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Publicado em Novembro-Dezembro de 2006 (pp. 18-22)

O Batismo numa perspectiva pastoral

Por Prof. Antônio Müller

1. No Antigo e no Novo Testamento

Para entender melhor a função e o sentido do sacramento do batismo, faz-se necessário buscar as suas origens. No Antigo Testamento, o mergulho na água era tido como meio de purificação espiritual. As abluções e o ato de lavar as mãos antes das refeições, além de se relacionarem a questões de higiene, eram práticas religiosas de purificação (cf. Mt 15,2; Mc 7,2-5).

João Batista recebeu a missão de preparar os caminhos do Messias. Em sua pregação, chamava o povo à conversão dos pecados, à penitência e à purificação por meio do batismo, como lemos em Lc 3,3: “João percorria toda a região do Jordão, pregando o batismo de arrependimento para a remissão dos pecados”. Pelo batismo, João reconhece o Cristo: “Eu não o conhecia, mas aquele que me mandou batizar em água disse-me: ‘Sobre quem vires descer e repousar o Espírito, este é quem batiza no Espírito Santo’. Eu o vi e dou testemunho de que ele é o Filho de Deus” (Jo 1,33-34); “Eis que os céus se abriram e vi descer sobre ele o Espírito Santo, em forma de pomba. E do céu baixou uma voz: Eis meu Filho muito amado em quem ponho minha afeição” (Mt 3,16-17; Lc 3,21-22). Podemos ver aí Deus se manifestando como um em três pessoas: o Pai que anuncia, o Espírito Santo que aparece em forma de pomba e o Filho que recebe o batismo. A partir do batismo, Jesus assume a sua missão. Retira-se para o deserto para rezar e depois volta pregando, criando a base apostólica de sua Igreja, com a escolha dos doze apóstolos.

João — na qualidade de arauto — vai à frente, preparando os caminhos. O Messias, com as chaves do poder, abre aos seres humanos o reino de Deus. Para entrar nesse reino, é preciso morrer para o pecado e renascer para uma nova vida. Jesus deixa claro que o mundo do pecado é formado pelas vaidades e paixões egoístas, que suscitam contínuos conflitos e a degradação do ser humano naquilo que constitui sua essência, sua verdadeira dignidade. Faz-se, pois, necessário morrer para essa vida de pecado e ressuscitar com Cristo como pessoas novas.

O batismo exige da pessoa que o recebe a atitude de conversão. Da parte de Deus, o batismo é acolhida e comunicação de vida nova: “Quem não renascer de novo não entrará no reino de Deus” (Jo 3,5). Aos apóstolos Jesus deixa clara missão: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado” (Mc 16,15-16). Mateus acrescenta, indicando em nome de quem somos batizados: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19-20).

 

2. Sinais e efeitos do batismo

2.1. Sinal de conversão

Todo judeu ou o pagão convertido ao judaísmo precisavam passar pela circuncisão. O cristão é marcado pelo batismo. Quem aceita Cristo e seu evangelho é batizado. Assim o batismo se torna a marca do cristão, o sinal de aceitação do novo reino que Cristo veio instaurar. A conversão se consuma pela purificação do batismo. Depois de Pentecostes, os apóstolos assumem a pregação do reino de Deus e a prática de batizar. Cheios do Espírito Santo, pregam em várias línguas. Muitos creem e são batizados. O livro dos Atos faz inúmeras referências ao batismo como sinal dos que acreditavam e do crescimento da Igreja. Pedro prega a conversão e a necessidade do batismo. Os que receberam a sua palavra foram batizados (cf. At 2,41). Em At 8,12 lemos: “Depois que acreditaram em Felipe, que lhes anunciava o reino de Deus e o nome de Jesus Cristo, homens e mulheres pediram o batismo”. Em todas essas referências bíblicas se vê que o batismo era marca da conversão e da aceitação de Cristo.

São Paulo associa o batismo à morte e ressurreição de Cristo: “Fomos batizados em sua morte, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos, pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova” (Rm 6,4). O apóstolo desenvolve a teologia do Corpo místico de Cristo, no qual somos inseridos pelo batismo, como diz em 1Cor 12,13: “Em um só Espírito fomos batizados, todos nós para formar um só corpo, e todos fomos impregnados de um mesmo Espírito”. Na carta aos Gálatas lemos: “Todos vós que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo” (Gl 3,27). A Tito, Paulo fala dos efeitos do batismo que regenera e comunica o Espírito Santo. Diz, ainda, que não é pelos nossos méritos, mas pela misericórdia é que Jesus nos salva mediante o batismo e nos torna herdeiros da vida eterna (Tt 3,5s).

Embora seja problemático falar do pecado como herança de Adão e Eva, não se pode ignorar nem negar que a humanidade se afastou dos propósitos divinos. Perdeu a consciência da imanência de Deus como elemento constitutivo, distanciou-se dos propósitos da criação.

Deus quer salvar a todos os seus filhos, e nós temos responsabilidade nessa salvação. Como membros do Corpo de Cristo, fazemos parte da mesma Igreja e temos a missão de anunciar o reino de Deus entre os irmãos, ser luz no mundo e testemunhas de Cristo entre cristãos e não cristãos. Ser membros da Igreja é fazer parte de um povo sacerdotal (cf. 1Pd 2,9-10), que se preocupa com a salvação de todos. Essa missão se consolida pela vida em família, pela participação litúrgica e pelo testemunho de Cristo.

Como o açúcar e o sal nos alimentos, assim é Deus na vida do cristão. Não é visível, mas dá um sabor especial à vida. Nossos atos ganham um sentido novo quando são penetrados por Deus e motivados pela fé e pelo amor.

 

2.2. Sacramento de entrada

O batismo realiza-se por meio de uma cerimônia de ingresso numa comunidade eclesial. As Igrejas podem variar, mas todas têm por base o ser humano em sua relação com Deus. Ter uma religião é necessidade intrínseca ao ser humano, que toma consciência de sua imortalidade e abertura para um ser superior. Assim como as pessoas buscam a Deus, este busca as pessoas porque as ama. De muitas formas Deus revelou isso, mas foi por meio de Jesus Cristo que esse amor se mostrou em plenitude como uma paixão que se imola. Contudo, o ser amado por Deus, no exercício de sua liberdade, tem falhado nessa relação de amor desde o princípio. Mas Deus nunca o abandona — como vemos em toda a história da salvação, que mostra como o Criador procura elevar os seres humanos à dignidade de filhos bem-amados.

Para a criança, o batismo não tem o sentido imediato de conversão ou de adesão a um novo credo — como ocorria no início do cristianismo —, mas o de abertura para a relação com Deus. Mais importante do que a idade para ser batizado é o modo de viver o batismo, pois, ao expressar renúncia a Satanás e ao pecado, o batizando se propõe viver uma relação de amor filial com a Santíssima Trindade, em nome de quem se batiza.

As portas da Igreja se abrem ao batizando, que recebe da parte de Deus um manancial de graças, para que se mantenha em consonância com os princípios professados e com a fé católica. A unção com o óleo da crisma é sinal dos ministérios que todo cristão recebe no batismo: sacerdote, profeta e rei, pelos quais participa dos ministérios de Cristo e de sua Igreja.

Para o adulto convertido, o batismo também perdoa os pecados cometidos, indicando o fim de uma vida distante de Deus — como a do filho pródigo — e a acolhida do Pai (cf. Lc 15,11-24).

No batismo, nós — pessoalmente ou por vontade e fé de nossos pais e padrinhos — estendemos nossa mão para o encontro com a mão divina, de modo que se estabeleça uma relação de amizade e de amor filial. No caso do batismo de crianças, os pais e padrinhos se comprometem a ensinar e a conduzir esses novos cristãos a viver de acordo com a fé cristã e a buscar sempre a amizade e as graças de Deus. A vida que se inicia no batismo deve desenvolver-se numa dinâmica de crescimento, alimentada e incentivada pela vivência dos demais sacramentos e pela participação ativa na comunidade. Não importa se alguém ingressou na comunidade por conversão e arrependimento ou se isso ocorreu ainda no colo materno pelo fervor religioso dos pais; o importante é que a vida cristã seja devidamente seguida e a luz de Cristo brilhe no mundo por meio de quem se professa cristão. É preciso engajamento na comunidade para ser sal da terra e luz e fermento no mundo, pois não há vida cristã onde membros da comunidade apenas se intitulam cristãos, mas não o são de fato, adotam princípios religiosos que não seguem, fazem uma aliança com Deus, mas não a vivem.

Ao devolver a unidade com Deus, o batismo nos abre as portas para o reino de Cristo e para a salvação. Somos irmãos de Cristo e de todos os que trazem em si a vida divina. A unidade com Deus garante a unidade com os irmãos. Passamos a ser membros do Corpo místico de Cristo, cidadãos do reino de Deus. Como diz São Paulo aos Coríntios: “Fomos todos batizados em um só Espírito para ser um só corpo, judeus e gregos, escravos e livres, e todos bebemos de um só Espírito” (1Cor 12,12-13).

 

2.3. Luz e imagem de Cristo

O batizando recebe do padrinho uma vela acesa no círio pascal, que representa o Cristo ressuscitado, luz do mundo, para significar não apenas que o cristão vive na luz, mas também que deve ser luz para o mundo. Pelo batismo nos tornamos imagens de Cristo na terra; então, cabe perguntar: que imagem de Cristo nós somos? Não se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo do alqueire, mas, sim, no candeeiro, para que ilumine a todos. Assim deve ser o cristão: ter a luz de Cristo não apenas para si, mas também para iluminar os outros. Sua grande missão é ser sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-14), para que o reino de Cristo se estabeleça e o mundo ganhe um sentido novo, orientado para valores eternos.

No início do cristianismo, o batismo era ministrado imediatamente quando o ouvinte se convertia e manifestava intenção de aderir ao novo reino de Cristo. Depois que a comunidade cristã se estruturou, esse sacramento passou a ser precedido de longo período de instrução, chamado catecumenato. Como o cristianismo era proscrito — proibido em todo o império romano —, os postulantes ou catecúmenos recebiam instruções nas catacumbas — construções subterrâneas onde se sentiam mais seguros junto aos mortos do que sob os olhares dos vivos. Nas celebrações, os catecúmenos participavam da liturgia da Palavra, mas não da liturgia eucarística. Só depois do batismo podiam ter participação plena nas celebrações.

 

2.4. Recuperação da plenitude humana

A descrição da forma como Deus criou o ser humano (cf. Gn 2,7) tem o objetivo de dizer o que ele, o ser humano, é: ser transcendente que, por vontade e ato do Criador, penetra a esfera do divino e se torna cidadão da terra e do céu. Por isso o homem é o elo entre a vida material, biológica, e a vida espiritual de comunhão com a própria divindade.

Mas essa história de amor e de comunhão com a divindade criadora sofreu reveses logo nos seus primórdios, porque o ser humano, ao tomar consciência da sua superioridade sobre os demais entes criados, rompeu com o Deus criador e perdeu seu estado de paz nas relações com os semelhantes. Ao comerem o fruto proibido para se tornarem iguais a Deus (cf. Gn 3,5), Adão e Eva, arquétipos da humanidade no alvorecer de sua consciência, usaram a liberdade para satisfazer seus desejos de superioridade e, de modo geral, suas paixões, contradizendo as leis do Criador. A fala da serpente — “Mas Deus bem sabe que, no dia em que comerdes o fruto, vossos olhos se abrirão e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal” (cf. Gn 3,5) — representa com propriedade o impulso humano de se deixar conduzir pelas paixões e buscar se igualar a Deus. O mundo dominado pelas paixões humanas passa a construir uma história de dominação, guerras, dores e sofrimento. Por causa do pecado, o ser humano perdeu o elo com a divindade criadora, mas sente dentro de si um anseio de infinitude e de comunhão com o Criador. Sem Deus, o homem sente-se um peregrino na terra, um ser exilado, incompleto, perdido em si mesmo e em contínua busca de plenitude.

A angústia de ser limitada por sua animalidade, contrastando com o sopro da imortalidade, explica por que, em todos os tempos e lugares, a humanidade sempre cultuou algum tipo de divindade. Sem Deus não há plenitude humana. Dessa forma, a conclusão é que a religião não consiste em uma criação social, mas é a resposta ao próprio ser do homem. Escolher esta ou aquela religião é questão de opção, mas ter e praticar algum tipo de credo, dentro ou não de alguma organização religiosa, faz parte do ser do homem. Pelo batismo recuperamos nossa integridade, que só é plena em Deus, na harmonia com os irmãos, em obediência às palavras de Cristo: “Para que haja um só rebanho e um só pastor” (Jo 10,16).

Pelo batismo, abraçamos a religião que nos acolhe. Trata-se de um ato que sinaliza a entrada do batizando na comunidade dos crentes, abraçando a fé praticada por essa comunidade. O próprio termo “religião”, do verbo latino religare, é significativo para expressar o que se passa com o cristão que recebe o batismo. O ser humano que estava afastado de Deus, que se esquecera da imanência divina em sua constituição ontológica, recupera, ao ser batizado, a sua plenitude — só existente na comunhão com o Criador. Jesus chama esse retorno de nascer de novo, pois, sem a comunhão com Deus, não há vida plena.

No batismo não há expulsão do demônio — isso seria exorcismo (até porque acreditamos que nascemos com anjo da guarda, e não com demônio). Nem mesmo nossa natureza dividida entre o bem e o mal se altera com o batismo. O que ocorre, da parte do ser humano, é a conversão e o propósito de lutar pelo bem, renunciando ao mal, a Satanás e às suas obras; e, da parte de Deus, a comunicação da graça santificante, representada pela veste branca na cerimônia batismal. A santidade se dá na dialética entre o bem e o mal, e não na supressão do mal na natureza. O batizando renuncia ao pecado, embora possa pecar; pratica o bem, embora a sua natureza o incite aos devaneios das paixões e aos prazeres do mundo.

 

2.5. Vida nova

O batismo recupera a imagem perdida de Deus no ser humano. Ele nos dá uma vida nova, a vida de Deus em nós e a nossa inserção em Deus — o que não depende da idade com a qual recebemos esse sacramento. Por ele nos tornamos filhos de Deus (cf. Jo 3,1-5) e podemos chamar Deus de Pai (cf. Rm 8,15).

Quando dizemos que o batismo nos faz filhos de Deus pela graça, entendemos que a vida divina volta a circular em nós. É esse o sentido do nascer de novo de que Cristo fala a Nicodemos: “Para entrar no reino dos céus, é preciso nascer de novo. Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no reino de Deus. Quem nasce da carne é carne, e quem nasce do Espírito é espírito” (Jo 3,5-6). Na continuidade da conversa com Nicodemos, Jesus deixa claro que fala da transcendência humana — a vida de Deus em nós, a imanência divina que, por seu sopro, faz de nós, humanos, partícipes da divindade criadora.

A água no batismo tem este duplo sentido: simboliza a necessidade de purificação espiritual e o nascimento para nova vida. Como não há vida sem água, também não há vida espiritual sem Deus. O pecado nos afasta de Deus, produzindo uma cisão de nossa própria personalidade. Ontologicamente somos barro, mas também somos sopro divino. Temos vida biológica em comum com os animais e temos vida espiritual que nos põe em comunhão com Deus. Com a negação do propósito divino e com o afastamento histórico representado no Gênesis pela expulsão do paraíso, perdemos essa vida espiritual, essa comunhão com Deus, que nos vivifica e nos dá a plenitude de nós mesmos. Por isso é preciso renascer pela água e pelo Espírito. A água é a nossa purificação. O Espírito, que nos é comunicado no batismo, garante-nos a recuperação da imanência divina — que permanecia no inconsciente, mas deve se tornar vida em nós. A Bíblia não faz referência ao batismo para apagar a mancha do pecado adâmico — ou pecado original. Essa teoria foi desenvolvida no século IV por Santo Agostinho. As referências a doenças como punição pelo próprio pecado ou pelo pecado de progenitores foram rejeitadas por Cristo (Jo 9,1-3; Lc 13,1-5). O que deve ser acentuado e revigorado na pregação catequética é o sentido do batismo como sinal de conversão e de adesão humana ao reino de Cristo. É o início de uma vida nova que deve ser vivida pelo cristão.

 

2.6. Filhos de Deus e herdeiros das graças divinas

O conceito de Javé no Antigo Testamento era o de um Deus justo, mas extremamente severo. Cada vez que o povo pecava, recebia pesado castigo. Jesus de Nazaré acentua outra imagem de Deus. Anuncia um Deus amor, bondade, perdão, acolhida e sempre presente na vida das pessoas. Resume esses predicados na palavra Pai. Deus é pai que ama seus filhos e vem salvá-los. Jesus quer que todos sejam um com ele, como ele é um com o Pai (Jo 17,21). A oração do pai-nosso põe o ser humano como filho nos braços do Pai. Expressa acolhida e profundo desejo de integração da pessoa com Deus. Da alteridade de Deus no Antigo Testamento surge a imanência do Criador, que faz tenda no coração de suas criaturas e estabelece com elas uma relação de amor. A aliança com o povo se estende agora pelo batismo a cada pessoa individualmente, como diz São Paulo: “Ele nos salvou mediante o batismo, da regeneração e renovação pelo Espírito Santo, que nos foi concedido em profusão por meio de Cristo, nosso salvador” (Tt 3,5). O batismo abre os caminhos das graças divinas postas à disposição da pessoa e sela o desejo humano de nunca perder a relação de amizade com Deus. Para quem já nasce em família cristã, a conversão significa, sobretudo, o propósito de intensificar cada vez mais a relação de amor com o Criador.

Como participantes da história da salvação, unimo-nos a Cristo e ganhamos o direito de compartilhar dos seus méritos por meio dos demais sacramentos. Somos convidados ao banquete celeste, em que ele se faz alimento. Fazer parte do seu Corpo místico é também ser beneficiário das suas graças. Por meio dele chegamos ao Pai: “Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Esse caminho começa com o batismo, em que demonstramos o propósito de renunciar ao pecado e assumir nova existência, vivendo já na terra o reino de Deus, que é amor, paz e entrega a Deus, como diz São Paulo: “Eu já não vivo. É Cristo que vive em mim”. Frase que todo cristão deveria ter a coragem de pronunciar com plena sinceridade e que deveria ser instituída como meta a ser atingida.

Todos nascemos filhos de um mesmo Pai e não há nada que escape ao âmbito de Deus, que está em tudo e em todos. Mas, pelo batismo, tomamos consciência dessa filiação e da presença divina em nós. No Antigo Testamento, a relação com o Criador se baseava na alteridade. Ele criou tudo e dele tudo depende. Contudo, Cristo nos revela que Deus está em nós, que nos ama de maneira incondicional com amor de Pai. Essa relação Pai–filho se estabelece no batismo, por nossos pais e padrinhos ou por nós mesmos, quando manifestamos nosso desejo de viver em Deus como filhos. Ao batizá-los ainda crianças, os pais oferecem os corações dos filhos como sacrário da Santíssima Trindade, o que, certamente, agrada a Deus.

 

3. O batismo de crianças e o exercício da liberdade

A teologia paulina da inserção em Cristo e da salvação justifica o batismo de crianças. Ao nascerem no seio de família cristã, a elas não se aplica o sentido de conversão e penitência por pecados pessoais cometidos (ou pelo pecado original)[1]. A inexistência de pecado anterior não tira o sentido do batismo, visto que ele nos faz membros do Corpo místico de Cristo (cf. 1Cor 12,13) e por ele assumimos nossa relação de amor com Deus. Ou seja, seu sentido vai muito além de perdoar pecados.

