vez de tábuas de pedra, o Espírito nos corações. A partir desse centro organizam-se as outras exigências, ou normas, e conselhos do evangelho, que se concentram no duplo amor, a Deus e ao próximo. É claro que o evangelho inclui e aprofunda o que há de permanente no decálogo; o decálogo, pelo contrário, não contém todo o evangelho.

Ora, esse evangelho nos acusa de muitas formas. Ele é o nosso compromisso com Deus Pai, através da mediação de seu Filho. Nós o pomos em prática? Em que grau? O evangelho é um alegre anúncio, uma boa notícia: não será também um ato de acusação contra nós? Poder-se-ia ler uma página do evangelho tomando-a como uma queixa do Senhor contra os seus. Esta comunidade cristã acredita realmente que seja um valor a compartilhar? Ou continua a acreditar que seja um valor a conquistar e possuir? Esta comunidade cristã acredita que trabalhar para a paz seja um valor e uma exigência? Preocupa-se com um problema desse tipo? Esta comunidade sente a sede da justiça? Leituras e reflexões desse tipo permitiriam à mensagem bíblica incidir na comunidade cristã com maior eficácia.

O evangelho nos convoca e nos acusa, depois nos oferece o perdão e nos reconcilia. Por isso se invocava: “Per evangelica dista deleantur nostra delicta”, “pelas palavras do evangelho sejam cancelados os nossos pecados”; não de forma mecânica, mas de forma responsável, dentro de um processo de chamamento e resposta.

Já disse que esse ato está apenas acenado na liturgia penitencial da nossa celebração eucarística. Mais ainda, há ocasiões em que, antepondo outro ato litúrgico ou paralitúrgico, por exemplo, a recitação das Laudes, omite-se totalmente o rito penitencial. Quando em outras ocasiões o praticamos com maior amplidão e calma nos ajudará a penetrar no sentido dessa parte da missa.

 

4. Segundo ato: confissão. A parte acusada poderia defender-se, negar os fatos ou as imputações. Mas quando é Deus que nos lança em rosto nossa conduta, como poderíamos negá-la? “Como podes dizer: ‘Não me profanei, não corri atrás dos ídolos?… Por que pleiteais comigo? Vós todos vos rebelastes contra mim” (Jr 2,23.29). Neste caso não há outra coisa a fazer senão confessar a culpa e pedir perdão.

Este ato costuma ser preparado deixando um espaço de silêncio, para que os presentes recordem concretamente algumas culpas mais importantes, ou mais recentes, ou mais estreitamente relacionadas com a celebração específica. Breves palavras poderiam guiar a reflexão. Depois a parte culpada reconhece a sua culpa e pede perdão à parte ofendida.

O AT nos oferece inúmeros exemplos deste segundo ato:

“Eu disse: ‘Vou a Iahweh confessar a minha iniquidade’”(Sl 32,5); “Minhas iniquidades ultrapassam-me a cabeça, como fardo pesado elas pesam sobre mim” (Sl 38,5); “Apaga minhas transgressões por tua grande compaixão. Lava-me inteiro de minha iniquidade, pois reconheço minhas transgressões e diante de mim está sempre o meu pecado” (Sl 51,3-5); “Nossas faltas são mais fortes que nós, mas tu no-las perdoas” (Sl 65,4); “Se fazes conta das culpas, Iahweh, Senhor, quem poderá se manter? Mas contigo está o perdão, para que sejas temido” (Sl 130,3-4); “Voltai, filhos rebeldes, eu vos curarei de vossas rebeliões! — Eis que voltamos a ti, pois tu és Iahweh, nosso Deus”. “Deitemo-nos em nossa vergonha, cubra-nos a nossa confusão! Pois pecamos contra Iahweh nosso Deus” (Jr 3,22.25).

Os livros litúrgicos da missa nos oferecem um par de fórmulas: “Tende compaixão de nós, Senhor, porque somos pecadores”. “Cristo, que viestes chamar os pecadores, tende piedade de nós”. O novo formulário italiano é mais rico e diferenciado: “Reconhecemos que somos pecadores e invocamos confiantes a misericórdia de Deus”. “Humildes e penitentes como o publicano no Templo, aproximemo-nos do Deus justo e santo, para que tenha piedade de nós pecadores”. “Cristo, que sobre a cruz invocastes o perdão para os pecadores, tende piedade de nós”.

Notamos outro aspecto importante. Na liturgia penitencial da missa não agem indivíduos isolados; esta não se desenvolve entre os indivíduos isolados e Deus, e também não dizemos todos as mesmas palavras para poupar tempo aproveitando o fato de nos encontrarmos acidentalmente todos no mesmo lugar. Certamente, o plano individual não é anulado, mas neste caso ele não constitui a realidade específica. É verdade que o Confiteor soa em primeira pessoa do singular: “Confesso a Deus todo-poderoso e a vós, irmãos, que pequei muitas vezes…” Mas esta fórmula, mesmo estando no singular, é compartilhada com um efeito recíproco de confissão e de testemunho pelos “irmãos”. A característica da liturgia penitencial na eucaristia é o seu aspecto comunitário. Para além das responsabilidades individuais irrenunciáveis, há uma solidariedade na culpa: os dois elementos não se opõem nem se excluem, mesmo que às vezes seja difícil harmonizá-los e integrá-los. Alguns temem que, ao sublinhar a responsabilidade comunitária, se queira ou se possa enfraquecer a responsabilidade pessoal; mas não é assim.

