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Publicado em Janeiro-Fevereiro de 2010 (pp. 8-15)

A comunicação do Evangelho de Paulo

Por Pe. Silvio Sassi, ssp

INTRODUÇÃO

Quem é cristão praticante pode, interessando-se pela vida e pelo ensinamento de são Paulo, melhorar a própria fé? Quem não tem fé, mas está disposto a afrontar o problema da fé, pode encontrar na atividade e nas cartas de são Paulo uma ajuda interessante? O estilo de vida de são Paulo, seu pensar e existir, pode ser, também hoje, um exemplo original de fé? Mesmo num contexto totalmente diferente, a forma de são Paulo crer em Cristo pode ser modelo de uma fé fascinante? Entre os inumeráveis pontos de vista dos quais se pode observar a complexa personalidade de são Paulo, é lícito também deter-se sobre “a qualidade da comunicação” que permitiu ao apóstolo descobrir Cristo, a ponto de considerá-lo o único sentido de sua vida e propô-lo com paixão a muitos mediante corajosas viagens missionárias e numerosas cartas.

 

1. “Tornei-me tudo para todos”

A intensidade da comunicação que flui de Cristo para Paulo e deste aos seus ouvintes e leitores pode ser encontrada em alguns trechos de suas cartas.

Ainda que livre em relação a todos, fiz-me o servo de todos, a fim de ganhar o maior número possível. Para os judeus fiz-me como judeu a fim de ganhar os judeus. Para os que estão sujeitos à Lei, fiz-me como se estivesse sujeito à Lei — se bem que não esteja sujeito à Lei —, para ganhar aqueles que estão sujeitos à Lei. Para aqueles que vivem sem a Lei fiz-me como se vivesse sem a Lei — ainda que não viva sem a lei de Deus, pois estou sob a lei de Cristo —, para ganhar aqueles que vivem sem a Lei. Para os fracos, fiz-me fraco, a fim de ganhar os fracos. Tornei-me tudo para todos a fim de salvar alguns a todo custo. E isto tudo eu faço por causa do evangelho, para dele me tornar participante (1Cor 9,19-23).

 

Paulo tornou-se “tudo para todos” na pregação do evangelho. Sua comunicação sobre Cristo compreende, como elemento necessário, a identidade específica de quantos o escutam ou leem. Sua adequação da palavra e da escrita ao público específico ao qual se dirige é componente indispensável para “salvar alguns a qualquer custo”. Uma comunicação somente preocupada com a realização de um dever (por parte de quem formula a mensagem) ou obcecada pelo conteúdo da mensagem a ser transmitida não constitui a comunicação evangelizadora de são Paulo. Não é suficiente ter autoridade para falar, tampouco possuir a integralidade e a pureza de todos os conteúdos a ser ditos; a validade da mensagem de Cristo é proporcional à capacidade de entender de quem escuta ou lê. Para ser compreendido, não basta falar.

Quem aprofunda sua fé ou está em busca da fé pensa e age com sua personalidade e espera encontrar uma ajuda que saiba adequar-se às suas exigências. Se encontrar somente alguém ou alguma coisa que exprime uma fé que parece fazer diminuir os fiéis, tem a impressão de ter entrado em contato com uma ideologia incontestável, com um sistema filosófico exaustivo ou com uma pessoa fanática. Talvez a formulação e a elaboração das verdades de fé sejam argumentadas e expostas com inteligência. Talvez as tomadas de posição práticas sejam consequentes e constantes, mas não permitem à outra pessoa mostrar interesse e prazer em saber mais ou desejar torná-las próprias. Trata-se de uma comunicação muito voltada para si mesma, fruto de uma mentalidade muito defensiva da verdade, vinculada a um agir concreto, agressivo e intolerante em direção ao que seja diferente. Não existe lugar para o outro, carente e titubeante, numa fé que seja somente um sistema de ideias bem organizadas, ritos cada vez mais misteriosos ou regras operativas que não admitem discussão. Quem deseja um aprofundamento ou está em busca quer, em primeiro lugar, uma resposta aos problemas que põe e a como os põe e não a transformação de suas expectativas e perguntas em linguagens que, de fato, não preveem perguntas nascidas no decorrer da história.