Outra razão para a Igreja batizar crianças se encontra nas palavras e no desejo de Cristo: “Deixai vir a mim os pequeninos e não os impeçais, porque o reino de Deus é daqueles que se lhes assemelham” (Mc 10,14; Lc 18,16; Mt 19,14). Além disso, a vida divina na pessoa não está condicionada ao uso da razão e ao livre-arbítrio, mas à pureza e à inocência associadas ao impulso amoroso para Deus, inato no ser humano. Cristo propõe a criança como ideal a ser seguido: “Se não vos tornardes como essas criancinhas, não entrareis no reino dos céus” (Mc 10,15). Os pais manifestam o desejo de que o filho siga a fé professada pela família. Comprometem-se, diante da Igreja, a instruir o batizando na doutrina católica. Nisso não há nenhuma restrição à liberdade, mesmo porque a liberdade de escolha exige conhecimento. Mais tarde, já no uso da razão e na posse do conhecimento, o jovem pode ou não seguir a religião católica. Nas demais Igrejas cristãs o processo é semelhante, embora o batismo seja ministrado na infância ou na adolescência. O jovem é batizado por instrução e orientação dos pais. Orientar para determinado caminho não cerceia a liberdade. O jovem católico é orientado a assumir a fé por meio da crisma, também chamada confirmação, porque nela são renovadas as promessas do batismo. A vivência religiosa e a participação nos sacramentos confirmam o exercício da liberdade. Não se fere a liberdade no batismo de crianças, visto que a vivência da fé é, em si mesma, um ato livre, pois não se pode obrigar alguém a viver determinada fé. Cabe frisar que a Igreja apenas aconselha, não obriga o batismo de crianças. Não é porque os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos só fazem referência ao batismo de adultos convertidos que esse sacramento só deva ser ministrado a adultos. Note-se que os convertidos por Cristo ou por seus apóstolos recebiam imediatamente o batismo. A instrução vinha depois, como ocorre, também, no caso do batismo de crianças. Embora não haja evidência explícita, é provável que toda a família convertida era batizada, e não apenas os adultos.

Para quem já nasce numa família cristã, há pouca diferença, no que diz respeito à sua liberdade, se for batizado com 2 meses ou com 12 anos, pois quem recebe o batismo aos 12 anos é doutrinado e motivado pelos pais tanto quanto o que o recebeu com 2 meses. É normal que as crianças sigam a religião dos pais. A comunidade religiosa é extensão da família, e a participação em ambas é extremamente importante na formação da alma humana, com o objetivo de estabelecer valores e princípios morais e religiosos. A graça atinge o ser humano em estado de pureza, e, nisso, ninguém se encontra mais preparado do que a criança.

Em suma, a entrada no reino de Deus não está condicionada ao uso da razão, mas à conversão para uma nova vida de virtudes, na qual a criança é proposta como modelo. Para aqueles que perderam as virtudes infantis e a comunhão original com Deus, o batismo oferece arrependimento e conversão, como condição necessária para receber a graça batismal. Para a criança, já em estado de inocência e pureza, o batismo significa comunicação da graça santificante e acolhida por parte de Deus e da Igreja. Cada criança é um dom que merece ser posto nos braços do Pai eterno, princípio e fonte da vida.

Não há mal algum na iniciativa dos pais de apresentar seus filhos à Igreja e pedir, em benefício dos filhos, as graças divinas e os dons do Espírito Santo, comprometendo-se, como fiéis depositários da fé, a transmitir-lhes o compromisso de vida e de amor prometido a Deus no batismo. Mais tarde, seus filhos mesmos, por meio do sacramento da crisma, de modo pessoal e consciente, vão assumir o compromisso batismal.



[1] Sobre esse assunto, recomendo meu artigo na revista Grande Sinal, Vozes, ano 59, nov./dez., 2005.

Prof. Antônio Müller