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Publicado em Setembro-Outubro de 1988 (pp. 19-22)

A bíblia e a luta dos trabalhadores

Por Equipe bíblica da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo

1. Desafios bíblicos

Várias ciências muito têm contribuído para a compreensão da Bíblia. Ao enfocarmos o mundo bíblico, interessam-nos as contribuições dadas pela sociologia e antropologia. Os achados dessas ciências nos ajudam a ver a intervenção da Palavra nas condições materiais do mundo antigo e ajudam os trabalhadores cristãos a entenderem que eles são agentes dessa intervenção no mundo de hoje.

O problema socioeconômico que formava o eixo histórico de Israel era, nos pontos fundamentais, o mesmo dos seus vizinhos. Todos, mais cedo ou mais tarde, passaram pelo processo da concentração de terras nas mãos de uma elite, da formação de um governo central, de um sistema de pesados tributos. A terra, tida como patrimônio comum a todos, se tornou suscetível à compra e venda.

O trabalho organizado para atender às necessidades reais do grupo familiar-tribal virou cada vez mais uma atividade para alimentar a política das cortes sediadas em cidades e a gula das elites. O trabalhador livre, que trabalhava para produzir mais vida para sua família-tribo, foi reduzido a trabalhar como arrendatário, empregado, soldado, escravo ou, simplesmente, virou mendigo.

Em Israel, o conflito provocado por este problema foi descrito em termos religiosos devido ao seu peculiar desenvolvimento social. Nenhuma outra evolução sociocultural entronizou um culto de origem nômade-patriarcal sobre as cidades, representantes das correntes comercializantes da história. Essa particularidade estrutural na história dos hebreus fez possível a formulação do conflito entre as forças da tradição nômade-patriarcal e as da corrente “urbanista” em termos de uma rivalidade cúltica (o episódio de Caim e Abel explicita bem esse conflito recordado numa linguagem sociocúltica). Aí está a diferença entre a história bíblica e a história “secular”. Por essa maneira de se expressar e explicar, Israel casou sua compreensão de Deus com o conflito socioeconômico que motorizava sua história. O Deus vivo da Bíblia é o Deus que está envolvido na produção e proteção da vida do seu povo. E ele se faz presente nas ações e palavras dos que defendem as fontes dessa vida contra a sua mercantilização pelas elites. É no conflito social que a vida espiritual acontece e é determinada. A busca de um Deus alheio a essa luta é idolatria. Na verdade as tradições teológicas e as rupturas sociais do Povo de Deus vão se desenvolver em torno dessa questão da presença produtiva de Deus na vida da nação.

Ao chegar o tempo de Jesus, a sociedade judaica estará dividida em partidos socioteológicos, cada qual com sua interpretação sobre como e onde a comunidade nacional pudesse se relacionar com Deus. Essas interpretações são decididas de acordo com a posição socioeconômica dos respectivos grupos: profetas do campo-profetas da cidade, sabedoria do trabalhador-sabedoria da corte, a lei do puro-impuro, a esperança apocalíptico-revolucionária. Todos esses partidos, em grau maior ou menor, tiveram uma política de cumplicidade na compra e venda das fontes de vida da nação. Nem a terra, nem o trabalhador e nem a cultura estavam isentos da lei do mercado. O próprio acesso a Deus era regulado pela lei do puro-impuro. A presença de Deus era comercializada nos sacrifícios do Templo. Tornava-se difícil chegar perto de Deus, ele é “transcendente”. O povo tinha medo de pronunciar o nome Javé. Aquele que se dava gratuitamente na produção da vida da comunidade era, nesse período, o Patrão, o meu Senhor. Vai dar muito trabalho até Jesus restaurar no povo a intimidade com o Deus da vida, o Pai que ajuda no ganhar o pão de cada dia.

Jesus nasceu no meio desse conflito que se tinha alastrado em escala mundial (cf. Lc 2). E se identificou com aqueles que rejeitaram a comercialização das fontes de vida e foram rejeitados pelos mercadores do trabalho do povo. No fim de sua vida ele confirma que a vontade de seu Pai é o assumir do conflito (Lc 22,39-46). Esta foi a regra da sua prática, que rejeitava a cidade até chegar a hora de destruí-la por dentro, rasgando com sua morte a cortina que encobria o sistema de exploração. O seu movimento saiu pela brecha e começou a lutar para recuperar as tradições que antecediam as de compra e venda (At 1-8). Paulo proclama a superioridade do sistema patriarcal sobre o modelo da lei que privatizava a vida espiritual e estatizava Deus (Gl 3,15-29).

Os discípulos militantes que professam a fé em Jesus querem fazer coisas maiores do que o próprio Jesus (Jo 14,11-14): a cidade se tornou um elemento importante na produção de vida, e as fábricas também têm de ser conquistadas. As companheiras precisam libertar-se da vez mais do modelo machista da sociedade para conseguir a reintegração da criatura humana, homem-mulher. Só assim a humanidade terá condições para responder aos desafios postos por Deus de multiplicar a vida e domar o mundo para sustentá-la.