O AT nos oferece algumas confissões de pecado comunitário, depois do exílio; precisamente quando Ezequiel reafirmou a responsabilidade individual (Ez 18). Um exemplo eloquente, que recolhe e amplia os precedentes, é Baruc 1,15 — 3,8, do qual cito algumas frases: “Ao Senhor nosso Deus a justiça, mas a nós a vergonha no rosto, como acontece hoje. A nós, homens de Judá e habitantes de Jerusalém, aos nossos reis e chefes, aos nossos sacerdotes e profetas e aos nossos pais, porque pecamos diante do Senhor. Fomos desobedientes para com ele; não escutamos a voz do Senhor nosso Deus, para andarmos segundo os preceitos que o Senhor havia dado aos nossos olhos” (1,15-18); “Senhor todo-poderoso, Deus de Israel, é uma alma angustiada, um espírito perturbado que clama a ti: Escuta, Senhor, e tem piedade, porque nós pecamos contra ti. Não te recordes das injustiças dos nossos pais; mas sim, nesta hora, lembra-te da tua mão e do teu Nome” (3,1.5).

A responsabilidade é de toda a comunidade, incluídos os antepassados. Cada um se sente solidário com os outros e carrega o peso da história do povo. É admirável: solidário na confissão de um pecado comum, o povo disperso se sente uno. Na presença de Deus os pecados não sufocam, mas unem a comunidade.

Também quando Daniel reza na primeira pessoa do singular: “Escuta as orações e as súplicas do teu servo”, o faz em nome de todo o povo: “Israel inteiro transgrediu a tua lei, recusando-se a obedecer-lhe… Pelos nossos pecados e pelas nossas dívidas, Jerusalém e todo o povo são objeto de vitupério… Mas mesmo que nos tenhamos revoltado, o Senhor é compassivo e perdoa” (Dn 9). Pode-se ler também Esdras 9 e Neemias 9.

A corresponsabilidade não se opõe à responsabilidade, antes a inclui. Poder-se-iam desenvolver de maneira simultânea e harmônica os dois fatores: na consciência de que, individual e comunitariamente, somos responsáveis diante de Deus. Não somente o cristão falta aos seus compromissos de aliança, mas também esta comunidade cristã, enquanto tal, falta aos seus compromissos evangélicos com Jesus Cristo. A liturgia penitencial eucarística pode ser um momento oportuno para educar e fortalecer essa consciência. De novo, o formulário italiano nos oferece material oportuno: “No início desta celebração eucarística, peçamos a conversão do coração, fonte de reconciliação e de comunhão com Deus e com os irmãos”. “Reconheçamo-nos todos pecadores, e perdoemo-nos reciprocamente do fundo do coração”. “Senhor, que nos construís como pedras vivas para formar o Templo santo de Deus, tende piedade de nós”.

 

5. Terceiro ato: o perdão. Também este ato é anunciado no plural, e pronunciado em forma de petição. Deus não vem como juiz para condenar o culpado, convicto e confesso; vem como parte ofendida para reconciliar o homem consigo. O homem não pode reconciliar-se com Deus por conta própria, nem Deus precisa reconciliar-se com o homem. A ação é de Deus Pai e de Jesus Cristo: “Jesus Cristo, o justo (inocente), intercede por nós e nos re­concilia com o Pai” (do novo formulário italiano).

O ato final de um julgamento contraditório entre duas partes pode acontecer de três formas. Ou o ofensor-devedor restitui ou satisfaz totalmente o ofendido, e assim se restabelece a relação justa entre ambos. Ou intervém uma transação ou composição: o ofendido aceita uma compensação parcial, uma reparação modesta, e se dá por satisfeito; o ofensor repara assim a culpa e volta a ser agradável. Ou o ofendido renuncia aos seus direitos, perdoa inteiramente a dívida e totalmente a ofensa. Cabe à parte ofendida escolher o desfecho do processo; o ofensor não pode fazer outra coisa senão suplicar. A liturgia penitencial eucarística entra no terceiro tipo de solução: Deus perdoa, e selará a re­conciliação com o banquete.

O presidente da ação litúrgica usa uma forma de súplica, não a forma asseverativa: “Deus todo-poderoso tenha compaixão de nós, perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna”. Não diz: “Eu te perdoo” ou “Deus nos perdoa”, mas suplica, incluindo-se na comunidade pecadora, no “nós, nossos”. A história nos ensina que em outras épocas, em outras regiões da Igreja, foi usada uma fórmula suplicatória com validade sacramental (voltarei ao assunto em outra ocasião). Além disso, a nossa fórmula atual é muito antiga, ou depende de textos antigos e tradicionais.

Então, é uma simples súplica? Não tem de certa forma valor “performativo”, eficaz? Não é performativa no sentido de que realiza o que exprime, visto que não enuncia; é eficaz enquanto tem a garantia de que a petição será ouvida, ainda que não seja de forma sacramental.

Neste momento não fala Deus, e nem Cristo, como intercedeu na cruz: “Pai, perdoai-lhes”. O sacerdote não fala como representante de Deus, ou de Jesus Cristo, visto que ele se inclui entre os pecadores. Fala como membro qualificado da comunidade e em nome dela. Mas o diz com o encargo e a promessa do perdão de Deus, com a garantia da reconciliação realizada por meio do Messias: “Deus nos reconciliou consigo por Cristo, e nos confiou o ministério da reconciliação” (2Cor 5,18).

Pe. Luís Alonso Schökel, sj