Pode-se observar a vida de são Paulo e ler as cartas com o critério que motiva toda sua comunicação: Cristo, morto e ressuscitado, é a salvação para todos. A pregação universal desse “evangelho” deve realizar-se unindo, de forma fecunda, a pessoa de Cristo e a capacidade comunicativa do público que acolhe o anúncio. Para são Paulo, e para a Igreja de todos os tempos, seria um fracasso comunicativo deformar a pessoa de Cristo, mas também seria uma comunicação estéril deformar a identidade do público, pessoas que vivem num contexto cultural bem particular e se interrogam de forma inédita sobre sua fé.

 

2. “Quando sou fraco, então é que sou forte”

São Paulo, a quantos diminuem sua identidade religiosa ou seu encargo de apóstolo de Cristo, num momento de “loucura”, comparando-se a outros, enumera a riqueza de sua fé, judaica e cristã, e as dificuldades em propô-la aos demais:

São hebreus? Também eu. São israelitas? Também eu. São descendentes de Abraão? Também eu. São ministros de Cristo? Como insensato digo: muito mais eu. Muito mais pelas fadigas; muito mais, pelas prisões; infinitamente mais, pelos açoites. Muitas vezes, vi-me em perigo de morte. Dos judeus recebi cinco vezes os quarenta golpes menos um. Três vezes fui flagelado. Uma vez, apedrejado. Três vezes naufraguei. Passei um dia e uma noite em alto-mar. Fiz numerosas viagens. Sofri perigos nos rios, perigos por parte dos ladrões, perigos por parte dos meus irmãos de estirpe, perigos por parte dos gentios, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos por parte dos falsos irmãos. Mais ainda: fadigas e duros trabalhos, numerosas vigílias, fome e sede, múltiplos jejuns, frio e nudez. E isto sem contar o mais: a minha preocupação cotidiana, a solicitude que tenho por todas as Igrejas. Quem fraqueja sem que eu também me sinta fraco? Quem cai sem que eu também fique febril? (2Cor 11,22-29).

 

A esse elenco segue-se a enumeração das visões e das revelações do Senhor (2Cor 12,2-10), das quais são Paulo poderia vangloriar-se para justificar sua profunda fé e a aprovação divina à sua atividade apostólica.

Como conclusão à descrição detalhada de sua identidade, de suas fadigas e das revelações recebidas, são Paulo apresenta a única coisa pela qual deseja gabar-se: “Se é preciso gloriar-se, de minha fraqueza é que me gloriarei” (2Cor 11,30); pois “quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10). “Mas pela graça de Deus sou o que sou: e sua graça a mim dispensada não foi estéril. Ao contrário, trabalhei mais do que todos eles; não eu, mas a graça de Deus que está comigo” (1Cor 15,10).

A comunicação do evangelho em são Paulo é “fraca”, realiza-se em condições que, humanamente falando, podem ser avaliadas como insólitas e insignificantes em comparação ao efeito que almejam alcançar de “salvar alguns a qualquer custo”.

São Paulo comunica o evangelho com uma pregação que não utiliza elaboradas construções mentais ou linguagem refinada; argumentos ou elaboração retórica também não se fazem presentes em sua exposição. Em um contexto cultural onde a comunicação do saber e a proposta da religião são confiadas ao poder de convicção sobre os temas tratados e à utilização de uma linguagem refinada, são Paulo, por escolha, anuncia o Cristo morto e ressuscitado com palavras e discursos simples.

Os judeus pedem sinais, e os gregos andam em busca de sabedoria; nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, que para os judeus é escândalo, para os gentios é loucura, mas, para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus (1Cor 1,22-24).

Eu mesmo, quando fui ter convosco, irmãos, não me apresentei com o prestígio da palavra ou da sabedoria para vos anunciar o mistério de Cristo. Pois não quis saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado. Estive entre vós cheio de fraqueza, receio e tremor; minha palavra e minha pregação nada tinham da persuasiva linguagem de sabedoria, mas eram uma demonstração de Espírito e poder, a fim de que a vossa fé não se baseie sobre a sabedoria dos homens, mas sobre o poder de Deus (1Cor 2,1-5).

 

Outra escolha original expõe Paulo a críticas que põem em dúvida o valor de sua pregação: não querer nenhuma retribuição.

Da mesma forma, o Senhor ordenou àqueles que anunciam o evangelho que vivam do evangelho. Da minha parte, porém, não me vali de nenhum desses direitos […]. Qual é então o meu salário? É que, pregando o evangelho, eu o prego gratuitamente, sem usar dos direitos que a pregação do evangelho me confere. Ainda que livre em relação a todos, fiz-me o servo de todos, a fim de ganhar o maior número possível (1Cor 9,14-15.18-19).

 

Poder-se-iam acrescentar outras escolhas que Paulo faz para garantir ao máximo a eficácia de sua comunicação junto ao público: “Tudo suportamos, para não criar obstáculo ao evangelho de Cristo” (1Cor 9,12).

Aos que desejam aprofundar sua fé e aos que decidem interessar-se por ela, a comunicação da fé nunca se reduz a um conteúdo, privado de seu contexto; o contato com a pessoa de Cristo é mediado por um conjunto comunicativo que inclui, com certeza, conteúdos precisos, mas apresentado de determinada maneira e por pessoas concretas.

Bem consciente de que sua pessoa e as formas de sua pregação podem ter influência sobre a relação que se estabelece entre Cristo morto e ressuscitado e os ouvintes e leitores, o apóstolo escolhe o caminho da “fraqueza”, deixando ao “poder” de Deus o valor e o resultado da incapacidade humana.

A história do cristianismo documenta tanto momentos felizes de uma evangelização que confia na “força da fraqueza” quanto pessoas, épocas, iniciativas eclesiais que apelam à “fraqueza da força”, com resultados, muitas vezes, deploráveis.

Quem se interessa pela fé percebe claramente alguns obstáculos que, nem sempre de forma consciente ou desejada, caracterizam certa comunicação do evangelho.

A experiência da fé não pode ser estimulada a crescer ou nascer quando vem a reboque de uma evangelização que apresenta um Cristo fragmentado, que cria um desequilíbrio ou, de forma excessiva, sublinha somente as verdades da fé, ou os ritos e celebrações, ou os deveres éticos.

Uma comunicação do evangelho viciada por um estilo de vida em plena contradição com o que é anunciado, pela manifestação explícita dos interesses pessoais e de vontade de poder social e cultural, pela busca angustiada de uma proposta de fé com maior motivação na preocupação em criar adeptos mediante a astúcia humana, constitui alguns dos impedimentos para chegar à verdadeira fé.

Escolher a “fraqueza” na comunicação e na recepção do evangelho segundo o exemplo de são Paulo significa considerar a experiência de Cristo como um dom do Espírito, e não o resultado automático de conflitos dialéticos, de uma espiritualidade feita somente de práticas sacramentais e de uma ética de imperativos moralistas.

 

3. “Devemos anunciar o evangelho aos gentios”

O encontro com Cristo ressuscitado no caminho de Damasco é vivido por Paulo como a vocação para uma missão: comunicar o evangelho a quantos não acreditam em Deus. A consciência desse encargo é expressa com clareza: “Quando, porém, aquele que me separou desde o seio materno e me chamou por sua graça houve por bem revelar em mim o seu Filho, para que eu o evangelizasse entre os gentios” (Gl 1,15-16). Deus revela seu Filho, Jesus, a Paulo para que este o comunique aos gentios.

A missão confiada a Paulo constitui uma abertura a novos destinatários: “[…] em virtude da graça que me foi concedida por Deus de ser um ministro de Cristo Jesus para os gentios, a serviço do evangelho de Deus, a fim de que a oblação dos gentios se torne agradável, santificada pelo Espírito Santo” (Rm 15,16). Mas suas fadigas são obra de Cristo: “[…] pois eu não ousaria falar de coisa que Cristo não tivesse realizado por meio de mim para obter a obediência dos gentios em palavras e ações” (Rm 15,18).

A convicção de ter recebido de Deus o encargo de comunicar o evangelho aos gentios influi sobre a compreensão que Paulo tem a respeito dos que eram apóstolos antes dele e sobre a forma particular de realizar a evangelização diante de um público novo.

A obra de Pedro e dos outros apóstolos que viveram com Cristo toma, em Jerusalém, a forma de uma experiência de Cristo morto e ressuscitado em continuidade com a fé e as práticas religiosas hebraicas: é um judeo-cristianismo vivido sobretudo por judeus que se abrem à fé em Cristo.

Alguns cristãos saídos da Palestina, espontaneamente ou obrigados, vivendo em um contexto helenista, dão vida em Antioquia a um cristianismo sensível aos que, sendo judeus da diáspora e, sobretudo, gentios, se convertem a Cristo.

Barnabé, enviado expressamente pelos apóstolos e pelos cristãos de Jerusalém para tomar conhecimento do cristianismo vivido em Antioquia, fica impressionado e logo vai procurar Paulo, que se havia refugiado em sua pátria, a fim de uni-lo à comunidade cristã antioquena, que prega e vive a fé em Cristo com atenção a quantos estão distantes, um pouco ou totalmente, das práticas do judaísmo de Jerusalém.

Evangelizar os gentios não é a mesma coisa que evangelizar os judeus, pois estes provêm de experiências religiosas completamente diversas. A comunidade de Antioquia percebe a grande dificuldade dos gentios convertidos ao cristianismo em assumir tudo o que, primeiramente, o judaísmo incluía para uma vida de fé: circuncisão, prática minuciosa de todos os preceitos da Lei, aceitação da mentalidade particular com a qual foi vivida a fé hebraica durante séculos.

Com a difusão do cristianismo aos gentios, o modo judeu-cristão e o modo antioqueno-helenista de viver se impõem a ponto de tornar necessária uma avaliação radical. São Paulo mesmo nos informa sobre a discussão ocorrida em Jerusalém entre os representantes qualificados daquela comunidade e os enviados pela comunidade antioquena:

Subi em virtude de uma revelação e expus-lhes — em forma reservada aos notáveis — o evangelho que prego entre os gentios, a fim de não correr, nem ter corrido, em vão. […] nada me acrescentaram. Pelo contrário, vendo que a mim fora confiado o evangelho dos incircuncisos como a Pedro dos circuncisos, pois aquele que estava operando em Pedro para a missão dos circuncisos operou também em mim em favor dos gentios […] nós pregaríamos para os gentios e eles para a circuncisão (Gl 2,2-9).

 

Todo trabalho evangelizador de Paulo é marcado pela determinação de permitir também aos pagãos uma experiência particular de Cristo. Trata-se de esforço de comunicação que envolve todo o processo comunicativo: o comunicador e os conteúdos da comunicação em sua integralidade em função da salvação dos destinatários gentios.

Entre os elementos mais visíveis da diversidade pedida está a inutilidade da circuncisão e das práticas minuciosas da Lei:

Atenção! Eu, Paulo, vos digo: se vos fizerdes circuncidar, Cristo de nada vos servirá. Declaro de novo a todo homem que se faz circuncidar: ele está obrigado a observar toda a Lei. Rompestes com Cristo, vós que buscais a justiça na Lei; caístes fora da graça. Nós, com efeito, aguardamos, no Espírito, a esperança da justiça que vem da fé. Pois, em Cristo Jesus, nem a circuncisão tem valor nem a incircuncisão, mas a fé agindo pela caridade (Gl 5,2-6).

 

Aprofundar as escolhas comunicativas feitas por são Paulo, em meio aos conteúdos da fé, para anunciar o evangelho aos gentios é permanente ajuda na história do cristianismo para evitar qualquer enrijecimento ou saudade do passado que possam transformar-se, por analogia, em um confronto dialético parecido com aquele entre judeo-cristianismo e o cristianismo antioqueno. Com a qualidade de sua comunicação evangelizadora, são Paulo apresenta-se em todos os tempos como permanente corretivo ao enfraquecimento ou à ameaça de desaparecimento da universalidade de Cristo.

Para quem deseja cultivar sua fé ou se interessa em descobri-la, é uma consolação saber que, no exemplo de são Paulo, a experiência de Cristo se mostra possível tanto “aos judeus como aos gentios”, que podem ser individuados nas pessoas e nos ambientes culturais e de vida atuais. A identidade de quem quer fazer experiência de Cristo com são Paulo é valorizada a tal ponto, que também a maneira de propor e viver a fé sofre adequada reelaboração e renovação.

 

4. “Levo-os no coração”

“Ai de mim se eu não anunciar o evangelho!” (1Cor 9,16), são Paulo reconhece abertamente; por isso ele exercita não um “trabalho” autônomo, mas cumpre um “encargo” recebido por Deus. A intensidade do encontro com Cristo ressuscitado incide também em sua missão, transformando-a em um testemunho que o envolve — em algo bem diferente de uma obra à parte, assemelhada ao trabalho de um mercenário. A “paixão” em comunicar o evangelho brota da convicção de ter recebido de Deus um dom inesperado; como de surpresa experimentou o Cristo, assim entendeu que o evangelho é destinado a todos numa dimensão de universalidade.

Facilmente se pode encontrar em são Paulo uma comunicação “apaixonada”, não no sentido de fanatismo, mas como envolvimento emotivo de toda a pessoa.

Apresentamo-nos no meio de vós cheios de bondade, como uma mãe que acaricia os seus filhinhos. Tanto bem vos queríamos que desejávamos dar-vos não somente o evangelho de Deus, mas até a própria vida, de tanto amor que vos tínhamos (1Ts 2,7-9); Bem sabeis que exortamos a cada um de vós como um pai exorta a seus filhos, nós vos exortávamos, vos encorajávamos e vos conjurávamos a viver de maneira digna de Deus, que vos chama ao seu reino e à sua glória (1Ts 1,11-12).

Nós, porém, irmãos, privados por um momento de vossa companhia, não de coração, mas só de vista, desejávamos muito vos rever (1Ts 2,17).

E é justo que eu assim pense de todos vós, porque vos tenho no meu coração. […] Deus me é testemunha de que eu vos amo a todos com a ternura de Cristo Jesus (Fl 1,7-8). Não é estreito o lugar que ocupais em nós, mas é em vossos corações que estais na estreiteza. […] Acolhei-nos em vossos corações. A ninguém causamos injúria, a ninguém pervertemos, a ninguém exploramos (2Cor 6,12; 7,2-3).

 

A relação que se estabelece na comunicação do evangelho entre Paulo e os cristãos das várias comunidades por ele fundadas é “afetuosa”: como entre mãe, pai e filhos; como entre pessoas queridas; como quem tem saudade e deseja ver rostos amados.

Essa ternura de Paulo pode surpreender, sobretudo quando se olha para certas representações que o reproduzem sisudo, irritado e punitivo ou quando se leem alguns trechos de suas cartas que parecem drásticos e não abrem espaço para a discussão. “Que preferis? Que eu vos visite com vara ou com amor e em espírito de mansidão?” (1Cor 4,21).

Uma leitura mais global das cartas de são Paulo nos permite reencontrar um estilo de comunicação que cria um laço — diferente de outro que queira somente garantir a “fria” passagem de uma mensagem em sentido único, sem a preocupação “quente” de saber o que o destinatário entende ou faz.

O envolvimento emotivo de Paulo é exemplo para uma comunicação do evangelho que não seja um “trabalho” a ser praticado com profissionalismo ou um “dever” a ser executado contra a vontade. A comunicação “apaixonada”, todavia, não se esgota na manifestação explícita dos sentimentos por parte do pregador do evangelho, mas engloba também os sentimentos manifestados pelos que recebem o anúncio.

A carência de emotividade não sobressai apenas na ausência de expressões afetuosas, mesmo úteis e necessárias, mas se percebe de forma evidente quando a mensagem do evangelizador é somente o espelho dos próprios sentimentos, desejos e vontade. Numa comunicação do evangelho em que não se prevê o destinatário em carne e osso, deste lugar ou neste tempo, faltam as condições para suscitar ou acrescer o interesse por Cristo.

Às vezes, tem-se a impressão de que alguns conteúdos de evangelização tenham sido simplesmente pensados e escritos, “inventando-se” um ouvinte ou um leitor que já não existe ou, de qualquer modo, não é o destinatário que se deseja alcançar ou envolver. Em são Paulo, a evangelização é comunicação “encarnada”, não uma formulação árida da inteligência. A seguinte passagem é esclarecedora: “Cheguei então a Trôade para lá pregar o evangelho de Cristo e, embora o Senhor me tivesse aberto uma porta grande, não tive repouso de espírito, pois não encontrei Tito, meu irmão. Por conseguinte, despedi-me deles e parti para a Macedônia” (2Cor 2,12-13).

Uma comunicação que faz “vibrar” o comunicador, a mensagem e os destinatários é a que provoca uma resposta emotiva do destinatário, se derrama sobre a mensagem e retorna ao mensageiro, criando diálogo integral. É uma pretensão compelir o Espírito, comunicando o evangelho sem envolver os afetos que entram em jogo.

 

5. “Sejam meus imitadores”

Em algumas de suas cartas, são Paulo convida os cristãos das igrejas por ele fundadas a imitá-lo: “Sede meus imitadores, irmãos, e observai os que andam segundo o modelo que tendes em nós” (Fl 3,17). E em outro lugar: “Sede meus imitadores, como eu mesmo o sou de Cristo” (1Cor 11,1). De forma diferente: “Vós vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar das numerosas tribulações; de sorte que vos tornastes modelo para todos os fiéis da Macedônia e da Acaia” (1Ts 1,6).

Aos cristãos, são Paulo indica particular experiência da pessoa de Cristo: não simples “seguimento”, mas “imitação”. Aderir a Cristo não se reduz, de fato, a fazer parte de um grupo que se identifica com suas ideias e projetos, mas envolve uma relação interpessoal sustentada pelo empenho de assemelhar-se a ele em tudo.

O fato de propor-se como exemplo não é presunção, mas uma forma de comunicação do evangelho: imitar são Paulo, que imita Cristo, é imitar o mesmo Cristo. O contato com o Cristo ressuscitado não é direto, mas mediado pela pessoa de Paulo; o encontro entre Paulo e Cristo pode ser observado nas suas consequências, na maneira de pensar e agir do apóstolo: “Pois para mim o viver é Cristo” (Fl 1,21).

Sua mudança radical no viver a fé é posta em relação direta com Cristo; após ter falado de todos os aspectos positivos que tinha como observante da Lei, Paulo afirma: “Mas o que era para mim lucro eu o tive como perda, por amor de Cristo. Mais ainda: tudo eu considero perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele, eu perdi tudo e tudo tenho como esterco, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo a justiça da Lei, mas a justiça que vem de Deus, apoiada na fé” (Fl 3,7-9). Essa polarização na pessoa de Cristo é vivida por Paulo como uma identificação: “Fui crucificado junto com Cristo. Já não sou mais eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Fl 2,19-20).

A identificação de Paulo com Cristo não é uma fusão que despersonaliza, como se fosse um plágio que tira a autonomia da identidade, mas trata-se da assimilação de uma partilha total. São Paulo interpreta a sua vida à luz do acontecimento de Cristo: crucifixão, morte e ressurreição. Comparando-se a um atleta que corre, explica o sentido do seu correr: “Não que eu já o tenha alcançado ou que seja perfeito, mas vou prosseguindo para ver se o alcanço, pois que também já fui alcançado por Cristo Jesus” (Fl 3,12).

A constante fadiga para imitar a Cristo é decorrente da comunicação do evangelho: “Graças sejam dadas a Deus, que por Cristo nos carrega sempre em seu triunfo e, por nós, expande em toda parte o perfume do seu conhecimento. Em verdade, somos para Deus o bom odor de Cristo, entre aqueles que se salvam e aqueles que se perdem” (2Cor 2,14-15). Sendo impregnada do bom odor de Cristo, a comunicação do evangelho realizada por Paulo se expande ao redor como o aroma de um perfume. O método de evangelização de Paulo não é nem a lógica pura, que dobra a inteligência dos outros, nem um hábil discurso enganoso por interesses pessoais, mas se trata de um testemunho comparado a um perfume.

Desde sempre o aprofundamento e a busca da fé encontram uma ajuda particular nas pessoas que são testemunhas viventes dos efeitos do acreditar em Cristo. Com razão, Paulo VI escreve: “O homem contemporâneo escuta com mais gosto testemunhas que mestres ou, se escuta os mestres, é porque se trata de testemunhas” (Evangelii Nuntiandi, 8/12/1975, n. 41).

A história do cristianismo é rica, em cada época, de pessoas de fé que souberam assimilar Cristo com tamanha profundidade, que se transformaram em uma forma bem visível de comunicação da fé. É mais eficaz dar-se conta do significado da fé encontrando pessoas impregnadas de Cristo que mergulhando num tratado de teologia.

Visto que a comunicação da fé por meio do testemunho de quem acredita é desde sempre incluída entre as formas de evangelização, revela-se uma maneira adequada também para a evangelização por meio das tecnologias da comunicação atual. Falar de forma explícita de Cristo por meio do jornalismo, da imprensa, das imagens, dos produtos multimidiáticos e da comunicação em rede pede visibilidade, narração e sintonia com o público.

Usada de forma narrativa, a comunicação da fé, sobretudo com a comunicação midiática, multimidiática e em rede, é, por um lado, para a comunidade dos que acreditam, garantia de que o evangelho se tornou “vida”, encarnando-se na história das pessoas; por outro lado, no universo da comunicação atual, é uma forma de proposta que pode prever maior aceitação por parte do público.

Existe outro ensinamento que pode ser tirado da comunicação do evangelho de são Paulo e convida os cristãos a imitá-lo. Além de propor-se como “imagem viva” de Cristo, o apóstolo, em suas cartas, não faz uma exposição sistemática das verdades e das consequências operativas do acreditar em Cristo. Com habilidade comunicativa, seu método habitual é saber individuar a realidade problemática de uma pessoa ou de uma comunidade cristã e saber interpretá-la com sua experiência de Cristo morto e ressuscitado. Suas cartas, desse modo, mais que um evangelho de afirmações gerais e de sábias sentenças, são uma aplicação dos valores cristãos em cada circunstância. A fé é assim envolvida nas realidades da vida cotidiana; por isso é possível, partindo do episódio concreto, remontar aos grandes ensinamentos e à centralidade da pessoa de Cristo.

Todas as formas de evangelização e qualquer aprofundamento e busca da fé dão fruto se assumem plenamente a vida concreta, sabendo interpretá-la à luz da pessoa de Cristo. Para alcançar resultados úteis, é indispensável saber conjugar, com idêntica competência, a indispensável referência a Cristo e o imprescindível conhecimento das pessoas e dos problemas humanos.

É tarefa dos que acreditam não só falar de forma explícita de Cristo, mas também saber interpretar e expor todo aspecto da vida pessoal e social à luz do evangelho. A comunicação do evangelho por meio do “testemunho de valores” encontra, na participação do debate da opinião pública, a qual se realiza nas várias formas de comunicação atual, um espaço ideal a ser valorizado. Nesse âmbito, a fé cristã não se reduz ao espetáculo de alguma personagem ou a acontecimentos que representam mínima parte da religião, mas se torna uma proposta de interpretação e de solução dos problemas da vida cotidiana à luz de Cristo.

São Paulo, de fato, representa um estilo de vida cristã que compreende um pensar e um agir bem específicos na comunidade cristã do começo; por essa razão, na história da Igreja, esse apóstolo permanece um modelo de referência, sobretudo nos momentos de revisão e de novo impulso da evangelização, quando é preciso responder às mudanças ocorridas nas pessoas e na sociedade. A universalidade da comunicação de Cristo é confiada, de forma complementar, ao serviço da unidade de Pedro e à coragem da diversidade de Paulo.

Quando o bem-aventurado Tiago Alberione (1884-1971) iniciou a Sociedade de São Paulo para, de modo progressivo, evangelizar com a imprensa, com os mass media, com a multimídia e a comunicação em rede, foi fortemente motivado também por uma frase de Dom Wilhem von Ketteler (1811-1877), arcebispo de Magonza: “Se são Paulo voltasse a este mundo, tornar-se-ia jornalista”.

A partir do Concílio Vaticano II (1962-1965), a Igreja manifestou a decidida vontade de viver o programa de são Paulo: “Lanço-me para a frente” (Fl 3,13). “A Igreja católica não é um museu de arqueologia. É a antiga fonte do lugar que dá água às gerações de hoje, como a deu no passado” (João XXIII, 13 de novembro de 1960).

 

Pe. Silvio Sassi, ssp