A espiritualidade militante da Pastoral Operária se define em termos de atitude tomada perante esses desafios da vida real. O discípulo não é maior que o mestre. No conflito entre o capital e o trabalho ele assume sua identidade de trabalhador, e luta para produzir vida plena.

 

2. Desafios de hoje

O desafio fundamental que os trabalhadores enfrentam é a luta para criar uma ideologia alternativa que desmascare aquela proposta pelos capitalistas. Ou seja, desmentir a explicação do mundo que justifica a sociedade de exploração que aí está. Portanto, os trabalhadores não procuram uma leitura bíblica fundamentalista, que usa a Bíblia como muleta, tirando dela trechos e passagens daqui e dali para apoiar suas reivindicações imediatas. Não querem uma Bíblia que “dê resultado”. Os militantes cristãos no mundo do trabalho sabem que a história encadernada, em grande parte, foi enroupada a gosto dos exploradores. A Bíblia, também no pluralismo de suas tradições e relações, não está isenta da influência dos interesses das classes dominantes. E é justamente nesse conflito de classes para definir o sentido da história que os membros da Pastoral Operária buscam conhecer o Deus e Pai de Jesus. Por causa da cruz e da ressurreição de Jesus sabem que ele está com os explorados, e procuram uma compreensão da história a partir da “Bíblia dos explorados”.

Desse modo querem resgatar a história da mentira, que o que está aí é o estado natural das coisas, sempre foi assim e terá de ser sempre assim, que é a vontade de Deus. Eles querem compreender a finalidade dessa atividade humana chamada trabalho. Sentem na carne que essa atividade pela qual devem se assimilar a Deus criador está explorada de tal forma que atualmente diminui sua dignidade humana. Vendem a força de seu trabalho no mercado capitalista, mas a recompensa não dá para repor os elementos que compõem sua força de trabalho: comida, casa, saúde, educação etc., para eles e suas famílias; o bolo cresce, mas eles vivem de migalhas.

Sua intuição procura na Bíblia uma linguagem para se explicitar. Nessa busca, a intuição se torna fé. Essa fé, mais do que a certeza de que “as coisas estão erradas”, é a visão de uma outra maneira de trabalhar a natureza e de se relacionar um com o outro. A fé bíblica em Deus e Jesus provoca a fé em si mesma, a certeza de que é sua a tarefa de trabalhar para que essa alternativa se realize na história do mundo (Jo 14,11-14).

Nessa perspectiva, a Bíblia não é uma filosofia de vida, mas sim uma recordação da luta concreta de um povo para produzir e reproduzir sua vida. E que nessa luta Deus se fez presente e conhecido na ação e nos projetos daqueles que defenderam o direito de todos a ter acesso e usufruto das fontes de vida: água, pão etc. Defendendo essa justiça concreta, tentando organizar a sociedade em torno dela, essa gente se tornou Povo de Deus. Um povo cujo julgamento por parte de Deus acontecia na organização da base material de sua vida.

A presença de Deus no meio do povo é exigente e desafiante. O medo que esse povo tem de Deus não é o terror do sagrado, como seus vizinhos. Sabe que os sacrifícios não asseguram a presença dele. Relaciona-se com ele na tentativa de criar uma sociedade em que todos tenham o necessário para viver e trabalhar para reproduzir essa vida. O medo do Povo de Deus é de perder o sentido da história que a presença de Deus lhe proporciona, de perder sua identidade como sujeito de sua história, de cair no velho círculo histórico da exploração da maioria pela minoria. Nos povos vizinhos, alguns apoderaram-se das fontes da vida e dos meios de reproduzi-las. Estes, então, se fizeram chefes, reis, o Estado. Situados, assim, entre o povo e a vida, colocaram-se, também, como médiuns entre o povo e Deus. A violenta exploração do trabalho do povo foi chamada de justiça necessária para garantir a sobrevivência da nação. A vontade do explorador era legitimada como sendo a vontade de Deus! Não é de se estranhar que esses povos tiveram pavor de seus deuses.

Para o militante da Pastoral Operária, o Povo de Deus é um povo revolucionário, porque no conflito socioeconômico descrito acima, ele socializa o domínio e o uso das fontes de vida, garantindo pelas estruturas familiares e tribais a manutenção da lei da solidariedade diante das necessidades de produção da vida. Era uma lei que regia a vida de seus antepassados, Abraão e os outros patriarcas, mas que era impraticável com a crescente exploração do trabalho do povo por parte do Estado. As ações e projetos que dão condições a que os trabalhadores construam a vida da sociedade a partir das necessidades comunitárias (famílias-tribos) são considerados justos, mesmo quando violentos.

Da revolução e conquista de Canaã até o tempo do Novo Testamento, quer dizer, nossos dias, a história do Povo de Deus gira em torno da prática, ou não prática, dessa justiça. O critério para se discernir a presença de Deus e identificar seu povo na história e no fim da história é a derrubada dos poderosos e a restauração das condições de uma vida digna aos explorados. Este é o critério usado pelos profetas, pela Igreja no cântico de Maria, por Estêvão (At 7,1-53), quando ele retirou a monarquia da história de Israel e reafirmou Deus como o Deus da vida (vv. 46-50). Deus é o Javé, aquele que faz a vida acontecer, que estará sempre com os que libertam as forças produtivas, humanas e naturais, das garras dos estancadores de vida, que acumulam para si a saúde, a comida, as escolas, as casas, o pão, o lazer e até a religião, dizimando a força de trabalho da sociedade, condenando-a ao subdesenvolvimento humano. É o critério do próprio Jesus nas bem-aventuranças e em sua definição do sentido da história e do trabalho humano (Mt 25,31-46).

Sob este critério, o trabalhador de fé bíblica compreende a história das sociedades como sendo a luta do homem para produzir e reproduzir sua vida pelo trabalho coletivo. Ele vê na sua própria sociedade a réplica do conflito bíblico que se dá quando uma minoria domina os meios de produção de vida. Ele sabe que Deus quer libertar o homem de tudo que ameaça a sua vida — até da morte. Sua fé o leva a criar consciência de sua subjetividade histórica, de sua solidariedade de classe. Ele crê em coisas que ainda não dá para ver, mas que em sua solidariedade e militância já começaram a acontecer. Na caminhada do “ainda não” para o “já”, ele experimenta o mistério pascal. Abrindo caminho para que todos tenham acesso à vida, ele ousa proclamar não somente a “terra de Deus, terra de irmãos”, mas também “fábrica de irmãos, fábrica de Deus”.

 

Conclusão

Concretamente, o aprofundamento bíblico se dá em encontros de formação bíblica, em retiros de fim de semana. Nas reuniões dos grupos de base, a reflexão da Palavra de Deus ligada ao assunto em pauta é de fundamental importância. É nessas reuniões que se confrontam o particular e a totalidade, a prática e a teoria, o projeto bíblico e a resistência ao projeto, a pastoral e a missão. Através desse método dialético, os grupos de Pastoral Operária apropriam-se de uma mística construída a partir dos conflitos diários enfrentados ao se trabalhar pelo projeto histórico do Reino de Deus. Como já dissemos, não se trata de uma leitura bíblica fundamentalista. Não queremos reconstruir os tempos primitivos. O problema não é retribalizar o mundo. Os militantes sabem que a Bíblia não dá uma receita milagrosa para todos os tempos. O que ela nos ensina é o que deve ser promovido e defendido em todos os tempos se o homem quer estar bem com Deus e o seu próximo. Em vez de retribalizar, a Pastoral Operária trabalha pela democratização e socialização das fontes de vida no campo e na cidade, por exemplo, a reforma agrária e a autogestão das fábricas. A tarefa é superar as resistências de nosso contexto histórico.

Em suas revisões de vida operária, seguindo o método Prática, Teoria, Prática, o membro da Pastoral Operária percebe que a vitória proclamada na ressurreição de Jesus não se torna a verdade pelo simples anúncio do fato, e sim quando ela gera uma nova prática de vida. Ao militar pela solidariedade de classe e transformação social, ele sente o influxo de nova vida abrindo novas alternativas para a sociedade. Igual à experiência da Igreja primitiva, que acreditava na ressurreição de Jesus principalmente por ter sentido sua presença na novidade da prática socioeconômica da comunidade, e não simplesmente por causa do túmulo vazio. No processo de discernimento, o militante reconhece a ressurreição como uma verdade também futura a ser construída. Assim a verdade bíblica o liberta da mera repetição de dogmas corretos, mas ainda inverídicos porque não realizados. A profissão de fé em Jesus envolve o militante na auto comprovação da novidade anunciada por Jesus. Desta forma a prática para superar as resistências da sociedade de exploração capitalista não é simples tática política, mas uma exigência de seu discipulado e sinal de sua esperança na eventualidade do Reino de Deus.

Ao lerem qualquer trecho da Bíblia, os trabalhadores se fazem três perguntas: quem são as pessoas no texto?; onde acontece?; o que acontece?

Os dados coletados são distribuídos em quatro categorias: o econômico; o político; o sociocultural; o ideológico. Nos encontros de formação bíblica e nos retiros usa-se o mesmo esquema que, apesar de simples, é exigente. À medida que se vai adquirindo traquejo no manejo do método, a mensagem bíblica assume outra feição. Ela não deixa de ser o que sempre foi para os cristãos de várias classes sociais. Passa a mostrar também de que lado Deus está e para onde nos levam as opções tomadas na história. E esta é, afinal, a função social dos textos bíblicos.

 

Equipe bíblica da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo